Renato 2017

Confrade Renato Lima, nascido em 1970, é Vicentino desde 1986. É o 16º Presidente Geral do Conselho Geral Internacional da SSVP (2016/2022).

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Voz de Ozanam
Novembro 2017

Contra as pobrezas, a formação de redes
Temos refletido que a atuação Vicentina a favor dos mais humildes só será, de fato, potencializada, se nossos esforços puderem ser somados com a participação de outras entidades, pessoas, governos, Terceiro Setor, etc. Em outras palavras, as Conferências Vicentinas, sozinhas, até conseguem alcançar alguns objetivos; mas, tais desafios serão efetivamente conquistados se conseguirmos criar, formar e ampliar redes que possam nos auxiliar nessa caminhada.

A formação de redes, por exemplo, é uma maneira diferente de dizer “articulação institucional” em favor da caridade. Nos dicionários, encontramos a definição de formação de redes sociais como uma “estrutura social composta por pessoas ou organizações, conectadas por um ou vários tipos de relações, que compartilham valores e objetivos comuns”. Uma das características fundamentais na definição das redes é a sua abertura filosófica, possibilitando diversos relacionamentos entre os participantes, favorecendo um resultado mais eficaz junto a quem precisa efetivamente da solidariedade.
A formação de redes é, na realidade, uma estratégia de atuação bem eficaz a favor dos necessitados de nossas Conferências e obras. Procurando ampliar ainda mais o alcance das ações vicentinas, e aglutinar os recursos adequados para acelerar o processo de desenvolvimento das comunidades, a SSVP e a Família Vicentina devem convidar as várias instituições e atores presentes a se articularem em uma rede de apoio ao desenvolvimento social.
Como consequência, a formação de redes de apoio ao desenvolvimento comunitário e social deve ser visto como algo dinâmico, que traduza a integração de diferentes segmentos em ações frente às necessidades comuns, implicando num processo de adaptação contínua na busca de atender interesses coletivos. Podem até ser instituições distintas, mas cujos objetivos finais devem se assemelhar aos nossos. E os princípios Vicentinos, que defendem a solidariedade e a caridade, são muito próximos das metas de dezenas de outras instituições, nem sempre religiosas, mas, com a direção do serviço desinteressado.
No âmbito da SSVP, as Obras Especiais (vale a pena consultar os artigos 118 e 119 da Regra brasileira) já são uma alternativa pioneira para a formação de redes, uma vez que ofertam mais serviços aos assistidos. As Obras Especiais somam-se ao esforço das Conferências, e, portanto, são o complemento ideal ao trabalho vicentino. Nelas, podemos executar programas de assistência social, promoção humana, formação para o trabalho, educação infanto-juvenil, atendimento em saúde, complementação escolar, teatro e outras opções culturais, projetos de geração de trabalho e renda, que visem à inclusão no mundo do trabalho. A diversidade de atividades e iniciativas é imensa, contribuindo com a formação integral dos nossos assistidos.
A formação de redes, ao potencializar a ação Vicentina, ajuda-nos a tirar  a solidariedade do mero discurso e transformá-la em ações concretas. Isso só será possível através de uma cultura da solidariedade ativa, efetiva. Por isso, necessitamos de um diálogo permanente com outras entidades que atuam com os mesmos fins, ainda que levemente diferentes do nosso carisma. Essa formação de redes, para agir contra as pobrezas, é fundamental para turbinar a ação Vicentina.
Para tanto, a SSVP e a Família Vicentina precisam mapear todas as instituições solidárias (regionais e nacionais), com suas respectivas descrições e ações, aproximando-se daquelas que tenham mais a ver com o nosso estilo de ser, de agir e de ver o mundo. Essa verdadeira “rede de solidariedade” não é apenas composta de entidades, mas também de pessoas de bem (algumas delas nem católicas são), mas que estão dispostas a ajudar os Vicentinos a ajudar mais a quem precisa.
Nessa relação institucional, os Vicentinos devem identificar pessoas e organizações que se pautem pelos valores da caridade, honestidade, compromisso, solidariedade, autonomia e respeito pela vida e pela dignidade humana na perspectiva da responsabilidade social. E é claro, não podemos deixar que nosso nome seja usado politicamente por outras entidades que nos procuram com falsos interesses. Assim, na formação de redes, devemos nos atentar para combater qualquer tipo de utilização política partidária das ações vicentinas.
Não podemos nos esquecer da formação de redes virtuais para potencializar a prática da caridade, obter novas adesões e doações. A captação de recursos por intermédio das plataformas digitais (em inglês “crowdfunding”) é outra realidade que poderia ser adotada pela Família Vicentina. Mas esse tema será tratado noutra ocasião.
Cfd. Renato Lima
Renato Lima
16º Presidente Geral da SSVP

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Presidente Geral viaja a 4 países nas próximas duas semanas
O confrade Renato Lima de Oliveira, 16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo, estará visitando quatro países nas próximas duas semanas.
Nos dias 10 e 11 de junho de 2017, o presidente estará na cidade do Porto, Portugal, participando de uma Assembleia do Conselho Central. 

Entre os dias 12 e 19 de junho de 2017, Renato estará em Paris, participando da Plenária Anual do Conselho Geral. No dia 19, despachará na sede.
Entre os dias 20 e 23 de junho de 2017, o confrade Renato estará em Quebec, Canadá, participando das festividades dos 150 anos da SSVP no Canadá.
Nos dias 24 e 25 de junho de 2017, o presidente geral estará no Panamá, para participar de uma reunião de organização da Jornada Mundial da Juventude, que acontece na Cidade do Panamá em janeiro de 2019.
Pedimos as orações de todos os vicentinos pelo êxito dessas visitas institucionais do confrade Renato Lima.

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Paris, 31 de janeiro de 2018.

CARTA-CIRCULAR AOS MEUS QUERIDOS CONFRADES E ÀS  MINHAS QUERIDAS CONSÓCIAS, MEMBROS DAS CONFERÊNCIAS  DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO PELO MUNDO

2018 – Ano Temático Internacional de François Lallier

1. Introdução

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Meus queridos confrades, minhas queridas consócias, amados aspirantes, funcionários das nossas sedes e obras, estimados colaboradores e voluntários, amigos dos Vicentinos. Com alegria, dirijo-vos a segunda Carta-Circular deste mandato, desejando que essas linhas cheguem, com revigorada esperança, às Conferências Vicentinas dos 152 Conselhos Superiores em que a Sociedade de São Vicente de Paulo está presente.

Inicialmente, quero registrar meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que têm apoiado as ações e iniciativas globais do Conselho Geral Internacional. Nesses primeiros meses de gestão [1], pudemos avançar bastante, na direção de uma Sociedade mais eficiente, mais dinâmica, renovada e mais moderna, sem jamais perder de vista as nossas raízes e características.

Agradeço, de coração, o apoio que temos recebido dos Conselhos Superiores, e pelas orações que os Vicentinos de todo o Planeta têm feito pela diretoria internacional. É por essa razão que temos sido abençoados nessa caminhada vicentina, sempre a favor dos mais necessitados. Mais que velocidade, precisamos estar na direção certa, e o feedback que temos recebido dos países nos indicam que, realmente, estamos no caminho correto, avançando e mantendo as conquistas dos mandatos anteriores.

Como é do conhecimento de todos, as Cartas-Circulares tiveram início em 1841, quando o 1º Presidente Geral, Emmanuel Joseph Bailly de Surcy, teve a genial ideia de escrevê-la. Desde então, os sucessivos Presidentes Gerais têm lançado mão desse fantástico meio de comunicação, na qual o Presidente conversa, franca e diretamente, com os todos Vicentinos do mundo. Recorro a esta importante ferramenta, novamente.

Na Carta-Circular de 2017, foi criado um e-mail específico (cgi.O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.) para receber comentários e sugestões as quais serão, de alguma maneira, abordadas no texto deste ano. Continuamos editando a Carta-Circular em sete idiomas (francês, inglês, espanhol, português, mandarim, árabe e italiano), agradecendo aos demais países que têm traduzido o texto para outros dialetos e línguas.

É desejo deste Presidente Geral que a Carta-Circular possa ser lida e meditada nas reuniões das Conferências e dos Conselhos, em todos os escalões da nossa entidade. Sugere-se que a Carta seja dividida em duas ou três partes, e meditada calmamente pela comunidade Vicentina mundial. Agradeço-vos pela meditação e debate da Carta em seus grupos.

2. Expediente do Conselho Geral

No primeiro ano de nosso mandato, pusemos em marcha o planejamento estratégico apresentado por ocasião do processo eleitoral. Compilamos o planejamento em 10 tópicos, e, a partir de agora, cada item terá metas e responsáveis específicos, que cuidarão de importantes objetivos estratégicos até 2022, quando encerraremos essa gestão.

Aproveito a oportunidade para anunciar-vos o texto da nova visão da Sociedade de São Vicente de Paulo: “Ser reconhecida como uma organização mundial que promove a dignidade integral dos mais necessitados”. A missão da nossa instituição ficou mais clara: “uma rede de amigos, buscando a santificação por meio do serviço ao necessitado e da defesa da justiça social”. Nossos valores são: serviço, espiritualidade, humildade, caridade e empatia. Agradecemos a todos os Vicentinos do mundo que enviaram quase 5.000 contribuições, pela internet, ao aprimoramento dos conceitos de visão, missão [2] e valores que submetemos à consulta pública internacional democrática. Todos vocês são autores desse trabalho. Parabéns e muito obrigado!

Além do planejamento estratégico, estamos levando a cabo uma série de programas e ideias, como o “Projeto SSVP Plus”, que consiste em levar a SSVP aos cerca de 60 países em que ela ainda não está presente. Também foi criado o Fundo Internacional de Solidariedade (FIS), que tem por objetivo ajudar regiões do Planeta afetadas por desastres naturais e projetos sociais. Destaco, ainda, entre tantos aspectos positivos, a criação da Ouvidoria-Geral Internacional, que vem tratando inúmeros casos que não foram adequadamente resolvidos na esfera nacional. A respeito da Ouvidoria, percebemos que a maioria dos casos que chegaram até nós foram por causa da inabilidade de as pessoas buscarem uma solução harmônica, sem vencedores nem perdedores, mas em que a Sociedade de São Vicente de Paulo fosse sempre a mais beneficiada.

Faço aqui um registro muito importante: a Estrutura é o coração do Conselho Geral Internacional. Por ela, todos os departamentos, assessorias e comissões oferecem serviços, recursos e projetos para toda a Sociedade de São Vicente de Paulo pelo mundo inteiro. A Estrutura é o Conselho em movimento. A Estrutura é, atualmente, formada pelas 12 Vice-presidências Territoriais Internacionais, com o auxílio de 23 Coordenadores de Zona. Essa equipe de serviço, formada por vicentinos dos cinco continentes, colabora com os trabalhos do Presidente Geral e da diretoria internacional, como nos ensina a Regra. O Presidente Geral não conseguiria, por limitações óbvias, estar presencialmente em todos os lugares ou visitar a totalidade dos 152 Conselhos Superiores em que a SSVP se encontra; mas os membros da Estrutura o podem! A Estrutura é a engrenagem que faz o CGI funcionar bem, mirar o futuro e aportar mais serviços. Diante de todos esses argumentos, fortalecer e valorizar a Estrutura Internacional do CGI é uma decisão estratégica para que a SSVP cresça e se desenvolva, em todo o mundo. Por isso, o Conselho Geral acaba de firmar um seguro de viagem coletivo para todos aqueles que servem na Estrutura.

A transparência que o Conselho Geral vem dando com a transmissão, ao vivo, das principais reuniões internacionais, o novo boletim “Ozanam Network”, as transmissões da Ozanam TV e a agilidade das redes sociais são outro aspecto que merece destaque. Estou muito feliz pelo “clube de tradutores” que estamos criando, formado por Vicentinos de todo mundo que estão, voluntariamente, colaborando com o CGI nas traduções de textos, notícias e relatórios que são publicados na webpage (www.ssvpglobal.org), cuja nova apresentação será lançada no primeiro semestre deste ano. Os custos de tradução são muito elevados e qualquer redução nos gastos é bem-vinda! Recomendamos que todos os Vicentinos do mundo acessem, regularmente, a webpage do Conselho Geral para ficarem bem informados sobre os trabalhos em marcha.

As doações regulares e generosas (em qualquer valor) feitas pelos Conselhos Superiores ao Conselho Geral permitem que uma série de iniciativas da Comissão Internacional de Ajuda e Desenvolvimento (CIAD) e do Departamento de Ajuda Fraterna Internacional (jumelage) possam ser implementadas. Faço aqui um apelo especial aos Conselhos Superiores (bem como aos Conselhos Metropolitanos, Regionais, Centrais e Particulares), que eventualmente tenham sobras de recursos, que também possam direcionar parte de suas receitas para ajudar os irmãos que sofrem, além-fronteiras. Também agradeço aos países que fazem parte do “Concordato” (Conselhos que efetuam doações fixas anuais ao Conselho Geral) por manter o CGI em pleno funcionamento.

Nesses primeiros meses de trabalho, a estrutura internacional do Conselho Geral visitou dezenas de países, participando de cerimônias de posse ou de grandes eventos e assembleias nacionais. Eu mesmo, como Presidente Geral, visitei 16 países, levando a mensagem de paz, de unidade e de fraternidade a todos os Vicentinos do mundo. A unidade é o aspecto mais importante na missão do Presidente Geral, desde os primórdios da SSVP, quando os presidentes gerais já se preocupavam com esse aspecto. Agradecemos aos Conselhos Superiores que nos convidaram, e também pela divisão dos custos de hospedagem e alimentação. Como é do vosso conhecimento, não sou aposentado e, desta forma, viagens internacionais não são fáceis para mim. Por isso, agradeço pela compreensão e pelo apoio incondicional que recebo. Nem sempre posso permanecer muitos dias num mesmo país, pois, meu tempo de férias pessoais ou licenças profissionais é limitado e prefiro alcançar um número mais elevado de nações em curto espaço de tempo. Em 2018, visitarei, se Deus quiser, seis países africanos, continente no qual a SSVP mais cresce.

Nas visitas institucionais que fiz, pude perceber que a SSVP vem fazendo um trabalho brilhante em muitas partes do globo. Diziam a mim que o Presidente Geral vinha para ensinar, mas, eu vos garanto que o Presidente Geral é quem mais aprende quando viaja. A SSVP, por todo o mundo, goza de elevada reputação e credibilidade, perante a Igreja e os governos; portanto, pude ver de perto a qualidade do trabalho de caridade realizado pelo mundo, e com orgulho vos agradeço por tamanha dedicação, amor e fraternidade. Pode mudar a língua, podem mudar os costumes, pode mudar a cultura, pode mudar a realidade local, mas o Vicentino e o trabalho de caridade são os mesmos.

Por outro lado, também vi situações não recomendadas [3], como disputas, falta de diálogo, conflitos por patrimônio, falta de caridade entre os membros, dificuldades de relacionamento com o clero, entesouramento de recursos, inveja e vaidade, ingratidão, falhas na formação vicentina, ruídos de comunicação interpessoal, problemas em Conferências e Conselhos, resistências pessoais e divergências de opiniões, entre outros temas que, lamentavelmente, me entristeceram. As misérias humanas também afligem a nossa SSVP. Para afastarmo-nos desses males, precisamos rezar mais, reciclar nossos conhecimentos nas oportunidades de formação que nos são oferecidas, e buscar a conciliação entre nós. Apesar disso, os aspectos positivos superam imensamente os temas desfavoráveis, e graças a Deus nossa instituição avança, apesar das adversidades. A Ouvidoria-Geral, por exemplo, tem ajudado sobremaneira na pacificação de vários casos pelo mundo. Em todas essas situações, sempre reafirmo que a busca da santidade é que vai nos levar ao Paraíso, não só nos céus, mas também aqui na Terra.

Estamos dando um ritmo novo no estabelecimento de acordos de cooperação internacional, além de outros convênios e parcerias, com entidades que desenvolvem um trabalho filantrópico semelhante ao nosso, contribuindo com a redução da miséria material e espiritual no mundo. Este ano, estaremos assinando acordo com a Ordem Soberana de Malta para o compartilhamento de experiências em projetos que atendam a crianças, jovens, mulheres em situação de risco, idosos e refugiados. Todos nós ganharemos com esses acordos.

Na área da juventude, só temos alegrias. Foi instituído o dia 4 de julho de 2017 como o DIA INTERNACIONAL DO JOVEM DA SSVP, e estamos organizando, para junho de 2018, o 2º Encontro Internacional da Juventude da SSVP, em Salamanca (Espanha), quando iremos reunir jovens dos 152 Conselhos Superiores. Parabenizo os Conselhos que já nomearam seus delegados nacionais de crianças, adolescentes e juventude, para alavancar esse importante setor dentro da organização Vicentina. Minha gratidão aos países que têm sido extremamente generosos no pagamento das despesas aéreas de jovens de nações que não têm condições econômicas de arcar com esse investimento. Meu ingresso na SSVP se deu no movimento da juventude vicentina[4], quando aos 16 anos comecei a dar os primeiros passos nas lides da caridade. Portanto, vós podeis esperar muito de um Presidente Geral que tem suas origens na juventude!

E sobre a canonização de Antônio Frederico Ozanam, é prioridade da atual diretoria localizar novos casos de possíveis milagres, por todo o mundo, e instruir esse processos de tal maneira que o Vaticano possa decidir com base nas regras da Congregação para a Causa dos Santos. Nossa equipe do Departamento de Canonização, e eu próprio, estamos muito empenhados e esperançosos de que a canonização está próxima, diante da força dos casos em estudo e das orações de todos os devotos de Ozanam[5] pelo planeta. Sinto isso em meu coração! Em outubro passado, tive a alegria de entregar nas mãos de Sua Santidade, o Papa Francisco, um dossiê com informações a respeito da canonização do confrade Ozanam, citando os casos de supostos milagres em análise pela Santa Sé.

Por fim, ressalto que o Conselho Geral lançou, no ano passado, a Medalha “Caridade na Esperança”, uma iniciativa que visa reconhecer entidades ou personalidades internacionais que desenvolvam trabalhos semelhantes aos da SSVP, pelo mundo. Cada Conselho Superior poderá indicar uma pessoa ou instituição, e a premiação acontecerá em junho deste ano, em Salamanca. A medalha é uma maneira de ampliar o relacionamento institucional da SSVP com todos aqueles que procuram construir um mundo melhor aqui na Terra, como nos pediu Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muitos êxitos foram alcançados. Mas, nada disso seria realidade sem o desejo supremo da Providência Divina, pois é o Senhor quem nos governa e é Ele quem decide nosso futuro[6]. Continuo a pedir-vos as vossas orações pelo êxito de todas essas iniciativas. Que o Senhor nos cumule de bênçãos para que sigamos adiante, com criatividade e inovação, servindo na esperança.

3. Recomendações aos Vicentinos

Pode ser que alguns Vicentinos se surpreendam com o que eu vou dizer-vos, mas, na minha ótica, o Conselho mais importante, em toda a estrutura de serviço da SSVP, é o Conselho Particular, também chamado, em alguns países, de Conselho de Zona, Conselho Distrital, Conselho de Área ou ainda Conselho Regional. Em resumo, estou a me referir ao conselho mais próximo das Conferências, pois, é ele que reúne as Conferências de uma determinada localidade. É dele a responsabilidade da coordenação da ação vicentina. Cabe ao Conselho Particular zelar pelo bom andamento da Sociedade de São Vicente de Paulo em nível local.

Nesta mesma linha, o dirigente Vicentino mais importante, em toda a estrutura organizacional da nossa entidade, é o presidente do Conselho Particular. De todo o meu coração, dirijo uma mensagem muito especial, do Presidente Geral para os meus queridos presidentes de Conselho Particular: acompanhem, de perto, os trabalhos das Conferências de sua região, pois vocês são os responsáveis pelo desenvolvimento da nossa instituição. Jamais permitam o fechamento de Conferências sem esgotar todas as opções administrativas. E também orientem as Conferências no sentido de que estas possuam uma quantidade adequada de membros (em alguns países, temos verificado um número excessivo de confrades e consócias na mesma Conferência, o que não contribui para que o trabalho de caridade seja eficiente). Apoiem os presidentes das Conferências, pois estes dependem de vocês. Sigam os exemplos dos nossos fundadores.

Da mesma maneira, aproveito para discorrer sobre o papel primordial dos presidentes de Conferência, cuja liderança[7] depende todo o trabalho do grupo, as ações de caridade junto aos assistidos, o relacionamento com a Igreja e a interação dentro da estrutura da SSVP. Um bom presidente de Conferência é aquele que abre portas, que não julga, não exclui, que faz de tudo para incluir os membros no processo decisório, que cuida da saúde dos seus membros, que se preocupa com a vida pessoal dos confrades e consócias. Os presidentes que agem assim estão cultivando a harmonia no seio da Conferência e afugentando os problemas. Já ocupei o nobre encargo de presidente de Conferência na cidade em que vivo, e posso assegurar-vos que foi uma experiência maravilhosa. Foi um tempo de oração, de conciliação, de harmonia, de tolerância, de paciência e de aprendizado. Desejo a todos que possam ter a alegria de passar pela função de presidente de Conferência, servindo aos irmãos necessitados e aos irmãos Vicentinos.

Boa parte dos conflitos existentes no seio da SSVP têm a ver com a falta de preparo dos nossos presidentes de Conferência e de Conselho Particular para resolver as demandas que envolvem contendas entre Vicentinos, com a Igreja ou com outros segmentos. Os presidentes precisam estar permanentemente capacitados em temas como gestão de crises, atuação institucional, relações pessoais, gestão de relacionamento, ética e convivência social, pois tais conteúdos auxiliam bastante na forma de dirimir os problemas. Muito mais que dominar assuntos relacionados à Regra e à biografia dos nossos fundadores, os dirigentes precisam desse tipo de capacitação humana. Percebemos que, onde os dirigentes estão adequadamente preparados, os problemas são resolvidos mais rapidamente e sem perdas. Por outro lado, onde os dirigentes não possuem tais qualidades, os problemas tendem a crescer e a multiplicar-se, gerando danos à imagem da SSVP e provocando baixas nos nossos quadros, o que não é o desejo de ninguém, nem do Presidente Geral. O diálogo, a cordialidade e a cortesia são características fundamentais no trato entre as pessoas, e isso não deveria ser diferente entre os Vicentinos. Evitemos conflitos desnecessários, é o que vos peço de coração. Busquem a concórdia e a união, por meio da oração, da virtude de humildade e da vivência dos sacramentos.

Também vale a pena mencionar a questão da visita domiciliar[8], que consiste na principal atividade da SSVP pelo mundo conforme nos ensinaram nossos fundadores. É verdade que a visita não é a única atividade Vicentina, mas, de acordo com nossos fundadores, ela é a principal e mais aderente ao espírito primitivo de nossa organização. As Conferências que executam a visita domiciliar devem se esforçar para mantê-la regular e sem descontinuidade, uma vez que as pessoas necessitadas precisam muito da mão amiga Vicentina, não somente por conta das doações de bens materiais, mas pelo aconselhamento moral e espiritual que lhes é dado. Sigam firmes e não esmoreçam quando, supostamente, as visitas não estiverem atingindo os resultados esperados. Deus está do nosso lado, e Ele está transformando os corações de quem recebe a visita Vicentina, mesmo quando não o percebemos.

Da mesma forma, rogo que as reuniões das Conferências não sofram interrupções. Eu mesmo, como Presidente Geral, frequento as reuniões da Conferência da qual faço parte. Todo dirigente Vicentino, não importando de qual escalão ou nível hierárquico, não está desobrigado de comparecer às reuniões. É na Conferência que os membros buscam a santificação pessoal, no contato com os outros membros, na coleta generosa e no desapego do próprio parecer[9] durante o processo de tomada de decisões. Percebi, após a visita a alguns países, que algumas Conferências têm se reunido fora dos princípios previstos na Regra, argumentando que a vida moderna cria empecilhos. Mas garanto-vos que a reunião semanal (ou quinzenal, segundo cada realidade nacional) é fundamental para assegurar a vitalidade da SSVP e a eficiência da ação junto aos que sofrem. Não abram mão das nossas origens, pois, isso garante que o formato idealizado por nossos fundadores não será alterado.

É preciso que a forma de agir das nossas Conferências se renove e se modernize[10]. Práticas tradicionais antigas nem sempre produzem os melhores resultados e não ajudam a enfrentar os problemas relacionados às diferentes formas de pobreza da atualidade, como a falta de educação, o desemprego e os problemas de saúde pública. É preciso adotar um novo olhar. É verdade que a pobreza material precisa ser debelada, mas, não podemos relegar, a segundo plano, as ações em busca da mitigação da pobreza espiritual[11], que talvez seja o trabalho mais difícil a ser empreendido pelas Conferências. Nem sempre nossos grupos estão preparados para tamanho desafio! Seguramente, a falta de Cristo é a maior das pobrezas[12], e, portanto, os membros de nossas Conferências, por todo o mundo, precisam estar abertos a novas ideias, ampliando a nossa rede de relacionamentos buscando parcerias estratégicas, em prol dos pobres que assistimos. Eventos de cunho espiritual e familiar são iniciativas que podem efetivamente contribuir para atingir essa meta.

Uma pergunta que me é feita em quase todos os continentes que visito é como recrutar e manter o jovem na SSVP. Não há uma “receita pronta” para esse imenso desafio, mas, algumas pistas podemos mencionar. Todos nós sabemos que os jovens estão ingressando mais tardiamente na SSVP, após resolverem aspectos em suas vidas pessoais, como casamento, filhos, emprego e casa própria. Tal comportamento é natural, e devemos aceitá-lo com naturalidade. Primeiramente, temos que apresentar a figura de Ozanam[13] como modelo de jovem, e mostrar que ele cresceu na vida pessoal e profissional simultaneamente à edificação na fé e na Igreja. Segundo, vale ressaltar que o jovem somente permanecerá na Conferência se oferecermos a ele um ambiente favorável para o desenvolvimento das virtudes Vicentinas. Se o jovem não encontrar esse clima propício e acolhedor, dificilmente permanecerá conosco. Por isso, zelemos para que as Conferências sejam lugares santos[14], agradáveis, alegres, motivadores, harmoniosos e, acima de tudo, joviais.

4. Ano Temático Internacional de François Lallier – 2018

Na condição de 16º Presidente Geral, hoje anuncio-vos que 2018 é o ANO TEMÁTICO INTERNACIONAL DE FRANÇOIS LALLIER. No dia 8 de fevereiro de 2018, o Conselho Geral Internacional vai lançar o Concurso Internacional de Monografias “A Primeira Conferência – Lallier”, para estudar a biografia de François Lallier, um dos principais responsáveis pela fundação colegiada da Sociedade de São Vicente de Paulo, em 1833. Serão premiados os trabalhos acadêmicos que busquem apresentar aspectos ainda pouco conhecidos sobre a vida pessoal, profissional, Vicentina e familiar de Lallier.

François Lallier (1814-1886) estudou com Ozanam na Faculdade de Direito na Sorbonne. Eles foram amigos muito próximos, sendo, inclusive, padrinho de batismo de Marie Josephine Ozanam, a filha de Ozanam. Casou-se em 1839, e foi pai de um filho (Henry), mas, sofreu a dor de perder a filha Julie.

Lallier foi um dos mais ativos durante os debates nas Conferências de História, e muito atuante também em todas as etapas de fundação da Sociedade. Advogado competente, depois juiz de Direito, François Lallier era reconhecido pelo uso culto da linguagem e teve o privilégio de minutar a primeira Regra, em 1835. Em 1837, foi nomeado Secretário-Geral da Sociedade, encarregado de redigir circulares e cartas. Ele foi o fundador mais jovem, e um dos que morreu com idade mais avançada. Foi testemunha viva de inúmeros acontecimentos envolvendo aquela entidade nascente.

Na SSVP, Lallier foi um dos grandes responsáveis pelo aconselhamento às Conferências e nas tratativas de expansão para outras nações, sempre preocupado com as origens da instituição. Fundou muitas Conferências. Além de trabalhar com os pobres, Lallier tinha um interesse ativo em arqueologia, vindo a participar da Sociedade de Arqueologia da cidade de Sens, França. Preparou relatórios sobre suas descobertas e participou de convenções arqueológicas, além de publicar vários estudos sociais e políticos. 

Um dos trabalhos mais destacados de Lallier foi escrever, em 1879, a pedido do 3º Presidente Geral, Adolphe Baudon, o livreto “Origens da Sociedade de São Vicente de Paulo, de acordo com as recordações dos seus primeiros membros”, ocasião em que ele reuniu-se com os fundadores vivos àquela altura (Le Taillandier, Lamache e Devaux) para elaborar tal documento, que foi publicado em 1882 e que se encontra na biblioteca do Conselho Geral para consulta.

Diante dessa rica biografia, o Conselho Geral Internacional crê que o Concurso Internacional de Monografias “A Primeira Conferência – Lallier” será um estrondoso sucesso, ainda como foi o Ano de Bailly (2017), cujos prêmios foram concedidos a Vicentinos de várias partes do mundo. É justamente isso o que desejamos: conhecer mais e melhor a vida e obra de nossos fundadores, suas qualidades, virtudes e imperfeições, pois, eles forjaram o DNA da nossa entidade, e nós carregamos o sangue deles em nossas veias.

Conforme regulamento específico que será disponibilizado no site do CGI nas próximas semanas, mantendo-se as linhas gerais utilizadas no concurso de 2017, serão concedidos prêmios em dinheiro[15], tanto para os autores vencedores como para as Conferências em que eles atuam. Temos a certeza de que os trabalhos acadêmicos sobre Lallier serão igualmente ricos aos de Bailly, apresentando curiosidades e particularidades da vida deste homem tão importante para a história da SSVP.

Convido a todos os Conselhos Superiores que publiquem artigos e reflexões focadas no papel preponderante de François Lallier no processo de fundação da SSVP, estimulando o estudo de sua vida e obra, nos aspectos pessoais, profissionais, acadêmicos e Vicentinos, contribuindo com o Conselho Geral na implantação do Ano Temático Internacional de 2018.

Solicito, ainda, que no dia 8 de dezembro de 2018, data de encerramento do “Ano Temático Internacional de François Lallier”, que sejam celebradas santas missas, em todo o mundo, pela intenção dos fundadores da SSVP, especialmente pela memória de François Lallier.

5. Conclusão

Queridas vicentinas e queridos vicentinos,

O mundo, hoje, vive imensos desafios – boa parte deles de cunho moral e espiritual – que nos são apresentados, diariamente. As Conferências, os Conselhos e nossas obras Vicentinas estão sempre a lutar para oferecer uma assistência amorosa, fraterna e solidária, levando esperança aos sem esperança, amor aos abandonados e carinho aos que foram excluídos da sociedade. Jovens, crianças, enfermos, idosos, pessoas solitárias, imigrantes, refugiados, famílias expulsas pelas guerras, pessoas em depressão ou que fazem uso de drogas, todos são alvo da assistência vicentina. Nenhuma obra de caridade é estranha à ação vicentina[16].

Temos que nos manter unidos e vigilantes nesse papel humanitário e social. A SSVP se une a todas as entidades beneméritas na construção da cultura da paz[17], que busca a harmonia entre os povos e a qualidade de vida para todos. Contudo, a sociedade civil, cada vez mais distante de Deus e das coisas sagradas, impõem-nos em ambiente desfavorável e até mesmo inóspito para a prática da caridade. Em muitas partes do mundo, entidades beneficentes são expulsas por decisões míopes de certas autoridades. A violência urbana em grande parte de nossas cidades, a intolerância religiosa, a forte tensão bélica entre os países e os movimentos separatistas são outros aspectos que contribuem para dar mais instabilidade ao mundo.

Mas Deus, nosso Senhor, não nos abandonará, até nos momentos mais difíceis, pois Ele sabe que nós fazemos parte do “exército santo da caridade”, estabelecido por Ele mesmo no sentido de proclamar a mensagem de Jesus Cristo em todos os cantos da Terra, ajudando a quem precisa, qualquer que seja a necessidade.

É nesse mundo, complexo e antirreligioso, insensível ao sofrimento humano, destruidor do meio ambiente, cujo materialismo ateu é refratário ao sagrado e pouco dado à família, que as Conferências Vicentinas estão inseridas. Portanto, sigam unidos, atentos, conectados e obstinados na missão histórica e profética da Sociedade de São Vicente de Paulo, assim como nos legaram os nossos fundadores. A Divina Providência nos auxiliará, e reverterá as dificuldades enfrentadas. Tenham fé, força e coragem para seguir em frente!

Peço-vos que me acompanhem na seguinte reflexão: de que me adianta viver bem se meu irmão, ao meu lado, sofre e precisa de tudo? É uma “falsa alegria”, um “falso contentamento”. Essa postura indiferente vai cobrar caro, já está cobrando caro, com o aumento dos índices de violência, a intolerância, a desagregação familiar, as drogas e a desesperança social. É urgente que todas as esferas envolvidas (governos, parlamentos, empresários, religiosos, etc) unam esforços no sentido de oferecer respostas efetivas a esses males que assolam grande parte dos nossos irmãos.

Por isso, eu sempre digo que “ser vicentino é fazer as pessoas felizes”[18]. O Vicentino é um eterno abençoado. É um missionário vocacionado, por natureza. Dedicado às causas altruístas. Discreto e sensível em estender a mão amiga a quem dela precisa. Possui amigos em todas as partes do mundo. Defensor da família e dos valores do Evangelho. Pessoa de fé, católico praticante e apoiador da Igreja. Pessoa de oração e de ação. Sempre disponível e solidário. Criativo e inovador. Propagador da cultura da paz.

Amante da justiça e inconformado com as injustiças sociais. Difusor da Doutrina Social da Igreja. Focado no próximo, focado no outro. Voluntário por natureza. Educador de mão cheia. Comprometido com a construção de um mundo melhor, mais justo e isonômico, com oportunidades para todos. Essas são algumas características do Vicentino. Por isso, reafirmo que “o Vicentino é um eterno abençoado”.

Novamente, peço-vos que rezeis por mim e pelos dirigentes que ocupam as diversas posições no âmbito do Conselho Geral Internacional, além dos funcionários da sede em Paris e dos presidentes dos Conselhos Superiores. E agradeço-vos, antecipadamente, pelas sugestões de temas e assuntos para a Carta-Circular de 2019, ocasião em que o Conselho Geral Internacional estará celebrando 180 anos de existência.

Com o carinho filial de Maria Santíssima, as bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo e as luzes do Divino Espírito Santo, agradeço a atenção de todos. Com afeto, servindo sempre na esperança, seu servo.

 Confrade Renato LIMA DE OLIVEIRA

16º Presidente Geral



[1] “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (São Marcos 9, 35b) é o lema do mandato 2016/2022.

 

[2] Sobre a missão, recomendo a leitura do livro “Rostos de Santidade” (2009), de autoria do padre Robert Maloney (CM), assessor espiritual do Conselho Geral Internacional e 22º Superior Geral da Congregação da Missão. Neles, encontraremos detalhes sobre a ação de defesa da justiça social desenvolvida por Ozanam.

[3] Sugiro a meditação da seguinte passagem bíblica: Eclesiástico (Eclo 27, 33 – 28, 9).

[4] Um dos melhores livros sobre a história da juventude vicentina, no Brasil e também no mundo, está no livro “O rosto jovem da SSVP”, escrito pelo confrade Mário Maríngulo (2014) – Coleção Vicentina nº 48, Brasil.

[5] Não me cansa estimular a leitura do livro “Federico Ozanam: sus múltiples facetas”, editado pelo Conselho Central de Medellín da SSVP, Colômbia (2013).

[6] “Muitos são os propósitos no coração do homem e da mulher, mas o que prevalece são os propósitos do Senhor” (Provérbios 19, 21)

[7] A respeito desse tema, recomendo a leitura da trilogia “Liderança Mística”, “Liderança Evangelizadora” e “Liderança Vocacional”, escrita pelo confrade Eduardo Marques de Almeida, publicada pela Coleção Vicentina, Brasil.

[8] Um dos melhores livros sobre a visita domiciliar é “Manual del Visitador del Pobre”, pois traz as qualidades que deve possuir o visitador, escrito por Concepción Arenal (2009), Bilbao, Espanha.

[9]“Entendei bem isto, meus irmãos, nunca podemos fazer a obra de Deus se não tivermos profunda humildade e uma humildade de opinião sobre nós mesmos” (São Vicente de Paulo).

[10] Apesar dos tempos modernos em que estamos inseridos, vale a pena lembrar-se de algumas recomendações atemporais, que nos ajudam a manter o espírito vicentino em unidade. Para tal, recomendo a leitura dos capítulos “Vademecum do Vicentino” (páginas 859-863) e “Alguns conselhos aos vicentinos” (páginas 875-877) do maravilhoso livro “Laical”, elaborado pelo Conselho Superior da Espanha (2008).

[11] Sobre o tema da pobreza espiritual e da pobreza material, vale a pena a leitura do livro “A Pobreza”, escrito pelo frei Raniero Cantalamessa (2003), Editora Ancora, Milão, Itália.

[12] Mensagem do Papa Francisco por ocasião do 34º Encontro “Amizade entre os povos” (18 de agosto de 2013).

[13] Na minha modesta opinião, o livro “Federico Ozanam, profesor en Sorbonne: su vida y obra”, de Kathleen O’Meara, traduzido por Francisco Javier Fernández Chento (Editora “Somos Vicencianos”, Madri, Espanha, 2017), é a obra-prima sobre o assunto. Lá, encontramos não só aspectos incríveis da vida de Ozanam, mas também de Amélie Ozanam-Soulacroix (1821-1894), a esposa devota que cuidou tão bem da memória de Ozanam.

[14] Tenho escrito bastante sobre o clima harmônico em nossas Conferências, no relacionamento com os necessitados e entre nós, vicentinos. Recomendo a leitura do livro “Apasionados por la caridade y la justicia” (2017), editado pelo Conselho Superior da Espanha da SSVP, em espanhol.

[15] Agradecemos ao Conselho Central do Tirol do Sul, da Itália, por ajudar o Conselho Geral Internacional nas premiações econômicas.

[16] Item 1.3. da Regra da Confederação Internacional da SSVP.

[17] Um dos objetivos traçados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

[18] Discurso do confrade Renato Lima de Oliveira em Roma (Itália), no dia 5 de junho de 2016, após a proclamação do resultado final da eleição para a presidência do Conselho Geral Internacional.

Voz de Ozanam – set/out – 2017
O pensamento sistêmico contra as pobrezas

O que oprime o pobre insulta àquele que o criou, mas, o que se compadece do necessitado o honra” (Provérbios 14, 31)
Enfrentar as dificuldades da vida, especialmente as econômicas, não é fácil para ninguém, até mesmo para as pessoas que tenham uma situação financeira mais estável. Todos nós, sem exceção, podemos passar por inúmeras adversidades, e a virtude reside justamente em saber mitigar os efeitos das crises em nossas vidas. Contudo, as famílias pobres, assistidas pelas Conferências Vicentinas, são as mais impactadas, diante da falta de preparo e condição social delas. Para poder ajudar os pobres de maneira mais eficiente, é preciso adotar um “pensamento sistêmico” que vai nos auxiliar a agir contra as pobrezas.

O pensamento sistêmico consiste num conjunto de procedimentos e métodos que possibilitam colaborar com as famílias carentes em todas as dimensões da vida, não somente no aspecto econômico (pobreza material), mas acima de tudo nas demais esferas, como a espiritual, psicológica, moral, social, profissional, fisiológica e educacional. O pensamento sistêmico é, por natureza, holístico, uma vez que interpreta o ser humano de maneira global, única e íntegra, avaliando todas as suas faculdades e potencialidades.

Cabe a nós, Vicentinos, por meio das Conferências e Obras (unidas ou especiais), empreender todas as nossas forças, talentos e habilidades em prol dos que sofrem, implementando o pensamento sistêmico na nossa maneira de agir e de ver o mundo. Esse novo pensamento nos impõe uma nova postura perante aos marginalizados, os excluídos, os desprovidos de bens materiais e também aqueles que perderam as esperanças na fé e adotam uma vida materialista, sem Deus, sem a oração e sem a caridade (estes últimos podem ser chamados de “pobres espirituais”). O pensamento sistêmico contra as pobrezas se encaixa em todas as possibilidades já descritas, não apenas na modalidade econômica e material, mais visível entre nós.

Agir contra as pobrezas, juntos, é o grande desafio de todos os cristãos batizados. Todos nós, Vicentinos da SSVP e da Família Vicentina, temos essa meta viva no nosso sangue, pois, assim foi idealizado por São Vicente de Paulo e pelos fundadores da primeira Conferência Vicentina. Isso está muito claro para todos nós que escolhemos servir a Cristo pela prática da caridade. Lamentavelmente, essa forma de ver o mundo não é majoritária neste planeta, razão pela qual enfrentamos enormes desafios, como o terrorismo, pessoas que passam fome, guerras, intolerância, indiferença, desemprego, depressão e outras doenças.

Somente juntos, unidos e focados, é que venceremos as pobrezas (as nossas misérias pessoais e as dos outros). O pensamento sistêmico se insere nesse bojo, contribuindo para a resolução dos problemas. O pensamento sistêmico nos ajuda, também, a ter uma visão crítica da realidade, e nos abre os olhos para as possíveis saídas ante os dilemas a serem enfrentados. Porém, antes de agirmos assim, precisamos estar de bem conosco mesmos. Talvez esse seja o maior desafio de quem atua no campo da caridade ou do voluntariado: estar, primeiramente, bem com Deus, com sua família pessoal, com seus amigos e vizinhos, com seus colegas de trabalho e na Igreja.

É óbvio que, antes de levar a mensagem de paz e de ternura ao próximo, é preciso que estejamos em paz com nossa mente, nosso espírito e nosso coração. De que adiante distribuir cestas básicas num sábado e no domingo faltar à missa ou discutir agressivamente em família? De que adianta posar de “doutor caridade” se a pessoa é dissimulada entre os amigos? Como podemos dizer que somos vicentinos se, às vezes, damos contratestemunho nas redes sociais? Essas incoerências nos fragilizam, e nos afastam de nossa vocação missionária: o serviço amoroso a quem precisa.

Portanto, é preciso deixar-se inebriar pelo “pensamento sistêmico” que nos ajudará a vencer as pobrezas, quaisquer que sejam elas, especialmente as morais, espirituais e psicológicas. Pensar desta maneira, com esse “tempero vicentino”, é a melhor alternativa para enfrentar os desafios da vida. Por exemplo, no momento da visita domiciliar, podemos estimular as famílias assistidas a buscarem uma vida profissional completa, incentivando-as aos estudos, à formação laboral, à reciclagem de conhecimentos e à atualização sobre o mercado de trabalho. Também podemos incrementar a nutrição das famílias, orientando-as no preparo de alimentos e na compra dos ingredientes mais saudáveis. Além disso, não podemos nos esquecer de falar sobre a vida espiritual e a presença na Igreja (com a vivência dos sacramentos), pois, esses elementos cuidam da nossa saúde espiritual, que não pode ser relegada a segundo plano, jamais.

Uma ideia, baseada no “pensamento sistêmico” e que pode “contaminar” positivamente a nossa querida SSVP é, por exemplo, definir uma meta audaciosa para um futuro bem próximo. Por exemplo: acabar com a pobreza extrema em 2033, data em que nossa entidade festejará os 200 anos de nascimento. Quer melhor presente que nós, Vicentinos, poderemos dar para Deus e para Nosso Senhor Jesus Cristo? Por isso, caros confrades e queridas consócias, deixo um pergunta para reflexão na Conferência: o que podemos fazer, de efetivo, para ajudar os assistidos a vencerem na vida?

Cfd. Renato Lima

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CARTA-CIRCULAR

AOS MEUS QUERIDOS CONFRADES E ÀS MINHAS QUERIDAS CONSÓCIAS, MEMBROS DAS CONFERÊNCIAS DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO PELO MUNDO

2017 – Ano Temático de Bailly

 

1. Introdução

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Meus queridos confrades, minhas queridas consócias, amados aspirantes, funcionários das nossas sedes e obras, estimados colaboradores e voluntários.

Como é do vosso conhecimento, no dia 9 de setembro de 2016, em Paris (França), tive a felicidade de ter sido empossado como 16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo. Esse acontecimento trouxe-me uma enorme responsabilidade e, ao mesmo tempo, um imenso privilégio para mim e para os novos componentes da Diretoria internacional, diante dos enormes desafios que teremos de enfrentar até ao final do nosso mandato, em 2022.

Sendo assim, é com imensa alegria que tenho a satisfação de retomar a elaboração das Cartas-Circulares anuais[1], com base na tradição vicentina e nas boas práticas dos inesquecíveis e iluminados Presidentes Gerais que me antecederam. É a primeira vez, na história da Sociedade de São Vicente de Paulo, que a Carta-Circular do Presidente Geral está sendo publicada em árabe, italiano e chinês, além dos idiomas oficiais da nossa entidade.

Embora estejamos vivendo numa era em que a tecnologia, a modernidade, o visual e as redes sociais dominam a comunicação, esse meio de informação tradicional (a carta) continua a ser uma das mais eficientes maneiras de interagir com os confrades e as consócias de todas as Conferências Vicentinas do mundo, compartilhando convosco as impressões do seu Presidente Geral, informando-vos sobre os acontecimentos no âmbito do Conselho Geral Internacional, animando-vos quanto aos temas prioritários em debate e trazendo-vos uma mensagem de unidade para toda a Sociedade de São Vicente de Paulo.

É desejo deste Presidente Geral que a Carta-Circular possa ser lida e meditada nas reuniões das Conferências e dos Conselhos, em todos os escalões da nossa entidade.

2. Expediente do Conselho Geral

Em 2015, quando da abertura do processo eleitoral, apresentei a minha plataforma de trabalho para a reflexão dos Conselhos Superiores ou Nacionais, a fim de que pudessem analisar os princípios ali contidos. Esse conjunto de ideias foi a proposta vencedora nas eleições de 5 de junho de 2016, em Roma. O plano de trabalho contém 20 itens e está disponível nas redes sociais e na página do Conselho Geral Internacional na internet (www.ssvpglobal.org).

Recomendo a leitura dos 20 tópicos do nosso programa de trabalho que, seguramente, serão contemplados no Plano Estratégico do nosso mandato. Peço-vos também as vossas orações pelo êxito de todas essas iniciativas.

Considero-os todos muito importantes, a começar pelo primeiro, que trata da vida espiritual do vicentino. É a busca da santidade, por intermédio das ações de caridade e de misericórdia, baseada na oração, que deve ser o horizonte da atuação dos vicentinos. Não devemos perder tempo com aspectos secundários que podem gerar divisões[2] e que nos afastam da essência da nossa associação, desde a fundação da primeira Conferência da Caridade. Só assim, construiremos um mundo melhor, menos desigual e mais cristão.

A santidade é a meta da Sociedade de São Vicente de Paulo, e não podemos jamais perdê-la de vista. A nossa atuação não pode reduzir-se a mero assistencialismo material ou a um ativismo desprovido de critérios e finalidades. Dessa convicção, decorrem a necessidade e a urgência de encontrar, na nossa espiritualidade vicentina, o fundamento e o impulso de tudo o que devemos fazer com os Pobres[3] e em favor deles[4] (Salmo 112).

Uma das inovações propostas no nosso programa de trabalho é a criação da Ouvidoria-Geral, órgão que receberá elogios, comentários, sugestões, críticas, observações e eventuais denúncias a respeito do trabalho vicentino exercido pelo Conselho Geral Internacional. Todas as informações que chegarem à Ouvidoria serão tratadas confidencialmente. Acredito que a criação desse serviço possa estimular que ouvidorias similares sejam estabelecidas no âmbito dos Conselhos Superiores ou Nacionais, ampliando a transparência entre as Unidades Vicentinas e permitindo que os membros possam auxiliar e influenciar diretamente na administração dos Conselhos e das Obras. A Ouvidoria atenderá pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo., e também desenvolverá um trabalho de mediação, quando necessário.

Outra novidade é o lançamento do Projeto “SSVP PLUS”, que consiste em dinamizar o processo de internacionalização[5] da Sociedade de São Vicente de Paulo. Hoje, o mundo possui 207 países, e a SSVP está presente em 151 deles. Há, portanto, um campo ainda bastante vasto e inexplorado que nos incita a fazer brotar o carisma vicentino nos vários territórios dos cinco continentes, mesmo em nações de maioria muçulmana. Em parceria com os Conselhos Superiores ou Nacionais, sob a liderança dos Vice-presidentes Territoriais Internacionais, desenvolveremos esse projeto, com metas anuais factíveis. Vamos unirmo-nos para poder levar a mensagem de Frederico Ozanam, de Bailly e dos demais fundadores a todo o planeta.

Na área da comunicação, o nosso desejo é o de transmitir, ao vivo, as reuniões anuais do Conselho Geral, realizadas em junho de cada ano, e implantar um sistema de videoconferências para as reuniões regulares da diretoria e das áreas de formação e juventude. Queremos dinamizar o setor de comunicações, com a elaboração de uma revista anual institucional, a produção de novos vídeos e com o estabelecimento de estratégias mais modernas de interação com os membros da Sociedade e outros. Também iremos intensificar o uso das redes sociais e aplicativos. Como todos sabem, o Presidente Geral é jornalista e, portanto, vós podereis esperar alguns avanços nessa área dentro dos próximos anos.

É muito importante, e torna-se uma necessidade do tempo presente, que todos os Conselhos e Conferências procurem alianças estratégicas e institucionais[6]. Desta forma, o Conselho Geral Internacional firmará acordos de cooperação, convênios e parcerias com instituições renomadas, ligadas a aspectos humanitários e sociais. Esses acordos serão muito positivos para a Sociedade de São Vicente de Paulo, e potencializarão a nossa ação emergencial nas tragédias e casos de desastres naturais. Tomara que essas parcerias com outras instituições beneficentes possam nos ajudar, inclusive, a levar a mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo a muitas pessoas que ainda não O conhecem.

Tal como Frederico Ozanam, Bailly e os demais fundadores de 1833, considero que os líderes na SSVP devem ser visionários, democráticos e abertos ao diálogo. Desta forma, queremos ouvir e conhecer a opinião de todos os confrades e consócias do mundo a respeito dos valores, da missão e da visão do Conselho Geral Internacional, estabelecidos em 2010, mas que podem – e devem – ser atualizados e aperfeiçoados constantemente. Será aberto um processo de consulta pública para receber sugestões e comentários. Estou seguro de que a comunidade vicentina irá participar efetivamente desse processo, e apresentará interessantes sugestões de nova redação para os valores, a visão e a missão institucional do Conselho.

Por fim, o mais importante de tudo é que estaremos implantando todas essas inovações sem aumentar o valor do orçamento global do Conselho. Creio que os países já fazem contribuições financeiras suficientes o bastante para manter o bom funcionamento da nossa entidade em nível mundial. Assim, atuaremos com criatividade[7], para que os recursos sejam adequadamente aplicados, em benefício da nossa instituição e dos Pobres. Todo esse esforço só terá validade e eficácia se for realizado para melhorar a atuação da SSVP junto dos Pobres a quem servimos.

3. Recomendações aos Vicentinos

Ingressei na Sociedade de São Vicente de Paulo em 1986, e venho servindo ao Conselho Geral Internacional há 10 anos, em diferentes funções. No exercício delas, pude realizar dezenas de visitas a vários países e, com isso, pude conhecer, um pouco melhor, a realidade da SSVP em muitas partes do planeta. Com base nessas observações, pretendo, a seguir, tecer alguns comentários que dizem respeito ao trabalho das Conferências, à assistência das Obras e às ações de coordenação dos Conselhos. São observações carinhosas, sem pré-julgamentos, que farei no sentido de reverter certas tendências, evitar problemas[8] e propor uma forma de atuação mais efetiva.

No dia a dia vicentino, é importante sinalizar que o sucesso das iniciativas de uma Conferência reside, basicamente, no clima de amizade, de oração e de cooperação entre os confrades e consócias[9]. Quanto mais harmônicas e cordiais forem as reuniões das Conferências, mais animados e preparados estarão os vicentinos no momento das atividades caritativas e sociais. Este é o papel do presidente e da diretoria da Conferência: zelar para que a atmosfera vicentina seja sempre positiva, prospectiva e voltada para a verdadeira resolução dos problemas das pessoas que assistimos. Para isso, o “clima interno” (no âmbito das Conferências, Conselhos e Obras) deve estar harmonizado com a “atuação externa” (junto às famílias e demais assistidos) da nossa instituição. Devemos possuir, entre nós, o mesmo carinho e amor que dedicamos aos Pobres assistidos[10]. E não nos esqueçamos de escutar os Vicentinos mais velhos, pois eles têm a experiência e a sabedoria necessárias para auxiliar a condução dos trabalhos da Conferência.

Outra observação que se faz necessária tem a ver com a gestão interna dos Conselhos, em todos os níveis. Como estabelece a Regra[11], as Conferências são a unidade Vicentina mais importante e os Conselhos estão ao serviço delas. Mas, em algumas partes do mundo, há uma indevida – e também inaceitável – inversão desse princípio, na qual percebemos que as Conferências gravitam em torno dos Conselhos, pois, estes vêm se tornando mais importantes que as primeiras. Os Conselhos existem não só para desenvolver as Conferências e zelar pelo correto cumprimento da Regra, mas, acima de tudo, para prestar serviços e apoiar projetos que nasçam das Conferências. Em contrapartida, para que isso aconteça naturalmente, as Conferências devem, por dever de consciência, contribuir economicamente para que os Conselhos sejam fortalecidos e, assim, possam cumprir com o papel institucional previsto na Regra.

Também, não podemos deixar de registrar que muitas Conferências e Conselhos têm guardado dinheiro em demasia, para uso no futuro. Porém, o ideal é que os recursos sejam aplicados imediatamente, com prudência, responsabilidade e eficiência, sem acumulação. O entesouramento de recursos deve ser evitado, pois, esta prática não está alinhada com a tradição vicentina. A ajuda fraterna nacional e internacional (jumelage) também depende bastante da generosidade e da solidariedade irrestrita das Conferências e dos Conselhos. Se as unidades vicentinas acumulam e retêm os seus recursos financeiros, ficará muito difícil compartilhar a caridade noutras regiões do planeta. Não nos esqueçamos que os bens da nossa Sociedade são patrimônio dos Pobres, conforme aprendemos de São Vicente de Paulo[12]. E, prioritariamente para os Pobres, devem ser orientados os recursos que arrecadamos ou recebemos. Também por isso, a administração de tudo o que possuímos não pode deixar de ser criteriosa e transparente, como nos ensinaram os nossos fundadores.

A respeito de eleições em vários níveis da estrutura da SSVP, temos percebido que alguns candidatos costumam reclamar sobre o resultado do pleito, não aceitando o desejo democrático da maioria ou questionando as regras dos certames. Evidentemente, podem ocorrer falhas nesses processos eleitorais os quais devem ser revistos pelos Conselhos hierarquicamente superiores, bem como aprimorados por mecanismos de transparência que estamos implantando, como a Ouvidoria-Geral; mas, sem entrar em peculiaridades locais, precisamos de Vicentinos mais flexíveis e tolerantes[13], que aceitem o resultado das urnas, sabendo humildemente congratular os vitoriosos e desejar-lhes o apoio necessário para bem conduzir os destinos da SSVP em cada localidade. O Conselho Geral felicita todos os vicentinos que se têm colocado à disposição nas eleições, pois, sem eles, não seria possível promover a renovação permanente da nossa instituição.

Não poderia deixar de abordar, na primeira Carta-Circular deste mandato, o tema fundamental da visita ao domicílio das famílias necessitadas[14], que é o ponto central de atuação das Conferências Vicentinas. Rosalie Rendu ensinou aos fundadores a forma adequada de encontrar os Pobres e de promover essas visitas dentro do espírito evangélico; elas devem ser a oportunidade para que os vicentinos se tornem amigos dos Pobres, envolvendo-se na situação desfavorável deles, sofrendo os dramas pessoais[15] de cada um, numa ação carinhosa e transformadora. Esse espírito deve prevalecer nas nossas visitas vicentinas, aliviando todas as formas de pobreza que se apresentam no exercício desse serviço missionário.

Fazer parte da Sociedade de São Vicente de Paulo deve constituir-se numa adesão voluntária, espontânea, verdadeira e desinteressada[16]. O que mais importa nesse ministério vocacional é o serviço aos Pobres. Quando o assunto for o Pobre, não devem existir divergências entre nós. Se realmente o foco do trabalho vicentino estiver na pessoa do necessitado, teremos a certeza de estar no caminho certo e evitaremos muitas desilusões, frustrações ou decepções na caminhada vicentina. Em verdade, não há problema em haver divergência de opinião entre nós, mas elas devem humildemente restringir-se à forma do serviço. Também as desilusões e decepções são inevitáveis[17], mas devem ser tratadas com misericórdia e oferecidas a Deus como sacrifício pelas pessoas carentes a quem desejamos servir e promover. Assim, devemos centrarmo-nos no que realmente interessa: a caridade, a oração, o amor gratuito para com os Pobres, a colaboração com a missão da Igreja, a busca da nossa santificação e a transformação do mundo[18].

Necessitamos, também, evitar certos problemas de relacionamento que a SSVP possa ter com a Igreja, com outras entidades e até mesmo no seio da Família Vicentina. Os dirigentes da Sociedade de São Vicente de Paulo devem ser pessoas abertas ao diálogo, compreensivas, resilientes e dispostas ao consenso, como bem nos recomenda a tradição vicentina[19]. Boa parte destes tipos de problemas vividos em alguns países reside no não cumprimento da Regra, na relutância de alguns em ceder e na dificuldade em desapegar-se do próprio parecer em nome de algo maior e conciliador. Portanto, sem aqui defender um lado ou outro, o Presidente Geral roga a todas as lideranças que exerçam as suas funções com empatia, humildade e caridade, estando distante das vaidades humanas[20], o que ajudará muito a melhorar as relações institucionais com o mundo exterior.

Por fim, é fundamental mencionar que, em algumas regiões do planeta, algumas Conferências encontram-se excessivamente dependentes da ajuda econômica internacional, gerando acomodação por parte dos Vicentinos. Tais doações, vindas do exterior, são importantes; mas, é preciso deixar claro que os membros das Conferências devem articular-se para conseguir tais recursos no nível local, a fim de que a caridade possa ser realizada imediatamente, e não somente por conta das contribuições que recebam de outros países. A Conferência e seus membros são os protagonistas diretos diante do sofrimento das pessoas socorridas.

4. Ano Temático de Bailly – 2017

Aproveito esta oportunidade para anunciar que 2017 é o “Ano Temático de Bailly”. Pretendemos estimular o estudo sobre a biografia e obra deste homem memorável, que criou as condições adequadas para que aqueles jovens franceses, em 1833, pudessem organizar e criar as “Conferências da Caridade”.

Emmanuel Joseph Bailly foi o primeiro Presidente Geral da SSVP, e a sua vida foi inteiramente dedicada à caridade. Vale a pena conhecer a história de Bailly em detalhe. Por exemplo, é importante salientar que Bailly foi um homem extremamente conciliador. A primeira Conferência era formada por jovens de diferentes origens: alguns eram advogados, outros médicos; uns eram republicanos, e outros monarquistas; alguns eram liberais, outros conservadores. Mas, Bailly soube liderar a todos na mesma vocação e no mesmo caminho, e conseguiu, com maestria, conduzir o processo de desmembramento da Conferência São Suplício (a chamada “Conferência Mãe”), evitando a divisão e a dispersão daqueles jovens, entre tantas outras importantes intervenções feitas por ele ao longo da vida vicentina. De fato, temos muito a aprender com Emmanuel Bailly!

Para tanto, estamos abrindo um concurso internacional de redações/ensaios (textos inéditos), com no máximo 20 páginas, conforme regulamento específico que será disponibilizado no site do CGI nas próximas semanas. Serão concedidos prêmios em dinheiro, tanto para os autores vencedores como para as Conferências em que eles atuam. Temos a certeza de que os trabalhos acadêmicos sobre Bailly serão profundamente ricos, apresentando curiosidades e particularidades da vida deste homem revestido de sabedoria e caridade. Assim, poderemos, no final do concurso, compartilhar esse conhecimento com todos os confrades e consócias do mundo. Estamos seguros de que o concurso será um grande sucesso, e que os Conselhos Superiores ajudarão o CGI na difusão dessa iniciativa, incentivando a participação de todos.

Esse concurso repetir-se-á todos os anos, até 2022, envolvendo todos os fundadores, com exceção de Ozanam que possui vasta literatura conhecida. No início de cada ano, e nas próximas Cartas-Circulares de nosso mandato, estaremos anunciando um fundador diferente para cada um dos anos temáticos. Essa iniciativa é uma maneira de o Conselho Geral Internacional valorizar o papel de todos os fundadores, que juntos receberam a inspiração divina de fundar[21] a Sociedade de São Vicente de Paulo. O Bem-aventurado Frederico Ozanam, dentre os sete fundadores originários, é aquele sobre o qual possuímos mais informações históricas e biográficas. Por isso, precisamos dar aos demais fundadores esse mesmo reconhecimento e destaque, pois, sem eles, não estaríamos aqui hoje e nem existiríamos como Sociedade.

5. Conclusão

Queridas vicentinas e queridos vicentinos!

Jamais pensei ser eleito o Presidente Geral internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo. Aquele adolescente de 16 anos de idade, que ingressou na Conferência Santo Tomás de Aquino, na cidade de Campinas, Estado de São Paulo (Brasil), há 30 anos, queria apenas visitar famílias carentes e, quem sabe, ajudar a quem estava passando por dificuldades na vida. Mas, a Providência Divina assim o quis e o Espírito Santo me escolheu para ser o líder-servidor de toda a SSVP. Por isso, preciso muito das orações e do apoio de todos os vicentinos do mundo inteiro.

Peço-vos que rezeis por mim e pelos dirigentes que ocupam funções nos diversos órgãos, departamentos, comissões e assessorias do Conselho Geral Internacional, além dos funcionários da sede em Paris, pedindo a Deus a sabedoria necessária para bem conduzir o futuro da nossa instituição. Somos todos passíveis de falhas e podemos até tomar decisões equivocadas. Não teremos, contudo, receio de reconhecer os erros que venham a ocorrer. Uma certeza posso assegurar-vos: não mediremos esforços para fazer o nosso melhor pelo Conselho Geral, pela estrutura da SSVP e pelos mais de 30 milhões de assistidos em todo o globo.

Em 2017, viveremos a comemoração dos 400 anos do carisma vicentino e da fundação da Associação Internacional de Caridades (AIC). Peço a todas as Conferências e Conselhos que se dediquem efetivamente nas atividades coordenadas pela Família Vicentina nas suas regiões, participando nos eventos e nos projetos comuns, em ampla colaboração com os diferentes Ramos vicentinos. Saboreiem as leituras espirituais que serão sugeridas pela Família Vicentina ao longo deste ano, pois elas destacarão as origens do nosso carisma comum. É sempre bom, de vez em quando, revisitar os conceitos, valores e princípios gerados pelo carisma, reavaliando a qualidade da nossa ação para os tempos presentes.

Somos uma associação internacional de leigos católicos, e uma verdadeira “comunidade de fé, de oração e de esperança”. Essa característica acompanha-nos desde as origens da nossa fundação, em 1833 e, por isso, não podemos perder essa condição que faz parte da nossa identidade e missão. Neste ano, celebramos também os 20 anos de beatificação de Ozanam, e é sempre bom meditar e recordar sobre as nossas origens fundacionais leigas.

Agradeço, de todo o coração, aos vicentinos que aceitaram o convite por mim formulado para fazer parte da diretoria do Conselho Geral Internacional. Obrigado pela vossa disponibilidade, compromisso e doação integral à estrutura da SSVP. Da mesma forma, também felicito todos os vicentinos que já serviram ao Conselho Geral em outros mandatos, nas diversas funções. Vós ajudastes a elevar o Conselho Geral Internacional ao excelente patamar em que ele se encontra hoje. Deus os cumule de bênçãos!

Sei que muitos assuntos ficaram de fora desta Carta-Circular (formação, juventude, família, terceira idade e imigração), mas, prometo abordá-los nas próximas edições. Gostaria de receber sugestões de temas para tratar nos anos vindouros. Ficarei aguardando os vossos comentários e observações pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Deixo-vos uma mensagem de esperança e de caridade, baseada nas virtudes evangélicas, desejando que a humildade seja a marca de todo o vicentino e de toda a vicentina, especialmente daqueles que desempenham funções nos Conselhos e nas Obras: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (São Marcos 9, 35b).  Esse é também o lema do nosso mandato.

Sob o olhar suave de Nossa Senhora das Graças, com as bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo e as luzes do Divino Espírito Santo, agradeço a atenção de todos.

Com carinho e afeto, servindo sempre na esperança,

Renato LIMA DE OLIVEIRA

16º Presidente Geral



[1] A primeira Carta-Circular foi escrita por Emmanuel Joseph Bailly em 14 de julho de 1841. Nela, o Conselho Geral emitiu inúmeras recomendações sobre a fidelidade à Regra, a organização e hierarquia da Sociedade de São Vicente de Paulo, a visita aos Pobres e as relações cordiais com outras instituições beneméritas.

[2]Esse tema sempre foi preocupação dos presidentes e dos secretários gerais da SSVP. No preâmbulo da Regra, em dezembro de 1835, o tema foi também tratado, mas na Carta-Circular de Emmanuel Bailly, de 1º de dezembro de 1842, a recomendação foi explícita: “Não deixemos, portanto, penetrar em nossas Conferências o espírito da discussão”.

[3] Nesta Carta-Circular, a palavra “Pobre” será sempre escrita com “p” maiúsculo, pois os Pobres são a nossa razão de existir.

[4] Escrevendo a um dos seus missionários, assim se expressou São Vicente de Paulo: “Nosso Senhor não tem o que fazer com nosso saber e com nossas boas obras, se nosso coração não lhe pertencer” (SV VII, 467). Como Vicentinos, nossa santidade se define por essa entrega do coração a Deus para realizar Sua obra de amor junto aos Pobres, servindo-os, evangelizando-os e deixando-se evangelizar por eles.

[5] No Manual da Sociedade de São Vicente de Paulo, datado de setembro de 1845, o crescimento da SSVP foi bastante tratado, pois era uma preocupação dos fundadores que a associação pudesse crescer sem perder o “espírito primitivo”.

[6] Capítulos 6 e 7 da Regra da Confederação Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo.

[7] Vale recordar a afirmação de São Vicente de Paulo  sobre o sacramento da Eucaristia: “O amor é inventivo até o infinito” (SV XI, 145).

[8] Consultar: “Considerações preliminares e notas esclarecedoras ao Regulamento” (dezembro de 1835).

[9] Sobre esse assunto, recomendamos a leitura da Carta-Circular de 30 de junho de 2001, escrita pelo 14º Presidente Geral, José Ramón Díaz-Torremocha y Díaz.

[10] Para conhecer mais detalhes sobre esse tópico, recomendamos a leitura do artigo “As duas redes de caridade”, da autoria do Presidente Geral, no livro “Crônicas Vicentinas IV”.

[11] Regra da Confederação Internacional da SSVP, artigo 3.6 (“Dos Conselhos”).

[12] São Vicente de Paulo deixou-nos esta afirmação lapidar: “Vivemos do patrimônio de Jesus Cristo, e do suor dos Pobres” (SV XI, 201).

[13] Sobre esse assunto, sugiro a leitura da parte intitulada “Qualidades que há de ter o Presidente”, na Carta-Circular de 1º de março de 1844, de autoria do primeiro Presidente Geral, Emmanuel Joseph Bailly.

[14] Consultar a carta do Bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam de 9 de fevereiro de 1837, enviada ao Conselho Geral de Paris, contendo os avanços da expansão das Conferências Vicentinas em Lion e redondezas. Nela, Ozanam assim se expressa: “A visita aos Pobres em domicílio tem sido sempre a nossa principal obra”. Também Emmanuel Joseph Bailly, na Carta-Circular de 14 de julho de 1841, reforça esse princípio: “Não se descuidem, jamais, de fazer a visita aos Pobres no seu domicílio”.

[15] Sobre esse tema, merece destaque a Carta-Circular de François Lallier, de agosto de 1837, em que ele diz: “É gratificante escutar os Pobres e demonstrar interesse quanto ao relato das suas desgraças e problemas domésticos”.

[16] A respeito desse tema, na Carta-Circular de 14 de julho de 1841, Bailly assevera: “Nada nos é imposto, tudo é voluntariamente aceito, porque entre nós existe, sobretudo, caridade. Caridade esta que possui força suficiente para unir os homens e levá-los ao caminho do bem”.

[17] Na Carta-Circular de 1º de dezembro de 1842, Bailly assim se manifestou: “Existimos para unir, e não para dividir. Para ter êxito no nosso trabalho caritativo, é preciso sofrer e calar. A grandeza não se alcança senão pela humildade”.

[18] Confrontemo-nos com as impressionantes palavras que o Bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam dirigiu à Assembleia Geral da SSVP, no dia 14 de dezembro de 1848: “Estamos convencidos de que a ciência das reformas benéficas não se aprende nos livros nem nas tribunas das assembleias públicas, mas no subir às encostas dos pobres, em sentar-se à sua cabeceira, em sofrer o frio que eles sofrem, em arrancar com a efusão de um colóquio amigável o segredo de sua alma desolada. Quando alguém se dedica a esse ministério, não por alguns meses, mas ao longo dos anos, então pode-se começar a conhecer os elementos fundamentais desse problema que se chama miséria. Tem-se, então, o direito de propor medidas sérias, as quais, em lugar de assustar as pessoas, servem de consolo e esperança”.

[19] Na Carta-Circular do Conselho Geral Internacional, datada de 11 de junho de 1844, Antônio Frederico Ozanam e outros dois dirigentes – Leon Cornudet e Louis de Baudicour – listam uma série de qualidades necessárias para ser presidente de Conselho, entre elas: grande piedade, servir de exemplo, grande respeito e virtudes, hábito da entrega, espírito de fraternidade, prudência e simplicidade. Já na Carta-Circular de Bailly, datada de 1º de março de 1844, o Presidente Geral pede que os dirigentes tenham “talento, piedade e prudência cristã”.

[20] Em várias Cartas-Circulares, os presidentes gerais já trataram da questão da vaidade, com bastante propriedade, além de outras ervas daninhas, como a inveja e a ingratidão.

[21] Em 30 de janeiro de 1853, ao participar da fundação de uma Conferência Vicentina em Florência (Itália), Ozanam assim se manifestou: “Não podemos considerar que nós somos os fundadores, pois foi Deus quem o quis e Ele mesmo fundou nossa Sociedade”.

Revista Voz de Ozanam – Edição de Mai/Jun de 2017
Artigo: São Vicente de Paulo e a Organização da Caridade.
Seção: Contra as pobrezas, agir juntos.
São Vicente de Paulo e a Organização da Caridade
Renato Lima

Uma das principais características do trabalho vicentino é a chamada “caridade organizada”. Essa marca vem desde as origens do carisma vicentino, quando São Vicente de Paulo, em 1617, portanto há 400 anos, proferiu o célere Sermão da Caridade, na cidade de Chatillon-des-Dombes, onde ele era pároco. Nos livros vicentinos, podemos encontrar a informação de que tal homilia ocorreu no dia 20 de agosto de 1617, quando o santo da caridade expôs a situação de carência vivida por uma família das redondezas da paróquia, e a comunidade respondeu prontamente ao apelo do sacerdote, fazendo-lhe visitas e doando-lhe bens. 

Só que a ajuda prestada pelos membros da comunidade àquela família pobre ocorreu de maneira desorganizada. A entrega das doações, como alimentos, roupas, remédios e calçados, foi muita generosa. Era verão na França àquela altura e fazia muito calor; as pessoas descansavam pelo caminho, sentadas no chão refrescando-se nos riachos. Relata a história que tamanha era a quantidade de pessoas indo visitar a família necessitada que, pelo caminho, alguns chegavam a afirmar que se tratava de uma procissão. Eram apenas as pessoas de boa vontade, sensibilizadas pela solicitação de Vicente, para acolher e ajudar a uma família carente. 

São Vicente, diante desse episódio memorável em Chatillon, teve a ideia de “organizar a caridade” para que o socorro daquela família acontecesse de forma ordeira, e que as doações pudessem ser entregues escalonadamente, em cotas menores e suficientes para a sobrevivência semanal ou mensal. Inicialmente, Vicente convidou as mulheres da cidade para organizarem a caridade e para cuidarem dos pobres e dos enfermos. Depois, outros leigos foram envolvidos nesse processo. A partir dessa experiência, o padre Vicente começou também a pedir doações perante as famílias abastadas da França, e iniciou seus projetos para acolher enfermos em hospitais. 

Contudo, Vicente não chegou propriamente a estabelecer uma sistemática para as visitas semanais às famílias carentes. Todo o pensamento dele a respeito era transmitido nas palestras, nos escritos e nas homilias que ele dirigia aos paroquianos, às religiosas e às damas da caridade. Esse “clique” que Vicente de Paulo teve foi muito significativo, e marcou definitivamente o trabalho desse santo. Esse legado vem caracterizando praticamente todos os ramos da Família Vicentina, os fundados ou inspirados por ele, assim como a Sociedade de São Vicente de Paulo, cujo modus operandi reside justamente na visita domiciliar e na caridade organizada em nossas obras unidas e especiais. 

Vicente foi inovador, único, vanguardista, pioneiro. Era missionário por natureza. Ele percebeu que aquele “pequeno gesto”, ao organizar a caridade em Chatillon, poderia ser replicado na França toda, especialmente na zona rural, por intermédio das famosas “missões”. E assim se fez: essa é a “marca registrada” de São Vicente de Paulo. Por meio da caridade organizada, Vicente estabelecia as duas dimensões da visita ao necessitado: a ajuda material e a ajuda espiritual. Tudo em Vicente era perfeito, pois ele estava sendo orientado pelo Espírito Santo para produzir boas obras, e possibilitar que outras pessoas pudessem desfrutar desse enorme benefício de santificação e conversão pessoal. 

Nós, Vicentinos do século XXI, devemos seguir à risca as orientações deixadas por Vicente de Paulo, por Rosalie Rendu, por Luísa de Marillac, Ozanam e os demais cofundadores, no sentido de praticar a verdadeira “caridade organizada” para melhor servir aos pobres. Essa organização é a responsável pelo êxito da ação vicentina, quer seja no aspecto administrativo das obras e projetos, quer seja no aspecto espiritual das visitas e do atendimento às famílias necessitadas. Essa organização vê tudo, abarca tudo e projeta tudo, desde as necessidades mais básicas do ser humano, até aquelas relacionadas aos aspectos moral, social e laboral. 

Vale ainda destacar que a filosofia de Vicente sempre esteve alinhada com as diretrizes da Igreja Católica. Perante as novas e complexas formas de pobreza, devemos praticar uma “caridade inteligente”, capaz de ouvir as necessidades de quem sofre; uma “caridade organizada”, capaz de oferecer respostas inovadoras à crise moral em que estamos inseridos nos tempos modernos; e uma “caridade inclusiva”, que ataque as causas dos problemas e não se limite a fornecer só serviços necessários, mas, que acompanhe também quem se encontra em dificuldade. Só assim poderemos recolher os frutos duradouros do trabalho caritativo e vicentino.

São Vicente de Paulo nos deixou esse grande exemplo de amor ao próximo, abraçando com carinho e caridade os mais pobres e necessitados do seu tempo. Ele serviu de exemplo para nós, da SSVP e da Família Vicentina, com seu legado de ajuda ao próximo, através da caridade organizada, com amor e justiça. Portanto, esforcemo-nos a praticar a caridade organizada, que é a chave do sucesso das ações vicentinas. Para isso, temos que seguir a Regra, manter a unidade dentro da SSVP, sermos mais tolerantes perante os assistidos e os próprios vicentinos, e assim atingiremos nossos objetivos. 

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Revista Voz de Ozanam – Edição de Mar/Abr de 2017
Tema desta Edição: São Vicente de Paulo e as várias formas de pobrezas
Seção: Contra as pobrezas, agir juntos
São Vicente de Paulo e as várias formas de pobrezas
Autor: Renato Lima

Dando continuidade à série de reflexões espirituais sobre o biênio temático “Contra as pobrezas, agir juntos”, esta edição da Revista “Voz de Ozanam” abordará a questão da interação de Vicente de Paulo com as variadas formas de pobreza existentes.

Vivemos numa época em que, quando falamos a palavra “pobreza”, já não nos referimos unicamente às carências materiais de uma pessoa ou família, mas, sobretudo, ao conjunto de necessidades que podem afligir alguém, como doenças, desemprego, desarmonia emocional, aspectos psicológicos, exclusão digital e social, entre tantas outras misérias. 

Contudo, para o Banco Mundial, “pobreza extrema” significa viver com o equivalente a menos de um dólar (cerca de R$ 3,00) por dia, e “pobreza moderada” está baseada no patamar de dois dólares (R$ 6,00) por dia. Mas, será que pobreza é apenas a falta de dinheiro e de bens materiais? Pobreza seria somente a carência de alimentação, vestuário, alojamento, educação e saúde? Essas são as facetas mais conhecidas da necessidade humana, as quais, nós, vicentinos, sabemos muito bem que não são as únicas misérias que atingem as pessoas. 

O ser humano moderno é bastante complexo, e às vezes ele pode “ter tudo” materialmente falando, mas, pode estar deprimido, com baixa da autoestima, indiferente ou recorrendo aos vícios para pretensamente mitigar os efeitos desse tipo de distúrbio social. 

Nos tempos de São Vicente de Paulo, a sociedade poderia até ser diferente da atual, mas, as várias formas de pobreza eram as mesmas. A receita de Vicente para vencer esses desafios eram (e são) também atuais: a caridade, a generosidade, a amizade e a empatia. Foi assim que o capelão das galeras mostrou a face de Cristo aos que o rodeavam, dando testemunho evangélico e convidando a todos à conversão. 

Pela caridade, Vicente ajudava sem ver a quem, de forma impessoal, buscando servir a quem necessitava, sem preconceitos ou pré-julgamentos. Pela generosidade, Vicente compartilhava tudo o que tinha, e buscava obter doações entre aqueles que muito tinham. Pela amizade, o padre Vicente tornava-se amigo verdadeiro dos pobres, conquistando a confiança deles e colocando-se à disposição dos necessitados. E pela empatia, Vicente de Paulo sentia na pele as dores dos pobres, dos migrantes, dos doentes e dos excluídos, buscando confortá-los e animando-os com esperança. 

O papa Francisco certa vez afirmou que “a pior pobreza é a falta de Cristo”. Na mesma linha, Santa Teresa de Calcutá afirmou que “a falta de amor é a maior das pobrezas”. E eles têm razão: de que adianta as pessoas terem bens materiais, ostentando e esbanjando objetos e tecnologia apenas por capricho, para mostrar-se “mais importante” que os outros, se o principal (o espírito) está vazio, oco, completamente pobre? É notório que a falta de condições dignas de vida diminui as potencialidades do ser humano; mas, a falta de fé, de oração e do elemento espiritual em nossas vidas representam um vazio eterno que somente pode ser preenchido com Jesus Cristo. 

E isso, São Vicente de Paulo sabia fazer muito bem. Além de acolher a quem sofria, e de sofrer com aqueles a quem acolhia, Vicente cuidava de todas as dimensões do ser humano, não somente a material (que eram e são as mais percebidas explicitamente pelas pessoas). A oração era algo muito presente na vida do santo, que rezava tanto quanto agia. Desse modo, o santo da caridade enxergava o interior dos seres, o coração dos filhos de Deus, o fulcro de nossa existência. A caridade de Vicente era integral e englobava as várias formas de pobreza, assim como deve ser a nossa forma de abordar e de servir aos Pobres nos tempos de hoje. 

O Vicentino precisa estar atento a essas novas e variadas formas de pobreza, nem sempre tão fáceis de serem identificadas. É por essa razão que a visita domiciliar deve ser feita sem pressa, com critérios e focada efetivamente na resolução dos problemas das famílias assistidas. Devemos rechaçar, por completo, aquelas “visitinhas de médico”, pois, nelas a qualidade da visita fica realmente comprometida. A visita deve durar o tempo necessário para que os Vicentinos possam perceber a realidade dos socorridos e como enfrentar cada dificuldade. É na visita ao Pobre que os vicentinos conseguem perceber as várias formas de pobreza que afetam a realidade das famílias carentes para, desta forma, propor melhorias. 

Uma curiosidade que demonstra que São Vicente de Paulo era, realmente, um visionário: o desejo de Vicente (de enfrentar a miséria) é, nos dias de hoje, meta dos países que formam as Nações Unidas, cujo objetivo número 1 é “acabar com a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares”. Como se vê, o sonho de Vicente segue atual, e mostra que a humanidade pode ter crescido bastante na dimensão tecnológica, mas, ainda carece de amor na dimensão social nesses últimos séculos. Para reflexão na Conferência: “Uma luz brilha nas trevas para o justo. Ele é correto, generoso e compassivo. Feliz o homem caridoso e prestativo. Seu coração está tranquilo e nada teme. Ele reparte com os pobres os seus bens. Permanece para sempre o bem que ele fez, e crescerão a sua glória e seu poder” (Salmo 111).

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 Voz de Ozanam – JAN e FEV – 2017
Contra as pobrezas, agir juntos!
Cfd. Renato Lima

Chegamos a 2017, um ano em que a Família Vicentina e a SSVP têm muito a refletir e a comemorar. Será um ano repleto de celebrações que tocarão fundo os corações dos Vicentinos: os 400 anos do carisma (Folleville e Châtillon), a fundação da Associação Internacional de Caridades (antigas “Damas da Caridade”) e os 20 anos da beatificação de Antônio Frederico Ozanam. No âmbito do Conselho Geral Internacional, este também será o “Ano de Bailly”. Além disso, o Conselho Nacional do Brasil está propondo o tema “Contra as pobrezas, agir juntos”, que consiste numa audaciosa proposta de atuação conjunta, entre todos os Ramos da Família Vicentina, para conseguirmos debelar os males que afligem a humanidade, entre eles a fome, a miséria, a segregação, o desemprego, a falta de saúde e educação, entre outras tantas necessidades materiais, espirituais e morais.

Devido ao resgate histórico da celebração dos 400 anos, iremos voltar às origens e encontrar “aquele” São Vicente de Paulo do século XVII, inspirador de todos. Seguramente, esse será o momento propício para revisitar nossa identidade e nosso carisma, reavaliando a assistência prestada aos pobres (em nossas Conferências e obras) e o estilo de evangelização em marcha. Vicente, naquele tempo, ao deparar-se com a miséria, as doenças e a exclusão social, tomou a decisão firme de ficar do lado dos mais carentes. A caridade feita aos que vivem alguma situação de pobreza deve ser imediata e efetiva, assim como nos ensinou São Vicente de Paulo. Os pobres não podem esperar! E todo esse esforço de “agir juntos” só tem uma razão de ser: aportar um serviço generoso e eficiente a quem mais precisa. E essa “nova postura” deve levar em conta os projetos de Mudança Sistêmica que a SSVP e os demais Ramos da Família Vicentina têm estimulado no Brasil e no mundo, pois, só esse tipo de ação irá, de fato, reduzir a dependência que os mais carentes têm de programas assistencialistas dos governos. 

No último “Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza” (cuja data foi fixada pela Organização das Nações Unidas em 17 de outubro), o papa Francisco rezou com os fiéis presentes na Praça de São Pedro, e assim se manifestou para aquela multidão: “Unamos as nossas forças, morais e econômicas, para lutar juntos contra a pobreza que degrada, ofende e mata tantos irmãos e irmãs, colocando em prática políticas sérias para as famílias e para o trabalho”. Como podemos perceber, essa preocupação não é apenas dos Vicentinos, mas é o apelo que a Igreja faz no sentido de sensibilizar a humanidade inteira para que, todos juntos, possamos construir um mundo melhor por meio de uma sociedade fraterna que cuide dos pobres com dignidade e respeito. O sucesso dessa ação depende da adesão de todos, sem exceção. 

O papa também deixou-nos algumas recomendações: “Lutai contra a pobreza e, ao mesmo tempo, aprendei dos pobres. Deixai-vos inspirar e guiar pela sua vida simples e essencial, pelos seus valores, pelo seu sentido de solidariedade e partilha, por sua capacidade de se reerguer nas dificuldades e, sobretudo, pela sua experiência vivida do Cristo sofredor. Trata-se de fazer resplandecer a caridade e a justiça no mundo, à luz do Evangelho e do ensinamento da Igreja, envolvendo os pobres para que estes sejam os verdadeiros protagonistas de seu desenvolvimento”. “A pobreza, a fome, as doenças, a opressão não são uma fatalidade e não podem representar situações permanentes. Confiando na força o Evangelho, podemos contribuir para mudar as coisas ou, pelo menos, melhorá-las, e podemos reafirmar a dignidade de quantos aguardam por um sinal do nosso amor”, ensina o nosso querido pontífice. 

A situação da pobreza, e das formas de combatê-la, também é preocupação dos mais importantes organismos internacionais de desenvolvimento e investimento. Vejam essa frase que aparece num relatório social do Bando Mundial: “A pobreza é uma convocação para agir, para os pobres e também para os ricos. É um chamado para mudar o mundo a fim de que muitos mais tenham o suficiente para comer, abrigo adequado, acesso à educação e saúde, proteção diante da violência e voz ativa sobre o que ocorre em sua comunidade”. O que o Banco quer dizer, em outras palavras, é que a existência da pobreza é, por si só, capaz de unir as pessoas na busca de soluções para superá-la, e nesse contexto se insere o trabalho vicentino. 

Na verdade, modernamente, é preferível utilizar a expressão “formas de pobreza” no lugar meramente de “pobreza”, pois não estamos nos referindo unicamente às pessoas que vivem com menos de um dólar por dia ou que têm carência de alimentos, ainda que essa necessidade seja a mais prioritária no mundo. Essas outras formas estão relacionadas a temas ligados aos refugiados, às doenças, à falta de emprego, ao abandono da infância e dos idosos, entre tantas outras situações que requerem uma intervenção solidária urgente. Mas qualquer esforço para minimizar o sofrimento alheio passa, necessariamente, pela mobilização social, pela conscientização política e, sobretudo, pela compreensão de que, juntos, somente juntos, poderemos empreender projetos realmente libertadores, inovadores e criativos. A caridade é criativa, como pregava São Vicente, e nós, Vicentinos, somos os seus artífices. 

Cfd. Renato Lima de Oliveira
Presidente Geral da SSVP

 

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