Renato 2017

Confrade Renato Lima, nascido em 1970, é Vicentino desde 1986. É o 16º Presidente Geral do Conselho Geral Internacional da SSVP (2016/2022).

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Presidente Geral viaja a 4 países nas próximas duas semanas
O confrade Renato Lima de Oliveira, 16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo, estará visitando quatro países nas próximas duas semanas.
Nos dias 10 e 11 de junho de 2017, o presidente estará na cidade do Porto, Portugal, participando de uma Assembleia do Conselho Central. 

Entre os dias 12 e 19 de junho de 2017, Renato estará em Paris, participando da Plenária Anual do Conselho Geral. No dia 19, despachará na sede.
Entre os dias 20 e 23 de junho de 2017, o confrade Renato estará em Quebec, Canadá, participando das festividades dos 150 anos da SSVP no Canadá.
Nos dias 24 e 25 de junho de 2017, o presidente geral estará no Panamá, para participar de uma reunião de organização da Jornada Mundial da Juventude, que acontece na Cidade do Panamá em janeiro de 2019.
Pedimos as orações de todos os vicentinos pelo êxito dessas visitas institucionais do confrade Renato Lima.

 

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CARTA-CIRCULAR

AOS MEUS QUERIDOS CONFRADES E ÀS MINHAS QUERIDAS CONSÓCIAS, MEMBROS DAS CONFERÊNCIAS DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO PELO MUNDO

2017 – Ano Temático de Bailly

 

1. Introdução

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Meus queridos confrades, minhas queridas consócias, amados aspirantes, funcionários das nossas sedes e obras, estimados colaboradores e voluntários.

Como é do vosso conhecimento, no dia 9 de setembro de 2016, em Paris (França), tive a felicidade de ter sido empossado como 16º Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo. Esse acontecimento trouxe-me uma enorme responsabilidade e, ao mesmo tempo, um imenso privilégio para mim e para os novos componentes da Diretoria internacional, diante dos enormes desafios que teremos de enfrentar até ao final do nosso mandato, em 2022.

Sendo assim, é com imensa alegria que tenho a satisfação de retomar a elaboração das Cartas-Circulares anuais[1], com base na tradição vicentina e nas boas práticas dos inesquecíveis e iluminados Presidentes Gerais que me antecederam. É a primeira vez, na história da Sociedade de São Vicente de Paulo, que a Carta-Circular do Presidente Geral está sendo publicada em árabe, italiano e chinês, além dos idiomas oficiais da nossa entidade.

Embora estejamos vivendo numa era em que a tecnologia, a modernidade, o visual e as redes sociais dominam a comunicação, esse meio de informação tradicional (a carta) continua a ser uma das mais eficientes maneiras de interagir com os confrades e as consócias de todas as Conferências Vicentinas do mundo, compartilhando convosco as impressões do seu Presidente Geral, informando-vos sobre os acontecimentos no âmbito do Conselho Geral Internacional, animando-vos quanto aos temas prioritários em debate e trazendo-vos uma mensagem de unidade para toda a Sociedade de São Vicente de Paulo.

É desejo deste Presidente Geral que a Carta-Circular possa ser lida e meditada nas reuniões das Conferências e dos Conselhos, em todos os escalões da nossa entidade.

2. Expediente do Conselho Geral

Em 2015, quando da abertura do processo eleitoral, apresentei a minha plataforma de trabalho para a reflexão dos Conselhos Superiores ou Nacionais, a fim de que pudessem analisar os princípios ali contidos. Esse conjunto de ideias foi a proposta vencedora nas eleições de 5 de junho de 2016, em Roma. O plano de trabalho contém 20 itens e está disponível nas redes sociais e na página do Conselho Geral Internacional na internet (www.ssvpglobal.org).

Recomendo a leitura dos 20 tópicos do nosso programa de trabalho que, seguramente, serão contemplados no Plano Estratégico do nosso mandato. Peço-vos também as vossas orações pelo êxito de todas essas iniciativas.

Considero-os todos muito importantes, a começar pelo primeiro, que trata da vida espiritual do vicentino. É a busca da santidade, por intermédio das ações de caridade e de misericórdia, baseada na oração, que deve ser o horizonte da atuação dos vicentinos. Não devemos perder tempo com aspectos secundários que podem gerar divisões[2] e que nos afastam da essência da nossa associação, desde a fundação da primeira Conferência da Caridade. Só assim, construiremos um mundo melhor, menos desigual e mais cristão.

A santidade é a meta da Sociedade de São Vicente de Paulo, e não podemos jamais perdê-la de vista. A nossa atuação não pode reduzir-se a mero assistencialismo material ou a um ativismo desprovido de critérios e finalidades. Dessa convicção, decorrem a necessidade e a urgência de encontrar, na nossa espiritualidade vicentina, o fundamento e o impulso de tudo o que devemos fazer com os Pobres[3] e em favor deles[4] (Salmo 112).

Uma das inovações propostas no nosso programa de trabalho é a criação da Ouvidoria-Geral, órgão que receberá elogios, comentários, sugestões, críticas, observações e eventuais denúncias a respeito do trabalho vicentino exercido pelo Conselho Geral Internacional. Todas as informações que chegarem à Ouvidoria serão tratadas confidencialmente. Acredito que a criação desse serviço possa estimular que ouvidorias similares sejam estabelecidas no âmbito dos Conselhos Superiores ou Nacionais, ampliando a transparência entre as Unidades Vicentinas e permitindo que os membros possam auxiliar e influenciar diretamente na administração dos Conselhos e das Obras. A Ouvidoria atenderá pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo., e também desenvolverá um trabalho de mediação, quando necessário.

Outra novidade é o lançamento do Projeto “SSVP PLUS”, que consiste em dinamizar o processo de internacionalização[5] da Sociedade de São Vicente de Paulo. Hoje, o mundo possui 207 países, e a SSVP está presente em 151 deles. Há, portanto, um campo ainda bastante vasto e inexplorado que nos incita a fazer brotar o carisma vicentino nos vários territórios dos cinco continentes, mesmo em nações de maioria muçulmana. Em parceria com os Conselhos Superiores ou Nacionais, sob a liderança dos Vice-presidentes Territoriais Internacionais, desenvolveremos esse projeto, com metas anuais factíveis. Vamos unirmo-nos para poder levar a mensagem de Frederico Ozanam, de Bailly e dos demais fundadores a todo o planeta.

Na área da comunicação, o nosso desejo é o de transmitir, ao vivo, as reuniões anuais do Conselho Geral, realizadas em junho de cada ano, e implantar um sistema de videoconferências para as reuniões regulares da diretoria e das áreas de formação e juventude. Queremos dinamizar o setor de comunicações, com a elaboração de uma revista anual institucional, a produção de novos vídeos e com o estabelecimento de estratégias mais modernas de interação com os membros da Sociedade e outros. Também iremos intensificar o uso das redes sociais e aplicativos. Como todos sabem, o Presidente Geral é jornalista e, portanto, vós podereis esperar alguns avanços nessa área dentro dos próximos anos.

É muito importante, e torna-se uma necessidade do tempo presente, que todos os Conselhos e Conferências procurem alianças estratégicas e institucionais[6]. Desta forma, o Conselho Geral Internacional firmará acordos de cooperação, convênios e parcerias com instituições renomadas, ligadas a aspectos humanitários e sociais. Esses acordos serão muito positivos para a Sociedade de São Vicente de Paulo, e potencializarão a nossa ação emergencial nas tragédias e casos de desastres naturais. Tomara que essas parcerias com outras instituições beneficentes possam nos ajudar, inclusive, a levar a mensagem de Nosso Senhor Jesus Cristo a muitas pessoas que ainda não O conhecem.

Tal como Frederico Ozanam, Bailly e os demais fundadores de 1833, considero que os líderes na SSVP devem ser visionários, democráticos e abertos ao diálogo. Desta forma, queremos ouvir e conhecer a opinião de todos os confrades e consócias do mundo a respeito dos valores, da missão e da visão do Conselho Geral Internacional, estabelecidos em 2010, mas que podem – e devem – ser atualizados e aperfeiçoados constantemente. Será aberto um processo de consulta pública para receber sugestões e comentários. Estou seguro de que a comunidade vicentina irá participar efetivamente desse processo, e apresentará interessantes sugestões de nova redação para os valores, a visão e a missão institucional do Conselho.

Por fim, o mais importante de tudo é que estaremos implantando todas essas inovações sem aumentar o valor do orçamento global do Conselho. Creio que os países já fazem contribuições financeiras suficientes o bastante para manter o bom funcionamento da nossa entidade em nível mundial. Assim, atuaremos com criatividade[7], para que os recursos sejam adequadamente aplicados, em benefício da nossa instituição e dos Pobres. Todo esse esforço só terá validade e eficácia se for realizado para melhorar a atuação da SSVP junto dos Pobres a quem servimos.

3. Recomendações aos Vicentinos

Ingressei na Sociedade de São Vicente de Paulo em 1986, e venho servindo ao Conselho Geral Internacional há 10 anos, em diferentes funções. No exercício delas, pude realizar dezenas de visitas a vários países e, com isso, pude conhecer, um pouco melhor, a realidade da SSVP em muitas partes do planeta. Com base nessas observações, pretendo, a seguir, tecer alguns comentários que dizem respeito ao trabalho das Conferências, à assistência das Obras e às ações de coordenação dos Conselhos. São observações carinhosas, sem pré-julgamentos, que farei no sentido de reverter certas tendências, evitar problemas[8] e propor uma forma de atuação mais efetiva.

No dia a dia vicentino, é importante sinalizar que o sucesso das iniciativas de uma Conferência reside, basicamente, no clima de amizade, de oração e de cooperação entre os confrades e consócias[9]. Quanto mais harmônicas e cordiais forem as reuniões das Conferências, mais animados e preparados estarão os vicentinos no momento das atividades caritativas e sociais. Este é o papel do presidente e da diretoria da Conferência: zelar para que a atmosfera vicentina seja sempre positiva, prospectiva e voltada para a verdadeira resolução dos problemas das pessoas que assistimos. Para isso, o “clima interno” (no âmbito das Conferências, Conselhos e Obras) deve estar harmonizado com a “atuação externa” (junto às famílias e demais assistidos) da nossa instituição. Devemos possuir, entre nós, o mesmo carinho e amor que dedicamos aos Pobres assistidos[10]. E não nos esqueçamos de escutar os Vicentinos mais velhos, pois eles têm a experiência e a sabedoria necessárias para auxiliar a condução dos trabalhos da Conferência.

Outra observação que se faz necessária tem a ver com a gestão interna dos Conselhos, em todos os níveis. Como estabelece a Regra[11], as Conferências são a unidade Vicentina mais importante e os Conselhos estão ao serviço delas. Mas, em algumas partes do mundo, há uma indevida – e também inaceitável – inversão desse princípio, na qual percebemos que as Conferências gravitam em torno dos Conselhos, pois, estes vêm se tornando mais importantes que as primeiras. Os Conselhos existem não só para desenvolver as Conferências e zelar pelo correto cumprimento da Regra, mas, acima de tudo, para prestar serviços e apoiar projetos que nasçam das Conferências. Em contrapartida, para que isso aconteça naturalmente, as Conferências devem, por dever de consciência, contribuir economicamente para que os Conselhos sejam fortalecidos e, assim, possam cumprir com o papel institucional previsto na Regra.

Também, não podemos deixar de registrar que muitas Conferências e Conselhos têm guardado dinheiro em demasia, para uso no futuro. Porém, o ideal é que os recursos sejam aplicados imediatamente, com prudência, responsabilidade e eficiência, sem acumulação. O entesouramento de recursos deve ser evitado, pois, esta prática não está alinhada com a tradição vicentina. A ajuda fraterna nacional e internacional (jumelage) também depende bastante da generosidade e da solidariedade irrestrita das Conferências e dos Conselhos. Se as unidades vicentinas acumulam e retêm os seus recursos financeiros, ficará muito difícil compartilhar a caridade noutras regiões do planeta. Não nos esqueçamos que os bens da nossa Sociedade são patrimônio dos Pobres, conforme aprendemos de São Vicente de Paulo[12]. E, prioritariamente para os Pobres, devem ser orientados os recursos que arrecadamos ou recebemos. Também por isso, a administração de tudo o que possuímos não pode deixar de ser criteriosa e transparente, como nos ensinaram os nossos fundadores.

A respeito de eleições em vários níveis da estrutura da SSVP, temos percebido que alguns candidatos costumam reclamar sobre o resultado do pleito, não aceitando o desejo democrático da maioria ou questionando as regras dos certames. Evidentemente, podem ocorrer falhas nesses processos eleitorais os quais devem ser revistos pelos Conselhos hierarquicamente superiores, bem como aprimorados por mecanismos de transparência que estamos implantando, como a Ouvidoria-Geral; mas, sem entrar em peculiaridades locais, precisamos de Vicentinos mais flexíveis e tolerantes[13], que aceitem o resultado das urnas, sabendo humildemente congratular os vitoriosos e desejar-lhes o apoio necessário para bem conduzir os destinos da SSVP em cada localidade. O Conselho Geral felicita todos os vicentinos que se têm colocado à disposição nas eleições, pois, sem eles, não seria possível promover a renovação permanente da nossa instituição.

Não poderia deixar de abordar, na primeira Carta-Circular deste mandato, o tema fundamental da visita ao domicílio das famílias necessitadas[14], que é o ponto central de atuação das Conferências Vicentinas. Rosalie Rendu ensinou aos fundadores a forma adequada de encontrar os Pobres e de promover essas visitas dentro do espírito evangélico; elas devem ser a oportunidade para que os vicentinos se tornem amigos dos Pobres, envolvendo-se na situação desfavorável deles, sofrendo os dramas pessoais[15] de cada um, numa ação carinhosa e transformadora. Esse espírito deve prevalecer nas nossas visitas vicentinas, aliviando todas as formas de pobreza que se apresentam no exercício desse serviço missionário.

Fazer parte da Sociedade de São Vicente de Paulo deve constituir-se numa adesão voluntária, espontânea, verdadeira e desinteressada[16]. O que mais importa nesse ministério vocacional é o serviço aos Pobres. Quando o assunto for o Pobre, não devem existir divergências entre nós. Se realmente o foco do trabalho vicentino estiver na pessoa do necessitado, teremos a certeza de estar no caminho certo e evitaremos muitas desilusões, frustrações ou decepções na caminhada vicentina. Em verdade, não há problema em haver divergência de opinião entre nós, mas elas devem humildemente restringir-se à forma do serviço. Também as desilusões e decepções são inevitáveis[17], mas devem ser tratadas com misericórdia e oferecidas a Deus como sacrifício pelas pessoas carentes a quem desejamos servir e promover. Assim, devemos centrarmo-nos no que realmente interessa: a caridade, a oração, o amor gratuito para com os Pobres, a colaboração com a missão da Igreja, a busca da nossa santificação e a transformação do mundo[18].

Necessitamos, também, evitar certos problemas de relacionamento que a SSVP possa ter com a Igreja, com outras entidades e até mesmo no seio da Família Vicentina. Os dirigentes da Sociedade de São Vicente de Paulo devem ser pessoas abertas ao diálogo, compreensivas, resilientes e dispostas ao consenso, como bem nos recomenda a tradição vicentina[19]. Boa parte destes tipos de problemas vividos em alguns países reside no não cumprimento da Regra, na relutância de alguns em ceder e na dificuldade em desapegar-se do próprio parecer em nome de algo maior e conciliador. Portanto, sem aqui defender um lado ou outro, o Presidente Geral roga a todas as lideranças que exerçam as suas funções com empatia, humildade e caridade, estando distante das vaidades humanas[20], o que ajudará muito a melhorar as relações institucionais com o mundo exterior.

Por fim, é fundamental mencionar que, em algumas regiões do planeta, algumas Conferências encontram-se excessivamente dependentes da ajuda econômica internacional, gerando acomodação por parte dos Vicentinos. Tais doações, vindas do exterior, são importantes; mas, é preciso deixar claro que os membros das Conferências devem articular-se para conseguir tais recursos no nível local, a fim de que a caridade possa ser realizada imediatamente, e não somente por conta das contribuições que recebam de outros países. A Conferência e seus membros são os protagonistas diretos diante do sofrimento das pessoas socorridas.

4. Ano Temático de Bailly – 2017

Aproveito esta oportunidade para anunciar que 2017 é o “Ano Temático de Bailly”. Pretendemos estimular o estudo sobre a biografia e obra deste homem memorável, que criou as condições adequadas para que aqueles jovens franceses, em 1833, pudessem organizar e criar as “Conferências da Caridade”.

Emmanuel Joseph Bailly foi o primeiro Presidente Geral da SSVP, e a sua vida foi inteiramente dedicada à caridade. Vale a pena conhecer a história de Bailly em detalhe. Por exemplo, é importante salientar que Bailly foi um homem extremamente conciliador. A primeira Conferência era formada por jovens de diferentes origens: alguns eram advogados, outros médicos; uns eram republicanos, e outros monarquistas; alguns eram liberais, outros conservadores. Mas, Bailly soube liderar a todos na mesma vocação e no mesmo caminho, e conseguiu, com maestria, conduzir o processo de desmembramento da Conferência São Suplício (a chamada “Conferência Mãe”), evitando a divisão e a dispersão daqueles jovens, entre tantas outras importantes intervenções feitas por ele ao longo da vida vicentina. De fato, temos muito a aprender com Emmanuel Bailly!

Para tanto, estamos abrindo um concurso internacional de redações/ensaios (textos inéditos), com no máximo 20 páginas, conforme regulamento específico que será disponibilizado no site do CGI nas próximas semanas. Serão concedidos prêmios em dinheiro, tanto para os autores vencedores como para as Conferências em que eles atuam. Temos a certeza de que os trabalhos acadêmicos sobre Bailly serão profundamente ricos, apresentando curiosidades e particularidades da vida deste homem revestido de sabedoria e caridade. Assim, poderemos, no final do concurso, compartilhar esse conhecimento com todos os confrades e consócias do mundo. Estamos seguros de que o concurso será um grande sucesso, e que os Conselhos Superiores ajudarão o CGI na difusão dessa iniciativa, incentivando a participação de todos.

Esse concurso repetir-se-á todos os anos, até 2022, envolvendo todos os fundadores, com exceção de Ozanam que possui vasta literatura conhecida. No início de cada ano, e nas próximas Cartas-Circulares de nosso mandato, estaremos anunciando um fundador diferente para cada um dos anos temáticos. Essa iniciativa é uma maneira de o Conselho Geral Internacional valorizar o papel de todos os fundadores, que juntos receberam a inspiração divina de fundar[21] a Sociedade de São Vicente de Paulo. O Bem-aventurado Frederico Ozanam, dentre os sete fundadores originários, é aquele sobre o qual possuímos mais informações históricas e biográficas. Por isso, precisamos dar aos demais fundadores esse mesmo reconhecimento e destaque, pois, sem eles, não estaríamos aqui hoje e nem existiríamos como Sociedade.

5. Conclusão

Queridas vicentinas e queridos vicentinos!

Jamais pensei ser eleito o Presidente Geral internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo. Aquele adolescente de 16 anos de idade, que ingressou na Conferência Santo Tomás de Aquino, na cidade de Campinas, Estado de São Paulo (Brasil), há 30 anos, queria apenas visitar famílias carentes e, quem sabe, ajudar a quem estava passando por dificuldades na vida. Mas, a Providência Divina assim o quis e o Espírito Santo me escolheu para ser o líder-servidor de toda a SSVP. Por isso, preciso muito das orações e do apoio de todos os vicentinos do mundo inteiro.

Peço-vos que rezeis por mim e pelos dirigentes que ocupam funções nos diversos órgãos, departamentos, comissões e assessorias do Conselho Geral Internacional, além dos funcionários da sede em Paris, pedindo a Deus a sabedoria necessária para bem conduzir o futuro da nossa instituição. Somos todos passíveis de falhas e podemos até tomar decisões equivocadas. Não teremos, contudo, receio de reconhecer os erros que venham a ocorrer. Uma certeza posso assegurar-vos: não mediremos esforços para fazer o nosso melhor pelo Conselho Geral, pela estrutura da SSVP e pelos mais de 30 milhões de assistidos em todo o globo.

Em 2017, viveremos a comemoração dos 400 anos do carisma vicentino e da fundação da Associação Internacional de Caridades (AIC). Peço a todas as Conferências e Conselhos que se dediquem efetivamente nas atividades coordenadas pela Família Vicentina nas suas regiões, participando nos eventos e nos projetos comuns, em ampla colaboração com os diferentes Ramos vicentinos. Saboreiem as leituras espirituais que serão sugeridas pela Família Vicentina ao longo deste ano, pois elas destacarão as origens do nosso carisma comum. É sempre bom, de vez em quando, revisitar os conceitos, valores e princípios gerados pelo carisma, reavaliando a qualidade da nossa ação para os tempos presentes.

Somos uma associação internacional de leigos católicos, e uma verdadeira “comunidade de fé, de oração e de esperança”. Essa característica acompanha-nos desde as origens da nossa fundação, em 1833 e, por isso, não podemos perder essa condição que faz parte da nossa identidade e missão. Neste ano, celebramos também os 20 anos de beatificação de Ozanam, e é sempre bom meditar e recordar sobre as nossas origens fundacionais leigas.

Agradeço, de todo o coração, aos vicentinos que aceitaram o convite por mim formulado para fazer parte da diretoria do Conselho Geral Internacional. Obrigado pela vossa disponibilidade, compromisso e doação integral à estrutura da SSVP. Da mesma forma, também felicito todos os vicentinos que já serviram ao Conselho Geral em outros mandatos, nas diversas funções. Vós ajudastes a elevar o Conselho Geral Internacional ao excelente patamar em que ele se encontra hoje. Deus os cumule de bênçãos!

Sei que muitos assuntos ficaram de fora desta Carta-Circular (formação, juventude, família, terceira idade e imigração), mas, prometo abordá-los nas próximas edições. Gostaria de receber sugestões de temas para tratar nos anos vindouros. Ficarei aguardando os vossos comentários e observações pelo e-mail O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Deixo-vos uma mensagem de esperança e de caridade, baseada nas virtudes evangélicas, desejando que a humildade seja a marca de todo o vicentino e de toda a vicentina, especialmente daqueles que desempenham funções nos Conselhos e nas Obras: “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (São Marcos 9, 35b).  Esse é também o lema do nosso mandato.

Sob o olhar suave de Nossa Senhora das Graças, com as bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo e as luzes do Divino Espírito Santo, agradeço a atenção de todos.

Com carinho e afeto, servindo sempre na esperança,

Renato LIMA DE OLIVEIRA

16º Presidente Geral



[1] A primeira Carta-Circular foi escrita por Emmanuel Joseph Bailly em 14 de julho de 1841. Nela, o Conselho Geral emitiu inúmeras recomendações sobre a fidelidade à Regra, a organização e hierarquia da Sociedade de São Vicente de Paulo, a visita aos Pobres e as relações cordiais com outras instituições beneméritas.

[2]Esse tema sempre foi preocupação dos presidentes e dos secretários gerais da SSVP. No preâmbulo da Regra, em dezembro de 1835, o tema foi também tratado, mas na Carta-Circular de Emmanuel Bailly, de 1º de dezembro de 1842, a recomendação foi explícita: “Não deixemos, portanto, penetrar em nossas Conferências o espírito da discussão”.

[3] Nesta Carta-Circular, a palavra “Pobre” será sempre escrita com “p” maiúsculo, pois os Pobres são a nossa razão de existir.

[4] Escrevendo a um dos seus missionários, assim se expressou São Vicente de Paulo: “Nosso Senhor não tem o que fazer com nosso saber e com nossas boas obras, se nosso coração não lhe pertencer” (SV VII, 467). Como Vicentinos, nossa santidade se define por essa entrega do coração a Deus para realizar Sua obra de amor junto aos Pobres, servindo-os, evangelizando-os e deixando-se evangelizar por eles.

[5] No Manual da Sociedade de São Vicente de Paulo, datado de setembro de 1845, o crescimento da SSVP foi bastante tratado, pois era uma preocupação dos fundadores que a associação pudesse crescer sem perder o “espírito primitivo”.

[6] Capítulos 6 e 7 da Regra da Confederação Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo.

[7] Vale recordar a afirmação de São Vicente de Paulo  sobre o sacramento da Eucaristia: “O amor é inventivo até o infinito” (SV XI, 145).

[8] Consultar: “Considerações preliminares e notas esclarecedoras ao Regulamento” (dezembro de 1835).

[9] Sobre esse assunto, recomendamos a leitura da Carta-Circular de 30 de junho de 2001, escrita pelo 14º Presidente Geral, José Ramón Díaz-Torremocha y Díaz.

[10] Para conhecer mais detalhes sobre esse tópico, recomendamos a leitura do artigo “As duas redes de caridade”, da autoria do Presidente Geral, no livro “Crônicas Vicentinas IV”.

[11] Regra da Confederação Internacional da SSVP, artigo 3.6 (“Dos Conselhos”).

[12] São Vicente de Paulo deixou-nos esta afirmação lapidar: “Vivemos do patrimônio de Jesus Cristo, e do suor dos Pobres” (SV XI, 201).

[13] Sobre esse assunto, sugiro a leitura da parte intitulada “Qualidades que há de ter o Presidente”, na Carta-Circular de 1º de março de 1844, de autoria do primeiro Presidente Geral, Emmanuel Joseph Bailly.

[14] Consultar a carta do Bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam de 9 de fevereiro de 1837, enviada ao Conselho Geral de Paris, contendo os avanços da expansão das Conferências Vicentinas em Lion e redondezas. Nela, Ozanam assim se expressa: “A visita aos Pobres em domicílio tem sido sempre a nossa principal obra”. Também Emmanuel Joseph Bailly, na Carta-Circular de 14 de julho de 1841, reforça esse princípio: “Não se descuidem, jamais, de fazer a visita aos Pobres no seu domicílio”.

[15] Sobre esse tema, merece destaque a Carta-Circular de François Lallier, de agosto de 1837, em que ele diz: “É gratificante escutar os Pobres e demonstrar interesse quanto ao relato das suas desgraças e problemas domésticos”.

[16] A respeito desse tema, na Carta-Circular de 14 de julho de 1841, Bailly assevera: “Nada nos é imposto, tudo é voluntariamente aceito, porque entre nós existe, sobretudo, caridade. Caridade esta que possui força suficiente para unir os homens e levá-los ao caminho do bem”.

[17] Na Carta-Circular de 1º de dezembro de 1842, Bailly assim se manifestou: “Existimos para unir, e não para dividir. Para ter êxito no nosso trabalho caritativo, é preciso sofrer e calar. A grandeza não se alcança senão pela humildade”.

[18] Confrontemo-nos com as impressionantes palavras que o Bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam dirigiu à Assembleia Geral da SSVP, no dia 14 de dezembro de 1848: “Estamos convencidos de que a ciência das reformas benéficas não se aprende nos livros nem nas tribunas das assembleias públicas, mas no subir às encostas dos pobres, em sentar-se à sua cabeceira, em sofrer o frio que eles sofrem, em arrancar com a efusão de um colóquio amigável o segredo de sua alma desolada. Quando alguém se dedica a esse ministério, não por alguns meses, mas ao longo dos anos, então pode-se começar a conhecer os elementos fundamentais desse problema que se chama miséria. Tem-se, então, o direito de propor medidas sérias, as quais, em lugar de assustar as pessoas, servem de consolo e esperança”.

[19] Na Carta-Circular do Conselho Geral Internacional, datada de 11 de junho de 1844, Antônio Frederico Ozanam e outros dois dirigentes – Leon Cornudet e Louis de Baudicour – listam uma série de qualidades necessárias para ser presidente de Conselho, entre elas: grande piedade, servir de exemplo, grande respeito e virtudes, hábito da entrega, espírito de fraternidade, prudência e simplicidade. Já na Carta-Circular de Bailly, datada de 1º de março de 1844, o Presidente Geral pede que os dirigentes tenham “talento, piedade e prudência cristã”.

[20] Em várias Cartas-Circulares, os presidentes gerais já trataram da questão da vaidade, com bastante propriedade, além de outras ervas daninhas, como a inveja e a ingratidão.

[21] Em 30 de janeiro de 1853, ao participar da fundação de uma Conferência Vicentina em Florência (Itália), Ozanam assim se manifestou: “Não podemos considerar que nós somos os fundadores, pois foi Deus quem o quis e Ele mesmo fundou nossa Sociedade”.

Revista Voz de Ozanam – Edição de Mai/Jun de 2017
Artigo: São Vicente de Paulo e a Organização da Caridade.
Seção: Contra as pobrezas, agir juntos.
São Vicente de Paulo e a Organização da Caridade
Renato Lima

Uma das principais características do trabalho vicentino é a chamada “caridade organizada”. Essa marca vem desde as origens do carisma vicentino, quando São Vicente de Paulo, em 1617, portanto há 400 anos, proferiu o célere Sermão da Caridade, na cidade de Chatillon-des-Dombes, onde ele era pároco. Nos livros vicentinos, podemos encontrar a informação de que tal homilia ocorreu no dia 20 de agosto de 1617, quando o santo da caridade expôs a situação de carência vivida por uma família das redondezas da paróquia, e a comunidade respondeu prontamente ao apelo do sacerdote, fazendo-lhe visitas e doando-lhe bens. 

Só que a ajuda prestada pelos membros da comunidade àquela família pobre ocorreu de maneira desorganizada. A entrega das doações, como alimentos, roupas, remédios e calçados, foi muita generosa. Era verão na França àquela altura e fazia muito calor; as pessoas descansavam pelo caminho, sentadas no chão refrescando-se nos riachos. Relata a história que tamanha era a quantidade de pessoas indo visitar a família necessitada que, pelo caminho, alguns chegavam a afirmar que se tratava de uma procissão. Eram apenas as pessoas de boa vontade, sensibilizadas pela solicitação de Vicente, para acolher e ajudar a uma família carente. 

São Vicente, diante desse episódio memorável em Chatillon, teve a ideia de “organizar a caridade” para que o socorro daquela família acontecesse de forma ordeira, e que as doações pudessem ser entregues escalonadamente, em cotas menores e suficientes para a sobrevivência semanal ou mensal. Inicialmente, Vicente convidou as mulheres da cidade para organizarem a caridade e para cuidarem dos pobres e dos enfermos. Depois, outros leigos foram envolvidos nesse processo. A partir dessa experiência, o padre Vicente começou também a pedir doações perante as famílias abastadas da França, e iniciou seus projetos para acolher enfermos em hospitais. 

Contudo, Vicente não chegou propriamente a estabelecer uma sistemática para as visitas semanais às famílias carentes. Todo o pensamento dele a respeito era transmitido nas palestras, nos escritos e nas homilias que ele dirigia aos paroquianos, às religiosas e às damas da caridade. Esse “clique” que Vicente de Paulo teve foi muito significativo, e marcou definitivamente o trabalho desse santo. Esse legado vem caracterizando praticamente todos os ramos da Família Vicentina, os fundados ou inspirados por ele, assim como a Sociedade de São Vicente de Paulo, cujo modus operandi reside justamente na visita domiciliar e na caridade organizada em nossas obras unidas e especiais. 

Vicente foi inovador, único, vanguardista, pioneiro. Era missionário por natureza. Ele percebeu que aquele “pequeno gesto”, ao organizar a caridade em Chatillon, poderia ser replicado na França toda, especialmente na zona rural, por intermédio das famosas “missões”. E assim se fez: essa é a “marca registrada” de São Vicente de Paulo. Por meio da caridade organizada, Vicente estabelecia as duas dimensões da visita ao necessitado: a ajuda material e a ajuda espiritual. Tudo em Vicente era perfeito, pois ele estava sendo orientado pelo Espírito Santo para produzir boas obras, e possibilitar que outras pessoas pudessem desfrutar desse enorme benefício de santificação e conversão pessoal. 

Nós, Vicentinos do século XXI, devemos seguir à risca as orientações deixadas por Vicente de Paulo, por Rosalie Rendu, por Luísa de Marillac, Ozanam e os demais cofundadores, no sentido de praticar a verdadeira “caridade organizada” para melhor servir aos pobres. Essa organização é a responsável pelo êxito da ação vicentina, quer seja no aspecto administrativo das obras e projetos, quer seja no aspecto espiritual das visitas e do atendimento às famílias necessitadas. Essa organização vê tudo, abarca tudo e projeta tudo, desde as necessidades mais básicas do ser humano, até aquelas relacionadas aos aspectos moral, social e laboral. 

Vale ainda destacar que a filosofia de Vicente sempre esteve alinhada com as diretrizes da Igreja Católica. Perante as novas e complexas formas de pobreza, devemos praticar uma “caridade inteligente”, capaz de ouvir as necessidades de quem sofre; uma “caridade organizada”, capaz de oferecer respostas inovadoras à crise moral em que estamos inseridos nos tempos modernos; e uma “caridade inclusiva”, que ataque as causas dos problemas e não se limite a fornecer só serviços necessários, mas, que acompanhe também quem se encontra em dificuldade. Só assim poderemos recolher os frutos duradouros do trabalho caritativo e vicentino.

São Vicente de Paulo nos deixou esse grande exemplo de amor ao próximo, abraçando com carinho e caridade os mais pobres e necessitados do seu tempo. Ele serviu de exemplo para nós, da SSVP e da Família Vicentina, com seu legado de ajuda ao próximo, através da caridade organizada, com amor e justiça. Portanto, esforcemo-nos a praticar a caridade organizada, que é a chave do sucesso das ações vicentinas. Para isso, temos que seguir a Regra, manter a unidade dentro da SSVP, sermos mais tolerantes perante os assistidos e os próprios vicentinos, e assim atingiremos nossos objetivos. 

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Revista Voz de Ozanam – Edição de Mar/Abr de 2017
Tema desta Edição: São Vicente de Paulo e as várias formas de pobrezas
Seção: Contra as pobrezas, agir juntos
São Vicente de Paulo e as várias formas de pobrezas
Autor: Renato Lima

Dando continuidade à série de reflexões espirituais sobre o biênio temático “Contra as pobrezas, agir juntos”, esta edição da Revista “Voz de Ozanam” abordará a questão da interação de Vicente de Paulo com as variadas formas de pobreza existentes.

Vivemos numa época em que, quando falamos a palavra “pobreza”, já não nos referimos unicamente às carências materiais de uma pessoa ou família, mas, sobretudo, ao conjunto de necessidades que podem afligir alguém, como doenças, desemprego, desarmonia emocional, aspectos psicológicos, exclusão digital e social, entre tantas outras misérias. 

Contudo, para o Banco Mundial, “pobreza extrema” significa viver com o equivalente a menos de um dólar (cerca de R$ 3,00) por dia, e “pobreza moderada” está baseada no patamar de dois dólares (R$ 6,00) por dia. Mas, será que pobreza é apenas a falta de dinheiro e de bens materiais? Pobreza seria somente a carência de alimentação, vestuário, alojamento, educação e saúde? Essas são as facetas mais conhecidas da necessidade humana, as quais, nós, vicentinos, sabemos muito bem que não são as únicas misérias que atingem as pessoas. 

O ser humano moderno é bastante complexo, e às vezes ele pode “ter tudo” materialmente falando, mas, pode estar deprimido, com baixa da autoestima, indiferente ou recorrendo aos vícios para pretensamente mitigar os efeitos desse tipo de distúrbio social. 

Nos tempos de São Vicente de Paulo, a sociedade poderia até ser diferente da atual, mas, as várias formas de pobreza eram as mesmas. A receita de Vicente para vencer esses desafios eram (e são) também atuais: a caridade, a generosidade, a amizade e a empatia. Foi assim que o capelão das galeras mostrou a face de Cristo aos que o rodeavam, dando testemunho evangélico e convidando a todos à conversão. 

Pela caridade, Vicente ajudava sem ver a quem, de forma impessoal, buscando servir a quem necessitava, sem preconceitos ou pré-julgamentos. Pela generosidade, Vicente compartilhava tudo o que tinha, e buscava obter doações entre aqueles que muito tinham. Pela amizade, o padre Vicente tornava-se amigo verdadeiro dos pobres, conquistando a confiança deles e colocando-se à disposição dos necessitados. E pela empatia, Vicente de Paulo sentia na pele as dores dos pobres, dos migrantes, dos doentes e dos excluídos, buscando confortá-los e animando-os com esperança. 

O papa Francisco certa vez afirmou que “a pior pobreza é a falta de Cristo”. Na mesma linha, Santa Teresa de Calcutá afirmou que “a falta de amor é a maior das pobrezas”. E eles têm razão: de que adianta as pessoas terem bens materiais, ostentando e esbanjando objetos e tecnologia apenas por capricho, para mostrar-se “mais importante” que os outros, se o principal (o espírito) está vazio, oco, completamente pobre? É notório que a falta de condições dignas de vida diminui as potencialidades do ser humano; mas, a falta de fé, de oração e do elemento espiritual em nossas vidas representam um vazio eterno que somente pode ser preenchido com Jesus Cristo. 

E isso, São Vicente de Paulo sabia fazer muito bem. Além de acolher a quem sofria, e de sofrer com aqueles a quem acolhia, Vicente cuidava de todas as dimensões do ser humano, não somente a material (que eram e são as mais percebidas explicitamente pelas pessoas). A oração era algo muito presente na vida do santo, que rezava tanto quanto agia. Desse modo, o santo da caridade enxergava o interior dos seres, o coração dos filhos de Deus, o fulcro de nossa existência. A caridade de Vicente era integral e englobava as várias formas de pobreza, assim como deve ser a nossa forma de abordar e de servir aos Pobres nos tempos de hoje. 

O Vicentino precisa estar atento a essas novas e variadas formas de pobreza, nem sempre tão fáceis de serem identificadas. É por essa razão que a visita domiciliar deve ser feita sem pressa, com critérios e focada efetivamente na resolução dos problemas das famílias assistidas. Devemos rechaçar, por completo, aquelas “visitinhas de médico”, pois, nelas a qualidade da visita fica realmente comprometida. A visita deve durar o tempo necessário para que os Vicentinos possam perceber a realidade dos socorridos e como enfrentar cada dificuldade. É na visita ao Pobre que os vicentinos conseguem perceber as várias formas de pobreza que afetam a realidade das famílias carentes para, desta forma, propor melhorias. 

Uma curiosidade que demonstra que São Vicente de Paulo era, realmente, um visionário: o desejo de Vicente (de enfrentar a miséria) é, nos dias de hoje, meta dos países que formam as Nações Unidas, cujo objetivo número 1 é “acabar com a pobreza em todas as suas formas e em todos os lugares”. Como se vê, o sonho de Vicente segue atual, e mostra que a humanidade pode ter crescido bastante na dimensão tecnológica, mas, ainda carece de amor na dimensão social nesses últimos séculos. Para reflexão na Conferência: “Uma luz brilha nas trevas para o justo. Ele é correto, generoso e compassivo. Feliz o homem caridoso e prestativo. Seu coração está tranquilo e nada teme. Ele reparte com os pobres os seus bens. Permanece para sempre o bem que ele fez, e crescerão a sua glória e seu poder” (Salmo 111).

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 Voz de Ozanam – JAN e FEV – 2017
Contra as pobrezas, agir juntos!
Cfd. Renato Lima

Chegamos a 2017, um ano em que a Família Vicentina e a SSVP têm muito a refletir e a comemorar. Será um ano repleto de celebrações que tocarão fundo os corações dos Vicentinos: os 400 anos do carisma (Folleville e Châtillon), a fundação da Associação Internacional de Caridades (antigas “Damas da Caridade”) e os 20 anos da beatificação de Antônio Frederico Ozanam. No âmbito do Conselho Geral Internacional, este também será o “Ano de Bailly”. Além disso, o Conselho Nacional do Brasil está propondo o tema “Contra as pobrezas, agir juntos”, que consiste numa audaciosa proposta de atuação conjunta, entre todos os Ramos da Família Vicentina, para conseguirmos debelar os males que afligem a humanidade, entre eles a fome, a miséria, a segregação, o desemprego, a falta de saúde e educação, entre outras tantas necessidades materiais, espirituais e morais.

Devido ao resgate histórico da celebração dos 400 anos, iremos voltar às origens e encontrar “aquele” São Vicente de Paulo do século XVII, inspirador de todos. Seguramente, esse será o momento propício para revisitar nossa identidade e nosso carisma, reavaliando a assistência prestada aos pobres (em nossas Conferências e obras) e o estilo de evangelização em marcha. Vicente, naquele tempo, ao deparar-se com a miséria, as doenças e a exclusão social, tomou a decisão firme de ficar do lado dos mais carentes. A caridade feita aos que vivem alguma situação de pobreza deve ser imediata e efetiva, assim como nos ensinou São Vicente de Paulo. Os pobres não podem esperar! E todo esse esforço de “agir juntos” só tem uma razão de ser: aportar um serviço generoso e eficiente a quem mais precisa. E essa “nova postura” deve levar em conta os projetos de Mudança Sistêmica que a SSVP e os demais Ramos da Família Vicentina têm estimulado no Brasil e no mundo, pois, só esse tipo de ação irá, de fato, reduzir a dependência que os mais carentes têm de programas assistencialistas dos governos. 

No último “Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza” (cuja data foi fixada pela Organização das Nações Unidas em 17 de outubro), o papa Francisco rezou com os fiéis presentes na Praça de São Pedro, e assim se manifestou para aquela multidão: “Unamos as nossas forças, morais e econômicas, para lutar juntos contra a pobreza que degrada, ofende e mata tantos irmãos e irmãs, colocando em prática políticas sérias para as famílias e para o trabalho”. Como podemos perceber, essa preocupação não é apenas dos Vicentinos, mas é o apelo que a Igreja faz no sentido de sensibilizar a humanidade inteira para que, todos juntos, possamos construir um mundo melhor por meio de uma sociedade fraterna que cuide dos pobres com dignidade e respeito. O sucesso dessa ação depende da adesão de todos, sem exceção. 

O papa também deixou-nos algumas recomendações: “Lutai contra a pobreza e, ao mesmo tempo, aprendei dos pobres. Deixai-vos inspirar e guiar pela sua vida simples e essencial, pelos seus valores, pelo seu sentido de solidariedade e partilha, por sua capacidade de se reerguer nas dificuldades e, sobretudo, pela sua experiência vivida do Cristo sofredor. Trata-se de fazer resplandecer a caridade e a justiça no mundo, à luz do Evangelho e do ensinamento da Igreja, envolvendo os pobres para que estes sejam os verdadeiros protagonistas de seu desenvolvimento”. “A pobreza, a fome, as doenças, a opressão não são uma fatalidade e não podem representar situações permanentes. Confiando na força o Evangelho, podemos contribuir para mudar as coisas ou, pelo menos, melhorá-las, e podemos reafirmar a dignidade de quantos aguardam por um sinal do nosso amor”, ensina o nosso querido pontífice. 

A situação da pobreza, e das formas de combatê-la, também é preocupação dos mais importantes organismos internacionais de desenvolvimento e investimento. Vejam essa frase que aparece num relatório social do Bando Mundial: “A pobreza é uma convocação para agir, para os pobres e também para os ricos. É um chamado para mudar o mundo a fim de que muitos mais tenham o suficiente para comer, abrigo adequado, acesso à educação e saúde, proteção diante da violência e voz ativa sobre o que ocorre em sua comunidade”. O que o Banco quer dizer, em outras palavras, é que a existência da pobreza é, por si só, capaz de unir as pessoas na busca de soluções para superá-la, e nesse contexto se insere o trabalho vicentino. 

Na verdade, modernamente, é preferível utilizar a expressão “formas de pobreza” no lugar meramente de “pobreza”, pois não estamos nos referindo unicamente às pessoas que vivem com menos de um dólar por dia ou que têm carência de alimentos, ainda que essa necessidade seja a mais prioritária no mundo. Essas outras formas estão relacionadas a temas ligados aos refugiados, às doenças, à falta de emprego, ao abandono da infância e dos idosos, entre tantas outras situações que requerem uma intervenção solidária urgente. Mas qualquer esforço para minimizar o sofrimento alheio passa, necessariamente, pela mobilização social, pela conscientização política e, sobretudo, pela compreensão de que, juntos, somente juntos, poderemos empreender projetos realmente libertadores, inovadores e criativos. A caridade é criativa, como pregava São Vicente, e nós, Vicentinos, somos os seus artífices. 

Cfd. Renato Lima de Oliveira
Presidente Geral da SSVP

 

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