Renato Lima - 2016

Confrade Renato Lima, 37 anos, é vicentino há 22 anos. É vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial (no âmbito do Conselho Geral Internacional da SSVP), presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e coordenador do portal “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).
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Paris, 31 de janeiro de 2018.

CARTA-CIRCULAR AOS MEUS QUERIDOS CONFRADES E ÀS  MINHAS QUERIDAS CONSÓCIAS, MEMBROS DAS CONFERÊNCIAS  DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO PELO MUNDO

2018 – Ano Temático Internacional de François Lallier

1. Introdução

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

Meus queridos confrades, minhas queridas consócias, amados aspirantes, funcionários das nossas sedes e obras, estimados colaboradores e voluntários, amigos dos Vicentinos. Com alegria, dirijo-vos a segunda Carta-Circular deste mandato, desejando que essas linhas cheguem, com revigorada esperança, às Conferências Vicentinas dos 152 Conselhos Superiores em que a Sociedade de São Vicente de Paulo está presente.

Inicialmente, quero registrar meus sinceros agradecimentos a todos aqueles que têm apoiado as ações e iniciativas globais do Conselho Geral Internacional. Nesses primeiros meses de gestão [1], pudemos avançar bastante, na direção de uma Sociedade mais eficiente, mais dinâmica, renovada e mais moderna, sem jamais perder de vista as nossas raízes e características.

Agradeço, de coração, o apoio que temos recebido dos Conselhos Superiores, e pelas orações que os Vicentinos de todo o Planeta têm feito pela diretoria internacional. É por essa razão que temos sido abençoados nessa caminhada vicentina, sempre a favor dos mais necessitados. Mais que velocidade, precisamos estar na direção certa, e o feedback que temos recebido dos países nos indicam que, realmente, estamos no caminho correto, avançando e mantendo as conquistas dos mandatos anteriores.

Como é do conhecimento de todos, as Cartas-Circulares tiveram início em 1841, quando o 1º Presidente Geral, Emmanuel Joseph Bailly de Surcy, teve a genial ideia de escrevê-la. Desde então, os sucessivos Presidentes Gerais têm lançado mão desse fantástico meio de comunicação, na qual o Presidente conversa, franca e diretamente, com os todos Vicentinos do mundo. Recorro a esta importante ferramenta, novamente.

Na Carta-Circular de 2017, foi criado um e-mail específico (cgi.O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.) para receber comentários e sugestões as quais serão, de alguma maneira, abordadas no texto deste ano. Continuamos editando a Carta-Circular em sete idiomas (francês, inglês, espanhol, português, mandarim, árabe e italiano), agradecendo aos demais países que têm traduzido o texto para outros dialetos e línguas.

É desejo deste Presidente Geral que a Carta-Circular possa ser lida e meditada nas reuniões das Conferências e dos Conselhos, em todos os escalões da nossa entidade. Sugere-se que a Carta seja dividida em duas ou três partes, e meditada calmamente pela comunidade Vicentina mundial. Agradeço-vos pela meditação e debate da Carta em seus grupos.

2. Expediente do Conselho Geral

No primeiro ano de nosso mandato, pusemos em marcha o planejamento estratégico apresentado por ocasião do processo eleitoral. Compilamos o planejamento em 10 tópicos, e, a partir de agora, cada item terá metas e responsáveis específicos, que cuidarão de importantes objetivos estratégicos até 2022, quando encerraremos essa gestão.

Aproveito a oportunidade para anunciar-vos o texto da nova visão da Sociedade de São Vicente de Paulo: “Ser reconhecida como uma organização mundial que promove a dignidade integral dos mais necessitados”. A missão da nossa instituição ficou mais clara: “uma rede de amigos, buscando a santificação por meio do serviço ao necessitado e da defesa da justiça social”. Nossos valores são: serviço, espiritualidade, humildade, caridade e empatia. Agradecemos a todos os Vicentinos do mundo que enviaram quase 5.000 contribuições, pela internet, ao aprimoramento dos conceitos de visão, missão [2] e valores que submetemos à consulta pública internacional democrática. Todos vocês são autores desse trabalho. Parabéns e muito obrigado!

Além do planejamento estratégico, estamos levando a cabo uma série de programas e ideias, como o “Projeto SSVP Plus”, que consiste em levar a SSVP aos cerca de 60 países em que ela ainda não está presente. Também foi criado o Fundo Internacional de Solidariedade (FIS), que tem por objetivo ajudar regiões do Planeta afetadas por desastres naturais e projetos sociais. Destaco, ainda, entre tantos aspectos positivos, a criação da Ouvidoria-Geral Internacional, que vem tratando inúmeros casos que não foram adequadamente resolvidos na esfera nacional. A respeito da Ouvidoria, percebemos que a maioria dos casos que chegaram até nós foram por causa da inabilidade de as pessoas buscarem uma solução harmônica, sem vencedores nem perdedores, mas em que a Sociedade de São Vicente de Paulo fosse sempre a mais beneficiada.

Faço aqui um registro muito importante: a Estrutura é o coração do Conselho Geral Internacional. Por ela, todos os departamentos, assessorias e comissões oferecem serviços, recursos e projetos para toda a Sociedade de São Vicente de Paulo pelo mundo inteiro. A Estrutura é o Conselho em movimento. A Estrutura é, atualmente, formada pelas 12 Vice-presidências Territoriais Internacionais, com o auxílio de 23 Coordenadores de Zona. Essa equipe de serviço, formada por vicentinos dos cinco continentes, colabora com os trabalhos do Presidente Geral e da diretoria internacional, como nos ensina a Regra. O Presidente Geral não conseguiria, por limitações óbvias, estar presencialmente em todos os lugares ou visitar a totalidade dos 152 Conselhos Superiores em que a SSVP se encontra; mas os membros da Estrutura o podem! A Estrutura é a engrenagem que faz o CGI funcionar bem, mirar o futuro e aportar mais serviços. Diante de todos esses argumentos, fortalecer e valorizar a Estrutura Internacional do CGI é uma decisão estratégica para que a SSVP cresça e se desenvolva, em todo o mundo. Por isso, o Conselho Geral acaba de firmar um seguro de viagem coletivo para todos aqueles que servem na Estrutura.

A transparência que o Conselho Geral vem dando com a transmissão, ao vivo, das principais reuniões internacionais, o novo boletim “Ozanam Network”, as transmissões da Ozanam TV e a agilidade das redes sociais são outro aspecto que merece destaque. Estou muito feliz pelo “clube de tradutores” que estamos criando, formado por Vicentinos de todo mundo que estão, voluntariamente, colaborando com o CGI nas traduções de textos, notícias e relatórios que são publicados na webpage (www.ssvpglobal.org), cuja nova apresentação será lançada no primeiro semestre deste ano. Os custos de tradução são muito elevados e qualquer redução nos gastos é bem-vinda! Recomendamos que todos os Vicentinos do mundo acessem, regularmente, a webpage do Conselho Geral para ficarem bem informados sobre os trabalhos em marcha.

As doações regulares e generosas (em qualquer valor) feitas pelos Conselhos Superiores ao Conselho Geral permitem que uma série de iniciativas da Comissão Internacional de Ajuda e Desenvolvimento (CIAD) e do Departamento de Ajuda Fraterna Internacional (jumelage) possam ser implementadas. Faço aqui um apelo especial aos Conselhos Superiores (bem como aos Conselhos Metropolitanos, Regionais, Centrais e Particulares), que eventualmente tenham sobras de recursos, que também possam direcionar parte de suas receitas para ajudar os irmãos que sofrem, além-fronteiras. Também agradeço aos países que fazem parte do “Concordato” (Conselhos que efetuam doações fixas anuais ao Conselho Geral) por manter o CGI em pleno funcionamento.

Nesses primeiros meses de trabalho, a estrutura internacional do Conselho Geral visitou dezenas de países, participando de cerimônias de posse ou de grandes eventos e assembleias nacionais. Eu mesmo, como Presidente Geral, visitei 16 países, levando a mensagem de paz, de unidade e de fraternidade a todos os Vicentinos do mundo. A unidade é o aspecto mais importante na missão do Presidente Geral, desde os primórdios da SSVP, quando os presidentes gerais já se preocupavam com esse aspecto. Agradecemos aos Conselhos Superiores que nos convidaram, e também pela divisão dos custos de hospedagem e alimentação. Como é do vosso conhecimento, não sou aposentado e, desta forma, viagens internacionais não são fáceis para mim. Por isso, agradeço pela compreensão e pelo apoio incondicional que recebo. Nem sempre posso permanecer muitos dias num mesmo país, pois, meu tempo de férias pessoais ou licenças profissionais é limitado e prefiro alcançar um número mais elevado de nações em curto espaço de tempo. Em 2018, visitarei, se Deus quiser, seis países africanos, continente no qual a SSVP mais cresce.

Nas visitas institucionais que fiz, pude perceber que a SSVP vem fazendo um trabalho brilhante em muitas partes do globo. Diziam a mim que o Presidente Geral vinha para ensinar, mas, eu vos garanto que o Presidente Geral é quem mais aprende quando viaja. A SSVP, por todo o mundo, goza de elevada reputação e credibilidade, perante a Igreja e os governos; portanto, pude ver de perto a qualidade do trabalho de caridade realizado pelo mundo, e com orgulho vos agradeço por tamanha dedicação, amor e fraternidade. Pode mudar a língua, podem mudar os costumes, pode mudar a cultura, pode mudar a realidade local, mas o Vicentino e o trabalho de caridade são os mesmos.

Por outro lado, também vi situações não recomendadas [3], como disputas, falta de diálogo, conflitos por patrimônio, falta de caridade entre os membros, dificuldades de relacionamento com o clero, entesouramento de recursos, inveja e vaidade, ingratidão, falhas na formação vicentina, ruídos de comunicação interpessoal, problemas em Conferências e Conselhos, resistências pessoais e divergências de opiniões, entre outros temas que, lamentavelmente, me entristeceram. As misérias humanas também afligem a nossa SSVP. Para afastarmo-nos desses males, precisamos rezar mais, reciclar nossos conhecimentos nas oportunidades de formação que nos são oferecidas, e buscar a conciliação entre nós. Apesar disso, os aspectos positivos superam imensamente os temas desfavoráveis, e graças a Deus nossa instituição avança, apesar das adversidades. A Ouvidoria-Geral, por exemplo, tem ajudado sobremaneira na pacificação de vários casos pelo mundo. Em todas essas situações, sempre reafirmo que a busca da santidade é que vai nos levar ao Paraíso, não só nos céus, mas também aqui na Terra.

Estamos dando um ritmo novo no estabelecimento de acordos de cooperação internacional, além de outros convênios e parcerias, com entidades que desenvolvem um trabalho filantrópico semelhante ao nosso, contribuindo com a redução da miséria material e espiritual no mundo. Este ano, estaremos assinando acordo com a Ordem Soberana de Malta para o compartilhamento de experiências em projetos que atendam a crianças, jovens, mulheres em situação de risco, idosos e refugiados. Todos nós ganharemos com esses acordos.

Na área da juventude, só temos alegrias. Foi instituído o dia 4 de julho de 2017 como o DIA INTERNACIONAL DO JOVEM DA SSVP, e estamos organizando, para junho de 2018, o 2º Encontro Internacional da Juventude da SSVP, em Salamanca (Espanha), quando iremos reunir jovens dos 152 Conselhos Superiores. Parabenizo os Conselhos que já nomearam seus delegados nacionais de crianças, adolescentes e juventude, para alavancar esse importante setor dentro da organização Vicentina. Minha gratidão aos países que têm sido extremamente generosos no pagamento das despesas aéreas de jovens de nações que não têm condições econômicas de arcar com esse investimento. Meu ingresso na SSVP se deu no movimento da juventude vicentina[4], quando aos 16 anos comecei a dar os primeiros passos nas lides da caridade. Portanto, vós podeis esperar muito de um Presidente Geral que tem suas origens na juventude!

E sobre a canonização de Antônio Frederico Ozanam, é prioridade da atual diretoria localizar novos casos de possíveis milagres, por todo o mundo, e instruir esse processos de tal maneira que o Vaticano possa decidir com base nas regras da Congregação para a Causa dos Santos. Nossa equipe do Departamento de Canonização, e eu próprio, estamos muito empenhados e esperançosos de que a canonização está próxima, diante da força dos casos em estudo e das orações de todos os devotos de Ozanam[5] pelo planeta. Sinto isso em meu coração! Em outubro passado, tive a alegria de entregar nas mãos de Sua Santidade, o Papa Francisco, um dossiê com informações a respeito da canonização do confrade Ozanam, citando os casos de supostos milagres em análise pela Santa Sé.

Por fim, ressalto que o Conselho Geral lançou, no ano passado, a Medalha “Caridade na Esperança”, uma iniciativa que visa reconhecer entidades ou personalidades internacionais que desenvolvam trabalhos semelhantes aos da SSVP, pelo mundo. Cada Conselho Superior poderá indicar uma pessoa ou instituição, e a premiação acontecerá em junho deste ano, em Salamanca. A medalha é uma maneira de ampliar o relacionamento institucional da SSVP com todos aqueles que procuram construir um mundo melhor aqui na Terra, como nos pediu Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muitos êxitos foram alcançados. Mas, nada disso seria realidade sem o desejo supremo da Providência Divina, pois é o Senhor quem nos governa e é Ele quem decide nosso futuro[6]. Continuo a pedir-vos as vossas orações pelo êxito de todas essas iniciativas. Que o Senhor nos cumule de bênçãos para que sigamos adiante, com criatividade e inovação, servindo na esperança.

3. Recomendações aos Vicentinos

Pode ser que alguns Vicentinos se surpreendam com o que eu vou dizer-vos, mas, na minha ótica, o Conselho mais importante, em toda a estrutura de serviço da SSVP, é o Conselho Particular, também chamado, em alguns países, de Conselho de Zona, Conselho Distrital, Conselho de Área ou ainda Conselho Regional. Em resumo, estou a me referir ao conselho mais próximo das Conferências, pois, é ele que reúne as Conferências de uma determinada localidade. É dele a responsabilidade da coordenação da ação vicentina. Cabe ao Conselho Particular zelar pelo bom andamento da Sociedade de São Vicente de Paulo em nível local.

Nesta mesma linha, o dirigente Vicentino mais importante, em toda a estrutura organizacional da nossa entidade, é o presidente do Conselho Particular. De todo o meu coração, dirijo uma mensagem muito especial, do Presidente Geral para os meus queridos presidentes de Conselho Particular: acompanhem, de perto, os trabalhos das Conferências de sua região, pois vocês são os responsáveis pelo desenvolvimento da nossa instituição. Jamais permitam o fechamento de Conferências sem esgotar todas as opções administrativas. E também orientem as Conferências no sentido de que estas possuam uma quantidade adequada de membros (em alguns países, temos verificado um número excessivo de confrades e consócias na mesma Conferência, o que não contribui para que o trabalho de caridade seja eficiente). Apoiem os presidentes das Conferências, pois estes dependem de vocês. Sigam os exemplos dos nossos fundadores.

Da mesma maneira, aproveito para discorrer sobre o papel primordial dos presidentes de Conferência, cuja liderança[7] depende todo o trabalho do grupo, as ações de caridade junto aos assistidos, o relacionamento com a Igreja e a interação dentro da estrutura da SSVP. Um bom presidente de Conferência é aquele que abre portas, que não julga, não exclui, que faz de tudo para incluir os membros no processo decisório, que cuida da saúde dos seus membros, que se preocupa com a vida pessoal dos confrades e consócias. Os presidentes que agem assim estão cultivando a harmonia no seio da Conferência e afugentando os problemas. Já ocupei o nobre encargo de presidente de Conferência na cidade em que vivo, e posso assegurar-vos que foi uma experiência maravilhosa. Foi um tempo de oração, de conciliação, de harmonia, de tolerância, de paciência e de aprendizado. Desejo a todos que possam ter a alegria de passar pela função de presidente de Conferência, servindo aos irmãos necessitados e aos irmãos Vicentinos.

Boa parte dos conflitos existentes no seio da SSVP têm a ver com a falta de preparo dos nossos presidentes de Conferência e de Conselho Particular para resolver as demandas que envolvem contendas entre Vicentinos, com a Igreja ou com outros segmentos. Os presidentes precisam estar permanentemente capacitados em temas como gestão de crises, atuação institucional, relações pessoais, gestão de relacionamento, ética e convivência social, pois tais conteúdos auxiliam bastante na forma de dirimir os problemas. Muito mais que dominar assuntos relacionados à Regra e à biografia dos nossos fundadores, os dirigentes precisam desse tipo de capacitação humana. Percebemos que, onde os dirigentes estão adequadamente preparados, os problemas são resolvidos mais rapidamente e sem perdas. Por outro lado, onde os dirigentes não possuem tais qualidades, os problemas tendem a crescer e a multiplicar-se, gerando danos à imagem da SSVP e provocando baixas nos nossos quadros, o que não é o desejo de ninguém, nem do Presidente Geral. O diálogo, a cordialidade e a cortesia são características fundamentais no trato entre as pessoas, e isso não deveria ser diferente entre os Vicentinos. Evitemos conflitos desnecessários, é o que vos peço de coração. Busquem a concórdia e a união, por meio da oração, da virtude de humildade e da vivência dos sacramentos.

Também vale a pena mencionar a questão da visita domiciliar[8], que consiste na principal atividade da SSVP pelo mundo conforme nos ensinaram nossos fundadores. É verdade que a visita não é a única atividade Vicentina, mas, de acordo com nossos fundadores, ela é a principal e mais aderente ao espírito primitivo de nossa organização. As Conferências que executam a visita domiciliar devem se esforçar para mantê-la regular e sem descontinuidade, uma vez que as pessoas necessitadas precisam muito da mão amiga Vicentina, não somente por conta das doações de bens materiais, mas pelo aconselhamento moral e espiritual que lhes é dado. Sigam firmes e não esmoreçam quando, supostamente, as visitas não estiverem atingindo os resultados esperados. Deus está do nosso lado, e Ele está transformando os corações de quem recebe a visita Vicentina, mesmo quando não o percebemos.

Da mesma forma, rogo que as reuniões das Conferências não sofram interrupções. Eu mesmo, como Presidente Geral, frequento as reuniões da Conferência da qual faço parte. Todo dirigente Vicentino, não importando de qual escalão ou nível hierárquico, não está desobrigado de comparecer às reuniões. É na Conferência que os membros buscam a santificação pessoal, no contato com os outros membros, na coleta generosa e no desapego do próprio parecer[9] durante o processo de tomada de decisões. Percebi, após a visita a alguns países, que algumas Conferências têm se reunido fora dos princípios previstos na Regra, argumentando que a vida moderna cria empecilhos. Mas garanto-vos que a reunião semanal (ou quinzenal, segundo cada realidade nacional) é fundamental para assegurar a vitalidade da SSVP e a eficiência da ação junto aos que sofrem. Não abram mão das nossas origens, pois, isso garante que o formato idealizado por nossos fundadores não será alterado.

É preciso que a forma de agir das nossas Conferências se renove e se modernize[10]. Práticas tradicionais antigas nem sempre produzem os melhores resultados e não ajudam a enfrentar os problemas relacionados às diferentes formas de pobreza da atualidade, como a falta de educação, o desemprego e os problemas de saúde pública. É preciso adotar um novo olhar. É verdade que a pobreza material precisa ser debelada, mas, não podemos relegar, a segundo plano, as ações em busca da mitigação da pobreza espiritual[11], que talvez seja o trabalho mais difícil a ser empreendido pelas Conferências. Nem sempre nossos grupos estão preparados para tamanho desafio! Seguramente, a falta de Cristo é a maior das pobrezas[12], e, portanto, os membros de nossas Conferências, por todo o mundo, precisam estar abertos a novas ideias, ampliando a nossa rede de relacionamentos buscando parcerias estratégicas, em prol dos pobres que assistimos. Eventos de cunho espiritual e familiar são iniciativas que podem efetivamente contribuir para atingir essa meta.

Uma pergunta que me é feita em quase todos os continentes que visito é como recrutar e manter o jovem na SSVP. Não há uma “receita pronta” para esse imenso desafio, mas, algumas pistas podemos mencionar. Todos nós sabemos que os jovens estão ingressando mais tardiamente na SSVP, após resolverem aspectos em suas vidas pessoais, como casamento, filhos, emprego e casa própria. Tal comportamento é natural, e devemos aceitá-lo com naturalidade. Primeiramente, temos que apresentar a figura de Ozanam[13] como modelo de jovem, e mostrar que ele cresceu na vida pessoal e profissional simultaneamente à edificação na fé e na Igreja. Segundo, vale ressaltar que o jovem somente permanecerá na Conferência se oferecermos a ele um ambiente favorável para o desenvolvimento das virtudes Vicentinas. Se o jovem não encontrar esse clima propício e acolhedor, dificilmente permanecerá conosco. Por isso, zelemos para que as Conferências sejam lugares santos[14], agradáveis, alegres, motivadores, harmoniosos e, acima de tudo, joviais.

4. Ano Temático Internacional de François Lallier – 2018

Na condição de 16º Presidente Geral, hoje anuncio-vos que 2018 é o ANO TEMÁTICO INTERNACIONAL DE FRANÇOIS LALLIER. No dia 8 de fevereiro de 2018, o Conselho Geral Internacional vai lançar o Concurso Internacional de Monografias “A Primeira Conferência – Lallier”, para estudar a biografia de François Lallier, um dos principais responsáveis pela fundação colegiada da Sociedade de São Vicente de Paulo, em 1833. Serão premiados os trabalhos acadêmicos que busquem apresentar aspectos ainda pouco conhecidos sobre a vida pessoal, profissional, Vicentina e familiar de Lallier.

François Lallier (1814-1886) estudou com Ozanam na Faculdade de Direito na Sorbonne. Eles foram amigos muito próximos, sendo, inclusive, padrinho de batismo de Marie Josephine Ozanam, a filha de Ozanam. Casou-se em 1839, e foi pai de um filho (Henry), mas, sofreu a dor de perder a filha Julie.

Lallier foi um dos mais ativos durante os debates nas Conferências de História, e muito atuante também em todas as etapas de fundação da Sociedade. Advogado competente, depois juiz de Direito, François Lallier era reconhecido pelo uso culto da linguagem e teve o privilégio de minutar a primeira Regra, em 1835. Em 1837, foi nomeado Secretário-Geral da Sociedade, encarregado de redigir circulares e cartas. Ele foi o fundador mais jovem, e um dos que morreu com idade mais avançada. Foi testemunha viva de inúmeros acontecimentos envolvendo aquela entidade nascente.

Na SSVP, Lallier foi um dos grandes responsáveis pelo aconselhamento às Conferências e nas tratativas de expansão para outras nações, sempre preocupado com as origens da instituição. Fundou muitas Conferências. Além de trabalhar com os pobres, Lallier tinha um interesse ativo em arqueologia, vindo a participar da Sociedade de Arqueologia da cidade de Sens, França. Preparou relatórios sobre suas descobertas e participou de convenções arqueológicas, além de publicar vários estudos sociais e políticos. 

Um dos trabalhos mais destacados de Lallier foi escrever, em 1879, a pedido do 3º Presidente Geral, Adolphe Baudon, o livreto “Origens da Sociedade de São Vicente de Paulo, de acordo com as recordações dos seus primeiros membros”, ocasião em que ele reuniu-se com os fundadores vivos àquela altura (Le Taillandier, Lamache e Devaux) para elaborar tal documento, que foi publicado em 1882 e que se encontra na biblioteca do Conselho Geral para consulta.

Diante dessa rica biografia, o Conselho Geral Internacional crê que o Concurso Internacional de Monografias “A Primeira Conferência – Lallier” será um estrondoso sucesso, ainda como foi o Ano de Bailly (2017), cujos prêmios foram concedidos a Vicentinos de várias partes do mundo. É justamente isso o que desejamos: conhecer mais e melhor a vida e obra de nossos fundadores, suas qualidades, virtudes e imperfeições, pois, eles forjaram o DNA da nossa entidade, e nós carregamos o sangue deles em nossas veias.

Conforme regulamento específico que será disponibilizado no site do CGI nas próximas semanas, mantendo-se as linhas gerais utilizadas no concurso de 2017, serão concedidos prêmios em dinheiro[15], tanto para os autores vencedores como para as Conferências em que eles atuam. Temos a certeza de que os trabalhos acadêmicos sobre Lallier serão igualmente ricos aos de Bailly, apresentando curiosidades e particularidades da vida deste homem tão importante para a história da SSVP.

Convido a todos os Conselhos Superiores que publiquem artigos e reflexões focadas no papel preponderante de François Lallier no processo de fundação da SSVP, estimulando o estudo de sua vida e obra, nos aspectos pessoais, profissionais, acadêmicos e Vicentinos, contribuindo com o Conselho Geral na implantação do Ano Temático Internacional de 2018.

Solicito, ainda, que no dia 8 de dezembro de 2018, data de encerramento do “Ano Temático Internacional de François Lallier”, que sejam celebradas santas missas, em todo o mundo, pela intenção dos fundadores da SSVP, especialmente pela memória de François Lallier.

5. Conclusão

Queridas vicentinas e queridos vicentinos,

O mundo, hoje, vive imensos desafios – boa parte deles de cunho moral e espiritual – que nos são apresentados, diariamente. As Conferências, os Conselhos e nossas obras Vicentinas estão sempre a lutar para oferecer uma assistência amorosa, fraterna e solidária, levando esperança aos sem esperança, amor aos abandonados e carinho aos que foram excluídos da sociedade. Jovens, crianças, enfermos, idosos, pessoas solitárias, imigrantes, refugiados, famílias expulsas pelas guerras, pessoas em depressão ou que fazem uso de drogas, todos são alvo da assistência vicentina. Nenhuma obra de caridade é estranha à ação vicentina[16].

Temos que nos manter unidos e vigilantes nesse papel humanitário e social. A SSVP se une a todas as entidades beneméritas na construção da cultura da paz[17], que busca a harmonia entre os povos e a qualidade de vida para todos. Contudo, a sociedade civil, cada vez mais distante de Deus e das coisas sagradas, impõem-nos em ambiente desfavorável e até mesmo inóspito para a prática da caridade. Em muitas partes do mundo, entidades beneficentes são expulsas por decisões míopes de certas autoridades. A violência urbana em grande parte de nossas cidades, a intolerância religiosa, a forte tensão bélica entre os países e os movimentos separatistas são outros aspectos que contribuem para dar mais instabilidade ao mundo.

Mas Deus, nosso Senhor, não nos abandonará, até nos momentos mais difíceis, pois Ele sabe que nós fazemos parte do “exército santo da caridade”, estabelecido por Ele mesmo no sentido de proclamar a mensagem de Jesus Cristo em todos os cantos da Terra, ajudando a quem precisa, qualquer que seja a necessidade.

É nesse mundo, complexo e antirreligioso, insensível ao sofrimento humano, destruidor do meio ambiente, cujo materialismo ateu é refratário ao sagrado e pouco dado à família, que as Conferências Vicentinas estão inseridas. Portanto, sigam unidos, atentos, conectados e obstinados na missão histórica e profética da Sociedade de São Vicente de Paulo, assim como nos legaram os nossos fundadores. A Divina Providência nos auxiliará, e reverterá as dificuldades enfrentadas. Tenham fé, força e coragem para seguir em frente!

Peço-vos que me acompanhem na seguinte reflexão: de que me adianta viver bem se meu irmão, ao meu lado, sofre e precisa de tudo? É uma “falsa alegria”, um “falso contentamento”. Essa postura indiferente vai cobrar caro, já está cobrando caro, com o aumento dos índices de violência, a intolerância, a desagregação familiar, as drogas e a desesperança social. É urgente que todas as esferas envolvidas (governos, parlamentos, empresários, religiosos, etc) unam esforços no sentido de oferecer respostas efetivas a esses males que assolam grande parte dos nossos irmãos.

Por isso, eu sempre digo que “ser vicentino é fazer as pessoas felizes”[18]. O Vicentino é um eterno abençoado. É um missionário vocacionado, por natureza. Dedicado às causas altruístas. Discreto e sensível em estender a mão amiga a quem dela precisa. Possui amigos em todas as partes do mundo. Defensor da família e dos valores do Evangelho. Pessoa de fé, católico praticante e apoiador da Igreja. Pessoa de oração e de ação. Sempre disponível e solidário. Criativo e inovador. Propagador da cultura da paz.

Amante da justiça e inconformado com as injustiças sociais. Difusor da Doutrina Social da Igreja. Focado no próximo, focado no outro. Voluntário por natureza. Educador de mão cheia. Comprometido com a construção de um mundo melhor, mais justo e isonômico, com oportunidades para todos. Essas são algumas características do Vicentino. Por isso, reafirmo que “o Vicentino é um eterno abençoado”.

Novamente, peço-vos que rezeis por mim e pelos dirigentes que ocupam as diversas posições no âmbito do Conselho Geral Internacional, além dos funcionários da sede em Paris e dos presidentes dos Conselhos Superiores. E agradeço-vos, antecipadamente, pelas sugestões de temas e assuntos para a Carta-Circular de 2019, ocasião em que o Conselho Geral Internacional estará celebrando 180 anos de existência.

Com o carinho filial de Maria Santíssima, as bênçãos de Nosso Senhor Jesus Cristo e as luzes do Divino Espírito Santo, agradeço a atenção de todos. Com afeto, servindo sempre na esperança, seu servo.

 

 

 

Confrade Renato LIMA DE OLIVEIRA

16º Presidente Geral



[1] “Se alguém quiser ser o primeiro, seja o último de todos e o servo de todos” (São Marcos 9, 35b) é o lema do mandato 2016/2022.

 

[2] Sobre a missão, recomendo a leitura do livro “Rostos de Santidade” (2009), de autoria do padre Robert Maloney (CM), assessor espiritual do Conselho Geral Internacional e 22º Superior Geral da Congregação da Missão. Neles, encontraremos detalhes sobre a ação de defesa da justiça social desenvolvida por Ozanam.

[3] Sugiro a meditação da seguinte passagem bíblica: Eclesiástico (Eclo 27, 33 – 28, 9).

[4] Um dos melhores livros sobre a história da juventude vicentina, no Brasil e também no mundo, está no livro “O rosto jovem da SSVP”, escrito pelo confrade Mário Maríngulo (2014) – Coleção Vicentina nº 48, Brasil.

[5] Não me cansa estimular a leitura do livro “Federico Ozanam: sus múltiples facetas”, editado pelo Conselho Central de Medellín da SSVP, Colômbia (2013).

[6] “Muitos são os propósitos no coração do homem e da mulher, mas o que prevalece são os propósitos do Senhor” (Provérbios 19, 21)

[7] A respeito desse tema, recomendo a leitura da trilogia “Liderança Mística”, “Liderança Evangelizadora” e “Liderança Vocacional”, escrita pelo confrade Eduardo Marques de Almeida, publicada pela Coleção Vicentina, Brasil.

[8] Um dos melhores livros sobre a visita domiciliar é “Manual del Visitador del Pobre”, pois traz as qualidades que deve possuir o visitador, escrito por Concepción Arenal (2009), Bilbao, Espanha.

[9]“Entendei bem isto, meus irmãos, nunca podemos fazer a obra de Deus se não tivermos profunda humildade e uma humildade de opinião sobre nós mesmos” (São Vicente de Paulo).

[10] Apesar dos tempos modernos em que estamos inseridos, vale a pena lembrar-se de algumas recomendações atemporais, que nos ajudam a manter o espírito vicentino em unidade. Para tal, recomendo a leitura dos capítulos “Vademecum do Vicentino” (páginas 859-863) e “Alguns conselhos aos vicentinos” (páginas 875-877) do maravilhoso livro “Laical”, elaborado pelo Conselho Superior da Espanha (2008).

[11] Sobre o tema da pobreza espiritual e da pobreza material, vale a pena a leitura do livro “A Pobreza”, escrito pelo frei Raniero Cantalamessa (2003), Editora Ancora, Milão, Itália.

[12] Mensagem do Papa Francisco por ocasião do 34º Encontro “Amizade entre os povos” (18 de agosto de 2013).

[13] Na minha modesta opinião, o livro “Federico Ozanam, profesor en Sorbonne: su vida y obra”, de Kathleen O’Meara, traduzido por Francisco Javier Fernández Chento (Editora “Somos Vicencianos”, Madri, Espanha, 2017), é a obra-prima sobre o assunto. Lá, encontramos não só aspectos incríveis da vida de Ozanam, mas também de Amélie Ozanam-Soulacroix (1821-1894), a esposa devota que cuidou tão bem da memória de Ozanam.

[14] Tenho escrito bastante sobre o clima harmônico em nossas Conferências, no relacionamento com os necessitados e entre nós, vicentinos. Recomendo a leitura do livro “Apasionados por la caridade y la justicia” (2017), editado pelo Conselho Superior da Espanha da SSVP, em espanhol.

[15] Agradecemos ao Conselho Central do Tirol do Sul, da Itália, por ajudar o Conselho Geral Internacional nas premiações econômicas.

[16] Item 1.3. da Regra da Confederação Internacional da SSVP.

[17] Um dos objetivos traçados pela Organização das Nações Unidas (ONU).

[18] Discurso do confrade Renato Lima de Oliveira em Roma (Itália), no dia 5 de junho de 2016, após a proclamação do resultado final da eleição para a presidência do Conselho Geral Internacional.

Discurso – Dia Nacional dos Vicentinos - Câmara dos Deputados - Brasília-DF

26/09/2016 – 10h

 

 

 

Senhor presidente, deputado Rôney Nemer,

 

Senhoras e senhores parlamentares,

 

Amigos confrades e consócias, membros da Sociedade de São Vicente de Paulo,

 

Membros da Família Vicentina (irmãs, leigos e sacerdotes),

 

Crianças das creches São Vicente de Paulo (Cruzeiro Velho-DF) e Frederico Ozanam (Ceilândia-DF),

 

Senhoras e senhores aqui presentes, e a quem nos acompanha pela Rádio e TV Câmara,

 

 

 

Bom dia.

 

 

 

É com imensa alegria que recebi o convite do deputado federal Rôney Nemer para participar desta Sessão Solene alusiva ao DIA NACIONAL DOS VICENTINOS, na condição de recém-empossado presidente geral internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, a SSVP. É um convite que muito me honra, uma vez que estamos no Parlamento brasileiro, palco das grandes decisões nacionais e onde as leis são elaboradas e aprovadas.

 

A data de hoje coincide com a festa de São Vicente de Paulo, celebrada amanhã, dia 27 de setembro. Somos “vicentinos” porque nos inspiramos no carisma, no legado e nas virtudes do santo patrono das obras de caridade da Igreja Católica. São Vicente é o exemplo de santidade a ser seguir pelos vicentinos, hoje.

 

O vicentino não busca nenhum reconhecimento humano, apenas de Deus. Contudo, ao realizar esta Sessão Solene, a Câmara dos Deputados valoriza, publicamente, a grandiosidade do trabalho vicentino em prol da superação da miséria, da exclusão e da vulnerabilidade social, possibilitando que as ações beneméritas da entidade possam ser mais conhecidas não só no ambiente legislativo, mas também em toda a nação brasileira. Portanto, estamos muito contentes pela gratidão hipotecada pelo Parlamento brasileiro à Sociedade de São Vicente de Paulo.

 

Hoje é um dia muito especial. Muito especial mesmo! É um dia em que comemoramos o trabalho abnegado, desapegado e voluntário realizado pelos Vicentinos por todo o Brasil. Atualmente, no nosso país, os Vicentinos somam 180.000 pessoas, entre crianças, adolescentes, jovens, solteiros, casais e idosos. No mundo, o contingente de vicentinos atinge 800.000 pessoas em 151 países.

 

O número de obras assistenciais mantidas pelos Vicentinos, no Brasil, chega a 2.000, entre creches, lares de idosos, dispensários, escolas, centros comunitários, por exemplo. O número de famílias assistidas ultrapassa a cifra de 500 mil! Estamos em praticamente todos os municípios brasileiros! São dados impressionantes, que demonstram o elevado grau de caridade dos nossos irmãos confrades e consócias.

 

Ser vicentino é uma bênção de Deus. É um verdadeiro presente de Nosso Senhor Jesus Cristo em nossas vidas. Ser vicentino é, acima de tudo, fazer as pessoas felizes, pois quando se visita as famílias necessitadas, tornamo-nos amigos delas, e assim podemos desenvolver nosso trabalho de promoção humana integral nos aspectos material, moral e espiritual. É muito gratificante poder ajudar as pessoas que sofrem a superar seus problemas mais urgentes. Quer maior alegria que essa? Servindo na esperança...

 

O vicentino é uma pessoa de AÇÃO. É arregaçando as mangas que o vicentino põe-se ao serviço das pessoas necessitadas, ajudando-lhes no que for preciso. Mas, acima de tudo, o vicentino é uma pessoa de ORAÇÃO. Ele primeiramente abastece o espírito para só depois atuar no campo da caridade. O vicentino é, portanto, uma pessoa com forte base espiritual, sintonizado com a missão da Igreja Católica e com os valores do Evangelho. A prática da caridade é, para nós, a porta de entrada nos céus. Por isso, os vicentinos buscam a santificação pessoal por intermédio das ações concretas caritativas. A santificação é a meta principal de todo vicentino.

 

 

 

Senhor presidente,

 

 

 

Aproveito esta cerimônia para fazer uma rápida referência à eleição, realizada pelo Conselho Geral Internacional da SSVP em junho passado, em Roma, ocasião em que eu fui eleito o 16º presidente geral internacional. A SSVP foi fundada na França, em 1833, por sete companheiros (entre eles o beato Antônio Frederico Ozanam) e, nos 183 anos de nossa entidade, é a primeira vez que um vicentino brasileiro é alçado para ocupar a posição de presidente geral.

 

Escolhi, como lema de gestão, um trecho bíblico citado por Jesus no Evangelho de São Marcos, capítulo 9, versículo 35: “Quem quiser ser o primeiro, que seja o último de todos, e o servidor de todos”. É assim que desejo servir ao Conselho Geral, com uma liderança-servidora. E é assim que todos os dirigentes da nossa instituição, em todo o mundo, trabalham na manutenção e na expansão dessa grande rede internacional de caridade.  

 

Faço aqui, também, um apelo aos senhores e às senhoras deputadas, especialmente num ano eleitoral como esse:

 

ü sempre atuem no sentido de praticar o bem comum, por meio da aprovação de leis que sejam favoráveis à população, especialmente a mais carente.

 

ü nunca deixem que sejam aprovadas leis que retirem conquistas e direitos dos menos favorecidos.

 

ü busquem, com criatividade e inovação, adotar uma legislação inclusiva e benéfica, sobretudo, para as pessoas mais necessitadas do nosso povo.

 

Precisamos de políticos sérios, íntegros, vocacionados ao interesse público, defensores da família, comprometidos com a Mudança Sistêmica e com os valores do Evangelho!

 

Neste momento, gostaria de fazer um justo reconhecimento ao ex-deputado federal ELIAS CARMO, que entre os anos de 1963 e 1975 foi membro-fundador da Conferência São Tomás More, que funcionou nesta Casa com a presença de parlamentares e funcionários. Ele foi um visionário, um pioneiro, um desbravador. Oxalá, um dia, possamos reativar essa Conferência Vicentina que funcionou por 12 anos aqui no Congresso Nacional, e reavivar a memória deste homem de Deus que foi o deputado ELIAS CARMO, cuja viúva, DONA RUTE CARMO, nos assiste agora pela TV Câmara.

 

Finalizando, anuncio que estamos lançando hoje, neste plenário, a quarta edição do livro “OS VICENTINOS E O PARLAMENTO BRASILEIRO”, publicação que teve o apoio do deputado federal MIGUEL LOMBARDI, de São Paulo. O livro traz dezenas de discursos proferidos pelos deputados federais e senadores desde 1957 a respeito da SSVP e da Família Vicentina. É uma importante fonte de pesquisa sobre a atuação vicentina no ambiente legislativo.

 

Muito obrigado ao deputado Roney, e muito obrigado a todos vocês que se encontram aqui, hoje, prestigiando esta cerimônia, e a todos que nos assistem pelos meios de comunicação da Câmara dos Deputados. Era o que tinha a dizer.

 

 

 

Renato Lima de Oliveira

 

16º Presidente Geral da SSVP

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A Pobreza e os Vicentinos

Cfd. Renato Lima*

Nós, vicentinos, atuamos no campo da caridade e da evangelização, junto a pessoas carentes, buscando nossa santificação e a melhoria das condições de vida de nossos assistidos. Contudo, uma boa parte dos vicentinos tem uma visão ainda restrita sobre a pobreza.

Aliás, não só os vicentinos, mas a sociedade em geral emprega a expressão “pobreza” quando geralmente deseja referir-se a aspectos econômicos, ou seja, à “pobreza material”. Pessoas que “vivem na pobreza” seriam aquelas a quem lhes falta o mínimo exigido para que tenham uma vida razoável, por exemplo, casa, comida, roupas, bens, segurança, etc. Todos, conscientemente ou não, reduzimos o conceito de pobreza a exatamente isso: uma família pobre é aquela que vive de forma precária, sem usufruir os benefícios e do conforto da modernidade.

Contudo, além da pobreza econômica, há infinitas formas de pobreza, como a pobreza afetiva e sentimental, a pobreza educacional e intelectual, a pobreza política, a pobreza familiar, a pobreza de saúde. Uma das pobrezas mais desoladoras é a incapacidade de sonhar e de transformar a realidade. Muitas Conferências vicentinas situadas em países desenvolvidos, ou seja, com excelentes condições de vida, atuam junto a drogados, doentes e pessoas que vivem na solidão, pois são as carências que podemos encontrar nesses países.

Mas a pior das pobrezas, sem dúvida, é a falta de Deus, a chamada “pobreza espiritual”, isto é, aquela na qual as pessoas levam uma vida caracterizada pela falta do necessário para uma vida de comunhão com Deus. A pobreza espiritual pode ser caracterizada pela falta de conhecimento, de oração e de serviço. Assim explicando: quem não conhece a Deus e a Jesus, nem vive sua Palavra, não pode jamais ter vida espiritual (adoração, oração e salvação), portanto sem prática de serviço (caridade).

É um ciclo vicioso que gera a pobreza espiritual. A pessoa nestas condições possui uma fé instável, desânimo, falta de esperança e ausência de temor a Deus. A pobreza espiritual pode ser definida como a característica pela qual uma pessoa dá mais valor às coisas da Terra do que às coisas de Deus.

Cristo nos oferece uma “vida em abundância”, ou seja, de riqueza espiritual, que consiste na prática das bem-aventuranças e das obras de misericórdia. Já a pobreza espiritual tem como foco as obras da carne. Contudo não devemos confundir pobreza espiritual com o que Cristo nos pregou no Sermão da Montanha (Mateus 5), ao dizer “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus”. Jesus aqui se refere a todos os que reconhecem que só conseguirão a salvação com a mediação de Cristo e não por seus próprios méritos.

Deixamos como reflexão para a Conferência a seguinte passagem da Bíblia: “Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo rico, por vós fez-se pobre a fim de que vos enriquecêsseis com sua pobreza” (2ª Coríntios 8,9). Meditemos nessas palavras que tocam em profundidade nossos corações.

 

Benefícios para quem ajuda ao próximo

Cfd. Renato Lima (*)

 

 

De vez em quando, os meios de comunicação publicam matérias sobre os benefícios que se têm ao realizar ações de ajuda ao próximo. Quem ajuda as pessoas reduz o risco de morte precoce, vive mais, tem menos doenças, consegue emprego, entre outros ganhos pessoais. Se não vejamos.

Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, revela que pessoas empenhadas em ajudar o próximo, em ações voluntárias, reduzem em 60% o risco de morte precoce. Os investigadores consideraram que a generosidade tem relação com a longevidade. A pesquisa mostra também que os mais egocêntricos têm mais que o dobro de risco de morrer mais cedo.

Existem pesquisas científicas apontando que a atitude de ajudar a quem precisa colabora também com a saúde, como, por exemplo, baixando os níveis de colesterol, reduzindo a hipertensão e aumentando a expectativa de vida.

A palavra mais justa que define o trabalho voluntário é a solidariedade. Além de estar beneficiando quem precisa, ajudar o próximo faz bem ao coração. Vendo os problemas de outras pessoas é possível perceber que os nossos são minúsculos, e que não devemos reclamar e sim agradecer.

A importância de ser voluntário é tão grande que muitas firmas buscam empregar pessoas que possuam, em seus currículos, ações de voluntários e beneficentes. Nos processos seletivos, as empresas preferem pessoas que visam ao bem-estar social, oferecendo mais qualidade de vida para quem precisa, dedicando o tempo livre para contribuir com necessitados.

Atuar em ações sociais ajuda a conquistar melhores empregos. Gestores de recursos humanos de grandes empresas afirmam que um candidato que disponibiliza parte do tempo livre para ajudar outras pessoas pode ser considerado pela empresa como alguém comprometido com uma causa e que se pode esperar dele o mesmo comprometimento no trabalho.

Ajudar o próximo faz bem à saúde do corpo e da alma, trazendo várias “vantagens”. A primeira delas é que nos propicia um sentido para a vida (esse prazeroso esforço de servir ao próximo é uma das mais benditas ferramentas para ajudar a visualizarmos, com clareza, um sentido para a vida). A segunda, é que torna-nos mais produtivos em nossa atividade profissional (quando a pessoa que se aproxima do sofrimento do próximo vê seus problemas pessoais numa outra dimensão).

Contudo, pesquisas internacionais apontam os grandes benefícios para a saúde do nosso corpo: ajudar o próximo faz bem ao coração, ao sistema imunológico (aumenta as defesas naturais do organismo), aumenta a expectativa de vida e a vitalidade de maneira geral.

Além de tudo o que vimos, ajudar as pessoas carentes é o cumprimento do dever missionário de todo católico, e a razão de existir dos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo. Somos realmente muito abençoados por sermos vicentinos! Deixamos uma pergunta para reflexão na reunião da Conferência: “Qual é, para você, o maior benefício de se ajudar pessoas carentes?”.

 

Como batizar Conferências e Conselhos?

Renato Lima

 

Uma pergunta recorrente chega sempre ao nosso conhecimento: na hora de dar nome a uma Conferência ou Conselho, como se deve agir? Que cuidados deve-se ter no momento do “batismo” de nossas unidades vicentinas? Por que, dentro da área territorial de certos Conselhos Centrais, repetem-se os nomes das Conferências? Está faltando criatividade no seio vicentino?

A Regra da Sociedade de São Vicente de Paulo no Brasil, em seu artigo 10, diz claramente que as Conferências distinguem-se pelo título adotado, que pode ser nome de SANTOS e SANTAS, ou INVOCAÇÃO CATÓLICA. Servos de Deus e bem-aventurados, como ainda não são santos, não podem dar nome a Conferências e Conselhos. Também há um impedimento – óbvio – de usar os nomes “Antônio Frederico Ozanam” e “São Vicente de Paulo”, em atendimento a uma recomendação do Conselho Geral Internacional (artigo 10, parágrafo segundo).

Quando vamos batizar uma Conferência com nome de santo ou santa, os problemas parecem ser reduzidos, pois a chance de erro é pequena. Afinal, a Igreja possui cerca de 1.200 canonizados à disposição de nossas unidades vicentinas. O problema que acontece é a repetição de nomes como “São José”, “São João Batista” ou ainda “Santo Antônio”. Por que não damos preferência a santos vicentinos, como Santa Joana Beretta (consócia italiana), São Francisco Regis Clet (missionário lazarista da China) ou Santa Isabel Setor (religiosa vicentina dos Estados Unidos)?

É comum vermos nomes já bastante utilizados dentro de um mesmo Conselho Central, ainda que na área de Conselhos Particulares distintos, o que deveria ser evitado. Às vezes, encontramos três ou quatro Conferências com o mesmo nome dentro da área de um Central. É importante dizer também que os pedidos de Carta de Agregação com nomes fora dos padrões normativos deverão ser recusados, devendo a unidade vicentina trocar sua nomenclatura, fazer ajustes no livro de atas e reapresentar o pedido de agregação, sem essas falhas.

Os dicionários nos ensinam que invocação é uma “ação de chamar (invocar) por alguém”. É um chamamento, um pedido, uma súplica, um ato de piedade. Ou seja, quando invocamos o nome Nossa Senhora Rainha da Paz, estamos chamando a presença de Maria no meio de nós. Portanto, invocação católica é justamente este pedido de proteção divina. Alguns exemplos de invocação católica: Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração de Maria, Imaculada Conceição, Divino Espírito Santo, Santíssima Trindade, entre outros.

No caso de Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, são invocações católicas aquelas começadas por “Nossa Senhora”. Portanto, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Abadia, Nossa Senhora da Esperança e Nossa Senhora da Purificação são, assim por dizer, invocações católicas. Existe uma forte repetição da invocação “Nossa Senhora Aparecida” dentro da SSVP, às vezes dentro do mesmo Conselho Central, o que deveria também ser evitado, sem cometermos nenhum desrespeito à padroeira do Brasil.

Já no caso dos Conselhos, o artigo 10 (em seu parágrafo primeiro) estabelece que estes se designam APENAS pelo nome do lugar onde funcionam, podendo este ser PRECEDIDO do nome de santo/santas ou invocação católica. Assim, estão corretos os exemplos: Conselho Central de Limeira-SP ou Conselho Central Nossa Senhora de Lourdes de Limeira-SP; Conselho Particular de Chapecó-SC ou Conselho Particular Santa Teresa de Calcutá de Chapecó-SC.

Como se percebe a partir da leitura desta crônica, não é complicado encontrar um nome para batizar as Conferências e Conselhos. Basta seguir as normas, o bom senso e ter atenção antes de se cometer um deslize, consultando vicentinos mais experientes. Depois de vários anos, é bastante constrangedor ter que mudar o nome de uma unidade vicentina, pois não foram tomados os devidos cuidados no momento de suas criações. Sugerimos que, antes de batizar uma Conferência ou Conselho, os vicentinos pesquisem nomes de santos e santas (entre eles muitos vicentinos) e de invocações católicas aceitas pela Igreja, com carinho, sem pressa e com esmero.

 

Dar o que se tem ou dar-se a si mesmo?

Cfd. Renato Lima (*)

 

 

O padre Fábio de Melo, sacerdote que vem se notabilizando pelas músicas que interpreta e pelos livros que escreve, disse uma vez, ao participar de um programa televisivo, que é relativamente fácil dar (ou doar) aquilo que temos, mas difícil mesmo é doar o que somos ou dar-nos a nós mesmos. Essa frase do padre Fábio tem muito a ver com o trabalho vicentino e como nós podemos conquistar novos membros.

Dar o que temos (por exemplo, roupas, brinquedos, calçados, até alimentos) não é de fato uma tarefa tão complicada assim. Afinal, até pessoas que não acreditam em Deus executam ações filantrópicas e sociais, ao longo do ano, especialmente em datas como Dia das Crianças ou no Natal. Recordemos o que pregou Jesus: “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem”(Mateus 7,11). Mas compartilhar nosso interior, nosso ser, nosso coração com os que sofrem, aí já é bem diferente e nem sempre encontramos pessoas com essa característica.

Às vezes, estamos entregando uma cesta básica a uma família carente, mas, espiritualmente, não estamos nos doando também a ela. É preciso muito mais que mera ação de entregar algo a alguém para que esse gesto seja, realmente, considerado “caridade”. A caridade é muito mais que dar coisas, e sim dar a nós mesmos. Concordo que essa exigência faz toda a diferença. Deve haver uma interconexão plena entre o doador e quem vai receber a ajuda.

Quando um aspirante começa a conhecer os trabalhos da Sociedade de São Vicente de Paulo é preciso que os confrades e as consócias mais experientes mostrem ao candidato que ser vicentino não é apenas doar um bem material, que sem dúvida alivia o sofrimento momentâneo; mas ser vicentino é dar-se a si mesmo, compartilhando com os mais carentes nossa compaixão e nossa preocupação.

Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue, não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8, 12). Cristo se entregou pela humanidade. Ele não dava bens materiais a ninguém. Aos que lhe pediam graças, Jesus concedia saúde, paz e vida. Nós, vicentinos, temos que ser luz também na comunidade, passando a ser referência de vida para os assistidos, e não apenas reconhecidos como pessoas bondosas que levam gêneros alimentícios ou material de construção para algumas famílias carentes.

A mensagem final que deixo para nossa reflexão é justamente o que colocamos na abertura dessa crônica: precisamos, no lugar de apenas dar o que se tem, dar o que se é, o que somos, e sobre como podemos contribuir com nosso caráter e nossa existência. Talvez possamos ser luz para muita gente. Pensemos e reflitamos.

 

Era Torremocha

Cfd. Renato Lima

 

Em setembro de 1999, tomava posse como Presidente Geral da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) o espanhol José Ramón Díaz-Torremocha y Díaz, que na ocasião ocupava a função de presidente do Conselho Nacional da Espanha. O cfd. Torremocha ingressou na Sociedade em 1964, e participou ativamente do movimento juvenil vicentino durante muitos anos. Pertence à Conferência São Lourenço, de Madri. Vive com a esposa e três filhos em Guadalajara. Seu mandato termina em setembro deste ano.

No próximo dia 28 de maio, os presidentes dos Conselhos Nacionais de cada país, reunidos em Salamanca (Espanha) para a Assembleia Geral Extraordinária do Conselho Geral Internacional, irão escolher o sucessor do cfd. Torremocha. Qualquer vicentino que venha ser o eleito, receberá o Conselho em excelente situação, não só nos aspectos econômicos, quanto patrimoniais e institucionais. Esta crônica tem como foco mostrar as principais realizações da chamada "Era Torremocha", de cujo mandato temos todos que nos orgulhar.

Foi durante o mandato do cfd. Torremocha que o Conselho Geral adquiriu uma sede nova em Paris, mais ampla e adequada para uma entidade internacional como a SSVP. A logomarca única mundial da Sociedade (da esfera azul com o laço branco da solidariedade), escolhida em concurso, foi outra criação deste período. A Fundação Bailly & Lallier, que atuará na parte da capacitação e formação internacional de confrades e consócias, também merece registro.

Para que as finanças estivessem em dia, foi criado o "Concordato", que consiste num grupo de 16 países mais fortes em termos econômicos (entre eles o Brasil, a Austrália e os Estados Unidos) que dão sustentação financeira ao Conselho, resolvendo em definitivo as antigas pendências por recursos. Outra criação foi o "Vinpaz", uma espécie de força-tarefa, formada por vicentinos de todas as partes do mundo, que é acionada em desastres naturais ou em ações de expansão da SSVP, como será feito na Bolívia. Outra novidade deste mandato foi a edição da nova Regra da SSVP, moderna e eficiente, preparando a Sociedade para os anos futuros.

No bojo da nova Regra, foi estabelecida uma renovada estrutura internacional do Conselho Geral, com 11 Vice-presidentes (sendo três gerais e oito territoriais) e Coordenadores de Zona, medida esta que dinamizou a presença da SSVP pelo planeta, tornando o Conselho Geral mais próximo e atuante. Outros projetos bem-sucedidos, como a Comissão África e o Comitê Executivo Internacional (formado pelos dez países com maior quantidade de Conferências), dão demonstração cabal que a "Era Torremocha" foi, de fato, bastante inovadora para a SSVP.

Não poderíamos esquecer das "Cartas Circulares", lançadas sempre em junho de cada ano, uma inovação que permitiu ao Presidente Geral conversar diretamente com cada vicentino sobre temas atuais, espirituais ou administrativos. Na área da comunicação, a página do Conselho na internet é um excelente meio de informação, feita em cinco línguas, entre elas o Português. O presidente utiliza-se de vídeos para transmitir mensagens especiais. Além disso, no relacionamento com a Igreja, a SSVP passou a fazer parte do Conselho Pontifício "Cor Unum", bem como integrou outros organismos católicos de cunho social, ampliando as parcerias vicentinas. Destaque-se ainda a Carta de Pré-agregação das Conferências de Crianças e Adolescentes (CCAs) e a promoção, em 2008, das Jornadas Mundiais da Juventude Vicentina.

Como se percebe, uma crônica é pouco para falar sobre realizações empreendidas e as mudanças trazidas pela atual diretoria do Conselho Geral, capitaneada pelo cfd. Torremocha. Ao querido confrade Torremocha, esse dinâmico, visionário e incansável vicentino, deixamos nossos agradecimentos pelo brilhante trabalho desenvolvido pela Sociedade e em favor dos pobres. Porém, nada disso teria sido exitoso, se ele e sua equipe não fossem pessoas de oração, e se o Divino Espírito Santo não os estivesse iluminando permanentemente. Que o próximo Presidente Geral seja também muito abençoado e que a SSVP não pare de avançar!

 

Artigo

 

Voluntários vicentinos

(*) Cfd. Renato Lima

 

 

No dia 28 de agosto, comemoramos o “Dia dos Voluntários”, pessoas que ajudam ao próximo sem se preocupar com reconhecimento ou status. Uma definição bastante completa está disponível no site do Programa Comunidade Solidária: “Voluntário é o cidadão que, motivado pelos valores de participação e solidariedade, doa seu tempo, trabalho e talento, de maneira espontânea e não remunerada, para causas de interesse social e comunitário”.

Assim também somos nós, vicentinos e vicentinas, que atuamos como voluntários em prol das famílias carentes, além de possuirmos obras assistenciais que cuidam de crianças, jovens, doentes e idosos. Nosso trabalho é totalmente gratuito, não remunerado, apartidário, apolítico e unicamente focado na caridade evangélica.

Mas por que é tão difícil sensibilizar a sociedade para o voluntariado? Por que ainda o número de voluntários é pequeno? Na verdade, para ser voluntário, são necessários três ingredientes que nem sempre encontramos nas pessoas que intencionam ajudar: disponibilidade de tempo, compromisso e visão de conjunto. Vamos explicar cada um desses elementos.

No item “disponibilidade de tempo”, é muito comum nos dias de hoje as pessoas não terem tempo para nada. Na realidade, as pessoas mais atarefadas é que acabam encontrando um tempo adicional para atuarem como voluntário. É incrível, mas os voluntários geralmente são pessoas muito ocupadas. Encontrar tempo livre para a prática da caridade não é muito comum. Não adianta a pessoa estar “cheia de vontade de ajudar” se ela não tem tempo.

No quesito “compromisso”, o que ocorre é que às vezes muita gente chega a participar de algumas ações de voluntários, especialmente durante o mês de dezembro (época do Natal, ocasião em que as pessoas tornam-se mais generosas), mas depois desaparecem e nem avisam os motivos de sua saída. Esse envolvimento tem que ter responsabilidade e contínuo, pois de nossas ações dependem a vida e o futuro de muitos assistidos. Sem comprometimento, nenhum trabalho social consegue ser efetivo e não atinge os objetivos traçados.

Por fim, o aspecto da falta de “visão de conjunto” também influencia muito na efetividade do trabalho voluntário. Se o voluntário tiver dúvidas ao responder as perguntas “por que estou fazendo isso” ou “o que se pretende com este trabalho” ou ainda “o que eu tenho a ver com a desigualdade social no Brasil” é porque ele desconhece seu papel, executa as ações sociais sem compreender a relevância delas e desconhece o sentimento de compaixão a que está intimamente relacionado.

Além de tudo, ajudar as pessoas faz bem a que pratica tais atos. Pesquisas norte-americanas e européias já comprovaram que quem é voluntário tem mais saúde e vive mais anos de vida. Ou seja, ajudar o próximo faz bem! E se alguém ainda tem dúvida sobre “onde está o nosso próximo”, basta olha ao redor e conferir: “Quem é o meu próximo?” (Lucas 10, 29).

A Sociedade de São Vicente de Paulo padece dos mesmos problemas de qualquer outra entidade beneficente. Nem sempre nossos confrades e consócias têm disponibilidade de tempo, compromisso com a causa de São Vicente e visão de conjunto. Nem sempre temos em nossas Conferências e Conselhos voluntários maduros, conscientes de seu papel na comunidade e sabedores de nossos objetivos: santificação pessoal e promoção das pessoas necessitadas. Temos que orar para que Deus nos brinde com pessoas realmente compromissadas com o Evangelho da caridade.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

 

Artigo

 

Ter ou não ter uma Obra Unida?

Cfd. Renato Lima*

 

Em todas as viagens que faço, quer seja a trabalho ou a passeio com a família, tenho como hábito visitar Conferências e Conselhos, conversar com dirigentes vicentinos e conhecer as Obras Unidas e Especiais da região. E nesses anos pude conferir Obras Unidas com excelentes administradores, e ao mesmo tempo, muitas obras assistenciais com problemas e até escândalos.

Portanto, é preciso que façamos as seguintes perguntas: os vicentinos, nas áreas onde atuam, necessitam de Obras Unidas, como creches, abrigos de idosos e escolas? É realmente fundamental que tenhamos Obras Unidas, muitas delas deficitárias, por todo o Brasil? Não sou contra as Obras Unidas que são bem geridas, mas existem muitos empreendimentos com enormes dificuldades e talvez fosse melhor, para o bem da Sociedade de São Vicente de Paulo e dos pobres assistidos, que tais atividades fossem encerradas, dando lugar a outras iniciativas seguramente mais úteis à comunidade.

De que nos adianta termos uma creche se ela não é beneficente e possui vultosas dívidas? De que nos adianta administrarmos um abrigo de anciãos se não temos condições de cumprir as exigências da ANVISA e do Estatuto do Idoso? De que nos adianta termos escolas se o pagamento dos professores e auxiliares de ensino não está em dia? De que nos adianta afirmar que possuímos mais de 2 mil obras assistenciais no Brasil se apenas pequena parte delas “está no azul”?

Ora, são questões que precisamos discutir. Os presidentes de Conselhos devem ficar atentos e não permitir que as Obras Unidas sejam mal administradas. É por isso que a Regra, sábia, prevê o instituto da intervenção, onde os gestores incompetentes devem ser afastados e medidas – algumas duras, com certeza – devem ser tomadas pelo bem da SSVP. Não podemos deixar acender o sinal amarelo: ajamos antes, preventivamente.

Por exemplo: os Conselhos, por meio de seus Departamentos de Normatização e Orientação (DENOR), devem acompanhar, mês a mês, se os recolhimentos dos impostos, dos salários e dos encargos trabalhistas (INSS, FGTS e férias, entre outros tantos) estão sendo feitos dentro da legislação. Se não agirem assim, estarão sendo omissos e deixando abacaxis para seus sucessores. Aliás, temos visto em todo o Brasil o pipocar de problemas que foram criados no passado, mas que “explodiram” agora, nas mãos dos atuais dirigentes vicentinos, que assim respondem solidariamente pelos erros de seus antecessores.

Às vezes é melhor criar Obras Especiais do que fundar Obras Unidas. As primeiras funcionam com voluntários e sem remuneração; as segundas, atuam com funcionários regidos pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e com todos os desdobramentos econômicos decorrentes desta relação contratual. Quanto dinheiro já foi investido em Obras Unidas que, anos depois, se tornaram um verdadeiro problema para os vicentinos? Esse dinheiro não teria sido mais bem aplicado na construção de casas populares, na aquisição de material escolar para estudantes pobres ou na compra de remédios para pessoas necessitadas?

O que é mais relevante na vida da SSVP se não a visita ao pobre, onde realizamos a promoção de famílias carentes? Não há. As Obras Unidas e as Obras Especiais são complementos ao trabalho de caridade das Conferências, mas são opcionais. É verdade que em muitas cidades brasileiras, a SSVP é conhecida pela Obra Unida que administra há anos. Mas será que esse procedimento deve ser uma regra?

Escrevi esta crônica com este objetivo: fazer com que os vicentinos, no momento de abrir uma Obra Unida, levantem todas essas questões antes de lançar a “pedra fundamental”. E aos presidentes de Conselhos, recomendamos que acompanhem pari passu o cotidiano dessas obras, cobrando a prestação de contas, monitorando o pagamento de tributos e encargos trabalhistas e analisando sempre a real necessidade de tais obras existirem.

 

* Cfd. Renato Lima, 37 anos, é confrade desde 1986, atual presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo da Asa Norte (Brasília-DF) e coordenador do portal “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

Artigo – Folha de Ozanam

 

A importância das atas na SSVP

(*) Cfd. Renato Lima

 

Um dos setores mais importantes no seio da Sociedade de São Vicente de Paulo é a secretaria das Conferências e dos Conselhos. Na Regra, há vários artigos indicando as responsabilidades dos secretários, dentre elas há a confecção das atas para registros das reuniões ordinárias e extraordinárias, das assembléias e das Festas Regulamentares.

Uma ata bem elaborada, quer seja manuscrita ou digitada, precisa conter os seguintes elementos: precisão (efetivamente abordar o que ocorreu na reunião ou evento), abrangência (registrar todas as participações e falas dos vicentinos e convidados), poder de síntese (mencionar os atos de forma breve e resumida, sem comprometer a compreensão geral do texto), correção gramatical (texto sem erros de Português, nem na regência nem na concordância) e limpeza (redação limpa, clara, sem rasuras ou manchas, nem adendos à mão).

Se os secretários de Conferência seguirem estas diretrizes, suas atas serão sempre eficientes e, enquanto são lidas, prenderão a atenção de todos os presentes à reunião, especialmente dos aspirantes que acompanham, pela ata, o cotidiano da Sociedade de São Vicente de Paulo. A ata é a história da SSVP, e por isso deve ser tratada com carinho e zelo. A cada ano, os livros de atas devem ser adequadamente guardados nos arquivos das Conferências, e nenhum livro pode se perder. Vale lembrar que o Conselho Geral Internacional só agrega a Conferência que anexar sua ata de fundação; assim, a primeira ata de uma unidade vicentina deve ser muito bem redigida e, se possível, contar com a assessoria da Secretaria do Conselho Particular local.

Nas atas, deve-se prestar muita atenção na abertura, chamada de prólogo. Nela, devem ser grafados, repetidas vezes, a mesma redação. Vamos dar um exemplo de ata de Conferência: “Ata de número 1.274 da Conferência São João Bosco, vinculada ao Conselho Particular Nossa Senhora da Penha, Mercês, Curitiba-PR, fundada em 12 de outubro de 1973 e agregada à Sociedade de São Vicente de Paulo em 12 de março de 1977. Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!”. E a ata continua com as informações sobre o dia e local da reunião, com os nomes dos vicentinos que compareceram à mesma, e as demais partes da reunião.

Na ata de Conselho Particular, deve-se atentar para a o registro de que o referido CP é vinculado a algum Conselho Central, sendo necessário citar seu nome. Assim também deve ocorrer nos demais escalões. No relato dos Conselhos Centrais, por exemplo, a tendência é colocar tudo o que foi falado na reunião, o que pode deixar a ata extensa demais. Assim, deve-se registrar apenas os fatos mais relevantes de cada CP, deixando de mencionar eventos como missas das cinco intenções ou confraternizações com os assistidos, por serem notas dignas de registro em atas de Conselhos Particulares.

Meu recado aos secretários e secretárias de Conferências e de Conselhos: saibam que o trabalho de vocês é muito importante para a SSVP. Que maravilha é poder ler uma ata bem elaborada, sem erros de ortografia e com as informações relevantes para uma unidade vicentina! Que prazer é poder redigir uma boa ata. Parabéns a todos que se dedicam com esmero a este trabalho.

Iniciei-me na SSVP em 1986 e minha primeira função foi a de 2º Secretário da Conferência Santo Tomás de Aquino, em Campinas-SP, e desde então me entusiasmei com o labor da secretaria. Sempre procurei fazer o melhor, uma vez que o registro adequado dos fatos históricos é dever de qualquer secretário. Atualmente, sou 1º Secretário da Conferência São Francisco de Assis, e procuro redigir as atas com a mesma dedicação e ardor de quando ingressei na SSVP.

Se em sua região a confecção das atas não está dentro dos padrões de qualidade exigidos pela SSVP, peça ao coordenador da ECAFO que promova um curso prático para auxiliar os secretários. Vale a pena. Bom trabalho!

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

 

Artigo

 

Se disser “sim” à causa vicentina, que seja com “s” maiúsculo!

Cfd. Renato Lima (*)

 

 

O trabalho realizado nas Conferências vicentinas em favor das pessoas mais necessitadas é realmente fantástico: apoio material e suporte espiritual, além de nossa santificação pessoal. Ser vicentino é, acima de tudo, uma bênção de Deus e um privilégio, pois nos sentimos mais úteis à sociedade, especialmente na redução das desigualdades sociais e regionais, além da evangelização sem fronteiras.

Mas nem tudo são flores na Sociedade de São Vicente de Paulo. Às vezes ouvimos que existem problemas administrativos em Obras Unidas e de gestão em nossos Conselhos e Conferências, notícias que nos deixam tristes e, em alguns casos, perplexos com tanto amadorismo, falta de caridade e desrespeito à hierarquia e às normas contidas na Regra vicentina.

O que tem acontecido é que quando se ingressa na SSVP, não é alertado ao aspirante que o “sim” que ele está dando à causa vicentina deve ser com “s” maiúsculo, integral, sem condicionantes nem negociações. Por exemplo: ou cumprimos a Regra ou não somos vicentinos; não existe meio termo. Ou nos colocamos à disposição do pobre ou não somos vicentinos.

Deve-se avisar ao postulante a vicentino que, em algum momento de sua vida, ele será chamado a desempenhar funções administrativas na SSVP, como presidente ou secretário, e deve colocar-se à disposição da entidade; aliás, uma das características principais de qualquer trabalho voluntário é a disponibilidade de tempo e a gratuidade de seu engajamento.

No caso de eleições em Conferências, todos os confrades e todas as consócias são, automaticamente, candidatos naturais à função; não há espaço para aqueles desbotadas desculpas “esfarrapadas”. Dizer que “o cargo é pesado demais” ou que “não se tem condições” para dirigir uma Conferência são, no mínimo, argumentos que não condizem com quem é proclamado e participa dos cursos e retiros promovidos pela Escola de Capacitação (ECAFO).

É lamentável verificar em algumas Conferências a total inexistência de candidatos à presidência: isso mostra que o grupo está doente, fragilizado. Nesse grupo, a espiritualidade está baixa e o senso de caridade é quase nulo. Pessoas que fogem de suas responsabilidades ou se esquivam de desafios não interessam à Sociedade de São Vicente de Paulo, onde a humildade e o senso de voluntariado devem reinar.

Dizer “sim” com “s” maiúsculo é participar, é comprometer-se, é doar-se, é servir de forma desinteressada, é ser cristão nas 24 horas do dia, é ser um vicentino integral. O engajamento dos confrades e das consócias está diretamente relacionado à forma como disseram “sim” à causa vicentina: ou é um estilo de vida ou é falso, apenas para “inglês ver”. Ou nos doamos ou estamos brincamos de caridade, e com coisa séria: os pobres de Deus.

Graças a Deus esses casos que nos causam perplexidade são poucos, em número bastante reduzido, e não devem nos desanimar, mas é claro que podem arranhar a bela imagem que foi construída nos últimos anos por dedicados e operosos vicentinos. Portanto, a acolhida bem feita na Conferência, assim como a proclamação criteriosa e a aplicação adequada dos conteúdos da Escola de Capacitação são ingredientes que, juntos, gerarão uma nova safra de vicentinos e, por conseguinte, de dirigentes vicentinos.

 

* Cfd. Renato Lima, 37 anos, é confrade desde 1986. É presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo da Asa Norte e coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade”.

 

 

Artigo - Adoremos

 

A relevância da reunião anual de avaliação

Cfd. Renato Lima*

 

 

Segundo orientação do Conselho Geral Internacional da Sociedade de São Vicente de Paulo, as Conferências e os Conselhos devem avaliar, pelo menos uma vez por ano, o seu serviço aos confrades e consócias e aos pobres que visitam, e refletir sobre a maneira de melhorar a assistência que prestam. Esta reunião, também chamada de “revisão anual”, está prevista na Recomendação Básica (RB) nº 7 (página 78 da Regra – edição 2007).

Nessa reunião anual, os membros das Conferências e dos Conselhos devem levar em consideração como identificar as pessoas carentes e suas necessidades básicas. Da mesma forma, a RB nº 7 também recomenda que as Conferências devem encaminhar e submeter, pelo menos uma vez por ano, um relatório de suas atividades ao Conselho Particular, contendo todas as informações do grupo.

Esta avaliação anual, sugerida pelo Conselho Geral e que deve constar dos textos das Regras em cada um dos 142 países em que a SSVP está presente, é muito importante para corrigir rumos e traçar novos caminhos de atuação, sempre com foco na prestação de um serviço de melhor qualidade aos pobres assistidos. É nesta ocasião, por exemplo, que se deve analisar o crescimento e a promoção de cada família socorrida, verificando se os objetivos planejados foram efetivamente alcançados.

O Conselho Geral não diz como nem quando essa reunião deve acontecer. Mas parece de bom tom que essa reunião aconteça no início de cada ano civil, época em que os confrades e consócias têm plenas condições de discutir sobre os pontos positivos e os pontos de aprimoramento na assistência vicentina do ano que se passou, indicando novas ações para o ano que se inicia. Não há dúvida de que esta reunião exerce relevante papel estratégico no planejamento das atividades das unidades vicentinas, por isso é recomendada pelo Conselho Geral.

Para as Conferências, a reunião pode abordar temas como: relacionamento com os párocos; interação com os movimentos e pastorais da paróquia; efetividade do “Domingo da Caridade”; formas de abordagem junto aos paroquianos e subscritores; participação dos jovens; a acolhida aos aspirantes; a promoção das famílias carentes assistidas; com andam as Obras Unidas e especiais apoiadas pela Conferência; entre tantos outros tópicos possíveis.

Para os Conselhos, pode-se colocar na pauta da reunião anual assuntos sobre a distribuição de áreas, se existem Conferências ainda não agregadas a Paris, se não está havendo choque ou lacuna nas áreas de atuação dos Conselhos, se as metas e projetos aprovados estão sendo adequadamente realizados, se os cursos da ECAFO e os eventos das Comissões de Jovens estão sendo eficientes, entre outras tantas possibilidades de avaliação.

Muitas Conferências e Conselhos ainda desconheciam este dispositivo contido na Regra e, por isso, deixavam de realizar a reunião anual de revisão dos trabalhos. A partir de agora, sabedores da informação correta, pede-se a todos os presidentes de unidades vicentinas que efetuem suas reuniões anuais, oportunidade ímpar para renovar compromissos, rever procedimentos, democratizar o debate, avaliar (não julgar) os assistidos e harmonizar as relações entre os membros. Vale a pena. Vamos experimentar?

 

 

* Cfd. Renato Lima, 37 anos, é confrade desde 1986, atual presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo da Asa Norte (Brasília-DF) e coordenador do portal “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

Artigo

 

 

Vicentino, amigo dos pobres

Cfd. Renato Lima *

 

Nas visitas que faço às Conferências, por conta de minhas atribuições como presidente de Conselho, observo especialmente os comentários que são feitos relacionados ao trabalho junto aos pobres, ao dia-a-dia da ação vicentina, às dificuldades na promoção das famílias assistidas e às demais iniciativas implementadas pela Sociedade de São Vicente de Paulo em prol da superação da fome e da miséria.

Parte desses relatos dão conta de um maravilhoso trabalho realizado por intermédio das visitas semanais domiciliares, ocasião em que confrades e consócias se aproximam dos assistidos e procuram ajudá-los a sair da condição de vulnerabilidade social, de miséria material e de pobreza espiritual (em muitos casos). Somam-se às visitas as atividades oferecidas pelas Obras Especiais, que reforçam a ação vicentina e agregam valor na luta contra a exclusão.

Contudo, parte dos relatos são frios, impessoais, irônicos e inadequados. Comentários do tipo “essa família nunca vai pra frente”, ou “fulana só sabe ter filhos” ou ainda “sicrano é vagabundo e relaxado” são totalmente fora da cultura vicentina e demonstram desprezo e falta de caridade. Dizer que os pobres são acomodados, indolentes, preguiçosos e ociosos faz com que menosprezemos a pessoa humana que, se bem direcionada, pode “dar a volta por cima” e promover-se na vida. O que São Vicente faria no nosso lugar? Esquecemo-nos do trecho bíblico que diz que “a caridade tudo espera e tudo suporta” (I Cor 13, 7)?

Na verdade, esse é justamente o papel dos confrades, consócias e demais voluntários que atuam nas fileiras da Sociedade de São Vicente de Paulo: elevar a auto-estima de milhares de pessoas carentes. Temos que entender que os problemas que estão aí (desigualdade, exclusão social e pobreza) não são frutos da “indolência” dos pobres, mas sim da injustiça, da falta de oportunidades e de emprego, do sistema econômico vigente, da educação deficiente, do olhar míope dos ricos, da incapacidade da raça humana de ajudar a quem sofre e de programas assistencialistas que perpetuam a miséria e o status quo.

É preciso que os vicentinos sejam, de fato, amigos dos pobres, verdadeiramente solidários, como pregava São Vicente. Ser vicentino é ser amigo dos menos favorecidos, dos que sofrem, dos que choram, dos que têm fome e sede de justiça. Ser solidário significa não julgar nem criticar, no máximo “avaliar caridosamente”. Se formos realmente amigos dos assistidos, nossa ação caritativa será mais eficiente e, por conseqüência, atingiremos nosso objetivo maior: a redução da pobreza e nossa santificação pessoal. Temos que mudar de atitude!

Por fim, lembro aos nossos leitores o resultado de uma pesquisa realizada pela Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, em 2005, que concluiu: as pessoas que possuem amigos pobres são mais felizes. Outro estudo norte-americano indicou que quem ajuda os pobres vive, em média, 10 anos a mais que as outras pessoas. Nós, vicentinos, nem precisamos desses trabalhos científicos para comprovar o que já sabemos: ajudar o próximo faz bem. Muito bem!

 

* Confrade Renato Lima, 37 anos, é vicentino há 22 anos. É vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial (no âmbito do Conselho Geral Internacional da SSVP), presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e coordenador do portal “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

Artigo

 

Aspirantes, sejam bem-vindos à SSVP

(*) Cfd. Renato Lima

 

A Regra da Sociedade de São Vicente de Paulo no Brasil, em seu artigo 13, define que aspirante é a pessoa que estiver participando das atividades de uma Conferência vicentina com a finalidade de conhecer a missão da SSVP, depois de adequado período de visitas regulares. Ou seja, a Regra, sábia, não indica a quantidade de reuniões semanais nem de visitas domiciliares às famílias carentes atendidas pela Conferência que o aspirante deve freqüentar, deixando que o bom senso e a razoabilidade sejam os elementos centrais nesta decisão.

No mesmo artigo, está escrito que o aspirante, no dia de sua proclamação, deverá declarar que conhece os pontos essenciais dos atos normativos da SSVP, prometendo que se compromete a observá-los. Mais adiante, o texto traz duas condições sine qua non para a proclamação: que o aspirante tenha feito a Primeira Comunhão e que tenha cursado o Módulo de Formação Básica da Escola de Capacitação “Antônio Frederico Ozanam” (Módulo VIII).

A proclamação é feita pelo presidente da Conferência em reunião ordinária; é um ato simples, porém solene. No dia de sua proclamação, se participar da Missa e rezar nas intenções de praxe, os recém-empossados recebem indulgência plenária, concedida pela Santa Igreja. Algumas Conferências têm inovado e transformado o dia da proclamação em momento de forte emoção, quando os familiares do novo vicentino são convidados para participarem da missa e da reunião festiva da unidade vicentina. Já vi vários novos proclamados serem presenteados com bótons da SSVP, exemplares da Regra e do Boletim Brasileiro, além de livros de autores vicentinos. Um belo exemplo a ser seguido!

O artigo 12 também preceitua que “só pessoas que professam a fé católica e que procuram dar testemunho do amor a Cristo pelo exercício da caridade podem ser proclamados vicentinos”. Na seqüência, a Regra esclarece os casos em que um candidato não poderá ser proclamado, mas é-lhe permitido que atue como colaborador: pessoas que professem outros credos e freqüentem seitas, pessoas filiadas a sociedade secretas (como a Maçonaria, por exemplo), pessoas que defendam idéias em desacordo com os princípios da Santa Igreja e casais em situação matrimonial considerada irregular. São exceções que a Regra apresenta e que nossas Conferências devem ficar atentar para jamais proclamar candidatos nestas situações. Acolhê-los sim, recebê-los sim, proclamá-los nunca!

Não podemos confundir a figura do aspirante (pessoa que freqüenta as atividades da Conferência durante certo tempo) com os visitantes, que são pessoas (vicentinas ou não) que efetuam uma rápida passagem pela Conferência. Eis alguns exemplos de visitantes: o pároco que faz uma visita eventual à Conferência, o presidente do Conselho Particular em visita regulamentar àquela unidade vicentina, um vicentino de outro Estado que está de férias naquela cidade, um coordenador de pastoral da paróquia que foi dar um aviso sobre as atividades de seu grupo, o assessor espiritual em missão, etc. Enfim, os secretários de Conferência devem ter atenção ao registrar a presença dos aspirantes e dos visitantes.

Os aspirantes são a demonstração viva de que nossa entidade nunca morrerá, por ser uma obra de Deus focada na evangelização e na transformação do mundo. Os aspirantes somam-se aos já proclamados na preocupação de agir a favor dos pobres e de traduzir sua compaixão em amor prático e efetivo. Os aspirantes representam a renovação da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Aos aspirantes de nossas Conferências vicentinas, queremos dizer “sejam bem-vindos”! Precisamos de suas idéias, opiniões e comentários. Vocês representam “sangue novo” que irá renovar as ações de promoção humana que a SSVP empreende nas periferias das cidades na luta contra a exclusão e desigualdade sociais. Necessitamos do compromisso, da experiência comunitária e da disponibilidade de tempo de vocês. Precisamos do talento e do ardor missionário de vocês.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Recentemente, foi nomeado Vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial.

 

 

Artigo – Adoremos – inédito

 

 

Você conhece o fabuloso trabalho da Pastoral Rodoviária?

(*) Cfd. Renato Lima

 

Tive o privilégio de participar recentemente de uma missa celebrada pelo padre Germano Nalepa, da Congregação da Missão (CM), um dos sacerdotes lazaristas que coordenam a Pastoral Rodoviária em nosso País. Juntamente com os padres Mário e Miguel, os sacerdotes da Pastoral Rodoviária viajam pelas rodovias brasileiras há mais de 30 anos, levando a Palavra de Deus a todos. Esses verdadeiros “apóstolos da caridade” são homens abnegados e dedicados à causa do Evangelho e do carisma vicentino.

E você, conhece o belo trabalho da Pastoral Rodoviária? A Pastoral Rodoviária é um serviço da Igreja Católica Apostólica Romana, criado em 1976, voltado para o povo da estrada. Essa pastoral, nesse estilo como é feita no Brasil, é única no mundo.  Os padres da Pastoral Rodoviária viajam pelas estradas (muitas delas em péssimo estado de conservação) e pelos trajetos visitam, ao menos uma vez por ano, aproximadamente 7.000 postos de combustíveis, ao longo de 240 dias.  Ao todo, são celebradas 1.600 missas. Os padres vicentinos percorrem, anualmente, 50 mil quilômetros! São missionários ao pé da letra!

Para as missas, são convidados motoristas, caminhoneiros, frentistas, borracheiros, funcionários das lanchonetes e restaurantes dos postos de combustíveis, além da comunidade e demais interessados. Para o serviço pastoral, a equipe dispõe de três caminhões-capela (as capelas estão montadas dentro de furgões). Abrindo a porta traseira do furgão, surge o altar, as caixas de som, o microfone, os folhetos da celebração, as folhas de cânticos e os demais assessórios preparados para fins religiosos.

Qualquer pessoa que participa de uma missa da Pastoral Rodoviária sente forte emoção pela simplicidade da celebração e, ao mesmo tempo, pela profundidade das palavras dos sacerdotes, que exortam os fiéis a terem prudência e paciência no trânsito, tanto nas cidades quanto nas estradas. Não é à-toa que a Pastoral já virou até tema de filme neste ano (“O Sal da Terra”, produzido pelo diretor Elói Ferreira, do Paraná).

Os serviços prestados pelos padres da Pastoral Rodoviária são gratuitos, compreendendo missas e outros atendimentos pastorais (confissões e demais sacramentos). Os padres também divulgam a devoção a Nossa Senhora da Estrada (padroeira dos viajantes e motoristas, juntamente com São Cristóvão), distribuindo, ao final das celebrações, decalques, pôsteres e selinhos adesivos com a imagem dela, bem como rosários bentos.

Quando de sua visita a Brasil, o superior-geral da Congregação da Missão entre os anos de 1992 e 2004, padre Robert Maloney, encantado com o trabalho da Pastoral Rodoviária, disse que o caminhão-capela era “a menor igreja do mundo, mas ao mesmo tempo a maior paróquia do mundo”. Não há quem participe de uma das missas da Pastoral que não se transforme e que não reflita sobre a importância do trânsito seguro nas pistas e avenidas brasileiras.

Não perca a oportunidade de participar e de se emocionar com uma das missas da Pastoral Rodoviária. Quando ela estiver em sua cidade, não deixe de comparecer. Não perca essa bênção maravilhosa, criada por padres vicentinos e que muito bem tem feito ao povo da estrada. Outras informações sobre a Pastoral Rodoviária e sobre o calendário das missas podem ser obtidas no site www.pastrodo.com.br.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Recentemente, foi nomeado Vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial.

 

 

Artigo

 

 

Para que serve a Coleta de Ozanam?

(*) Cfd. Renato Lima

 

Na primeira semana de setembro, todos os anos, devemos, generosamente, realizar em nossas Conferências a Coleta de Ozanam, cujo Artigo 69 da Regra nos ensina que o valor arrecadado será destinado ao Conselho Geral Internacional (CGI) da SSVP. A coleta deve ser feita na primeira reunião de setembro e encaminhada ao Conselho Particular no mais breve espaço de tempo, que a fará chegar, via Conselho Nacional, à sede da SSVP em Paris.

O Conselho Geral Internacional utilizará esses recursos, provenientes de todas as partes do planeta, para a manutenção de sua estrutura e de sua sede, para o desenvolvimento de projetos e no repasse a Conferências mais carentes. O Conselho Geral usa ainda essa verba para apoiar os Conselhos vicentinos de países que sofreram com desastres naturais (terremotos, furacões, tsunamis, etc), apoiando na reconstrução de casas e na doação de remédios e mantimentos.

Quem não se lembra da atuação dos vicentinos junto aos desabrigados do terremoto na Turquia (1999), no México (2001), o tsumani (2006) e a fome no Sudão? Tais iniciativas só foram possíveis com os recursos que são enviados ao CGI por intermédio da Coleta de Ozanam. Esta verdadeira “campanha de arrecadação” não poderia ter sido batizada como nome melhor, pois era sonho de Ozanam reunir o mundo inteiro, numa grande rede de caridade.

Assim, devido ao caráter nobre e meritório desta coleta, pedimos que os presidentes de Conferência, no momento em que houver o recolhimento da doação (de forma secreta), reforcem o objetivo da arrecadação, estimulando a caridade de seus membros. Lembro que, ao contrário da Contribuição da Solidariedade (fixada em 1% do salário mínimo por confrade ou consócia), esta coleta não tem valor definido, podendo atingir qualquer quantia. O sucesso da coleta vai depender do grau de engajamento dos presidentes e dos tesoureiros de nossas Conferências.

Sendo generoso na Coleta de Ozanam, que é anual, cada confrade e consócia da área do Conselho Central Divino Espírito Santo estará contribuindo para que o presidente geral, cfd. José Ramón Díaz-Torremocha, e seus Vice-presidentes (dentre eles o cfd. Renato Lima) possam efetuar as viagens necessárias para visitar os Conselhos Nacionais e ampliar a presença da SSVP pelo mundo, entre outras tantas necessidades específicas do CGI (manutenção do site, promoção de eventos, impressão de publicações, etc).

Alertamos ainda que, conforme o § 3º do Artigo 69, a remessa dos recursos será feita pelos Conselhos Particulares, diretamente ao Conselho Nacional do Brasil, até 31 de outubro de 2008. Para que isso possa ocorrer, os presidentes de Conferências deverão repassá-los aos CPs na reunião de outubro de 2008.

 A comunidade vicentina internacional só se engajará de fato na arrecadação da Coleta de Ozanam se conhecer os projetos, a estrutura e as iniciativas do Conselho Geral, ainda lamentavelmente desconhecido por grande parte de nossos confrades e consócias. Cabe aos presidentes de Conselho Particular, por estarem mais próximos das Conferências, a tarefa de não só explicar mas também estimular que a Coleta de Ozanam seja robusta, generosa e solidária.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Recentemente, foi nomeado Vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial.

 

 

Artigo

 

O dilema de dar esmolas e a efetividade da caridade cristã

(*) Cfd. Renato Lima

 

Um assunto recorrente nas reuniões das Conferências e que desafia os vicentinos em geral é a questão de dar esmolas aos pobres. Todos sabemos que essa prática é aconselhada pela Santa Igreja e há inúmeras passagens bíblicas recomendando a vivência desta obra de misericórdia. Mas São Vicente nos “provoca” quando diz: “Não basta dar esmola de passagem, é preciso retirar os pobres de sua condição de miserabilidade”.

Um trecho contido nos Atos dos Apóstolos (capítulo 9, versículo 36) narra a história de Tabita, considerada uma seguidora exemplar e que, após doença e morte, voltou a viver pela intercessão da oração de São Pedro: “Em Jope, havia uma discípula chamada Tabita. Esta era rica em boas obras e nas esmolas que dava”. O que houve com Tabita já estava previsto em outra parte bastante contundente do Antigo Testamento: “A esmola livra da morte, apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna” (Tobias 12, 9). E Jesus vai além: “Vendam tudo o que possuem e dêem esmolas” (Lucas 12, 33).

Portanto, encontramos muitas passagens nas Sagradas Escrituras sobre o tema. Porém, a Igreja vem afirmando que precisamos estancar a miséria, e não perpetuá-la. Quando as pessoas dão esmolas nas ruas, geralmente estão querendo livrar-se dos pedintes, dando apenas um paliativo, não resolvendo a questão, só aliviando o sofrimento de forma momentânea. Não há mudança de estruturas nem solução dos problemas de fato, como deveria ocorrer.

É por isso que a discussão sobre dar ou não dar esmolas mexe sensivelmente com cada confrade e consócia que atua na Sociedade de São Vicente de Paulo. Como devemos agir? Sabemos que a esmola não resolve o problema do pobre, mas a Igreja estimula sua prática. Como agir, então? Melhor mesmo é implementar uma ação perene, integrada, organizada e realmente saneadora, que seria justamente a assistência prestada pela SSVP, até que as pessoas socorridas possam, com suas próprias pernas e o suor do seu trabalho, caminhar na vida de maneira autônoma e digna.

Em outras palavras: dar esmolas é um ato de caridade que ajuda, mas não resolve. Devemos continuar dando esmolas, com critérios, é claro. Mas o que vai de fato resolver a questão da pobreza é uma ação de promoção humana integral, aliada ao acesso a emprego, saúde e educação. Juntos, esses elementos trazem de volta a dignidade à pessoa humana, resgatando-a da miséria e inserindo-a no contexto social em que vivemos.

Não podemos reduzir a caridade cristã a apenas fatos materiais, como “dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos”. A caridade é também moral, e não implica gasto de nenhum centavo. Porém esta última é a mais difícil de ser praticada. Saber ouvir (numa sociedade surda), interceder com orações (quando as pessoas não têm mais tempo para orar), perdoar sem limites (num cenário vingativo e violento) e tolerar atitudes inadequadas das pessoas (num mundo recheado de preconceitos e discriminações) são, por exemplo, atos de caridade meritórios (“esmolas virtuais”) que não custam nada e fazem uma enorme diferença. Reflitamos.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 37 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Recentemente, foi nomeado Vice-presidente Territorial Internacional para a América Sul Equatorial.

 

 

Artigo – janeiro/fevereiro

 

Os desafios dos jovens quando ingressam nas fileiras vicentinas

 

(*) Cfd. Renato Lima

 

 

Não raro, vemos alguns jovens ingressarem nas Conferências Vicentinas, chegarem a se proclamar, mas depois de certo tempo, abandonam as fileiras da Sociedade de São Vicente de Paulo, aparentemente sem motivo. E os vicentinos dessas Conferências ficam se perguntando: onde foi que erramos? Por que não conseguimos reter esses jovens no grupo? O que teria dado errado? São perguntas naturais que qualquer um se faz.

Mas é preciso levar em consideração que, na maioria das vezes, o jovem se afasta da SSVP não porque teve problemas com outros vicentinos nem porque não gostou do trabalho de promoção humana e social realizado pelas Conferências. Ele – jovem – está na verdade passando por momentos delicados em sua vida e, por conta disso, precisa de mais tempo para resolver essas questões pessoais, deixando a SSVP, infelizmente, para “mais tarde”.

Dentre essas questões, podemos destacar a conclusão dos estudos intermediários, a conquista do primeiro emprego, a saída de casa dos pais para morar sozinho, os estudos universitários (em alguns casos, bem longe da família), o noivado e o casamento, além das preocupações econômicas. Todos esses elementos atingem mais fortemente os jovens na faixa dos 18 aos 32 anos, e nem sempre a pessoa tem a maturidade e o apoio da família e dos amigos para suportar tais desafios e vencê-los. Na verdade, passar por tudo isso sozinho é muito difícil.

Ozanam viveu essas mesmas questões, em seu tempo. Ainda bem jovem, com 16 anos, seu pai arrumava para ele um estágio no escritório de Advocacia do Dr. Coulet, em Lion. Ozanam viu cedo a morte de seus pais. Saiu de uma cidade de interior e foi para a capital. Sozinho, aos 18 anos, em Paris, foi morar com estranhos (ainda que fossem boas pessoas, como o físico Ampère). Cursou o ensino superior sem a presença da família. Conseguiu seu primeiro emprego na própria universidade em que estudou. Teve dúvidas sobre a vocação sacerdotal. Casou-se e teve uma filha. Viveu tudo isso dos 16 aos 32 anos. Qualquer semelhança com os tempos de hoje, não é mera coincidência. Isso acontece com todos nós.

O principal fundador da SSVP nos deixou esse exemplo: é possível ser jovem e, ao mesmo tempo, ser um católico fiel e exemplar. Cada fase da vida de Ozanam, especialmente a época da juventude, foi vivida com intensidade, com ardor e vibração. Tudo o que fazia era bem feito. Sempre buscou aconselhamento espiritual, o que o fortaleceu na defesa da fé e o salvaguardou nos momentos de intranqüilidade. Nunca deixou de fazer nada que era típico dos jovens, mas o fez sempre com responsabilidade e temor a Deus.

Aos rapazes e moças que visitam as Conferências Vicentinas e que estão vivendo esse momento de transformação em suas vidas, tenham Ozanam como exemplo de jovem atuante e responsável, que com apenas 20 anos fundou a maior entidade católica leigo-religiosa do mundo: a Sociedade de São Vicente de Paulo, que hoje conta com 700 mil voluntários espalhados em 144 países. E você, jovem do século XXI, que contribuição vai deixar ao mundo? Os pobres esperam por sua mão amiga e solidária. Ou vai deixar a SSVP para “mais tarde”?

 

(*) Cfd. Renato Lima, 38 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Recentemente, foi nomeado Vice-presidente Territorial Internacional para a Região “América Sul Equatorial”.

 

 

 

Juntar tesouros no céu e fazer caridade com discrição

Renato Lima (*)

 

Certa vez, numa viagem com fiz com minha esposa, estávamos visitando uma igreja católica muito antiga, construída no século XVI, cujos ornamentos e adereços eram realmente impressionantes e revestidos de ouro e prata. Ficamos encantados com a beleza do local. Na explicação, o guia turístico disse que tudo aquilo tinha sido doado pela população da época, pois eles tinham a certeza de que, ajudando a igreja, estariam “juntando tesouros no céu”.

Há religiões em que a relação com Deus é reduzida a uma equação econômica: quanto mais a pessoa for fiel, mais ela será cumulada de bens materiais aqui na Terra. São denominações cristãs que desvirtuam o sentido da Bíblia Sagrada e das palavras de Jesus. Basta conferir o capítulo 6 do Evangelho de São Mateus, que nos ensina justamente o contrário: Jesus orienta que devemos nos esforçar para “juntar tesouros no céu”, e não aqui nesta terra.

“Não ajunteis para vós tesouros na Terra, onde a ferrugem e as traças corroem e onde os ladrões roubam. Ajuntais para vós tesouros no céu. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração” (Mt 6, 19s). Em Mateus 19 (versículo 21), Jesus foi além e deu a receita: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me”.

E como se junta tesouro no céu? Uma forma bastante didática que a Igreja nos recomenda e estimula é a prática das obras de misericórdia, constantes no Catecismo. “As obras de misericórdia são ações caritativas pelas quais socorremos o próximo em suas necessidades corporais e espirituais” (Item 2.447 do Catecismo da Igreja Católica).

As obras de misericórdia espirituais são: instruir, aconselhar, consolar, confortar, perdoar e suportar com paciência. Já as obras corporais são: dar de comer a quem tem fome, dar de beber a quem tem sede, dar moradia, vestir os maltrapilhos, visitar os doentes, visitar os prisioneiros e sepultar os mortos.

Essa passagem é uma dentre várias que podemos ler no capítulo 6 de Mateus, intitulado “Fazer as boas obras em segredo”, princípio sobre o qual está baseada a ação dos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo. Neste capítulo, Jesus nos deixa outras recomendações quanto ao comportamento nas orações, no momento do jejum, no uso do dinheiro e sobre as preocupações exageradas (do tipo “o que vamos comer?” ou “o que vamos beber?”).

Lá encontramos ainda o seguinte trecho: “Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Quando deres esmola, não toques a trombeta, como fazem os hipócritas. Que a tua esquerda não saiba o que fez a direita; assim a tua esmola se fará em segredo”. É por isso que os vicentinos devem ser discretos na entrega de donativos às famílias carentes e na obtenção de doações para as Conferências. “A esmola é um testemunho de caridade fraterna e é uma prática da justiça que agrada a Deus” (Item 2.462 do Catecismo).

Por isso, juntemos nosso tesouro no céu (nossa salvação), pela prática das obras de misericórdia, com discrição e justiça social. Assim, seremos vicentinos por completo e cumpridores de nosso papel como batizados e missionários. Pela prática da caridade evangélica, tornamo-nos pessoas melhores e, ao mesmo tempo, ajudamos a quem precisa. É uma via de mão dupla, na qual, acreditamos, nós é quem somos mais abençoados.

 

(*) Jornalista, 37 anos, presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Vicentinos desde 1986.

 

 

Responsabilidade e zelo do dirigente vicentino

(*) Cfd. Renato Lima

 

Nesses mais de 20 anos como vicentino, já presenciei um pouco de tudo: alegrias e tristezas, “luzes e sombras” (como dizia nosso querido cfd. Carlos Henrique David), orgulho e decepção, acertos e erros. Às vezes, ficamos sabendo de problemas em unidades vicentinas, especialmente em Obras Unidas (creches, abrigos de idosos, escolas, etc.), situações estas que podem arranhar a bela imagem de serviço e de caridade que nossa Sociedade de São Vicente de Paulo goza perante a sociedade civil e junto aos pobres.

Certas atitudes de alguns dirigentes vicentinos só nos envergonham por suas medidas inadequadas e descabidas. Por isso, rogamos a Deus que sigamos nesta caminhada a favor dos que sofrem e dos mais abandonados, sem nos influenciarmos com notícias tão negativas e que trazem grandes prejuízos à SSVP. Afinal, estamos na Sociedade de São Vicente de Paulo unicamente por conta dos pobres e pela misericórdia de Deus.

Deus nos dê forças ante à omissão de alguns dirigentes que permitem, bem debaixo de seus olhos, ações irregulares e nocivas para a credibilidade da SSVP. Essa omissão, que conforme ensina a Igreja é pecado também, é degradante, perversa e nefasta, agredindo a todos os demais que são zelosos. É admissível que um dirigente vicentino não “assine” a carteira de trabalho dos funcionários de uma Obra Unida? Pode um dirigente vicentino contrair dívidas na gestão do patrimônio da SSVP? Isso é ético?

Deus nos dê forças perante o despreparo de certos dirigentes vicentinos, colocados em funções – às quais sabemos – que não têm nenhuma condição técnica de exercer, mas que por questões secundárias foram escolhidos para tais encargos. Esse despreparo não é só administrativo, mas também espiritual, pois além de problemas de gestão, geralmente são pessoas que fingem piedade onde só existe vazio.

Deus nos dê forças para tolerar apego demasiado a cargos e melindres de vaidade de certos dirigentes que são cegos pelo “poder”, inebriados pelos falsos elogios e pelos “tapinhas nas costas” de araque. A vaidade é o ingrediente podre que faz solar o bolo. Onde o homem governa, o resultado só pode ser desastroso. Onde o Divino Espírito Santo governa, aí sim a obra de Deus se manifesta e as transformações acontecem. Precisamos de mais oração e de mais jejum para limarmos da SSVP as pessoas sem vocação vicentina.

Contudo, diante de tantas trevas, há uma SSVP santa, criativa, bonita e empreendedora, que promove famílias carentes e que administra seu patrimônio com competência e inovação. A este grupo de confrades e consócias queremos nos somar, e por causa deles permanecemos na SSVP, pois na balança, temos muito mais a comemorar do que a reclamar. E que Deus nos preserve e nos proteja dos maus dirigentes!

 

(*) Cfd. Renato Lima, 36 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

 

Você conhece o fabuloso

trabalho da Pastoral Rodoviária?

(*) Cfd. Renato Lima

 

T

ive o privilégio de participar recentemente, em Brasília, de uma missa celebrada pelo padre Germano Nalepa, da Congregação da Missão (CM), um dos sacerdotes lazaristas que coordenam a Pastoral Rodoviária em nosso País. Juntamente com os padres Mário e Miguel, os sacerdotes da Pastoral Rodoviária viajam pelas rodovias brasileiras há mais de 30 anos, levando a Palavra de Deus a todos. Esses verdadeiros “apóstolos da caridade” são homens abnegados e dedicados à causa do Evangelho e do carisma vicentino.

E você, conhece o belo trabalho da Pastoral Rodoviária? A Pastoral Rodoviária é um serviço da Igreja Católica Apostólica Romana, criado em 1976, voltado para o povo da estrada. Essa pastoral, nesse estilo como é feita no Brasil, é única no mundo. Os padres da Pastoral Rodoviária viajam pelas estradas (muitas delas em péssimo estado de conservação) e pelos trajetos visitam, ao menos uma vez por ano, aproximadamente 7.000 postos de combustíveis, ao longo de 240 dias.  Ao todo, são celebradas 1.600 missas. Os padres vicentinos percorrem, anualmente, 50 mil quilômetros! São missionários ao pé da letra!

As missas são abertas paras motoristas, caminhoneiros, frentistas, borracheiros, funcionários das lanchonetes e restaurantes dos postos de combustíveis, além da comunidade e demais interessados. Para o serviço pastoral, a equipe dispõe de três caminhões-capela (as capelas estão montadas dentro de furgões). Abrindo a porta traseira do furgão, surge o altar, as caixas de som, o microfone, os folhetos da celebração, as folhas de cânticos e os demais assessórios preparados para fins religiosos.

Qualquer pessoa que participa de uma missa da Pastoral Rodoviária sente forte emoção pela simplicidade da celebração e, ao mesmo tempo, pela profundidade das palavras dos sacerdotes, que exortam os fiéis a terem prudência e paciência no trânsito, tanto nas cidades quanto nas estradas.

Os serviços prestados pelos padres da Pastoral Rodoviária são gratuitos, compreendendo missas e outros atendimentos pastorais (confissões e demais sacramentos). Os padres também divulgam a devoção a Nossa Senhora da Estrada (padroeira dos viajantes e motoristas, juntamente com São Cristóvão), distribuindo, ao final das celebrações, decalques, pôsteres e selinhos adesivos com a imagem dela, bem como rosários bentos.

Quando de sua visita a Brasil, o Superior Geral da Congregação da Missão, padre Robert Maloney, encantando com o trabalho da Pastoral Rodoviária, disse que o caminhão-capela era “a menor igreja do mundo, mas ao mesmo tempo a maior paróquia do mundo”. Não há quem participe de uma das missas da Pastoral que não se transforme e que não reflita sobre a importância do trânsito seguro nas pistas e avenidas brasileiras.

Não perca a oportunidade de participar e de se emocionar com uma das missas da Pastoral Rodoviária. Quando ela estiver em sua cidade, não deixe de comparecer. Não perca essa bênção maravilhosa, criada por padres vicentinos e que muito bem tem feito ao povo da estrada. Outras informações sobre a Pastoral Rodoviária e sobre o calendário das missas podem ser obtidas no site www.pastrodo.com.br.

 

(*) Cfd. Renato Lima, 36 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

Coisas que podem matar a SSVP

(*) Cfd. Renato Lima

 

 

Certa vez, um presidente de Conselho Particular de minha região de disse que três coisas podem, de fato, destruir o belo trabalho realizado pela Sociedade de São Vicente de Paulo: a quebra da hierarquia, a má administração de obras unidas e a vaidade dos dirigentes vicentinos. Toda a ação caritativa desenvolvida pelas Conferências junto aos pobres pode se perder por inteiro se não observarmos esses elementos.

No que concerne à quebra da hierarquia, estamos nos referindo às unidades vicentinas que, por exemplo, não recolhem a décima em sintonia com os princípios da Regra, encontrando formas “criativas” (para não fizer irregulares) de fugir a esse recolhimento vital para o cotidiano dos Conselhos e de seus setores estratégicos (juventude, formação, crianças e adolescentes, comunicação, obras e patrimônio).

Há ainda certos presidentes de Conferências que não repassam para as bases as informações que recebem nas reuniões dos Conselhos Particulares, por considerarem “menos importantes” e “sem necessidade”, alijando os confrades e consócias de assuntos que podem auxiliar em muito na tomada de decisões em nossos grupos. O “represamento” ou “sonegação” dessas informações não tem nenhuma justificativa plausível.

Além do problema crônico da quebre da hierarquia, outro problema que vem “tirando o sono” de muitos vicentinos é a questão da má gestão e descontrole administrativo de inúmeras obras unidas espalhadas pelo Brasil. Em algumas delas, há dívidas estrondosas por conta de débitos trabalhistas e tributários. Infelizmente, temos tido dirigentes de Obras Unidas e de Conselhos Centrais incompetentes, despreparados e omissos, provocando danos enormes à imagem da SSVP em nossas cidades. Algo precisa ser feito urgentemente contra esses péssimos administradores.

Por fim, e não menos importante, existe a questão da falta de humildade de muitos dirigentes, que foram contaminados pela “mosca azul” do poder e da vaidade de exercerem cargos de direção na SSVP, o que deveria ser motivo de trabalho, e não de honraria. Realmente é de se estranhar que algumas pessoas se envaideçam por serem presidentes de Conselho ou Conferência, uma vez que tal atribuição é até certo ponto cansativa e desgastante.

Precisamos – não me canso de defender isso – de uma nova safra de dirigentes vicentinos, modernos, atualizados, preocupados com nossa credibilidade secular, atentos às novas formas de pobreza, obcecados no ataque às reais causas da miséria e, ao mesmo tempo, piedosos e pessoas de oração. Não há mais espaço para amadorismo nem improvisação.

Deixo para os leitores um trecho da Bíblia que eu gosto muito e que deveria ser lido todos os dias, por todos os dirigentes vicentinos, bem cedo, ao se levantarem e ao se deitarem, como “profissão de fé”: “Nada façais por espírito de partido ou vanglória, mas que a humildade vos ensine a considerar os outros superiores a vós mesmos. Cada qual tenha em vista não os seus próprios interesses, e sim os dos outros” (Filipenses 2, 3s). Sejamos servidores acima de tudo!

 

(*) Cfd. Renato Lima, 36 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

Outras verdades inconvenientes

(*) Cfd. Renato Lima

 

O

 ex-vice-presidente Al Gore, dos Estados Unidos da América, lançou este ano o documentário “Uma verdade inconveniente” (“An Inconvenient Truth”), no qual alerta a população mundial em relação ao aquecimento do planeta e aos problemas decorrentes da destruição do meio ambiente, por conta da nefasta atuação do homem, cuja ganância e imediatismo estão matando lentamente a vida.

O filme tem sido premiado em vários festivais por mostrar ao mundo que se algo não for feito já, poderemos estar realmente destruindo o planeta. É uma “verdade”, já que é fato que a temperatura do globo tem aumentado a cada ano, e é “inconveniente”, pois muita gente que ganha milhões de dólares com a produção não-sustentável não quer perder seus privilégios, ainda que a “conta” venha a ser paga por seus netos e bisnetos.

É evidente que o problema do aquecimento global é importante e não podemos fechar os olhos frente a essa realidade. Mas, nesta crônica, iremos abordar “outras verdades”, igualmente inconvenientes (para alguns), que precisam ser ditas e que, se também não fizermos nada urgente, continuaremos separando as nações entre “desenvolvidas”, “em desenvolvimento” e “pobres”, aumentando o fosso entre miseráveis e ricos.

Estamos nos referindo a certos números que, da mesma forma que o documentário sobre a destruição da natureza por conta da ação do homem, chocam-nos e nos surpreendem. Por exemplo, você sabia que um a cada seis paulistanos vive hoje em favelas? Você sabia que mais de 50 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha de pobreza, 40% dos quais abaixo da linha de indigência? Você sabia que quem recebe mais de R$ 3.600 por mês, no Brasil, é considerado “riquíssimo”? Você sabia que 980 milhões de habitantes de nosso planeta (1/5, portanto) vivem em pobreza extrema, com menos de um dólar por dia?

Como se percebe, os dados acima apontam outras “tristes verdades inconvenientes” para muitos que procuram pintar um falso quadro róseo. A pobreza e a desigualdade no Brasil são retrato de uma situação inaceitável. O País, além de pobre, é desigual, e nessa desigualdade encontra-se a origem da pobreza; combatê-la torna-se imperativo de um projeto de sociedade que deve enfrentar o desafio de combinar democracia com eficiência econômica e justiça social.

Seria necessário que se produzisse um documentário, espelhado no de Al Gore, para chamar a atenção das pessoas, especialmente dos governantes e dos empresários, sobre a forte concentração de renda em poucos, e a extrema desigualdade social e econômica que afeta todos, sem distinção. Será que precisaremos chegar a uma guerra civil global para termos consciência disso? Nem a Organização das Nações Unidas (ONU), com suas Metas do Milênio, conseguiu sensibilizar os governos para a redução da miséria em 50% até 2015.

Neste cenário, resta a nós, vicentinos, a esperança de que dias melhores virão, em que a justiça social sonhada por Ozanam (“desejo reunir o mundo inteiro numa grande rede de caridade”) e preconizada pela Igreja seja realidade. As Conferências Vicentinas estão inseridas neste contexto de redução da pobreza. Assim, acreditamos que apenas aliviar a fome com cestas ou vales de alimentos não resolve a situação; ao contrário, perpetua e agrava a miséria. Programas assistenciais populistas, além de pouco eficientes, só interessam a políticos antiéticos, que se beneficiam da pobreza material e cultural de milhões de pessoas de boa-fé.

Por isso, é preciso atacar com afinco as causas da miséria, e isto leva tempo, dá trabalho, consome energia, não dá votos e não aparece na mídia. Sendo assim, é missão para nós, vicentinos!

 

(*) Cfd. Renato Lima, 36 anos, é vicentino desde 1986. Preside o Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e é coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

 

O valor da mídia vicentina

Cfr. Renato Lima*

 

Costumo dizer que “um vicentino bem informado vale por dois”. Essa frase, uma de minhas preferidas, retrata bem o que ocorre no seio da Sociedade de São Vicente de Paulo: aqueles confrades e consócias que são assinantes de nossos veículos de comunicação, como o “Boletim Brasileiro” e a “Revista Adoremos”, são definitivamente “diferentes”.

Também os vicentinos conectados à Internet – número crescente a cada dia – têm hoje acesso a centenas de sites que trazem textos de formação e informação de qualidade, como o portal da Agência de Notícias”Rede de Caridade” ou a página do Conselho Nacional do Brasil. Pela Internet, o vicentino expande seus conhecimentos e visita Conferências longínquas sem sair da frente do seu computador.

Essa diferença percebe-se a olhos vistos, no cotidiano das Conferências e nas atividades junto às famílias assistidas. O confrade e a consócia assinantes da mídia vicentina estão sempre atualizados, bem informados, sabedores do andamento dos projetos e antenados com os acontecimentos da Família Vicentina e dos demais Conselhos pelo Brasil e pelo mundo.

Para manter a base de membros da SSVP constantemente informada, a cada dois anos, os responsáveis pela mídia da SSVP se reúnem em congressos para debater seu papel e sobre como tornar a ação vicentina mais efetiva no serviço dos pobres, buscando a superação da miséria, da fome, da exclusão social e das desigualdades regionais. Se a mídia vicentina não tiver esse foco, todo o esforço por sua difusão será inócuo.

Contudo, se os “comunicadores vicentinos” não tiverem o apoio dos dirigentes, especialmente dos presidentes de Conselho e de suas diretorias, corre-se o risco de perder esse inestimável patrimônio que são os veículos de comunicação vicentinos. Deve-se empreender investimentos nesses veículos – e não promover cortes –, adquirindo equipamentos, capacitando e qualificando os comunicadores, bem como estimular a sua profissionalização.

Quando falamos em apoio, estamos nos referindo a toda forma de incentivo e de estímulo que os abnegados comunicadores vicentinos (muitos deles voluntários, sem formação jornalística acadêmica) devem receber para poder desempenhar seu papel de “apóstolos da caridade” e “arautos do carisma vicentino”. Para anunciar e proclamar as maravilhas do Senhor, é preciso apoio, companheirismo, cumplicidade e consideração.

Investir na comunicação vicentina é investir no futuro da SSVP, pois utilizamos nossos meios para a propagação do nosso carisma, conquistando novos membros e novos contribuintes. Quando o veículo de informação vicentino é bom e de qualidade, toda a nossa entidade sai ganhando.

Não raro, temos visto, em vários escalões da SSVP, mudanças bruscas na condução dos departamentos ou setores de comunicação e marketing. É verdade que todo novo dirigente tem a prerrogativa de escolher sua diretoria e seus assessores, porém na área de comunicação nem sempre encontramos pessoas coma devida qualificação para assumir tais encargos. Trabalhar com rádio, meios impressos, Internet, televisão e outras mídias não é coisa para amadores nem iniciantes.

Parabéns aos vicentinos que assinam revistas, jornais e boletins, e parabéns aos idealistas e despojados comunicadores vicentinos, pelo excelente trabalho que vêm realizando na difusão da causa de Vicente e de Ozanam.

(*) Jornalista, 36 anos, vicentino desde 1986, presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo (Brasília-DF) e coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Contatos: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo..

 

Artigo exclusivo BB – jan/fev 2007

 

Como escolher a leitura

espiritual das reuniões vicentinas?

Cfr. Renato Lima (*)

 

U

m dos maiores desafios para um presidente de Conferência ou de Conselho é a escolha da leitura espiritual para as reuniões, uma vez que, se bem selecionada, funciona como eficiente suplemento às ações de formação e capacitação desenvolvidas no sentido de aprimorar a vida espiritual dos vicentinos.

A Regra da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP) no Brasil (edição que passa a vigorar em 2007) estabelece que faz parte da reunião da Conferência a leitura espiritual, preferencialmente, da Sagrada Escritura (art. 66). A leitura também é prevista nas reuniões dos Conselhos, recomendando a Regra que todos se manifestem, partilhando conhecimentos e experiências pessoais (art. 83).

A Regra do Conselho Geral Internacional afirma, na mesma linha, que nas reuniões a “espiritualidade vicentina partilhada e fraterna deve ser fonte de inspiração”. Por isso, a leitura espiritual deve ser muito bem escolhida, previamente meditada e criteriosamente debatida.

Existem quatro tipos de leituras espirituais compatíveis para o cotidiano de nossas unidades vicentinas: 1) leitura da Bíblia, como orientado na Regra, principalmente para as Conferências; 2) leitura de artigos vicentinos, disponíveis na Internet ou publicados na nos meios de comunicação da SSVP e da Família Vicentina; 3) reflexão sobre artigos de espiritualidade contidos em livros de autoria de vicentinos; e 4) leitura de textos que abordam temas sócio-econômicos que contribuam para ampliar a formação integral dos confrades e consócias.

No caso da leitura da Bíblia, esta deve ser meditada pelo presidente (e se possível pela mesa da Conferência ou diretoria do Conselho) antes de ser proposta para a reflexão dos demais companheiros de caminhada vicentina. O assessor espiritual da unidade vicentina poderia ser envolvido nesta tarefa. Deve-se observar a precedência e contextualização das passagens bíblicas com a vida vicentina. Nem sempre a leitura é escolhida com esse viés e, assim, os comentários acabam não tendo relação com os trabalhos executados pela SSVP.

Sobre os artigos redigidos por vicentinos e que são publicados na mídia (Internet, revistas, jornais e boletins) ou que estão em livros, grande parte desses artigos são de boa qualidade e realmente contribuem na formação dos confrades e consócias. Além de tudo, deve-se dar preferência aos artigos de cunho espiritual, que versem sobre o carisma vicentino e a mensagem salvífica contida nos Evangelhos. No caso dos textos não-religiosos a respeito da economia e de seus reflexos sobre a exclusão social e os vulneráveis, deve-se selecionar artigos curtos, sem termos técnicos de difícil compreensão.

Todos os três tipos de leituras são adequadas para as Conferências e Conselhos, contudo sugere-se que o presidente da unidade faça um rodízio de temas, proporcionando maior riqueza de debates. O que não pode ocorrer é o presidente da unidade chegar à reunião e dizer: “Alguém tem aí alguma historinha para servir de leitura espiritual?”. Ou então: “Confrade, abra aí a Bíblia em qualquer lugar e faça a leitura espiritual de hoje”. Isso é um absurdo.

Como se percebe, escolher uma boa leitura espiritual não é tarefa fácil. É por isso que devemos escolher bem nossos presidentes de Conferências e Conselhos para que estes, iluminados e experientes, possam empreender uma das mais importantes partes de nossas reuniões: a reflexão espiritual que nos alimenta, renova e revigora.

 

(*) Presidente do Conselho Central Divino Espírito Santo da Asa Norte (Brasília-DF) e coordenador nacional da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br).

 

Artigo (ainda não publicado)

 

Os vicentinos, a Constituição Federal e o fundo contra a pobreza

Cfr. Renato Lima (*)

 

O artigo 3º da Constituição Federal afirma que constitui objetivo fundamental da República Federativa do Brasil “erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades sociais e regionais”. Mais à frente, no artigo 23, a Magna Carta diz que é competência comum (isto é, da União, dos Estados, dos municípios e do DF) “combater as causas da pobreza, promovendo a integração social dos setores desfavorecidos”.

Para dar conta desse enorme desafio, foi criado em 2001 para vigorar até 2010, o “Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza”, tema incluído no texto constitucional por meio dos artigos 79, 80, 81 e 82 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT). O Fundo foi regulamentado pela Lei Complementar nº 111, de 2001, e tem como objetivo “viabilizar a todos os brasileiros o acesso a níveis dignos de subsistência e seus recursos serão aplicados em ações suplementares de nutrição, habitação, saúde, educação, reforço de renda familiar e outros programas de relevante interesse social, voltados para a melhoria da qualidade de vida”. Desde que foi criado, já foram aplicados R$ 20 bilhões em programas sociais com recursos do Fundo.

Iniciativas dessa natureza, embora importantes em países emergentes como o nosso, não atacam o problema (as causas) da pobreza de frente, apenas amenizam suas conseqüências. A ONG “Ação da Cidadania”, criada pelo sociólogo Herbert de Souza (o Betinho), bem explica essa problemática: “A luta contra a miséria tem uma dupla dimensão, emergencial e estrutural. Atuar no emergencial sem considerar o estrutural é contribuir para perpetuar a miséria. Propor o estrutural sem atuar no emergencial é praticar o cinismo de curto prazo em nome da filantropia de longo prazo”.

Como percebemos, a Lei Maior de nossa nação e a legislação complementar se preocupam bastante com o problema da miséria e da vulnerabilidade social, mas de fato nem sempre a questão é adequadamente enfrentada. Certos programas assistenciais, no lugar de erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades, acabam por eternizar a situação de miséria e, conseqüentemente, não permitem que as inúmeras famílias pobres (cerca de 42 milhões de pessoas, equivalente à população da Argentina) deixem de ser dependentes desses programas.

E nós, da Sociedade de São Vicente de Paulo, o que temos a ver com tudo isso? É evidente que nossa ação sócio-libertadora é completamente independente das ações governamentais, e quanto mais autônoma for, melhor, como pregava nosso fundador Antônio Frederico Ozanam. Estar conveniado a órgãos de governo, que por natureza são transitórios e partidarizados, é um risco que pode arranhar nossa imagem e nossa credibilidade para sempre.

Temos lido na imprensa várias matérias sobre a situação delicada de algumas obras sociais vicentinas em todo o Brasil, que passam por dificuldades financeiras por conta de atraso no repasse de recursos governamentais. Recentemente, um lar de idosos localizado na Região Norte teve a energia elétrica cortada por falta de pagamento pela prefeitura. O que dizer disso tudo?

Portanto, não basta que a Constituição Federal e as leis brasileiras intencionem acabar com a miséria e reduzir o abismo entre ricos e pobres. É preciso que ponhamos a “mão na massa”, saiamos do nosso comodismo e construamos o Reino entre nós, com justiça e paz. Nossa responsabilidade, vicentinos e demais ramos da Família Vicentina, é enorme e desafiadora.

 

  • Artigo – Revista Convincente (1º trimestre/2007)

 

Como acolher os aspirantes?

Cfr. Renato Lima*

 

“A primeira impressão é a que fica”. Este ditado popular deve ser bastante observado no seio da Sociedade de São Vicente de Paulo, especialmente quando recebemos visitantes em nossas Conferências, Conselhos e festas regulamentares. Se queremos que essas pessoas venham a se tornar aspirantes e, logo depois, vicentinos, precisamos nos atentar para certos detalhes que têm, lamentavelmente, comprometido a imagem de nossa entidade.

Certa vez ouvi de um desses visitantes que ele teria desistido de ser vicentino pois achava o ambiente da Conferência muito sóbrio, conservador ao extremo e “insosso”, nas palavras dele. Outro me contou que suas opiniões e idéias não eram lá muito valorizadas. Um terceiro me confidenciou que considerava as reuniões enfadonhas e pouco atrativas. Portanto, há que se perguntar: como estamos acolhendo os postulantes a vicentino nas unidades vicentinas?

Acolher, segundo os dicionários, significa “hospedar”, “receber alguém”, “abrigar”, “dar guarida”. Quando recebemos uma pessoa em nossa casa, procuramos arrumar tudo: colocamos os móveis no lugar, guardamos os brinquedos das crianças, retiramos as roupas do secador, damos aquela última olhada no banheiro, limpamos a louça suja do almoço, etc.

E nas nossas Conferências, temos essas preocupações? Nossas salas estão limpas e arejadas? O dispensário de roupas e alimentos está em ordem? As paredes da sala que utilizamos na paróquia está pintada e conservada? Nossas reuniões são alegres, pacíficas e estimulantes? Nossas visitas aos socorridos são realmente transformadoras, ou meramente assistencialistas? Os jovens e aspirantes têm espaço no dia-a-dia das Conferências? Eles recebem atribuições e missões a cada semana? Procuramos valorizar as impressões externas ou estamos terrivelmente apegados ao nosso próprio parecer? Aceitamos sugestões ou dizemos que “é assim que fazemos há anos”?

Acolher bem o visitante é semear a semente em terra fértil. Como está escrito em Mateus (capítulo 13): “O semeador saiu a semear. Enquanto semeava, parte das sementes caiu à beira do caminho e vieram as aves e comeram. E outra parte caiu em lugares pedregosos, onde não havia terra; a semente nasceu mas porque não tinha terra profunda, queimou-se com o sair do sol e, por não ter raiz, secou-se. E outra caiu entre espinhos e os espinhos cresceram e a sufocaram. Mas outra parte caiu em terra boa e deu frutos cem por um”. Esta semente vai crescer (aspirantado) e dará frutos (confrade ou consócia) sem cair em terra boa, ou seja, se encontrar uma Conferência “fértil”.

Temos que fazer de tudo para que os novatos tenham a impressão correta do trabalho vicentino para que, se forem vocacionados, ingressem neste movimento internacional de leigos, inspirado na generosidade de São Vicente de Paulo e sonhado pelo Bem-aventurado Antônio Frederico Ozanam. Os visitantes e futuros aspirantes precisam compreender a missão desempenhada pelas Conferências e os desafios a que nós estamos dispostos a enfrentar pela construção do Reino.

Algumas pequenas sugestões que podem dar um “tempero” novo às nossas reuniões: a) no início ou no encerramento, cantar hinos vicentinos; b) convidar todos os presentes a darem a saudação “A Paz de Cristo” (a mesma da santa missa); c) pedir ao visitante que conduza a leitura espiritual, ou que faça um comentário dela; d) presentear os novatos com um exemplar da Regra, estimulando sua leitura e, depois de lida, a discussão sobre seus princípios; e) delegar tarefas, especialmente aquelas relacionadas à vida dos assistidos; f) mensalmente, fazer uma confraternização com os aniversariantes, com a reza do Terço.

Enfim, pode-se fazer muita coisa, com simplicidade e eficiência, para que a “primeira impressão” seja a melhor possível, como ocorreu comigo em 16 de abril de 1986, quando conheci a Conferência Santo Tomás de Aquino, em Campinas-SP. Foi amor à primeira vista.

 

 

 

O assistencialismo vicia, acomoda e perpetua a miséria

Cfr. Renato Lima*

 

Ao encerrar a 4ª Semana Social Brasileira, promovida em 2006 pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em Brasília, o presidente da Comissão Pastoral para Serviço da Comunidade, Justiça e da Paz da entidade, Dom Aldo Pagotto, disse que certos programas sociais são “meramente assistencialistas e viciam, não levando a lugar algum”.

Essa declaração da Igreja faz-nos refletir se nossa ajuda aos pobres está sendo eficiente ou os deixa acomodados, pois certas pessoas estão tão acostumadas em receber alguma ajuda (governamental ou não) que não têm ânimo nem vontade para tentar o salto para sua autonomia.

Outro documento da Igreja, o de nº 69 (“Exigências Evangélicas e Éticas de Superação da Miséria e da Fome”, de 2002), afirma categoricamente que dar esmolas à esmo ou doar bens e gêneros sem uma preocupação em erradicar as origens da pobreza significa perpetuar a miséria e até, de certo modo, estimulá-la.

Esse dilema é, com certeza, alvo das preocupações de todos os vicentinos de todas as partes do mundo. Será que a assistência que prestamos, de fato, promove as famílias socorridas ou mantém a situação de miséria, pois mantém as famílias dependentes de doações, nunca libertando-as efetivamente?

Vários são os fatores que colaboram para a ocorrência do problema da fome no país: o desemprego, os baixos salários, a concentração de renda, a má distribuição da terra, o desperdício na produção e na comercialização de alimentos e a ausência ou ineficiência de políticas sociais voltadas para a erradicação do problema. Essas são algumas das causas da pobreza e da miséria e sobre elas nós, vicentinos, temos que nos debruçar e encontrar formas criativas de debelá-las, transformando a realidade excludente na qual estamos inseridos.

É evidente que ações de caráter emergencial, como a coleta e distribuição de alimentos a famílias que passam por grandes necessidades e risco alimentar, precisam ser feitas inexoravelmente, ainda mais em países pobres como o Brasil (temos 54 milhões de pessoas pobres, sendo 22 milhões considerados miseráveis).

Mas tais ações devem ser reforçadas por ações estruturantes, educativas, profissionalizantes e produtivas. Dentre elas, destacamos as pequenas cooperativas, o microcrédito, as Obras Especiais da SSVP (como os cursos de informática), programas de geração de emprego e renda, cozinhas comunitárias e tantas outras idéias solidárias que tentam driblar a miséria e mostram um caminho digno para os pobres vencerem na vida, com honestidade e caráter.

Nosso país precisa de políticas públicas (de segurança alimentar e de emprego) consistentes e de longo prazo que tratem a questão da miséria como algo a ser vencido não só por um governo específico, mas por uma sucessão de governos, até porque não se consegue resolver esse problema em quatro anos. Países como o Japão, a Espanha, Portugal e até mesmo os Estados Unidos (durante a Era Roosevelt) têm muito a nos ensinar, pois viveram épocas de miséria absoluta e “deram a volta por cima”. Também precisamos de mais voluntários e  empresários para somar esforços na luta contra a fome, a desnutrição e o desemprego.

E nós vicentinos, o que temos efetivamente feito? Não podemos deixar que nossa ação acomode os assistidos nem os vicie, estimulando a preguiça e perpetuando a miséria. Que ninguém fique surdo à voz do Cristo: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Marcos 6, 37).

 

Artigo – 2005

 

Vicentino, o Educador

(*) Renato Lima

 

 

Ao conversarmos com alguns colegas professores, percebe-se que educar é mais que uma profissão, é realmente uma vocação. Ensinar, compartilhar o conhecimento, difundir conteúdos é uma virtude que nem todos sabem praticar. Conhecemos muitas pessoas que são bastante inteligentes, mas que não têm o dom de dividir isso com seus semelhantes. E como conhecemos gente assim!

 

Para ser educador, a pessoa tem que ter, acima de tudo, o prazer e o gosto pelo que faz. Ser paciente, pois o processo de ensino-aprendizagem é lento, dependendo da pessoa. Sabemos, de cara, quando algum trabalho é feito por obrigação ou por amor. Uma profissão pode ser ensinada (basta verificar a profusão de faculdades particulares); já a vocação, essa não se pode ser ensinada, não se aprende, nasce com a gente.

 

Nós, vicentinos da SSVP e dos demais ramos da Família Vicentina, somos educadores natos. No contato direto e semanal com o excluído, atuamos no intuito de partilhar exemplos, interagir, trocar experiências e muito mais. Procuramos ser o rosto e a voz de Cristo. Nessa interação da caridade, por vocação, desempenhamos a tarefa do educador que exerce suas atividades com amor, sem preocupação com salários ou qualquer outra contraprestação. Somos vicentinos e educadores por amor, por caridade, por vocação, por Cristo, por Maria, Por São Vicente, por Ozanam e por Deus.

 

Somos educadores sim, mas aprendemos muito com nossos “aprendizes”, sempre. Não retornamos de nossas visitas domiciliares ou de qualquer outra ação vicentina iguais como chegamos. Voltamos diferentes, reflexivos e, portanto, melhores. Somos transformados pelo processo de educação, um processo eminentemente de mão-dupla. Não é à-toa que a santificação dos confrades e consócias ocorrer justamente no momento da visita domiciliar.

 

Assim, caros vicentinos e vicentinas e caros membros dos diversos ramos da Família Vicentina, nunca nos esqueçamos que somos educadores natos e que, portanto, temos a grande responsabilidade de pregar a Palavra de Deus a nossos assistidos e de levar conhecimentos úteis e necessários para eles (noções sobre direitos trabalhistas, dicas de nutrição, empregabilidade, etc), além do aconselhamento moral e ético. Nossa santificação advirá dessa monumental tarefa que consiste em ser santo e espalhar a santidade.

 

Se não agirmos assim, nos tornaremos meros entregadores de sacolas e não cumpriremos nossa missão de batizados, de cristãos e de verdadeiros educadores vicentinos.

 

 

(*) Membro da SSVP desde 1986, integra a Conferência São Francisco de Assis, da Asa Norte (Brasília-DF). É coordenador da Agência de Notícias “Rede de Caridade” (www.rededecaridade.com.br). Casado, jornalista, pós-graduado, 34 anos, possui dois filhos. Foi membro do Conselho Geral da SSVP entre 2000 e 2001.


 
 Aonde foi parar a inocência perdida?

®Lílian Maial

 

O brasileiro estava acostumado a observar as grandes catástrofes mundiais de camarote, muito embora sofresse mazelas endêmicas, como fome, má distribuição de renda, corrupção, seca e outras tantas que, por serem crônicas, não pareciam desequilibrar a resistência e a natural alegria dos brasileiros.

No entanto, de uns tempos para cá, o cenário mudou.

De tanto criticarmos o mundo inteiro, parece que a vingança veio, se não a cavalo, certamente na revolta dos rios e das matas, na zanga de Gaia, que resolveu mostrar do que é capaz, quando instigada ou relegada a segundo plano.

Os últimos acontecimentos de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro corroboram o raciocínio.

Escavar, ferir a terra, desmatar, alterar o curso dos rios, essa mania de grandeza do homem – senhor de todos os grandes feitos – vai levar a raça humana à extinção em breve, de acordo com o cientista inglês James Lovelock, em seu livro “A Vingança de Gaia”.

Lovelock, que acredita na Terra como um organismo vivo, compromissada com o equilíbrio, comenta que o superaquecimento global é irreversível, mesmo que, de agora em diante, todas as medidas fossem tomadas para tentar impedir a subida da temperatura da Terra, com suas devastadoras conseqüências para os seres vivos, notadamente a nossa espécie.

Ele prevê que, por volta de 2040, a vida se torne insuportável no planeta. Nós, que há alguns anos pensávamos que nossas dificuldades eram apenas a ditadura, o governo e a distribuição de renda, nos deparamos com situações de vulto mundial, e ficamos estarrecidos com nossa ignorância e incompetência para lidar com o que vem ocorrendo. Dia após dia, novos fatos trazem à tona essa incapacidade.

Grandes catástrofes começaram a ocupar os noticiários nacionais, como inundações, desabamentos, rompimento de barreiras, de conseqüências avassaladoras, com inúmeros desabrigados e a perda de vidas inocentes.

A irresponsabilidade do lidar com a terra é de todos, mas notadamente daqueles que detêm o conhecimento e a noção tecnológica dos riscos. Infelizmente os ambientalistas sempre foram vistos com desconfiança e certo desprezo, como um grupo de pessoas sem representatividade técnica, como meros sonhadores exagerados e alienados.

O mundo confundia ambientalistas com adoradores do verde, misturavam ativistas ambientais com grupos de desocupados ou drogados acomodados.

Hoje o que se vê é que esse grupo – muito pequeno para enfrentar a mídia e os grandes interesses mercantilistas – está em evidência, valorizado pelo desconhecimento do resto do planeta, mas provavelmente de maneira tardia, já sem muito poderem fazer.

Hoje choramos consternados sobre os corpos das vítimas do vultuoso desabamento nas obras da estação Pinheiros do metrô da cidade de São Paulo, que formou uma cratera gigantesca,

como a engolir a ambição do homem e seu acotovelamento nas grandes cidades. Lamentamos, solidários, os desabrigados de todas as cidades afetadas pelo rompimento da barreira da empresa Mineradora Rio Pomba Cataguases, em Miraí, na Zona da Mata, em Minas Gerais, que contaminou os afluentes do Rio Muriaé, que abastece diversos municípios de Minas e do Rio de Janeiro.

Além dos estragos nas cidades, com lama e sujeira, corte de abastecimento de água, gastos absurdos com aumento no tratamento de águas, há um risco de adoecimento, quer pela lama e inundação de algumas localidades, quer pela possibilidade de algum grau de toxicidade, uma vez que houve derramamento de sulfato de alumínio, segundo reportagens anunciadas há dias.

Assim, vemos que Gaia está se manifestando.

 Não podemos pensar em vingança, mas já percebemos que mexemos onde não deveríamos ter mexido, sem os devidos cuidados.

Está na hora da geração atual sair dos cueiros e tomar as rédeas da situação, ler mais, se inteirar mais e partir para ações que, se não impeçam, ao menos adiem um pouco mais a mudança crucial que está por vir e por mudar radicalmente a vida dos habitantes da superfície da Terra.

Assim, vemos que Gaia está se manifestando. Não podemos pensar em vingança, mas já percebemos que mexemos onde não deveríamos ter mexido, sem os devidos cuidados. Está na hora da geração atual sair dos cueiros e tomar as rédeas da situação, ler mais, se inteirar mais e partir para ações que, se não impeçam, ao menos adiem um pouco mais a mudança crucial que está por vir e por mudar radicalmente a vida dos habitantes da superfície da Terra. 

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