2013

 

Artigo 2/2013

 

Aos pobres, a salvação

Cfd. Renato Lima (*)

 

Na Liturgia Eucarística da santa missa, ao se falar das virtudes de Cristo, o missal enfatiza que Jesus “anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos a liberdade e aos tristes a alegria”. Esta é uma das passagens mais bonitas da celebração, ocasião em que refletimos sobre a missão de Nosso Senhor aqui na Terra e, ao mesmo tempo, nosso papel como católicos.

Se somos imitadores de Cristo (“cristãos”), também precisamos fazer o mesmo: levar a salvação, a liberdade e a alegria, com entusiasmo, a quem precisa. E se somos vicentinos, aí esse desafio torna-se mais urgente e revigorante, pois lidar com os pobres, procurando entender suas necessidades, é o papel precípuo dos confrades e consócias, sem julgá-los em nenhuma hipótese.

Jesus anuncia o reino de Deus aos pobres incondicionalmente e os declara bem-aventurados, porque Ele já lhes pertence. Portanto, quem anuncia o Evangelho aos pobres faz parte dos pobres e ele próprio se torna pobre na comunhão deles. Somente na comunhão dos pobres abre-se o Reino de Deus para todos.

O Catecismo da Igreja Católica, em seu item 489, destaca que Deus escolheu os considerados “fracos” ou “incapazes” para mostrar a sua fidelidade: Ana (mãe de Samuel), Débora, Rute, Judite, Ester e muitas outras mulheres. Maria “é a primeira entre os humildes e pobres do Senhor”, que confiadamente esperaram e receberam a salvação de Deus. Com ela, enfim, passada a longa espera da promessa do Antigo Testamento, cumprem-se os tempos.

Anunciar aos pobres a salvação, Jesus não estava apenas se referindo aos “materialmente” classificados como pobres, mas a todos os fiéis que fossem “pobres em espírito”: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mateus 5, 3). Jesus quis dizer que os humildes e os não orgulhosos seriam os alvos da bem-aventurança. Deus quer pessoas com “espírito rico” de amor e “espírito pobre” de orgulho.

Os “pobres de espírito” são os que não têm orgulho, e os ricos espiritualmente são os que acumulam tesouros nos Céus, onde a traça não os rói e os ladrões não os alcançam. Os “pobres de Espírito” sãos os humildes, que nunca mostram o que sabem, e nunca dizem o que têm; a modéstia é o seu distintivo! É por isso que a humildade se tornou “bilhete de entrada” no Reino dos Céus. Sem a humildade, nenhuma virtude se manteria. A humildade é o propulsor de todas as grandes ações e atos de generosidade. Bem-aventurados os humildes, pois deles é o Reino dos Céus!

Toda a vida de Cristo foi um contínuo ensinamento: seu silêncio, seus milagres, seus gestos de compaixão, sua oração, seu amor incondicional pelo homem, sua predileção pelos pequenos e pelos pobres, sua cruz redentora e sua ressurreição. Tudo – diz o Catecismo – é plena atuação da sua palavra e cumprimento integral da Revelação.

Portanto, queridos vicentinos, anunciar a salvação aos pobres é nossa missão. Cada Conferência Vicentina poderia elaborar uma espécie de “plano de evangelização” dos assistidos, no qual as ações de caridade fossem focadas não só na entrega de bens materiais e gêneros alimentícios, mas na difusão da Palavra de Deus e na busca de nossa santificação pessoal. Só assim seremos igualmente pobres com os nossos pobres socorridos. Meditemos.

 

 

Artigo 1/2013

 

Gratidão ou reconhecimento?

 

* Renato Lima

 

Muita gente confunde as palavras “gratidão” e “reconhecimento”, inclusive entre nós, vicentinos, nem sempre adotamos corretamente essas expressões. Gratidão é a “memória do coração”, ou seja, é algo bom e correto que fizemos a alguém. E que esta pessoa nunca se esquecerá. Por exemplo, aquele amigo que nos arrumou o primeiro emprego, que nos visitou no hospital ou nos emprestou dinheiro quando mais precisávamos. Ele se recordará eternamente daquele gesto, daquela ação, daquela palavra amiga que um dia fizemos por outrem. A gratidão é divina, é um dom de Deus. Gratidão e caridade são irmãs gêmeas.

Já o reconhecimento está mais relacionado ao caráter social em que estamos inseridos. Na sociedade consumista e competitiva em que vivemos, todos querem ter reconhecimento, ser popular, ser querido e amado por todos (basta ver a mídia com as revistas e programas televisivos sobre a vida das celebridades). Esse reconhecimento é humano, um capricho de nosso ego e de nossa autossuficiência. Se não for bem cuidado, pode trazer inúmeros malefícios (vejam o trágico fim de vários artistas que não souberam lidar com o sucesso).

Como é bonito receber a gratidão de um assistido de nossas Conferências! O coração de um vicentino fica transbordando de alegria quando uma família socorrida, em gratidão, dá um sorriso, um aperto de mão amoroso, um olhar que brilha, aquela sinceridade que todos nós sabemos quando é verdadeira. Mas nenhum vicentino busca o reconhecimento, nem dos assistidos nem da sociedade em geral.

Não corremos atrás do reconhecimento, mas nos alegramos com a gratidão. Se alguma instância governamental ou legislativa nos concede uma comenda, medalha ou prêmio, é claro que aceitamos tais demonstrações públicas de “relevantes serviços prestados à redução da pobreza” (pois isso pode atrair novos membros e mais benfeitores). Mas, na verdade, nosso foco e nossa obsessão não estão no reconhecimento dos outros. Não atuamos como políticos, nem como comerciantes ou publicitários. Nada contra essas profissões; apenas não temos essa forma de agir, pois a caridade é desinteressada, como nos ensina São Paulo em sua Carta aos Coríntios.

A gratidão é algo sublime, e nem todos têm essa condição em seus corações. Há pessoas que nunca conseguirão demonstrar gratidão a alguém. Apenas um coração humilde pode praticar a gratidão. Esse sentimento representa o oposto da vaidade e da inveja. A gratidão se assemelha a um elogio dado “de verdade”, sem falsidades, sem artimanhas nem artificialismos.

Aproveito a ocasião para tratar da questão dos vicentinos que doam seus talentos como dirigentes. Estou me referindo a presidentes, secretários, tesoureiros, coordenadores, presidentes de Conselhos, presidente de Obras Unidas, membros do Conselho Nacional ou do Conselho Geral Internacional. Tenho certeza de que eles também ficam felizes quando percebem a gratidão dos que os cercam. Um presidente de Conselho, ao receber um “parabéns” ou um “muito obrigado” pelas ações realizadas após um mandato, não pode se envaidecer, e sim alegrar-se com a gratidão de quem o elogia. Não pode jamais misturar gratidão com reconhecimento, pois se assim o fizer estará se afastando do espírito vicentino da humildade e da simplicidade.

Porém, como seres humanos que somos, precisamos, de vez em quando, receber um comentário positivo, uma palavra de estímulo, um “vamos em frente”, um “você está no caminho certo”. Em nossos trabalhos, como é bom receber do nosso chefe um elogio pela qualidade das tarefas realizadas! Como é salutar um pai de família elogiar seu filho pela postura cristã ao deparar-se com um cadeirante e auxiliá-lo a transpor uma calçada! Como é prazeroso um membro do Conselho Nacional receber felicitações por algum projeto inovador que propôs e foi implementado com sucesso!

Isso é gratidão! A gratidão é gratuita, não tem preço. A gratidão é tudo na vida de uma pessoa. Por isso, queridos vicentinos e queridas vicentinas, saibamos ser mais gratos a Deus pelos dons e privilégios imerecidos que recebemos. Saibamos ser gratos aos assistidos quando nos demonstram verdade nos olhos. Saibamos exercitar o saudável hábito de elogiar os dirigentes vicentinos que prestam um bom serviço na estrutura da SSVP, pois sua dedicação é incomensurável. Desenvolvamos a gratidão, entre nós, em todas as suas dimensões, para que Deus, em sua infinita misericórdia, seja também justo e bondoso conosco.

 

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