2012

Artigo 12/2012

Ozanam, quem foi esse santo homem?

Cfd. Renato Lima

 

Falar sobre o querido confrade Antônio Frederico Ozanam, que foi um dos fundadores da Sociedade de São Vicente de Paulo em 1833, é, para mim, uma grande alegria. Porém, são tantas as suas qualidades e exemplos de vida que, seguramente, uma crônica como esta não conseguirá dizer tudo sobre esse santo homem, beatificado pela Igreja Católica em 1997.

Ozanam foi um sobrevivente! Eram 14 irmãos em sua família, contudo apenas três sobreviveram: Afonso, Carlos e Antônio Frederico. Ele foi escolhido por Deus para empreender grandes feitos, e desde seu nascimento, sua vida foi uma bênção. Não podemos nos esquecer que ele era um menino muito doente, quase vindo a morrer aos oito anos de idade. Tinha uma saúde frágil, mas enquanto viveu entre nós realizou coisas maravilhosas. Ele faleceu cedo, como sabemos, aos 40 anos, mas chegou a pedir a Deus, nos seus últimos momentos de vida, que o deixasse viver “um pouco mais” para poder educar a filha Maria Josefina. Porém, a Providência Divina o quis nos céus.

Ozanam foi uma pessoa de oração! Uma curiosidade que poucos sabem: antes dele entrar em sala de aula (como sabemos, Ozanam foi professor de várias instituições de ensino, entre elas a Sorbonne, onde se formou em dois cursos superiores), rezava com fervor, pedindo a Deus que lhe desse uma jornada de trabalho tranquila, sem conflitos com seus alunos, e bastante produtiva. Ele também lia a Bíblia diariamente e foi dele a ideia de ler o livro “Imitação de Cristo” nas primeiras reuniões semanais da Conferência da qual participava.

Ozanam foi um ativista social! Ele não só defendia a prática da caridade como maneira cristã de ajudar a quem sofre, mas foi um ilustre advogado e jornalista que lutava pela justiça social pelos meios que dispunha. Por exemplo, o jornal “Nova Era”, fundado por ele, tinha como objetivo denunciar as péssimas condições de trabalho dos operários parisienses. Nos artigos que escrevia, Ozanam propunha reformas sociais e laborais que, anos mais tarde, foram incorporadas pela Igreja na Encíclica “Rerum Novarum”.

Ozanam foi uma radiante inspiração para os outros fundadores! É evidente que a fundação da SSVP foi um ato colegiado, mas sem a liderança de Ozanam, nada teria acontecido. Bailly trouxe equilíbrio àquele grupo de jovens do interior que sonhava com uma nova França, mas foi Ozanam que teve uma visão de vanguarda ao propor o desmembramento da primeira Conferência e a criação do Conselho Geral (para manter a unidade da entidade que nascia). Ozanam encantava a todos com seus discursos a favor dos pobres e convidava os jovens de sua época a juntarem-se nas Conferências de Caridade, recrutando dezenas de novos confrades.

Para finalizar essa reflexão, deixo duas perguntas para serem debatidas na reunião semanal da Conferência: “Para você, quem foi esse santo homem, Ozanam? O que ele representa na sua vida hoje?”. Estou certo que as respostas serão as mais belas possíveis. Caro confrade Ozanam, agradecemos a Deus por você ter existido e por você ter feito tão bem à humanidade!

 

Artigo 11/2012

Criatividade nas Conferências

Cfd. Renato Lima de Oliveira

 

Um dos maiores desafios para as Conferências Vicentinas é, sem dúvida, não deixar a rotina e a mesmice invadir o ambiente do grupo. É fato que, lamentavelmente, muitas unidades vicentinas perdem o entusiasmo e correm o sério risco de serem desativadas. Por isso, é necessário que os dirigentes vicentinos – sobretudo estes – estejam sempre motivados a trazerem elementos novos para a Conferência, fazendo com que os confrades e consócias não se acomodem.

A Leitura Espiritual, cuja escolha é tarefa privativa do presidente, deve ser revestida das seguintes preocupações: que o texto a ser lido traga algum conhecimento novo aos membros da Conferência, que o debate será produtivo e que varie de temática, revezando entre temas sociais, vicentinos e religiosos.

Outra iniciativa que pode ser útil é a distribuição da pauta da reunião, na qual os vicentinos têm uma ideia dos assuntos que serão tratados, podendo melhor se preparar para tomar decisões. O uso do e-mail também tem se mostrado grande colaborador dos presidentes na condução dos trabalhos da Conferência. Por correio eletrônico, os integrantes da Conferência podem debater assuntos durante a semana, compartilhar tarefas, manifestar opiniões e melhor se preparar para as visitas domiciliares.

Durante as reuniões da Conferência, pode-se inovar com a introdução de cânticos, no início e no encerramento, sem tumultuar a ordem da sessão prevista na Regra. Pode-se pedir que, em sistema de rodízio, a saudação aos aspirantes e aos visitantes seja feita por diferentes membros. Na divisão das tarefas, cabe também ao presidente indicar quem fará o quê na semana que entra, dando oportunidade a todos.

Aos jovens, é recomendável que recebam missões em que se sintam úteis e participantes do futuro da SSVP. Muitos jovens deixam as fileiras da SSVP porque sua forma de pensar bate de frente com a mentalidade de muitos dirigentes. Deixemos o jovem falar. Deixemos o jovem experimentar a beleza de ser vicentino. Nem todas suas propostas são viáveis, mas deixem-nos expor suas ideias e pensamentos. Sem a juventude, as Conferências não se renovam e a SSVP envelhece velozmente.

Nas ações, projetos e iniciativas junto aos assistidos, especialmente as visitas semanais, os confrades e consócias devem evitar que tais atos sejam ritualistas, mecânicos e previsíveis. É preciso que, na Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam (ECAFO), os vicentinos sejam estimulados a criar, pensar, propor coisas novas, inovar, sonhar e não ter receio de opinar. Pois só assim seremos servos úteis para a causa do Evangelho.

Todas essas recomendações ajudam a manter bem longe a monotonia na SSVP. Não podemos deixar que nossas reuniões semanais, nossos eventos de espiritualidade e nossas reuniões de Conselho se tornem enfadonhas. A criatividade nas Conferências fará com que, a cada reunião, tenhamos renovado ardor em ser vicentino e, assim, vontade em trazer mais companheiros para esta maravilhosa entidade. O número de Conferências crescerá e, assim, poderemos assistir um maior número de famílias.

Enfim, ser criativo significa ter a capacidade criadora, inventiva, engenhosa. Uma das características de um bom presidente de Conferência é justamente essa qualidade ou faculdade de inventar, de criar, de inovar, colocando seu talento e dos demais membros à disposição da SSVP e em prol das famílias assistidas. São Vicente de Paulo já dizia: “O amor é inventivo até o infinito”. O bem-aventurado João Paulo II reeditou essa frase da seguinte maneira: “É chegada a hora de uma nova imaginação para a prática da caridade”.

 

Artigo 10/2012

Ter o espírito vicentino

Cfd. Renato Lima

 

Quando dizemos que uma pessoa é cristã, estamos admitindo que ela segue os passos de Jesus Cristo e prega o amor, o perdão e a reconciliação. Da mesma maneira, quando dizemos que uma pessoa é vicentina, isto é, participante da Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), acreditamos que siga os ideais de São Vicente, de Ozanam e dos demais fundadores, atuando com caridade e desprendimento nas 24 horas do dia.

Ter o “espírito vicentino” é justamente possuir aquelas características as quais nos levaram a sermos confrades e consócias, entre elas a prática da caridade, o modo voluntário de nossos atos e a dedicação preferencial aos pobres, procurando ajudá-los a superar as dificuldades da vida e seus problemas econômicos, sociais, familiares e até conjugais.

Nem todo membro de nossas Conferências têm verdadeiramente o “espírito vicentino”. Acho que todos entendem bem o que estou tentando explicar. Encontram-se essas pessoas numa caminhada de aprimoramento pessoal e espiritual que, seguramente, no futuro, as levará para uma condição de vicentinismo maduro, efetivamente empreendedor. Mas hoje, ainda não possuem todos os elementos para dar essa sustentação ao trabalho que desempenham e, mais ainda, não são percebidos pela comunidade como vicentinos.

Ter o “espírito vicentino” é algo difícil de expressar numa crônica como esta. Há coisas na vida que são complicadas de transmitir em palavras, como por exemplo essa definição de espírito vicentino. O meu conceito de ter o “espírito vicentino” consiste em adotar uma postura que defende integralmente os mais carentes, sem condená-los ou compará-los entre si. Nossos comentários sobre as famílias atendidas devem ser sempre equilibrados e moderados, se não corremos o risco de julgá-las.

Quantas vezes também nos decepcionamos com alguns confrades e consócias que não correspondem totalmente ao “espírito vicentino”! Um comentário mal encaixado durante o relato de visitas, uma negativa a um pedido justo dentro da reunião semanal, ou ainda uma crítica aos Conselhos hierarquicamente superiores mal formulada – e dita com as palavras erradas e no momento inadequado – fazem que pensemos imediatamente: aquela pessoa não tem o “espírito vicentino”. E o que dizer de alguns dirigentes que abandonam seus cargos no meio do mandato sem motivos razoáveis?

Ter o “espírito vicentino” significa estar sempre aberto a desapegar-se do seu próprio parecer, buscar a conciliação, ver as coisas boas em cada pessoa, elogiar os talentos de cada um, corrigir o irmão com urbanidade e, acima de tudo, conviver na Conferência dentro de um clima amigável, fraterno, leve e convergente. É também participar dos cursos de formação e dos eventos de espiritualidade para reavivar nosso carisma e nosso pertencimento à SSVP. Como pode uma pessoa que se diz vicentina e não vai à missa, não se confessa e é pouco generoso nas coletas?

Há ainda aqueles que desaparecem das reuniões por motivos simplórios e sem justificativas plausíveis. Alguns alegam que “a Conferência é burocrática demais” ou ainda “a miséria é imensa e não temos como salvar o mundo”. Desculpem-me o que vou dizer, mas estes não têm o “espírito vicentino”. Ser vicentino é mudar as práticas antigas que atrapalham o desenvolvimento das Conferências e dos assistidos. Devemos dar nossa opinião, mas sempre com caridade e respeito, sem omissão.

O “espírito vicentino” é aquela chama que brilha nos olhos de uma pessoa que se converteu realmente ao chamado de Ozanam e dos outros fundadores (“Vamos aos pobres”). É dizer sempre SIM enquanto o mundo diz NÃO. É confiar na Providência Divina e na promoção das famílias que assistimos. É acreditar piamente que a Conferência promove milagres e que a convivência fraterna – e às vezes complexa – entre confrades, consócias, aspirantes e assistidos nos conduzirá à santificação pessoal.

Deixo uma pergunta para debate na Conferência: o que devo fazer para que o “espírito vicentino” contamine minha Conferência e minha vida pessoal?

 

Artigo 9/2012

A importância do bom relacionamento com os párocos

Cfd. Renato Lima

 

Em agosto, quando celebramos o Dia do Sacerdote (4/08), queria abordar o tema do relacionamento entre os Vicentinos e os padres. Na maioria das paróquias brasileiras, podemos encontrar a presença da Sociedade de São Vicente de Paulo por meio de suas “Conferências Vicentinas”, formadas por leigos católicos que buscam sua santificação pessoal pela prática da caridade. Nas paróquias, os Vicentinos recebem apoio material e espiritual para poder empreender seu trabalho de caridade.

É fundamental que o relacionamento entre os párocos e as Conferências Vicentinas seja o melhor possível, ainda que todos nós sejamos pecadores e, não raro, problemas podem acontecer aqui ou ali. Mas, em geral, a existência dos Vicentinos nas paróquias, capelas e comunidades se constitui num apoio especializado aos sacerdotes, que nem sempre dispõem de tempo para receber os pedintes e encaminhar-lhes uma ajuda solidária. Assim, os Vicentinos se constituem no “braço social” das paróquias.

Um comentário que ouvimos frequentemente dos sacerdotes é que eles estão contentes com a presença do carisma vicentino em suas áreas de atuação. Deve ser uma relação amistosa, respeitosa e com bastante diálogo. Sobre temas de fé e moral, doutrina e sacramentos, os Vicentinos acatam integralmente as decisões da Igreja. Já no aspecto operacional, são os próprios Vicentinos que se organizam, cuidam de suas finanças e patrimônio, elegem seus sucessores e decidem a melhor forma de atuação nas áreas carentes.

O sacerdote pode e deve contribuir com ideias, encaminhar famílias carentes para serem atendidas, ajudar os Vicentinos permitindo que pelo menos uma vez por mês possa ser realizado o “Domingo da Caridade”, atuar como assessor espiritual do grupo, ir de vez em quando nas visitas domiciliares, enfim, o papel do padre é insubstituível. Mesmo com toda a autonomia dos Vicentinos, sem a Igreja o trabalho de caridade não atingiria todos os resultados esperados.

Por outro lado, as visitas aos pobres fazem com que a presença da Igreja seja viva no seio das famílias socorridas. Os Vicentinos rezam durante as visitas, estimulam a ida à missa, convidam os jovens e os casais para regressarem à vida eclesial, reconciliam maridos e mulheres em crise, falam dos sacramentos (especialmente o batismo, a confissão e a eucaristia) e difundem a mensagem salvífica de Cristo a todos.

Por todos esses elementos, a presença dos Vicentinos nas paróquias e o bom relacionamento entre o pároco e a Conferência são essenciais para que, nessa interação, o resultado seja de ganhos para todos: ganham os Vicentinos, por terem o apoio espiritual da Igreja; ganham os sacerdotes, que ampliam as ações sociais e evangelizadoras das paróquias; e acima de tudo, ganham os assistidos, que poderão voltar à Igreja num ambiente de santidade e caridade.

Aos sacerdotes que possuem Conferências em suas jurisdições, faço-lhes um convite: visitem seus confrades e consócias, pois eles aguardam por vocês. Às paróquias sem Conferências, sugerimos procurar o Conselho Particular mais próximo para que seja possível fundar um grupo em sua região.

E se houver algum problema de relacionamento entre sacerdotes e vicentinos, penso que a hora é agora para repensar posturas, perdoar e seguir em frente.

 

Artigo 8/2012

A Postura Corajosa dos Vicentinos

Renato Lima *

 

É do conhecimento de todos que a sociedade brasileira mudou muito nos últimos anos. Na verdade, essa mudança tem ocorrido em todos os países, independentemente do sistema econômico adotado, da religião majoritária, do regime político em vigor e da cultura local. O mundo mudou, a Igreja mudou, as famílias mudaram, os meios de comunicação mudaram, os Pobres mudaram, tudo mudou.

Nem sempre tais mudanças foram para o bem, algumas foram negativas, como a lei do divórcio, os novos padrões e formatos de família, os escândalos políticos de corrupção, as crises éticas, a permissão do aborto de anencéfalos, entre outras aberrações. Contudo, houve avanços significativos na educação, na economia, nas telecomunicações, nos meios de transporte, nas relações humanas e entre os países, além de vários outros elementos positivos.

Diante de todos os aspectos da vida, como agem os Vicentinos? Que postura adotam os confrades e as consócias perante o contexto geral da sociedade, como a política, a assistência social, o planejamento urbano, a economia e tantas outras esferas sociais? Ficam os Vicentinos indiferentes a tudo isso ou propõem alternativas? São a voz dos Pobres ou apenas “entregadores de cestas básicas”? Opinam ou ficam mudos?

Dom Sérgio da Rocha, arcebispo de Brasília, propõe-nos a seguinte reflexão em recente artigo publicado no folheto “O Povo de Deus”: “Na sociedade do bem-estar em que vivemos hoje, a tendência predominante é a de se buscar uma vida cômoda, sem sacrifícios ou renúncias. A figura de um discípulo light, ao sabor da cultura atual, não condiz com a proposta de Jesus”.

É preciso ter uma postura corajosa mediante a vida em sociedade. É preciso ser “o sal da Terra a luz do mundo” (São Marcos 9, 50), como nos ensinou Jesus. É preciso ser diferente, profissional, incomodado com as injustiças, defensores dos mais humildes.  Tudo isso se conquista não só com indignação social, mas também com a oração edificante e a prática da caridade (“Mostra-me a tua fé sem obras que eu te mostrarei a minha fé pelas obras” – São Tiago 2, 18).

Muitos Vicentinos são avessos à política, o que é um grave erro. Que a Sociedade de São Vicente de Paulo é apartidária, todos concordam. Mas a política deve fazer parte da vida das Conferências e dos Conselhos, que se relacionam institucionalmente com as forças sociais e, só por meio da verdadeira representação dos Pobres é que poderemos transformar a realidade tão excludente em que muitos brasileiros estão inseridos.

Portanto, queridos Vicentinos, tenhamos uma atitude elevada e independente diante da realidade atual. Que possamos agir com muito mais altivez e pró-atividade em defesa dos nossos Pobres, indo muito além do gesto amigo de acolher e ajudar, sendo verdadeiros missionários!

 

Artigo 7/2012

A Qualidade da Caridade

Renato Lima *

 

Tenho certeza que muitos poderão estranhar o título desta crônica, pois o senso comum indica que, ao fazermos caridade, é evidente que a devemos efetuar com qualidade. Mas nem sempre é assim. Algumas pessoas realizam ações caritativas de maneira mecânica e fria, às vezes egoísta e paternalista, e por isso afirmo que precisamos analisar a qualidade da nossa caridade. Cada um tem plenas condições de fazer essa autoavaliação, com base em algumas pistas que vamos apresentar a seguir.

No caso das Conferências Vicentinas, precisamos estar atentos para evitar que a rotina contamine o trabalho de caridade realizado pelos confrades e consócias, especialmente no contato com os pobres. Fazer a visita domiciliar apressadamente ou tratando friamente os assistidos acaba por reduzir a ação vicentina a uma mera atividade assistencialista, indo de encontro aos princípios de nossa entidade. Esse tipo de caridade não tem qualidade.

Outra situação que podemos reconhecer em alguns lugares tem a ver com a maneira com que buscamos nossa santificação pessoal. Muitas vezes ouvimos dizer que uma pessoa ingressou na SSVP para conseguir sua salvação. Vamos aqui ser francos: essa abordagem é muito egoísta. Em outras palavras, vamos aos pobres para obter alguma benesse divina, quando o adequado seria praticar a caridade como resultado natural de nosso batismo e nossa vivência de fé. Se fizermos a caridade dessa forma, interesseira simplesmente, penso que ela não tem qualidade.

É também muito comum fazermos comentários, às vezes preconceituosos, sobre os assistidos de nossas Conferências, chamando-os de preguiçosos, acomodados, pouco dados ao trabalho e lentos. Quando agimos assim, acabamos por não confiar na Providência Divina nem em seu Espírito Santo, lamentando-nos pelas dificuldades em promovê-los. Se assim atuamos, sem esperança na mudança das pessoas, nossa caridade não tem qualidade.

Já no caso do serviço que os dirigentes prestam quando exercem funções nos Conselhos Vicentinos, alguns presidentes (graças a Deus poucos) se utilizam de sua visibilidade e projeção, naturais em cargos de liderança, com finalidades “não vicentinas”. Esse tipo de conduta prejudica a imagem da SSVP, pois essas pessoas acabam sendo protagonistas de escândalos e situações não alinhadas com a Igreja nem com as diretrizes da Regra Vicentina. De que vale esse tipo de serviço? Esse tipo de caridade, também, não tem qualidade.

A forma como encaramos a caridade que fazemos, o amor com que olhamos os pobres e a generosidade com que desejamos transformar o mundo são, esses sim, os verdadeiros pilares de nossa vocação vicentina. Agir despretensiosamente, sem julgar nem fazer acepção das pessoas, servir com amor aos pobres e praticar a caridade como prova de nossa devoção a Deus fazem com que nossa caridade seja, de fato, de qualidade, e assim iremos ser sal e luz nesta terra.

Por todos esses elementos, precisamos rezar mais, aprimorar nossa espiritualidade, estudar mais as origens da Sociedade de São Vicente de Paulo, conhecer os ideais que tomaram conta dos corações dos nossos co-fundadores (lá em 1833) para, só assim, levar nossa mão amiga e nosso conselho aos que mais sofrem e precisam de apoio material, psicológico e espiritual. Aí sim nossa caridade terá a “qualidade” que Nosso Senhor Jesus Cristo nos convida a praticar junto aos mais necessitados.

 

Artigo 6/2012

A dimensão sem limites da caridade vicentina

Cfd. Renato Lima

 

Um dos maiores desafios no âmbito das Conferências Vicentinas é saber agregar à ação generosa da simples entrega de bens materiais a ação efetiva de viabilizar as adequadas condições de vida para que as famílias carentes vivam com dignidade, capacitando-as para seu próprio desenvolvimento, a fim de que elas mesmas vençam as barreiras da pobreza e da miserabilidade, com o suor de seu trabalho e com a força de Deus.

Essa reflexão nos remete à outra, mais profunda e sobretudo evangélica, que trata da caridade em si, dom maior de Deus e razão da existência da Sociedade de São Vicente de Paulo. A caridade é tudo para nós. Se não tivermos caridade (generosidade) em nossos atos, cairemos na rotina da filantropia e do mero assistencialismo. Na verdade, nossa caridade significa um “amor sem limites” que exige dos vicentinos uma visão completa do ser humano sofredor, respeitando sua história e seus anseios.

Além da ajuda tradicional que os Vicentinos dão às pessoas necessitadas (como cestas básicas, material de construção, remédios, roupas e cobertores), visando sua sobrevivência, é preciso que os confrades e as consócias atuem de maneira inovadora no sentido de buscar “atalhos” para tirarem os assistidos da pobreza. Afinal, no Brasil ainda temos 16 milhões de miseráveis. Temos competência e conhecimento suficiente para sugerir alternativas para nossos assistidos.

Uma sugestão que pode ser útil para muitas Conferências, especialmente para aquelas situadas em cidades pequenas, é a instalação de muitas Obras Especiais, previstas na Regra, que podem alavancar bastante a ação vicentina. Em cidades de maior porte, sugere-se a implementação das Obras Especiais em parceria com várias Conferências. Ou seja, um grupo de várias Conferências, que atuam numa mesma região, poderia se unir e manter uma obra dessa natureza, com verdadeiros ganhos para os pobres.

No caso dos Conselhos Vicentinos, de que adianta termos uma sede de Conselho Particular ou Central ociosa boa parte do ano, sendo apenas utilizada para as reuniões ordinárias mensais? Não poderíamos fazer mais? Acredito que ainda não “acordamos” para a viabilidade da instalação de várias Obras Especiais dentro da sede de um Conselho.

Outra sugestão é a criação de Obras Especiais nas dependências das Obras Unidas. Num Lar de Idosos não seria interessante montar um curso de corte e costura ou de trabalhos manuais para aproveitarmos a experiência das senhoras idosas e aproximá-las dos mais jovens? Outro exemplo: numa creche vicentina, não seria uma grande oportunidade criar uma Conferência formada pelos pais das crianças ou pelos educadores?

Portanto, as Conferências, os Conselhos e as Obras vicentinas têm plenas condições de empreender uma ação realmente mais eficaz, a favor dos necessitados, e com foco nos projetos de mudança sistêmica que a Família Vicentina exorta a todos seus ramos. São Vicente já dizia: “a caridade é inventiva até o infinito”.

Deixamos uma pista para reflexão: a caridade que devemos empreender com os necessitados vai além do aspecto material, constituindo-se em verdadeira oportunidade de promoção humana. Como temos agido, nesse sentido, em nossa Conferência ou Conselho?

 

Artigo 5/2012

Os Vicentinos e o Parlamento

Cfd. Renato Lima (*)

 

Quando se fala em assessoria parlamentar, relações governamentais ou interação institucional, a primeira ideia que vem à mente são empresas privadas e órgãos públicos buscando consenso em matérias de seu interesse ou para a aprovação de medidas.

Contudo, as entidades do Terceiro Setor, como as organizações não governamentais, também atuam nessa esfera e vem obtendo excelentes resultados, uma vez que possuem informações técnicas especializadas, tornando-se um subsídio muito útil aos tomadores de decisão.

Um exemplo de atuação no Congresso Nacional é a nossa Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP). Os Vicentinos, nos últimos anos, vêm frequentando os corredores do Parlamento brasileiro e posicionando-se a respeito de vários temas. Essas informações estão consolidadas no livro “Os Vicentinos e o Parlamento Brasileiro” (3ª edição), no qual podemos verificar a interação da SSVP com os parlamentares, encaminhando seus pleitos ou opinando sobre fatos sociais.

Analisando-se os discursos proferidos em Plenário por deputados federais e senadores nos últimos 50 anos, percebe-se que os parlamentares foram procurados pelas lideranças vicentinas para contribuir com o debate democrático. Os Vicentinos se manifestaram por ocasião da reforma agrária (anos 60), na votação da lei do divórcio (anos 70), sobre denúncias veiculadas na mídia sobre algumas entidades filantrópicas (anos 90), e mais recentemente sobre eventos e efemérides vicentinas (anos 2000).

Há ainda dezenas de outros discursos proferidos pelos deputados e senadores que apontam a qualidade das obras de assistência social mantidas pela SSVP. Nestes pronunciamentos, há forte destaque para os cortes orçamentários que prejudicavam a adequada alocação de emendas e dos recursos financeiros destinados a melhorias nessas obras, muitas delas a única opção de assistência social em algumas cidades. Em cada discurso, os parlamentares se valeram de informações, estatísticas e números fornecidos pelos Vicentinos, o que contribuiu para a qualidade das intervenções e na valorização da entidade.

Foi por conta da atuação eficiente de suas lideranças que os Vicentinos conseguiram ver aprovado o projeto de lei que culminou com a edição da Lei nº 11.536, de 30 de outubro de 2007, que institui o dia 27 de setembro como “Dia Nacional dos Vicentinos”. Para a aprovação da lei, o deputado Salvador Zimbaldi e o então senador Marco Maciel foram figuras fundamentais para a celeridade do processo. Além da lei, os Vicentinos também foram indicados para receber a Comenda “Medalha Mérito Legislativo da Câmara dos Deputados” em 2011. Esta comenda foi sugerida pelo deputado Antonio Carlos Mendes Thame.

Mas a presença dos Vicentinos no ambiente parlamentar foi além. Em 1963, por iniciativa do deputado federal Elias Carmo, de Belo Horizonte (MG), e outros parlamentares da época, foi fundada a Conferência São Tomás More na Câmara dos Deputados. O nome do grupo foi escolhido para homenagear o santo inglês que, como lorde edeputado nacional, enfrentou o Rei Henrique VIII por conta do divórcio e da criação da Igreja Anglicana, sendo morto como mártir. Quem sabe, um dia, não poderemos reativar a Conferência Vicentina do Congresso Nacional? Oremos a Deus.

 

Artigo 4/2012

“Porque tive fome e me destes de comer”

São Mateus 25, 35a

Dados de organismos internacionais com credibilidade, como a Organização das Nações Unidas (ONU), estimam que 1 bilhão de pessoas passem fome no mundo, todos os dias, ou seja, um sétimo da população sofre com o problema. Tecnicamente, quem ingere menos de 1.800 calorias por dia está passando fome.

A fome pode ter causas naturais, como secas ou inundações que destroem as plantações, mas as principais causas do problema têm a ver com a pobreza extrema, o desemprego, a distribuição de renda desigual e a ausência de políticas públicas adequadas. Pobreza e fome estão intimamente ligadas.

A questão da fome e da miséria preocupa muito a Igreja. O tema é foco recorrente das homilias do Papa Bento XVI.  Ao enviar mensagem, em junho passado, para a abertura da 37ª Conferência da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), o Papa fez um enérgico chamado a lutar contra a fome no mundo, considerando-a como resultado do egoísmo e da especulação.

Disse o Pontífice: “A pobreza, o subdesenvolvimento e a fome são resultado direto de atitudes egoístas que se manifestam nas atividades sociais, nos intercâmbios econômicos e nas condições do mercado, e se traduzem na negação do direito primário de toda pessoa a nutrir-se e, portanto, a não padecer fome”.

O Papa exigiu “soluções concretas” para as pessoas que são atingidas pela “fome e pela desnutrição” em todo o mundo, criticando a especulação financeira ligada aos alimentos. E arrematou: “Ninguém pode ficar indiferente perante a ameaça que paira sobre milhões de pessoas que sofrem as dramáticas consequências da fome”.

Um dos movimentos católicos de leigos que mais se dedica à causa da caridade, buscando mitigar os efeitos da fome dos mais humildes, é, como sabemos, a nossa querida Sociedade de São Vicente de Paulo (SSVP), presente em quase 150 países do mundo. A Sociedade mantém obras sociais e faz visitas domiciliares todas as semanas a famílias carentes, levando-lhes não só o alimento que sustenta, mas a Palavra do Senhor que edifica.

A missão dos Vicentinos é aliviar a miséria espiritual e material das pessoas que vivem em situação de risco social, colocando em prática os ensinamentos de Cristo e da Igreja. Os Vicentinos sabem que não vão resolver o problema da fome, mas fazem sua parte. Se cada pessoa fizesse o mesmo, não haveria fome nem miséria no mundo.

O católico vocacionado – e missionário – tem um profundo compromisso com a superação da fome e da miséria, pois de nada adianta nossa prosperidade pessoal e familiar sem que a sociedade, como um todo, também prospere. De nada adianta ir à Missa ou intitular-se católico se não se tem generosidade com os que sofrem, partilhando um pouco dos nossos bens, para a glória de Deus e vitória de Cristo sobre a indiferença e o egoísmo. Nós, vicentinos, temos uma grande responsabilidade para ajudar as pessoas que sofrem a superarem a fome e a pobreza.

 

Artigo 3/2012

A importância dos indicadores sociais e econômicos

Cfd. Renato Lima

 

Este parece ser um título que pode não atrair a leitura de muitos, pois se refere a aspectos financeiros e sociológicos, mas quero dizer que essa temática tem tudo a ver com o trabalho desenvolvido pela Sociedade de São Vicente de Paulo por meio de suas Conferências, Conselhos e obras assistenciais. Vou explicar-me.

Os vicentinos precisam ficar atentos aos indicadores socioeconômicos que frequentemente são divulgados pela imprensa, pois os mesmos podem auxiliar muito na ação de caridade realizada junto às pessoas mais humildes. Não só os índices formatados por entidades brasileiras são boas referências, mas também números e estatísticas emanadas de órgãos internacionais podem ser bastante úteis.

Uma dessas instituições é a Organização das Nações Unidas (ONU) que publica, anualmente, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), no qual são agregados dados de esperança de vida, escolaridade e renda. O mapa do IDH permite a nós, vicentinos, localizar, em cada município, os bolsões de miséria para, assim, concentrar as atividades das Conferências.

Em nível nacional, há a Fundação Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística (IBGE) que apresenta dados muito interessantes, não só os do Censo, mas estudos técnicos como a PNAD (Pesquisa Nacional de Amostras de Domicílios) que refletem bem a situação de vida dos brasileiros. Em cada Estado há sempre um instituo de pesquisa, aos moldes do IBGE, que promove estudos similares, mas que nem sempre são aproveitados pelos movimentos sociais ou pela SSVP.

Alguns vicentinos não imaginam a diferença que faz no cotidiano das Conferências utilizar esses indicadores sociais e econômicos. Vale a pena, inclusive, levar artigos de jornais e textos da internet para leitura espiritual nas Conferências sobre esse assunto, pois é preciso refletir sobre o tema e até mesmo convencer os confrades e consócias mais conservadores que essa abordagem trará ganhos imensos de eficiência para a SSVP.

Vamos citar alguns desses indicadores, difundidos no final do ano passado, para que todos possam entender melhor. O Brasil já é a sexta economia mundial, contudo ocupa a posição 84 no ranking de qualidade de vida. Você sabia que existem 11,4 milhões de brasileiros vivendo em favelas? Você sabia 35 milhões de brasileiros vivem em municípios sem tratamento de esgoto? Você sabia que o Brasil possui 16,2 milhões de pessoas em situação de extrema pobreza (isto, que vivem com menos de R$ 70,00 por mês)? Sabia que o país com maior número de analfabetos na América Latina é o Brasil (16,3 milhões de pessoas)?

Porém, de nada adianta termos acesso a todas essas informações se não as transformamos em subsídio técnico para direcionar a ação vicentina. Uma sugestão que deixamos é pedir aos Conselhos Particulares –  cuja missão precípua é orientar as Conferências – que selecionem os dados locais de miséria, pobreza, desemprego, desnutrição, analfabetismo, exclusão social e indicadores de qualidade de vida, com a finalidade de melhor identificar as áreas propícias para as visitas domiciliares vicentinas. Tão logo esse “mapa social” esteja pronto, basta chamar as Conferências e dividir geograficamente os setores e bradar: “Vamos aos pobres!”, como Ozanam nos desafiou.

Analisar os indicadores socioeconômicos disponíveis, e melhor direcionar a assistência vicentina, deve ser a preocupação de todos os vicentinos, especialmente os dirigentes. Temos que adotar uma postura mais inteligente ao selecionar os territórios mais carentes para a promoção de nossos irmãos. Só assim nossa postura será, de fato, focada na mudança de estruturas que a Família Vicentina nos convida e estimula a vivenciar.

 

Artigo 2/2012

A força superior e a força interior

Cfd. Renato Lima

 

No cotidiano do trabalho das Conferências Vicentinas,  os confrades e as consócias só conseguirão realmente atingir os resultados desejados se depositarem em Deus todas as suas forças, virtudes, expectativas e realizações. “Só por nós, nada podemos empreender”, recitamos assim a “Oração da Entrega”, antes da visita domiciliar. Essa força superior é que nos move a desempenhar uma ação eficaz, buscando a promoção humana das famílias que nos foram confiadas.

Sempre sentimos no peito e no coração essa força naqueles momentos em que precisamos tomar uma decisão, ou estamos resolvendo um problema, ou ainda estamos no limite de nossas energias, e sentimos que precisamos da ajuda providencial e da presença de Deus. Ele nos traz o conforto para a alma e a bênção que tanto necessitamos. A força superior é como um bálsamo que alivia nossas dores. Ela nos orienta a discernir, indica-nos o caminho certo e abre nossos corações para escutar a voz serena do Senhor.

Juntamente com essa força divina, é preciso que o vicentino também possua uma “força interior” diferenciada, motivada, direcionada para a caridade, vocacionada. Sem essa força que vem de dentro, nossa ação deixaria de ser caridade para se tornar filantropia. Para se atuar como vicentino e realizar efetivamente a promoção das famílias assistidas, os confrades e as consócias devem ter aquele “brilho no olhar” e aquela “chama no coração”, condições fundamentais para se empreender um trabalho socioespiritual de qualidade e efetivamente promotor da justiça social. E isso vem de dentro, vem do nosso coração.

Essa força interior nos ajuda a buscar a felicidade a que todos nós temos direito, bem como nossa prosperidade pessoal. Depende exclusivamente da nossa força mais interior a disposição de mudar de vida e de melhorar nossos relacionamentos. A força interior afasta a solidão, elimina a tristeza, apaga o desânimo, supera as limitações e rechaça as contrariedades. Essa força faz com que sonhemos e lutemos para tornar realidade nossos sonhos. E, assim, impulsiona-nos a mudar esse mundo tão pouco cristão e fraterno em que estamos inseridos.

A força superior (nosso Deus) e a força interior (nosso ânimo), juntas, fazem a diferença e nos ajudam a nunca desistir nem esmorecer. Para cumprir nossa missão vicentina, só mesmo uma força divina que nos move para frente, ao mesmo tempo em que nossa força de vontade interior não nos deixa estagnar. Na verdade, em geral, essas características são comuns em pessoas que desenvolvem atividades voluntárias. Elas sabem que, além da vontade própria, há uma força superior (que nós católicos chamados de Deus) que as estimula a ajudar.

Os assistidos precisam ver em nós essas duas forças (a superior e a interior); eles também precisam ver Deus em nossos gestos e ser motivados por nós a vencerem na vida. Se nós vicentinos não conseguirmos ser a luz e o sal, como Jesus Cristo nos pediu, como eles poderão se espelhar em nós e crescer? Nossas forças precisam se converter em combustível e fermento para eles.

Temos que mostrar aos nossos assistidos que todos nós temos essa força interior, sem exceção. O Pai criou os seus filhos iguais e a cada um deu essa força. O que ocorre é que muitos não acreditam em seu potencial interno, pensando que não são capazes, e por isso, muitas vezes, abandonam o caminho que se abre à sua frente.

Dentro de cada um de nós, existe uma tremenda força interior, capaz de nos fazer continuar a jornada, enfrentando qualquer obstáculo que apareça. Ela é uma força que faz com que descubramos que somos capazes de atravessar as tormentas e ir em busca de um novo horizonte. E com a ajuda da força superior (nosso Deus onipotente e salvador), nada nos impedirá.

 

Artigo 1/2012

Atitudes que brotam da caridade

Confrade Renato Lima

 

A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. “Sem caridade, nada seria” (1ª Cor 13), assim pregou São Paulo, que deixou escrito que a caridade é superior a todas as virtudes. Caridade é uma palavra cristã que significa o “amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem”. Ser caridoso é ter as mesmas atitudes que Deus teria em determinadas situações de miséria humana. Quais seriam essas mesmas atitudes de Deus para com seus filhos? Podemos imaginar algumas: a compaixão, o perdão, a compreensão.

Não podemos nos esquecer de que a caridade é tudo na vida de um cristão, e mais ainda na vida de um vicentino. Sem a caridade, nossos atos são equivalentes à mera filantropia. A caridade é a virtude que movimenta os confrades e as consócias no caminho da santificação pessoal e da promoção humana das pessoas carentes. É por meio de ações caritativas que compartilhamos com o próximo um pouco do que temos: bens materiais, conselhos e espiritualidade.

Quem pratica a caridade torna-se um ser humano melhor. E assim, transforma-se numa pessoa realmente diferente pelos imensos ganhos espirituais que recebe do Pai. O próprio Catecismo da Igreja Católica no ensina (Item 1.829) que os frutos da caridade são três: a alegria, a paz e a misericórdia. A caridade exige generosidade, o bem-fazer e a correção fraterna. É benevolente, suscita a reciprocidade. É desinteressada, é amizade, é comunhão. Não se pode separar a justiça da caridade: quem não é justo, não ama e não pratica a caridade evangélica.

Além dos frutos que brotam da caridade, podemos ainda identificar as atitudes que surgem a partir da caridade. Essas atitudes são as mesmas defendidas por Jesus Cristo, sobretudo em relação aos Pobres e pequenos deste mundo. Dentre outras, podemos ressaltar que as atitudes que brotam da caridade são o serviço, o desapego, a fraternidade, o perdão e a amabilidade. Sem esses elementos, nenhuma obra de caridade será efetiva e completamente verdadeira.

Em S. Mateus (capítulo 25), encontramos o Evangelho da Caridade, o qual é conhecido por todos os vicentinos. Jesus nos deixa um rol de possíveis ações de caridade (“Estive com fome, com sede...”) baseadas no serviço ao próximo. Essas são as demonstrações cabais de caridade em que temos que procurar pautar nossa vida. A caridade feita aos mais carentes é como se fosse feita ao próprio Jesus.

Quando praticamos ações de caridade, irradiamos amor, paz, luz e serenidade. O vicentino é, por natureza, uma pessoa tranquila, de bom humor, ao mesmo tempo indignada pela existência de tanta exclusão, indiferença, injustiça e desigualdade social. O vicentino não faz distinção de pessoas na prática da caridade, mas deve assistir o mais necessitado, o mais pobre e o mais abandonado. Por isso, é comum nas sindicâncias das Conferências serem privilegiados os critérios sociais como renda, empregabilidade, escolaridade e situação física da moradia, além dos aspectos espirituais.

Para que consigamos praticar a caridade sem limites, buscando os frutos e as atitudes que brotam dela, temos que ser cristãos maduros. Devemos ser pessoa de oração, de vida paroquial e de jejum, a fim de que nossa atuação, no campo da promoção social, seja coroada de êxito. Só uma vida espiritual vivificada em Cristo e nos ensinamentos da Igreja fortalecerá nossos gestos de caridade.

 

Renato Lima – Brasília-DF

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