2011

Renato Lima, 40 anos, brasileiro, é confrade desde 1986 e vive em Brasília. É Vice-presidente Territorial Internacional da SSVP para a América do Sul e coordenador do portal de notícias vicentinas “Rede de Caridade”. Contatos: www.rededecaridade.com.

 

Artigo 12/2011

A videira, os vicentinos e seus frutos

Cfd. Renato Lima

 

Na parábola do agricultor e da videira, contida no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (capítulo 15, versículos 1 ao 8), Jesus se compara à videira, e diz que Deus seria o agricultor. “Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto se não permanecerdes em mim”, afirma Cristo. E Jesus vai além: “Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto”.

Da mesma forma, a Sociedade de São Vicente de Paulo pode ser considerada como a videira, enquanto suas Conferências, seus Conselhos, suas Obras e seus membros podem ser comparados aos ramos. “Todo o ramo que em Mim não dá fruto, ele (o agricultor) o corta, e todo ramo que produz, ele o limpa para que dê mais fruto ainda” (Jo 15, 2).

Assim também conheceremos os frutos oriundos da “árvore da SSVP” pelos seus ramos. Se as Conferências fizerem um bom trabalho, muitos frutos serão colhidos: comunhão, conversão, promoção humana e prosperidade. Se os Conselhos cumprirem com seu papel, muitos frutos serão colhidos: crescimento da SSVP, diálogo, consenso, harmonia, unidade e conciliação. Se as Obras forem bem administradas, os frutos serão incalculáveis. Se os confrades e consócias também fizerem sua parte, muitos frutos serão colhidos: santificação pessoal,  aprimoramento espiritual, visão de futuro e amizade entre os membros.

Como estão os frutos em nossa Conferência? Temos produzido esses frutos? Ou nossa Conferência está quase secando, como o ramo que não dá frutos e que o agricultor (Deus) irá lançar ao fogo e queimar? Como têm agido os dirigentes vicentinos? Têm promovido a concórdia e estimulado a unidade, ou caíram na rotina e “empurram com a barriga” seus mandatos, propiciando que a monotonia tome conta das reuniões? Quais têm sido os frutos produzidos pela Sociedade de São Vicente de Paulo? Temos mais luzes que sombras, mais vitórias que derrotas, mais virtudes que falhas?

Há muito tempo temos percebido que os Conselhos pararam de promover retiros, horas-santas e outras atividades similares, o que tem prejudicado bastante o aperfeiçoamento espiritual dos confrades e das consócias. O número de participantes nos módulos da Escola de Capacitação (ECAFO) também tem se reduzido a cada ano. Há Conferências que nunca participaram de um curso da ECAFO. Estamos mais acomodados com a pobreza e nos acostumamos a lidar com o tema de forma meramente assistencialista. Pouco discutimos as causas da miséria e quase nunca somos “a voz dos excluídos”. O que acontece conosco? O que falta para que nossas Conferências sejam “luz do mundo” e “sal da terra”? Por que somos tímidos?

Para que os vicentinos e suas Conferências possam dar frutos, é preciso ainda que estejam, cada dia mais próximos de Cristo. Só poderemos dar frutos, como discípulos, missionários e batizados que somos, se estivermos bem inseridos em Cristo, como os ramos estão inseridos na videira. É necessário que os vicentinos sejam mais santos, menos intolerantes, mais virtuosos e menos impacientes. Só assim os assistidos verão a face de Cristo nos nossos rostos. Afinal, queremos ser ramos produtivos e não ramos inúteis. E queremos que Deus nos diga, na hora de nossa morte: “Vinde, benditos de Meu pai, e tomai posse do reino que vos está preparado” (Mt 25, 35).

 

Artigo 11/2011

São Vicente e Ozanam, grandes comunicadores

Cfd. Renato Lima

 

São Vicente escreveu 80.000 cartas durante sua vida. Ozanam escreveu quase 15.000, muitas delas compiladas em livros disponíveis para todos. Vocês já pararam para pensar se Ozanam e São Vicente vivessem nos tempos atuais? O que não teriam feito com a ajuda da Internet? Seus discursos e homilias teriam provavelmente convertido muito mais corações. Eles foram grandes comunicadores, assim como nós temos que ser.

Se nos sentimos despreparados para essa missão, ainda há tempo. Procure qualificar-se aproveitando os cursos oferecidos pela Escola de Capacitação. Peça aos dirigentes do Conselho Central que promovam cursos de temas não abrangidos pela modulação da ECAFO. Busque aprimorar-se na comunicação, pois assim você estará aproximando as pessoas, reduzindo distâncias, mostrando a face de Deus e conquistando sua santificação.

Comunicar é encurtar distâncias, é aproximar, é abrir condições favoráveis para um diálogo profícuo. Os vicentinos são convidados a serem comunicadores natos, pois temos um desafio enorme junto aos que sofrem, não só na prestação da ajuda material (temporária, efêmera), também importante, mas essencialmente na assistência espiritual (renovadora, permanente). Ou somos bons comunicadores ou seremos meros entregadores de cestas básicas.

Paremos para pensar: se somos, às vezes, a única expressão de presença católica nas periferias ou nas obras sociais, também somos, da mesma forma, provavelmente o único meio de comunicação entre Deus e os excluídos. Daí surge nossa imensa responsabilidade, pois atuamos como mensageiros do Evangelho e arautos da Caridade. Nossos gestos, nossa forma de ser e de agir, enfim, nossa maneira de atender aos Pobres é observada por todos, por isso devemos estar preparados e plenamente atualizados.

Para saber comunicar, o vicentino deve ter empatia, ou seja, colocar-se na posição do outro, do receptor da mensagem. Em outras palavras: deve-se estar na perspectiva de quem está recebendo a Palavra. Será que estamos usando o linguajar correto? Será que não temos sido eminentemente formalistas quando lemos o Evangelho nas visitas domiciliares? Será que não nos tornamos enfadonhos, em algumas ocasiões? Temos sido modelo de santidade para os que nos observam? Enfim, somos comunicadores de Jesus ou meros repetidores das Escrituras? Os Pobres que assistimos vêm a face de Cristo nos nossos rostos?

No processo de comunicação, há certos elementos que contribuem para que a mensagem seja perfeitamente acolhida, sem ruídos ou interferências, dentre eles podemos citar a clareza do conteúdo a ser transmitido (ter domínio do que se vai falar), a facilidade de expressão (falar de maneira acessível e direta, sem ironias ou subterfúgios) e a capacidade de interagir (buscando o diálogo). Na teoria, parece fácil, mas na prática sabemos que o processo de comunicação tem lá seus defeitos. Por isso, os vicentinos precisam se policiar para evitar falhas de comunicação, especialmente na visita à família carente.

 

Artigo 10/2011

As duas redes de caridade

Cfd. Renato Lima

 

Um vicentino mais experiente, com 20 ou 30 anos dentro da entidade, por exemplo, pode achar que não tem mais nada a aprender ou a descobrir, e que por isso não precisa comparecer às Festas Regulamentares nem aos cursos oferecidos pela Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam (ECAFO). Ele considera que já sabe “quase tudo” e seu papel na SSVP restringe-se às visitas aos pobres, levando bens materiais e uma palavra amiga, se possível junto com uma oração.

Mas se engana por completo quem pensa que “chegou ao topo” e não tem mais nada a aprender. Temos que ser humildes e reconhecer que aprendemos coisas novas todos os dias. Cada novo sermão meditado na santa missa, por mais que já tenhamos ouvido aquela passagem bíblica dezenas de vezes, pode trazer um enfoque diferente e até revelador, mesmo para os mais velhos. Ou seja, depende de nós a vontade em assimilar aspectos diferentes para que, ao final, possamos incorporar tais elementos em nossa vida pessoal e em nossa conduta vicentina.

Foi pensando assim que um dia desses – há pouco tempo, sejamos francos – enxerguei uma verdade que demorei muito a perceber. Todas as vezes que citamos a expressão “rede de caridade” para designar a SSVP, cunhada e profetizada por Ozanam, queremos geralmente nos referir ao trabalho de caridade, coordenado e eficiente, que as Conferências e as Obras (Unidas e Especiais), em rede, realizam em favor dos pobres. Isto é, uma rede de voluntários e de talentos ao serviço da caridade.

Mas, em realidade, existe uma “segunda rede de caridade” no seio da SSVP, que nem sempre compreendemos ou nos damos conta de sua existência. O que vou aqui enfatizar pode parecer trivial para muitos, mas reconheço que nunca tinha analisado sobre este ângulo. Quero mencionar a rede de caridade que existe entre nós, confrades e consócias, no cotidiano da entidade. Se não existisse essa tal “segunda rede de caridade”, não seria possível a existência das Conferências. Senão, vejamos.

Sem a caridade entre os vicentinos, as Conferências não se manteriam unidas há tanto tempo. Sem ela, talvez não houvesse tanto respeito entre as pessoas e nem a capacidade de perdão. Sem a caridade entre nós, as Conferências não seguiriam a hierarquia do amor que faz a SSVP funcionar em prol do assistido. Sem a segunda rede de caridade, não haveria organização e os pobres não receberiam a assistência que hoje recebem. Em outras palavras, essa rede de caridade interior, doméstica, não seria viável – nem factível – a outra rede, exterior, para com os pobres.

Vocês já pararam para pensar desta forma? Eu levei muito tempo para compreender isso com clareza e transparência. E hoje entendo muito bem as ações da Providência Divina nos abençoando e nos ajudando a sustentar as duas redes de caridade, a interior e a exterior. Uma rede depende da outra para existir. Uma Conferência não fará um bom trabalho se não houver caridade entre seus membros. E um grupo formado por pessoas pouco amistosas culminará com a promoção de ações meramente assistenciais, nunca caritativas. Por isso, reflitamos como andam as duas redes de caridade de nossa Conferência, rogando a Deus que ambas estejam como São Vicente e Ozanam gostariam.

 

Artigo 9/2011

Os Vicentinos e a Doutrina Social da Igreja

Cfd. Renato Lima

 

Antônio Frederico Ozanam (um dos cofundadores da Sociedade de São Vicente de Paulo), em sua inquieta e aprimorada discussão sobre o trabalho, o capital e as relações profissionais, é considerado, no Século XIX, um dos mais brilhantes precursores da Doutrina Social da Igreja, consolidada pelo papa Leão XIII na Encíclica “Rerum Novarum” (1891). Seus artigos, publicados nos jornais da época, foram às vezes a única voz em defesa dos menos favorecidos. Ozanam era tão preocupado com o tema que chegou a fundar em 1848 um jornal, em parceria com o Padre Lacordaire, intitulado “Era Nova”, no qual apresentava seus posicionamentos sociais.

Por Doutrina Social da Igreja entende-se o conjunto de ensinamentos católicos, contidos em numerosas encíclicas e documentos papais, que definem princípios, critérios e diretrizes sobre  a organização social e política das nações, objetivando a construção de uma sociedade justa e fraterna por meio da vivência do Evangelho. Em outras palavras, é a luta pela justiça social numa sociedade cheia de desigualdades, destituída de valores e obcecada pelo dinheiro.

Muitos vicentinos só vão estudar e conhecer as bases da Doutrina Social da Igreja quando participam do Módulo V da Escola de Capacitação “Antônio Frederico Ozanam” (ECAFO). Depois disso, passam a tomar gosto pelo tema e então começam a se interessar pelos documentos da Igreja, por artigos especializados, por pesquisas na Internet e por reflexões sobre a matéria. Muitos desses vicentinos nem sabiam que Ozanam tinha sido um dos precursores dessa Doutrina.

A Doutrina Social da Igreja vai bem ao encontro dos desejos de todos os membros da Sociedade de São Vicente de Paulo, pois estes não aceitam a pobreza e querem ver todo ser humano feliz, realizado, próspero economicamente e vitorioso em Cristo. Os Vicentinos buscam um mundo em que os excluídos sejam os primeiros, e não os últimos, escolhendo estar ao lado desses irmãos mais humildes, em unidade com eles. Os Vicentinos são eternos indignados com a situação de opressão e de miséria, não se limitando a aliviar a pobreza com cestas básicas ou peças de roupas.

A Regra da SSVP (parte internacional) em seu Capítulo 7 é bem clara ao defender que “os Vicentinos sonham com um mundo mais justo no qual seriam reconhecidos os direitos de cada um; os Vicentinos são chamados a participar da criação de uma ordem social mais justa e equitativa; a injustiça, a desigualdade, a pobreza e a exclusão resultam de estruturas sociais, econômicas ou políticas injustas”. Também a Regra exorta os confrades e as consócias a identificarem as causas da pobreza para mitigá-las (item 7.1.). Desta forma, a Doutrina Social da Igreja se encaixa perfeitamente no Regulamento Vicentino.

A Família Vicentina, da qual a SSVP faz parte, está desenvolvendo o Projeto “Mudança Sistêmica”, que objetiva tirar os miseráveis da situação em que se encontram, gerando emprego e trabalho, para que, com recursos econômicos próprios, os pobres possam alimentar-se, manter a saúde, estudar e, desta forma, conseguir trabalho que os liberte da humilhante situação de pedintes. Esse projeto está completamente inserido nos fundamentos da Doutrina Social da Igreja, pois estimula, por meio do trabalho, a realização social de homens e mulheres, filhos de Deus, especialmente os pobres, os prediletos do Senhor.

 

Artigo 8/2011

Ouvir a voz dos humildes

Cfd. Renato Lima

 

No Livro do Eclesiástico (capítulo 35, versículos 15 ao 22), há uma bela passagem bíblica que diz muito aos corações de nós, vicentinos: “O Senhor (...) escuta as súplicas dos oprimidos. A prece do humilde atravessa as nuvens. Quem serve a Deus (...) será bem acolhido, e suas súplicas subirão até as nuvens”.  Ou seja, esse trecho retrata as seguintes situações: que a oração do pobre chega até aos ouvidos de Deus, que quem serve ao Altíssimo será recebido no céu e que suas súplicas também serão ouvidas.

A primeira promessa (que a oração do pobre chega até Deus) é um alento para nosso trabalho vicentino. É por isso que pedimos aos assistidos que rezem por nós, não para agradecer pelos bens materiais que deixamos em seus casebres, mas para que prossigamos exercendo esse ministério missionário, que consiste não só na ajuda material, mas no aconselhamento espiritual e familiar. Se os humildes rezam pelos vicentinos, é sinal de que os confrades e as consócias continuarão fazendo esse trabalho de caridade a quem necessitar. Ao final de uma visita domiciliar, não podemos nos esquecer que pedir aos socorridos que incluam nossos nomes das orações deles.

A segunda promessa (quem serve a Deus será acolhido e suas orações chegarão aos céus) retrata que o Senhor afirma a seus filhos queridos, aqueles que O servem da maneira como Ele o quer (ou seja, com retidão, generosidade, evitando o pecado e buscando a santificação aqui na Terra), que serão recebidos no Paraíso Celestial, além de suas súplicas serem ouvidas por Deus. É uma garantia que nos emociona, pois Deus está assegurando que a oração dos que se dedicam ao serviço da caridade.

As promessas de Deus acima mencionadas deixam a todos nós, membros da Sociedade de São Vicente de Paulo, com uma enorme responsabilidade em praticar a caridade evangélica sem cometer deslizes em nossa vida pessoal, pois somos exemplo e testemunho para muitos que nos rodeiam. Se quisermos entrar no Reino de Deus e se objetivamos mitigar as misérias humanas, temos que ser santos, orar muito e buscar uma constante melhoria como pessoa.

Agora reflita: existem promessas mais significativas do que essas duas para nós que somos da SSVP? Que enorme privilégio Deus nos concedeu e agraciou! Portanto, se somos tão abençoados com essas promessas, temos que retribuir a Deus, à Igreja, à comunidade, à família e a todos que estão ao nosso redor com uma vida repleta de amor, alegria, espírito de conciliação e desapego da própria opinião. Se não agirmos assim, estaremos negando as promessas divinas e não nos comportando como um vicentino deve ser.

Nosso Senhor Jesus Cristo também nos ensinou que todas as vezes que tivermos feito alguma boa ação às pessoas que sofrem ou que estejam passando por necessidades (comida, bebida, roupa, pousada, aconselhamento e assistência médica), como escrito em Mateus 25 (35 ao 45), é ao próprio Cristo que estaríamos fazendo tal ação. Assim, as promessas de Deus citadas no Antigo Testamento em Eclesiástico se unem à Boa Nova de Cristo, no Novo Testamento, complementando a vontade divina. Jesus anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos a liberdade, e aos tristes a alegria. Sigamos seus passos.

 

Artigo 7/2011

A Pobreza e os Vicentinos

Cfd. Renato Lima*

 

Nós, vicentinos, atuamos no campo da caridade e da evangelização, junto a pessoas carentes, buscando nossa santificação e a melhoria das condições de vida de nossos assistidos. Contudo, uma boa parte dos vicentinos tem uma visão ainda restrita sobre a pobreza.

Aliás, não só os vicentinos, mas a sociedade em geral emprega a expressão “pobreza” quando geralmente deseja referir-se a aspectos econômicos, ou seja, à “pobreza material”. Pessoas que “vivem na pobreza” seriam aquelas a quem lhes falta o mínimo exigido para que tenham uma vida razoável, por exemplo, casa, comida, roupas, bens, segurança, etc. Todos, conscientemente ou não, reduzimos o conceito de pobreza a exatamente isso: uma família pobre é aquela que vive de forma precária, sem usufruir os benefícios e do conforto da modernidade.

Contudo, além da pobreza econômica, há infinitas formas de pobreza, como a pobreza afetiva e sentimental, a pobreza educacional e intelectual, a pobreza política, a pobreza familiar, a pobreza de saúde. Uma das pobrezas mais desoladoras é a incapacidade de sonhar e de transformar a realidade. Muitas Conferências vicentinas situadas em países desenvolvidos, ou seja, com excelentes condições de vida, atuam junto a drogados, doentes e pessoas que vivem na solidão, pois são as carências que podemos encontrar nesses países.

Mas a pior das pobrezas, sem dúvida, é a falta de Deus, a chamada “pobreza espiritual”, isto é, aquela na qual as pessoas levam uma vida caracterizada pela falta do necessário para uma vida de comunhão com Deus. A pobreza espiritual pode ser caracterizada pela falta de conhecimento, de oração e de serviço. Assim explicando: quem não conhece a Deus e a Jesus, nem vive sua Palavra, não pode jamais ter vida espiritual (adoração, oração e salvação), portanto sem prática de serviço (caridade).

É um ciclo vicioso que gera a pobreza espiritual. A pessoa nestas condições possui uma fé instável, desânimo, falta de esperança e ausência de temor a Deus. A pobreza espiritual pode ser definida como a característica pela qual uma pessoa dá mais valor às coisas da Terra do que às coisas de Deus.

Cristo nos oferece uma “vida em abundância”, ou seja, de riqueza espiritual, que consiste na prática das bem-aventuranças e das obras de misericórdia. Já a pobreza espiritual tem como foco as obras da carne. Contudo não devemos confundir pobreza espiritual com o que Cristo nos pregou no Sermão da Montanha (Mateus 5), ao dizer “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o Reino dos Céus”. Jesus aqui se refere a todos os que reconhecem que só conseguirão a salvação com a mediação de Cristo e não por seus próprios méritos.

Deixamos como reflexão para a Conferência a seguinte passagem da Bíblia: “Nosso Senhor Jesus Cristo, sendo rico, por vós fez-se pobre a fim de que vos enriquecêsseis com sua pobreza” (2ª Coríntios 8,9). Meditemos nessas palavras que tocam em profundidade nossos corações.

 

Artigo 6/2011

Ouvir a voz dos humildes

Cfd. Renato Lima*

 

No Livro do Eclesiástico (capítulo 35, versículos 15 ao 22), há uma bela passagem bíblica que diz muito aos corações de nós, vicentinos: “O Senhor (...) escuta as súplicas dos oprimidos. A prece do humilde atravessa as nuvens. Quem serve a Deus (...) será bem acolhido, e suas súplicas subirão até as nuvens”.  Ou seja, esse trecho retrata as seguintes situações: que a oração do pobre chega até aos ouvidos de Deus, que quem serve ao Altíssimo será recebido no céu e que suas súplicas também serão ouvidas.

A primeira promessa (que a oração do pobre chega até Deus) é um alento para nosso trabalho vicentino. É por isso que pedimos aos assistidos que rezem por nós, não para agradecer pelos bens materiais que deixamos em seus casebres, mas para que prossigamos exercendo esse ministério missionário, que consiste não só na ajuda material, mas no aconselhamento espiritual e familiar. Se os humildes rezam pelos vicentinos, é sinal de que os confrades e as consócias continuarão fazendo esse trabalho de caridade a quem necessitar. Ao final de uma visita domiciliar, não podemos nos esquecer que pedir aos socorridos que incluam nossos nomes das orações deles.

A segunda promessa (quem serve a Deus será acolhido e suas orações chegarão aos céus) retrata que o Senhor afirma a seus filhos queridos, aqueles que O servem da maneira como Ele o quer (ou seja, com retidão, generosidade, evitando o pecado e buscando a santificação aqui na Terra), que serão recebidos no Paraíso Celestial, além de suas súplicas serem ouvidas por Deus. É uma garantia que nos emociona, pois Deus está assegurando que a oração dos que se dedicam ao serviço da caridade.

As promessas de Deus acima mencionadas deixam a todos nós, membros da Sociedade de São Vicente de Paulo, com uma enorme responsabilidade em praticar a caridade evangélica sem cometer deslizes em nossa vida pessoal, pois somos exemplo e testemunho para muitos que nos rodeiam. Se quisermos entrar no Reino de Deus e se objetivamos mitigar as misérias humanas, temos que ser santos, orar muito e buscar uma constante melhoria como pessoa.

Agora reflita: existem promessas mais significativas do que essas duas para nós que somos da SSVP? Que enorme privilégio Deus nos concedeu e agraciou! Portanto, se somos tão abençoados com essas promessas, temos que retribuir a Deus, à Igreja, à comunidade, à família e a todos que estão ao nosso redor com uma vida repleta de amor, alegria, espírito de conciliação e desapego da própria opinião. Se não agirmos assim, estaremos negando as promessas divinas e não nos comportando como um vicentino deve ser.

Nosso Senhor Jesus Cristo também nos ensinou que todas as vezes que tivermos feito alguma boa ação às pessoas que sofrem ou que estejam passando por necessidades (comida, bebida, roupa, pousada, aconselhamento e assistência médica), como escrito em Mateus 25 (35 ao 45), é ao próprio Cristo que estaríamos fazendo tal ação. Assim, as promessas de Deus citadas no Antigo Testamento em Eclesiástico se unem à Boa Nova de Cristo, no Novo Testamento, complementando a vontade divina. Jesus anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos a liberdade, e aos tristes a alegria. Sigamos seus passos.

 

Artigo 5/2011

Benefícios para quem ajuda ao próximo

Cfd. Renato Lima (*)

 

De vez em quando, os meios de comunicação publicam matérias sobre os benefícios que se têm ao realizar ações de ajuda ao próximo. Quem ajuda as pessoas reduz o risco de morte precoce, vive mais, tem menos doenças, consegue emprego, entre outros ganhos pessoais. Se não vejamos.

Um estudo da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, revela que pessoas empenhadas em ajudar o próximo, em ações voluntárias, reduzem em 60% o risco de morte precoce. Os investigadores consideraram que a generosidade tem relação com a longevidade. A pesquisa mostra também que os mais egocêntricos têm mais que o dobro de risco de morrer mais cedo.

Existem pesquisas científicas apontando que a atitude de ajudar a quem precisa colabora também com a saúde, como, por exemplo, baixando os níveis de colesterol, reduzindo a hipertensão e aumentando a expectativa de vida.

A palavra mais justa que define o trabalho voluntário é a solidariedade. Além de estar beneficiando quem precisa, ajudar o próximo faz bem ao coração. Vendo os problemas de outras pessoas é possível perceber que os nossos são minúsculos, e que não devemos reclamar e sim agradecer.

A importância de ser voluntário é tão grande que muitas firmas buscam empregar pessoas que possuam, em seus currículos, ações de voluntários e beneficentes. Nos processos seletivos, as empresas preferem pessoas que visam ao bem-estar social, oferecendo mais qualidade de vida para quem precisa, dedicando o tempo livre para contribuir com necessitados.

Atuar em ações sociais ajuda a conquistar melhores empregos. Gestores de recursos humanos de grandes empresas afirmam que um candidato que disponibiliza parte do tempo livre para ajudar outras pessoas pode ser considerado pela empresa como alguém comprometido com uma causa e que se pode esperar dele o mesmo comprometimento no trabalho.

Ajudar o próximo faz bem à saúde do corpo e da alma, trazendo várias “vantagens”. A primeira delas é que nos propicia um sentido para a vida (esse prazeroso esforço de servir ao próximo é uma das mais benditas ferramentas para ajudar a visualizarmos, com clareza, um sentido para a vida). A segunda, é que torna-nos mais produtivos em nossa atividade profissional (quando a pessoa que se aproxima do sofrimento do próximo vê seus problemas pessoais numa outra dimensão).

Contudo, pesquisas internacionais apontam os grandes benefícios para a saúde do nosso corpo: ajudar o próximo faz bem ao coração, ao sistema imunológico (aumenta as defesas naturais do organismo), aumenta a expectativa de vida e a vitalidade de maneira geral.

Além de tudo o que vimos, ajudar as pessoas carentes é o cumprimento do dever missionário de todo católico, e a razão de existir dos membros da Sociedade de São Vicente de Paulo. Somos realmente muito abençoados por sermos vicentinos! Deixamos uma pergunta para reflexão na reunião da Conferência: “Qual é, para você, o maior benefício de se ajudar pessoas carentes?”.

 

Artigo 4/2011

Como batizar Conferências e Conselhos?

Renato Lima

 

Uma pergunta recorrente chega sempre ao nosso conhecimento: na hora de dar nome a uma Conferência ou Conselho, como se deve agir? Que cuidados deve-se ter no momento do “batismo” de nossas unidades vicentinas? Por que, dentro da área territorial de certos Conselhos Centrais, repetem-se os nomes das Conferências? Está faltando criatividade no seio vicentino?

A Regra da Sociedade de São Vicente de Paulo no Brasil, em seu artigo 10, diz claramente que as Conferências distinguem-se pelo título adotado, que pode ser nome de SANTOS e SANTAS, ou INVOCAÇÃO CATÓLICA. Servos de Deus e bem-aventurados, como ainda não são santos, não podem dar nome a Conferências e Conselhos. Também há um impedimento – óbvio – de usar os nomes “Antônio Frederico Ozanam” e “São Vicente de Paulo”, em atendimento a uma recomendação do Conselho Geral Internacional (artigo 10, parágrafo segundo).

Quando vamos batizar uma Conferência com nome de santo ou santa, os problemas parecem ser reduzidos, pois a chance de erro é pequena. Afinal, a Igreja possui cerca de 1.200 canonizados à disposição de nossas unidades vicentinas. O problema que acontece é a repetição de nomes como “São José”, “São João Batista” ou ainda “Santo Antônio”. Por que não damos preferência a santos vicentinos, como Santa Joana Beretta (consócia italiana), São Francisco Regis Clet (missionário lazarista da China) ou Santa Isabel Setor (religiosa vicentina dos Estados Unidos)?

É comum vermos nomes já bastante utilizados dentro de um mesmo Conselho Central, ainda que na área de Conselhos Particulares distintos, o que deveria ser evitado. Às vezes, encontramos três ou quatro Conferências com o mesmo nome dentro da área de um Central. É importante dizer também que os pedidos de Carta de Agregação com nomes fora dos padrões normativos deverão ser recusados, devendo a unidade vicentina trocar sua nomenclatura, fazer ajustes no livro de atas e reapresentar o pedido de agregação, sem essas falhas.

Os dicionários nos ensinam que invocação é uma “ação de chamar (invocar) por alguém”. É um chamamento, um pedido, uma súplica, um ato de piedade. Ou seja, quando invocamos o nome Nossa Senhora Rainha da Paz, estamos chamando a presença de Maria no meio de nós. Portanto, invocação católica é justamente este pedido de proteção divina. Alguns exemplos de invocação católica: Sagrado Coração de Jesus, Imaculado Coração de Maria, Imaculada Conceição, Divino Espírito Santo, Santíssima Trindade, entre outros.

No caso de Maria Santíssima, a Mãe de Jesus, são invocações católicas aquelas começadas por “Nossa Senhora”. Portanto, Nossa Senhora das Graças, Nossa Senhora da Abadia, Nossa Senhora da Esperança e Nossa Senhora da Purificação são, assim por dizer, invocações católicas. Existe uma forte repetição da invocação “Nossa Senhora Aparecida” dentro da SSVP, às vezes dentro do mesmo Conselho Central, o que deveria também ser evitado, sem cometermos nenhum desrespeito à padroeira do Brasil.

Já no caso dos Conselhos, o artigo 10 (em seu parágrafo primeiro) estabelece que estes se designam APENAS pelo nome do lugar onde funcionam, podendo este ser PRECEDIDO do nome de santo/santas ou invocação católica. Assim, estão corretos os exemplos: Conselho Central de Limeira-SP ou Conselho Central Nossa Senhora de Lourdes de Limeira-SP; Conselho Particular de Chapecó-SC ou Conselho Particular Santa Teresa de Calcutá de Chapecó-SC.

Como se percebe a partir da leitura desta crônica, não é complicado encontrar um nome para batizar as Conferências e Conselhos. Basta seguir as normas, o bom senso e ter atenção antes de se cometer um deslize, consultando vicentinos mais experientes. Depois de vários anos, é bastante constrangedor ter que mudar o nome de uma unidade vicentina, pois não foram tomados os devidos cuidados no momento de suas criações. Sugerimos que, antes de batizar uma Conferência ou Conselho, os vicentinos pesquisem nomes de santos e santas (entre eles muitos vicentinos) e de invocações católicas aceitas pela Igreja, com carinho, sem pressa e com esmero.

 

Artigo 3/2011

Dar o que se tem ou dar-se a si mesmo?

Cfd. Renato Lima (*)

 

O padre Fábio de Melo, sacerdote que vem se notabilizando pelas músicas que interpreta e pelos livros que escreve, disse uma vez, ao participar de um programa televisivo, que é relativamente fácil dar (ou doar) aquilo que temos, mas difícil mesmo é doar o que somos ou dar-nos a nós mesmos. Essa frase do padre Fábio tem muito a ver com o trabalho vicentino e como nós podemos conquistar novos membros.

Dar o que temos (por exemplo, roupas, brinquedos, calçados, até alimentos) não é de fato uma tarefa tão complicada assim. Afinal, até pessoas que não acreditam em Deus executam ações filantrópicas e sociais, ao longo do ano, especialmente em datas como Dia das Crianças ou no Natal. Recordemos o que pregou Jesus: “Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem”(Mateus 7,11). Mas compartilhar nosso interior, nosso ser, nosso coração com os que sofrem, aí já é bem diferente e nem sempre encontramos pessoas com essa característica.

Às vezes, estamos entregando uma cesta básica a uma família carente, mas, espiritualmente, não estamos nos doando também a ela. É preciso muito mais que mera ação de entregar algo a alguém para que esse gesto seja, realmente, considerado “caridade”. A caridade é muito mais que dar coisas, e sim dar a nós mesmos. Concordo que essa exigência faz toda a diferença. Deve haver uma interconexão plena entre o doador e quem vai receber a ajuda.

Quando um aspirante começa a conhecer os trabalhos da Sociedade de São Vicente de Paulo é preciso que os confrades e as consócias mais experientes mostrem ao candidato que ser vicentino não é apenas doar um bem material, que sem dúvida alivia o sofrimento momentâneo; mas ser vicentino é dar-se a si mesmo, compartilhando com os mais carentes nossa compaixão e nossa preocupação.

Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue, não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (João 8, 12). Cristo se entregou pela humanidade. Ele não dava bens materiais a ninguém. Aos que lhe pediam graças, Jesus concedia saúde, paz e vida. Nós, vicentinos, temos que ser luz também na comunidade, passando a ser referência de vida para os assistidos, e não apenas reconhecidos como pessoas bondosas que levam gêneros alimentícios ou material de construção para algumas famílias carentes.

A mensagem final que deixo para nossa reflexão é justamente o que colocamos na abertura dessa crônica: precisamos, no lugar de apenas dar o que se tem, dar o que se é, o que somos, e sobre como podemos contribuir com nosso caráter e nossa existência. Talvez possamos ser luz para muita gente. Pensemos e reflitamos.

 

Artigo 2/2011

Missão, visão e valores vicentinos

Cfd. Renato Lima

 

Uma empresa privada, e até órgãos públicos, quando elaboram seus planejamentos estratégicos, costumam definir a missão, os valores e a visão de futuro de suas entidades. A missão tem a ver com a razão de existir da instituição; os valores, com as crenças; e a visão de futuro é como ela quer ser vista ou percebida pela sociedade civil daqui a cinco ou dez anos.

No caso da Sociedade de São Vicente de Paulo, sua missão e visão estão contidas na Regra, documento criado em 1836 pelos fundadores da entidade e que, após poucas atualizações, chega ao século XXI com o mesmo espírito primitivo que guiou nossos antepassados. A missão da SSVP é a mesma: buscar a santificação pessoal de seus membros, por meio da oração e da visita aos que sofrem, praticando a caridade evangélica pregada por Nosso Senhor Jesus Cristo. Seus valores são a humildade, a caridade, a simplicidade (essas três, virtudes de São Vicente de Paulo) e desapego do próprio parecer. Sua visão de futuro é transformar a realidade excludente, construindo um mundo mais justo e menos desigual.

A missão vicentina de hoje é a mesma daquela dos tempos de Ozanam, Bailly, Irmã Rosalie, Le Prevost e os outros visionários que fundaram a Sociedade de São Vicente de Paulo em 1833. Estamos nos referindo à caridade e à promoção integral dos assistidos. Para essa ação ser eficiente, é preciso que os confrades e as consócias se preparem melhor para os desafios do mundo contemporâneo, em que a pobreza tem outras facetas (como a exclusão digital) e que as mazelas continuam perseguindo o povo de Deus.

Quase sempre associamos a missão vicentina com a vocação vicentina, e isso é plenamente compreensível, pois nossa vocação é seguir Jesus Cristo, dando testemunho de Seu amor libertador, “servindo na esperança” (lema do Conselho Geral Internacional), ajudando a aliviar o sofrimento ou a miséria e promover a dignidade e integridade do homem em todas as suas dimensões (tópicos contidos no Item 1.3. da Regra Internacional). No âmbito do Conselho Nacional do Brasil, a atual diretoria, presidida pela consócia Ada Ferreira, escolheu o lema “Caridade e Missão” para marcar o mandato. Foi uma escolha muito feliz, pois a caridade vicentina é a própria missão.

A missão vicentina, assim, é basicamente o encontro com o pobre, em seus casebres e cortiços, em lares em que quase não é força para um sorriso, levando-lhes uma palavra amiga, uma doação material e um conselho cristão. Por esse tipo de trabalho, a SSVP é única. Não se parece com nada que existe por aí. Para esse encontro (que também podemos considerar uma espécie de sacramento, pois é o encontro do vicentino com Jesus na pessoa do pobre), o Divino Espírito Santo exerce papel preponderante, guiando a visita e tornando-a instrumento de paz, alegria, aconselhamento e libertação.

Da mesma forma, a missão vicentina está intrinsecamente ligada à missão evangelizadora da Igreja, por seu testemunho visível em ações e palavras, a favor dos pobres, buscando uma ordem social mais justa e equitativa que conduza à cultura da vida e à civilização do amor (Regra Internacional, Item 7.2.). Eis aqui a nossa missão!

Deixamos duas perguntas para debate na reunião da Conferência: “Qual característica da missão vicentina é a mais importante?”. “E por quê?”

 

Artigo 1/2011

O que significa ter

“desapego ao próprio parecer”?

 

Quando um aspirante deseja ser proclamado confrade ou consócia, diz-se que deve reunir algumas características para ingressar na Sociedade de São Vicente de Paulo, entre elas: ser católico praticante, ter feito a Primeira Comunhão, ter disponibilidade de tempo, ser voluntário, querer fazer a diferença, transformar a realidade do mundo excludente em que vivemos, buscar sua santificação pessoal e promover famílias carentes.

Mas, junto a essas condições, é preciso avisar aos novatos que há ainda uma exigência fundamental que mantém a unidade, a coesão e a confiança dentro da SSVP: o desapego ao próprio parecer. Os manuais mais antigos da Sociedade contam que o desapego reside quando nós abrimos mão de nossa opinião pessoal (meritória e relevante, sem dúvida) em nome de uma decisão colegiada, tomada com base numa visão ampliada, de conjunto. Em outras palavras, não podemos ser “o dono da verdade”.

Por exemplo: quando um Conselho Particular pede a uma Conferência que troque de área de assistência, indicando uma zona mais carente, é porque o Conselho sabe o que está falando. Triste é ver alguns confrades e consócias reativos, duros de coração, apegados às famílias ou às Obras que mantêm, manifestando-se contra as decisões dos órgãos hierarquicamente superiores. Esquecem-se que nossos bens e nosso patrimônio pertencem unicamente aos pobres que assistimos, nossos “amos e senhores”, como dizia S. Vicente.

Se há uma geração de vicentinos que não entende o que é o “desapego ao próprio parecer”, temos então que investir nos novos. Eles precisam compreender que justamente essa condição tem permitido que nossa entidade sirva por tantos anos, sem se dividir ou fracionar. Quantos partidos, sindicatos e associações são criados por conta de divergências entre seus integrantes! A SSVP mantém-se unida por conta da caridade de seus membros, da inspiração divina e do desapego do parecer de cada um. Todos cedem, se não a Sociedade afunda.

Quando o Conselho expede uma circular pedindo que as Conferências façam doações para alguma obra unida da região (por exemplo, uma creche vicentina ou lar de idoso), ele sabe o que está falando. Conhece a situação econômica desta obra unida e principalmente aqueles que nunca fizeram doações, dando a todos uma nova oportunidade de ajudar. Tal circular tem por objetivo sensibilizar aqueles que só criticam, e poderiam fazer um gesto concreto de solidariedade.

Ser vicentino é realmente uma bênção. Praticar a virtude do desapego do próprio parecer é um dom de Deus. É uma virtude que nos ajuda não só na Conferência, mas também em nossas casas, com nossos filhos, em nossos matrimônios, no ambiente de trabalho e na comunidade em que vivemos. Ser flexível, diplomático, consensual, não é para todos. Essa virtude deve ser regada, alimentada, todos os dias, com muita oração, disposição, humildade e respeito mútuo.

Portanto, caros confrades e consócias, se alguns de vocês anda resistindo às decisões colegiadas tomadas no seio dos Conselhos, ou se você quer que a SSVP se adapte ao seu jeito de ser, recomendo que busque na sagrada eucaristia a força para receber o dom do desapego ao próprio parecer. Sem dúvida, isso lhe fará muito bem! Pense nisso. Agora não se esqueçam: não se omitam, critiquem o que deve ser criticado (especialmente os mais jovens), pois a crítica aprimora nossos procedimentos, mas nunca deixem de cumprir as determinações dos Conselhos.

 

Renato Lima – Brasília-DF

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