Hughes 2017

Pe. Thomaz Hughes, SVD
Pe. Thomaz Hughes  é irlandês, membro dos Missionários (Sociedade) do Verbo Divino.
Radicado no Brasil desde 1971, se dedica ao Apostolado Bíblico, com cursos e retiros bíblicos no Brasil e no exterior.
Em 2017 mora em Curitiba, Paraná, Brasil - Máikol Foto

Reflexões Homiléticas para 2017 – Ano Litúrgico letra A (Mateus)

Pe. Tomaz Hughes, SVD

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Faleceu verbita padre Tomaz Hughes
Na tarde desta segunda-feira, 15 de maio de 2015, faleceu o verbita padre Tomaz Hughes em Ponta Grossa-PR. O religioso tinha 69 anos, era irlandês e trabalhava no Brasil desde 1971. Ele atuava especialmente na formação bíblica e como assessor da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB Nacional) e do CEBI (Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos).
Vinculado à Província Brasil Sul dos missionários do Verbo Divino, Pe. Tomaz viajava por todo o País, conduzindo cursos e retiros bíblicos. O presbítero publicou diversos artigos nas revistas “Convergência”, “Estudos Bíblicos” e em outras produções sobre a vida religiosa consagrada. No ano passado, o verbita lançou o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário do Senhor, modelo de fé” (Ed. Pão & Vinho, 2016).
“A memória não é suficiente. Pode até ser desmobilizadora. Precisa ser completada com a esperança”, dizia Pe. Tomaz.
Ao saber do falecimento do verbita, a CRB Nacional publicou uma nota nas redes sociais: “A CRB Nacional, sua diretoria, a equipe interdisciplinar e todos os religiosos e religiosas se solidarizam com a Congregação do Verbo Divino e com os familiares de Pe. Tomaz, com um profundo agradecimento a Deus pelo grande dom que este sacerdote foi para a Igreja e para o mundo”.
Irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, MAD, presidente da CRB Nacional, também recordou a obra de Pe. Tomaz. “Desde que o conheci, possuía uma energia, uma vibração, um amor pela Igreja, pelos pobres e pela Palavra de Deus de causar ‘santa inveja’. Nunca vi o Pe. Tomaz desanimado e sem garra, fazendo toda sua parte para que o Reino acontecesse. Olha que o conheço desde 1981, quando trabalhei com ele na Diocese de Foz do Iguaçu, Paraná”.
“O Pe. Tomaz foi da espécie que desdiz a teoria do pecado original... tinha os dons do paraíso intactos... aliou conhecimento e realismo com inocência e alegria! Que privilégio tê-lo conhecido ao menos um pouco nos últimos anos. Deus seja louvado pela sua existência”, escreveu o frei Luis Susin, capuchinho.
O corpo de Pe. Tomaz foi velado na Paróquia do Espírito Santo, em Ponta Grossa. Missa do corpo presente do Pe. THOMAS Hughes, SVD, às 15:00h na Paroquia Espírito Sanoa, rua Padre Anchieta, Colônia dona Luiza, Oficinas, Ponta Grossa; em seguida sepultamento no cemitério Santa Luiza, Oficinas, Ponta Grossa.


 

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (28.05.17)

 

Mt 28, 16-20

 

“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”

 

Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 17: “Ajoelharam-se diante d’Ele” - uma postura de adoração, de reconhecimento da sua natureza divina. Porém, o trecho nos adverte que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante, quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.

 

As comunidades que podemos chamar de “mateanas” estavam em crise. Os líderes judaicos de então, diante da fraqueza da identidade judaica da época, insistiam em uma interpretação rígida da Lei e não toleravam qualquer dissidência ou questionamento. Iniciaram um processo de expulsão dos judeu-cristãos da sinagoga, sob a acusação de estarem traindo a religião de Moisés para seguir os ensinamentos de Jesus. Com isso, os cristãos foram obrigados a buscar outros caminhos, fora do judaísmo oficial, em uma insegurança que exigia coragem para fazer a nova caminhada diante de tanta oposição até dentro da própria família. O Evangelho de Mateus nasceu, então, para fazer com que a sua comunidade ficasse firme na fé em Jesus e entendesse que o seguimento de Jesus, longe de ser o abandono das tradições religiosas dos seus antepassados, era na verdade fidelidade a toda a caminhada do povo da Aliança. Para isso, toda a história de Jesus foi recontada de uma forma tal que os seus discípulos sentissem que Ele era o Messias, o Novo Moisés, o Emanuel, Deus no meio do seu povo. Logo no início, quando o anjo do Senhor anuncia o futuro nascimento a José, o texto enfatiza que o filho “será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco” (Mt 1, 23). No meio do Evangelho, falando aos discípulos, o próprio Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). Agora, na última frase do Evangelho, o Ressuscitado garante que “Eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Jesus era a presença de Deus conosco desde o início. Ele está presente nas comunidades hoje e Ele estará sempre conosco em todas as circunstâncias da nossa vida, para sempre.

 

Depois de um longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina de uma forma muito resumida, neste texto de hoje. É um texto tão denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais coisas em tão poucas palavras. Como gênero literário, reúne elementos das “entronizações” do Antigo Testamento com a comissão apostólica.

 

Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento em Mateus - na Galiléia. Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos voltam para a Galiléia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado. Aqui “Galiléia” significa mais do que um local geográfico! A Galiléia era lugar da missão de Jesus, onde Ele serviu os pobres e marginalizados pela sociedade e pela religião oficial. Voltar para a Galiléia significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém, símbolo da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado deve assumir o seguimento de Jesus na prática das suas opções, aplicadas às condições e desafios da sociedade de hoje. É o que o Papa Francisco não se cansa de ensinar. Depois vêm as normas, orientações e disciplinas. O que significa assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo e exclusão, de materialismo e descrença? Cabe a cada Igreja Local, a cada cristão indagar-se seriamente nesse sentido.

 

Embora haja uma referência à visão que os apóstolos tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras. Não há nenhum relato da Ascensão, como existe em Atos (At 1, 9-11), pois, para Mateus, já tinha acontecido junto com a Ressurreição. As últimas palavras de Jesus poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao presente e ao futuro. Jesus declara que toda a autoridade foi dada a Ele no céu e sobre a terra - o verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus a autoridade como Filho do Homem. Essa autoridade é a do Reino de Deus (Dn 7, 14; 2Cor 36, 23; Mt 6, 10). O mandamento missionário se refere ao presente dos discípulos - a sua missão universal e permanente de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus. Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza, e uma Igreja que não a é, está traindo a sua natureza e identidade. Missão não é proselitismo, não é angariar novos adeptos para a Igreja – mas, é continuar a missão de Jesus, cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus. Assim, somos chamados a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o Reino de Deus - a vivência da vontade do Pai - se torne realidade no nosso mundo.

 

Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão. Cinquenta anos depois da Ascensão, a comunidade dele, perseguida e fraca, experimentava a tentação do desânimo. Por isso, Mateus insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porque desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades. Pois, como dizia Paulo, a partir da sua experiência prática de missionário, quando Deus está conosco, nada estará contra nós (Rm 8, 11).

 

A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua comunidade; mas, ao contrário: celebra a sua presença de uma forma nova - na comunidade missionária dos discípulos. Domingo próximo, celebraremos um outro aspecto dessa nova presença, na Festa de Pentecostes.

 

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SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (21.05.14)

 

Jo 14, 15-21

 

“Ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre”

 

O texto dá início, dentro da primeira parte do “Último Discurso” de Jesus, à seção trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv.18-22) e ao Pai (vv. 23-24) - o tema de que, se guardarmos os mandamentos, cada personagem divina virá e habitará conosco.

 

O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade e ao Espírito Santo, especialmente no Último Discurso de Jesus. Neste trecho, se enfatiza a necessidade de guardar os mandamentos, para que possamos receber o dom do Espírito Santo. Aqui encontramos a primeira de duas promessas no capítulo da chegada do Paráclito, uma palavra grega que significava o que seria, em nossa linguagem, o advogado da defesa. Em diversos textos João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. Aqui o Espírito agirá como defensor dos discípulos diante dos ataques do mundo de incredulidade (lembremo-nos que na época do escrito, pelo fim do primeiro século da nossa era, a comunidade joanina estava sofrendo muitos ataques de diversas origens). Vale a pena notar aqui que o Espírito Santo será “outro Paráclito,” pois, Jesus já tinha sido defensor dos discípulos durante a sua vida terrestre, e continuará a sê-lo no céu. O Espírito Santo será o Espírito da Verdade, ou seja, o Espírito que revelará ao mundo a verdade sobre Jesus, como Jesus já tinha feito, mostrando-nos a verdade sobre o Pai.

 

A partir do v. 18, como fez no início do capítulo 14, Jesus volta a consolar os seus discípulos, e a falar da sua volta. Só que aqui não se refere tanto à sua vinda na Parusia, ou a Segunda Vinda, mas, uma volta espiritual, através de inhabitação divina em cada discípulo, uma presença real que fará com que os discípulos compreendam que Jesus e o Pai são um. Assim, os discípulos conhecerão a relação verdadeira entre Jesus e o Pai, e descobrirão que existe o mesmo relacionamento entre Jesus e eles próprios. De novo põe-se a observância dos mandamentos como precondição para que aconteça essa presença, espiritual, mas, real. A observância dos mandamentos não é uma simples exigência legal, mas a demonstração do amor dos discípulos para Jesus.

 

Atrás desse texto está o desejo do autor de fortalecer a fé da sua comunidade em tempos difíceis. Assim tem muita relevância para a Igreja, a comunidade dos discípulos, hoje. Como então, às vezes a nossa fé poderá vacilar diante de ataques, da perseguição ou até da indiferença do mundo. O texto procura renovar nos leitores a certeza da presença da Trindade no nosso meio - pois, o Espírito nos dará força para que vençamos as dificuldades e sofrimentos que eventualmente poderão nos assolar, individual ou comunitariamente. Também insiste na necessidade de criarmos uma comunidade de amor e solidariedade, para que a inhabitação divina em cada pessoa e na comunidade possa tornar-se uma força efetiva no fortalecimento da nossa fé, da nossa caminhada. Lembremo-nos que no Quarto Evangelho o Grande Mandamento era de amar-nos uns aos outros, como Ele nos amou, ou seja, na doação de nós mesmos na luta de criar um mundo onde se vive o sonho de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

 

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QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (14.05.17)

 

Jo 14, 1-12

 

“Credes em Deus; crede também em mim”

 

O Evangelho de João inicia o tal chamado “Último Discurso” de Jesus, com o texto de hoje. Esses versículos - a primeira das três partes do discurso - contêm a maioria das referências à partida iminente de Jesus; portanto, é o trecho mais apropriado para o contexto da Última Ceia. A moldura do texto consiste em dois mandamentos fortes para acreditar em Deus e em Jesus (vv 1.11). Novamente, cumpre lembrar que “crer” não é somente uma adesão mental, mas, um compromisso de vida - uma atitude vivencial de seguimento de Jesus, no cumprimento da vontade do Pai.

 

O primeiro tema do texto nasce da insegurança dos discípulos diante da partida iminente de Jesus e a perspectiva de serem entregues à sua própria sorte em um mundo hostil, o que ameaça a sua fidelidade e perseverança (14, 27 e 16, 6.20). Jesus demonstra que a sua partida não é um abandono, mas o início de uma união mais profunda com Ele e com o Pai, e que o Espírito Santo os defenderá contra as pressões do mundo incrédulo. Eles têm que alcançar uma fé concreta e firme em Jesus, o Filho encarnado, em que se manifesta a revelação suprema de Deus (5, 38; 8, 46-47). Jesus os reconforta com a promessa de uma volta Sua, quando Ele os reunirá a Ele. Aqui parece ter uma referência à parusia, a segunda vinda de Jesus, uma das poucas referências em João à chamada “escatologia final”. Mas, é importante que não se limite este retorno de Jesus aos últimos tempos - pois os verbos em v. 3 estão no futuro e no presente! Assim o texto enfatiza a presença de Jesus na sua comunidade, a Igreja. De certa maneira, onde se vive a verdadeira comunidade do discipulado, aquilo que pertence ao futuro escatalógico já acontece.

 

Tomé mostra que ele entende tão pouco de Jesus quanto as autoridades judaicas (sempre é bom lembrar que, em geral, quando o quarto Evangelho se refere aos “judeus”, está se referindo às autoridades do Templo e não o povo em geral). Jesus explica que ele é o caminho ao Pai, pois ele encarna a verdade sobre o Pai e dá a vida que vem do Pai aos seres humanos. Ele é a única fonte de conhecimento sobre o Pai. Para chegar ao Pai é necessário um seguimento de Jesus mesmo. Ele não é somente um guia no caminho, mas, a fonte da vida e da verdade. As palavras de Jesus enfatizam a sua unidade total com o Pai - Ele o revela e nem as suas palavras nem as suas obras são d’Ele mesmo, mas nascem da sua unidade com o Pai. Àqueles que creem será dado o dom de manifestar obras semelhantes e até maiores do que do Filho. Não se trata de fenômenos assombrosos (tão queridos de muitos grupos fundamentalistas hoje), mas do testemunho dos discípulos, animados pela presença do Espírito, para que o mundo creia em Jesus. A maior obra será a criação de uma comunidade alternativa de amor e justiça - a Igreja - fiel ao seguimento radical de Jesus. Estes versículos nos convidam a um profundo exame de consciência sobre a nossa maneira de vivenciar a Igreja - tantas vezes simplesmente uma conglomeração de pessoas, sem partilha, sem solidariedade, sem testemunho profético diante do mundo de classes, de consumismo, de materialismo. Enfatiza a necessidade de recuperarmos a base mística da nossa fé, o seu fundamento. Sem esta intimidade com Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, as Igrejas facilmente tornam-se grupos unidos por uma crença, uma lei, uma ética, mas, não por uma experiência profunda do Deus da vida, manifestado em Jesus Cristo, e nem pela visão que impulsiona Jesus - O Reino de Deus. Para que isso aconteça, o texto enfatiza a necessidade da oração em nome de Jesus, que vai atender a nossa prece (somente em João é Jesus que nos atende - normalmente nos Evangelhos é o Pai que nos atende através da intercessão de Jesus).

 

O texto vai continuar com uma reflexão trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e ao Pai (vv. 23-24) - o tema é de que a pessoa divina virá e habitará em nós, se obedecermos aos mandamentos.

 

O texto nasceu na comunidade do Discípulo Amado, em uma época de incertezas e dúvidas. Hoje em dia a nossa Igreja passa por muitas incertezas, dúvidas e até às vezes parece balançar. Diante dos questionamentos (até benéficos, na verdade), dúvidas e para ser sincero, escândalos, que frequentemente nos abalam, vale a mensagem central do texto, a certeza da presença de Jesus Ressuscitado entre nós. Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

 

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QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (07.05.17)

 

Jo 10, 1-10

 

“Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”

 

O texto de hoje manifesta claramente o ambiente pastoril da Palestina no tempo de Jesus. Os versículos estão carregados de imagens tiradas da vida dos pastores, imagens rurais que talvez sejam difíceis de serem bem compreendidas no ambiente urbano de hoje. Porém, a mensagem básica permanece clara, e é de valor perene.

 

Podemos dividir o texto em duas grandes partes. Versículos 1-5 e vv 6-10. Alguns exegetas acham duas parábolas separadas nos vv. 1-5: os primeiros três versículos fazem contraste entre duas maneiras de se aproximar às ovelhas. Quem não entra pela porta é maléfico. Os vv. 3b-5 têm como enfoque o relacionamento entre a ovelha e o pastor. Elas só respondem à voz do seu verdadeiro pastor. No contexto do Evangelho, fica claro que aqui se contém uma advertência contra o perigo de responder aos ensinamentos dos fariseus, que João apresenta como falsos mestres. Podemos atualizar essa advertência para os dias de hoje! Nunca faltam exploradores da fé popular para o seu próprio benefício (na verdade, os fariseus não eram assim, mas a crítica nasce em tempos de polêmica da comunidade joanina e eles).

 

É claro que também aqui temos ecos do Capítulo 34 de Ezequiel, que castigava os líderes do povo de Israel como maus pastores, que se engordavam às custas do povo. Assim, as ovelhas estavam dispersas como ovelhas sem pastor (Ez 34, 1-10). Nesse capítulo, o Senhor promete que vai reunir as suas ovelhas dispersas e conduzi-las às boas pastagens (34, 11-16). O nosso texto faz compreender que Jesus é o instrumento desta missão de Javé, retratada em Ezequiel, pois é Ele o verdadeiro Bom Pastor.

 

A segunda parte, 10, 7-10, usa as metáforas da porta e do bom pastor. Jesus é a porta do aprisco, e também o bom pastor. João quer insistir que Jesus é a única fonte de salvação. Os que vieram antes d’Ele, provavelmente uma referência aos mestres judaicos e às suas tradições, são rejeitados. É Jesus que veio para que todos tivessem a vida plena.

 

Aqui é necessário insistir que a missão de Jesus era trazer a vida para todos - não para alguns - e a vida plena, não uma suposta “vida espiritual”. Vida plena, em abundância, exige tanto os bens materiais necessários para uma vida digna, como os bens espirituais. O mundo de hoje, movido pelo consumismo e materialismo, limita a realização humana ao “ter”, enquanto uma religiosidade alienada - muito comum hoje em todas as Igrejas e denominações - faz com que os cristãos se omitam, restringindo a “vida em abundância” para depois da morte. O seguimento do Bom Pastor nos coloca em choque com a sociedade vigente excludente e com a religião alienante. O texto impede que nós nos refugiemos em uma interpretação espiritualista, oferecendo uma vida plena após a morte, pois o Reino de Deus que Jesus anuncia já está no meio de nós (Mc 1, 14-15), mesmo que a sua realização plena só acontece no além. O v. 11 nos manifesta o preço a ser pago por ser bom pastor! Jesus afirma que “o bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas” (v. 11). Enquanto o mercenário sacrifica as suas ovelhas ao seu interesse, o bom pastor entrega a sua vida até a morte para que os outros vivam.

 

As imagens do texto são por demais conhecidas. Todos conhecemos cartazes mostrando Jesus como o Bom Pastor. Cumpre assumir a continuidade da sua missão, entregando a nossa vida na luta diária para a criação de uma sociedade mais justa e humana - portanto divina - pois, só assim seremos fiéis a Aquele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”. Por isso, a fé exige participação social, como no dia 28 de abril de 2017 - luta pela vida plena de todos/as.

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BREVES REFLEXÕES BÍBLICAS MARIANAS PARA O ANO MARIANO

Essas reflexões são publicadas, num esquema de Lectio Divina/Leitura Orante, no livro da CRB Nacional, “Leitura Orante da Palavra de Deus. Subsídios para a VRC no Ano Nacional Mariano” e disponível das Regionais.

Primeira Reflexão

Para marcar a passagem do tricentenário da descoberta da imagem de Nossa Senhora Aparecida, a Igreja do Brasil já está em pleno Ano Mariano, não somente no sentido comemorativo, mas, como oportunidade de renovação da nossa fé, vivida no seguimento de Jesus, como seus discípulos-missionários e missionárias. Esse evento nos apresenta uma oportunidade ímpar de evangelização e revitalização, também para a Vida Religiosa Consagrada. Para isso, torna-se necessário superar uma visão meramente devocional, quando não semi-mágica, da figura de Maria, Mãe do Senhor e Mãe da Igreja, para tornar a devoção mariana fecunda e dinamizadora da fé e missão, na construção do Reino de Deus.

O Papa Bento XVI, na Exortação Verbum Domini, enfatizou a urgência de uma renovação e aprofundamento de uma verdadeira devoção mariana. Ele escreve: “No nosso tempo, é preciso que os fiéis sejam ajudados a descobrir melhor a ligação entre Maria de Nazaré e a escuta crente da Palavra divina. Exorto também os estudiosos a aprofundarem ainda mais a relação entre mariologia e teologia da Palavra. Daí poderá vir grande benefício tanto para a vida espiritual como para os estudos teológicos e bíblicos. De fato, quando a inteligência da fé olha um tema à luz de Maria, coloca-se no centro mais íntimo da verdade cristã... Ela é a figura da Igreja à escuta da Palavra de Deus que nela Se fez carne. Maria é também símbolo da abertura a Deus e aos outros; escuta ativa, que interioriza, assimila, na qual a Palavra se torna forma de vida.” (nº 27).

Realmente, torna-se importante aprofundar a visão bíblica da Maria, para que possamos haurir alimento para as nossas vidas cristãs. Quando a figura de Maria é tratada dentro da ótica bíblica, não se torna empecilho para a caminhada ecumênica, muito pelo contrário, torna-se uma riqueza para os discípulos de Jesus, seja qual for a sua adesão confissional. É só lembrar que frases tradicionais referentes à Maria são tiradas do Evangelho: “Ave Maria”, “Cheia de graça”, “O Senhor está convosco” “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do vosso ventre” (Lc 1). É quando muitos católicos, por falta de uma formação sadia bíblica e mariana, e com uma catequese inadequada, substituem essa visão do Evangelho e reduzem Maria a uma figura mítica, milagreira e sentimental, que os problemas se aumentam, especialmente quando fomentados por uma compreensão errada da doutrina católica mariana por parte de adeptos de outros grupos religiosos.

1. Qual é a imagem de Maria que eu tenho na minha espiritualidade mariana?

2. Tenho clara a ligação entre a minha devoção mariana preferida e a figura de Maria, como apresentada na Bíblia?

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Segunda Reflexão: Lc 11, 27-28

Na organização da sua obra (Lc/At), Lucas divide a história em três etapas : o tempo do Pai, o do Filho e o do Espírito Santo. Ou seja, da Antiga Aliança, de Jesus e da Igreja. Chama a atenção o fato que a única pessoa presente nas três etapas é Maria!

Ele apresenta Maria como “peregrina na fé”. Assim está na mesma linha do Concílio Vaticano II, que no seu documento sobre a Igreja, inseriu um capítulo sobre Maria, Mãe de Deus, no Mistério de Cristo e da Igreja. Assim, Maria pode nos animar na nossa caminhada de fé, pois, Ela trilhava o mesmo caminho, entre certezas, dúvidas, alegrias e tristezas.

A maioria dos textos marianos de Lucas se encontram nos primeiros dois capítulos do Evangelho. Lucas quer salientar a passagem do Antigo para o Novo Testamento, e por isso põe em relevo, de um lado, as figuras de Zacarias, Isabel e João (e Simeão e Ana); e, do outro, José, Maria e Jesus. A Antiga Aliança cumpriu com o seu dever - agora é a vez da Nova, encarnada nas personagens da Sagrada Família.

Lucas quer destacar o contraste entre as duas alianças, na comparação das “anunciações” a Zacarias e a Maria, que tem a mesma estrutura literária. Uma é feita no Templo a um sacerdote da Antiga Aliança, que não consegue acreditar. A outra em um lugarejo escondido, a uma moça simples, que acredita na palavra do anjo. Assim, de uma só vez, Lucas relembra as esperanças e a espiritualidade dos “pobres de Javé”, destaca que a partir de agora qualquer lugar - e não só o espaço sagrado do Templo - serve para o encontro com Deus, e em Maria recorda a figura da “Filha de Sião”, personificação dos desejos dos pobres de Deus, conforme o profeta Zacarias” ( Zc 9, 9).

Assim, com o cumprimento “Alegra-te”, o anjo coloca Maria dentro da história do seu povo, sofrido, mas, sustentado pela fé. Ela é “cheia de graça”- quer dizer ela é a “agraciada” de Deus, que livremente escolheu Maria para a sua missão. O termo “O Senhor está com você” foi usado diversas vezes no Antigo Testamento para indicar a presença de Deus junto à pessoa enviada em missão. Então, a frase de Gabriel salienta que Maria é gratuitamente escolhida por Deus para um envio, e que não será abandonada na sua missão.

É importante sempre lembrar que os textos evangélicos não pretendem ser biografia de Jesus e/ou Maria (embora possam conter fatos biográficos), nem reportagem sobre como os fatos de desenrolaram. Os textos são “Boa Notícia”, ou seja, não devemos nos preocupar demais em perguntar se os pormenores realmente se deram assim, mas, em primeiro lugar tentar descobrir onde está a Boa Notícia para nós hoje, nos textos. Somos convidados a descobrir uma Boa Notícia para a atualidade na história da Anunciação e não entender o relato como se fosse relatório sobre como tudo aconteceu. Pois, algo semelhante à experiência da Maria, transmitida através do esquema de “anunciação”, se pode dizer de todos nós. Nós fomos chamados à graça batismal e à vida religiosa, não por mérito nosso, mas, pela “graça” de Deus. Por isso, podemos alegrarmo-nos e prosseguir o caminho confiantes, pois Deus estará conosco, para nos dar força, como foi na vida de Maria.

Interessante a objeção de Maria: “como vai acontecer isso”? Ela não tem clareza sobre o que está acontecendo, nem sobre a sua missão. Até nisso Ela se assemelha a nós, que tantas vezes ficamos perplexos diante dos acontecimentos na concretização e vivência da nossa missão. Aliás, Lucas faz questão de ressaltar o fato que Maria nem sempre tinha clareza sobre as coisas (Lc 1, 34; 2, 19; 2, 33; 2, 50) - uma Maria que tivesse absoluta certeza sobre tudo, teria muito pouco a ensinar a nós, que enfrentamos tantas dificuldades e dúvidas na vida diária.

1. Vejo Maria como peregrina na fé, muito semelhante a nós?

2. A visão de Lucas, que ressalta que Maria não tinha clareza sobre tudo, me ajuda na minha caminhada?

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Terceira Reflexão

Leitura do Texto Bíblico: Lc 1, 26-34

Introdução:

No texto da anunciação, podemos entender que Lucas apresenta Maria como quem assume a identidade e missão como “Serva do Senhor”: “Eis a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1, 38). Esse termo “Serva do Senhor” ultrapassa em muito a simples questão de “servir” – nos recorda a riqueza de muitos textos do Antigo Testamento, especialmente, mas, não somente, como expressado no Quatro Cantos do Servo do Senhor, de Deutero-Isaías. (Seria de grande valor reler esses 4 cantos – Is 42, -9; 49, 1-9a; 50, 4-11 e 52,13-53, 12- e verificar as características da pessoa e da missão do Servo).

Mas, muitas vezes usava-se esta frase para mostrar uma Maria passiva, quase apática, sem dinamismo, - e por conseguinte para reforçar a visão da mulher como alguém passiva, sem iniciativa própria. Não é uma expressão de uma passividade, de uma aceitação de algo que não pode ser evitado, mas muito pelo contrário, devemos ler “Faça-se em mim” como o grito alegre de quem aceita o desafio e quer ser protagonista da realização da vontade do Senhor. Maria personifica toda(o) religiosa(o) que assume a missão de ser protagonista da construção de um mundo novo de justiça e solidariedade, partilhando a luta do povo. Nem sempre é claro o caminho a seguir, mas, Maria nos dá o exemplo de quem, - embora não entenda tudo com toda a clareza – em uma atitude de fé e entrega, aceita alegremente o desafio lançado por Deus e grita com entusiasmo: “Faça-se em mim segundo a tua palavra”! Este projeto de Deus ficará expressado mais claramente no Magnificat.

1. A visão da Maria que recebi na minha formação religiosa destacava-a como passiva ou como protagonista do projeto de Deus?

2. Como é que a espiritualidade mariana pode estimular a melhor valorização da mulher, sua pessoa e sua missão dentro da Igreja?

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QUARTA REFLEXÃO

Texto de Introdução:

Leitura do Texto Bíblico: Lc 1, 35-48

Frequentemente uma exegese e/ou catequese inadequadas tem reduzido o texto da Visitação (Lc 1, 39-45) a um texto cuja finalidade é demonstrar a bondade da Maria, solidária com a idosa grávida, Isabel. Isso empobrece muito o texto bem como desvia o sentido que Lucas quer dar a esses versículos. A figura de Maria fica reduzida a alguém serviçal, que só queria ajudar a gestante. Mas, uma leitura atenta nos mostra que, no texto, Maria deixa a casa da Isabel e volta à Galiléia antes do nascimento de João. Nem esperou o nenê nascer! Pois, o sentido do texto não é destacar a bondade de Maria, embora disso ninguém duvide! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.

O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo, no Antigo Testamento: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo. Valeria a pena retomar e aprofundar essas referências veterotestamentárias!

Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou.” Maria é bendita em primeiro lugar, não pela sua maternidade, mas pela fé - em contraste com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Lucas nos apresenta a mãe do Senhor como modelo de fé para todos nós! Benditos somos nós, se realmente acreditarmos na Palavra de Deus!

- Qual foi a explicação da Visitação que você assimilou na sua formação religiosa?

- Estamos conscientes da importância das referências provenientes do Antigo Testamento, em nossa leitura dos Evangelhos?

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QUINTA REFXÃO

Texto de Introdução:

Leitura do Texto Bíblico: Lc 1, 39-45

O Magnificat, obviamente, não é uma gravação feita por Lucas de uma oração pronunciada por Maria. Antes é a releitura do Canto da Ana, de 1Sm 2, expressão da espiritualidade de tantas mulheres - e outras humilhadas - do Antigo Testamento. Colocando-nos no ambiente dessas mulheres e humilhadas(os) – pois, sem isso é impossível rezar o Magnificat - vale a pena rezar o hino, frase por frase.

É um constante na espiritualidade bíblica o grito de ação de graças ao Deus Libertador, feito pelos pobres e sofridos. Por tão incrível que pareça, eles sentem e experimentam a ação libertadora de Deus, o Deus dos pobres. O opressor jamais poderia rezar assim, pelo menos, não com sinceridade. Cumpre perguntar-me: - eu realmente tenho experimentado a ação de Deus na minha vida, que me leva a não poder calar-me, sem expressar a minha alegria profunda interior? A minha vida de seguimento de Jesus me causa a rezar assim? O que me motiva hoje a agradecer e louvar o Senhor? Esta oração realmente brota da minha experiência?

É interessante verificar as categorias contempladas nessas palavras de Maria. De um lado, os soberbos, poderosos e ricos - basicamente os mesmos, pois, a riqueza dá poder que leva à soberba! É só verificar a nossa sociedade hoje! Do outro lado, os humildes e famintos - os desprezados por esta mesma sociedade. E como é fácil que nós, da Vida Religiosa, caiamos nas ciladas da sociedade vigente - valorizando os “bons”, nos olhos da ideologia dominante, os ricos e poderosos, que até podem nos lisonjear e ajudar financeiramente, enquanto na prática - nunca na teoria - desprezamos os humildes e pobres. Os valores de Deus não são os do mundo!

Mas, perguntemo-nos: olhando para este mundo real, - será que isso realmente acontece?? De fato Deus derruba os poderosos e eleva os humildes? Não é fácil ver isso na realidade - somente quem tem olhos de fé pode ainda acreditar. Realmente só pode rezar o Magnificat com sinceridade e sem hipocrisia quem se compromete na prática com a luta pela libertação dos sofredores. Para quem não o faz, rezar o Magnificat seria o cúmulo de hipocrisia!

Podemos dizer que o Magnificiat resume o projeto de vida de Maria como Lc 4, 16-21 resume o de Jesus. É um programa real e concreto de continuar a luta para que “todos tenham a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10). A verdadeira devoção mariana só acontece na medida que nós nos comprometamos com este projeto de vida, baseado na nossa fé em Deus libertador, o único Deus verdadeiro bíblico, o Deus de Jesus Cristo e de Maria. Longe de nós um devocionalismo anémico, sem consistência, que faz de Maria uma pessoa passiva, desencarnada. Maria, peregrina de fé em Lucas, é a mulher forte do Antigo Testamento, cheia do Espírito Santo, que arde nela como fogo, e que a leva a dedicar a sua vida em favor do projeto de libertação dos oprimidos, - a única “verdadeira devoção” mariana.

Como eu tenho experimentado “as maravilhas do Senhor” na minha vida e apostolado?

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SEXTA REFLEXÃO

Texto de Introdução:

Leitura do Texto Bíblico: Jo 2, 1-12

Embora seja o Evangelho de Lucas que dê mais espaço aos textos referentes à Maria, o Evangelho do Discípulo Amado também tem grande importância nesse assunto. A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a sua missão. (Embora algumas bíblias traduzam o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais correta é: “Sinal”). O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná (2, 1-12). Como quase todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, em uma caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.

Jesus começa o anúncio do Reino durante uma festa de casamento. Na Bíblia, o casamento simboliza a aliança de Deus com seu povo. Os profetas usaram muitas vezes essa imagem para falar do amor mútuo entre Deus e Israel. A Mãe de Jesus estava na festa. É de notar que, no Quarto Evangelho, Ela aparece somente duas vezes – nas bodas de Caná e ao pé da cruz em 19, 25-27, ou seja, se torna presente no primeiro sinal revelador da identidade e missão de Jesus e no Último e Grande Sinal – a Cruz! Discípula fiel!

Frequentemente a nossa catequese tem reduzido a atitude da Maria a um desejo de evitar que os noivos passassem vergonha pela falta do vinho – essencial em uma festa judaica da época! Isso perde totalmente o sentido da visão de Maria que o texto quer nos dar. É só olhar mais de perto o diálogo entre mãe e filho e entre Maria e os empregados. Em si, a frase que Maria dirige a Jesus “Eles não têm mais vinho” parece uma simples constatação, mas, na verdade, no contexto é um pedido para que Jesus faça algo. A sua resposta “mulher, que tem isso a ver conosco?” parece esconder uma clara recusa de agir, e até o texto explica porque: “a minha hora não chegou”. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição.

A subsequente atitude de Maria apresenta-A como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a sua expectativa e a visão d’Ele, ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar nele. Fala aos empregados “Façam tudo o que ele lhes disser”. Embora tudo indique que ele vai disser nada, Maria afirma que é para obedecê-lo, pois o que disser, seja o que for, será somente o correto, a vontade do Pai. Com essa atitude ela não somente se demonstra fiel discípula, mas, leva outras pessoas a agir assim, tornando-se exemplo de fiel missionária de Jesus. E nos dá a atitude fundamental da nossa vida cristã: Façam tudo o que Ele lhes disser.

Casamento sem vinho representava a religião sem a alegria, por causa do ritualismo e legalismo. Qual é o “vinho” que ainda falta na nossa Vida Religiosa Consagrada hoje?

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SÉTIMA REFLEXÃO

Texto de Introdução:

Jo 19, 25-27

O Quarto Evangelho nos apresenta a pessoa de Maria dentro do contexto dos sinais – o primeiro em Caná (o primeiro sinal) e depois ao pé da Cruz (que é o Grande Sinal da identidade e missão de Jesus). Neste último texto, mais uma vez devemos notar que o autor nunca usa o nome da Maria, como não fez no relato de Caná, assim demonstrando que não quer que fiquemos presos em uma imaginação literalista dos textos, mas indicando uma missão mais ampla para Maria, dentro do contexto da comunidade dos discípulos/as do Senhor. De fato, ambos os textos devem ser lidos no contexto teológico do Quarto Evangelho, (os Sinóticos desconhecem a presença da mão junto à cruz!) que usa muita simbologia – para levar os leitores a uma compreensão mais profunda do sentido dos versículos. Neste texto de Jo 19, 25-27 o autor não quer que fiquemos presos em uma leitura emotiva e sentimental do escrito, como se o assunto era os cuidados do Jesus agonizante para que alguém cuidasse da sua mãe viúva. Aqui, o Discípulo Amado (que aqui representa a Igreja, Discípula Amada de Jesus) recebe a mãe do Senhor como a mãe da comunidade. A mãe que era discípula agora tem a missão de ser mãe da comunidade inteira dos discípulos/as. A frase “o discípulo a recebeu em sua casa” não se refere em primeiro lugar a um lugar de abrigo e moradia, mas “a recebeu dentro da sua vivência”. Desse momento em diante, a Igreja recebeu a Mãe do Senhor como Mãe da Igreja. Não se pode entender a Igreja sem a figura e missão de Maria e nem a Maria fora do contexto da Igreja, Discípula Amada do Senhor, como deixou bem claro o documento Lumen Gentium, sobre a Igreja, de Vaticano II.

- Costumo ler o Quarto Evangelho com as suas chaves de leitura próprias, como simbologia, por exemplo, ou como se fosse igual aos Sinóticos?

- O que significa para mim chamar Maria “Mãe da Igreja”?

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TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (30.04.17)

 

Lc 24, 13-35

 

“Reconheceram Jesus quando Ele repartiu o pão”

 

Talvez um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús. Nas figuras dos discípulos temos um retrato das comunidades lucanas pelo ano 85 - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado. Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário, estão caminhando na vida contando com a presença do Senhor que venceu a morte.

 

Esta história pode nos ajudar bastante hoje, pois retrata a situação de muitos cristãos e comunidades nos tempos atuais – acreditam em Jesus intelectualmente, mas, não vibram com a presença d’Ele no meio de nós; reduzem a fé a uma adesão intelectual aos dogmas, sem que seja algo que dê sentido à vida e à caminhada; limitam o seguimento de Jesus à uma séria de práticas e leis morais, mas, sem qualquer vigor missionário. O nosso texto nos ajudará a ver como a Palavra de Deus na Bíblia pode nos ajudar a interpretar a nossa realidade para que, em lugar de perder o ânimo, nos tornemos vibrantes discípulos-missionários/as do Senhor. Jesus é o mestre da Bíblia e aqui ele demonstra como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e reforçar a coragem na nossa missão de evangelizadores.

 

O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:

 

O Primeiro ato: vv. 13-19ª: “Introdução”

 

O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós seria o dia da Ressurreição, mas, para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”. Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade para sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando para a sua casa, desiludidos, decepcionados e sem perspectivas. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem esperança.

 

Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas! E o outro? O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19, 25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos era o casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas é uma hipótese agradável e possível. Pois, sendo assim, a descoberta da presença do Ressuscitado dar-se-á no lar e não em uma hospedaria anônima. Seria bem de acordo com a valorização na obra de Lucas da Igreja Doméstica, a Igreja que se reunia nas casas, como tantas Igrejas vivas de hoje.

 

De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver – mas, tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar como Jesus se comporta, através dos verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas. Ele criou um ambiente de fraternidade onde fosse possível explicar tanto a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância! Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e irmãs! Por isso mesmo, muitas vezes não têm efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.

 

O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andam discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, Ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois, conforme eles a experimentam, mesmo com análise equivocada.

 

Segundo Ato: vv 19b -24: “Os Discípulos Falam”

 

Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “nós esperávamos que Ele fosse o libertador de Israel” (v. 21). Eles “esperavam”, portanto, não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus, pois, todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os seus sentimentos vão muito além de uma simples tristeza! Algo semelhante marca muita gente e muitas comunidades hoje – esperávamos um governo em favor do povo, e recebemos um golpe em favor da elite, agronegócio e lucro desenfreado! Esperávamos uma Igreja com os traços de Vaticano II e Medellín e em muitos lugares instalou-se uma Igreja clericalista, fechada em si, devocionalista, alienada e alienante, apesar de tantas comunidades comprometidas e o exemplo e os apelos do profeta de hoje, o Papa Francisco! É tentador – mas errado! – concluir que é melhor abandonar a luta e cultivar a resignação e a passividade, como foi a tentação dos dois discípulos.

 

É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi que matou Jesus - não foi o povo, mas, grupos de interesse bem definidos: “Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram” (v. 20). Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer ou a algo desejado pelo Pai, é necessário examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas. Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes do partido aristocrático e conservador dos saduceus, que dominava o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e profetismo de Jesus. Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do Sinédrio, o órgão do governo interno do povo judaico de Palestina, na maioria pertencente ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), colaboradores com o poder romano, lucrando bastante com isso. Então Jesus foi morto não por acaso, mas para defender os privilégios da elite dominante! A cruz era a consequência lógica da vida de Jesus, da sua mensagem e atuação, que ameaçavam os privilégios das elites!

 

Outro elemento importante é o fato de que os dois sabiam do túmulo vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história das mulheres. Mas, isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que a nossa fé não se baseia num túmulo vazio! É a nossa fé na Ressurreição que explica porque o túmulo estava vazio e não o túmulo que dá consistência à nossa fé!

 

Terceiro Ato: vv25-27: A Bíblia

 

Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois, eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam muito bem os salmos e as profecias. O seu problema era que, embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então, Jesus “explica” as escrituras - isso é, ele não dá uma aula de exegese, mas faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a realidade deles com a Palavra de Deus!

 

Quarto Ato: vv 28-32: A Partilha

 

Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na sua casa, no aconchego do seu lar, e não em uma hospedaria, como normalmente a gente supõe. Aqui temos o ponto central da história – pois, até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas, agora sim. Jesus se põe à mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles” (v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31). Neste mesmo momento Jesus desaparece da frente deles! Por que? Porque, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física.

 

Agora eles caem dentro de si e reconhecem que: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (v. 32). A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas, para “abrir os olhos” é necessária também a experiência de comunidade, de celebração , de partilha!

 

Quinto Ato: vv 33-36: A Missão

 

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de vida: discipulado e missão. Os mesmos dois que de manhã fugiam de Jerusalém, pois, era o lugar da morte, da perseguição e do fracasso, de tarde se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas, mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. A história que começou com a comunidade se desintegrando termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois os discípulos puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34). E os dois de Emaús puderam contar “o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 36).

 

Esta história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais - a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade. É na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna: “Lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl 95, 7)

 

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SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (23.04.17)

 

Jo 20, 19-31

 

“A Paz Esteja Com Vocês”

 

No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena traz a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas, somente a alegria e a paz que Ele já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos – “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir – embora de uma maneira inadequada – o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. O SHALOM pode ser definido como “o bem-estar total para todos/as” - é tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Tem muitas conotações de justiça social. Como disse o saudoso Papa Paulo VI, “A justiça é o novo nome da paz!” Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino. Promete o shalom, pois, Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.

 

Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão, quando infundiu nele o espírito de vida. Jesus os recria com o Espírito Santo. Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, mas, aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

 

Mais uma vez, em um domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase sobre o Domingo – duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé no Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim, nos representa, também, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras: “Felizes os que acreditaram sem ter visto!” Essa muitas vezes será a realidade da nossa fé – acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vão nos dar essa firmeza.

 

Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo – Jesus é Senhor e Deus!

 

Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho original terminava. (O Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora ele repete essa afirmação e abençoa todos os que a aceitam, baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada – mostrar a divindade de Jesus para que, acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

 

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DOMINGO DE PÁSCOA (16.04.17)

 

Jo 20, 1-9

 

“Ele viu e acreditou”

 

Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Mas, certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), e de que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição – e a Igreja sofre até hoje as consequências.

 

Lendo os relatos, um fato salta aos olhos – ninguém esperava a Ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos os Doze traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem pensar!

 

No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!

 

Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!

 

Hoje, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, salários minguados, aposentadorias (dos trabalhadores, claro, não da elite!) ameaçadas, saúde e educação sucateadas, sem falar de desastres naturais! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Nós todos somos discípulos amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8), mas, será que somos discípulos amantes? Será que amamos a Jesus e ao próximo? Lembramos que o ágape, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).

 

Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas!

 

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DOMINGO DE RAMOS (09.04.17)

 

Mt 21, 1-12; Mt 26, 14 – 27, 66

 

Bendito aquele que vem em nome do Senhor!

 

Neste primeiro dia da Semana Santa, com certeza não há comunidade católica no Brasil que não celebre, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém. Organizam-se procissões e encenações, e quase todos fazem questão de levar alguns ramos bentos para a casa.

 

Porém, é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando em v. 5 cita o profeta Zacarias. Pois, Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9, 9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois, capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia numa situação de grande opressão e pobreza, quando Palestina e o seu povo eram dominados pelo Império Grego, depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido, manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada de um Messias, que teria três grandes características: seria rei (9, 9-10), bom pastor (11, 4-17) e “transpassado” (12, 9-14). Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém; era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé. Era gesto profético de esperança, algo tão necessário no ministério das Igrejas hoje, infelizmente muito marcadas pela ameaça, frequentemente com mais ênfase sobre o mal do que sobre o bem, de uma suposta dominação de “demônios” e não pela certeza da vitória da graça e da redenção.

 

Mas, o rei proclamado por Zacarias e concretizado em Jesus era bem diferente dos reis dos países de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei previsto por Zacarias iria entrar em Jerusalém montado em um jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois, o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas, de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois, agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9, 9).

 

A entrada em Jerusalém de Jesus era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas, do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, e uma reviravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressores dos Reinos mundanos, a celebração de Javé, o libertador, que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (Êx 3, 7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve nos levar a um cumpromisso maior com a construção de um mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que é o triunfo da fraqueza de Deus, da Cruz, do projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25). Cuidemos de não transformar a celebração litúrgica em folclore, centada na figura do padre, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino: “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e por isso não creram n’Ele e mataram o Salvador”.

 

A celebração de Domingo de Ramos é realmente uma das vitórias, mas, da vitória que vem de fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus, até a Cruz e à Ressurreição. Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus – reacender a esperança dos excluídos, marginalizados, pobres e oprimidos, assumindo cada vez mais ações concretas na busca da construção da “Terra Sem Males”. Um desafio muito grande para quem tem qualquer ministério nas Igrejas, ordenado ou não, pois o nosso modelo – como o Papa Francisco nunca cansa de nos lembrar - é o “anti-rei”, Jesus de Nazaré, e não as autoridades pomposas deste mundo.

 

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QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (02.04.17)

 

Jo 11, 1-45

 

“Eu sou a Ressurreição e a Vida”

 

Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão literária e teológica deste Evangelho. Nele, os primeiros onze capítulos formam que é normalmente intitulado “O Livros dos Sinais”, ou seja, relatam sete sinais (tradução melhor do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná (2, 1-11), a cura do filho de um funcionário real (4, 46-54), a cura do paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães (6, 1-15), caminhar sobre as águas (6, 16-21), a cura do cego de nascença (9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro (11, 1-45), o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação para Capítulos 13-20, o Livro da Glorificação.

 

Nos desafiam a ir por trás das palavras e imagens, ou seja, não parar no visível, mas descobrir o que sinalizam sobre a pessoa e missão de Jesus – portanto, a nossa missão também. Assim, devemos sempre ter presente que o relato de um sinal sempre quer revelar algo sobre Jesus. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre a não ser que já se tem a fé em Jesus, os sinais em João revelam uma verdade sobre Jesus e levam as pessoas a aprofundar a sua fé n’Ele. Assim, no texto de hoje, não devemos centralizarmo-nos sobre a pessoa de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas, descobrir o que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através do texto.

 

Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos 21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo, mas, rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição e a Vida acontece através da fé n’Ele, o Enviado de Deus, que veio para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse (Jo 10, 10-11). Vale notar que, no Evangelho de João, a primeira pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher, Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição e Vida (11, 25-27).

 

Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria vida. Pois, o relato de João enfatiza que Ele dará a sua vida para que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase famosa: “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe não acontece sem que Ele se esbarre contra os interesses dos poderosos da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-O. É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga me” (Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra tudo que é de morte, de dominação, de exploração, de exclusão.

 

Notemos que, no fim da história, Lázaro é desatado dos panos e sudário – pois Ele vai precisá-los de novo, pois ainda passará pela morte! A Ressurreição de Jesus, que logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio, eles veem o sudário e os panos no chão – pois Jesus não foi simplesmente ressuscitado, mas passou pela Ressurreição, para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura o que aconteceria com Jesus de uma maneira mais definitiva, e por conseguinte, a todos nós. Que a nossa fé n’Aquele que é “a Ressurreição e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena” nos leve, não à religião intimista e individualista, sem maiores consequências na vida comunitária, social, política e econômica, mas, a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, como nos lembra o tema do programa catequético-bíblico da CNBB nestes quatro anos: “Para que n’Ele nossos povos tenham vida”, o que implica levar a sério a Campanha da Fraternidade deste ano, em defesa dos biomas brasileiros (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pantanal, Pampa), elementos essenciais para uma vida plena.

 

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QUARTO DOMINGO DE QUARESMA (26.03.17)

 

Jo 9, 1-41

 

“Eu sou a luz do mundo”

 

Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto de hoje é novamente um texto comprido, um capítulo inteiro, tirado do Evangelho de João. Como no Domingo passado (a Samaritana), encontramos novamente traços característicos do Quarto Evangelho - o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos, de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade joanina que Jesus era “a luz do mundo” (v. 5).

 

O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura de um cego declaradamente de nascença. S. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original, e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego curado simbolizaria todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.

 

Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura - Silóe, que significa “enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal, João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus - O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o batismo.

 

Analisando as etapas da história, podemos encontrar uma progressão na fé do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus, ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, o enviado de Deus.

 

A história reflete algo da situação da comunidade joanina pelo fim do primeiro século. Na verdade, no tempo de Jesus, ninguém era expulso da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após 85 a.C. com a reconstituição do judaísmo após a destruição de Jerusalém através do esforço feito por um grupo de doutores de Lei para reorganizar o povo através da fidelidade à Lei e à sua interpretação farisaica. Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição e a expulsão, situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luz da vida, a vida plena em Jesus.

 

O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a situação deles é muito pior - não é que não possam ver, é que não querem ver! A história iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não é causada pelo pecado (v. 3). Termina afirmando que a cegueira pior, a espiritual, realmente é consequência do pecado. A missão de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que estão cegos, mas, que chegam à fé, são curados e recebem a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de ser os esclarecidos se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos, mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.

 

Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença diante da situação do nosso planeta, sendo lentamente destruído em nome de um pretenso progresso, tema tocado este ano pela Campanha de Fraternidade, que na verdade não é mais do que a busca desenfreada de lucro para uma elite. Como podemos continuar a ignorar o escândalo do tráfico humano em todos os sentidos? Quantas vezes a fé em Jesus é proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento d’Aquele que é “Luz do mundo”. O nosso encontro com o Enviado tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência da mística do seguimento d’Ele, continuando a missão de Jesus que disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.

 

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TERCEIRO DOMINGO DE QUARESMA (19.03.14)

 

Jo 4, 5-42

 

“Aquele que beber desta água que eu vou dar, esse nunca mais terá sede”

 

O texto de hoje, quase um capítulo inteiro, é tirado do Quarto Evangelho, e portanto, tem que ser interpretado levando em conta as características do Evangelho de João - entre eles, o uso de símbolos (pessoas, eventos, coisas e números) e de “mal-entendidos” para dar oportunidade para uma explicação mais profunda sobre a pessoa e missão de Jesus. O capítulo é tão denso, que é impossível fazer jus ao seu conteúdo em uma curta reflexão.

 

O relato vem da Comunidade do Discípulo Amado, onde certamente havia muitos samaritanos, vistos como impuros pelo judaísmo oficial. Embora os Sinóticos desconheçam qualquer ministério de Jesus entre os samaritanos, a Samaria foi palco de um dos primeiros trabalhos missionários da Igreja primitiva (At 1, 8; 8, 1-25). Os samaritanos eram descendentes da mistura entre os Israelitas do Reino do Norte e os migrantes pagãos, que foram levados à Samaria pelos Assírios, depois da queda do Reino de Israel em 721 a.C. O segundo livro dos Reis conta que os Assírios deportaram uma grande parte da população de Israel e levaram para lá gente de cinco nações pagãs (2Rs 17, 1-6. 24-41). Essas pessoas trouxeram a sua religião original, mas, também adotaram o Javismo como culto “ao Deus da terra”, formando assim uma religião com fortes traços de sincretismo. Os samaritanos aceitaram somente os cinco livros da Lei, rejeitando os profetas e toda a ênfase sobre o Templo de Jerusalém. Isso causou muito conflito com os Judeus, e no século antes de Jesus, o Sumo Sacerdote de Jerusalém destruiu duas vezes o seu Templo no Monte Gazirim. Esse contexto histórico é essencial para entender o diálogo de Jesus com a mulher sobre os seus “cinco maridos”. Eles simbolizam os cinco Deuses dos povos que colonizaram Samaria e “aquele que você tem agora que não é seu marido” é o Javismo sincretista dos samaritanos, pois “marido” é um símbolo profético para indicar Javé na sua relação com a sua esposa, o povo de Israel.

 

O diálogo segue a técnica típica joanina do ‘mal-entendido” (o diálogo com Nicodemos também). Falando da água, a mulher entende somente água natural; mas, Jesus se refere à sua revelação divina e ao Espírito Santo, água viva que será dada a quem aceita Jesus. Pode-se entendê-lo também como símbolo da água do batismo, que confere o Espírito Santo, e que é “uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (v. 14).

 

No debate sobre o local de adoração de Deus, Jesus demonstra que no Novo Israel (a Igreja) a localidade não importa, porque o culto nascerá do Espírito de Verdade. Diante dessa nova revelação, outros debates casuísticos perdem o seu sentido! Uma lição para hoje, quando perdemos tempo discutindo inutilmente se se deve cultuar Deus no sábado ou no domingo, deste ou daquele jeito! Frequentemente partimos do que nos divide, muitas vezes coisas absolutamente secundárias, em lugar de olhar ao que nos une.

 

A mulher samaritana, diante do encontro com Jesus, torna-se missionária do seu próprio povo. A evangelizada torna-se evangelizadora. Não é possível encontrarmo-nos com a Vida Nova em Jesus sem que nos tornemos missionários - não proselitistas, angariando adeptos para a nossa confissão religiosa, mas missionários, alastrando a mensagem do Reino de Deus entre nós, na construção de um mundo onde todos “tenham a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10).

 

É importante não reduzir este texto a uma leitura moralizante - como se a mulher fosse de má fama, e agora se convertesse para uma vida regular! É muito mais profundo. Quem faz a experiência de intimidade com Jesus, a encarnação do Deus da vida, necessariamente entra em um processo de conversão, no seguimento do Mestre, e torna-se missionário da Boa Nova. Nunca cansemos nessa busca da água viva, pois só ela pode nos satisfazer. Peçamos com a mulher: “Senhor, dá-nos essa água para que eu não tenha mais sede”.

 

O texto mostra bem como a proposta de Jesus para os seus seguidores é inclusiva - a mulher representa os que são excluídos, por motivo de pobreza, gênero, raça ou religião. Jesus não aceita a exclusão de quem quer que seja. Até os discípulos se chocaram quando encontraram Jesus dialogando com a mulher, pois, as cabeças deles ainda trabalhavam com os conceitos de “puro e impuro”, de “eles e nós”. Jesus veio para acabar com essas divisões, muitas vezes criadas em nome da religião e de Deus, com consequencias desastrosas. O contato com a fonte de água viva nos impulsiona para a criação de comunidades alternativas, baseadas na vivência de solidariedade, paz e justiça, na dinâmica do Reino de Deus.

 

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SEGUNDO DOMINGO DE QUARESMA (12.03.17)

 

Mt 17, 1-13

 

“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada”

 

Esse trecho vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Mt 16, 24). Começando a passagem com as palavras “seis dias depois”, Mateus quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz.

 

Neste momento, Jesus “subiu à montanha” (v. 1), e aparecem Moisés e Elias. Talvez para nós a identidade dos dois personagens não tenha tanta importância - eram duas figuras destacadas do Antigo Testamento, mas poderia ser Davi, Isaac, Jeremias ou qualquer outro duplo. Mas, não era assim para os destinatários do Evangelho de Mateus. Moisés era considerado como o patrono da Torá, da Lei e Elias era visto como o pai do profetismo. Assim, Mateus quer mostrar que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo - Mateus aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser reivindicado por Deus. E Pedro faz uma sugestão descabida: “Senhor, é bom ficarmos aqui. Se queres, vou fazer aqui três tendas: uma para Ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 4). Claro, era bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não iria querer? Mas, não era uma sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, Jesus estava sozinho, e “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que pudesse ser ficar no Monte Tabor (a tradicional identificação da montanha do texto), era preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz! Quem sabe, talvez a força da experiência do Tabor tenha dado a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do Calvário!

 

Podemos assim concluir que todos nós devemos subir Monte Tabor para sermos transfigurados e para depois descermos para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs! Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Mas, estas experiências não são “intimistas” - nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo d’Ele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).

 

Também este trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração, pois se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência - por isso busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação, - mas, sempre, para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos! Para os nossos momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, que muito me agrada. Escutem o que ele diz!” (v. 5). É a mesma orientação da Mãe do Senhor na história das Bodas de Caná quando ela diz aos serventes: “Façam tudo o que Ele lhes disser” (Jo 2, 5). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!

 

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PRIMEIRO DOMINGO DE QUARESMA (05.03.17)

 

Mt 4, 1-11

 

“Não só de pão vive o homem”

 

Os três Sinóticos (Mt, Mc e Lc) relatam a história das tentações de Jesus, logo depois do Batismo - Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas de uma maneira mais elaborada. Devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência interior de Jesus, e não devem ser interpretados ao pé da letra, de uma maneira fundamentalista. Ligando as tentações ao batismo de Jesus, os evangelistas mostram que a experiência d’Ele é como a nossa própria experiência - nós também temos compromisso com o projeto de Deus, individual e comunitariamente; mas entre o nosso compromisso e a sua concretização de uma maneira coerente com a vida de discípulos/missionários/as de Jesus, existem muitas tentações e opções que exigem discernimento!

 

O texto diz que Jesus era “conduzido pelo Espírito ao do deserto” (v. 1). O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas, O acompanha nas tentações. E como o Espírito Santo não O abandonou no momento de crise, mas, lhe dava força, tampouco vai nos abandonar nos momentos de crise e discernimento. Isso pode ser importante relembrar, pois frequentemente temos uma facilidade em sentir a presença do Espírito de Deus quando tudo vai bem conosco, e uma inclinação para sentirmo-nos até abandonados por Deus quando o caminho é difícil. Mas, o Espírito está sempre conosco, não só nos “prados e campinas verdejantes” mas também nos momentos de “deserto”.

 

O início das tentações se dá no deserto. Mateus quer evocar a experiência de Israel, pois, para ele Jesus era o Novo Moisés, e a Igreja o Novo Povo de Deus; e, podemos lembrar que no deserto, Moisés e o povo foram tentados e sucumbiram - mas, Jesus é tentado e vence! Esse paralelismo é muito importante em Mateus, cuja comunidade foi composta majoritariamente por judeu-cristãos, atacados pela liderança sinagogal como traidores da sua herança religiosa. Por isso, Mt sempre retrata a pessoa de Jesus dentro da história de Israel, não como traidor, mas como ponto alto dessa história.

 

Olhando bem as tentações, podemos encontrar nelas três grandes tentações da época pós-moderna, também para a vida cristã: as do “Ter”, do “Poder” e do “Prazer”. As tentações de Jesus não são para coisas que são más em si, mas que causariam desvios do plano do Pai. Não é diferente com a vida cristã hoje - raramente somos tentados a assumir algo mau em si, mas, sim, a fazer opções para coisas boas, mas que seriam incoerentes com o projeto de Deus para nós! A tentação vem de forma sutil, disfarçada - vale notar que nas três tentações o diabo não nega a identidade e missão de Jesus, mas, a confirma: “Se és Filho de Deus”. Também, para nós, a tentação pode se apresentar como algo que não nega a nossa identidade cristã, mas que é condizente com ela, enquanto na verdade não é. Por isso, a necessidade da “vigilância”, para não cairmos em tentação, uma advertência constante dos Evangelhos. Quaresma pode ser tempo privilegiado deste discernimento individual e comunitário.

 

Primeiro Jesus era tentado a mandar que pedras se tornassem pães. Jesus veio para doar-se como o Servo de Javé - mas, logo, no momento do primeiro sacrifício por causa da sua opção, ele é tentado a esquivar-se! É a tentação do “prazer” hoje - entre as mais comuns, em um mundo que prega a satisfação imediata dos desejos, uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Estamos em uma sociedade de individualismo, onde a regra dominante é: “se deseja, faça!” Uma sociedade onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como a ladainha dos perdedores! As consequências dessa visão são bem exploradas como temas das Campanhas da Fraternidade, inclusive a de 2017, - desde a destruição do Planeta e da vida que existe nele ao tráfico de pessoas humanas para exploração sexual. Jesus não cai na tentação - a resposta dele é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4). Jesus enfrenta essa tentação - e as outras - com citações tiradas de Dt 6-8, que versam sobre a primazia da Palavra de Deus como o alimento do seu povo na caminhada. Jesus aqui dá o verdadeiro sentido do seu jejum - Deus é o único sustento da verdadeira vida. Ele, possuído pelo Espírito de Deus, confia no seu Deus para sustentá-lo. A obediência de Jesus como Filho e Servo (Hb 5, 7-8), simbolizada pelo jejum, é agora verbalizada. Jesus confia que o seu Pai vai sustentá-lo em todos os seus sofrimentos e tribulações, provenientes de uma vida coerente com a sua vocação. Uma bela lição para nós, nos momentos difíceis da nossa caminhada cristã!

 

A pessoa humana, para Jesus, vive certamente de pão - mas, não só! Jesus não é sádico nem masoquista, contra o necessário para uma vida digna. Salienta muito bem que não é somente a posse de bens (simbolizados pelos pães) que traz a felicidade, mas, a busca de valores mais profundos, como a fidelidade à vontade de Deus, a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisamos de ambos para que tenhamos a vida plena! Com essa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade e a solução dos problemas do mundo na simples satisfação das necessidades materiais, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos - duas tendências não ausentes entre nós cristãos.

 

A segunda tentação é de confiar no poder - fazer milagre diante de milhares, para demonstrar o seu poder. A tentação do poder é tremendamente insídia em nós, na sociedade e nas Igrejas. Há mais de um século, um historiador católico inglês, Lord Acton, advertiu que “todo o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente!” Jesus veio como Servo, assumiu a missão do Servo de Javé, mas, é tentado a confiar mais no poder, no extraordinário, e não no Deus Libertador e nos pobres e humildes. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da Cruz, para “evangelizar”! Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! E continua corrente esta tentação - de confiar mais nas concentrações nos estádios cheios, com “milagres” e “prodígios”, do que nos grupos pequenos e humildes das comunidades cristãs, dirigidos por pessoas simples, sem pretensões, espalhados pelo Brasil afora! É só olhar as reações contra o Papa Francisco quando ele - nas pegadas de Jesus - prega uma Igreja despojada do poder mundano para ser Servo de Deus e da humanidade, pondo em questão a mania pelo poder que assola tantos cristãos, - e, mais perigosamente, se enraíza com facilidade dentro da hierarquia, clero, seminaristas e Vida Religiosa. O povo de Deus, que sofre com tanta prepotência das suas lideranças, que diga! Somos todos capazes de cair nesta tentação - não a de ter o poder para servir, mas, de confiar no poder deste mundo, aparentemente mais forte e eficaz do que a fraqueza de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava com força: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25) e ainda: “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor 1, 27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo, o tentador, com a frase: “Não tente o Senhor seu Deus!” (v. 7). Não é sem motivo que o Papa Francisco critica essa tendência especialmente entre candidatos para o sacerdócio e vida religiosa. Como disse, “a Vida Religiosa não é lugar para carreiristas nem alpinistas sociais!”, e, falando aos Superiores Gerais: “Não precisa ser cardeal para acreditar-se príncipe! Basta ser clerical!” Que ouçam nós padres e seminaristas!

 

A terceira tentação pode ser vista como a do “ter”. Não que o dinheiro seja algo ruim - sem ele não se vive! Torna-se um mal quando chega a ser um ídolo - a fonte de nossa autossuficiência! É ruim quando se fundamenta a vida sobre ele. Jesus não é tentado a ser um ricaço – mas, é tentado no sentido de fugir da sua vocação de ser o messias dos pobres, tão esperado pelos “anawim”, os pobres de Javé, e profetizado por Segundo-Isaías, Zacarias e Sofonias. É tentado a acreditar mais no poder da riqueza do que na pobreza dos seus futuros discípulos de Galiléia.

 

De novo, algo muito semelhante com a nossa situação atual. Nós temos que viver o nosso compromisso no mundo pós-moderno da globalização do mercado, do neoliberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, os meios da comunicação de massa trazem para dentro das nossas casas - inclusive casas religiosas - a mensagem de que é necessário “ter mais”, e não importa “ser mais!” Como sempre, a tentação vem de forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que poderão ser usados em favor da missão, garantirá uma ação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres e simples, de não seguir os passos do carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes nós somos tentados a confiar no poderio do dinheiro, como se a compra de instrumentos e aparelhos cada vez mais sofisticados garantisse a evangelização. É certo que devemos utilizar o que a ciência moderna nos providencia, mas, sem confiar nisso como o fundamento da nossa missão. Mais uma vez o Papa Francisco faz ressoar a sua voz profética quando diz: “Desejo uma Igreja pobre para os pobres” (Evangelii Gaudium 198). Jesus enfrentou essa mesma tentação - Ele que veio para ser pobre com os pobres, para manifestar o Deus que opta preferencialmente por eles, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá.” (v. 10)

 

Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. O “ter”, o “poder” e o “prazer” são coisas boas, quando utilizados conforme a vontade de Deus, mas, altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossa vida! Jesus teve que enfrentar o que nós hoje enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer ser fiel à sua vocação cristã: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá.” (v. 10)

 

O texto nos ensina que Jesus, Filho e Servo, vencerá a hostilidade à sua missão pela sua fé obediente, e libertará as pessoas dominadas pela força do mal. Mas, a tentação não era de um momento só - voltará mais vezes na vida de Jesus, como na nossa. Aparecerá de novo no caminho de Cesaréia de Filipe, no Horto das Oliveiras e especialmente na Paixão - a suprema investida do diabo! Diante das várias opções disponíveis, diante dos diversos modelos de messianismo, Jesus teve que discernir a vontade do Pai. É o desafio da vida cristã hoje.

 

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OITAVO DOMINGO COMUM (26.02.17)

Mt 6, 24-34

“Ninguém pode servir a dois senhores”

O texto nos mergulha de novo no espírito do Sermão da Montanha (Mt 5, 1 - 7, 27). Coloca os ouvintes diante da sua escolha fundamental na vida - a quem ou a que querem servir? - a Deus, vivendo os valores delineados no Sermão da Montanha, ou ao Dinheiro, (que a Bíblia TEB escreve com “D” maiúsculo), ou seja, o Dinheiro como potência que escraviza o mundo a si? Embora essa escolha seja exigência de todos os tempos e lugares, torna-se mais urgente ainda em nossa sociedade de consumo, de exclusão e de acumulação, que exclui a maioria absoluta da humanidade, condenando-a a uma vida de miséria e sofrimento. Jesus deixa bem claro que os seus discípulos/as não podem assumir esses valores consumistas e materialistas, se querem ser fiéis a Ele e ao seu projeto do Reino de Deus. Esse princípio fundamental do seguimento de Jesus é enfatizado sem rodeios pelo Papa Francisco no seu documento de novembro 2013 Evangelii Gaudium (A Alegria do Evangelho) quando na secção que trata dos desafios do mundo atual ele insiste “Não a uma economia da exclusão e da desigualdade” (nº 53), “não à nova idolatria do dinheiro” (nº 55), ‘não a um dinheiro que governa ao invés de servir” (nº 57), “não à desigualdade social que gera violência” (nº 59). Parece que hoje em dia, a tendência de alguns líderes e países é de construir muros em lugar de pontes! Há pouco anos, o Muro de Berlim era tido como vergonhoso, sinal de uma sociedade comunista decadente. Hoje, Israel e os Estados Unidos constroem muros, e são aplaudidos por muitos! Duas medidas!

Como consequência desse princípio, Jesus continua: “por isso é que lhes digo: não fiquem preocupados com a vida, com o que comer; nem com o corpo, com o que vestir”. Com certeza, uma declaração que soa como estranha a quase todos nós, obrigados a lutar com insegurança para que as nossas famílias tenham o que comer e vestir. Como não se preocupar com essas coisas em um mundo de insegurança, de desemprego, de exclusão? Realmente seria no mínimo uma falta de sensibilidade proclamar aos famintos ou esfarrapados que não era para se preocuparem com a comida e a roupa. É só olhar a situação terrível de tantas famílias em tantas regiões do Brasil e do mundo hoje. Então o que quer dizer esse trecho?

Essas palavras não são convite a descuidar dessas necessidades básicas, que seria um atentado contra a vida, e, portanto, contra a proposta de Jesus. A frase deve ser entendida no contexto da situação da comunidade mateana pelo ano 85 d.C, que parece ter sido uma comunidade que tinha bastante gente próspera (p. ex., Mateus diz que são os “pobres em espírito” que são bem-aventurados, enquanto Lucas diz simplesmente “vocês, os pobres”!). O sentido do texto gira ao redor do sentido do verbo grego “meirmnao” que as nossas Bíblias traduzem como “preocupeis” (Pastoral, TEB, Jerusalém, Ave Maria). Isso, obviamente, não quer dizer não cuidar, zelar, ocuparmo-nos, mas não deixar que essas coisas nos absorvam de tal maneira que se tornem o absoluto da nossa vida. Assim, em lugar de usar essas frases para acalmar os que sofrem falta dessas necessidades da vida, esse texto implica uma denúncia de uma sociedade excludente como a nossa, que obriga a maioria das pessoas a dedicarem-se totalmente à sobrevivência, esgotando as suas forças físicas, espirituais e psicológicas na luta diária para simplesmente sobreviver nesse mundo cruel.

Seria beirando a blasfêmia usar essas frases para apaziguar os sofridos, falando chavões sobre a providência de Deus, enquanto apoiamos e nos mergulhamos nos valores materialistas da sociedade neoliberal, sem notar que essa mesma sociedade é a negação de tudo que o Sermão da Montanha ensina sobre simplicidade, solidariedade, justiça e o seguimento de Jesus. A chave da interpretação do ensinamento de hoje está em v. 33: “Procurai primeiro o Reino e a justiça de Deus, e tudo isso vos será dado por acréscimo” (trad. TEB). Pois, se criarmos um mundo ou uma comunidade que vive os valores do Reino e a justiça de Deus (não o que a sociedade considera “justiça” a partir de uma ideologia positivista que favorece os interesses da minoria dominante), então teremos solidariedade, que garantirá que todos tenham pelo menos o mínimo para ter uma vida digna dos filhos e filhas de Deus.

Então, longe de ser “pano quente”, para que possamos ignorar com tranquilidade o sofrimento e carência de tantos, o texto nos desafia para que descubramos sinceramente quais são os nossos valores, os do Evangelho ou os do consumismo. É impossível ser discípulos de Jesus sem nos interessar por uma sociedade humana que seja favorável à vida de todos. O Papa Francisco insiste em Evangelii Gaudium: “Ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social: “A conversão espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao próximo, o zelo pela justiça e pela paz, o sentido evangélico dos pobres e da pobreza são exigidos de todos”(EG 201). É uma questão vital para todos e todas que querem ser seguidores/as de Jesus, pois “onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (Mt 6, 21).

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SÉTIMO DOMINGO COMUM (19.02.17)

Mt 5, 38-48

“Sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês, que está no céu”

Na verdade, esse texto, continuando o Sermão da Montanha (Mt 5-7), continua o tema da leitura do domingo passado. Mais uma vez enfatiza que atrás de todas as nossas ações existem sentimentos, ou disposições internos. Por isso, Jesus dá o verdadeiro sentido à Lei, dizendo que o discípulo não pode se contentar em não agir mal, mas, tem que mudar a sua maneira de entender o mundo, as pessoas e as relações. Com autoridade, “Eu digo”, ele declara que não basta que os seus seguidores não ajam como o mundo age, mas que deem uma viravolta nos valores da sociedade vigente. Enquanto “olho por olho, dente por dente” era, nos tempos idos, um grande avanço sobre a lei da vingança exagerada, Jesus exige que os seus discípulos vão adiante, tirando até o desejo de vingança e retribuição, assim desarmando o mal e criando uma sociedade de novas relações. Sem dúvida, uma visão utópica; mas, utopia não é ilusão, é o ideal que nos norteia e encoraja até que finalmente, passo por passo, ela se concretize.

Esses versículos insistem que o modelo para a vida cristã e as suas atitudes não é a sociedade dominante, onde os cristãos muitas vezes se contentam em agir exatamente como os outros, dentro do que é aceitável em uma sociedade que não segue o Evangelho. É só verificar quantos cristãos apoiam as atitudes nefastas de Donald Trump, por exemplo, e comparar as suas atitudes com as de Jesus! Ele insiste aqui que ser cristão não é simplesmente ser como qualquer um (“os pagãos”), mas é ter outros valores e outra visão. E qual é o fundamento desses valores, desse modo de agir? Não é o exemplo da sociedade e do mundo, mas, o exemplo do nosso Pai. Jesus não deixa por menos: “sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu”. Obviamente nunca poderemos ser “perfeitos” como o Pai do céu, no sentido de não termos defeitos ou fraquezas. Essa frase relembra Dt 18,13 onde a Lei recomenda ao povo de Israel que seja perfeito na sua adesão ao Senhor. O Evangelho de Lucas explicita melhor ainda o sentido dessa frase quando ensina: “sejam misericordiosos, como também o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6, 36).

Sem rodeios esses versículos nos levam a examinar as nossas atitudes e ações, especialmente em relação à vingança, ao ódio, à dureza de coração, à compaixão e à misericórdia. A nossa medida nesses aspectos é a nossa sociedade, ou o nosso Pai? Se nós agimos e pensamos como qualquer outro, o que fazemos de extraordinário?

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SEXTO DOMINGO COMUM (12.02.17)

Mt 5, 17-37

“Se a justiça de vocês não superar a dos doutores da Lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu”

Quando lemos o Evangelho de Mateus, é muito importante ter em mente o contexto histórico em que foi escrito, pelos anos 85-90 do primeiro século d.C., ou da Era Comum. Depois do desastre da Primeira Guerra Judaica, culminando com a destruição de Jerusalém e do Templo (que nunca mais seria erguido, diferente da sua destruição pelos babilônios em 587 a.C.), o povo judeu e a sua religião enfrentavam a possibilidade de desaparecer para sempre. Um grupo de rabinos reorganizou o judaísmo a partir de um tipo de “Sínodo” em Jâmnia, perto da atual Tel Aviv, no ano 85. Sem Templo, sem sacerdócio, sem sacrifício, esses mestres de Lei, quase todos fariseus, reestruturaram o judaísmo, ao redor de uma identidade proveniente de uma adesão estrita à Lei, a Torá. Diante da fraqueza do judaísmo, não admitiam nenhuma divergência da sua interpretação da Lei, nenhuma dissonância diante das comunidades judaicas. Mas, no seio do judaísmo existia um grupo de discípulos/as de Jesus de Nazaré, que aceitava a Lei como autoridade, mas, com a interpretação vinda dos ensinamentos do seu mestre, Jesus. Como consequência, começou um processo de expulsão desses judeu-cristãos da comunidade da sinagoga e se tornou muito importante para eles entender a sua relação com a Lei, e o que tinha mudado com o ensinamento e exemplo de Jesus, o Mestre.

O trecho de hoje do Sermão da Montanha começa exatamente situando Jesus diante da Lei. A primeira parte enfatiza que Jesus não rejeitou a Lei; mas, veio dar a ela o seu pleno cumprimento, o seu verdadeiro sentido. Portanto, as comunidades mateanas não precisavam sentir-se como traidoras da Antiga Aliança, pois, a Lei encontrou a sua verdadeira expressão na vida, ensinamento e opções de Jesus de Nazaré.

Devemos superar uma visão errada dos fariseus que frequentemente existe entre nós, entendendo esse grupo como hipócrita (essa ideia vem da linguagem polêmica de Mt 23, que reflete mais os conflitos do tempo do escrito do que a visão de Jesus). Mas, o texto de hoje mesmo assim é contundente quando Jesus declara aos seus discípulos (e a nós hoje!): “se a justiça de vocês não superar a dos doutores da lei e fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (lembremo-nos que em Mateus “Reino do Céu” é sinônimo com “Reino de Deus”, só que tendo comunidade judaica, ele substitui o termo “Céu” por “Deus” por motivos de reverência diante do nome de Deus). Como foi a justiça dos fariseus? Era uma adesão estrita à letra da Lei. Como superar isso - ir além da letra, ao espírito da Lei, que existe para que a vida abunde. Muitas vezes a letra mata, mas o verdadeiro espírito da Lei defende e promove a vida. Infelizmente, ainda tem muita gente nas nossas Igrejas (é só ver certas resistências às atitudes pastorais do Papa, até por parte de prelados) que prefere buscar a falsa segurança da letra da lei do que a liberdade dos filhos de Deus, que uma verdadeira interpretação dela nos concede.

O texto de hoje vai ao âmago da questão. Insiste que não é o suficiente simplesmente obedecer à letra a lei, não matando, não cometendo adultério etc. O discípulo de Jesus tem que tirar a raiz dessas ações más. Pois, às vezes não se pratica uma ação má por falta de oportunidade ou medo, mas a raiz do mal está no pensamento, no coração. Por isso devemos cortar a “mão” que nos leva ao erro (mão = maneira de agir) e arrancar o “olho” errado (olho = a nossa maneira de enxergar as coisas, o nosso pensamento). Devemos cuidar com essas expressões tipicamente semíticas e, obviamente, não levar ao pé da letra.

O texto termina com um apelo em favor da criação de uma sociedade de transparência e honestidade, pois só se pode dispensar a garantia do juramento, quando não há dúvida que todos falem a verdade. O grande estadista alemão Bismarck falou que não se podia dirigir um Estado baseando-se no Sermão na Montanha - mas somos desafiados a construirmos famílias e comunidades com esses princípios, para que já comecemos a vivenciar os valores do Reino, ultrapassando a letra e vivendo o espírito da Lei, à luz de Jesus.

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QUINTO DOMINGO COMUM (05.02.17)

Mt 5, 13-16

“Vós sois o sal da terra”

O nosso texto faz parte do Sermão da Montanha, cujos princípios são resumidos nas Bem-aventuranças (Mt 5, 1-12). Os versículos de hoje se dirigiam às comunidades dos “pobres em espírito”, cuja proposta de vida era a vivência do espírito das bem-aventuranças. Mateus usa as metáforas de sal e luz para aplicá-las aos ouvintes do Sermão da Montanha.

O sal era de suma importância no Oriente Médio. Era usado como tempero para dar sabor à comida e também para conservá-la. Também a imagem do sal era usada para simbolizar a Sabedoria e a Lei. Mateus afirma que os discípulos devem tornar saboroso o mundo em sua aliança com Deus, através da vivência que nasce da sabedoria de Jesus e a nova Lei, o Sermão da Montanha. Se não assumirem essa missão, servirão para nada e merecem ser jogados fora como sal insosso. Essa missão se realiza através da vivência da plena justiça, muito mais do que uma prática externa de leis: “Se a vossa justiça não for maior do que a dos doutores da Lei e dos fariseus, vocês não entrarão no Reino do Céu” (Mt 5, 20). Embora o sal às vezes seja considerado perigo para a nossa saúde, sempre é necessário na medida certa. Celebrando, em janeiro/2017, os 800 anos da Ordem Dominicana, o Papa Francisco aproveitou a oportunidade para advertir contra uma Vida Religiosa, ou até uma Congregação inteira que tenham perdido o sabor, como um sal que se tornou insosso. Mas, pode-se estender essa preocupação à Vida Cristã, às paróquias, às comunidades eclesiais, pastorais e movimentos – se não têm ainda o gosto, são como sal que perdeu o sabor e servem para mais nada. Um convite a todos nós a um exame objetivo da vibração das nossas vidas cristãs.

As outras imagens também são tiradas da experiência da Palestina do tempo de Jesus. Se a imagem da “cidade situada sobre um monte” foi tirada da Galiléia, talvez se refira à cidade de Hippos, se não, poderia ser Jerusalém. A imagem da lâmpada que ilumina todos na casa vem do fato de que a casa normal de um pobre na Palestina consistia de uma sala só. Através da prática dos discípulos, a luz de Deus deve iluminar a sociedade, desmascarando as injustiças e apontando para a justiça do Reino do Céu.

O versículo 16 mantém um equilíbrio entre a prática das boas obras e o evitar do orgulho ou vaidade por causa delas. A vida do discipulado descrita no Sermão não deve levar à arrogância, tão típica de alguns “piedosos” ou “justos”; mas, à conversão de muitos ao Pai. Mateus se refere a Is 42, 6 e 49, 6 que mostram que o Servo de Deus traz luz e salvação para todos os povos.

Mais uma vez o Evangelho de Mateus enfatiza a missão da comunidade cristã. Somos chamados a dilatar o Reino de Deus no mundo. Não é possível sermos discípulos se mantivermos uma vida individualista, fechada em nós mesmos. A nossa maior pregação deve ser a nossa luta em prol do mundo que Deus quer, para que “todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Uma vida cristã que não se engaja nisso, se torna como sal insosso, luz apagada, que não serve para nada. Mas, a motivação é clara - nada em benefício próprio, mas tudo para que as pessoas cheguem a conhecer o nosso Pai amoroso e vivenciem os valores do seu Reino.

 

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QUARTO DOMINGO COMUM (29.01.17)

Mt 5, 1-12a

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”

Esses primeiros versículos do Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades do(a) verdadeiro(o) discípulo(a), daquele e daquela que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como a de hoje. Embora com uma linguagem menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.

Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça são “pobres em espírito”, e que é verdadeiramente pobre em espírito se empenha na construção de uma sociedade justa. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.

As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. Isso deve questionar a indiferença de muitos cristãos que, embora frequentem a Missa, não se comovem com o sofrimento de milhões, se compactuam com uma política e um sistema econômico que promove a cultura de exclusão e torna a religião uma mera fachada de consolações pessoais. É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.

Tem fome da Justiça de Deus, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino.

Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida - a perseguição! Pois, um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso Continente testemunha muita bem. Qualquer Igreja Cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho) é pedra-de-toque dessa fidelidade. Com muita justiça, foi lembrada a atuação profética do falecido Dom Paulo Evaristo Arns, quando faleceu em dezembro/2016. Mas, devemos também lembrar como ele foi perseguido e caluniado, pelos arautos da ditadura e pela ala conservadora dentro da própria Igreja.

Continua válido para todos nós, como indivíduos e como comunidades, o desafio de estar “na contramão, com Jesus”, como diz Frei Carlos Mesters. Não somente na contramão da sociedade, mas com uma proposta de construção de uma sociedade fundamentada nos princípios do Sermão da Montanha, os de solidariedade, justiça, fraternidade e paz. No mundo onde estas metas e princípios são chamados de “ladainha dos perdedores”, cabe aos cristãos descobrir meios práticos de concretização desta utopia, a utopia de Deus, que impelia Jesus a doar a sua vida. É o grande desafio de sermos “no mundo, mas não do mundo” como dizia Jesus (Jo 14) e por isso temos que ser “vigilantes” (outro tema do evangelho de Mateus), para que não assumamos os princípios antievangélicos do neoliberalismo selvagem, quase por osmose! O mundo é o palco da nossa missão (Jo 16, 18), mas uma missão transformadora, norteada pelas Bem-Aventuranças.

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TERCEIRO DOMINGO COMUM (22.01.17)

Mt 4, 12-23

“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”

O texto começa situando a pessoa e a missão de Jesus no seu contexto concreto, histórica e geograficamente. A mudança de Jesus para a Galiléia tem sido interpretada tanto como um assumir corajoso da sua missão profética, diante da prisão de João, como uma busca de maior segurança. O verbo usado para “retirou-se” em v. 12 costuma ser usado por Mateus para indicar o recuo diante de um perigo (2, 12.13.14.22; 12, 15;14, 13;15, 21). Porém, o autor quer não somente apontar o lugar geográfico da missão de Jesus, mas, também, a sua natureza profética. Por isso, cita, com grandes modificações, o texto de Is 8, 23-9,1. Mateus condensa o texto da forma que só sobram as referências geográficas, que apontam para o Norte da Galileia e Transjordânia, conquistadas pelos pagãos assírios em 734 a.C. Ao passo que a maioria dos profetas e messias do seu tempo se retiravam para o deserto (p. ex. os Essênios de Qumrã e João, o Batista), ou agiram na capital, Jerusalém, Jesus se retira para a periferia, Galileia, cercada pelos gentios. A esperança da salvação inicia-se exatamente em uma região da qual nada se espera. No tempo de Mateus uma grande parte da população da Galileia era gentia, ou seja, pagã. Por isso, escolhendo esse lugar como palco da sua missão, o ministério de Jesus vai entrar em contato com “todas as nações” (Mt 28, 19).

V. 17 inaugura solenemente a missão de Jesus, a de anunciar a presença do Reino de Deus entre nós. Esta é a mensagem central de Jesus, e junto com a Ressurreição, formava a base e o objetivo da esperança cristã. Usando a visão noturna de Daniel (Dn 7, 13-14), o Reino representa a salvação futura e definitiva de toda a humanidade, socialmente, politicamente e espiritualmente, através do exercício da soberania de Deus, estabelecendo o “Shalom”, a paz que vem pela justiça, na terra como no céu. Como Mateus escreve para uma comunidade basicamente de judeu-cristãos, ele obedece o costume de não pronunciar o nome de Deus, e por isso, usa a frase “Reino dos Céus” no sentido de “Reino de Deus”. Infelizmente, esta convenção nascida do respeito pela transcendência de Deus, levou muitas pessoas a identificar, erroneamente, o Reino como algo pertencente somente ao céu, diluindo a sua força transformadora.

O primeiro passo de Jesus é chamar um grupo de discípulos, começando com os pescadores do Lago de Genesaré. Nos Evangelhos Sinóticos, Jesus rompe com o costume rabínico, pois, Ele mesmo chama os seus discípulos. Em Mateus, Jesus muda a prática rabínica também em outros pontos - os discípulos não serão meros ouvintes do ensinamento do Mestre, mas colaboradores na sua missão; as multidões também seguirão Jesus, buscando n’Ele algo que não encontravam nos mestres oficiais das sinagogas (Mt 4, 25; 8, 1; 12, 15; 14, 13 etc); em um segundo momento, Jesus vai fazer uma crítica a este seguimento, mostrando que segui-Lo vai muito além do que os discípulos e as multidões tinham imaginado - será tomar sobre si a sua cruz (16, 24).

É interessante observar os detalhes do chamamento dos primeiros discípulos para serem “pescadores de homens”, (“pescador” é uma das duas principais imagens para o ministério no Novo Testamento. A outra, a de pastor, tem menor conotação missionária) - dois estavam lançando as redes e dois estavam consertando-as. Assim, o evangelho mostra a dinâmica da vida cristã - tem hora para lançar redes (a ação missionária) e hora para consertá-las (cuidar mais da vida interna das pessoas e da comunidade). Os dois elementos têm que ser integrados na vida dos discípulos e das comunidades.  A rede pode significar a comunidade dos discípulos. Com o tempo, as redes dos pescadores se rompiam, por causa dos detritos apanhados, e precisavam ser consertadas, pois rede rompida não pega peixe. O mesmo acontece com a vida cristã, tanto no nível individual como comunitário - com o tempo podemos romper as redes, enfraquecendo a nossa missão. Consertar as redes simboliza o refazer dos elos de união entre nós e Deus, entre os próprios irmãos e irmãs, e com a criação. Mas, como rede consertada também não apanha peixe se não for lançada, assim a comunidade cristã não pode ficar voltada sobre si mesma, em uma vida somente interna; mas, esta vida forte de união interna deve levar de volta à missão. É notável como as homilias do Papa Francisco batem muito nessa tecla, recusando de aceitar que a Igreja fecha-se em si mesma, e nos convidam a estar sempre “em saída” – em diálogo profético com o mundo, com os que não tem fé ou buscam a fé, com os marginalizados e excluídos, com pessoas de outras culturas e tradições religiosas. As imagens do chamamento nos advertem contra dois extremos que distorcem o seguimento de Jesus - um ativismo desenfreado, só voltado para fora, e que descuida da vida interior das pessoas e das comunidades, de um lado, e uma vida só voltada para dentro, do outro, fazendo da experiência espiritual algo intimista e individual, que não leva à missão. Para o cristão, a missão brota da intimidade com Jesus e leva a aprofundar esta intimidade. A intimidade com Jesus leva de volta à missão e é alimentada pela experiência da missão. Todos os cristãos e cristãs são chamados a serem “pescadores de homens”, colaboradores na construção do Reino de Deus, que já está no meio de nós.

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SEGUNDO DOMINGO COMUM (15.01.17)

Jo 1, 29-34

“Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo”

O texto de hoje é tirado do Quarto Evangelho, o da Comunidade do Discípulo Amado. Escrito muito depois dos Sinóticos, o Quarto Evangelho tem como uma das suas características o uso abundante de símbolos, e uma cristologia bastante diferente dos outros três evangelhos. O texto de hoje situa-se no contexto de 1, 19 - 2, 12, onde, num cenário de sete dias, o autor descreve os sete dias da nova criação, que se dá em Jesus, fazendo paralelismo com o relato de Gênesis.

Diante das dificuldades em explicar o sentido do Batismo e Jesus, João omite o evento, mas descreve a descida do Espírito Santo sobre Jesus. Usando um símbolo muito conhecido dos primeiros judeu-cristãos, João Batista proclama Jesus como o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo”, na verdade, uma expressão pós-pascal de fé. O texto evoca ecos de duas imagens do Antigo Testamento - Jesus é o Cordeiro Pascal da Páscoa cristã, que, pela sua morte, acontecida no exato momento em que os cordeiros pascais estavam sendo abatidos no Templo (Jo 19, 14), salvou o mundo do pecado, da mesma maneira que o sangue do cordeiro pascal original salvou os israelitas do anjo destruidor (Êx 12, 1-13). Em segundo lugar, Jesus é também o Servo de Javé, descrito por Deutero-Isaías, o Servo Sofredor, que “brutalizado, não abre a boca; como uma ovelha emudece diante dos tosquiadores... carregou o pecado das multidões e intercede pelos transgressores” (Is 53, 7-12). João Batista também proclama que Jesus existia antes dele - um tema tipicamente joanino, o da preexistência do Verbo.

Como o Batista batizava com água, Jesus batizará com o Espírito Santo. Embora talvez o Batista se referisse ao Espírito purificador de Deus, de que falavam os profetas como purificador dos corações nos últimos dias (Is 4, 4; Ez 36, 25s; Zc 12, 10; 13, 1;), o evangelista quer que o leitor veja uma referência ao Espírito Santo, dado por Jesus e pelo batismo cristão.

Diferente dos Sinóticos, em João não se fala de uma voz celeste no momento do batismo. Substituindo-a, o próprio Batista dá testemunho: Jesus é o “Eleito” de Deus, sobre quem o Espírito de Deus desceu e permaneceu! Aqui temos mais uma referência ao Servo do Senhor de Isaías (Is 42, 1). A ênfase sobre o fato que o Espírito “permaneceu” sobre Jesus é peculiar ao Quarto Evangelho. O autor quer ressaltar o relacionamento permanente entre o Pai e o Filho, e entre o Filho e os que n’Ele acreditam. Aqui, o Espírito de Deus permanece com Jesus, que o Evangelho vai mostrar ser aquele que o dispensa aos que creem (Jo 3, 5. 34; 7, 38-39; 20, 22).

Assim, logo no início do Quarto Evangelho, temos toda uma cristologia, através do testemunho do Batista referente a Jesus: Ele é aquele que sempre existia, que morrerá como o Cordeiro Pascal e como o Servo Sofredor pelos pecados das pessoas, para depois derramar o Espírito Santo sobre o Novo Israel, a comunidade dos discípulos.

O Quarto Evangelho, neste texto, faz do seu jeito o que os Sínóticos fazem com os seus relatos do Batismo de Jesus - proclama Ele como o Eleito do Pai, o Servo de Javé, que manifesta em sua vida a vontade do Pai e que, dando a sua vida, dá a vida eterna para todos os que n’Ele acreditam.

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FESTA DA EPIFANIA DO SENHOR (08.01.17)

Mt 2, 1-12

“Ajoelharam-se diante dele e lhe prestaram homenagem”

Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado não somente ao seu próprio povo, mas a todos os povos, representados pelos Magos do Oriente. Mais importante do que a sua grande popularidade folclórica, a festa celebra uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é destinada a todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Terceiro-Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.

O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica da literatura judaica chamada “midrash”, ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo:

Vêm os magos (nem três, nem reis, segundo o texto!) buscando o Rei dos Judeus. Esses magos nos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Êx 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.

A estrela é sinal da vinda do Messias, prevista na profecia de Balaão (Nm 24, 17).

O menino nasce em Belém, segundo a profecia de Miquéias (Mq 5, 1).

Os presentes lembram as profecias de Segundo-Isaías sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60,5; também Sl 72, 10-11).

Herodes é o novo Faraó, que também massacra os filhos do povo de Deus (Êx 1, 8.16).

O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do acontecido. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são versados nas escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através do abuso da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do Oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinais da partilha que será característica do Reino que Jesus veio pregar.

Hoje em dia, verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu Evangelho. Podemos pensar nas críticas ao estilo de vida e mensagem do Papa Francisco da parte de setores ultraconservadores da Igreja, pois a sua mensagem e vivência ameaçam o poder desses grupos.  Também, a reação de crítica de defensores do capitalismo selvagem, diante da análise feita pelo Papa do sofrimento de tanta gente, por exemplo nas suas homilias e na sua Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”.  Os nossos canais de televisão e rádio estão infestados com “pregadores do Evangelho” que frequentemente distorcem a Boa Nova para se enriquecerem, explorando a ingenuidade de tanta gente através da sua oratória demagógica e manipulante.

Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, mas, que de forma alguma devem questionar a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino nascido na estrebaria é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas de boa vontade têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.

Jesus não precisa de presentes, mas, sim, do nosso esforço na vivência do seu Reino. Não paremos em uma explicação sentimental dos eventos das narrativas da Infância de Jesus, mas, procuremos penetrar no seu sentido mais profundo. Pois, na prática, temos que optar, ou pela a vivência religiosa vazia, como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca a todos, representados pelos magos, para a construção do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois, Jesus veio para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente.” (Jo 10, 10).

A festa de hoje é altamente missionária, pois é a manifestação de Jesus às nações. É uma boa oportunidade para retomarmos os apelos do Documento de Aparecida, que conclama a uma missão renovada, onde todos os cristãos saem dos limites das suas comunidades de fé, para levar o Evangelho especialmente aos mais afastados. Temos muito a caminhar ainda, mas, o início foi feito, para que cheguemos a um Brasil não somente de batizados, mas, de discípulos-missionários.

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Festa da Santa Maria, Mãe de Deus; e, Dia Mundial da Paz (01.01.17)

Lc 2, 16-21

“Maria conservava todos esses fatos e meditava sobre eles no seu coração”

Embora haja uma certa confusão sobre as referências cronológicas nas narrativas da infância de Jesus em Lucas, - pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto - a finalidade do autor é teológica - situar o nascimento do Salvador firmemente dentro da história humana, e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois a finalidade de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim, o Messias nasce em condições subumanas e indignas - como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual, algo que fica muito óbvio hoje, com as imagens diárias da situação dos refugiados, migrantes e vítimas da política desumana em lugares como Aleppo. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz em uma gruta ou estrebaria e deita Jesus em uma manjedoura.

Logo, Lucas introduz mais personagens tirados das fileiras dos excluídos da religião e sociedade de então - os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem; por isso, não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história - o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluíam - enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje - os Shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Assim é tão bom escutar – e assimilar – as palavras do papa Francisco sobre o sentido natalino, pois facilmente até nós, pessoas bem integradas nas Igrejas, assimilamos a mentalidade consumista e materialista, como por osmose, e muitas vezes, sem que notemos. Que contradição! Para muitos, na verdade, o Natal se torna festa de consumismo, sem lugar para a mensagem evangélica, nem para a memória do nascimento do Salvador.

É importante refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrever a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim, Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido daquilo que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos - se tornou peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de hoje, também Dia Mundial da Paz, nos faz lembrar a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio - dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom - onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10, 10).

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Pe. Tomaz Hughes, SVD

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NB - Texto revisado: acentuação, pontuação, regência verbal, gramática, maiúsculas/minúsculas, digitação, aspas, parênteses, barra de espaço... tendo já incorporado a nova ortografia. Não mexi nas ideias teológicas do Padre Hughes que, na minha visão, são ótimas; mas, mudei algumas palavras para melhor expressar o que ele queria dizer. Solicito que o texto seja multiplicado pela internet e pela mídia impressa e eletrônica.

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