Hughes 2016

Reflexões Homiléticas para 2016
Pe. Thomaz Hughes, SVD
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Pe. Thomaz Hughes, SVD

Pe. Thomaz Hughes  é irlandês, membro dos Missionários (Sociedade) do Verbo Divino.
Radicado no Brasil desde 1971, se dedica ao Apostolado Bíblico, com cursos e retiros bíblicos no Brasil e no exterior.
Em 2016 mora em Curitiba, Paraná, Brasil - Máikol Foto

Saudações a todos/as nesse início do Advento - tempo de esperança, tempo do “novo” de Deus crescer no meio de nós. Preparemo-nos para a grande festa da Salvação “E o Verbo se fez homem e armou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). “A luz brilhou nas trevas, e as trevas não conseguiram apagá-la”!
Nesse momento de muitas trevas para a humanidade, com o poder nas mãos de neofascistas, racistas, xenofóbicos, ditadores, golpistas... (é só pensar nos EUA, Rússia, Reino Unido, Brasil...), precisamos renovar a nossa confiança na vitória final do projeto de Deus, pois na fraqueza do presépio teve quem derrubasse os palácios de César, na aparente fraqueza e loucura de Deus, como escreve Paulo. Nesse tempo em que ouviremos a voz de João Batista, “uma voz que clama no deserto”, prestemos atenção às palavras do Papa Francisco, a voz moderna que clama no deserto do neoliberalismo selvagem e da cultura da morte, voz de sensatez e decência, a voz de Deus hoje.
Aproveito para desejar desde já um Natal muito Feliz a todos/as!  Agradeço também a todos/as que rezam pela minha saúde. Grande abraço na esperança do Advento
Pe. Thomaz, SVD

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Missa do Dia de Natal: Jo 1, 1-18 - 25.12.2016 (à tarde)

O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós.

Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho da Missa do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.

O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” - “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:

“No princípio já existia a Palavrae a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus... a Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós” (Jo 1, 1.14)

Mesmo que se fale sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas, muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.

O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!”. Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. N’Ele e por Ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.

Mas, essa encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade. Pois, “Veio aos seus e os seus não a acolheram”. Assim, o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa e à missão de Jesus, continuada em nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, Senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21).

O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos diz “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus, os que creram n’Ele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).

Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme na nossa fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 7) e como resultado dessa renovação espiritual nos encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer - de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Como nos diz Hebreus: “Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé... para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus”(Hb 12, 1-3).

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Missa da Aurora do Natal: Lc 2, 15-20 - 25.12.2916 (pela Manhã)

Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor em uma verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o neopaganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.

As Missas da Vigília e da aurora usam dois textos contínuos de Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que põe a origem de Maria e José em Nazaré e as liga às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, inserindo-as na história humana e universal, através das suas referências a grandes figuras históricas da época, César Augusto, Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que contém oito dos seus temas preferidos - alimento, graça, alegria, pequenez, paz, salvação, hoje, e universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria para todo o povo” (2, 10).

Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicas em Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana - e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois, a finalidade de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim, o Messias nasce em condições subumanas e indignas - como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz em uma gruta ou estrebaria e deita Jesus em uma manjedoura.

Logo Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião e sociedade de então - os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem; por isso, não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história - o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía - enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje - os Shoppings, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!

É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio - dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom", que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas, inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom - onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10, 10)

É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa de Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrever a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim, Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu, mas, meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos - se torna peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings - mas, retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo de uma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu para nós o Salvador!

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Missa da Noite do Natal - 24.12.2016

Lc 2, 1-14

Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através dessas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!

Este trecho pode ser subdivido assim:

1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2, 1-7

2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2, 8-14

3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2, 15-20

A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade, o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros das forças militares prepotentes. Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!

Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até o boi e o asno tomaram banho antes de serem colocados! A realidade de nascer em uma gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (1Cor 1, 25).

Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas dessa cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. É para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!

O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não em uma data futura distante. Esta ideia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Em uma manjedoura e não em um palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!

Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado a Maria em 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A ideia volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.

O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, e que não nos ajude a sermos comprometidos com a causa dos sofridos pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

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QUARTO DOMINGO DO ADVENTO - 18.12.2016

 

Mt 1, 18-24

 

“Ele vai salvar o seu povo dos seus pecados”

 

Esse texto nos relata a história da concepção virginal de Jesus, na versão mateana. Tipicamente desse evangelho, escrito para uma comunidade predominantemente judeu-cristã, em polêmica com o judaísmo rabínico dos últimos anos do primeiro século, o texto traz muitas releituras de trechos do Antigo Testamento. Para entendê-lo bem, devemos examiná-lo passo por passo, sempre lembrando do contexto em que foi escrito.

 

A primeira coisa a ser entendida é a situação “matrimonia” de Maria e José. O casamento judaico da época se dava em duas etapas - primeiro os noivos assumiam o compromisso publicamente, diante de testemunhas, mesmo que não coabitassem durante mais ou menos um ano. A situação era mais séria do que o nosso noivado - na lei judaica, qualquer relação sexual neste período seria considerada adultério. Num segundo momento, a noiva era levada à casa do noivo, que assumia a responsabilidade pelo bem-estar dela, e os dois começavam a morar juntos. Foi no período entre as duas etapas que o texto coloca a anunciação a José. No relato de Mateus, diferente de Lucas, Maria não age diretamente - é José que desempenha o papel principal.

 

A atitude de José, de repudiar Maria secretamente, sempre levantava problemas. Pois, para que um repúdio fosse legal, tinha que ser feito publicamente com um certificado oficial (Dt 24, 1). Vários autores antigos debateram sobre a atitude de José. Como podia ser chamado de “homem justo”, se ele esconde o crime da sua desposada? (São Jerônimo). São Bernardo pensava que José conhecia, ou por revelação de Deus, ou por Maria, o fato da concepção virginal. Então, diante da presença de Deus Infinito, por temor reverencial e respeito ao mistério, queria se retirar em silêncio. Escrevendo para uma comunidade de tradição judaica, Mateus quer mostrar que Jesus, mesmo gerado pelo Espírito Santo, era realmente descendente de Davi, e herdeiro das promessas messiânicas, pois, José o assumiu e deu-lhe o nome.

 

Para a Bíblia, o nome muitas vezes significa a missão, ou a identidade, da pessoa. O nome de Jesus significa “Javé salva”! O nome resume toda a missão e projeto de vida do recém concebido!

 

Os vv. 22-23 nos dão um belo exemplo de como os primeiros cristãos faziam releitura do Antigo Testamento, à luz da vida de Jesus. Infelizmente, muitas vezes este trecho é muito mal explicado, como se o profeta Isaías tivesse uma visão dos acontecimentos de Nazaré e Belém, assim reduzindo o profeta a mero vidente! De novo cumpre lembrar que Mateus, na sua polêmica com o judaísmo rabínico formativo, quer mostrar que Jesus realiza as promessas do Antigo Testamento, e, portanto, que os seus seguidores são os verdadeiramente fiéis à tradição judaica. Por isso, ele usa a tática de “citações de cumprimento das Escrituras” para interpretar os acontecimentos mais marcantes da vida de Jesus (1, 22; 2, 15.23; 4, 14; 8, 17; 13, 35; 21, 4; 27, 9). Assim, o trecho de hoje usa um texto de Isaías, onde, diante da recusa do Rei Acaz de pedir um sinal de Deus, o profeta aponta para a sua jovem esposa, já grávida, e diz que antes do filho chegar à idade da razão, os dois reis que o atacavam seriam derrotados (Is 7, 1-15). O texto original hebraico não falava de uma ‘virgem”, mas, usava um termo hebraico “almah” que significava tanto uma menina virgem, como uma jovem recém-casada. L. Stadelmann mostrou que o termo também designava uma senhora nobre estrangeira, no caso, a esposa estrangeira do Rei Acaz. Também, o texto hebraico diz que ela “concebeu” e não que “conceberá” (como foi traduzido pela versão dos Setenta, no grego). Portanto a profecia de Is 7, 14 originalmente não se referia à Maria.

 

A interpretação mariana vem de Mateus. Usando a tradução grega da Septuaginta, ele fala que “a virgem conceberá” e dará à luz o filho. A mudança do tempo do verbo, do passado para o futuro, na tradução da LXX, testemunha as expectativas messiânicas do tempo da tradução. Usando o texto de Is 7, 14, Mateus faz uma releitura do texto profético, aplicando-o ao Messias e à sua mãe.

 

Esse texto é muitas vezes explicado de uma maneira fundamentalista, sem levar em conta nem o contexto da profecia de Isaías, nem do escrito de Mateus, como se a frase “conforme as Escrituras” significasse que Jesus só tinha que seguir tarefas predestinadas pelo Pai, de uma forma mecânica. Como diz A. Murad, “a frase salienta que o grande sonho do povo, as suas aspirações, os seus desejos mais íntimos e utopias, as suas expectativas messiânicas, encontram realização na pessoa de Jesus... a partir da sua Ressurreição, os cristãos olham para o passado e se servem de imagens e trechos de profecias, para justificar essa experiência indescritível. Algumas vezes, como faz Mateus, chegam até a forçar e alterar parte do texto original. Não se sentem presos à letra da Escritura, mas, movidos pelo Espírito, que os faz ver o sentido último dos acontecimentos... Eles conferem sentido novo aos textos antigos, que muitas vezes extrapola a intenção original do seu autor. Assim acontece com Is 7, 14, reinterpretado por Mt 1, 22s. O primeiro texto não diz respeito a Maria e Jesus; o segundo, sim.” (Quem é Esta Mulher? - Paulinas p. 213).

 

O texto de hoje nos dá o verdadeiro motivo da alegria do Natal - não porque é festa de presentes e festividades, mas porque recordamos (fazemos passar de novo pelo coração!) a verdadeira Boa-Nova: que Jesus era o “Emanuel”, o Deus-Conosco, aquele que veio salvar-nos dos nossos pecados! Era a encarnação da bondade e de amor gratuito de Deus!

 

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TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO - 11.12.2016

 

Mt 11, 2-11

 

“És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?”

 

O tempo de Jesus era uma época de expectativas - dentro do sofrimento do povo, duramente reprimido pela ocupação romana e pela elite de Jerusalém, cresceu muito a esperança na vinda de um Messias libertador, esperado há séculos. O primeiro século da nossa era foi marcado pelo aparecimento de muitos líderes populares, se propondo como Messias. Cada grupo de Palestina tinha as suas expectativas sobre como seria a pessoa e a atuação desse Messias prometido.

 

João, o Batista, era figura importante no cenário religioso palestinense da época. Mt 3, 11-12 (o evangelho do Domingo passado) nos apresenta a imagem do Messias apresentado pelo Precursor. Mas, a atuação concreta de Jesus, conforme relatada em Mt 8-9 parecia destoar tanto dessa expectativa, que causava dúvidas na mente de muita gente. Jesus era realmente o Esperado, ou seria Ele mais uma decepção para o povo?

 

Jesus não se defende, explicando quem Ele é - pelo contrário, mostra que era o Messias, pelo que ele fazia! Usando textos do profeta Isaías, Ele mostra que o Reino de Deus chegou n’Ele, pois acontecem as obras de libertação que são características do Reino: com os mortos (Is 26, 19), os surdos (Is 29, 18-19), os cegos, surdos, coxos e pobres (Is 35, 5-6), e o anúncio da Boa-Nova aos pobres (Is 61, 1). O messianismo de Jesus não se enquadrava dentro das expectativas de muita gente, que esperava a derrota dos opressores, mas não vislumbrava um mundo novo, baseado em solidariedade e justiça. Jesus veio estabelecer no meio de nós o Reino de Deus, baseado no conceito de “justiça” - o restabelecimento de relações corretas de cada pessoa com Deus, consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Veio realmente criar novas relações - não somente velhas relações com os papéis invertidos, onde o oprimido vira opressor.

 

Jesus sempre é questionador, pois Ele - e o Seu projeto- desafia as nossas expectativas. Para muitos, a proposta de Jesus era difícil demais, pois mexia com o seu comodismo. Ele era uma novidade total que não se enquadrava nos velhos esquemas - por isso diz: “É feliz de quem não se escandalizar (cair) por causa de mim” (v. 11). Hoje também a pessoa e o projeto de Jesus desafiam a todos - especialmente nós cristãos. Pois, facilmente temos a nossa ideia de como deve ser a figura do Messias - triunfal, poderoso, milagreiro, que não mexe com as estruturas sociais, políticas, econômicas da sociedade, que não nos desafia para que criemos novas relações, na contramão da sociedade materialista, individualista e consumista. Muitos hoje preferem um Jesus “light” - que funciona como analgésico, que nos apazigua a consciência, que nos dá emoções fortes, mas, que não nos joga na luta dura da criação de uma nova sociedade baseada nos princípios do Reino!

 

E onde existe esse Reino? Existe onde se faz o que Jesus fazia - onde os mais excluídos estão integrados, os rejeitados estão acolhidos, a Boa-Nova de libertação total é pregada e vivenciada, e se faz a vontade de Jesus que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”. É este Jesus que aguardamos no Natal. Portanto, que Advento seja também tempo de purificação das falsas imagens dele que talvez permeiem as nossas mentes. Pois só renasce Jesus onde as pessoas, sejam elas cristãs ou não, se com prometem com as mesmas metas dele, conforme o texto nos demonstra. Felizes de nós se essas exigências não sejam escândalo para nós. A novidade perene do Evangelho e de Jesus nos desafiam a rompermos com os nossos velhos esquemas para que concretizemos nas nossas vidas a vinda do Reino.

 

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SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (04.12.2016)

 

Mt 3, 1-12

 

“Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo”

 

Advento não é tanto um tempo de penitência, como a Quaresma, mas de preparação para um encontro com o Senhor, no Natal. Não um encontro folclórico e sentimental, mas um real reencontro com Jesus, o Salvador de todos, através de um sério exame da nossa vida, um reconhecimento das nossas falhas e uma real conversão na nossa maneira de pensar e agir.

 

A liturgia nos apresenta hoje a grande figura do Precursor de Jesus, o profeta João, o Batista, mandado por Deus como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Essa será mais tarde a mensagem básica do Apocalipse - o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é Deus e não o mal que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas, esta vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz!

 

Mateus põe na boca de João um trecho de Segundo-Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas.” No seu contexto original (Is 40, 3), isso soava como proclamação de esperança, no Exílio de Babilônia - Deus não abandonara o seu povo, mas, estava voltando para levá-lo à libertação.

 

Sem dúvida, podemos entender este trecho num sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e arrependimento. As estradas a serem endireitadas (e os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, no texto de Lucas), simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento de Jesus, mais radical e coerente. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente - isso é, na raiz - a sua vida.

 

A polêmica que o texto manifesta entre João e os fariseus e saduceus, membros dos dois maiores partidos do judaísmo da época, mostra que a conversão tem que ser radical e não somente superficial. Não adianta ter uma fé teórica, pois é somente pelos atos concretos que cada um mostra a realidade da sua adesão ao projeto de Deus. Como não bastava para esses dois grupos proclamar que eram “filhos de Abraão”, hoje nada adianta a gente bradar que é Católico, cristão, membro desse ou daquele movimento ou grupo, se não produzirmos frutos de uma verdadeira conversão. A palavra “conversão” no grego significa uma radical mudança de mentalidade, mas, devemos reconhecer aqui um tema básico do Antigo Testamento, especialmente de Jeremias, o de uma mudança de orientação, de uma volta incondicional ao Deus da Aliança. Isso somente acontecerá com a graça d’Ele. Advento pode ser este tempo de graça, pode se tornar tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações. A conversão é processo permanente e urgente, que exige reconhecimento dos nossos pecados, uma vontade de mudar a orientação da nossa vida, e uma abertura para a graça de Deus, que é capaz de fazer maravilhas em nós. Ressoa muito alto hoje o convite e desafio de João, “Convertam-se, porque o Reino do Céu está próximo” (v. 2). A decisão é nossa, pois, o nosso Deus, rico em misericórdia, jamais negará a sua graça.

 

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PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (27.11.16)

 

Mt 24, 37-44

 

"Portanto, fiquem vigiando!"

 

Neste primeiro Domingo do novo Ano Litúrgico, na preparação para o Natal, o texto se situa dentro do chamado "Discurso Apocalíptico" de Mateus, que inicia-se em 24, 1 e termina em 25, 46. Estes versículos (começando em v. 32) respondem a pergunta feita a Jesus pelos discípulos em v. 3 "Dize-nos quando vai ser isso, e qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo?" Jesus não se detém em explicitar datas, mas enfatiza a atitude de vida que deve marcar os seus seguidores sempre, e não somente quando acham que o fim do mundo se aproxima. Neste discurso, ele descarta qualquer marcação da data, afirmando num versículo anterior "quanto a esse dia e hora, ninguém sabe nada, nem os anjos do céu, nem o Filho. Somente o Pai é quem sabe” (v. 36).

 

Jesus usa imagens da história de Noé. As pessoas daquela época se preocuparam com nada, nada perceberam - em nossos termos hoje, poderíamos dizer que eles não souberam ler "os sinais dos tempos". Por isso, foram pegas de surpresa, perderam a hora da graça, e se perderam.

 

Sem levar a história ao pé da letra, podemos muito bem aplicar a mensagem à nossa situação atual. A Igreja sempre nos conclama para que leiamos "os sinais dos tempos". Um sinal aponta para uma realidade mais profunda! Não basta ficarmos somente com o sinal, temos que descobrir a realidade subjacente a qual ele aponta.

 

Hoje não nos faltam sinais dos tempos - a miséria de milhões dos nossos irmãos e irmãs espalhados pelo mundo inteiro, planos governamentais cortando todo tipo de ação em favor da saúde e educação do povo para privilegiar as elites financeiras, o terrorismo individual e estatal, a exclusão social, a violência de todos os tipos, a globalização excludente, a urbanização desenfreada a secularização, o aumento de fundamentalismo religioso. Também há muitos sinais positivos - as comunidades de base que ainda lutam com resiliência em muitos lugares, na contramão de movimentos alienados e alienantes em voga, os movimentos populares, a consciência ecológica, a luta contra racismo e por novas relações de gênero. O problema é estar atento aos sinais e saber interpretá-los! Pois, muitos sinais podem ser ambíguos, e temos que ter clareza sobre os nossos critérios de interpretação da realidade.

 

O nosso critério sempre será Jesus - a sua pessoa e o seu projeto de fidelidade com a vontade do Pai. Os sinais têm que passar pelo crivo da fidelidade a Jesus, que veio "para que todos tenham a vida e a tenham em plenitude" (Jo 10, 10). Assim, somos convidados hoje à vigilância (v. 42). Essa deve ser uma característica do cristão e da comunidade cristã. Vigiemos para que a nossa casa - a nossa consciência, a nossa comunidade, a nossa prática - não seja invadida por quem quer o mal, que traz projeto da morte. Vivendo como somos, em um mudo imerso nos valores e contravalores de uma sociedade de consumo, cujo Deus é o lucro e cujo evangelho é a competitividade, é fácil acontecer que a gente absorva esses critérios como por osmose, sem notar. Assim, o "ladrão" entra na nossa casa por falta da vigilância, para subtrair os nossos bens - a fraternidade, a solidariedade, a partilha, a nossa fidelidade a prática de Jesus, o projeto do Reino, a integridade do universo criado. Assim, quando Jesus, o Filho do Homem, vem, nas realidades da nossa vida, nem o reconhecemos, e perdemos a hora da graça! Para ser vigilantes, em qualquer situação, é primeiro preciso que estejamos bem acordados e atentos à realidade que nos cerca. Quem sabe, com o passar dos séculos, muitas vezes as nossas Igrejas se acostumaram à “sonolência” na vida – contentes com a prática rotineira de celebrações, com a vivência de uma moral burguesa com muitos valores, mas sem sensibilidade social e comunitária, com uma “pastoral de manutenção”, sem vibração missionária nem evangelizadora. O tempo litúrgico do Advento nos estimula para que despertemos desse tipo de anestesia ou sonolência diante da realidade mundial e local de hoje.

 

O texto não nos remete primeiramente à preparação de um encontro com Jesus depois da morte, nem na sua Segunda Vinda; mas, nos convida a uma vigilância hoje, para que saibamos encontrá-Lo através de uma leitura correta dos "sinais dos tempos", vigilantes para que não percamos a nossa razão de ser como cristãos - a concretização do Projeto do Pai, na construção de um mundo solidário, de fraternidade, partilha paz e justiça, o mundo do "Shalom" de Deus, o Reino que já se faz presente entre nós. O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo, para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos as nossas forças, para não cairmos na armadilha da "in-atenção" no meio das preocupações e barulho do mundo moderno, para que os nossos corações continuem "sensíveis" aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia!

 

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FESTA DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO REI DO UNIVERSO (20.11.16)

 

Lc 23, 35-43

 

“Jesus, lembra-te de mim, quando vieres como rei.”

 

Como é de costume na Igreja Católica, hoje, último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa litúrgica de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa - que Deus é o único Absoluto. No mundo que não é ateu, mas idolátrico, pois, presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas - para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto da nossa vida. Em uma sociedade onde frequentemente o nome de Deus é invocado para justificar regimes repressivos fundamentalistas, ou sistemas imperialistas que abusam do nome “cristão” para se justificar, a festa litúrgica nos lembra o verdadeiro sentido do Reino de Deus.

 

Foi exatamente por ter semeado este Reino, na contramão da sociedade de então, que Jesus devia morrer - ou melhor, ser matado, o que é diferente. Todos os evangelhos mostram, cada um da sua maneira, que quem matou Jesus não foi o povo, mas um conluio dos chefes religiosos, políticos e econômicos . É importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi assassinado, houve algum motivo, e houve quem o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. E o Templo funcionava como um tipo de “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos, e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois, o Reino de Deus se opõe frontalmente com qualquer reino opressor, como era o de Roma.

 

O texto de hoje usa a ironia para demonstrar a verdadeira identidade de Jesus. Lucas faz isso através do uso de títulos por Ele - títulos usados como gozação, mas que de fato que descreviam a sua pessoa e missão - “o Messias de Deus”, “o Escolhido” o “Rei dos judeus”. Enquanto o povo fica quieto contemplando a cena (v. 35), os detentores do poder, chefes e soldados, zombam de Jesus. Mas, não sabem que a sua zombaria expressa a verdade sobre Ele, que eles, opressores, são incapazes de entender. Ao contrário, quem entendeu era o condenado que costumamos chamar “o bom ladrão”, provavelmente um tipo de guerrilheiro, que vivia como outros como “fora-da-lei”. Ele expressa a esperança básica de todos os sofridos, rejeitados e excluídos desse mundo quando pede com fé: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres como rei” (v. 42). É o grito que expressa a esperança última dos sofredores, a vitória do bem sobre o mal, e a instauração do reino de Deus, de justiça, fraternidade e paz.

 

A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento d’Ele, na construção de um Reino de justiça e paz, do shalom de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que se dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, se tornem porta-voz dos valores desses reinos. Não faltarão incentivos, financeiros e outros, para que as Igrejas caiam nesta cilada. E infelizmente, não faltam lideranças religiosas que, ou por ingenuidade, por falta de senso crítico ou por conivência consciente, usam da sua posição para amansar e enganar o povo em favor dos poderes desse mundo, fazendo as vezes da Segunda Besta no Apocalipse, que tem “aparência de Cordeiro, mas, falam como Dragão” (Ap 13, 11). Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é necessário ficarmos sempre vigilantes, para que possamos verificar se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.

 

Jesus traz a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante d’Ele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa litúrgica de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência - tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada, continua sendo César!

 

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TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (13.11.16)

 

Lucas 21, 5-19

 

“Cuidado para que vocês não sejam enganados.”

 

Chegando ao fim do ano litúrgico, encontramos uma das passagens chamadas “apocalípticas” de Lucas. É um texto realmente complexo, que olha em duas direções: lendo o que foi escrito pelo ano 85, o leitor pode olhar para trás para 19, 47 - 21, 4, e ver, fazendo uma leitura teológica, a consequência da rejeição de Jesus e do seu ensinamento pelos líderes do Templo (a destruição do Templo pelos Romanos sob Tito no ano 70 d.C); também o leitor pode olhar além dos eventos de Lucas 22-23 e ver a vindicação do Filho do Homem por Deus, e o fortalecimento por Jesus dos seus discípulos, que serão perseguidos por sua fidelidade a Ele. A passagem (que na realidade continua até v. 38) pode ser dividida da seguinte maneira:

 

1) Introdução (vv. 5-7)

 

2) Exortação inicial (vv. 8-9)

 

3) Desastres cósmicos (vv. 10-11)

 

4) Eventos que precederão o fim do mundo - cristãos serão perseguidos; (vv. 12-19); a destruição de Jerusalém (vv. 20-24).

 

5) Desastres cósmicos (vv. 25-33)

 

6) Exortação final (vv. 34-36)

 

7) Inclusão com 19, 47-48 (vv. 36-38)

 

Esse esquema mostra como, no texto, os eventos do fim do mundo são relacionados à destruição de Jerusalém, e assim sublinha a mensagem cristológica: a crise que Jerusalém enfrentou no ministério de Jesus é uma previsão da crise que Ele e a Sua mensagem, e especialmente a Sua vinda como o Filho do Homem, trarão a “todos aqueles que habitam a face de toda a terra” (v. 35).

 

Um termo que perpassa o texto a partir do v. 7 é “estas coisas”. Este termo muda de referências durante a passagem - da destruição do Templo para a destruição de Jerusalém para a destruição do mundo todo.

 

Os discípulos devem se cuidar para não serem enganados por falsos Messias! E não devem impressionar-se com guerras, revoluções ou outros eventos estrondosos. Uma advertência que vale muito para os dias de hoje! É só lembrar algumas reações fundamentalistas diante dos eventos mais chocantes nos dias de hoje! Quantos falsos Messias, quanto pavor, quantos profetas de destruição! Mas, ainda não é o fim.

 

A partir de versículo 12, Jesus procura animar os seus discípulos, para que possam aguentar a perseguição futura (que na verdade já estava começando no tempo de Lucas). E a perseguição não viria somente da parte das autoridades do Império (a perseguição de Nero já tinha acontecido quase vinte anos antes, embora, na prática, limitada à cidade de Roma). Os próprios pais, parentes e amigos tornar-se-iam perseguidores. Realmente, isso aconteceria a partir do ano 85, quando o judaísmo se reorganizou na forma rabínica, com o Sínodo de Jâmnia. A partir de então, crescia o racha entre cristãos-judeus e os judeus da linha farisaica, com os primeiros sendo expulsos da sinagoga, e vistos como traidores do seu povo, da sua herança, da sua fé javista. Com certeza, no tempo de Lucas, muitos já estavam vacilando diante dessa situação de insegurança e perigo, e por isso o evangelista destaca tanto a exortação de Jesus à perseverança e confiança.

 

A situação nossa de hoje é bem diferente - nós não formamos uma minoria perseguida (no Brasil – mas a realidade é bem diferente para cristãos em vários países do Oriente, por exemplo)! Mas, a mensagem permanece válida - ser cristão implica carregar a cruz! Não é possível servir Jesus e os valores desta sociedade consumista e excludente! Ser cristão é muitas vezes andar na contramão da sociedade, e acarreta necessariamente conflitos com um mundo regido por outros valores. Uma Igreja acomodada, que não incomoda a sociedade vigente, não seria Igreja do seguimento fiel de Jesus (As falas e ações do atual Papa já estão incomodando muita gente, inclusive dentro da Igreja, pois demonstram que o seguimento de Jesus exige ações concretas que nos põem em choque com a sociedade dominante e questiona uma prática religiosa alienada e alienante!). Como é tentador buscar uma religião só de consolo e prática individual - uma religião que a sociedade até estimula, pois, relega o Evangelho à esfera do íntimo, e tira dele a sua força transformadora. Lucas não nos deixa esquecer que a fé em Jesus é altamente perigosa, pois não se conforma com o mal, e por isso mesmo exige o seguimento de Jesus “no caminho” - até Jerusalém, a cruz - e a Ressurreição.

 

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Festa de Todos os Santos (06.11.16)

 

Mt 5, 1-12a

 

 “Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus.”

 

Esses primeiros versículos de Mt 5 servem ao mesmo tempo como introdução e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo(a) daquele(a) que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente – tanto a do tempo de Jesus, como a de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.

 

Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no tempo presente – o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça – na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça verdadeira são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido – e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.

 

            As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. Infelizmente, até muitos cristãos já perderam essa sensibilidade diante da enormidade do sofrimento de milhões dos nossos irmãos e irmãs – pois toda pessoa humana é irmão e irmã – influenciados também pela banalização do sofrimento na mídia e o crescimento de individualismo e egoísmo, caraterísticas da sociedade neoliberal. Podemos lembrar os sentimentos expressados pelo Papa Francisco quando ele visitou a pequena ilha de Lampedusa na Itália, lotada de refugiados, e desabafou: "Perdemos o sentido da responsabilidade fraterna"; "A cultura do bem-estar nos torna insensíveis aos gritos dos outros"; "Caímos na globalização da indiferença"; "Nos habituamos ao sofrimento dos outros... não nos interessa, não e problema nosso. É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.

 

            Tem fome da justiça de Deus, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, “sejam misericordiosos como o Pai do Céu é misericordioso” (Mt 5, 45). É “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino.

 

            Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida – a perseguição! Pois, um sistema baseado em valores anti-evangélicos não pode aguentar quem a contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho, na língua grega) é pedra-de-toque dessa fidelidade. As Igrejas cristãs devem ser testemunhas vivas do espírito do Sermão da Montanha, encapsulado nas Bem-aventuranças. Em palavra e prática precisam demonstrar especialmente às pessoas e grupos rejeitados pelo mundo dominante o que Jesus demonstrava – a misericórdia e a compaixão de Deus. Como escreve o teólogo espanhol José Pagola: “Esta insondável misericórdia do Pai pode ser anunciada somente por uma Igreja acolhedora, que elimina preconceitos e quebra fronteiras. Em cada ato de evangelização não pode faltar a mensagem de perdão gratuito e imerecido de Deus. Ainda hoje, todos os coletivos que são condenados, discriminados ou ignorados em alguma medida, pela sociedade ou pela Igreja (prostitutas, criminosos, viciados em drogas, gays, lésbicas, transexuais ...) devem ouvir a mensagem de Jesus: "Quando vocês se veem condenados pela Igreja, saibam que Deus os olha com amor. Quando ninguém os perdoa, sintam o perdão infinito de Deus. Quando se sentem sozinhos e humilhados, ouçam seu coração e ouvireis que Deus está com vocês. Mesmo que todos os abandonem, Deus nunca os abandonará. Vocês não merecem isso. Ninguém merece isso. Mas, Deus é assim: misericórdia e perdão sem limites". Bem-aventurados seremos nós na medida em que colocarmos isso em prática.

 

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Tomaz Hughes SVD

 

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“A Bíblia é o grande instrumento de libertação dos leigos”.
Entrevista com Francisco Orofino
Quinta-feira, 1 de setembro de 2016
 

Qual é a importância da Bíblia para a Igreja católica hoje?

Se há uma conquista irreversível do Vaticano II, ao menos no Brasil, é a Bíblia nas mãos do povo. Há iniciativas do Vaticano II em que houve retrocessos durante os 35 anos dos Pontificados de João Paulo II e Bento XVI, como a “reforma” da Reforma Litúrgica ou a reclericalização, a recentralização no clero. No entanto, é irreversível, ao menos na nossa perspectiva pastoral do Brasil, no aspecto da Bíblia nas mãos do povo. Pode chegar o Papa mais fechado, que não vai conseguir retroceder nessa conquista.

A Bíblia nas mãos do povo, no Brasil, é o grande gesto de libertação. Significa que o leigo tem em suas mãos aquilo que, segundo a própria Dei Verbum, é a fonte primeira da Revelação. E se o leigo tem em suas mãos a fonte primeira da Revelação e a lê a partir da sua própria realidade econômica e sociopolítica, esse leigo está fazendo teologia.

Para dizer a verdade, a Bíblia nas mãos do povo rompeu o monopólio da teologia, até então restrita ao clero. Ter a Bíblia nas mãos do povo é um gesto de libertação da teologia clerical. Por isso, a Bíblia nas mãos do povo permite o avanço em duas grandes questões do Vaticano II, que sempre vão ser foco de tensão: a questão da desclericalização e da descentralização.

Creio que Francisco, desde a sua experiência latino-americana, toca nessas duas teclas, que ele percebe que foram os pontos fracos das conquistas do Vaticano II. A descentralização, que ele traduz na sinodalidade, e a desclericalização, em relação a que aponta três grandes instrumentos pastorais para o processo de desclericalização: o poder de decisão dos conselhos pastorais paroquiais, os círculos bíblicos e as comunidades eclesiais de base. Portanto, vejo a Bíblia no contexto pastoral latino-americano como o grande instrumento de libertação dos leigos, como uma coisa necessária para que eles possam ter mais poder de decisão na caminhada da Igreja.

Isso não cria certas disputas entre o clero e os leigos?

Qualquer coisa cria disputas entre o clero e o leigo. Se você fizer um curso de liturgia em uma paróquia e começar a fazer a proposta litúrgica do Vaticano II, que é o novo enfoque dado à celebração eucarística, como ceia e não como sacrifício – o que dizia Trento e o que o clero continua pensando –, tentando recuperar como leigo a dimensão da ceia do Vaticano II, o clero vai reagir. O mesmo acontece no campo da Bíblia, pois o clero tem teologia, mas não tem Bíblia, e quando um leigo vai conhecendo a Bíblia vai enfrentar uma barreira, pois o clero sente que não está capacitado para discutir com eles. Muitas paróquias, hoje, não admitem a realização de cursos bíblicos, nem círculos bíblicos, nem reflexão bíblica, porque percebem que a Bíblia nas mãos dos leigos é um importante instrumento de conscientização do laicato. Poder é poder e, ou eu começo a combater essas emancipações, ou eu perco meu poder; e o clero não quer perder seu poder. Portanto, sempre vai restringir as iniciativas dos leigos, seja no campo da liturgia ou da formação, principalmente catequética. No Brasil, segundo o Diretório Nacional da Catequese, todos devem elaborar esquemas catequéticos vivenciais a partir da Bíblia. A maior parte das paróquias pensa que os esquemas catequéticos devem ser doutrinais a partir do catecismo. Muitas paróquias não admitem o uso da Bíblia, querem o uso do Catecismo.

Você está dando a entender com sua resposta que o clero nem conhece nem quer conhecer a Bíblia. Por que essa falta de formação bíblica nos estudos teológicos, por que essa falta de interesse para estudar a Bíblia do ponto de vista teológico?

Porque o clero é formado basicamente para duas coisas: administração dos sacramentos e a parte econômica (Nota do revisor do texto: a parte econômica dos padres é muito amadora). Por isso, um pároco tem os dois pontos básicos nessa administração: na dos sacramentos é o único que pode consagrar; na parte econômica é o único que assina cheques. Se você está em uma paróquia e consagra e assina cheques, você manda. Então, o estudo bíblico passa como uma coisa despercebida, pois o clero não vê a Bíblia como um importante instrumento de evangelização, porque não está interessado nem é formado para evangelizar, mas, é formado para administrar. Os padres são sacramentalistas e construtores.

A partir disso, poderíamos dizer que a Igreja católica é mais judaica que cristã?

Para a instituição, e isso vale para qualquer tipo de Igreja, inclusive a mais pentecostal, a fundamentação bíblica adequada é o Antigo Testamento. Se você fala do dízimo, Jesus nunca falou disso. O dízimo é uma instituição do Antigo Testamento. Nossas Igrejas pararam no Primeiro Testamento; raríssimas são as que vivem o Segundo Testamento. Não quero dizer que não existam e de fato existem sacerdotes muito bons, mas em termos institucionais, as Igrejas, ainda que seja por necessidade, ficaram no Primeiro Testamento.

Partindo da Bíblia, como seria possível afastar-se dessa Igreja Vetero-testamentária, piramidal, para construir uma Igreja mais circular, própria do Novo Testamento, e que foi impulsionada a partir do Vaticano II? Sou suspeito de falar sobre isso, porque esse é o meu trabalho. Creio que a única maneira de romper a velha estrutura piramidal, centralizada, são as comunidades eclesiais de base. Mas, há um problema muito sério nas comunidades eclesiais de base, pois estas têm uma “caminhada” de 45 ou 50 anos, e na cabeça de muitos assessores, eles pensam que as autênticas comunidades eclesiais de base são aquelas dos anos 1960 ou 1970. Temos que ver hoje quem está entrando nas comunidades eclesiais de base, o que está buscando, que tipo de pessoas está procurando as comunidades. Por isso, creio que a comunidade eclesial de base é a verdadeira concretização do conceito de Igreja que aparece na Lumen Gentium: a Igreja é o Povo de Deus congregado em nome da Trindade Santa. Por isso, temos que buscar pequenas comunidades que vão fazer a sua vida, sua catequese, sua liturgia, em pequenos núcleos. Mas, ao mesmo tempo sentindo-se em rede. Nesse ponto, os pentecostais conseguem isso, são pequenos núcleos, mas, têm ao mesmo tempo uma consciência de rede de pertença. Quando há uma convocação, eles vão todos. Nós teríamos que aprender da pastoral dessas pequenas comunidades. Mas, isso só vamos conseguir se houver de fato uma emancipação dos ministérios laicais frente ao clero. Enquanto os leigos pensarem: eu não vou tomar a iniciativa de criar uma comunidade naquele lugar porque o padre ainda não me disse nada, nunca vamos avançar. Por isso, penso que temos que investir sempre naquilo que é a grande conquista do Vaticano II e que é dito inúmeras vezes, mas, que nunca se concretiza, que é o chamado protagonismo dos leigos. Vejo como uma bênção de Deus a carta que o Papa Francisco mandou ao cardeal Marc Ouellet, para que o cardeal a remetesse às Igrejas latino-americanas. Essa carta foi enviada em março/2016 e quando chegou maio e o Papa viu que o cardeal ainda não a tinha publicado, ele mesmo tomou a iniciativa de publicá-la. Nela diz claramente que se fala muito de que “chegou a hora dos leigos; mas, a impressão que tenho é que o relógio parou”. Por isso, penso que o nosso drama hoje é como fazer avançar o relógio, o protagonismo dos leigos. Dizer que a hora dos leigos chegou é algo de que já estamos cansados de ouvir, mas como se concretiza isso? Creio que as comunidades eclesiais de base, como proposta pastoral, ainda têm sua hora.

O que foi que parou ou quebrou o relógio?

Em primeiro lugar, o movimento da história, que é pendular. A história da Igreja nunca é retilínea, uniforme e ascendente, mas, pendular. Tivemos 20 anos, de 1958 a 1978, de uma proposta de Igreja com João XXIII e Paulo VI. Depois, tivemos 35 anos de outra proposta de Igreja, com João Paulo II e Bento XVI. Agora, o pêndulo está voltando para o outro lado com Francisco. Creio que o que Francisco está fazendo terá continuidade. Talvez não seja uma continuidade natural, porque tampouco houve uma continuidade entre João XXIII e Paulo VI; os dois eram modelos de papado diferente. Creio que Francisco está abrindo um espaço, colocando o pêndulo de volta. Quem percebeu que o pêndulo chegou ao seu ponto extremo foi Hans Küng, quando escreveu seu último livro e no qual dizia que a Igreja está doente, fazendo um relato da Igreja como se esta fosse um doente terminal. Se Bento não tivesse renunciado, provavelmente a Igreja teria chegado a um momento extremo. Penso que o próprio Bento, com seu gesto profético, disse que esse modelo acabou e que chegou a hora de encontrar outro caminho, e esse caminho é Francisco. Tudo está voltando, e creio que esse movimento de Francisco deve durar outros 20 anos, pois é um pêndulo, a caminhada da Igreja é pendular. Isso faz parte da história.

Você falou dos círculos bíblicos, que é um dos elementos que não podem faltar nas comunidades eclesiais de base, a partir da leitura popular da Bíblia. Como tudo isso repercute na vida de quem vive sua fé nas comunidades eclesiais de base?

Em primeiro lugar, quero dar uma resposta mais institucional. A Dei Verbum suscitou um desafio para todas as Igrejas. Nesse desafio existem quatro passos que foram dados. O primeiro: colocar a Bíblia nas mãos do povo, pois não tinha Bíblia, já que não fazia parte da tradição católica ter Bíblia. Um primeiro passo que ainda não chegou a todas as Igrejas, a todas as comunidades, que de fato o leigo tenha sua Bíblia para seu uso pessoal, lê-la, esse é um passo importante na Pastoral Bíblica. A segunda coisa que considero mais importante é capacitar agentes. Um dos grandes esforços que a Igreja fez nestes últimos anos foi capacitar agentes de Pastoral Bíblica em todos os níveis, desde o nível mais elementar até cursos de grau superior. O primeiro curso de pós-graduação em Bíblia aqui no Brasil é de 1986; antes não havia. A capacitação foi outro grande esforço. Em terceiro lugar, encontrar uma metodologia adequada. A Leitura Popular da Bíblia é a metodologia adequada dentro do que pede a Pastoral Bíblica a partir da Dei Verbum. Neste ponto devemos muito às várias contribuições surgidas no campo da educação. Aqui no Brasil, principalmente a proposta da educação libertadora de Paulo Freire. A grande contribuição no método de leitura bíblica, adotado pelo Centro de Estudos Bíblicos, o CEBI, a partir daquela grande inspiração nascida de Carlos Mesters. Mas, temos que dar um quarto passo, que a própria Conferência Episcopal já percebeu, mas, que está sendo difícil, que é a animação bíblica de toda a pastoral, o que se está fazendo devagar. A primeira vez que isto foi sistematizado, orientado e assumido institucionalmente foi no Sínodo de 2008; mas, até agora as dioceses não têm claro como dar esse passo.

O que significa, de fato, a animação bíblica de toda a pastoral?

Penso que seria o uso da Bíblia em quatro grandes campos. Primeiro, na liturgia, e neste ponto o clero tem que colocar na cabeça que o povo tem o direito de receber em cada celebração a mensagem que está nas leituras e não na cabeça do padre. Por isso, já no Sínodo de 2008 havia um pedido unânime para que a Santa Sé desse orientações sobre homilética. Francisco acabou fazendo isso de uma maneira muito bonita na Evangelii Gaudium, onde está muito claro, podendo dizer que a partir daí não faz a homilia só quem não quer. O segundo ponto é o da catequese, pois temos que construir uma catequese vivencial, a partir da Bíblia e gradualmente abandonar a catequese doutrinária a partir do Catecismo. O terceiro ponto seriam as diferentes práticas pastorais a partir da Bíblia, onde entrariam os círculos bíblicos. Por último, e não por isso menos importante, a espiritualidade dos fiéis a partir da Bíblia, como instrumento de espiritualidade, retiros bíblicos a partir da metodologia da Leitura Orante da Bíblia. Creio que pouco a pouco vamos começar a dar esses passos, mas esses passos nos mostram que temos muitas coisas para fazer.

A propósito de Carlos Mesters, sendo você um dos seus principais discípulos e colaboradores, qual é a contribuição de Carlos Mesters aqui no Brasil para a Teologia Bíblica, desde a Leitura Popular da Bíblia, e qual é a contribuição para você, em termos pessoais?

Carlos teve duas intuições que são fundamentais: a primeira é que devemos capacitar-nos na Bíblia, o que significa que devemos estudar muito e nos melhores centros. Mesters é formado em Bíblia pela École Biblique de Jerusalém, um dos melhores lugares do mundo de estudo bíblico católico. Agora, devemos capacitarmo-nos não para o mundo acadêmico, mas, para trabalhar com o povo. O respeito pelas pessoas é o que pede a nossa capacitação. Por isso, Carlos é alguém que estuda muito, o que admiro nele, mas estuda muito para trabalhar com o povo, não para o mundo acadêmico. Aprendi isso dele e sigo-o nesse ponto, me capacito muito para trabalhar com o povo. Tenho muitas reservas em relação ao mundo acadêmico. A segunda coisa que acho importante na vida e proposta de Carlos é sua capacidade de sistematizar seus trabalhos e dar a essa sistematização a mesma importância que ao mundo acadêmico, que são as contribuições populares. Em um estudo acadêmico, ou em um artigo, Carlos pode escrever assim, como disse um biblista importante da École Biblique, assim como também disse dona Maria do Recife. Carlos coloca a contribuição acadêmica do lado da vivência popular e sistematiza seus escritos a partir dessas duas fontes. Esse é seu grande segredo.

Afinal, a Bíblia é o livro do Povo de Deus.

Exato. E muitas vezes pensamos que a Bíblia é um instrumento acadêmico. Sim e que devemos fazer teses com ela. Creio, com todo o respeito, que se se vai a uma universidade europeia e se compra um livro, ali este é um comentário ao comentário feito por um determinado comentarista. É uma repetição. Sempre comparo o estudo acadêmico da Bíblia com os índios mascando folha de coca, que vão mastigando e colocando num lado da boca. Depois de um tempo, a bochecha fica enorme, pois vão entrando novas folhas e a bola cresce. Assim é o estudo acadêmico da Bíblia, de vez em quando aparece uma nova folha, mas, o que foi acumulado continua dentro da boca. Essa visão da Bíblia como o livro do povo é algo que falta na Igreja Ocidental, pois de fato os poucos trabalhos sobre a Bíblia com grupos cristãos na Europa são traduções dos trabalhos de Carlos Mesters.

Por que falta esse trabalho na Europa?

Há duas coisas importantes. Uma vez fizemos um intercâmbio entre o Centro de Estudos Bíblicos e a Igreja luterana da Suécia. Eles queriam começar os círculos bíblicos e algumas equipes do Brasil foram para a Suécia. Ali se encontraram com uma barreira, que eu creio ser intransponível. Na cultura europeia, a Bíblia é um livro institucional. No caso dos luteranos, era ensinada na escola como uma matéria, uma disciplina; no caso dos católicos, é um livro do clero. Portanto, o povo não sente a Bíblia como algo seu, e esse é o grande segredo da pastoral bíblica aqui no Brasil. Como aqui no Brasil nunca houve Pastoral Bíblica e o povo nunca teve a Bíblia em suas mãos, tinha apenas uma tradição oral da Bíblia desde a época da conquista, o povo sente a Bíblia como algo seu, enquanto que nenhum europeu sente a Bíblia como algo seu, importante para a sua vida, para dar uma direção à sua vida. Por isso, essa Leitura Popular da Bíblia que fazemos no Brasil não tem uma produção pastoral acadêmica, apesar de que se repete muito o trabalho da Casa da Bíblia na Espanha, por exemplo, que tem várias iniciativas interessantes, mas, se choca com a institucionalização do texto, que é do clero, institucional, da Igreja; que o povo não sente como algo seu, não o busca. Aqui no Brasil, não; o povo busca.

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TRIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (30.10.16)

Lucas 19,1-10

“Hoje a salvação entrou nesta casa”

            De novo entra em cena a figura de um “publicano”, desta vez de nome conhecido - Zaqueu! Os governantes arrendavam áreas do país para publicanos ricos, que embolsavam o que conseguiam extorquir além das taxas estabelecidas. Estes chefes dos publicanos (p. ex. Zaqueu) empregavam outros para fazer a cobrança - e enfrentar a celeuma do povo - sentados nos telônios nas portas das cidades e nas encruzilhadas das rotas das caravanas (p. ex. Levi).

            Zaqueu era chefe dos cobradores de impostos da cidade de Jericó, e por isso, por causa da sua extorsão, muito rico - e com certeza muito odiado e desprezado.

            Porém, Lucas nos mostra que ninguém é tão perdido que não possa ser salvo pela misericórdia de Deus. Ninguém está além da possibilidade de salvação. Com umas rápidas pinceladas, ele traça o caminho da conversão e salvação de Zaqueu.

            Com certeza, Zaqueu tinha ouvido falar da atividade e dos ensinamentos de Jesus, e tinha uma enorme vontade de conhecer mais de perto este homem tão diferente dos outros rabinos, ou mestres religiosos, do seu tempo. Nem levava em conta perder a sua dignidade, subindo em uma árvore - o importante mesmo era não perder o momento de Jesus passar. Jesus acolhe este gesto de busca - olha mais para esta chama de bondade do que para toda a maldade praticada anteriormente por Zaqueu. Pronuncia as palavras que iriam mudar para sempre a vida de Zaqueu: “Desça depressa, Zaqueu, porque hoje preciso ficar em sua casa.” (v. 5)

            Por causa dessa iniciativa, o próprio mestre se torna alvo de críticas por parte dos “justos”: “Ele foi se hospedar na casa de um pecador” (v. 7). Como sempre, a novidade do Reino, trazida por Jesus rompe todos os esquemas sociais e religiosos pré-concebidos!

            Diante do gesto de amor da parte de Jesus, trazendo para si o opróbrio normalmente reservado para Zaqueu, o publicano responde com um gesto concreto de conversão: “A metade dos meus bens, Senhor, eu dou aos pobres; e, se roubei alguém, vou devolver quatro vezes mais” (v. 8)

            Não é uma conversão teórica, mas, muito concreta, e passa pelo econômico - devolver o dinheiro roubado, partilhar os bens! O amor de Jesus conseguiu o que o ódio e o desprezo jamais conseguiriam - a conversão de um pecador - “Hoje a salvação entrou nesta casa”. Mais uma vez Jesus ilustrou de maneira muito concreta que Ele veio “procurar e salvar o que estava perdido”.

            A história nos convida a assumir cada vez mais as atitudes tanto de Jesus como de Zaqueu - de um lado, compreensão, misericórdia e perdão diante dos erros alheios; do outro, reconhecimento da nossa própria necessidade de perdão e conversão contínua, para que se dê em nossa vida a experiência de Zaqueu, de que “Hoje a salvação entrou nesta casa!”

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TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (23.10.16)

Lucas 18, 9-14

“Meu Deus, tem piedade de mim, que sou pecador”

O tema da oração continua no trecho de hoje - Jesus mostra que não basta somente rezar, pois, muito depende das nossas atitudes enquanto rezamos. Por isso, Ele nos conta mais uma parábola que só Lucas relata - a do “Fariseu e do Publicano”.

            Para entender bem esta passagem, é imprescindível que nós entendamos o significado dos termos “Fariseu” e “Publicano”. Os fariseus formavam um partido religioso-político, nascido dos “fiéis observadores da Lei”, ou “Hasidim” dos tempos da revolução dos Macabeus. Eles romperam com as ambições políticas dos Hasmoneus (dinastia dos Macabeus) e formaram o seu grupo dos “separados”, que parece ser o sentido da palavra “Fariseu”. Eles primaram pela observância rigorosa da Lei, embora entre eles existissem diversas escolas de interpretação.

Em nossa linguagem, a palavra “fariseu” normalmente significa “hipócrita” - uma injustiça aos fariseus, que eram, na maioria absoluta, gente sincera de uma ascese rigorosa em busca da fidelidade à Lei de Deus. Provavelmente estamos muito influenciados pelo Capítulo 23 de Mateus, uma das páginas mais virulentas do Novo Testamento, que reflete mais a situação de perseguição dos cristãos pelos fariseus pelo ano 85, do que a situação no tempo de Jesus. A grande crítica de Jesus contra este grupo não era por motivos de moral, mas porque, confiando na observação externa da Lei como garantia de salvação, tiraram a gratuidade de Deus, que nos salva “de graça”.

Enquanto os fariseus gozavam de enorme prestígio diante do povo no tempo de Jesus, do outro lado um dos grupos mais odiados e desprezados era o dos “cobradores de impostos”, ou “publicanos” (assim chamados porque cobravam um imposto denominado “publicum”, um tipo de ICMS). Esse ódio não nasceu simplesmente da resistência natural do povo contra a cobrança de impostos e taxas, mas do fato que eles trabalhavam pelo poder opressor - os Romanos, através dos seus lacaios, os Herodianos. Os publicanos estavam entre os mais “impuros”.

            Como aconteceu no início do capítulo 15, aqui também Lucas destaca o motivo da parábola: “Para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola” (v. 9).

            É interessante verificar os dois tipos de oração! O Fariseu elenca todas as suas observâncias, tudo que ele faz, conforme manda o a Lei! Ele não mente - ele faz isso mesmo. Só que ele confia absolutamente no poder da sua prática para garantir a salvação. Assim dispensa a graça de Deus, pois se a Lei é capaz de salvar, não precisamos da graça! Ainda se dá o luxo de desprezar os que não viviam como ele - ou porque não queriam, ou porque não conseguiam: “Ó Deus, eu te agradeço, porque não sou como os outros homens, que são ladrões, desonestos, adúlteros, nem como esse cobrador de impostos.” (v. 11)

            O publicano também não mente quando reza! Longe do altar, nem se atrevia a levantar os olhos para o céu, mas batia no peito em sinal de arrependimento de dizia: “Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador” (v. 13). E era a verdade - ele era vigarista, ladrão opressor do seu povo, traidor da sua raça – mas, ele tem consciência disso, e não só disso, mas do fato de que por si mesmo ele é incapaz de mudar a sua situação moral. A sua única esperança é jogar-se diante da misericórdia de Deus. Para o espanto dos seus ouvintes, Jesus afirma que o desprezado publicano voltou para a casa “justificado” ( = tornado justo) por Deus, e não o outro; pois, é Deus que nos torna justos por pura gratuidade, e não em recompensa por termos observado as minúcias de uma Lei. Por isso Jesus fala algo ainda mais chocante – que o fariseu não foi “justificado”, não porque não vivesse segundo a Lei, mas porque ele confiava nos seus merecimentos e assim nem deixava espaço para a graça de Deus.  De fato, dispensava a necessidade da ação gratuita do Pai.

            Como entrou o farisaísmo de cheio nas nossas tradições de espiritualidade! Como as nossas pregações reduziam a fé e o seguimento de Jesus a uma observância externa de uma lista de Leis! Como reduzimos Deus a um mero “banqueiro” que no fim da vida faz as contas e nos dá o que nós “merecemos”, de acordo com uma teologia de retribuição! Quem tem conta em haver com Ele, ganhará o céu, e quem estiver em dívida, irá para o inferno! Onde fica a graça de Deus, e a cruz de Cristo? Paulo mudou de vida quando descobriu que a Lei, por tão importante que fosse como “pedagogo”, não era capaz de salvar, mas que é Deus que nos salva, sem mérito algum nosso, através de Jesus Cristo! Com esta descoberta, se libertou! Defendia este seu “evangelho”, conforme Gálatas 1, a ferro e fogo!

O texto de hoje nos convida para que examinemos até que ponto deixamos o farisaísmo entrar em nossa vida; até que ponto confiamos em nós mesmos como agentes da nossa salvação; até que ponto nos damos o direito de julgar os outros, conforme os nossos critérios. Uma advertência saudável e oportuna que alerta contra uma mentalidade “elitista” e “excludente”, que pode insinuar-se na nossa espiritualidade, como fez na dos fariseus, sem que tomemos consciência disso!

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VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (16.10.16)

Lucas 18, 1-8

“Será que o Filho do Homem vai encontrar a fé sobre a terra?”

            Embora possa parecer que o tema deste trecho seja simplesmente a oração, na realidade, Lucas o liga ao trecho anterior (17, 22-37), que versava sobre a segunda vinda do Filho do Homem, através da referência em v. 8: “Mas, o Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” Então devemos entender o sentido original do texto em referência à situação das comunidades do fim do primeiro século - Jesus tardava a retornar, as perseguições estavam no horizonte, as comunidades estavam sofrendo vários tipos de pressão, e a fé delas começava a vacilar. Por isso, Lucas quer dar-lhes um ensinamento claro - Deus não vai abandoná-las, então, devem ficar firmes, constantes na oração até que Ele venha.

            O tema da oração cristã já foi tratado no capítulo 11 de Lucas. Aqui volta à tona. O versículo 8 mostra que não se refere à simples oração permanente, mas à uma atitude de oração baseada na fé, até que Jesus volte.

            Jesus tira uma mensagem de uma situação que devia ter sido comum nos tempos idos (sem falar da atualidade!) - a impotência de uma pobre mulher diante da prepotência de um juiz corrupto. Por ser viúva em uma sociedade patriarcal e machista, ela encarna a impotência dos pobres e marginalizados diante dos poderes do mundo. Faz lembrar a denúncia do profeta Miquéias, estudado mês passado no Mês da Bíblia: “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder em suas mãos” (Mq 2, 1).

            Jesus dá uma lição clara - se até um juiz injusto atende os pedidos insistentes da viúva, quanto mais Deus vai atender os pedidos daqueles que Ele ama! Se a persistência da viúva alcança o seu objetivo, quanto mais a oração persistente do discípulo, diante de um Deus gracioso: “E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que dia e noite gritam por Ele? Será que vai fazê-los esperar? Eu lhes digo que Deus fará justiça para eles, e bem depressa” (v 7).  Deus não vai atender a oração para se livrar do incômodo, como o juiz injusto, mas porque Ele é o contrário: o Pai amoroso que só quer o bem dos filhos e filhas.

            Aqui o texto nos faz lembrar um dos temas centrais de toda a Bíblia - o grito do oprimido e a resposta de Deus. É um tema constante, passando pelas páginas bíblicas desde Êxodo 3. Assim, a questão decisiva não é se Deus fará ou não justiça às comunidades oprimidas - é óbvio que vai! A pergunta a ser respondida se formula no versículo 8, que já foi citado: “O Filho do Homem, quando vier, será que vai encontrar a fé sobre a terra?” O problema não é Deus, mas os discípulos - será que os discípulos de Jesus ficarão fiéis a Ele durante a longa espera até a sua segunda vinda? Para que tenham forças para vencer, então é necessário que eles rezem constantemente e com fé. Essa mesma ideia se faz presente no fim da Oração do Senhor: “Não nos deixes cair em tentação” (Lc 11, 4). Lá também, Jesus ensinou que a comunidade deve pedir o dom da fé e da perseverança, para não desanimar diante dos problemas da vida.

            É muito atual esse ensinamento de Jesus. Em uma época de tanto desânimo, tanta falta de perspectivas, quando se chega a falar no “fim das utopias”, devemos sempre rezar para que não sucumbamos à tentação do desânimo e do desespero, de não acreditar na força do “grão da mostarda”, de desacreditar na presença do Reino. O Evangelho de hoje, aplicado a nós, existe para mostrar-nos: “a necessidade de rezar sempre, sem nunca desistir” (v. 1). Cabe a nós praticá-lo!

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VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM (09.10.16)

Lucas 17, 11-19

“Levante-se e vá, a sua fé o salvou”

            Estamos ainda caminhando com Jesus na sua viagem a Jerusalém, ao encontro do seu destino na Cruz. Nesta parte do Evangelho (17, 11-19, 27) Jesus conclui o seu ensinamento sobre o que é necessário para segui-Lo. Aqui temos mais um exemplo de uma história própria a Lucas, o quarto milagre na sua narrativa da viagem. Como nos outros casos (11, 14; 13, 10-17; 14, 1-6), o mais importante não é o milagre em si, mas, o ensinamento que brota dele.

            As informações geográficas de Lucas, que não era natural da Palestina, são muitas vezes imprecisas. Para ele, dois fatos são importantes - a meta de Jesus é Jerusalém, onde se dará o seu encontro definitivo com a vontade do Pai, e o fato que Ele se encontra com um samaritano, um dos excluídos oficialmente do povo de Deus.

            Para entendermos o contexto da passagem e a situação de quem fosse considerado leproso (embora muitos na realidade não eram - simplesmente sofriam de alguma doença da pele!), podemos estudar trechos como Lv 13-14; Nm 5, 2-3; 2Rs 7, 3-9; 15, 5. Houve barreiras enormes que separavam essas pessoas sofridas da convivência normal da comunidade. Aqui os excluídos pelas barreiras religiosas e sociais vão se encontrar com quem rompe estas mesmas barreiras, em nome do Deus misericordioso.

            O grito dos leprosos é significante: “Jesus, Mestre, tem compaixão de nós” (v. 13). Mais uma vez encontramos a palavra “compaixão”. Em todos os Sinóticos, destaca-se a “compaixão” de Jesus. A atitude d’Ele nunca é de ter “pena” de alguém, pois, quer queiramos quer não, quando a gente tem pena de alguém, está se colocando num outro nível do que a outra pessoa. Ter “compaixão” é sentir a “paixão” do outro “com” ele ou ela, ou seja, entrar no sofrimento, nos sentimentos do outro, e assim não tirar dele a sua dignidade.

            Mas, foi somente o samaritano que “percebeu” a ação de Deus nele. Com certeza o termo “percebeu” não quer se referir somente à cura física - ele percebeu a presença da salvação de Deus, da qual a cura física era sinal. Então, a sua volta a Jesus significa a sua conversão. A resposta dele é de “dar glória a Deus”, muitas vezes em Lucas a resposta correta a uma manifestação da misericórdia de Deus (2, 20; 5, 25; 5, 26; 7, 16; 13, 13; 18, 43; 23, 47 etc). Aqui temos uma conotação cristológica - o curado louva a Deus pelo que foi feito por Jesus, o agente da misericórdia de Deus.

            O texto sublinha que aquele que voltou para gloriar a Deus, aquele que percebeu a presença da ação salvífica de Deus, era um samaritano: “Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?” (v. 18). Mais uma vez, o herói da história é tirado de dentro da categoria dos excluídos, tema caro ao coração de Lucas. É só pensar nos pastores, no “Bom Samaritano”, na “mulher pecadora”, nas mulheres no túmulo, e outros exemplos. A salvação de Deus é universal, e não limitada a uma etnia, categoria ou classe.

            Lucas não se contenta em relatar somente a cura de uma doença - ele nos leva a uma compreensão da missão salvífica de Jesus. O relato conclui com a frase: “Levante-se e vá. Sua fé o salvou” (v. 19). Jesus é aquele que cura e restaura à convivência humana, símbolo da salvação integral que Deus oferece a todos que aceitam a sua mensagem! Sejamos como o leproso – sejamos sensíveis e percebamos a ação de Deus no meio de nós, e gloriemos em palavras e ações aquele que nos oferece a salvação de todos os males, não por nossos méritos, mas por graça!

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VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (02.10.16)

Lucas 17, 5-10

“Aumenta a nossa fé!”

            Lucas reúne nos primeiros dez versículos deste capítulo diversos dizeres de Jesus sobre algumas atitudes fundamentais para a vida de quem quer segui-Lo pelo caminho do discipulado. Podemos dividir o trecho de hoje em duas partes: vv. 5-7 e vv. 8-10.

            A primeira parte trata da questão da fé inabalável, que deve ser característica do discípulo. Inicia-se o diálogo com os apóstolos expressando diante de Jesus a sua insegurança quanto à sua fé: “Os apóstolos disseram ao Senhor: “Aumenta a nossa fé!” (v. 5). Tal pedido tem outros ecos nos evangelhos. Faz-nos lembrar do pai do moço epiléptico em Marcos: “Eu tenho fé, mas ajude a minha falta de fé!” (Mc 9, 24). É a experiência de todo(a) discípulo(a) - acreditamos em Jesus, queremos seguir a sua pessoa e o seu projeto, mas a vida se encarrega de nos demonstrar como é fraca a nossa fé - quantas caídas, traições, incoerências, recaídas! O único recurso é pedir este dom gratuito de Deus, que ninguém pode exigir por seus próprios méritos, que é a fé inabalável. Do fundo no nosso ser, gritamos com os Doze: “Aumenta a nossa fé!”

Com a hipérbole (exagero) típica do oriental, Jesus enfatiza tanto a necessidade da fé quanto a sua força, através das imagens do grão de mostarda (semente bem pequena), e do sicômoro - árvore mais ou menos grande que tem um sistema extensivo de raízes: “Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a este sicômoro: “Arranque-se daí, e plante-se no mar. E ela obedeceria a vocês.” (v. 6)

            A segunda parte do trecho fala sobre a atitude correta de quem tem um ofício ou ministério dentro da comunidade cristã. Em outros trechos - como 12, 35-37 - Lucas enfatiza a gratuidade de Deus diante da escolha dos seus discípulos. Aqui temos o outro lado - a responsabilidade de quem foi chamado sem mérito algum da sua parte. Ser chamado para qualquer ministério, ordenado ou não, é para que sigamos o exemplo do Mestre, que não veio para ser servido, mas, para servir, e não para vangloriarmo-nos como se fôssemos mais do que os outros membros da comunidade.

            O ensinamento não é que os discípulos não valem nada, nem que o seu trabalho não tem valor. O ponto central é que o fato de terem desenvolvido bem as suas tarefas e missão não lhes dá o direito de exigir a graça de Deus por causa dos seus méritos. Tal graça é, e sempre será, um dom gratuitamente oferecido.

            Hoje nós estamos na mesma situação dos apóstolos - fomos chamados à fé sem mérito algum da nossa parte. Agradecendo a Deus por este dom, assumamos a nossa parte - a de cumprir bem a missão recebida, sem nos gabarmos disso, pois se nós conseguimos fazer bem as coisas, também é porque podíamos contar com a graça de Deus (2Cor 12, 1-10). Sem falsa humildade, mas também sem vaidade, devemos rezar: “Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer” (v. 19)

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VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (25.09.16)

Lucas 16,19-31

“Mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos”

            Este último trecho do capítulo dezesseis continua os ensinamentos de Jesus sobre as riquezas, ou melhor, sobre a questão fundamental da partilha dos bens como necessidade absoluta para os seus discípulos. Aqui temos a famosa parábola do “Rico e Lázaro”, e também a reflexão sobre o destino dos irmãos do rico. Levanta a questão: “Irão seguir o exemplo do irmão rico, ou atender o ensinamento tanto de Jesus como do Antigo Testamento sobre o cuidado dos necessitados, como Lázaro, e assim se tornarem “Filhos de Abraão”?

            Os destinatários do Evangelho de Lucas eram as comunidades cristãs urbanas das cidades gregas do Império Romano. A imagem da parábola é típica da sociedade urbana - tanto a de então como a de hoje! De um lado, o rico que esbanja dinheiro e comida em banquetes e futilidades, e do outro lado o pobre miserável, faminto e doente. Ambos vivem lado ao lado, sem que o rico tome conhecimento da existência e dos sofrimentos do pobre! Quantos exemplos disso existem hoje - lado ao lado com a maior opulência, a mais desumana miséria, e entre as duas situações uma barreira de cegueira e indiferença?

            É muito interessante - e importante para a nossa compreensão da parábola - que os vv. 22-26 não dizem que o rico foi para o inferno por que ele fazia algo moralmente repreensível; e nem que Lázaro foi para o céu porque ele era “santo”. Por isso, por tão inconveniente que possa soar em uma sociedade como a nossa, dá para entender que esse trecho condena o rico simplesmente por ser insensível, em uma sociedade de empobrecimento, e abençoa o pobre pelo simples fato de estar sofrendo a miséria em uma sociedade que esbanja os bens necessários para a vida. É interessante que no texto, o rico não tem nome, mas o pobre sim – “Lázaro” que dizer em hebraico “auxiliado por Deus”. A riqueza torna-se pecado diante da situação desumana dos pobres, pois é a negação da partilha e da solidariedade! O que dizer então da nossa sociedade atual neoliberal, com a escandalosa desigualdade que ela ostenta? O rico foi condenado porque ele simplesmente se fechou diante do sofrimento alheio – a parábola não diz uma palavra sobre o comportamento dele fora desse aspecto. Esse fechamento é a negação de todo o ensinamento do Antigo e do Novo Testamento. O simples fato de existir lado ao lado o rico opulento e o Lázaro sofrido é a condenação de uma sociedade pecaminosa que permite esta situação anti-evangélica.

            A segunda parte da história, versículos 27-31, continua com o diálogo entre o rico e Abraão, e mostra claramente que a sua indiferença diante do sofrimento de Lázaro não estava de acordo com o Antigo Testamento (vv. 29-31), e nem com Jesus (v. 9). Enfatiza que nem manifestações milagrosas vão mudar o coração duro de quem não quer ouvir a Palavra de Deus: “Abraão lhe disse: “Se eles não escutam a Moisés e os profetas, mesmo que um dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos.” (v. 31); “Moisés e os profetas” significam a Escritura, pois a Bíblia hebraica se dividiu em Lei (= Moisés) e Profetas.

Palavra tão atual! Pois não é por falta de conhecimento da Palavra de Deus que o mundo se acha na sua situação atual. Não é por desconhecimento do ensinamento de Jesus sobre a fraternidade e a solidariedade, que temos uma sociedade excludente hoje no Brasil! Não é por falta de celebrações litúrgicas e sacramentais que há tanto sofrimento nas nossas ruas e bairros! É simplesmente porque a sociedade opta por se organizar conforme critérios anti-evangélicos, e porque tantos cristãos reduzem o cristianismo a uma série de leis, ritos e doutrinas - muitas vezes não ultrapassando muito de uma simples lista de “boas maneiras”. Optamos por diluir as exigências do Evangelho para que possamos continuar com os “ricos” e os “Lázaros” de hoje, lado ao lado, sem que estes incomodem aqueles! Sabemos o que a Bíblia diz, conhecemos muito bem o ensinamento de Jesus - e continuamos na construção de uma sociedade injusta, fundamentada sobre a idolatria do lucro, com a consequência automática do sofrimento e exclusão.

            O rico e Lázaro continuam morando hoje em nossas cidades. Jesus hoje nos desafia para que optemos para uma outra forma de sociedade, onde todos terão acesso aos bens necessários para uma vida digna. Se não queremos ouvir o que nos diz a Palavra de Deus, se nós queremos continuar surdos diante do grito dos excluídos, então o nosso destino será também aquele do rico da história.

            “Tenho medo de não responder, de fingir que não escutei; tenho medo de ouvir teu chamado, virar doutro lado e fingir que não sei!” – diz a cantiga!

            Lucas não deixa que o leitor evite as questões gritantes da ligação entre fé e vida, entre religião e economia- questões mais atuais do que nunca, sempre abordadas pelo Papa Francisco, que na verdade simplesmente nos recorda o ensinamento do Evangelho, que a sociedade conhece bem, mas reluta para não colocar em prática.

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VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (18.09.16)

Lucas 16,1-13

“Quem é fiel nas pequenas coisas, também é nas grandes”

            Este texto faz parte de um capítulo aparentemente fragmentado, mas, que realmente tem como tema unificador o uso dos bens materiais em benefício dos outros, especialmente dos mais necessitados. Divide-se em quatro segmentos inter-relacionados: vv. 1-8a; vv. 8b- 13; vv. 14-18; vv. 19-31. Três destes trechos serão usados hoje e nos próximos dois domingos.

            A interpretação popular da primeira parte, a história do “Administrador Injusto”, traz muitos problemas para os pregadores. Pois, aparentemente, Jesus está elogiando quem agisse de maneira desonesta. Tal interpretação é moralmente inaceitável. Por isso, temos que olhar bem a história - os estudiosos não estão de acordo se trata-se de uma parábola, ou uma “história-exemplo”, que Lucas também usa muito (10, 29-37; 12, 16-21; 16, 19-31;18, 9-14).

            Para que entendamos melhor o contexto da história, é bom saber que os documentos da época atestam que frequentemente se usava o sistema aqui relatado. Como a cobrança de juros era proibida pela Lei, o administrador embutiu o ágio na “nota promissória”. Por exemplo, uma pessoa talvez tivesse emprestado 200 litros de azeite, mas por causa dos juros de 100%, a conta dele acusava 400 litros. Então, na história de Lucas, o administrador, enfrentando a demissão, resolve na mesma hora vingar-se do seu patrão - reduzindo as contas devidas ao seu valor real, e assim perdendo para ele os juros - e fazer amigos para ele mesmo, entre os devedores.

            O “patrão” ou “Senhor” a que se refere o v. 8a não é Jesus, mas o “homem rico” do v.1. Ele “elogiou” o administrador desonesto, por sua esperteza! A palavra grega aqui traduzida por “esperteza” significa uma estratégia prática visando alcançar um fim determinado. Tem nada a ver com a virtude, no sentido mais geral de agir com justiça. Assim, embora possa parecer, à primeira vista, que Lucas esteja elogiando a desonestidade, a interpretação mais exegética diz que o que devemos imitar não é a desonestidade, mas, o bom senso na administração dos bens materiais.

            Para os que entendem o trecho como uma verdadeira parábola, há duas explicações possíveis: uma diz que o que Jesus quer ensinar é que os seus discípulos, quando confrontados com a decisão de segui-Lo ou não, devem agir de maneira decisiva, como fez o administrador quando confrontado com a sua situação de crise, e não vacilar. A outra interpretação vai na direção do “contraste”: o sentido normal de justiça não condiz com a atitude condizente do patrão em v. 8. Assim, se faz contraste entre a maneira de agir dos homens e de Deus. Este ponto de vista corresponde com outros ensinamentos em Lucas sobre a nova justiça, a justiça do Reino e a dos homens - os critérios da “justiça do Reino de Deus” não são os da sociedade, mas exigem o perdão e o relacionamento com os inimigos.

            A segunda parte do trecho - vv. 8b - 13 - são aplicações práticas de como os discípulos devem usar os bens materiais. Indica o entusiasmo dos “que pertencem a este mundo” como exemplo para os discípulos que muitas vezes são insossos no seu seguimento de Jesus. “O dinheiro injusto”, que pertence a um mundo com princípios de exploração, pode até servir aos discípulos quando usado para a partilha com os necessitados, que se converterão em “amigos” que “vão receber vocês nas moradas eternas” (v. 9).

            Outro ponto destacado é a necessidade de fidelidade diária. Se nós partilhamos os nossos bens na convivência quotidiana, ganharemos os verdadeiros bens imperecíveis como prêmio eterno. Mas, isso exige fidelidade e lealdade total a Deus - a alternativa é sucumbir às tentações da injustiça que escraviza, - e a gente fica leal a este Deus através da partilha dos bens, especialmente com os mais necessitados.

            Embora possamos discutir e debater sobre interpretações minuciosas do trecho, uma coisa é inegável: Jesus quer advertir os seus seguidores sobre a tentação de escravizar-se com o dinheiro, e na mesma hora, exigir que a partilha material seja ponto marcante da vivência dos seus discípulos!

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VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (11.09.16)

Lucas 15, 1-32.

“A Ovelha, A Moeda e O Filho, Perdidos e Achados”

            O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase na misericórdia de Deus. Se fosse para classificar numa só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo saliente esta convicção tanto como o capítulo 15, que hoje lemos na sua totalidade.

            As três parábolas aqui relatadas são entre as mais conhecidas da Bíblia - geralmente chamadas (com razão ou não) “A Ovelha Perdida”, “A Moeda Perdida” e “O Filho Pródigo”. Talvez devamos ter um pouco de cuidado com esses títulos - já consagrados pelo uso - pois já indicam uma possível interpretação do ponto central de cada parábola - não necessariamente a mais adequada!

            De fato, cada parábola poderia ficar independente, e ter a sua interpretação fora do contexto da sua colocação em Lucas. Mas, para que sejamos fiéis à intenção do evangelista, devemos interpretá-las dentro do seu esquema teológico e literário. A Parábola da Ovelha também existe em Mateus, mas dentro de outro contexto e com outros destinatários, tornando-se a parábola da “Ovelha Desgarrada”. Em Mt 18, 12-14, a parábola é dirigida aos discípulos, enquanto em Lc é contada para os fariseus e escribas. Como os destinatários são diferentes, também a sua mensagem é diferente nos dois contextos.

            Para entender melhor o que Lucas quer ensinar, devemos dar muita atenção aos primeiros dois versículos do capítulo 15. Pois, estes versículos nos fornecem o motivo pelo qual Jesus contou as parábolas, e, por conseguinte, uma chave valiosa de interpretação. Funcionam como um gancho sobre o qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para escutá-Lo. Mas, os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!” (vv. 1-2). Depois, vem a chave de interpretação: “Então, Jesus contou lhes esta parábola” (v. 3). Ou seja, Jesus contou estas parábolas porque os fariseus e doutores da Lei o criticavam por associar-se com gente de má fama! Então, a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus.

            Neste sentido podemos interpretar a parábola conhecida como a parábola da “Ovelha Perdida”. Jesus, diante da intransigência dos fariseus, pergunta: “Se um de vocês tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir atrás da ovelha que se perdeu, até encontrá-la?” (v. 4). A resposta razoável é “não” - nenhum pastor, com a cabeça no lugar, deixaria noventa e nove ovelhas à deriva para tentar encontrar uma ovelha perdida. Seria loucura! Mas, exatamente aqui está o sentido da parábola - Deus faz loucuras por amor a nós! Ele é capaz de fazer o que nenhuma pessoa humana faria - ir atrás da ovelha perdida, custe o que custar, até achar e trazer de volta! Aqui a parábola funciona não por comparação, mas por contraste - Deus é o oposto dos homens, que só agem através de decisões calculistas. Faz loucura - e a loucura do amor consegue o que a razão jamais conseguiria, a volta da ovelha perdida! Assim, se faz contraste entre a atitude de Deus e a atitude dos fariseus e doutores da Lei! Nos questiona sobre as nossas atitudes diante das “ovelhas perdidas” das nossas comunidades e famílias! Agimos como os fariseus, com censuras e moralismos? Ou, como Deus, com a loucura do amor?

            Retoma-se a mensagem na segunda parábola - a parábola da “moeda perdida”. Não que ela fosse de tão grande valor. Mas, para a pobre, até uma moeda pequena faz falta! Então, a mulher faz questão de virar a casa (as casas não tinham janelas, por isso precisava acender uma lâmpada) até achá-la. É assim com Deus - talvez a gente ache que uma pessoa não tenha grande valor, mas para Deus faz falta, e Ele é capaz de “exagerar” para recuperar a pessoa perdida, por tão insignificante que possa parecer. Mais uma vez, um contraste com a atitude elitista dos fariseus - e quem sabe, de muitos cristãos hoje!

            Por fim, chegamos à parábola do “Filho Pródigo”, ou do “Pai que perdoa”, ou dos “Dois Irmãos”, conforme a interpretação e o gosto de cada um! Fiquemos somente com o texto sagrado e não com os subtítulos! Podemos ler este texto a partir do filho perdido, ou do pai, ou do irmão mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (= esbanjador). Assim, ressaltaria o processo de conversão - sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal – mas, diante dos primeiros três versículos do capítulo, não a interpretação primária que Lucas queria dar.

            Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois, não espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa atitude não “digna” de um patriarca oriental idoso, preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e que se alegra com a volta de quem estava morto! Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável!

            Mas, o contexto do capítulo quinze, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente - a partir do irmão mais velho. Pois, Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam porque Ele acolhe os pecadores! Então, o filho mais velho é imagem dos fariseus - “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujos corações estão fechados, a ponto de serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a atitude deles contradiz claramente a atitude de Deus! No fundo a questão é, em que Deus acreditamos? – um Deus que age com critérios humanos, não buscando nem acolhendo pecadores, ou o Deus de Jesus, “enlouquecido” pelo amor que faz “loucuras” para que ninguém se perca! Aqui temos ecos de Is 55, 10-11, onde Deus afirma: “Os meus caminhos não são os caminhos de vocês e os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês”.

            Aqui, Jesus questiona todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão mais velho - “gente boa”, gente de “observância”, mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrarmo-nos com a volta ao estado original do irmão ou irmã perdido/a?

            Podemos até dizer que o capítulo quinze de Lucas é o coração do seu Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o Deus de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas, com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estivesse perdido. É o Deus de misericórdia e do perdão. Como traduzimos esta visão de Deus em nossa vida?

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VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (04.09.16)

Lucas 14, 25-33

“Quem não carrega a sua cruz... não pode ser meu discípulo”

            Aprofundando o ensinamento sobre o discipulado, Jesus aqui expõe as condições para um verdadeiro seguimento. À primeira vista, a leitura pode nos chocar! Pode até parecer que Jesus esteja ensinando algo que não condiz muito com os ensinamentos cristãos. Isso especialmente se a tradução da nossa bíblia fala que nós devemos “odiar” os nossos pais e família (uma tradução literalmente correta). Mas, aqui estamos novamente diante do problema das culturas e das línguas. Pois, esse texto nos traz um “semitismo”, ou seja, uma expressão de uma língua semita (no caso de Jesus, o aramaico, embora Lucas escreva em grego) que tem que ser interpretada no contexto da cultura que aquela língua expressa. O aramaico e o hebraico usavam muitas expressões assim, que não tinham a mesma força que têm em português. Realmente o termo traduzido por “odiar” significava “desapegar-se”. Então podemos traduzir em termos inteligíveis portugueses: “Se alguém vem a mim, e não dá preferência mais a mim do que ao seu pai, à sua mãe, à mulher, aos filhos, aos irmãos, às irmãs, e até mesmo à sua própria vida, esse não pode ser meu discípulo” (v. 26).

            Jesus quer deixar bem claro - como Ele faz muitas vezes “na caminhada” - que a opção pelo Reino necessariamente exige renúncias. Não só renúncia do mal e do pecado, mas, renúncia de coisas altamente positivas em si; não renúncia por renunciar, mas, em vista de um bem maior - o Reino de Deus, o único bem que pode satisfazer plenamente os anseios mais profundos do coração humano. Por isso, a vinda de Jesus pode ser vista como a crise escatológica última - pois põe todos nós diante da opção mais fundamental: Quais são os valores reais da nossa vida?

No mundo pós-moderno, onde se foge dos compromissos permanentes, onde tudo é relativizado, os desejos individuais são absolutizados, e a subjetividade se confunde com o individualismo, esta proposta soa como contra-cultural. Na verdade, é contra-cultural em uma cultura consumista, materialista, individualista, onde o maior valor é a gratificação individual imediata e a preocupação com o bem-comum é relegada a um segundo plano, se é que seja levado em conta! Jesus nos convida a definir os valores mais profundos da nossa vida - e insiste que nada, por mais valioso que seja, possa ser mais importante do que a dedicação total ao Reino. Claro, Ele não nos obriga - estamos livres para recusar esta exigência, mas então não seremos discípulos d’Ele! Aqui põe em cheque a vivência do cristão que “não é frio nem quente, mas morno”, e por isso mesmo “está para ser vomitado da minha boca” (Ap 3, 16). Vivendo em um mundo onde há muita coisa “light” – margarina, refrigerante, até feijoada! – também está em voga um Jesus “light”, sem exigências de autodoação, sem senso crítico diante da realidade de tanto sofrimento, mas, que nos confirma em uma prática religiosa aburguesada e acomodada que nos consola e não nos incomoda ou perturba. Pregadores desse “Jesus light” fazem sucesso nas emissoras de rádio e televisão – mas traem o Jesus real, Jesus de Nazaré, que veio para que todos tivessem vida plena (Jo 10, 10) mesmo que custasse a sua vida. É esse Jesus que nos convida hoje ao discipulado.

            O tema da cruz reaparece aqui - e de novo lembramos que “carregar a cruz” não é de maneira alguma simplesmente “sofrer” por sofrer. É a consequência de uma coerência com o projeto e a proposta de vida de Jesus. É condição imprescindível para quem quer ser discípulo d’Ele: “Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo” (v. 27). Podemos dizer que, se o trecho que precede este texto (vv. 15-24, “Um rei fez um grande banquete”) enfatiza a gratuidade do chamamento da parte de Deus, esses versículos salientam o outro lado da medalha - a resposta incondicional dos discípulos. Todo o Evangelho de Lucas - como também os outros - deixa bem claro que esta resposta é a meta da nossa vida. Ninguém começa a caminhada com total dedicação ao Reino - mesmo que pense que faz! É na caminhada de anos, com as nossas incoerências, tropeços, erros, e traições, que a gente aprende a ser discípulo/a. A experiência de Pedro e dos Doze que nos diga!

            As duas parábolas seguintes - a do construtor tolo e do rei que vai à guerra - nos ensinam a necessidade de reflexão antes da ação. Ou seja, aqueles que querem seguir Jesus devem refletir sobre o preço a pagar. A situação triste do construtor falido e do rei derrotado são símbolos da situação do discípulo que desistiu “pelo caminho”.

            A reflexão sobre as exigências do discipulado pode nos desanimar diante da realidade das nossas fraquezas, a não ser que reflitamos também sobre a gratuidade de Deus que não nos abandona, mas nos ama como somos e nos dará forças para a caminhada. Assim foi a experiência do grande discípulo Paulo, que após longos anos de experiência, incluindo as maiores experiências místicas e os maiores sofrimentos, pôde afirmar com toda a sinceridade: “Eu não consigo entender nem mesmo o que faço; pois não faço aquilo que eu quero, mas aquilo que mais detesto... Não faço o bem que quero, e sim o mal que não quero” (Rm 7, 15s). Mas, mesmo assim, reconhecendo os fracassos e falhas na sua caminhada de discípulo, exclama com alegria: “Portanto com muito gosto, prefiro gabar-me das minhas fraquezas, para que a força de Cristo habite em mim. É por isso que eu me alegro nas fraquezas, humilhações, necessidades perseguições e angústias, por causa de Cristo. Pois, quando sou fraco, então é que sou forte (2Cor 12, 9s).

            Pois, se ele fez a experiência das exigências inerentes ao seguimento de Jesus, ele também fez a experiência da graça de Deus: “Para você, basta a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta o seu poder” (2Cor 12, 9). O Ano de Misericórdia nos recorda essa realidade e nos convida à experiência da misericórdia de Deus em nossas vidas e a levar essa experiência a todos que encontramos. Não tenhamos medo de assumir o desafio que Jesus hoje nos lança, pois Ele nos dará a graça necessária para a caminhada. Basta querer e pedir!

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Tomaz Hughes SVD

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PRATICAR A JUSTIÇA, AMAR A MISERICÓRDIA E CAMINHAR COM DEUS

Setembro 2016 = Mês da Bíblia

Como já é de costume, as comunidades católicas do Brasil estão convocadas para fazer do mês de setembro o “Mês da Bíblia”. A escolha cai em setembro por causa da festa de São Jerônimo, no dia 30 de setembro, grande estudioso e podemos até dizer, padroeiro do uso da Bíblia pelo Povo de Deus. A CNBB propõe a todas as comunidades um texto a ser aprofundado nesse tempo de graça. Para 2016, o tema escolhido é “Para que neles os povos tenham vida: O Livro de Miquéias” e o lema “Praticar a justiça, amar a misericórdia e caminhar com Deus”.

            Torna-se importante distinguir entre dois profetas chamados Miquéias, que viviam e profetizavam em épocas diferentes. Em 1Rs 22, 7-28 encontramos Miquéias de Jemla, que confrontava destemidamente o Rei Acab de Israel. Porém, o Livro de Miquéias contém oráculos e pronunciamentos do profeta Miquéias de Morasti, que profetizava no Reino de Judá, um século mais tarde, durante os Reinos dos Reis Joatão, Acaz e Ezequias. As indicações cronológicas do próprio livro indicam que a sua ação profética se deu entre 727 e 701 a.C.

            É bom que clarifiquemos algumas caraterísticas do autêntico profeta bíblica. Examinando a pregação e a atuação de tantos homens e mulheres nas páginas das Escrituras, e especialmente o maior de todos, Jesus de Nazaré, podemos afirmar que, em primeiro lugar, o profeta é movido pelas suas profundas experiências de Deus e do povo. É no confronto entre a situação real do povo sofrido e a proposta de Deus, revelada na história, e em grande parte descrito nas Escrituras, que o profeta sente o impulso divino para ser a voz de Deus em favor dos que a sociedade dominante não permite ter voz nem vez. Muitas vezes ele preferiria ficar calado, mas o Espírito do Senhor o impele e ele sente a impossibilidade de calar-se ou omitir-se diante de tanto sofrimento e opressão que ele entende, corretamente, como rejeição do Deus da Aliança, mesmo que os detentores do poder mantenham a fachada de ritos religiosos e louvores a Deus.

            Ele é caraterizado pela veemência - pois antes de tentar convencer outros, ele mesmo é totalmente convencido do que fala. De Elias, se escrevia que “suas palavras queimavam como uma tocha” (Eclo 41, 1). É empolgante e cheio de paixão. Ele reflete o mundo em convulsão, em crise, mesmo quando a crise é camuflada pelos poderosos. É tomado pelo Espírito que põe fogo. Assim podemos entender as palavras de Amós, que foi proibido a falar no templo de Betel pelo sacerdote Amasias: “Eu não sou profeta nem discípulo de profeta. Eu sou criador de gado e cultivador do sicômoros. Foi Javé quem me tirou de trás do rebanho e me ordenou: “Vá profetizar ao meu povo Israel”. Pois bem escute agora a palavra de Javé....” (Am 7, 14-16). Ele sabe que vai sofrer pela profecia, mas, não pode resistir à ação do Espírito: “Ruge o leão: Quem não temerá? Fala o senhor Javé: quem não profetizara?” (Am 3, 8). Como consequência, o profeta anuncia o projeto de Deus e denuncia tudo o que se opõe a Ele. Defende o fraco e confronta o forte, seja ele Rei, comerciante, Sacerdote ou falso profeta e como consequência, é quase sempre uma pessoa perseguida, expulsa, torturada e assassinada.

            Assim podemos dizer que é sempre necessário contextualizar o profeta, pois não fala nem age num vácuo. É na leitura que faz da realidade que o cerca, sempre a partir da ótica dos sofridos e explorados, que ele encontra a mensagem de Deus. Olhemos algo do contexto político-econômico-social do tempo de Miquéias de Morasti para entendermos melhor a sua atuação e mensagem.

            O elemento determinante no cenário internacional foi a ascensão do Império Assírio, dominando todos os pequenos estados da região numa grande expansão comandada pelo Imperador Tiglat-Falaser III (745-727). Dois dos pequenos estados, Damasco e Israel se uniram para invadir Judá, tirar o Rei do trono e colocar outro que iria se aliar a eles numa aliança anti-assíria. Isso causou a Guerra Siro-Efraimita que deixou desolação, pilhagem e massacre onde passasse. Para se salvar, o Rei de Judá pediu a ajuda de Assíria, que teve como consequência colocar o pequeno Reino, onde morava Miquéias e o seu povo, sob o jugo implacável assírio. Em 721 a.C, a capital de Israel, Samaria foi destruída, a maioria do povo deportado e muitos estrangeiros importados como colonizadores. Era o fim do Reino do Norte, Israel. Judá então experimentou um grande crescimento populacional com a chegada de muitos do norte e uma enorme expansão comercial, mas que na verdade só beneficiava uma pequena minoria às custas da população camponesa.

            Toda a região entrou numa época de instabilidade política com alianças militares, invasões, sítios. A população do campo sofria horrores com saques constantes, concentração de terras, roubo de campos, pilhagem. Morasti, cercada por cidades fortificadas e quartéis, sofria muito os resultados do militarismo. Nesse cenário ressoava a voz de Miquéias, talvez um ancião de uma vila interiorana, denunciando a ganância da classe dominante, o roubo das terras, a destruição dos lares, e lembrando que isso tudo era a rejeição do Deus da Aliança, que queria vida digna para todos.

            Miquéias não hesita em identificar os opressores do povo e de condená-los em nome de Deus. São as lideranças políticas e legisladores: “Ai daqueles que, deitados na cama, ficam planejando a injustiça e tramando o mal! É só o dia amanhecer, já o executam, porque têm o poder em suas mãos. Cobiçam campos e os roubam; querem uma casa e a tomam” (2, 1-2). Não escapam os juízes: “Não é obrigação de vocês conhecer o direito? Inimigos do bem e amantes do mal, vocês esfolam o povo e descarnam os seus ossos...” (3, 1-4). Enfim ele vê a sociedade dominante como Deus a vê - um conluio de políticos, juízes, comerciantes e lideranças falsas religiosas, movidos à ganância e camuflando tudo com um discurso religioso falso: “Ouçam isso, chefes da casa de Jacó; prestem atenção governantes de Israel, vocês que têm horror ao direito e entortam tudo o que é reto; constroem Sião com sangue e Jerusalém com perversidade. Os chefes de vocês proferem sentenças a troco de suborno; seus sacerdotes ensinam a troco de lucro, e seus profetas dão oráculos por dinheiro. E ainda ousam apoiar-se em Javé!... Por culpa de vocês, Sião será arada como um campo, Jerusalém se tornará um montão de ruínas, e o monte do Templo será um colina cheia de mato”! (3, 9-12).

            O Profeta, porém, não é só de denúncia, mas de anúncio. Além de denunciar a situação nefasta da sociedade, muitas vezes justificada por um discurso religioso falso, ele alimenta a esperança e a resiliência dos pobres e fracos, mostrando que Deus jamais os abandona. Fomenta a esperança em dias melhores, que virão pelo esforço solidário dos fracos e não pela força armada - “ajuntarei as ovelhas estropiadas, reunirei as que foram dispersas e aquelas que eu mesmo castiguei. Farei dos estropiados um resto e das dispersas uma nação forte; e, no monte Sião, Javé reinará sobre elas, desde agora e para sempre” (4, 6-7). Em Cap. 5 profetiza que sairá de Belém (lugar do pastor Davi, e não da poderosa Jerusalém) “aquele que há de ser o chefe de Israel. Ele próprio será a paz!” (5, 4). Os primeiros cristãos não tiveram dificuldade em reler esses versículos à luz de Jesus, o Messias.

            Resumindo a sua mensagem, Miquéias lembra que a proposta de Deus para nós não é complicada nem complexa: “Ó homem, já foi explicado o que é bom e o que Javé exige de você: praticar o direito, amar a misericórdia, caminhar humildemente com o seu Deus.” (6, 8)

            Sem fazer comparações simplistas, não é difícil traçar paralelos entre a situação sofrida do povo do tempo de Miquéias e o nosso povo hoje. Em nossos tempos não faltam espoliação, ganância, corrupção, suborno, discurso religioso alienante, falso profetismo. Miquéias nos alerta para que não percamos o ânimo, nem compactuemos com uma situação que parece irreversível. Nos ajuda a buscar na fé a certeza que Deus está com os sofridos e nunca com os opressores, e nos convida a descobrir como agir para que se estabeleça a sociedade que Deus quer, alimentados pelo exemplo e palavras proféticos, especialmente do Profeta por excelência, Jesus de Nazaré.

Tomaz Hughes SVD

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VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (28.08.16)

Lucas 14, 1.7-14

“Quem se eleva será humilhado e quem, se humilha será elevado”

O relato de hoje se situa no contexto de uma refeição na casa de um chefe dos fariseus, que permanece no anonimato. Lucas tem o cuidado de sublinhar que o evento aconteceu em dia de sábado e que os fariseus estavam observando Jesus para tentar pegá-lo em algum erro. Então, embora se trate de uma refeição, não era uma confraternização, mas muito antes um confronto, mesmo que camuflado.

Jesus aproveitou a oportunidade para nos deixar o seu ensinamento sobre dois assuntos importantes para a vida dos discípulos: a opção entre a humildade e o orgulho, e a gratuidade.

Como bom pedagogo, Jesus observa a vida ao seu redor e a usa para ensinar algo sobre Deus. Os fariseus eram muito bem vistos no meio do povo simples. É um erro nosso pensar que a palavra “fariseu” seja sinônima de “hipócrita”. Talvez essa ideia venha do Capítulo 23 de Mateus, que reflete a situação de antagonismo entre eles e os discípulos de Jesus no tempo do escrito - pelo ano 85 d.C., quando os fariseus estavam expulsando os cristãos “mateanos” das sinagogas - mais do que a realidade do tempo de Jesus. Os fariseus eram exímios observadores da Lei, mas muitas vezes caíam no perigo de se sentirem superiores às massas que não podiam ou não conseguiam viver a Lei em seus pormenores. Confiando na sua observância como garantia de salvação, na prática dispensaram a gratuidade de Deus.

Vendo como os convidados buscaram os primeiros lugares na refeição, Jesus nos dá a lição sobre buscar os últimos lugares na festa de casamento. À primeira vista, parece que Jesus está nos ensinando a ser falsos ou hipócritas; mas, a verdade é outra. O banquete desta história simboliza a nossa vida. Diante da vida, podemos optar - buscar uma vida de prestígio, aos olhos do mundo, com todos os privilégios que isso acarreta, ou buscar o serviço aos irmãos - nos “humilhando”, pois quem servia era considerado menor do que quem era servido (como geralmente ainda hoje é!). De novo Jesus nos coloca diante do seu próprio exemplo - Ele que veio “não para ser servido, mas para servir, e dar a sua vida em favor de muitos” (Mc 10, 46).

Como é atual esse ensinamento! O nosso mundo é um mundo classista, onde “quem pode mais, chora menos”, até nas Igrejas - como gostamos de títulos, honras, prestígio! Em vão buscaremos nos Evangelhos títulos de honra como “Eminência”, “Santidade”, “Reverendo, “Reverendíssimo”! Sem que notássemos, o mundo entrou nas nossas comunidades com as suas falsas categorias! Como é empolgante ouvir o Papa Francisco advertir contra esta busca de prestígio falso nas Igrejas, especialmente quando acontece entre ministros ordenados, religiosos/as e seminaristas. Como ele disse durante uma homília “a vida religiosa e/ou sacerdotal não é para carreiristas ou alpinistas sociais”. O mesmo é verdade para os ministérios leigos. Nada mais fez do que fazer eco ao ensinamento de Jesus.

O centro da questão está em versículo 11: “de fato, quem se eleva será humilhado, e quem se humilha, será elevado”. Não é uma recomendação sádica para que procuremos ser humilhados, como muitas vezes se pregava na formação da Vida Religiosa e na espiritualidade, antigamente. Pelo contrário, é uma orientação para que não ponhamos o nosso valor nos títulos e honrarias vãs que a sociedade tanto aprecia, mas no serviço humilde aos irmãos e irmãs, unindo-nos à luta pelos oprimidos, que são humilhados pela sociedade de consumismo e opulência.

Ato contínuo, Jesus nos orienta sobre a gratuidade. Recomendando ao fariseu que ele não convide os que possam retribuir com outros convites, ele nos põe diante do exemplo do próprio Deus que é gratuidade absoluta. Novamente, os marginalizados servem como exemplo para o exercício de gratuidade. Temos muitas indicações na literatura daquele tempo que tanto a sociedade judaica como a greco-romana rejeitava este pessoal sofrido. Um documento dos Essênios de Qumrã elenca as categorias que serão proibidas de entrar no banquete escatológico: “os que têm problema na pele, com as mãos ou os pés esmagados, os aleijados, os cegos, os surdos, os mudos, os que têm defeito na vista ou que sofrem de senilidade...” A lista lucana adiciona a categoria “os pobres”. Sabemos que na literatura judaica “os pobres” era muitas vezes a designação usada para Israel e especialmente para os eleitos dentro de Israel. Então Lucas está usando de ironia - mostrando que os verdadeiros eleitos não são os que a sociedade assim considera, mas os realmente pobres, marginalizados e sofredores!

O discípulo, “convidando-os”, ou seja, relacionando-se com eles como igual para igual, não receberá deles a retribuição. Eles não terão com o que retribuir, e assim seremos como Deus, que nos ama sem esperar algo em retorno. Assim, estaremos colocando a nossa confiança na gratuidade de Deus e não agindo de um modo calculista, como tanto se prega hoje: “é dando que se recebe”, como dizem os politiqueiros cínicos, como também alguns pregadores cristãos, interessados no acúmulo de dinheiro.

A imagem do banquete é simplesmente um símbolo. A história nos desafia para que examinemos as nossas motivações mais profundas, para que busquemos o serviço aos irmãos, e para que aprendamos de Deus, que é o Amor Gratuito por excelência.

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FESTA DA ASSUNÇÃO (21.08.16)

Lc 1, 39-56

“Você é bendita entre as mulheres”

O evangelho da festa de hoje tem duas partes bem distintas: o encontro entre Maria (grávida de Jesus) e Isabel (grávida de João), e o Canto do Magnificat.

Para entender o objetivo de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, e ao mesmo tempo a continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos ligados ao nascimento de João, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada, deu tudo que podia dar - os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo, e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lc 2, 25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a Tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2, 29)

Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parenta idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse somente mostrar Maria como modelo de caridade, não teria colocado o versículo 56, que mostra ela voltando para a sua casa antes do nascimento de João. Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.

O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Iluminada pelo Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor.

As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo, no Antigo Testamento: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jt 13,18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.

Vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita em primeiro lugar, não por sua maternidade, mas, pela fé - em contraste com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Já no relato da Anunciação, Maria expressou essa fé quando disse “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (v. 38). Assim, ela aceita não somente ser a mãe do Senhor, mas a protagonista da construção de uma sociedade de solidariedade e justiça, tão almejada por Deus. Por isso, Lucas faz uma releitura do Canto de Ana (1Sm 2, 1-10) e coloca nos lábios de Maria o canto do Magnificat, em sintonia com a espiritualidade secular dos Pobres de Javé, que, desprovidos de qualquer poder, põem a sua esperança em Deus, que “dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias” (vv. 51-53). Longe de ser uma figura passiva, a Maria deste capítulo é modelo para todos que assumem a luta em favor de uma sociedade alternativa, de partilha, solidariedade e fraternidade, o projeto de Deus.

Podemos também acrescentar que neste capítulo primeiro nós encontramos as frases da primeira parte da oração da “Ave Maria”: “Ave Maria” (Lc 1, 28), “Cheia de graça” (Lc 1, 28), “O Senhor é convosco”(Lc 1, 28), “Bendita sois vós entre as mulheres” (Lc 1, 42), “Bendito o fruto do vosso ventre” (Lc 1, 42), que demonstra que, quando tratada com fundamento bíblico, a figura de Maria não é empecilho para uma caminhada ecumênica, pois, a Escritura a aponta como modelo de fé para todos nós!

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VIGÉSIMO DOMINGO COMUM (14.08.16)

Lucas 12,49-53

“Eu vim para lançar fogo sobre a terra”

A Bíblia diz que Deus criou o homem e a mulher em sua imagem e semelhança (Gn 1, 26) - mas na verdade, somos nós que muitas vezes criamos um Deus em nossa imagem e semelhança. Projetamos sobre Deus os nossos desejos, projetos e características, para que Ele não nos incomode. Algo semelhante se dá com Jesus. Muitas vezes projetamos uma imagem de um Jesus inócuo, que não incomoda, para que Ele não nos amole, não nos desinstale!

Estes versículos desafiam a ideia comum de um Jesus calmo, passivo e sem projeto transformador. Ele mesmo diz: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra” (v. 49). “Vocês pensam que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu lhes digo, vim trazer divisão”(v. 51). Com certeza estas não são declarações de um Jesus quase efeminado - o de tantas estampas e imagens! O que Ele queria dizer com estas palavras?

O fogo que Ele trouxe sobre a terra era o fogo do Reino. O Reino é algo tão novo, tão inovador, que só pode queimar os preconceitos e projetos contrários a Ele. Também ele faz arder o coração de quem o assume, queima por dentro, como Jeremias dizia da Palavra de Deus. Quem encontra este Reino não pode fugir das suas consequências. Como reza o canto “O Profeta”: “Como escapar de ti, como não falar, se a tua voz arde em meu peito? Como escapar de ti, como não falar se a tua voz me queima dentro?”

A chegada do Reino não traz acomodação, mas, é a manifestação da crise mais aguda da história humana. Diante d’Ele não é possível ficar neutro. Todos e todas terão que optar - ou a nossa vida e os nossos projetos serão coerentes com o Reino de Deus e o projeto de Deus revelado na história e na Bíblia, ou serão contrários. Por isso, a carta aos Hebreus diz claramente que: “A palavra de Deus é viva, eficaz, e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram, e até onde as juntas e medulas se encontram” (Hb 5, 12)

Jesus tem clareza que a sua dedicação ao Reino vai encontrar a oposição dos grupos privilegiados, os donos do poder, seja ele o poder político, o poder econômico ou, tantas vezes, o poder religioso. Por isso, prediz que teria que passar por um “batismo” - não o da água, mas do fogo, do sofrimento, que purifica como o ouro é purificado no crisol. O mesmo acontece com os e as profetas de hoje – é só olhar a oposição enfrentada pelo Papa Francisco da parte de setores ultraconservadores da Igreja, infelizmente incluindo muitos jovens padres e seminaristas, e por tantos líderes populares, que pagam até com a vida as suas posições em favor dos explorados.

Como reconciliar o Jesus da paz com a frase que diz que Ele não veio trazer a paz, mas, a espada? De novo nós esbarramos com o problema das línguas. Pois Jesus falava em aramaico, Lucas escreveu em grego, e nós lemos o Evangelho em português! A palavra “paz” é muito ambígua! Cada um a entende como quer. Por isso, no auge das ditaduras, tanto da direita como da esquerda, falava-se em “paz”, pois a repressão impedia qualquer manifestação de dissidência! Para outros, “paz” somente significa a ausência de briga! Nestes conceitos, o lugar mais pacífico de uma cidade seria o cemitério municipal, pois os defuntos não brigam!!

Mas, não foi esta a paz que Jesus veio trazer. Ele trouxe o “Shalom” - a paz que só Deus pode dar. A paz que nasce na medida em que se vive a justiça do Reino. Pois, sem justiça, a paz aparente não passa de engano e falsidade. O shalom, a paz de Deus não é somente ausência de briga, mas existe na medida em que todos gozem de tudo que é necessário para uma vida digna. Frequentemente é o contrário à exploração institucionalizada, que gosta de se apresentar como “paz”, “ordem” e “progresso”.

Para enfatizar a crise que o Reino acarreta, Jesus fala que as próprias famílias ficarão divididas, pois ninguém escapa da decisão. Realmente, isso logo aconteceria com os cristãos judaicos, quando foram expulsos da sinagoga, e as famílias se racharam por causa da adesão ou não à pessoa e ao projeto de Jesus. Pode bem acontecer que nós também tenhamos que perder amizades, relacionamentos, prestígio, sem falar de negócios e poder, se nós optarmos pelo seguimento de Jesus! Lucas quer nos animar nestes momentos, pois fazem parte da aceitação do Reino. O discípulo não é maior do que o mestre, e se Jesus teve que passar por este batismo, que custou muito, nós, os seus seguidores, podemos esperar que possamos ter a mesma experiência!

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DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (07.08.16)

Lucas 12, 32-48

“Onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração”

Esse trecho do capítulo doze retoma em grande parte o tema do domingo anterior - a questão do relacionamento do cristão e da comunidade com os bens materiais. A comunidade cristã é caracterizada como “pequeno rebanho” - certamente pequena diante da força e enormidade do sistema do Império Romano. Aqui não é tão importante a sua pequenez em termos numéricos, mas em termos da sua importância e força dentro da sociedade - a fraqueza dela é gritante, e devia ter provocado insegurança e medo em muitos dos seus membros. Por isso, as palavras de encorajamento: “Não tenha medo, pequeno rebanho, porque o Pai de vocês tem prazer em dar-lhes o Reino” (v. 32).

O rebanho não tem muitos bens materiais, mas terá os bens mais importantes - os do Reino. Esta ideia nasce do versículo anterior a este trecho: “Busquem o Reino d’Ele e Deus dará a vocês essas coisas em acréscimo” (v. 31). Estes bens virão na medida em que a comunidade vive a partilha, ou seja, se coloca na contramão de uma sociedade de ganância e exploração, repartindo o que tem. Retomando o tema do último domingo, Jesus adverte: “De fato, onde está o seu tesouro, aí estará também o seu coração” (v. 34).

Esse último versículo nos desafia a fazermos uma meditação mais profunda sobre os valores da nossa vida. Onde - realmente, e não teoricamente - está o meu tesouro? Em que eu de fato ponho a minha confiança? Sobre o que estou baseando a minha vida? Qual é a minha experiência prática de partilha? Quais são os verdadeiros tesouros da minha vida?

Em seguida, Lucas nos coloca diante das exigências de vigilância e responsabilidade. Embora muitas vezes se interprete este trecho sobre a vinda do Senhor em termos do “fim do mundo”, ou referindo-se ao momento da nossa morte, realmente esses versículos têm uma abrangência muito maior. A ênfase não está no fim, mas na atitude que nós devemos ter sempre em nossa caminhada. Sempre devemos estar alertas, para não perdermos o momento de Jesus passar em nossa vida. Ele chega para nós, não somente na hora da nossa morte, muito menos no fim do mundo, mas todos os dias, nas pessoas, nos acontecimentos da nossa realidade, na comunidade em que vivemos. Jesus aqui exige uma atitude de busca permanente do Reino, através de uma vida de serviço fraterno. Como diz o teólogo José Pagola no seu livro sobre Lucas, “é surpreendente a insistência com que Jesus fala da vigilância. Pode-se dizer que Ele entende a fé como uma atitude vigilante que nos liberta do absurdo que domina muitos homens e mulheres, que andam pela vida sem meta nem objetivo nenhum” (Pagola “O caminho aberto por Jesus” Vozes p. 213)  Os versículos 41-46, e o fato que a pergunta é feita por Pedro, porta-voz dos líderes da comunidade em Lucas, indicam que a mensagem aqui é dirigida em primeiro lugar aos que têm a função de dirigente na comunidade. Os dirigentes cristãos não têm estes ofícios para exercer um poder, para dominar, mas muito pelo contrário, para melhor servir. Somos alertados para que não deixemos a corrupção do poder tomar conta da nossa vida. Como os dirigentes das comunidades têm consciência dos seus deveres, muito mais ainda é a sua responsabilidade: “A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem muito foi confiado, muito mais será exigido” (v. 48).

Aqui o trecho alarga a sua visão para incluir não somente uma possível corrupção do projeto cristão através do apego aos bens materiais, mas também através do apego ao poder, quando este é usado não como serviço, mas como dominação e projeção pessoal por parte dos dirigentes cristãos. Talvez, não haja corrupção mais sutil do que a do poder, manifestada em carreirismo, autoritarismo e auto-projeção dentro das Igrejas. Vale a advertência já feita no século XIX pelo historiador católico inglês, Lord Acton: “Todo o poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente!”

Lucas convida a todos, especialmente os dirigentes, à vigilância, para que o nosso verdadeiro tesouro seja o serviço fraterno, como concretização do projeto de Jesus, e não a ganância, o poder, a dominação.

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DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM (31.07.16)

 

Lucas 12,13-21

 

“Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância.”

 

Nesses versículos nos deparamos com um dos temas favoritos de Lucas - o combate à ganância, em todas as suas formas, especialmente dentro da comunidade dos discípulos de Jesus. A parábola de hoje só se encontra neste Evangelho, sublinhando assim o interesse de Lucas pelo assunto.

 

            Ressoa com todas as letras a advertência de Jesus para os seus discípulos: “Atenção! Tenham cuidado com qualquer tipo de ganância” (v. 15b). Com certeza, a caminhada de mais ou menos cinquenta anos das comunidades cristãs, até a data do escrito de Lucas, tinha mostrado que os cristãos não eram isentos da tentação da acumulação de bens e do individualismo. Cumpre assinalar que o Evangelho não nega o valor nem a necessidade de bens materiais. Afinal, sem eles não seria possível ter uma vida digna e humana - o que Deus quer para todos os seus filhos e filhas. A luta não é contra os bens, mas contra a ganância, o egoísmo, a acumulação, a confiança no aumento dos bens como valor supremo das nossas vidas.

 

            Se foi importante fazer esta advertência há quase dois mil anos, quanto mais hoje, quando nós vivemos mergulhados em um mundo de consumismo e materialismo; quando se prega o “evangelho” da competitividade e acumulação; onde os profetas do projeto neo-liberal da exclusão entram todos os dias em nossos lares, através da televisão e da internet; onde a meta do sistema é concentrar cada vez mais bens nas mãos de uma elite privilegiada, excluindo, cada vez mais, pessoas que não podem competir. Até Deus e a religião se tornam bens rentáveis, com certos “pregadores do Evangelho”, auto-denominados de “Apóstolos”, “Bispos” ou “Pastores” se enriquecendo escandalosamente às custas dos fiéis ingênuos e manipulados. A “Teologia da Prosperidade” está muito em voga em todas as Igrejas, desparecendo a figura de Jesus de Nazaré que “não tinha onde deitar a cabeça!” Como nós cristãos vivemos mergulhados neste ambiente, acontece muitas vezes que, sem darmo-nos conta do fato, nós o assimilamos, como por osmose, diluindo o Evangelho da fraternidade e solidariedade, e reduzindo a prática religiosa ao âmbito individual e intimista, tirando dela a sua força transformadora.

 

            O rico da parábola muito bem poderia representar a ideologia do sistema vigente dos nossos dias. Chama a atenção o número de vezes que ele usa as palavras “eu”, “meu” “minha” - é um homem totalmente fechado no seu mundinho, fechado sobre si, sem sensibilidade diante dos sofrimentos e necessidades dos irmãos e irmãs.

 

            Jesus o chama de “louco” - não por ter o suficiente para viver bem, nem por alegrar-se com este fato, mas, por colocar o sentido da sua vida na acumulação de riquezas, achando que isso lhe traria a felicidade por si. A pergunta que Jesus faz: “E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?” (v. 20), levanta a pergunta fundamental que todos nós temos que responder: qual é o sentido da nossa vida? O que é realmente importante? Sobre o que baseamos a nossa felicidade? Pois tudo passará - e então seria tolice fundamentar a nossa felicidade sobre algo que necessariamente vai acabar. É um convite para que achemos o alicerce firme para a nossa caminhada, para a nossa felicidade. Podemos construir as nossas vidas sobre areia - movediça, sem firmeza; ou sobre a rocha - firme e imutável. Sobre coisas efêmeras, ou sobre Deus e o seu projeto de solidariedade, fraternidade e partilha.

 

            O homem da parábola terminou a sua vida na frustração, perdeu tudo, e a vida dele acabou sem sentido. E Jesus nos adverte: “Assim acontece com quem ajunta tesouros para si mesmo, mas não é rico para Deus!” (v. 21). A escolha é nossa!

 

Tomaz Hughes SVD

 

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DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (24.07.16)

 

Lucas 11,1-13

 

“Ensina-nos a rezar!”

 

            O nosso texto de hoje nos traz o ensinamento da Oração do Senhor, na versão Lucana. O Novo Testamento nos traz duas versões desta oração - a única oração que o Senhor nos ensinou: Lucas 11, 2-4 e Mateus 6, 9-13. Normalmente, os cristãos rezam na forma mateana, com sete petições e sem doxologia (oração de louvor). A versão lucana só tem cinco petições. A forma usada na Missa acrescenta a doxologia “porque Vosso é o Reino, o Poder e a Glória para sempre”, baseada no texto trazido pela Didaché - um documento cristão do início do segundo século. Alguns estudiosos explicam as duas formas pelo fato que Lucas e Mateus estavam se dirigindo a comunidades diferentes, com tradições diferentes. Mateus se dirigia a pessoas que tinham o costume de rezar, mas que corriam o risco de orar de uma maneira muita formal e rotineira (judeu-cristãos), enquanto Lucas estava escrevendo para pessoas recém-convertidas (gentio-cristãos) e que precisavam aprender, talvez pela primeira vez, a rezar continuamente.

 

            Embora não haja unanimidade entre exegetas sobre qual é a forma mais original, parece que o consenso tende em favor da versão Lucana. A versão Mateana apresenta a forma mais litúrgica do seu uso (p. ex.“Pai Nosso” em lugar do simples “Pai”), mas na verdade não há diferença essencial entre as duas versões. Baseando-nos no trabalho de um exegeta alemão, Joaquim Jeremias, propomos a seguinte versão como a mais aproximada às palavras aramaicas de Jesus (devemos sempre lembrar que Jesus falava em aramaico, os evangelhos foram escritos em grego, e nós os lemos em português!):

 

            “Querido Pai, santificado seja o Teu nome; venha o Teu Reino; o pão nosso de amanhã nos dá hoje; perdoa-nos as nossas dívidas, como queremos perdoar os nossos devedores, e não nos deixes sucumbir à tentação”.

 

            Seguindo este autor, tratamos a oração como uma “oração escatológica”, ou seja, a oração da comunidade cristã que experimenta o Reino como uma realidade já presente, mas, que espera e pede a sua consumação final.

 

            Uma chave para a compreensão Lucana da Oração do Senhor, nós encontramos no primeiro versículo do texto: “Um dia, Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos discípulos pediu: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (Lc 11, 1).nEssa frase nos faz lembrar que muitos grupos religiosos do tempo de Jesus tinham uma oração que identificasse os seus discípulos, como por exemplo, os Essênios, os Fariseus e os Batistas. Então o discípulo de Jesus pede uma oração que pudesse identificar o seu programa de vida, como discípulos de Jesus. Então podemos ver a Oração do Senhor como mais do que uma oração - como um “manifesto” da nossa proposta de vivência da nossa fé. Vejamos mais de perto o texto:

 

1. “Querido Pai” (ABBÁ).

 

            É possível que muita gente tenha dificuldade em rezar o “Pai Nosso” por causa da sua experiência com o seu próprio pai. Se nós tivemos um pai carinhoso, com quem desde criança nós nos sentíamos bem, então teremos facilidade de rezar a Deus como “Pai”. Mas, se o nosso pai era pessoa dura, ameaçadora, sem expressão de carinho, então podemos ter mais dificuldade em poder nos relacionar com Deus como “Pai Nosso”. Outras pessoas - especialmente feministas - talvez achem que o título “Pai” para Deus traz conotações demasiadamente masculinizantes, quando não machistas. Por isso, é importante aprofundar o sentido bíblico do termo, e o que significava na boca de Jesus.

 

            Quando o Antigo Testamento descreve Deus como Pai, implica muito de que a nossa cultura atribui à mãe. O Antigo Testamento se refere a Deus como Pai quinze vezes e enfatiza a ternura, a misericórdia, o carinho e o amor de Deus para o seu povo. Isso fica especialmente claro nos Profetas. Vejamos alguns textos: “Serei um pai para Israel, e Efraim será o meu primogênito”. (Jr 31, 9); “Será que Efraim não é o meu filho predileto? Será que não é um filho querido? Quanto mais o repreendo, mais me lembro dele. Por isso, minhas entranhas se comovem, e eu cedo à compaixão - oráculo de Javé” (Jr 31, 20); “Eu tinha pensado contar você entre os meus filhos, dar-lhe uma terra invejável... esperando que você me chamasse de “Meu Pai”, e não se afastasse de mim (Jr 3, 19); “Quando Israel era menino, eu o amei, do Egito chamei o meu filho... fui eu que ensinei Efraim a andar, segurando-o pela mão... Eu os atraí com laços de bondade, com cordas de amor. Fazia com eles como quem levanta até seu rosto uma criança; para dar-lhes de comer, eu me abaixava até eles (Os 11, 1ss).

 

Nestes textos podemos sentir muitas das características que a nossa cultura ocidental atribui à mãe - portanto o termo “Pai” no Antigo Testamento não traz qualquer conotação machista.

 

            Embora o Antigo Testamento fale de Deus como “Pai” quinze vezes, jamais alguém invoca Deus como “meu Pai”, ou “nosso Pai”. O respeito do judeu diante da transcendência de Deus não permitia. Mas, nos Evangelhos nós achamos o termo “Pai” para Deus na boca de Jesus 170 vezes. Isso era coisa tão inédita que podemos ter certeza que se trata de uma palavra autêntica de Jesus e não somente proveniente da Igreja primitiva. Marcos a usa 4 vezes, Lucas 15 vezes, Mateus 42 vezes e João 109 vezes! Na comunidade do Discípulo Amado, pelo fim do primeiro século, “Pai” é o termo para Deus.

 

            A expressão que Jesus mesmo usava era “Abbá”, um termo aramaico sem sinônimo em português. Fazia parte da linguagem da intimidade do lar, um termo carinhoso usado tanto por crianças como por adultos, para o seu pai. Então, ultrapasse o sentido da palavra nossa “papai”. Devemos dar muito peso a este ensinamento de Jesus, pois embora não exista na literatura rabínica um exemplo sequer do uso do termo “Abbá” para Deus, Jesus sempre se dirigia a Deus deste jeito, exceto em Mc 15, 34 (quando na cruz, citando um salmo, ele chama deus de “Eloí”, meu Deus). Jesus então conversava com Deus com a segurança, intimidade e carinho com quem se conversa na ternura do seio família, e autorizou os seus discípulos a usar o mesmo termo. Isso indica o novo relacionamento com Deus que Jesus nos trouxe. É algo além do normal poder reivindicar tal relacionamento com Deus. São Paulo mantinha o termo aramaico, mesmo escrevendo em grego em Gálatas 4, 6 e Romanos 8, 15, quando ele diz: “A prova de que vocês são filhos é o fato de que Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho que clama: Abbá Pai!” (Gl 4, 6); “...receberam um Espírito de filhos adotivos, por meio do qual clamamos: Abbá, Pai!” (Rm 8, 15)

 

O “endereço” da oração determina não somente o nosso relacionamento com Deus mas com os nossos irmãos e irmãs. Pois, se Deus é o “Abbá” de todos nós, então somos todos iguais, e rezar esta oração exige que nós não nos compactuemos com qualquer coisa que nos discrimine - racismo, machismo, clericalismo, exploração etc.

 

            Todas as petições seguintes da oração dependem deste endereço. Pois, não estamos nos dirigindo a um Espírito perfeitíssimo, criador do céu e da terra, onipresente, onipotente e onisciente! Estamos nos dirigindo ao nosso “Querido Pai”, e é este novo relacionamento, um dom incrível do próprio Deus, que faz possíveis as petições. Por isso, na liturgia, a Igreja pede que se faça uma introdução à oração, como “Orientados pela Palavra de Jesus, ousamos rezar”, para que nós tomemos consciência da enormidade do dom de filiação que recebemos por Jesus.

 

2. “Santificado seja o Teu nome.”

 

            Na forma atual, esta petição pode expressar tanto um louvor, (“Santificado seja o teu nome”) como petição (“Que o Teu Nome se torne santificado”). No contexto, devemos entendê-la como pedido. Podemos entender melhor a frase se voltarmos de novo para um profeta do Antigo Testamento, Ezequiel: “Vou santificar o meu nome grandioso, que foi profanado entre as nações, porque vocês o profanaram entre elas. Então as nações ficarão sabendo que eu sou Javé. quando eu mostrar a minha santidade em vocês diante deles” (Ez 36, 23).

 

Então, com este pedido rezamos que o mundo chegue a conhecer o nome (isto é, a realidade íntima) de Deus (que Ele é o nosso “querido pai”) através da nossa vivência. Torna-se uma oração missionária, com três elementos:

 

            - primeiro, que nós cheguemos a conhecer cada vez mais quem é Deus;

 

            - segundo, que o mundo chegue a este conhecimento através do nosso testemunho;

 

            - terceiro, que a plenitude da revelação da realidade de Deus venha logo; este é o aspecto escatológico.

 

3. “Venha o Teu Reino.”     

 

            O tema central da pregação de Jesus era a iminência do Reino de Deus. Se o “nome” de Deus se refere à sua natureza íntima, o “Reino” se refere à sua atividade. Pedimos aqui a consumação final do Reino. É a oração da comunidade que reconhece a presença do Reino, mas, sente que ainda não é estabelecido definitivamente entre nós. Temos outros trechos do Novo Testamento que expressam este desejo com a palavra aramaica “Maranathá”, (Vem, Senhor Jesus!), por exemplo 1Cor 16, 22 e Ap 22, 20.

 

            A versão Mateana que nós costumamos rezar acrescenta: “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu”. Isso é outra maneira de expressar a mesma ideia, pois, quando a vontade de Deus é feita na terra como já se faz no céu, então o Reino estará plenamente realizado entre nós.

 

4. “O pão nosso de amanhã dá nos hoje.”

 

            Os primeiros dois pedidos almejam a chegada do Reino na sua plenitude, mas, as duas petições seguintes põem a ênfase sobe o “agora”, o “hoje”!

 

            A primeira dificuldade que enfrentamos é com a tradução, pois aqui se usa uma palavra grega “epiousios” que não é usada em outro lugar no Novo Testamento. Há quatro sentidos básicos possíveis para este termo:

 

            - necessário para a nossa existência

 

            - para hoje

 

            - para o dia que virá

 

            - para o futuro

 

As várias traduções usadas nas nossas bíblias (e seria bom verificar) refletem a dificuldade em ter certeza sobre o que significa o termo no contexto desta oração. Muitos exegetas concluem, com São Jerônimo, que a palavra quer dizer “dá-nos hoje o nosso pão de amanhã”.

 

            Aqui, “amanhã” significaria o “grande amanhã” da Parusia, da consumação final do Reino de Deus. Assim estamos pedindo que nós possamos experimentar hoje o que pertence à plenitude do Reino.

 

            Isso tem implicações muito concretas para a nossa vivência. Pois, jamais será possível experimentar a plenitude do Reino enquanto falta o pão material na mesa dos nossos irmãos e irmãs. Quem faz este pedido se compromete com a luta por uma sociedade mais justa, mais fraterna, onde todos possam ter uma vida digna.

 

            Quando Jesus e os seus discípulos faziam a refeição, era muito mais do que simplesmente tirar a fome. Significava o banquete messiânico, desejado pelos profetas, onde todos teriam vida plena. Quem reza esta petição, se compromete com a concretização de uma sociedade onde “todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10), coisa impossível sem o pão material nas mesas.

 

            Não é possível participar do banquete eucarístico, sem este compromisso concreto com a construção de um mundo sem empobrecidos, onde todos terão “o pão nosso de cada dia”.

 

5. “E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós queremos perdoar os nossos devedores.”

 

            Um dos grandes dons da era escatológica é o perdão. Já vimos em outros trechos como Jesus manifestava este dom gratuito do Pai. Aqui pedimos que nós possamos experimentar este grande dom, aqui e agora. Mas, o trecho levanta a questão da relação entre o perdão de Deus e o nosso perdão.

 

            A maneira que nós rezamos o “Pai Nosso” - “perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”- pode dar a impressão que estamos pedindo que Deus nos perdoe na medida em que perdoarmos os outros! Se Deus vai nos perdoar conforme os critérios humanos, estamos em maus lençóis! Aqui é necessário que olhemos melhor o que significa “assim como”.

 

            Quase todos os estudiosos estão de acordo que esta frase não deve ser entendida como uma comparação entre o perdão de Deus e o nosso. Diversas parábolas sugerem que o perdão de Deus precede o perdão humano (Mt 18, 23-25; Lc 7, 41-47). O nosso perdão é consequência e resposta ao perdão de Deus. Sendo perdoados, não temos desculpa para não perdoar! Mas, qual é então o papel do perdão humano? (Mt 6, 14s). É que o perdão de Deus só se torna real para mim quando eu o assumo na minha vida ao ponto que procuro perdoar quem me ofendeu. O nosso perdão mútuo então é a prova de até onde temos assumido o perdão de Deus. Devemos então lembrar três pontos:

 

            - O perdão de Deus sempre precede o perdão humano;

 

            - O perdão humano é reação ao perdão divino;

 

            - O perdão divino só se torna eficaz para nós quando nós temos vontade de perdoar o outro.

 

            Joaquim Jeremias explica a frase assim: “Nós estamos prontos a repassar a outros o perdão que nós recebemos. Dá-nos, querido Pai, o dom da era da salvação, o teu perdão, para que, na força do perdão recebido, possamos perdoar os que têm nos ofendido”. (J. Jeremias, A Oração do Senhor).

 

            E o grande exemplo desta realidade continua sendo a mulher “pecadora” de Lc 7, 36-50), cujo grande amor foi consequência do grande perdão recebido de Deus.

 

6. “E não nos deixes sucumbir à tentação.”

 

            Este é o único pedido formulado em termos negativos. Aqui não somente pedimos para não cair nas pequenas ou grandes tentações que nós enfrentamos no dia a dia, mas, que não caiamos na Grande Tentação, de não acreditar na realidade da presença do Reino, de perder a fé na ação transformadora de Deus, de não acreditar mais na concretização da vontade de Deus. Este “sucumbir” não vem normalmente “de vez” - é um processo lento, que pode acontecer sem que nós nos demos conta. É o perder do elán, da vibração com a causa do Reino, que reduz a religião a um mero “cumprir tabela”, sem alegria, sem esperança, - enfim, uma frustração. Este pedido ecoa uma mensagem e advertência clara dos evangelhos - a necessidade de vigilância! Estamos na luta escatológica entre o bem e o mal, onde até Jesus foi tentado. Aqui reconhecemos a nossa fraqueza, a nossa tendência para o desânimo, e pedimos a força de Deus para que não sucumbamos à Grande Tentação.

 

            Assim, a Oração do Senhor resume o projeto de vida dos seus seguidores e discípulos. É uma oração que traz consequências bem concretas para o nosso relacionamento com os irmãos e com a sociedade. É uma oração que desinstala e desacomoda. Pois, nós estamos nos comprometendo com a construção diária do Reino, através do seguimento de Jesus.

 

            A segunda parte do trecho de hoje insiste na necessidade de perseverança na oração. Faz contraste (e não comparação!) entre Deus e o amigo humano. Pois se o “amigo” só atende o pedido para não ser amolado, Deus é bem diferente. Ele dará o mais importante - o Espírito Santo, com todos os seus dons, àqueles que o pedirem! Peçamos as coisas pequenas - mas importantes - necessárias para a nossa vivência diária, mas saibamos também pedir os grandes dons do Reino, o perdão, o pão da vida, a misericórdia sem limites, que Deus jamais negará!

 

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DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (17.07.16)

 

Lucas 10, 38-42

 

“Uma só coisa é necessária”

 

            Novamente o Evangelho de Lucas destaca o fato que Jesus e os seus discípulos “caminhavam”. É caminhando que se faz caminho, e é no caminho que se aprende o que é ser discípulo de Jesus. Todos nós estamos “no caminho”, como Jesus e os outros, só que a nossa caminhada não se mede em quilômetros, mas em anos!

 

            O Evangelho de hoje frisa muito o lado afetivo de Jesus e dos seus discípulos e discípulas. Jesus se dirige à casa de uma família em Betânia, perto de Jerusalém. Era o lugar predileto onde Jesus procurava - e recebia - aconchego humano, carinho, afeto, amizade, acolhimento; onde podia refazer as suas forças nas suas caminhadas evangelizadoras. Do Evangelho do Discípulo Amado aprendemos que: “Jesus amava Marta, a irmã dela e Lázaro” (Jo 11, 5). Este tipo de relacionamento humano é necessário para que formemos verdadeiras comunidades cristãs - e quantas vezes dispensamos este elemento fundamental!

 

            É gritante a diferença de gênio das duas irmãs! Marta, provavelmente a mais velha, preocupada com os seus afazeres - afinal tinham chegado hóspedes para uma refeição e tinham que ser bem tratados; Maria, calma, senta-se aos pés do Senhor, para escutar a Palavra. De repente, ressoa o desabafo de Marta: “Senhor, não te importas que minha irmã me deixe sozinha com todo o serviço? Manda que ela venha ajudar-me!” (v. 40). Instintivamente, a nossa simpatia fica com a Marta. Qual é a mãe da família, a dona de casa ou o anfitrião de visita que não sentiria o que Marta sentia? Por isso mesmo, chama a atenção a resposta do Senhor: “Marta, Marta! Você se preocupa e anda agitada com muitas coisas; porém uma só coisa é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e esta não lhe será tirada.” (v. 41s).

 

            Uma coisa é óbvia - Jesus não está defendendo a preguiça, a omissão, a exploração do trabalho dos outros! Em um mundo agitado como é o nosso, que não nos deixa tempo para cultivar o relacionamento humano, a amizade, a oração, o nosso próprio ser, esta resposta nos faz lembrar a importância de viver de uma maneira que prioriza as coisas. É óbvio que nós temos que nos preocupar com os afazeres, os trabalhos – mas, na verdade, quantas vezes nós enchemos os nossos dias com ativismo, atividades fúteis, agitação, - e assim não conseguimos escutar nem nós mesmos, nem os irmãos, nem o próprio Deus!

 

            Jesus aqui questiona a agitação e o ativismo - que não se mede pelo número de atividades. O ativismo é uma fuga, uma fuga de um encontro com os anseios mais profundos do nosso ser, dos apelos de Deus, refugiando-nos em um número sem fim de atividades sem objetivos claros, sem organização, sem rumo. A atitude de Maria é a de uma discípula, que aprende viver de maneira nova, ouvindo e ruminando a Palavra de Deus, uma palavra que pode levar a muita atividade, mas nunca ao ativismo.

 

            Jesus de forma alguma quer menosprezar a Marta. Aliás, diversas vezes os evangelhos põe Marta em mais relevo do que Maria. O próprio Lucas diz que foi Marta que recebeu Jesus na sua casa (v. 38). Em João, é Marta que faz a profissão de fé em Jesus, que nos Sinóticos é feita por Pedro: “Sim, Senhor. Eu acredito que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir a este mundo” (Jo 11, 27). Na realidade, todos nós temos que ser “Marta e Maria”. Temos necessidade de dedicarmo-nos aos nossos afazeres, mas também é preciso achar tempo para ficarmos aos pés do Senhor. O desafio é de conseguir o equilíbrio entre os dois aspectos de vida, entre “lançar as redes” e “consertar as redes” (Mc 1, 16-20), entre “atividade” e “oração”, entre “missão” e “interiorização”. Pois, os dois lados são tão intimamente ligados que o desequilíbrio, do lado que for, trará consequências negativas para a nossa vida de discípulos e discípulas. Também aqui nos vem um alerta – com certa frequência corremos o risco de sobrecarregar as pessoas leigas tão dedicadas às comunidades! Devemos sempre lembrar que elas também precisam de tempo para cultivar os seus laços familiares, de aprofundar a sua própria experiência de Deus, de descanso. Não é vontade de Deus que alguém “se queime” de tanto serviço, mesmo na evangelização! Precisamos ser sempre “Marta e Maria”.

 

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DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (10.07.16)

 

Lucas 10,25-37

 

            “Vá, e faça a mesma coisa”

 

            A parábola do “Bom Samaritano” talvez seja, junto com a do “Filho Pródigo”, a mais conhecida de todas as parábolas de Jesus. Por isso mesmo corre o risco de ser banalizada, de não ser levada muito a sério, de ser relegada quase ao nível de folclore religioso. Merece uma atenção mais minuciosa.

 

            A parábola situa-se logo após Jesus ter louvado o Pai por ter “escondido essas coisas (as coisas do Reino) aos sábios e inteligentes e revelado aos pequeninos” (Lc 10, 21). Realmente, o primeiro a tentar atrapalhar Jesus é um “sábio e inteligente” - um especialista em leis. Lucas salienta que Ele fez a pergunta “O que devo fazer para receber em herança a vida eterna?” (v. 25), não porque ele se interessasse pela verdade, mas “para tentar Jesus”. Devolvendo-lhe a pergunta, Jesus deixa claro que o legista já sabia a resposta: “Ame o Senhor, seu Deus, como todo o seu coração, com toda a sua alma, como toda a sua força e com toda a sua mente; e ao seu próximo como a si mesmo.” Jesus simplesmente diz: “Você respondeu certo. Faça isso e viverá.” (v. 28)

 

            Mas, com a petulância típica do pseudo-intelectual, ele insiste, “para se justificar”, com uma segunda pergunta: “E quem é o meu próximo?” (v. 29). Jesus, porém, não cai na cilada de fazer uma discussão teórica e estéril sobre quem seja o próximo - Ele logo traz o debate para o nível prático da vivência. Ele conta a parábola do “Bom Samaritano”. Vejamos:

 

            Depois do assalto, passou pela vítima um sacerdote que “viu o homem e passou adiante pelo outro lado” (v. 31). A mesma coisa aconteceu com um levita. Por que será que esses homens - ligados ao culto judaico - agiram assim? A resposta está nas leis de pureza daquela época. O contato com um defunto, ou com sangue, deixava a pessoa ritualmente impura, isso é, inapta para participar do culto. Como o homem estava coberto de sangue, e talvez morto, os dois não se arriscavam a tocar nele, pois para eles o culto religioso era mais importante do que a misericórdia para com uma pessoa sofrida. Não era, em si, uma atitude somente pessoal de duas pessoas maldosas, mas demonstra uma tentação permanente de pessoas ligadas ao culto e o mundo tido como “sagrado”- o perigo de viver alienadas do mundo real, onde as pessoas vivem, sofrem, e lutam todos os dias. Também é bom notar que ambos estavam seguindo o mesmo caminho – voltando de Jerusalém, ou seja, voltando do lugar principal do culto. Assim Jesus enfatiza que, embora participassem corretamente do culto, não deixaram que o mesmo tivesse efeito sobre o seu comportamento, pois se fecharam diante do sofrimento do ferido. Culto sem misericórdia é vazio, com bradava Oséias e Amós séculos antes (Os 6, 6; Am 5, 21-25).

 

            Entra em cena um samaritano. A religião dele era considerada como cheia de deformações e ignorância pelo judaísmo oficial, pois desde a invasão da Assíria em 721 a.C. a prática religiosa do povo samaritano tinha sido contaminada por religiões pagãs (2Rs 17, 24-31). Mas, quando ele vê o sofrimento alheio, ele não pensa em discussões teológicas sobre pureza, mas parte para uma ajuda prática, com misericórdia.

 

            Terminando a história, Jesus devolve a pergunta ao especialista em leis - e faz uma mudança fundamental! Não faz a pergunta teórica “quem é o meu próximo”, mas uma pergunta prática “quem se fez próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” A primeira pergunta só levaria a uma discussão vazia; a pergunta de Jesus leva a uma mudança de prática vivencial.

 

            Forçado a reconhecer que quem se fez próximo do sofredor era o samaritano, o legista ouviu da boca de Jesus a conclusão: “Vá e faça a mesma coisa” (v. 37).

 

Com esta parábola, Jesus quer ensinar que nada, nem o culto, tem prioridade sobre a ajuda a uma pessoa necessitada. A religião de Jesus não é teoria, é prática de misericórdia, pois, Deus é misericordioso. Como diz o Evangelho de Mateus, baseando-se em Oséias 6, 6: “Aprendam, pois, o que significa: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Porque eu não vim chamar justos, e sim pecadores” (Mt 9, 13). O legista já sabia a orientação da Escritura, mas tentava escapar das suas consequências, criando discussões inúteis. Nós também sabemos o que diz a Bíblia. Não tentemos esvaziá-la com debates estéreis sobre quem é “o pobre”, “o aflito”, “o próximo”, “o bom”... Façamos o que Jesus ensina nesta parábola “e viveremos”.

 

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FESTA de SÃO PEDRO e SÃO PAULO (03.07.16)

 

Mt 16, 13-20

 

“E vocês, quem dizem que eu sou?”

 

O texto é a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os evangelhos: quem é Jesus? O que é ser discípulo/a d’Ele? São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.

 

Como refletimos domingo passado sobre a versão lucana desse texto (Lc 9, 18-24), remetemo-nos àquela reflexão e aqui somente assinalaremos alguns poucos pontos a mais, já levando em conta o que foi escrito para dia 26 de junho de 2016.

 

Depois de Jesus interrogar duas vezes os discípulos, o texto de Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte, dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se referem aqui ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.

 

            O fundamento, o alicerce, a pedra fundamental dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro “Tu és o Messsias, o Filho de Deus vivo”. Continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?” pois, os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude aparentemente estranha: “Ele ordenou os discípulos que não dissessem a ninguém que ele era o Messias!”

 

Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera atrair discípulos deste jeito? O assunto merece mais atenção.

 

            Realmente Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender este termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para ele é ser o “Servo do Senhor”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo, e não o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então. Pedro teve que aprender essa exigência do discipulado, de uma maneira lenta e dolorosa, passando até pela negação de Jesus na noite da sua prisão. Aprendeu tão bem que chegou a dar a sua vida como mártir, também morrendo, conforme a tradição, em uma cruz, no Circo de Nero em Roma, onde atualmente se localiza a Basílica que traz o seu nome. Aprendeu a duras penas ser discípulo de verdade e cumprir a missão que recebeu de Jesus na Última Ceia: “Eu rezei por você, para que a sua fé não desfaleça. E você, quando tiver voltado para mim, fortaleça os seus irmãos” (Lc 22, 32). Aqui temos o essencial do ministério petrino - continuado no Papa - confirmar e fortalecer a fé dos irmãos e irmãs. A Igreja sempre deve zelar que acréscimos históricos, mais adequados a monarcas do que a discípulos, não escondam essa missão essencial.

 

            Hoje de maneira especial devemos rezar pelo nosso querido Papa Francisco, que continua essa missão petrina, testemunhando à Igreja e ao mundo a misericórdia de Deus, e a missão da Igreja de ser também uma Igreja Serva, seguindo o exemplo do Mestre. Por isso, como o próprio Senhor, enfrenta grave oposição dentro e fora da comunidade eclesial, quando ele desafia a todos a seguir o exemplo de Jesus e doar a vida em favor de um mundo fraterno e justo. Os detentores do “poder-dominação” nunca aceitam uma visão do “poder-serviço” que Jesus pregou e que o Papa Francisco encarna.

 

Paulo, que durante os seus primeiros anos da vida adulta perseguia os discípulos, também teve a graça da conversão, chegando a afirmar que não queria saber nada a não ser Jesus Cristo e Jesus Cristo Crucificado!!! (1Cor 1, 2). Ele também pagou com a sua vida essa decisão pelo discipulado.

 

No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para que clarifiquemos em qual Jesus acreditamos. O Jesus quebra-galho, que existe para resolver os meus problemas pessoais, tão propagado por setores da mídia e por diversos movimentos e pregadores, ou o Jesus bíblico, o Servo do Senhor, que veio para dar a vida em favor de todos? Como sucessor de Pedro, o Papa Francisco nos demonstra em palavras e gestos que seguir Jesus exige opções reais em favor dos que mais sofrem. Que a celebração de hoje não seja de um triunfalismo sectário anacrônico, mas de uma renovação do nosso compromisso como discípulos-missionários de Jesus de Nazaré, a exemplo de Pedro e Paulo.

 

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Décimo Terceiro Domingo Comum (26.06.16)

 

Lc 9, 51 -62

 

“Quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus.”

 

No esquema do Evangelho de Lucas, o segundo grande bloco vai de Lc 9, 51 até 19, 28, e consiste em seguir o caminho de Jesus e os seus discípulos, rumo a Jerusalém. Nestes capítulos Jesus educa os seus discípulos sobre o que significa segui-Lo, acreditar n’Ele. Logo antes da viagem tem a frase “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (9, 23). No trecho de hoje, Jesus vai explicitar de novo as exigências para quem quer assumir os desafios do Reino no seu seguimento.

 

No início, Lucas enfatiza que Jesus “tomou a firme decisão de partir para Jerusalém”. Aqui não se trata somente de decidir de fazer uma viagem, de participar de uma peregrinação. Muito mais é a decisão de seguir a sua missão até as últimas consequências, pois Jerusalém será o local do conflito final entre as forças do Reino e do anti-Reino, o local da sua morte e ressurreição. Daqui para frente Jesus assume mais ainda o papel de pedagogo divino, mostrando pela sua palavra e ações, pela sua paixão, morte, ressurreição e ascensão, o caminho que leva ao Pai.

 

Esta tarefa de educação dos discípulos implica todo um trabalho de mudar a mentalidade deles, formada pela religião e ideologia reinantes. Inicia-se com o incidente da aldeia samaritana que não quis recebê-los. Havia séculos existia uma rixa entre judeus e samaritanos. Por causa da mistura de raças desde a ocupação assíria da Samaria depois de 721 a.C, (II Rs 17, 24-41), os samaritanos eram desprezados pelos judeus. Da sua parte, os samaritanos tinham uma grande raiva dos judeus desde que o rei Asmoneu João Hircano destruiu duas vezes o seu Templo no Monte Garazim, no fim do segundo século a.C. Os discípulos, representados por João e Tiago, querem demonstrar o seu poder, pedindo que Deus destruísse a aldeia - mostrando que a sua concepção do messianismo de Jesus era de poder político e de dominação. Jesus os repreendeu, pois o Reino de Deus não se constrói como os reinos terrestres, com força de armas e dominação, mas com doação e solidariedade.

 

Os versículos 57-62 continuam com a lição sobre a natureza do discipulado. Diante de três possíveis seguidores, Jesus desmancha as suas ilusões, mostrando que o seguimento d’Ele exige disponibilidade total, tanto dos bens materiais, como de outras seguranças humanas, como a família e os laços afetivos, coisas boas em si. Nos faz lembrar do chamado dos primeiros discípulos no início do Evangelho, que tiveram de deixar a segurança do emprego, “deixando tudo” em Lc 6, 11. Também nos recorda o cego Bartimeu, que em Mc 10, 50, antes de ser curado da cegueira, tem que lançar fora o seu manto - símbolo da sua única segurança. Para seguir Jesus temos sempre que deixar alguma segurança. A nossa tendência humana é de querer seguir Jesus, sem que nos custe algo, colocando a nossa fé e confiança nas seguranças humanas e não nos valores do Reino. Ou seja, um seguimento dentro de uma prática religiosa acomodada, confortável, que pouco ou nada tem a ver com o desafio de Jesus para que “peguemos a cruz todos os dias e o sigamos” ( Lc 9, 23). A radicalidade do discipulado - que não é privilégio de uma elite religiosa, mas que provêm do batismo - é sublinhada nos últimos versículos do texto de hoje: “quem põe a mão no arado e olha para trás não serve para o Reino de Deus” (v. 62). Faz eco a outras frases evangélicas: “Não se pode servir a dois mestres” (Mt 6, 24), “Não é possível servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24), “vende tudo o que tens, dá os pobres e segue-me” (Lc 18, 22) . Ser discípulo/a de Jesus envolve toda a nossa vida, não é uma adesão intelectual somente, mas uma mudança radical em nossa maneira de ver e julgar a realidade ao nosso redor, e de agir diante dela. Ser cristão não é ter uma religião de consolações, mas o consolo de uma religião que nos compromete com o projeto do Pai e de alguma maneira nos levará até a Cruz - e à Ressurreição. É deste tipo de seguimento que o nosso mundo de hoje tanto precisa. Cabe a cada um/a descobrir o que este desafio significa na prática, na realidade da sua vida.

 

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DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (19.06.16)

 

Lucas 9, 18-24

 

“Se alguém quer em seguir, renuncie a si mesmo, tome cada diaa sua cruz e me siga”

 

Proclamamos hoje a versão lucana da profissão de fé de Pedro, que Marcos situa no caminho de Cesaréia de Filipe (Mc 8, 27-35) e coloca como pivô de todo o seu Evangelho. Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os Evangelhos:

 

- quem é Jesus?

 

- o que é ser discípulo dele?

 

São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus, determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.

 

O trecho inicia-se com Jesus em oração. Essa é atitude típica de Jesus em Lucas. Muitas vezes no Terceiro Evangelho, especialmente antes de momentos importantes na sua vida, Jesus se acha em oração. Pois ele faz nada por vontade própria, mas escutando a vontade do Pai.

 

O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua:

 

“Quem dizem as multidões que eu sou?”

 

É inócua, pois não compromete - o “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião dos outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, um dos antigos profetas que ressuscitou!” Mas, Jesus não quer parar aqui, - esta pergunta foi só uma introdução. Depois vem a facada!:

 

“E vocês, quem dizem que eu sou?”

 

Agora não chovem respostas, pois quem responde vai se comprometer - não será a opinião dos outros, mas a opinião pessoal! Esta opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias de Deus.”

 

Mas a reação de Jesus é no mínimo estranha!:

 

“Ele proibiu severamente que eles contassem isso a alguém”. Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera conquistar discípulos deste jeito? O assunto merece mais atenção.

 

Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, como diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender este termo conforme a sua cabeça, conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” para Ele é ser o “Servo Sofredor” de Javé. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo:

 

“O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia.” (v. 22)

 

Essa visão que Jesus tinha do Messias, não era a comum - em geral as pessoas esperavam um messias triunfante, glorioso, guerreiro. Marcos nos mostra que Pedro partilhava essa visão errada, ao ponto de tentar corrigir Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura: “Fique atrás de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens.” (Mc 8, 33)

 

Não basta ter os termos e títulos certos - temos que ter o conteúdo certo. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas na verdade frequentemente criamos Deus em nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de seguir um Messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga.” (Lc 9, 23)

 

O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz, não é aguentar qualquer sofrimento com passividade. Se fosse, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que Ele faria, se estivesse aqui hoje. Como ele foi morto, não pelo povo, mas, por grupos de interesse bem claros “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seguidores d’Ele entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato de Marcos. Por isso, muitas pessoas, inclusive no seio da Igreja, contestam e criticam o Papa Francisco, pois ele continuamente nos demonstra as consequências práticas do seguimento de Jesus, algo que nos desafia e desinstala - e nos incomoda no nosso comodismo.

 

O texto faz ressoar para cada um de nós as duas perguntas de Jesus. É fácil responder o que os homens dizem d’Ele - o que dizem o Papa, o Bispo, o catequista, os teólogos, a TV. Mas esta pergunta não é tão importante. É a segunda que cada um tem que responder: “Quem É Jesus para mim?” E a resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Pois, o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem perde a sua vida por causa de mim, esse a salvará.”(Lc 9, 24)

 

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DÉCIMO PRIMEIRO DOMINGO COMUM (12.06.16)

 

Lucas 7,36 - 8,3.

 

“A quem foi perdoado pouco, demonstra pouco amor”

 

O trecho de Lucas de hoje - por sinal riquíssimo - trata de três temas característicos deste Evangelho:

 

- a misericórdia de Deus

 

- o relacionamento de Jesus com as mulheres

 

- o perigo que todos nós corremos de nos considerarmos “justos”, desprezando os outros.

 

Lucas é um verdadeiro artista de palavras. Torna-se quase impossível ler ou ouvir este trecho sem imaginar a cena. Jesus e os convidados, não sentados à mesa, mas reclinados sobre almofadas; a chegada da mulher, desprezada na vila por todos, com certeza sentindo-se humilhada, mas, movida por uma força maior, que a faz enfrentar corajosamente o desprezo dos outros e entrar sem convite na casa de um fariseu - coisa inédita! Mas, quem é impulsionado pelo amor e pela experiência de Deus não mede esforços. Depois, as lágrimas - não de tristeza, mas de gratidão, de alívio, de uma profunda alegria do ser - o enxugar dos pés, o perfume.

 

A reação de Simão, o fariseu, é de se esperar! Ele, que se julga “justo” e não “pecador”, - e com razão, segundo os critérios da sociedade e da religião oficial do tempo - se dá o direito de julgar tanto a mulher como a Jesus. Para ele - como para muitos de nós - ser justo é cumprir as leis, e assim deixar de ser pecador. Cumprir as leis, Simão faz minuciosamente! Assim ele se justifica (se torna justo), dispensando, na realidade, a graça e o perdão de Deus. Quem considera que não esteja necessitado de perdão, jamais será capaz de entender a sua força transformadora, que nos capacita para o amor.

 

Jesus, porém, reage de uma maneira bem diferente. Através da parábola dos dois devedores, ensina que é a experiência de ser perdoado que leva ao amor. Não o contrário! A mulher na história não foi perdoada porque ela antes muito amou, mas muito amou porque ela foi antes perdoada!! O amor é a consequência da ação do perdão de Deus. Quem nunca foi perdoado, dificilmente vai perdoar; quem nunca foi amado, terá dificuldade em amar. O perdão de Deus não é a reação d’Ele à nossa iniciativa de amar - pelo contrário, é Deus quem toma a iniciativa de perdoar e essa experiência de sermos perdoados nos capacitará para que possamos amar. O nosso amor é a nossa resposta à iniciativa gratuita e amorosa do Pai - não temos que conquistar este amor e este perdão, nem merecê-los, mas aceitá-los, assumi-los e responder a eles.

 

Todos nós corremos o risco de agirmos como Simão! Muitas vezes temos recebido uma formação espiritual que na verdade era em grande parte “farisaica”, baseada no cumprimento de leis e práticas externas de piedade, que são importantes, como se nós pudéssemos nos justificar diante de Deus. Temos de refazer a experiência de Paulo, fariseu ferrenho, que descobriu que nenhuma prática religiosa - por tão importante que seja - pode nos justificar. A vida de Paulo mudou quando ele fez a experiência da gratuidade do amor de Deus, e o resto da sua vida foi uma resposta a este amor gratuito. Mas a consequência de uma formação errada pode ser de nos darmos o luxo de julgar, classificar e desprezar os outros, que são “pecadores”, conforme os nossos critérios. Cuidemos com o fermento dos fariseus!

 

Esse trecho dá grande destaque às mulheres. Jesus rompeu com as tradições patriarcais e machistas do tempo d’Ele. Não só se deixou tocar por mulheres “pecadoras” - assim, se tornando impuro conforme as leis do tempo - como se fez acompanhar nas suas andanças pela Galiléia por várias mulheres, que faziam parte do seu grupo de seguidores/as. Não é claro se Lucas salienta esse ponto para refletir a grande liderança de mulheres nas suas comunidades, ou, pelo contrário, para contestar uma tendência machista de cortar essa liderança, lembrando aos seus leitores que Jesus não aceitava nenhuma discriminação baseada em gênero. Durante séculos a Igreja, em grande parte, perdeu essa novidade de Jesus, assumindo os padrões patriarcais e machistas da sociedade dominante. Devemos voltar a esta visão de fraternidade e igualdade entre homens e mulheres, como pede o Papa João Paulo II na sua Exortação Apostólica “Vita Consacrata”, quando ele conclama as mulheres a serem protagonistas de um “novo feminismo” (VC 58):

 

“Por certo, não se pode deixar de reconhecer o fundamento de muitas reivindicações relativas à posição da mulher nos diversos âmbitos sociais e eclesiais. Do mesmo modo, é forçoso assinalar que a nova consciência feminina ajuda também os homens a reverem os seus esquemas mentais, o modo de se autocompreenderem, de se colocarem na história e de a interpretarem, de organizarem a vida social, política, econômica, religiosa, eclesial.” (VC 57)

 

Que o Evangelho de Lucas nos ajude a recuperarmos as atitudes de Jesus, para que as nossas comunidades sejam realmente comunidades de fraternidade, igualdade, perdão, misericórdia e amor!!

 

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DÉCIMO DOMINGO COMUM (05.06.16)

 

Lucas 7, 11-18

 

Novamente nos deparamos hoje com um dos temas centrais de Lucas - a compaixão de Jesus, ou melhor, a compaixão de Deus manifestada em Jesus. Esse texto cai muito oportunamente nesse Ano da Misericórdia. Em qualquer sociedade, em qualquer época, a morte do filho único de uma viúva seria trágica. Mas, na sociedade patriarcal do tempo de Jesus, mais ainda. Pois uma mulher, sem marido e sem filho, seria totalmente desamparada, sem segurança qualquer.

 

“Ao vê-la, o Senhor teve compaixão dela” (v.13). É interessante o uso do verbo grego splangxizomai (ser movido de compaixão), para expressar o sentimento de Jesus. Os outros dois sinóticos, Marcos e Mateus, empregam esse termo somente para Deus, mas Lucas o usa três vezes - na parábola do Filho Pródigo (para o pai da parábola, simbolizando Deus Pai), aqui para descrever a reação do Filho e na parábola do Bom Samaritano, representando a atitude do verdadeiro irmão.

 

Jesus nem conhecia a viúva e não sabia se era ‘gente boa”, “gente de fé”, ou não. Bastava ver o seu sofrimento para que Jesus tivesse compaixão dela. Lucas aqui desafia a todos nós para que superemos o moralismo e a mania de julgar, para simplesmente ver as pessoas com os seus sofrimentos como Jesus as vê; para termos “coração de carne e não coração de pedra” (Ez 36, 26). Peçamos este dom - pois realmente é uma graça de Deus!

 

Jesus disse-lhe “Não chore!” Quantas vezes ouvimos estas palavras de “pano quente” dirigidas às pessoas sofridas, para que escondam o seu pranto e parem de nos incomodar. Mas, na boca de Jesus não são meras palavras paliativas - mas garantia de esperança! Ele não conforta com palavras vazias, mas faz o que pode. Tais palavras só têm sentido quando pronunciadas por pessoas solidárias, que tomam passos concretos para aliviar as dores alheias.

 

“E Jesus o entregou à sua mãe”(v. 15b). O fato de Jesus ter sido movido de compaixão diante da mãe viúva resultou na solução do problema. Com a Sua palavra, Jesus reanimou o jovem morto e o entregou à sua mãe e as multidões reconheceram o episódio como uma visita de Deus ao seu povo.

 

Com esta frase, Lucas evoca a figura do Profeta Elias, que devolveu o filho único morto à viúva de Sarepta (1Rs 17, 23). Nesse gesto de Jesus, feito em solidariedade e com compaixão, a multidão vê a presença do Deus misericordioso e amoroso: “Glorificavam a Deus dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós, e Deus veio visitar o seu povo.” (v. 16)

 

É certo que nós não temos poder de ressuscitar fisicamente os defuntos - mas podemos lutar pela vida, pela saúde, contra a morte prematura, em favor de um sistema social adequado de saúde! Podemos ressuscitar pessoas desanimadas, com palavras de coragem e ânimo: “O Senhor Javé me deu a capacidade de falar como discípulo, para que eu saiba ajudar os desanimados com uma palavra de coragem” (Is 50, 4). Podemos sentir e manifestar compaixão, ser solidários, ser sinal da presença do Deus de vida. Lucas nos desafia mais uma vez, para que a nossa vivência cristã leve os sofridos a dizer: “Realmente Deus visitou o seu povo!”

 

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NONO DOMINGO COMUM (29.05.16)

 

Lc 7, 1-10

 

“Nem em Israel encontrei tanta fé”

 

Voltando às celebrações dos domingos do Tempo Comum, o nosso texto de hoje abre uma secção de Lucas que vai de 7, 1 até 9, 6. A mensagem dessa parte do Evangelho tinha muita relevância para as comunidades lucanas, constituídas em grande parte de pessoas provenientes do paganismo. As narrativas deste bloco demonstram que Jesus atravessava as fronteiras criadas pelos homens, para separar os considerados “puros” dos taxados de “impuros”, para que ele restaurasse a vida ameaçada. Inicia-se com duas narrativas que relatam como Jesus curou um homem doente (o empregado do centurião) e ressuscitou um homem morto (filho único da viúva de Naim) em 7, 1-17, e termina com a cura de uma mulher doente (com fluxo de sangue) e a restauração da vida a uma moça morta, a filha de Jairo (8, 40-56).

 

O relato de hoje prevê a futura missão da Igreja aos gentios. Gira ao redor de um centurião romano em Cafarnaum (talvez a serviço de Herodes Antipas), cujo empregado está à beira da morte. Tem um certo paralelo com a história, também lucana, da conversão do primeiro gentio, no livro de Atos, também um centurião chamado Cornélio (At 10). Também Cornélio é elogiado como homem que respeitava o povo judeu e dava esmolas (At 10, 1-2).

 

O texto de hoje fala de uma comitiva de anciãos judeus que pedem que Jesus atenda o centurião porque ele tinha feito boas obras em favor da comunidade do povo judeu. Assim, eles o consideram digno de ser atendido, como se fosse judeu e não gentio impuro. Em contraste, o próprio centurião manda dizer que ele não é digno nem merece que Jesus fira a Lei de pureza entrando na sua casa. Ele reconhece o poder da palavra de Jesus de vencer o poder da morte. Jesus afirma que ele é digno de ser atendido não porque tivesse feito boas obras em favor da comunidade judaica local, mas, porque ele acredita que Deus vence a morte através de Jesus e da Sua palavra. Ele, fora da comunidade religiosa de Israel, tem essa fé, enquanto os que podiam e deviam ter não a tem.

 

Como muitos textos de Lucas, especialmente os tocantes à questão da ação misericordiosa de Deus, este trecho no fundo desafia a mentalidade muitas vezes embutida em pessoas religiosas, sem que notem. Até quando se dá a impressão de estarmos agindo movidos pela fé, na verdade subjaz a mentalidade de “troca” ou de “merecimento”. Hoje, por exemplo, embora os anciãos judeus tomem atitude ousada em favor do centurião pagão, é porque “ele merece”. A misericórdia de Deus porém não funciona por “merecimento”, mas, por gratuidade. É o que se demonstra também em Cap. 15 na parábola do Pai Misericordioso e dos dois filhos. O “pródigo” (esbanjador) não pede para ser aceito como filho, porque “não merece” - mas o pai nem lhe responde... pois, a lógica do perdão e da compaixão é outra.

 

É um grande desafio para a Igreja e para todos nós nos libertar dessa mentalidade no fundo quase que “comercial” e entrar na lógica de misericórdia e compaixão, como o Pai e também Jesus, nas suas relações com a realidade de homens e mulheres em diversas situações de fraqueza. É a grande intuição do Papa Francisco, pois é o fundamento da “Boa Nova” - O Evangelho - e por isso cria tantas dificuldades para muitos cristãos que não são conscientes de quanto faltamos com a gratuidade e a compaixão. Que o nosso modelo seja o verdadeiro Deus de Jesus “cujos caminhos não são os nossos, cujos pensamentos não são os nossos” (Is 55, 8-9).

 

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FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (22.05.16)

 

Jo 16, 12-15

 

“O Espírito não falará em seu próprio nome”

 

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja tinha dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssimo do Credo Niceno-Constantinopolitano, infelizmente tão pouco usado nas celebrações de hoje, onde celebra o Pai “criador de todas as coisas”, do Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado’, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus.

 

O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no último Discurso de Jesus. Nesses capítulos (13-17) ele é representado como o Paráclito, uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado da Defesa. Em diversos textos, João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16, de onde se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário; vv. 13-15 se referem ao Espírito; vv. 16-22 a Jesus; vv. 23-27 ao Pai.

 

No texto de hoje a função do Espírito de ensinar é enfatizada. Como em Cap. 14, num texto paralelo, esse ensinamento não trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do Pai e o Paráclito recebe tudo de Jesus. Mas, o ensinamento d’Ele vai fazer com que os discípulos compreendam melhor o que significava o ensinamento que receberam de Jesus. Vai fazer com que eles “recordem” as suas palavras, e assim consigam colocá-las em prática. O termo “verdade” que se usa neste texto tem o mesmo sentido que tem em outros textos do Quarto Evangelho, isso é, a fé em Jesus como a revelação de Deus e quem fala as palavras de Deus (Jo 3, 20.33; 8, 40.47).

 

Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita, na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trindade.

 

No mundo pós-moderno onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão. A festa de hoje não é de um mistério matemático - como pode ter um em três – mas, do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança.

 

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DOMINGO DE PENTECOSTES (15.05.16)

 

At 2, 1-11

 

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

 

A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas (Atos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão e a descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, num período de cinquenta dias. Por isso, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 4).

 

Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso – mas, isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária.

 

Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos, os Onze, as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram, assíduos na oração” (At 1, 14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.

 

O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas”- glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).

 

A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.

 

            A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele.

 

Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica à uma comunidade universal, missionária mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito Santo: numa comunidade em oração numa casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.

 

Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas, de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

 

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FESTA DA ASCENSÃO DO SENHOR (08.05.16)

 

Lc 24, 46-53

 

Afastou-se deles e foi levado ao céu.

 

Chegamos ao último trecho do Evangelho de Lucas. Quase todo este capítulo é encontrado somente em Lucas, e revela bem o seu pensamento. Podemos dizer que o Evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita em versículo 52: “Eles o adoraram”. Esta é a primeira e única vez que Lucas diz que os discípulos adoraram Jesus. Aqui há uma aproximação entre a cristologia de Lucas e a de João em Jo 20, 28.

 

O trecho abre com uma frase que faz lembrar os dois discípulos na estrada de Emaús: “Jesus abriu a mente deles para entenderem as Escrituras” ( v. 45). Vale a pena salientar que Ele fez que eles “entendessem” as Escrituras - não que as “conhecessem”, pois estavam bem a par de tudo que as Escrituras falavam! O problema deles - como dos dois de Emaús - era de entender como as Escrituras podiam iluminar a sua caminhada, na sua situação concreta.

 

Lucas frisa que o anúncio do Evangelho incluirá a grande Boa Nova do perdão dos pecados. Essa Boa Notícia “será anunciada a todas as nações, começando por Jerusalém” (v. 47). Aqui explica como a salvação chegará aos outros povos - através da pregação e testemunho das comunidades cristãs. Por isso, devemos entender a frase “E vocês são testemunhas disso” (v. 48) como referente não só aos Onze, mas a todos os discípulos e discípulas de Jesus! Podemos lembrar-nos de Lc 24, 9.33 - onde enfatiza que além dos Onze, estavam também presentes “os outros”. Isso é importante para que não caiamos na cilada de achar que a missão de testemunhar os valores do Reino seja algo reservado aos ministros ordenados. O Documento de Aparecida insiste muito que não é possível ser discípulo/a de Jesus sem ser missionário/a. Essa incumbência, e privilégio, vem do nosso batismo! As comunidades poderão contar com um poderoso ajudante nesta missão gostosa, mas, árdua - o Espírito Santo, prometido pelo Pai: “Agora eu lhes enviarei aquele que meu Pai prometeu” (v. 49). O comprimento dessa promessa será graficamente descrito na continuação da obra de Lucas, nos primeiros dois capítulos dos Atos dos Apóstolos.

 

O último parágrafo contém numerosas referências a Lc 1, 5 - 2, 25. O texto grego usa o verbo que no Antigo Testamento é usado para descrever o Êxodo, quando diz: “Jesus levou os discípulos para fora da cidade” (v. 50). Para Lucas, Jesus está prestes a completar o seu Êxodo ao Pai. Mas, antes, “Ergueu as mãos e os abençoava” (v. 50b). É a única vez que no Evangelho de Lucas se diz que Jesus abençoou alguém. No fim da liturgia da sua vida, Jesus dá a sua bênção final aos que vão continuar a sua missão! Os discípulos sentem grande alegria - um tema destacado no início da vida de Jesus, no seu nascimento em Belém, quando os anjos trouxeram notícias de grande alegria! A alegria prometida no início está presente no fim! Por isso, os discípulos se encontram no Templo, onde Jesus foi apresentado e onde Simeão louvou a Deus. O Evangelho de Lucas conclui afirmando que eles também “Estavam sempre no Templo, bendizendo a Deus” (v. 53). O autor termina enfatizando a resposta que os seus leitores devem dar, na medida em que eles aceitam que em Jesus chegou a nossa salvação, através da ação gratuita do Deus misericordioso! Esta resposta de bendizer a Deus não é somente com os lábios, mas, com uma vida dedicada e missionária, no seguimento de Jesus de Nazaré e comprometida com a construção de comunidades e sociedades alternativas, baseadas na partilha e na solidariedade. Esse é um dos grandes temas da segunda parte do Evangelho de Lucas, que nós conhecemos como “Atos dos Apóstolos”, um dos livros bíblicos preferidos no estudo bíblico nas comunidades de hoje.

 

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SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (01.05.16)

 

Jo 14, 23-29

 

Eu lhes dou a minha paz

 

A porta de entrada do texto é o versículo anterior, onde Judas, não o Iscariotes, pergunta a Jesus durante a Última Ceia, “porque vais manifestar-se a nós e não ao mundo?” (v. 22). Jesus dá a resposta - o Pai vem morar no cristão que guarda a sua palavra, pois as suas palavras são as do Pai. O mundo (aqui entendido como o anti-reino, não o mundo físico) não ama a Deus. A presença de Deus só pode ser experimentada por quem o ama. Não é possível amar a Deus sem guardar a Sua palavra.

 

Versículo 26 traz a segunda predição no Último Discurso da vinda do Paráclito (veja Jo 14, 15). Aqui se focaliza mais o seu papel de ensinamento, um ensinamento que clarifica o que Jesus ensinou. Ele vai fazer com que os discípulos “lembrem” tudo o que Jesus disse. Aqui “lembrar” significa a capacidade de entender o verdadeiro sentido das palavras e ações de Jesus, depois da Ressurreição (2, 22; 12, 16). O Espírito Santo, aqui descrito como Paráclito (no sistema judicial grego, o Paráclito era o advogado da defesa), não trará ensinamento que seja independente da revelação de Jesus. Ele vai preservar os discípulos de erro e guardá-los perto de Jesus.

 

Com este dom, Jesus deixa com a sua comunidade a sua paz. Ele usa a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada na noite de Páscoa quando dirá: “A paz esteja com vocês! Recebam o espírito Santo” (Jo 20, 21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Muitas vezes a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido - como tantos países experimentaram durante as ditaduras de direita e da esquerda. O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o seu povo. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e das suas consequências. Como dizia o saudoso Papa Paulo VI , “Justiça é o novo nome da paz!” O “shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da sua partida, pois é através da volta do Filho para o Pai que o Shalom ia se instalar.

 

O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus. Mas, precisa da colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo e na cidade, da exploração do latifúndio, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos/as de Deus.

 

Às vezes, este shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas, quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase do texto de hoje, “não fiquem perturbados, nem tenham medo” (v. 27), pois disse Jesus, “eu venci o mundo”. Por isso, devemos sempre “fazer a memória de Jesus” (aqui destaca-se o momento privilegiado da celebração eucarística) - da sua pessoa e do seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença - ou ausência - do “shalom” na nossa sociedade e comprometermo-nos com a criação do mundo mais justo que Deus quer.

 

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QUINTO DOMINGO DA PÁSCOA (24.04.16)

 

Jo 13, 31-33ª 34-35

 

Amem-se uns aos outros

 

Este texto situa-se no contexto do Último Discurso de Jesus, na Ceia Pascal. Começa logo após a saída de Judas para trair Jesus, depois que Jesus lhe disse “o que você pretende fazer, faça-o logo” (Jo 13, 27). Com a “licença oficial” dada ao agente de Satanás para iniciar o processo que iria matá-lo, Jesus começa o processo da sua glorificação. A sua fidelidade ao projeto do Pai vai levá-lo à Cruz, que, no Quarto Evangelho não é sinal de derrota, mas, da vitória última e permanente de Deus. Por isso, a morte de Jesus, aparente vitória do mal, será a glorificação de Jesus, e nele, do Pai.

 

O anúncio da sua partida, para os judeus uma ameaça (v. 33), é para a comunidade dos seus discípulos um momento de emoção e carinho. A sua última dádiva a eles é um novo mandamento: “eu dou a vocês um novo mandamento: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros.”(v. 34).

 

O que há de novo neste mandamento? O que diferencia a proposta de amor de Jesus e dos seus seguidores de outras propostas já conhecidas? O mundo do tempo de Jesus, tanto na sociedade pagã como judaica, conhecia propostas de amor mútuo. O mandamento de Jesus é novo em primeiro lugar porque ele se impõe como exigência essencial para entrar na comunidade “escatológica”. Essa é a comunidade que já experimenta a presença do Reino de Deus, mesmo que ainda espere a sua plena realização, ou seja, uma comunidade que experimenta a salvação já realizada em Jesus, enquanto ainda experimenta a sua situação permanente de fraqueza (assim é a situação e a experiência da comunidade que é a Igreja). Também é novo, porque não se fundamenta nas leis sobre o amor, da tradição judaica (p. ex. Lv 19, 18, ou os documentos do Qumrã, do grupo dos Essênios), mas na entrega de si, de Jesus. O modelo deste amor é o exemplo do próprio Jesus “assim como eu vos amei!”. E como Ele nos amou? Entregando-se até a morte, para que todos pudessem “ter a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10). Esse amor não é sinônimo de simpatia ou sentimento de atração. Exige humildade e a disposição para o serviço que leva a morrer pelos outros. Este “morrer” normalmente não se expressa através de uma morte física, mas morrendo diariamente ao egoísmo e à busca do poder dominador, para que sejamos servidores, especialmente dos mais humildes, ao exemplo do Mestre que “não veio para ser servido, mas para servir”.(Mc 10,45)

 

Este amor e tão fundamental para a comunidade dos discípulos de Jesus que deve se tornar o seu sinal característico: “assim todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (v. 35). Mais do que uma lista de doutrinas, mais do que práticas litúrgicas ou rituais, embora essas tenham o seu lugar, é o amor mútuo e concreto que deve distinguir os discípulos de Jesus. O Livro “Atos dos Apóstolos” nos lembra que “foi em Antioquia que os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de “cristãos” (At 11, 26). Receberam uma nova designação, da parte dos outros, porque a sua maneira de viver era marcadamente diferente das outras comunidades religiosas da cidade - era marcada pelo amor mútuo. O evangelho de hoje nos convida para que honestamente nos examinemos a nós mesmos, para verificar se este amor-serviço ainda é a marca característica de nós, discípulos/as de Jesus, na nossa vida individual e comunitária!

 

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QUARTO DOMINGO DA PÁSCOA (17.04.16)

 

Jo 10, 27-30

 

“O Pai e eu somos um”

 

O texto de hoje situa-se no contexto de uma polêmica nos arredores do Templo, entre Jesus e as autoridades judaicas, na ocasião da Festa da Dedicação do Templo. Nos versículos anteriores, as autoridades desafiaram Jesus para que se declarasse abertamente como o Messias. Ele respondeu que já tinha mostrado isso muitas vezes, através das suas obras, mas, que eles não queriam acreditar, pois não eram as suas ovelhas.

 

Assim, fica claro que as ovelhas são os discípulos, pois o verdadeiro discípulo ouve a palavra do Senhor e o segue. São conhecidos por Ele - e aqui cumpre lembrar que na linguagem bíblica, a palavra “conhecer” tem conotações mais profundas do que no nosso uso comum. Significa não tanto um saber intelectual, mas uma intimidade profunda do amor. Assim, a bíblia muitas vezes até usa o verbo “conhecer” para significar relação sexual. Assim, Maria questiona o anjo, pois Ela “não conhece” homem (Lc 1, 34). O verdadeiro discípulo é aquele ou aquela que realmente tem um relacionamento de intimidade com Deus e que põe em prática a sua palavra. E quem conhece Jesus, conhece o Pai, pois “o Pai e eu somos um”, como diz Jesus no nosso texto.

 

O versículo 28 afirma que Jesus dá a vida eterna aos seus seguidores. Esse é um tema típico de João; e, outros textos do evangelho podem nos ajudar a aprofundá-lo. No Último Discurso, Jesus explica em quê consiste a vida eterna: “A vida eterna é esta: que eles conhecem a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (Jo 17, 3). Mais uma vez, liga o conceito da vida eterna com O de “conhecer”. Mas, em que consiste “conhecer” a Deus?

 

O profeta Jeremias pode nos esclarecer. Em um trecho onde ele enfrenta o Rei Joaquim e o condena por não pagar os salários dos seus operários na construção do seu palácio, Jeremias diz o seguinte, referindo-se ao falecido rei justo Josias: “Ele julgava com justiça a causa do pobre e do indigente; e tudo corria bem para ele! Isso não é conhecer-me? - oráculo de Javé” (Jr 22, 16). Conhecer Deus não é em primeiro lugar um exercício intelectual, mas uma atitude de vida - a prática da justiça, especialmente em favor do oprimido e fraco. Segundo João, então, a vida eterna é o prêmio de quem pratica a justiça de Deus - proposta dos discípulos de Jesus - e não dos que “sabem” muita coisa sobre Deus, mas que não praticam a justiça - representados no texto de hoje pelas autoridades do templo.

 

O nosso texto nos traz motivo de muita coragem, pois, afirma que ninguém vai arrancar o verdadeiro discípulo da mão de Jesus (v. 28). Mas, também nos desafia para que verifiquemos se somos realmente discípulos verdadeiros, se conhecemos Jesus e o Pai, isto é, se praticamos a justiça do seu projeto. Pois, a prova de ser verdadeiro discípulo está na prática das obras do Pai, e não no conhecimento teórico de religião.

 

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Terceiro Domingo da Páscoa (10.04.16)

 

Jo 21, 1-19

 

“Rede Não Arrebentou”

 

Quase todas as traduções da Bíblia intitulam o capítulo 21 de João como “Apêndice” ou “Epílogo”. Realmente, em uma primeira edição, o evangelho terminava no capítulo 20. Mas, devido a uma situação nova nas comunidades, se tornou necessária a adição do último capítulo. Essa situação era a fusão de dois tipos de comunidades cristãs - as da tradição sinótica ou apostólica, e as da tradição da comunidade do Discípulo Amado. Essa fusão aconteceu pelo fim do primeiro século e é simbolizada nos versículos 15-18, onde Pedro recebe a primazia e a missão de pastor dos discípulos. Mas, somente depois de ter afirmado três vezes que amava Jesus. A comunidade do Discípulo Amado aceita a função apostólica de Pedro, mas insiste que antes de ser apóstolo é mais fundamental ser discípulo - ou seja, amar Jesus.

 

A primeira parte do texto (vv. 1-14) tem grandes semelhanças com a história da “pesca milagrosa” de Lucas (Lc 5, 1-11). Mas, o contexto pós-ressurrecional, é diferente. Como sempre, no Quarto Evangelho devemos prestar atenção aos símbolos - sejam eles pessoas, eventos, ou números. Chama a atenção que - embora seja a terceira aparição de Jesus - os discípulos não o reconhecem. Isso demonstra que a presença de Jesus depois da Ressurreição, embora real, não é igual à sua presença durante a sua vida terrestre. Quem O reconhece primeiro é o Discípulo Amado - pois só quem vê com olhos de amor reconhece e vê além das aparências. Como foi o amor que o levou a correr mais depressa ao túmulo do que Pedro em Cap. 20, é o amor que faz com que ele seja o primeiro a reconhecer a presença de Jesus ressuscitado. Ele é o Discípulo Amado e que ama. Pedro o será somente depois da sua profissão de amor (vv. 15-17).

 

A pesca simboliza a missão dos discípulos. Segundo muitos estudiosos, embora existam outras hipóteses também, o número de 153 peixes se baseia no fato de que os zoólogos gregos da antiguidade achavam que existiam no mundo 153 espécies de peixe. Então, o Evangelho está dizendo que a Igreja (simbolizada pela rede) pode abraçar o universo inteiro - todos os povos e culturas. É interessante que - diferente da história em Lucas - a rede não se rompe! A diversidade de culturas, tradições e povos constitui uma riqueza para a Igreja e não deve levar a rompimento da unidade, sem que se imponha a uniformidade (a palavra grega que João usa para “romper” é “schisma”). Certamente essa visão deve desafiar e questionar tantas tendências de centralização e rigidez que ainda existem na Igreja hoje!

 

O nó da questão está na entrega da missão a Pedro. Ele deve ser o Bom Pastor das ovelhas e dos cordeiros - dos membros das comunidades. Mas, as ovelhas não pertencem a ele - ele é apenas o Pastor - as ovelhas pertencem ao Senhor! Aqui Pedro recebe esta grande missão que nos Sinóticos ele recebe na estrada de Cesaréia de Felipe. Mas, mais importante do que a sua função é a sua vocação de discípulo - aquele que ama e segue o Senhor. Só quem ama Jesus profundamente poderá pastorear os seus seguidores. Se, no primeiro capítulo do Evangelho, Pedro veio a Jesus por mediação do seu irmão André (Jo 1, 40-42), agora recebe o convite do próprio Mestre: “Siga-me”, pois no amor Ele fez a opção pelo discipulado.

 

Todos nós recebemos o mesmo convite: “Siga-me”. Seja qual for a nossa função e missão na Igreja, elas só terão sentido na medida em que realmente amarmos Jesus - um amor que só é autêntico se amarmos os outros, na luta comum em favor da construção de um mundo onde todos/as possam “ter vida e vida em abundância” (Jo 10, 10), pois “se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 11).

 

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SEGUNDO DOMINGO DE PÁSCOA (03.04.16)

 

Jo 20, 19-31

 

“A Paz esteja com vocês”

 

No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles; mas, somente a alegria e a paz que Ele já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz”, conforme o nosso mundo a compreende. “Shalom”, e palavras derivadas, ocorrem mais de 350 vezes no Antigo Testamento. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. É tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas. O Shalom inclui tudo o que Deus quer para o seu povo! Jesus não promete a paz do comodismo; mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino. Promete o Shalom, pois Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus. Podemos dizer que o Shalom tem dois aspectos inseparáveis - é dom e desafio para os cristãos. É dom, porque somente Deus pode dá-lo; é desafio, pois tem que ser construído dia após dia na vida pessoal, familiar, comunitária e social de cada pessoa.

 

Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (o mesmo termo é usado) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida (Gn 2, 7); Jesus os recria com o Espírito Santo. Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes; mas, aquilo (relatado por Lucas em Atos) era como a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo, no plano teológico do autor. Para João, o dom do Espírito, que por sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

 

Mais uma vez, no primeiro dia da semana, Jesus aparece aos discípulos (notemos a ênfase sobre o Domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé no Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim ele nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras: “Felizes os que acreditaram sem ter visto!” Essa, muitas vezes, será a realidade da nossa fé: acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal e a vida mais forte que a morte! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vão nos dar essa firmeza.

 

Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era (Rabi, Mestre, Rei de Israel etc); aqui, Tomé lhe dá o título final e definitivo: Jesus é Senhor e Deus!

 

Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora, ele repete essa afirmação e abençoa todos os que a aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada: mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

 

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DOMINGO DE PÁSCOA (27.03.16)
Jo 20, 1-9
“Ele viu e acreditou”

Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições e visão teológica. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até hoje as consequências.

Fica claro que ninguém esperava a Ressurreição. Para os Doze especialmente, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (por revolta, por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio chegou Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensava que o corpo tivesse sido roubado. Ressurreição - nem pensar!

No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze, conforme muitos dos maiores exegetas) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!

Como na história dos Discípulos de Emaús (Lc 24, 13-36), o texto demonstra que a nossa fé não pode estar baseada num túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!

Hoje em dia quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, pobreza exagerada, terremotos etc! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Nós todos somos “discípulos amados”, pois “nada nos separa do amor de Deus em Jesus Cristo” (Rm 8, 39); mas, será que somos “discípulos amantes”? Será que amamos a Jesus e ao próximo? Lembramos que o amor proposto pelo evangelho não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus; mas, foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).

Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas!

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DOMINGO DE RAMOS (20.03.16)
“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!” 
Lucas 19,29-40

* Como seria impossível fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma reflexão tão curta, refletiremos sobre o Evangelho da procissão.

Quase não há comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana ramos, se celebram encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns, hoje fazem questão de não perder a procissão. Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é importante estudar o que significava este evento para Jesus, e para o evangelista.

Dificulta o nosso entendimento da passagem a nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9-10). Esse era um trecho muito importante na espiritualidade dos “pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias libertador. Nessa esperança situam-se Maria e José e os discípulos de Jesus. Foi dentro desta espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as características do messias - seria um rei, “justo e pobre”, não de guerra, mas de paz! Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos! Seria uma sociedade onde, entre outros elementos, a economia estaria a serviço da vida, onde todos cuidariam da “casa comum”, o planeta! Um rei jamais entraria em uma cidade montado em um jumento - o animal do camponês pobre, mas um cavalo branco de raça! Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura de Zacarias, e se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!

Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um governante do Império Romano – ou dos impérios dos nossos tempos - com pompa, imponência, e demonstração de poder e força. O contrário do que Jesus fez! Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus” - e realmente foi, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como Servo! Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus!

O texto convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus – mas, será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? Essa semana foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus - das suas opções concretas em favor dos oprimidos, do seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas e econômicas da sua proposta de uma sociedade justa e igualitária, manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramarem a sua morte. É importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequência da sua vida - é impossível entender o que significa a Semana Santa sem ligá-la com o resto da vida de Jesus e com a sua proposta para a sociedade e para os seus seguidores. Jesus não morreu - foi morto porque incomodava, como continua a incomodar ainda hoje os que continuam com o sistema opressor que é a expressão do anti-Reino, mesmo quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo.

Um canto usado nas celebrações de hoje nos alerta: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram n’Ele e mataram o salvador!” Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, da paz e da solidariedade, da misericórdia e compaixão, ou só fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje?

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QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (13.03.16) 

“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra” 

Jo 8, 1-11

Essa história parece muito mais semelhante às narrativas do Evangelho de Lucas do que do Evangelho do Discípulo Amado. De fato, não aparece nos manuscritos mais antigos de João e só aparece pela primeira vez em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos acha que originalmente essa história circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do Quarto Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (Jo 8, 15) e “Quem de vocês pode me acusar de pecado?” (Jo 8, 46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas durante as controvérsias da Semana Santa - o que parece ser um contexto mais adequado.

O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em Lc 21, 27-38. A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério (Dt 22, 23-24). Mas, segundo João 18, 31, os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse esta pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. É uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César em Mc 12, 13-17, ou a questão sobre o divórcio em Mt 19, 3-9. Que os seus interlocutores não se interessam pela Lei se manifesta pelo fato de só acusarem a mulher e não o seu parceiro! Uma atitude machista tão comum ainda na nossa sociedade.

Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores veem uma referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jr 17, 13). Assim seria uma indicação que os verdadeiros culpados são aqueles que se davam o direito de condenar a mulher.

Perguntando da mulher se os seus acusadores não a tinham condenado, Jesus deixa claro que ele não se identifica com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar! Por isso a mulher está livre para ir - mas não para pecar de novo!

O texto ilustra mais uma vez o recado central que vimos no evangelho do último Domingo - Deus é um Deus de misericórdia, e não de condenação. Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15, 1-2 também no texto de hoje as pessoas que mais deviam se preocupar em manifestar o rosto misericordioso do Pai, se preocupavam mais em condenar, a partir de um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valoriza a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas, tem compaixão diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca é duro ou rígido com as pessoas que manifestam nas suas vidas sinais da fraqueza humana, mas, é contundente com os que não têm compaixão nem misericórdia e que escondem o verdadeiro rosto de Deus através do seu legalismo e autossuficiência.

Quantas vezes nas Igrejas - até hoje - se manifesta muito mais a dureza de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em misericórdia”? Neste tempo quaresmal preocupemo-nos em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peca mais!”

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QUARTO DOMINGO DA QUARESMA (06.03.16)
“Seu irmão estava morto e tornou a viver”
Lucas 15, 1-3; 11-32

O Evangelho de Lucas prima pela sua ênfase sobre a misericórdia de Deus. Se fosse para classificar em uma só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos sem hesitação assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo saliente esta convicção tanto como o capítulo 15. A parábola aqui relatada está entre as mais conhecidas da Bíblia - geralmente chamada “O Filho Pródigo” (pródigo significa esbanjador). Devemos ter um pouco de cuidado com esse título - pois já sugere que a figura central da parábola é o Filho Pródigo - não necessariamente a interpretação mais adequada!

Para sermos fiéis ao evangelho, devemos interpretá-lo dentro do seu esquema teológico e literário. Para isso temos que dar muita atenção aos primeiros três versículos. Pois, nos dão o motivo pelo qual Jesus contou as três parábolas do capítulo, uma chave valiosa de interpretação. São como um gancho sobre qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar. Mas, os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: “Esse homem acolhe pecadores, e come com eles!” (vv. 1-2). E depois vem a chave de interpretação: “Então, Jesus contou lhes esta parábola” (v. 3). Ou seja, Jesus contou as parábolas deste capítulo porque os chefes religiosos o criticavam por associar-se com gente de má fama! Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus. É bom lembrar que os fariseus e doutores da Lei não eram pessoas más – eram pessoas dedicadas a Deus e à religião. Só que a visão deles era distorcida – para eles, Deus é totalmente Santo, e por isso, rejeita pecadores. Para Jesus, Deus é totalmente Santo, mas por isso corre atrás dos pecadores e os acolhe. O problema de fundo é a visão de Deus, e Jesus dirige as três parábolas do capítulo 15 aos chefes religiosos, para contestar e corrigir a visão de Deus deles.

Podemos ler este texto a partir do filho perdido, ou do Pai, ou do irmão mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (“esbanjador”). Assim, ressaltaria o processo de conversão - sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo Pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal - mas diante dos primeiros dois versículos do capítulo, talvez não a interpretação primária que Lucas quisesse dar.

Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus, que em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” da sua vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas corre ao seu encontro, numa atitude não “digna” de um fidalgo oriental idoso, pois o pai está preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e se alegra com a volta de quem estava morto! Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável!

Mas, o contexto do capítulo, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente - a partir do irmão mais velho. Pois, Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam, porque Ele acolhe os pecadores! Então, o filho mais velho é a imagem dos fariseus - “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas, cujos corações estão fechados, ao ponto de serem incapazes de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a atitude deles contradiz claramente a atitude de Deus, demonstrada pela ação do pai misericordioso! Essa diferença de atitude se resume claramente nos termos que ambos usam, referindo-se ao filho mais moço. Enquanto o filho mais velho o chama de “este teu filho” (v. 30), o pai fala “este teu irmão” (v. 32).

Aqui Jesus quer questionar todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de reconhecer a nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão mais velho - “gente boa”, gente de “observância”; mas, gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrarmo-nos com a volta ao estado original de irmão ou irmã perdidos? Um texto muito apropriado para a nossa reflexão nesse “Ano da Misericórdia”. Uma parábola de consolo para todos, também de desafio.

Podemos até dizer que este capítulo de Lucas é o coração do Evangelho. Pois, Deus, o Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estava perdido. É o Deus da misericórdia e do perdão. Como traduzimos esta visão de Deus em nossas vidas?

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TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (28.02.16)
“Se vocês não se converterem, vão morrer todos do mesmo modo”
Lucas 13, 1-9 

            Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas, que também tem exigências para quem quer segui-Lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais!

            O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações sobre esse acontecimento de outras fontes). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura, era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre ao homem cego de nascença, no Evangelho de João: “Os discípulos perguntaram: Mestre, quem foi que pecou, para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?” (Jo 9, 2). É a “Teologia da Retribuição”, onde Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e, os excluídos da sociedade são vistos como culpados do seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão anti-evangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa, ou o dízimo, são entendidos como “investimento” para receber retornos de Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois a sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus, e não como, frequentemente, resultado da exploração e/ou de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (v. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida, e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo! Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, através de uma vida digna de discípulos.

            Os versículos 6-9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados - como parábola de compaixão e como parábola de crise! Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (v. 7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada a ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado, ou correr o risco de serem cortados da vinha do Senhor!

            Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre a nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas muitas vezes também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso Planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores, e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante das nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Do outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (v. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros/as discípulos/as de Jesus.
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SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA (21.02.16) 
“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que Ele diz!”
Lucas 9, 28-36

            O nosso texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesareia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (9, 23). Começando a passagem com as palavras: “oito dias após dizer essas palavras”, Lucas quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre o seguimento de Jesus até a cruz. É notável também que os três discípulos que levou consigo são os mesmos que levaria à parte com Ele no Jardim de Getsêmani (Mt 26, 37).

O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito caro a Lucas - o fato que Ele era um homem de oração. Neste momento Ele “subiu à montanha para rezar” (v. 28). Durante a oração, aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas, duas das figuras mais importantes do Antigo Testamento. Assim, Lucas mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo - Lucas aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também, de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias” (v. 33). Claro, era bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não quereria? Mas, não era uma sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e no dia seguinte “desceram da montanha” (v. 37). Por tão gostoso que seja ficar no Monte Tabor, é preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da Cruz! Quem sabe, talvez a experiência do Tabor tenha dado a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do Calvário!

Aplicando o texto e a sua mensagem a todos os cristãos, podemos deduzir que todos precisam subir o Monte Tabor para serem transfigurados, para depois descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs! Todos nós, seja qual for a nossa vocação, precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Isso torna-se cada vez mais importante no mundo atual de ritmo quase frenético, de estresse e correria. Temos que descobrir como criar espaços de tempo para respirarmos mais profundamente a presença de Deus, para renovarmos as nossas forças e o nosso ânimo. Estas experiências não devem ser “intimistas”; pelo contrário, devem aprofundar a nossa fé e o nosso seguimento, para que possamos seguir o exemplo d’Aquele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).

Esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência contando somente com as nossas próprias forças e recursos humanos - por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação - sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos! Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!” (v. 35). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários!

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PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA (14.02.16)
Lucas 4, 1-13.
“Você adorará o Senhor seu Deus e somente a Ele servirá”

            O texto expressa a luta interna de Jesus, que na realidade se deu ao longo da sua vida pública, para discernir o caminho a seguir, depois de assumir a sua missão no batismo. Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé. A experiência de Jesus é como a nossa - entre o nosso compromisso com o projeto de Deus e a vivência prática existem muitas tentações!

            Jesus estava “repleto do Espírito Santo”, e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”. O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora d’Ele durante as suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio nos momentos difíceis da vivência da sua fé!

            As tentações são as mesmas que enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro Jesus é tentado para mandar que uma pedra se torne pão. Aqui é a tentação do “prazer” - logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa da sua missão, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos em uma sociedade que cria necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, onde a regra é “se quiser, faça!”, onde o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores! Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (v. 4). Vivemos de pão; mas, não só! Jesus não é contra o necessário para viver dignamente. Mas, salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais - precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena! Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos! Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, e justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária.

A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neo-liberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”! A tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos/as, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também enfrentou esta tentação – Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 8).

            A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que o diga! Ainda hoje enfrentamos essa tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo, para confundir o que é forte” (1Cor 1, 27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarear a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus”. Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja! Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação – o poder existe somente para servir o bem comum!

            Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Todas as coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossa vida! Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos/as-missionários/as. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a Ele servirá” (v. 8)

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QUINTO DOMINGO COMUM (07.02.16)
Lucas 5, 1-11
“Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador”

            A porta de entrada desse texto, que nos traz a versão Lucana da “pesca milagrosa” (Jo 21, 1-14) é o primeiro versículo: “Certo dia, Jesus estava na margem do Lago de Genesaré. A multidão se apertava ao seu redor para ouvir a Palavra de Deus.” Lucas deixa bem claro que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir a Palavra de Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola, nem cura, mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só se busca o que é agradável, o que faz bem!

            A Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se sentissem amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia” para os humildes e sofridos. Nada deve - ou pode - substituir esta Palavra. A Igreja ainda corre atrás do prejuízo de ter privado o povo durante séculos do alimento da Palavra. Um recente Sínodo dos Bispos tratou do tema significante “O Lugar da Palavra de Deus na Vida e na Missão da Igreja”, e temos em mãos a Exortação Pós-Sinodal “Verbum Domini” do Papa Bento XVI. Felizmente muitas dioceses já têm os seus Planos de Evangelização com destaque para a formação bíblica do povo. Cumpre fortalecer cada vez mais a animação bíblica de toda a Pastoral. Resta o desafio de criarmos ferramentas para que isso realmente aconteça. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus. Oxalá não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação do Espírito Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades, especialmente entre os mais pobres. Devemos levar a sério o que proclamou o Concílio Vaticano II no seu documento dogmático Dei Verbum: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor” (DV 21). Infelizmente, nem sempre se verifica a prática dessa declaração!

            Terminada a pregação, Jesus pede que Simão “avance para águas mais profundas” (v. 4), para lançar as redes. Pois, barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador para nós - a Igreja, as comunidades, os indivíduos - ficarmos seguros nas águas rasas que não apresentam perigo, mas tampouco frutos! Se quisermos ser realmente “pescadores de homens” (v. 10) teremos que enfrentar as águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta. O mundo globalizado pós-moderno urbanizado exige novas respostas pastorais, como tão bem reconheceu o Documento de Aparecida. Não é mais possível continuarmos nas nossas comunidades somente com uma “pastoral de manutenção”, mas precisamos ousar dialogar com novas situações e com o pluralismo do nosso mundo. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas e tranquilas, sem risco – mas, fazer assim seria trair a nossa vocação batismal. Poderemos nos perguntar - o que quer dizer para mim, para a minha comunidade, movimento ou pastoral, “avançar para as águas mais profundas”? O que nasceu de novo entre nós nesses últimos anos, desde a Conferência de Aparecida. Estamos aprendendo do exemplo do Papa Francisco que ousa agir de uma maneira nova, sempre buscando maneiras mais eficazes de demonstrar o amor de Deus para todos os povos?

            Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador profissional, sabia muito bem que não se lançavam as redes naquela hora do dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes é hoje – o que Jesus nos pede parece loucura aos olhos da sociedade consumista e excludente. Pois, como diz Paulo “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25). Mesmo assim, Simão lança a barca “em atenção à Sua palavra” (v. 5). Aqui está o nó da questão - a atenção à Palavra de Deus. O Salmo 95 (94), 7 reza: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” - pois Deus nos fala todos os dias. Uma fala exige atenção para que seja captada. Deus nos fala sempre - mas, se não tivermos as antenas ligadas, não ouviremos. Continuaremos acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão exige que nos lancemos para águas profundas.

            Pedro reage já: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um pecador!” (v. 8). Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. O que parece normal, segundo critérios humanos, fica claramente negativo diante dos critérios do amor divino! Mas, Jesus não atende o pedido de Pedro - foi exatamente porque somos pecadores que Ele veio! Pelo contrário, fala para Pedro não ter medo - nem da sua fraqueza, nem da sua natureza pecaminosa, nem das suas falhas. Jesus o chama tal como ele é. Ele nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como somos de fato. Não devemos ter medo da nossa realidade humana e pecadora, pois todos nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2Cor 4, 7), mas podemos caminhar com confiança porque “se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Rm 8, 1). Somos chamados a segui-Lo como somos. Porém, isso não pode nos acomodar, pois o Evangelho deixa claro que quando os apóstolos foram chamados, deixaram tudo para segui-Lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos algo. Resta perguntar a nós mesmos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe, neste momento na minha caminhada de discípulo/a”? Como é que eu devo lançar-me para “águas mais profundas” como discípulo-missionário/a do Senhor?
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QUARTO DOMINGO COMUM (31.01.16)
Lucas 4, 21-30 
“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”  

            Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após o Seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos Nazarenos - da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos.

            Em primeiro lugar “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca” (v. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus, nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1Cor 1, 4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre a sua fala e a sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós - de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim as nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa ser a nossa fala, seremos “sinos ruidosos, ou símbolos estridentes” (1Cor 13, 2) - chamam a atenção, mas não deixam frutos! Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre e de novo sua orientação nele para o seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria, mas a sabedoria de Deus, que com frequência parece estupidez aos olhos do mundo.”

            A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco muitas vezes nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece que, em lugar de incentivar as nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitamos por não serem “doutores”, por não saberem “falar bonito”, como sabem muito bem os nossos exploradores! Parece às vezes que há gente que sente prazer em destruir as lideranças. Mas, as coisas vão mudar só quando o pobre começar a acreditar no pobre!

            Outro motivo para tal reação, com certeza, era o fato de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, usando os exemplos da ação de Deus em favor de um estrangeiro (Naaman, o sírio) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta). Pois, Jesus era um profeta e o profeta sempre incomoda, pois nos desafia a sair de nossas fronteiras, e olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado, e por isso preferimos com frequência criar uma religião de ritos e rituais, com certezas absolutas que nos confirmam na nossa visão do mundo. Mas, a verdadeira religião não é só de ritos (embora esses tenham grande importância na celebração da nossa fé). É o seguimento de Jesus, que veio “para que todos/as tenham a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10), vivenciando a solidariedade e a fraternidade entre todas as pessoas, sem preconceitos nem exclusões. É triste ver em tantos lugares hoje que a maior preocupação de muitas Igrejas parece ser com as minúcias rituais, com um número cada vez maior de normas, decretos e rubricas, enquanto se ignoram as grandes questões da humanidade, como a violência, a exploração, a destruição da natureza, o extermínio de indígenas, e assim por diante. Dificilmente se pode imaginar Jesus de Nazaré agindo assim. Por isso, talvez se fale tanto nos programas religiosos dos meios de comunicação só do Cristo glorificado, e tão pouco de Jesus de Nazaré, profeta perseguido por causa das suas opções concretas em favor dos sofredores, sem levar em conta a sua raça, religião ou situação social.

            Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante de críticas e rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes com o Profeta de Nazaré. Ele “continuou o seu caminho” (Lc 4, 20). É isso mesmo - apesar das críticas, da não-aceitação, das gozações, o cristão tem que “continuar o seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois a sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas, na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos neste sentido, seguindo o exemplo do Mestre! Como recomenda a Carta aos Hebreus: “Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores.”(Hb 12, 3)

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TERCEIRO DOMINGO COMUM (24.01.16)
Lc 1, 1-4; 4, 14-21
“O Espírito do Senhor está sobre mim”

             O texto relata a primeira experiência da Vida Pública de Jesus. Deu-se na sua terra de criação - Nazaré. Na linguagem de hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura! Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas leituras - a primeira tirada da Lei, a segunda dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do Profeta Isaías, encontrou a passagem que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano da graça do Senhor” (4, 18-19). Não que Ele encontrasse esta passagem por acaso! Pelo contrário - Jesus procurou até achar, pois Ele identificava a sua missão com aquela descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura, que vocês acabam de ouvir” (4, 21). Jesus identificou a sua missão com a do Capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos d’Ele, temos a mesma missão. Olhemos os elementos:

 a) “Anunciar a Boa Notícia aos pobres”: O evangelho é “Boa-Notícia” - não uma série de leis, nem uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos estes elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade, - especialmente para os pobres! Portanto, Ele toma posição - o que é boa notícia para uns, é má notícia para outros! O que é boa notícia para o oprimido, é má notícia para o opressor, a não ser que mude de vida! Não existe uma Boa Notícia neutra, igualmente boa para todos! E não devemos diluí-lo ao termo “pobre” - aqui não é o pobre de espírito, nem de coração, nem de fé... é o pobre mesmo, aquele/a que não tem o necessário para uma vida digna (Lucas usa o termo grego “ptochois”, que significa mais ou menos “indigentes”). Com certeza, na nossa sociedade inclui todos os excluídos.

 b) “Proclamar a libertação aos presos”: Não só aos na cadeia, mas aos que estão sem a liberdade dos filhos de Deus - presos hoje pelas consequências do neoliberalismo, do desemprego, do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo, e tudo que oprime! Também aos presos no seu próprio egoísmo, pois, o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém, esta libertação passa pela mudança radical na sua maneira de viver.

c) “Aos cegos a recuperação da vista”: Quanta gente cega hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia dominante que não deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança através da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar que o texto enfatiza a “recuperação” da vista - não a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os/as que uma vez viram a realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante ao ponto de não enxergarem mais a verdade.

d) “Libertar os oprimidos”: Aqui há o eixo fundamental de toda a Bíblia - o Êxodo, como processo permanente. No livro de Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êx 3, 76-10). Jesus se coloca - e coloca todos os seus seguidores - neste mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nesta luta para concretizar a libertação dos oprimidos.

e) “Proclamar o ano de graça do Senhor”: O Ano da Graça - o Ano Jubilar! Memória da proposta do Lv 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras aos seus donos originais!

Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, esta visão? O que significa hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos e a devolução das terras? Questões evangélicas da fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas e desafiam a tendência à uma religião intimista, individualista e desencarnada da realidade. Pois, júbilo, alegria, não pode ser decretado - tem que brotar de algum motivo profundo. Aqui o próprio Jesus fala da Sua missão, que é também a nossa. Pois, fomos todos “consagrados com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres, para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar o ano da graça do Senhor” (4, 18-21). 

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SEGUNDO DOMINGO DO TEMPO COMUM (17.01.16)
Jo 2,1-11
“Façam tudo o que Ele lhes disser”  

A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus, e qual é a missão d’Ele. Embora algumas bíblias traduzam o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “Sinal”. O primeiro desses sinais aconteceu no contexto das bodas de Caná, o texto de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, onde pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente, para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus.

Um dos temas centrais do quarto evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por sua mãe - João nunca se refere a ela pelo nome, mas pelo título “mulher”. Usando de uma maneira até estranha este termo para a Sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar para ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe dos seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste Evangelho - ao pé da cruz, onde Ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Filho e Mãe. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje.

Apesar da nossa tradição piedosa mariana é importante não reduzir a ação da Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum esta interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre a Sua expectativa e a visão d’Ele, Ela continua com confiança n’Ele e leva outros a acreditar n’Ele.

O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não era qualquer água - era a água da purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que doravante os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem através de Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado, uma prática que excluía muita gente, para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, algo que vai continuar ao longo do Evangelho de João.

            A quantia do vinho chama a atenção - 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos, e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como os serventes. Aquele, que devia saber a origem do vinho da festa, não sabia, enquanto estes, sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram n’Ele.

            Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus.

            O ponto culminante do relato está em v. 11: “Foi em Caná que Jesus começou os seus sinais, e os seus discípulos acreditaram n’Ele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas, o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus através de sinais para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (Jo 20, 31).
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FESTA DO BATISMO DO SENHOR (10.01.16)
Lc 3, 15-16. 21-22
“Este é o meu Filho amado, que muito me agrada.” 

            Hoje, no Domingo seguinte à Epifania, celebra-se a Festa do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista no Rio Jordão é tão importante teologicamente que é tratado por cada um dos Sinóticos, cada qual da sua maneira, dependendo da situação da sua comunidade e dos seus interesses teológicos. A história logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado em um ritual de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Mc 1, 4 ao perdão dos pecados, e adiciona os vv. 14 e 15. Para João, o batismo era tão difícil de ser harmonizado com a sua cristologia, que omite qualquer referência ao atual evento, e no seu lugar, faz com que João Batista indica Jesus como o “Cordeiro de Deus” (Jo 1, 29-34).

            O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus. Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como membro do seu povo - identificando-se com aquela camada do povo marginalizada e menosprezada como “impuro” pela teologia oficial, atrelada ao poder político das elites. Como disse o saudoso Padre Alfredinho, fundador da Fraternidade do Servo Sofredor: “No dia do seu batismo, Jesus entrou na fileira dos excluídos para nunca mais sair dela!” Com o Seu batismo, Jesus assume a fidelidade radical à vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo, rejeitando a visão de um Messianismo triunfalista.

            Os sinóticos ressaltam o fato que “o céu se abriu”. Marcos é o mais contundente quando enfatiza que “os céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar que em Jesus acontece a união definitiva entre o céu e a terra (At 7, 56; 10, 11-16; Jo 1, 51) e uma revelação celeste (Is 63, 19; Ez 1, 1; Ap 4, 1; 19, 11). A revelação maior é a confirmação da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século, muda a tradição original (Mc 1, 9-11), mantida por Lucas, onde as palavras do Pai se dirigiam a Jesus, para dirigi-las aos ouvintes: “Este é o meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (v. 17). Em ambas as tradições, essas palavras associam a terminologia de Sl 2, 7, que repete a profecia de Natã em 2Sm 7, 14 (tu és meu filho...) a Is 42, 1 (meu bem amado que me aprouve escolher). A passagem de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42, 2), nem vacila, nem é quebrantado (42, 4). (A tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto os termos hebraicos para “filho” e para “servo”). Fazendo fusão desses textos do Antigo Testamento, o texto une em Jesus duas figuras proféticas - a do Filho da descendência real davídica e do Servo de Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor, e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o Batismo é para Jesus o assumir público da sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirma a sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início do seu ministério público, como seu Filho (Sl 2, 7), seu bem-amado, objeto da sua predileção.

            Um dos sentidos mais importantes do nosso batismo também é o nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus - cada um de nós também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1Jo 3, 1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito - nem a nossa fraqueza, nem o pecado (Rm 8, 39). Importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e cabe a nós responder a este amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (1Jo 4, 10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências - uma vida de fidelidade, que o levava até a Cruz - e a Ressurreição (Fl 2, 6-11). É importante também lembrar que, como o Pai me ama incondicionalmente, ele assim ama a todos/as, independente da sua condição social, religiosa, ou moral. Esse fato desafia a nossa maneira de olhar outras pessoas, e as nossas atitudes diante das que não correspondem com as nossas expectativas nem os nossos princípios.

            Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso do nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de contribuir à criação do mundo que Deus quer, um mundo onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. O nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino d’Ele, que “já está no meio de nós” (Mc 1, 14). 

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Solenidade da Epifania do Senhor (03.01.16)
Mt 2, 1-12
“Viemos prestar-lhe homenagem” 

 Hoje celebramos uma das grandes festas do Ciclo de Natal - a Manifestação do Senhor (“Epifania” em grego), onde comemoramos o fato de que Jesus foi manifestado, não somente ao seu próprio povo, mas a todos os povos e nações, representados pelos Magos do Oriente. Embora a festa tenha muita popularidade folclórica, também proclama uma grande verdade da fé - que a salvação em Jesus é para todos os povos, sem distinção de raça, cor ou religião. Retomando a grande intuição do profeta Isaías, celebramos hoje a salvação universal em Jesus.

O texto de hoje é altamente simbólico - usa uma técnica da literatura judaica chamada “midraxe”, ou seja, uma releitura de passagens bíblicas, com o intuito de atualizá-las. Assim, Mateus quer ensinar algo sobre Jesus, usando figuras e símbolos tirados de diversos textos do Antigo Testamento. Por exemplo:

- Vêm os magos (nem três, nem reis!) buscando o Rei dos Judeus. Esses magos lembram os magos que enfrentavam e foram derrotados por Moisés (Êx 7, 11.22; 8, 3.14-15; 9,11) e acabaram reconhecendo o poder de Deus nas maravilhas feitas por Ele.

- A estrela é sinal da vinda do Messias, relendo a profecia de Balaão em Nm 24, 17.

- O menino nasce em Belém, conforme a profecia de Miquéias (Mq 5, 1)

- Os presentes lembram as profecias de Segundo e Terceiro-Isaías, e dos Salmos, sobre os estrangeiros que viriam a Jerusalém trazendo presentes para Deus (Is 49, 23; 60,5; Sl 72, 10-11).

- Herodes, como o Faraó, massacra os filhos do povo de Deus (Êx 1, 8.16).

O texto chama a atenção pelas reações diferentes diante do nascimento de Jesus. Os que deveriam reconhecer o Messias - pois são versados nas Escrituras - ficam alarmados, pois para eles, opressores do povo através da religião e da política, Jesus e a sua mensagem constituem uma ameaça. Outros, pagãos do oriente, buscando sem ter certeza, arriscam muito para descobrir o verdadeiro Deus, e entregam-lhe presentes, sinal da partilha, grande característica do Reino que Jesus veio pregar.

Hoje em dia verificam-se as mesmas reações diante de Jesus e do seu Evangelho. Muitos querem reduzir os eventos religiosos a algo folclórico com shows e cantos, mas que de forma alguma possa questionar a nossa sociedade e os seus valores. Para outros, o menino na estrebaria é um sinal do novo projeto de Deus, o mundo fraterno, onde todas as pessoas de boa vontade têm que se unir, seja qual for a sua raça, nação, gênero ou religião, para construir a fraternidade que Deus quer.

Jesus não precisa de presentes mas do nosso esforço na vivência do seu Reino. Na prática, temos que optar - para a vivência religiosa vazia como a de Herodes e dos Sumos Sacerdotes, ou pela mensagem libertadora do Menino de Belém, que convoca todas as pessoas de boa vontade, sem distinção de raça, cultura ou tradição religiosa, representados hoje pelos magos, para a construção do mundo de paz, fraternidade e justiça, pois Jesus veio para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente.” (Jo 10, 10) 

            A festa de hoje deve tirar-nos de qualquer comodismo, como se Deus só quis nos salvar. A salvação é para todos – uma mensagem mais do que nunca importante no nosso mundo onde fervem sentimentos de xenofobia, ódio religioso e racial e divisão. O Papa Francisco não cansa de insistir que a Igreja – nós, cristãos – tem que “sair” em encontro do mundo multicultural, pluralista de hoje. A nossa preocupação não é primeiramente em “converter” pessoas de outras religiões, mas que sejamos como a “estrela” que leva quem nos encontrar a experimentar o amor universal e misericordioso de Deus, manifestado em Jesus, através da nossa vivência como discípulos-missionários do Senhor.

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Pe. Tomaz Hughes, SVD
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NB - Texto revisado: acentuação, pontuação, regência verbal, gramática, maiúsculas/minúsculas, digitação, aspas, parênteses, barra de espaço... tendo já incorporado a nova ortografia. Não mexi nas ideias teológicas do Padre Hughes que, na minha visão, são ótimas; mas, mudei algumas palavras para melhor expressar o que ele queria dizer. Solicito que o texto seja multiplicado pela internet e pela mídia impressa e eletrônica.

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