Homilias

Reflexões Homiléticas para 2015

Pe. Tomaz Hughes, SVD

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Festa da Sagrada Família (27.12.15)

Lucas 2, 41-52

            Na Igreja Católica, hoje é celebrada a Festa Litúrgica da Sagrada Família. Portanto, o trecho de Lucas põe em relevo os três membros da família de Nazaré, - mas tem como o seu tema principal, um ensinamento sobre quem é Jesus, a sua relação ao Pai e à sua família humana.

            A história começa enfatizando a identidade da família humana de Jesus como judeus piedosos. Os regulamentos sobre as peregrinações ao Templo de Jerusalém, para a Festa de Páscoa, se encontram em Êx 23, 17; 34.23; Lv 23, 4-14. Como consequência, entendemos que o ambiente em que Jesus cresceu - e em que descobriu a sua vocação e missão - é aquele dos “pobres de Javé”, os devotos que esperavam a libertação de Israel, através da vinda do Messias davídico prometido. Esta viagem prefigura a grande viagem de Jesus a Jerusalém em Lc 9, 51 - 19, 27, que ela fará com os seus discípulos, e onde ele revelará por palavras e ações o seu relacionamento com o Pai - prefigurado aqui no versículo 49.

            O texto salienta certas atitudes de Jesus. É bom prestar bem atenção aos verbos. Lucas diz que Jesus estava no templo entre os doutores “escutando e fazendo perguntas.” (v. 46).            A atitude de Jesus é a de um aluno muito inteligente, e não de um mestre - Ele não está “ensinando no Templo”, como muitas vezes dizemos em nossas tradições. Aqui Lucas antecipa para os doze anos o que realmente ocorrerá mais tarde, quando Jesus realmente ensina no Templo e sofre a rejeição e a perseguição por parte dos doutores da Lei e Sumos Sacerdotes.

            O ponto central do texto se acha em versículo 49: “Porque me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?”

            Aqui Lucas relata as primeiras palavras de Jesus no seu Evangelho. Agora não é Gabriel, nem Zacarias, nem Maria quem diz quem é Jesus, mas Ele mesmo. A palavra que nós traduzimos como “devo”, em grego “dei”, transmite o tema de “necessidade”, que aparece no Evangelho 18 vezes e nos Atos dos Apóstolos 22 vezes, e “expressa um senso de compulsão divina, frequentemente visto como obediência à uma ordem da Escritura ou profecia, ou na conformidade de eventos com a vontade de Deus. Aqui a necessidade consiste no relacionamento inerente de Jesus a Deus, que exige obediência” (Marshall - “The Gospel of Luke”).

            Em versículo 50, fica claro que os pais de Jesus não entenderam que o relacionamento d’Ele com o Pai celeste tomava precedência sobre a Sua relação com eles: “Eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer.”

            A “espada”- a dor de sentir este distanciamento sem poder compreendê-lo e da que falou Simeão em 2, 35 - já começa a aparecer. Maria não compreende plenamente - retomando o tema de v. 19 - e tem que continuar a sua caminhada de fé, meditando sobre o sentido e identidade do seu filho. Fato encorajador para nós. Quantas vezes acontecem coisas na nossa vida que não compreendemos, e nelas nem conseguimos ver a vontade de Deus. Ao exemplo de Maria e José, aceitemos essa escuridão, continuemos a caminhada, mas, nunca deixemos, com atitude de oração de contemplação, de “conservar no nosso coração todas essas coisas”!

 

Missa da Tarde de Natal: Jo 1, 1-18 - (25.12.2015)

“O Verbo se fez carne e armou sua tenda no meio de nós”

Embora sejamos muito mais familiarizados com as leituras de Lucas, referente ao nascimento do Salvador em Belém, na realidade o Evangelho da Missa do Dia, tirado do prólogo de João, nos traz o sentido profundo dos eventos do primeiro Natal.

O texto gira ao redor do “Verbo” ou “Palavra” - “Logos” em grego. Enquanto Marcos somente começa o seu relato do Evangelho de Jesus com o seu batismo e Lucas e Mateus remontam até a sua concepção, o Quarto Evangelho liga Jesus à sua preexistência, desde o começo:

“No princípio já existia a Palavra e a Palavra estava com Deus e a Palavra era Deus... a Palavra se fez homem e armou sua tenda entre nós” (1, 1.14). Mesmo que se expresse sobre Jesus em termos não tão familiares para nós (Verbo, ou Palavra), João se coloca bem na tradição do Antigo Testamento. Embora use a palavra grega “Logos”, para expressar a identidade de Jesus como o Verbo, na sua mente não está uma discussão abstrata sobre o Logos dos filósofos gregos, mas, muito mais o sentido teológico do termo hebraico “Dabar”, que indica a Palavra criadora, congregadora e libertadora de Deus, expressão do Deus de amor de libertação.

O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!” Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. N’Ele e por Ele a Palavra Criadora age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a Pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.

Mas, essa encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade. Pois “Veio aos seus e os seus não a acolheram”. Assim, o texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, Senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21).

O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos diz “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus, os que creram n’Ele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).

Que a celebração da grande festa de hoje nos confirme na nossa fé nesse Deus que se encarnou entre nós, “tomando a condição de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 2, 7) e como resultado dessa renovação espiritual nos encoraje para continuarmos na luta para criar o mundo que Deus quer - de justiça, solidariedade e fraternidade, no caminho do Reino, onde “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Como nos diz Hebreus: “Corramos com perseverança na corrida, mantendo os olhos fixos em Jesus, autor e consumidor da fé... Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hb 12, 1-3)

 

Missa da Manhã do Natal: Lc 2, 15-20 (25.12.2015)

Apesar da sua mensagem ser quase abafada pela euforia do consumismo e materialismo que transforma a grande festa cristã do Natal do Senhor numa verdadeira orgia pagã de esbanjamento e exclusão, a história do nascimento do Senhor, contada nas palavras singelas de Lucas, perdura ainda com a sua mensagem profunda de paz, união, solidariedade e amor, que o neo-paganismo pós-moderno da nossa sociedade é incapaz de ofuscar.

As Missas da vigília e da aurora usam dois textos contínuos de Lucas, que realmente formam um mosaico teológico de grande beleza, através da sua habilidade literária. Lucas pega as tradições que põem a origem de Maria e José em Nazaré e junto-as às que colocam o nascimento de Jesus em Belém, e as insere na história humana e universal, através das suas referências a grandes figuras históricas da época, César Augusto, Herodes o Grande e o governador da Síria, Quirino. Nesse contexto ele tece uma rede que contém oito dos seus temas preferidos - alimento, graça, alegria, pequenez, paz, salvação, “hoje”, e universalismo, para trazer à humanidade de todos os tempos “uma boa notícia, uma alegria para todo o povo” (2, 10).

Embora haja uma confusão sobre as referências cronológicos em Lucas, pois Quirino não foi governador no tempo de Herodes e não se tem informações extra-bíblicas sobre um recenseamento feito por Augusto, a finalidade de Lucas é situar o nascimento do Salvador bem dentro da história humana - e especialmente a história humana dos pobres e excluídos. Jesus nasce filho de viajantes, forçados a sair da sua casa pela força opressora do império, pois a finalidade de um recenseamento era alistar todos para a cobrança de impostos. Assim, o Messias nasce em condições subumanas e indignas - como nascem e se criam milhões de crianças todos os anos na nossa sociedade atual. Como não teve lugar para eles na “hospedaria” (um tipo de albergue para viajantes, onde os animais ficavam no pátio, no primeiro andar tinha cozinha comunitária e no segundo andar dormitórios, algo ainda comum em certas regiões do Oriente hoje), Maria dá à luz numa gruta ou estrebaria e deita Jesus numa manjedoura.

Logo, Lucas introduz mais personagens tirados dos excluídos da religião e sociedade de então - os pastores. No tempo de Jesus eram considerados como delinquentes, dispostos sempre ao roubo e à pilhagem; por isso, não mereciam confiança alguma e nem podiam testemunhar em juízo. É importante notar que em Lucas são pessoas pertencentes a duas categorias proibidas de dar testemunho em juízo (pastores e mulheres) que Deus escolhe para testemunhar os dois eventos mais importantes da história - o nascimento e a ressurreição do Salvador. Natal se torna festa de inclusão dos que a religião oficial e a sociedade dominante excluía - enquanto a maioria da classe abastada da nossa sociedade atual celebra o Natal exatamente nos templos de consumo de hoje - os Shoppings -, onde pessoas pobres são excluídas do banquete de poucos. Que contradição!

É importante também por em relevo a mensagem dos anjos: “Glória a Deus no alto, e na terra paz aos homens que ele ama” (v. 14). Aqui Lucas cria um binômio - dois elementos conjugados, ou seja, uma maneira de dar glória a Deus no alto é a criação da paz entre as pessoas aqui na terra. Atrás do termo “paz” há um cabedal de reflexão teológica, vindo do Antigo Testamento. O nosso termo “paz” capta somente uma parte do que significava a palavra hebraica “Shalom”, que não se limita a uma mera ausência de violência física, mas inclui a realização de tudo que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Portanto, o texto natalino nos convida e desafia para que demos glória a Deus através do nosso esforço em criar um mundo de Shalom - onde todos possam “ter a vida e a vida em abundância!” (Jo 10, 10)

É importante também refletir como Lucas nos apresenta a pessoa da Maria neste texto. Enquanto todos os que ouviam os pastores “assombravam-se” (v. 18), “Maria, porém, conservava isso e meditava tudo em seu íntimo” (v. 19). Dois textos do Antigo Testamento usam o mesmo verbo grego (synetèrein): Gn 37, 11 e Dn 4, 28, para descrer a perplexidade íntima de uma pessoa que procura entender o significado profundo de um fato. Assim, Lucas enfatiza que Maria não captou de imediato todo o sentido do que ouviu, mas meditava as palavras, contemplando-as, para descobrir o seu significado. Maria cresceu na fé, acolhendo e discernindo o sentido profundo dos acontecimentos - se torna peregrina na fé, modelo para todos nós, nos convidando a nos mergulharmos nos relatos evangélicos, contemplando os mistérios da vida de Jesus e o que eles podem significar para nós hoje.

A festa de Natal é uma oportunidade ímpar para nos aprofundarmos no sentido do amor de Deus por nós, expressado na Encarnação. Mas, se fizermos dele somente uma festa de consumismo e materialismo, jamais colheremos os seus frutos. Sem deixar do lado o seu lado lúdico, familiar e festivo, cuidemos para não sermos seduzidos pelos ídolos do ter e do prazer, tão bem promovidos pelo marketing dos Shoppings, mas retornemos à singeleza da gruta de Belém e redescubramos o motivo de uma verdadeira “alegria para todo o povo”, - nasceu para nos o Salvador!

 

Missa da Noite do Natal - 24.12.2015

Lc 2, 1-14

Esta passagem é típica do estilo de Lucas e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!

Esse trecho pode ser subdivido assim:

1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2, 1-7

2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2, 8-14

3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2, 15-20

A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim, ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é, na verdade, o contrário da “Pax Romana” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros das forças militares prepotentes! Essa revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!

Desde a Idade Média, o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até o boi e o asno tomaram banho! A realidade de nascer em uma gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (1Cor 1, 25).

Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas dessa cena são os pastores. Na época eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujas, ritualmente impuras. É para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde a oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!

O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não em uma data futura distante. Essa ideia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); a Zaqueu, Jesus afirma que “hoje a salvação entrou nessa casa” (18, 9); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estarás comigo no paraíso” (23, 43). O Reino da Salvação está sendo inaugurado por Jesus, na fraqueza da exclusão social e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Em uma manjedoura e não em palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio e não pelos poderosos e fortes do mundo!

Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significativo o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria: “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19). Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A ideia volta de novo em Lc 2, 51: “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”. É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.

O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores: “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não dê para os oprimidos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

 

QUARTO DOMINGO DO ADVENTO (20.12.15)

Lucas 1, 39-45

“Bendito o fruto do seu ventre!”

Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, e também a continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada - os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa, Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo, e o neném que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lc 2, 25-38), quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2, 29).

Assim, não devemos reduzir o texto de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse mostrar Maria como modelo de caridade, não teria colocado o versículo 56, que mostra ela deixando Isabel na hora de maior necessidade: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa,” antes do nascimento de João.

Também, não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a de Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.

O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no seu ventre, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João no seu ventre - é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo, no Antigo Testamento: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.

Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou.” Maria é bendita em primeira lugar, não pela sua maternidade somente, mas pela fé - em contraste com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Notemos que neste capítulo primeiro nós encontramos frases que podem fundamentar uma compreensão correta da visão bíblica da pessoa e função de Maria, que pode unir em lugar de dividir cristãos das diversas confissões: “Ave Maria” (1, 28); “Cheia de graça” (1, 28), “O Senhor é convosco”(1, 28), “Bendita sois vós entre as mulheres” (1, 42), “Bendito o fruto do vosso ventre” (1, 42). Lucas nos apresenta a mãe do Senhor como modelo de fé para todos nós! Benditos somos nós, se realmente acreditarmos na Palavra de Deus!

 

TERCEIRO DOMINGO DO ADVENTO (13.12.15)

Lucas 3, 10-18

“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”

Esta passagem trata da pregação de João Batista, que: “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (v. 3)

O início do texto, versículos 10-14, que constam somente em Lucas, mostra bem a sua teologia e contexto - não são os líderes religiosos que estão prontos para arrepender-se, mas o povo comum e até pessoas que estavam à margem da sociedade - como cobradores de impostos e soldados. Mais adiante no Evangelho são estas as pessoas que vão responder positivamente diante da pregação do próprio Jesus. Escrevendo para as comunidades pelo ano 80-85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devam estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis” - como fizeram João e Jesus!

A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam para João: “O que devemos fazer?” Esta pergunta aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lc 10, 25 (na boca de um doutor da Lei) e Lc 18, 18 (uma pessoa importante), e também nos Atos dos Apóstolos: At 2, 37 (os judeus depois da pregação do Pedro), At 16, 30 (o carcereiro gentio de Filipos), At 22, 10 (Saulo, o perseguidor). Usando este artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que tem que ser feita constantemente durante a nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta.

É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios ou práticas religiosas como jejum e abstinência. Ele enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne do nosso ser - uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade. As Campanhas da Fraternidade seguem esta linha de João - pois muitas vezes é mais fácil abster-se de uma carne ou uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor.

Este trecho traz à tona mais uma vez um dos temas principais do Evangelho de Lucas - o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui prega antecipadamente o que mais tarde Jesus vai ensinar - a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos, a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida.

A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus. João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos 2 - na história de Pentecostes - como o fogo do Espírito Santo cumpre a sua missão nas pessoas.

O texto termina com a declaração que “João anunciava a Boa Notícia ao povo de muitos outros modos” (v. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará que também merece ser taxado de “Boa Notícia”. A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus de uma forma gratuita, mas que exige resposta decidida de cada pessoa. É a crise existencial do mundo todo - aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus. Para Lucas esta decisão tem que ser renovada sempre, através da pergunta “o que devemos fazer”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”!

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SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (06.12.15)

Lucas 3,1-6

“Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho do Senhor”

Atrás das informações históricas deste texto, referentes às autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de Deus e aos seus mensageiros, João o Batista, e Jesus, o Cristo! Na pessoa do Poncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o Messias; entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável pela morte de João, além de estar presente no sofrimento de Jesus na Semana Santa; Anás (Sumo Sacerdote de 6-15 d.C) e o seu genro Caifás (Sumo Sacerdote de 18-37 d.C) só funcionam porque os romanos permitiam e realmente foi a eles que serviam. Os Sumos Sacerdotes sempre serão hostis a Jesus e à pregação d’Ele e no fundo eram eles os responsáveis pela morte d’Ele.

No meio desse elenco de poderosos corruptos e perseguidores, Deus manda João Batista, como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Essa será mais tarde a mensagem básica do Apocalipse - o mal já é um derrotado, e embora possa parecer diferente, é Deus e não a maldade que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas essa vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz!

Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías: “Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas; as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 4-6).

Sem dúvida, podemos entender este trecho com sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados, simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus. Quem aceita a sua mensagem terá que mudar radicalmente - isso é, na raiz - a sua vida. Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido como que a Quaresma é, se torna tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, montanhas, e pedras que teremos que tirar para que o Senhor realmente possa habitar nos nossos corações. O Papa Francisco indica um elemento a ser vivido mais profundamente na vida individual de todo cristão, e na comunidade da Igreja: A misericórdia, tema tão caro ao autor do Terceiro Evangelho, e algo que muitas vezes falta nas nossas relações em todos os níveis.

O último versículo: “E todo homem verá a salvação de Deus” (v. 6) faz eco ao tema lucano da universalidade da salvação, usando essa frase que não se encontra no texto paralelo de Mc 1, 3. Ninguém é excluído da mensagem e oferta da salvação. Mas a resposta depende de cada um de nós!

PRIMEIRO DOMINGO DO ADVENTO (29.11.15)

Lucas 21, 25-28.34-36

“A libertação de vocês está próxima”

 

            Neste primeiro domingo do Ano Litúrgico, Lucas nos mergulha em um dos discursos escatológicos do seu Evangelho. Sendo assim, usa imagens e símbolos que não são da nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis a serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente - o mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro - não cada imagem e símbolo, mas a sua mensagem de conjunto.

            O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem” - o título que os Evangelhos mais usam para Jesus e que nós pouco usamos. Este título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu vinha alguém como um filho de homem... Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído.” ( Dn 7, 13s)

            Jesus recorda aos seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C. - que embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, através do seu Ungido - o Filho do Homem - revelará o seu poder, e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora em Jesus!

            Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes que sofrem as consequências do reino opressor de qualquer época é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é de animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central do nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima.” (v. 28)

            Este trecho tem uma dimensão fortemente cristológica - nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em seu controle todas as forças, sejam elas de guerra (v. 9) ou do mar - símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (v. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (v. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem.

            Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que: “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida.” (v. 34). Pois, é fácil assumir as atitudes do mundo, sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força” (v. 36).

            O Advento é tempo oportuno para que examinemos a nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos o tempo todo para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de dedicarmo-nos mais à oração, para renovar as nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que os nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, através dos irmãos e irmãs, no nosso dia-a-dia! Por feliz coincidência, esse Advento vai ser marcado pelo início do “Ano Jubilar de Misericórdia” e o Ano Litúrgico que hoje inicia usa nos Domingo Comuns o Evangelho de Lucas - o Evangelho da Misericórdia, por excelência! Sejamos vigilantes para que a misericórdia seja característica das nossas relações e para que não caiamos nas ciladas de atitudes de violência, vingança e dureza de coração, típicas da nossa sociedade hoje, e tão propagadas pela mídia hoje.

 

FESTA LITÚRGICA DO NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, REI DO UNIVERSO (22.11.15)

Jo 18, 33b-37

“Todo aquele que é da verdade, escuta a minha voz”

 

Na Igreja Católica, hoje, último domingo do Ano Litúrgico, celebra-se a festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo. A festa foi estabelecida na época dos governos totalitários nazistas, fascistas e comunistas, nos anos antes da Segunda Guerra, para enfatizar que o único poder absoluto é de Deus. Nos dias de hoje, em que milhões padecem as consequências de um novo tipo de totalitarismo disfarçado, o do poder econômico inescrupuloso, torna-se atual a inspiração original da festa - que Deus é o único Absoluto. Em um mundo que não ateu, mas, idolátrico, pois presta culto ao lucro, a festa de hoje nos desafia para que revejamos as nossas atitudes e ações concretas - para descobrir o que é para nós, na verdade, o valor absoluto das nossas vidas.

O texto é tirado da paixão segundo João - o diálogo entre Jesus e Pilatos sobre a verdadeira identidade de Jesus. Com a ironia que lhe é típica, João faz com que Pilatos - o representante do poder absoluto da época, o Império Romano - apresenta Jesus como Rei, o que Ele é na verdade, mas não da maneira que Pilatos pudesse entender. O Reino de Jesus é o oposto do Reino do Império Romano - não é opressor, nem injusto, nem idolátrico, mas o Reino da justiça, fraternidade, solidariedade e partilha, o Reino do Deus da Vida.

É exatamente por pregar e semear este Reino que Jesus deve morrer – aliás, não morrer, mas, ser matado, o que é diferente. Pilatos demonstra isso quando ele deixa claro quem entregou Jesus, pedindo a sua morte, não foi o povo, mas os sumos sacerdotes que o entregaram (v. 35). É importante entender o que isso significa, pois se Jesus foi matado, houve algum motivo e houve alguém que o matasse. Os sumos sacerdotes eram, no tempo de Jesus, todos nomeados pelos romanos, dentro do partido dos saduceus, o partido da elite jerosalemita, donos de terras e do comércio, e chefes do Templo. O Templo funcionava como “Banco Central”, centro de arrecadação de impostos e lugar de câmbio monetário, uma vez que não se aceitava nele a moeda corrente. Jesus, portanto, foi assassinado pelo poder político, econômico e religioso, coniventes com o poder imperialista, representado por Pilatos. Pois o Reino de Deus se opõe frontalmente a qualquer reino opressor, como era o de Roma.

            A realidade vivida por Jesus continua hoje. O seguimento de Jesus, na construção de um Reino de justiça e paz, do shalôm de Deus, necessariamente vai entrar em conflito com os reinos que dependem da exploração e da injustiça. Normalmente, esses poderes primeiro vão tentar cooptar a Igreja, para que, em lugar de ser voz profética diante das injustiças, torne-se porta-voz dos valores desses reinos. E não faltarão incentivos, monetários e outros, para que as igrejas caiam nesta cilada. Por isso, como nos advertiram os textos nos últimos domingos, é necessário que fiquemos sempre vigilantes para verificarmos se a nossa vida prática está mais de acordo com o Reino de Deus ou o reino de Pilatos.

Para João, Jesus provoca a grande crise da história. Diante da verdade, que é Ele, todos têm que se posicionar. Ele, como todo profeta, não causa a divisão, mas desmascara a divisão que existe dentro da sociedade, a divisão entre o bem e o mal, entre um projeto da morte e um projeto da vida, uma divisão que permeia todos os elementos da sociedade. Diante dele, não há lugar para meio-termo - todos têm que optar. Por isso, a nossa festa de hoje, longe de ser algo triunfalista, nos desafia para que façamos um exame de consciência - tanto individual como eclesial e comunitário - para verificar se o nosso Rei é realmente Jesus, ou se, mesmo de uma maneira disfarçada, continua sendo Pilatos!

 

TRIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (15.11.15)

Mc 13, 24-32

“O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”

 

Este texto nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos, e referências tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém, a sua mensagem central fica clara - o triunfo final do Filho do Homem, mandado por Deus para estabelecer o seu Reino. A linguagem vetero-testamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatológica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. A sua vinda gloriosa no fim dos tempos servirá como prova da vitória de Deus - e a expectativa desta chegada serve como base da vigilância paciente que é recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatológico de Marcos.

Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Is 13, 10, Ez 32, 7; Am 8, 9; Jl 2, 10.31; 3, 1-5; Is 34, 4; Ag 2, 6.21; Mas, em nenhum lugar no Antigo Testamento se refere à vinda do Filho do Homem - é uma novidade do Evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a citação assinalará a sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7, 13; mas, aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zc 2, 10. Este reunir-se dos eleitos do seu povo por parte de Deus se encontra em Dt 30, 4; Is 11, 11.16; 27, 12. Ez 39, 7 etc - mas nunca no Antigo Testamento é o Filho do Homem que faz esse trabalho.

A segunda parte do texto consiste em uma parábola (vv. 28-29), um ditado sobre a hora do fim (v 30), sobre a autoridade de Jesus (v. 31) e de novo sobre a hora (v. 32). Nem sempre fica claro a que se refere - o que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o v. 32 que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vv. 28-29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vv. 33-37). Mas, continua clara a mensagem básica - a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho.

Pode parecer confuso o nosso texto - e para nós hoje, de uma certa forma o é. Mas, inserido no contexto do Discurso Escatológico (referente aos tempos finais) do Evangelho, nos traz uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida - um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto convida nós, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas, também nos desafia para que estejamos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que muitas vezes se baseia em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta: “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”.

 

TRIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (08.11.15)

Mc 12, 38-44

“Esta viúva pobre depositou mais do que todos os que depositaram dinheiro”

 

No Evangelho de Marcos, uma das poucas coisas positivas que Jesus encontrou na sua última semana de vida em Jerusalém foi o gesto da viúva pobre que depositou duas das menores moedas da época no cofre do Templo! Ela aparece no texto de hoje em contraste com um certo tipo de liderança religiosa da época. O texto relata dois acontecimentos (vv. 38-40; vv. 41-44). O primeiro condena os escribas hipócritas, que concretizam tudo que Jesus quer que os seus discípulos evitem. Ele adverte contra o seu anseio de prestígio e honras (vv. 38b-39) - perigo constante para os líderes religiosos de todos os tempos e de todas as religiões! - e o fato de eles esgotarem os recursos das viúvas enquanto demonstravam a aparência de piedade (v. 40). Embora essa passagem seja muito mais suave do que Mateus 23, também tem sido usada historicamente para atacar os judeus. Mas, ele não critica todos os escribas, muito menos todos os judeus, mas somente um tipo de escribas (vv. 28-34), os que desviavam o verdadeiro sentido do seu serviço religioso.

Na antiguidade os escribas podiam servir como administradores dos bens das viúvas. Muitas vezes cobravam uma parte dos bens como pagamento - e um escriba com fama de piedade tinha muitas possibilidades de ganhar clientes! Por causa da sua avareza e hipocrisia, esses escribas receberão uma condenação severa no Dia do Juízo, o tribunal mais alto que existe!

Do outro lado, a viúva pobre, embora contribua com quase nada em termos monetários, representa a verdadeira espiritualidade dos seguidores de Jesus. Pois, ela contribui com tudo o que ela tinha para viver, e não com o supérfluo (v.44). Ela simboliza o grupo dos “pobres de Javé” - os que depositavam toda a sua confiança em Deus e não nas riquezas nem no poder. Já em outros textos (Mc 10, 17-30) Jesus enfatizou que era difícil para um rico entrar no Reino de Deus - pois facilmente ele confia nas suas riquezas e não no poder de Deus.

A viúva anônima demonstra o fundamento da espiritualidade dos “pobres de Javé” - gratuidade e doação total, aliadas a uma confiança absoluta em Deus. Contrastando a sua ação com a atitude dos ricos, Jesus implicitamente condena o sistema do Templo, pois explorava os mais pobres, exigindo até a oferta dos seus parcos recursos, para que pudessem ter acesso a Deus! Assim, Jesus mostra que Deus rejeita qualquer religião que explora e se enriquece às custas dos pobres. Hoje não é raro encontrar grupos religiosos que exploram os mais pobres em nome de Deus, com falsas promessas. O texto de hoje nos convida para que nos examinemos a nós mesmos, para verificar se as nossas práticas religiosas estejam revelando o rosto verdadeiro do Deus dos pobres e para que evitemos totalmente quaisquer projetos - mesmo em nome de Deus - que tiram dos mais necessitados o pouco que eles ainda têm. Também, somos convidados a evitar os critérios humanos em julgar as pessoas, pois pode acontecer que alguém doe muito, sem que lhe custe nada, pois vem do seu supérfluo, enquanto frequentemente a “moeda da viúva”, oferecida pelos pobres, tem muito mais valor diante do Senhor. Somos convidados a olhar e enxergar as coisas com os olhos de Deus e não da sociedade materialista e consumista de hoje.

 

FESTA DE TODOS OS SANTOS (01.11.15)

Mt 5, 1-12a

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus.”

 

Esses primeiros versículos de Cap. 5 servem ao mesmo tempo como introdução e resumo do Sermão da Montanha. Nos apresentam um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo(a), daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente - tanto a do tempo de Jesus, como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6, 20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical na nossa maneira de pensar e viver.

            Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no presente - o Reino já é dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça - na verdade, as mesmas pessoas, pois, os que buscam a justiça são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com Ele esses valores podem vigorar. Mas, quem luta pela justiça será perseguido - e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”.

            As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito, por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. É manso, não no sentido de ser passivo, mas porque não é movido pelo ódio e pela violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos.

            Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27), mas o “shalom”, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Cumpre lembrar a frase famosa do Papa Paulo VI: “Justiça é o novo nome da paz!”

            Mas, Jesus deixa claro qual é a consequência de assumir esse projeto de vida - a perseguição! Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires do nosso continente testemunha muito bem. Qualquer Igreja cristã que é bem aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisaria se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (que na sua raiz significa “testemunho”) é a pedra-de-toque dessa fidelidade. O martírio nem sempre se dá pela morte física, mas muitas vezes pela morte lenta ao egoísmo e às ideologias de dominação, em uma vivência fiel da luta pela justiça do Reino de Deus. É a concretização da declaração de Jesus: “Quem quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e me siga.” (Mt 16, 24)

            A festa de hoje não é tanto para recordamos os nomes e façanhas dos grandes Santos/as conhecidos/as, mas, mais para que lembremos de tantos milhões de pessoas, de todas as raças, culturas e religiões, que viviam a santidade no anonimato das suas vidas diárias, vivendo na fidelidade aos valores do Reino. O grande milagre que mostra a santidade é a vivência fiel em busca do bem, na dedicação à família, à comunidade e à sociedade, sempre procurando cumprir a vontade de Deus, seja qual for a nossa experiência d’Ele. Se examinarmos as nossas vidas, veremos que já conhecíamos muitas pessoas santas, cujos nomes jamais serão conhecidos mundialmente, mas que serviram como exemplo dos verdadeiros valores evangélicos para nós. Que a celebração nos anime na busca da vivência fiel dos valores do Evangelho, não em grandes milagres, mas no dia a dia da nossa vocação, seja ela o que for!

TRIGÉSIMO DOMINGO COMUM (25.10.15)

Mc 10, 46-52

“E seguia Jesus pelo caminho”

 

Estamos no fim da caminhada de Jesus de Cesaréia de Felipe até a sua morte e ressurreição em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus que ele relata - a cura do cego Bartimeu.

O texto começa com um senso de urgência - chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho! Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos d’Ele, o cego está à beira do caminho, sentado! Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus.

            Este texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente! “Filho de Davi, tem piedade de mim!” É de novo um dos temas centrais da Bíblia - o grito do pobre e sofrido! Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas, a reação dos transeuntes é típica - mandam que Bartimeu se cale! O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído! Isso não mudou até os dias de hoje! É só verificar o pouco caso que a nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas Igrejas existe quem não queira ouvir o grito, e faz de tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas, Deus ouve!

Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que mandaram Bartimeu calar, agora têm que convidá-lo para falar com Jesus. Porém, para isso Bartimeu tem que lançar fora o manto - a única coisa que ele possuía, a sua única segurança. É a sua roupa, o seu cobertor à noite, o que ele usa para recolher as esmolas. Ele o joga fora, embora seja cego, e não tem certeza que vai ser curado. Como os primeiros discípulos no lago (Mc 1, 18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus.

É bom notar que Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “o que quer que eu faça por você?” (v. 51). Pois, Jesus não obriga ninguém a se libertar - há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, no seu comodismo, quem não opte pela libertação. Mas, Bartimeu quer enxergar de novo.  Diferente do cego de Jo 9 - cego de nascença - ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé, e que precisava o toque de Jesus para que voltasse a ver claramente.

Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir a sua vida. Mas, ele faz uma outra opção: “no mesmo instante o cego começou a ver de novo e seguia Jesus pelo caminho” (v. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Mc 12, 35-37, Jesus fez muitas restrições a este título messiânico, mas ele tem a prática certa - segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo “Tu és o Messias” (Mc 8, 29), mas a prática errada! Não quis que Jesus caminhasse para a doação total da sua vida, na Cruz! Aqui o modelo de discípulo não é Pedro, mas, Bartimeu! Pois mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar a sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus! Um alerta para todos nós, para que a nossa prática seja coerente com a nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus e seus valores!

 

VIGÉSIMO NONO DOMINGO COMUM (18.10.15)

Mc 10, 35-45

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.”

 

No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje situa-se quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão d’Ele. Pela terceira vez, Ele tem dado aos seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre a sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar d’Ele, cuspir n’Ele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito - os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo d’Ele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a sua própria agenda!

Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar a sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse na sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos, que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido (Mt 10, 20). A queixa de Deus no Antigo Testamento de que o seu povo era um povo de “cabeça dura” se atualiza nos Doze!

Não devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (v. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder! O vírus de dominação é mais do que contagioso!

Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com os seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade dos seus discípulos: “entre vocês não deve ser assim: quem de vocês quiser ser grande, deve tornar-se o servo de vocês; e quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos” (vv. 43-44). E deixa bem claro o motivo - não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “porque o Filho do Homem não veio para ser servido. Ele veio para servir e para dar a sua vida como resgate em favor de muitos” (v. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática que Ele!

            O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre os seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos últimos anos de forma mais acentuada, uma busca de status e do poder dentro do seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa Francisco não cansa de combater essa tendência.  Mas, ninguém pode se achar imune diante desta tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve ser assim”.

 

VIGÉSIMO OITAVO DOMINGO COMUM (11.10.15)

Mc 10, 17-30

“Como é difícil entrar no Reino de Deus”

 

            O nosso texto se inicia com a frase: “Quando Jesus saiu de novo a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva cada vez mais perto a Jerusalém, lugar da crise definitiva da sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão dos seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante, e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e a sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. No nosso texto de hoje, Jesus põe em cheque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza.

A cena é muito conhecida - um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas - o cumprimento dos mandamentos. Mas, o homem - sem dúvida um praticante piedoso da Lei - sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino - o seguimento d’Ele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado aos seus bens, pois era muito rico (v. 22).  Fez a sua opção - optou por uma vida “regular” que não exigisse partilha nem despojamento, e como consequência foi embora “muito abatido” - pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior.

O centro do relato está no debate entre Jesus e os seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus!” (v. 25). Muitas vezes gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir o seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante - a reação dos discípulos! Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram “então quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão.

O espanto dos discípulos - também todos judeus praticantes e piedosos - era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que às vezes infiltra certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica!). Para eles, quem não iria se salvar era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus, e diante de tal mistério só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nesta dinâmica porque normalmente é auto-suficiente, atrelado a um sistema classista e injusto e com grande dificuldade para partilhar e de sentir a sua dependência de Deus.

A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta d’Ele não é a riqueza, mas a partilha; não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver esta proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade, encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém, já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (v. 29-31).

 

VIGÉSIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (04.10.15)

Mc 10, 2-16

“O que Deus uniu, o homem não deve separar”

 

Durante a caminhada d’Ele rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-Lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa d’Ele, mas com o seu projeto, Jesus, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Esses, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, se outorgavam o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, através da sua interpretação da Lei. Por isso, entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto “para tentá-lo” (v. 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Dt 24, 1-4, onde não se trata da legitimidade do divórcio, mas, dos critérios para que possa acontecer.

O Evangelho de Mateus, no Capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mt 19, 1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar a sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar o marido, pois a mulher era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar a mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa - do Shammai - só permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mt 19, 4).

Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate de casuística que cercava a questão e se limitava a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu o homem não deve separar”. Jesus reafirma com toda firmeza o ideal do casamento cristão - uma união permanente, baseada no amor, e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar nesse trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois, isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal! Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada na igreja, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados, como reconhece claramente o Papa Francisco, bem como qualquer pessoa com coração pastoral.  Por isso mesmo devemos rezar para que o próximo Sínodo seja iluminado pelo Espírito, para que possa indicar pistas para o tratamento misericordioso e compassivo de quem se acha nessas situações difíceis.

            O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas, de dependência. As crianças e os que se assemelham com elas vivem essa situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que abrogar-se de todo poder dominador, tornando-se como criança.

            Recusando-se de aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo em uma sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contramão dos valores da sociedade do seu tempo - e de hoje. Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação! Realmente, uma proposta no contrafluxo da sociedade pós-moderna que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador! O texto de hoje nos convida para que entremos “com Jesus na “contramão” e para que criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os que estão hoje em vigor, às vezes até no seio das próprias igrejas.

VIGÉSIMO SEXTO DOMINGO COMUM (27.09.15)

Mc 9, 38-43.45.47-48

“Quem não está contra nós está a nosso favor”

 

O texto de hoje nos coloca mais uma vez no contexto do ensinamento de Jesus aos seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou a sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa dos seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava.

A primeira atitude a ser corrigida, nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino! Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das Igrejas ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas das suas definições dogmáticas! Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam, pois... quem não está contra nós, está a nosso favor” (v. 40). Temos que aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não O escondamos ou deturpemos! Discernimento deve ser uma atitude permanente de vida!

A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” neste texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isso é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam, por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos, e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o Discurso Eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mt 18, 6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé, e o olho”, que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse - por exemplo, Orígenes. “Mão” significa a nossa maneira de agir, “pé” o modo de caminhar na vida e “olho” o jeito de ver e julgar as coisas, ou até, a nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora” - ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus - a vivência dos valores do Evangelho, que Jesus deu a vida para estabelecer.

A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-Lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus.  O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o que ele nos ensina.

 

VIGÉSIMO QUINTO DOMINGO COMUM (20.09.15)

Mc 9, 30-37

“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos”

 

Na estrutura do Marcos, depois da chamada “Crise Galilaica”, manifestada no episódio da Estada de Cesaréia de Felipe, Jesus muda totalmente de tática e estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres - dos 19 milagres em Marcos, somente dois acontecem depois do acontecimento de Cesaréia. Em lugar disso, Ele se dedica à formação dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os que o caminho d’Ele é o caminho da Cruz, da entrega, da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos demonstra isso de uma maneira bem organizada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura paixão (8, 81; 9, 31; 10, 33-34). Em cada ocasião os discípulos não compreendem (8, 32; 8, 34; 10, 35-37), e a partir dessas incompreensões Jesus dá um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento d’Ele (8, 34-38; 9, 35-37; 10, 38-45).

O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento d’Ele é uma vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles era o maior! O poder é tentação permanente em todas as comunidades, não isentando as Igrejas! Podemos até dizer, com certa dose de humor, que a busca de poder está no DNA das pessoas humanas! Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas Igrejas - mais ainda do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século dezenove o estadista e historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente” - e não há poder mais perigoso do que o religioso, exercido em nome de Deus!

Quantos sofrimentos e males são causados por essa sede do poder, disfarçada como mandato de Deus! Desde o fundamentalismo fanático do Talibã no Afeganistão, até a ufania de certos padres - mormente recém ordenados - que se ostentam com roupas finas e carros do ano e, de uma maneira opressora, dominam religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que eles... a sede do poder e da dominação, sempre em nome de Deus ou de Jesus, continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do Cristianismo. No fundo é por isso que certos setores da Igreja se colocam frontalmente ou veladamente contra o Papa Francisco.  Como escreveu o teólogo dominicano sul-africano Alberto Nolan, OP, “Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que ele não significou, do que por aquilo que ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais Ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome.” O poder-dominação é frequentemente um desses elementos.

Diante da recusa dos seus discípulos em entender o Seu ensinamento, Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-Lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente! Mas, porque é sem-poder, dependente dos adultos em tudo. No tempo de Jesus, criança não tinha direitos e estava entre os últimos da sociedade. Os discípulos de Jesus são convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre. Ele que “não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Fl 2, 6-8).

O poder em si é um bem - para ser usado a serviço dos outros! Todos nós - clero, religiosos, leigos - somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois, só pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos! Evitemos títulos, privilégios, e comportamentos que tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja sempre Ele - e não a sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1Cor 1, 28).

 

VIGÉSIMO QUARTO DOMINGO COMUM (13.09.15)

Mc 8, 27-35

“Se alguém quer me seguir, tome a sua cruz, renuncie a si mesmo e me siga”

 

Como evangelho de hoje, temos a história do caminho de Cesaréia de Felipe. Embora de grande importância também em Mateus e Lucas, o relato mais original está no evangelho de Marcos, Cap. 8, o qual se torna o pivô de todo o Evangelho.

A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que eu sou?” Assim, chovem respostas, pois esta pergunta não compromete - é o “diz que...” Mas, a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias”. Aparentemente, Pedro acertou, e realmente, na versão mateana, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é importante que continuemos a leitura pelo menos até o v. 35, porque o assunto é mais complicado do que possa parecer.

Jesus logo explica o que quer dizer ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo e as expectativas do povo do seu tempo, inclusive os discípulos. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, que teria como consequência ser preso, torturado e assassinado, e dar a vida em favor de muitos. Usando o título messiânico “Filho de Homem” - que vem de Daniel 7, 13ss - Jesus confirmou que era o Messias, mas não do jeito que Pedro esperava. Este, conforme as expectativas correntes no seu tempo, esperava um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com ele, até a Cruz.  Por isso, Pedro contesta Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. E como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afasta-se de mim, satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (v. 33). Pedro, cuja proclamação de fé parecia ser tão acertada, é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência! Pedro tinha os títulos certos para Jesus, mas a prática errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas, não ortopraxis!

Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 34). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, uma adesão à sua pessoa e missão, que leva ao seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.

Hoje, dois mil anos depois, a pergunta de Jesus ressoa forte - a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o Papa ou o Bispo, mas para cada um de nós, pessoalmente? No fundo, a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina e a teoria certas, mas a prática errada!

 

VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO COMUM (06.09.15)

Mc 7, 31-37

“Jesus faz bem todas as coisas”

 

Os eventos relatados no texto de hoje situam-se no território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar o contexto geográfico - talvez para enfatizar a missão aos gentios (pagãos) que marcava a sua Igreja. Mais uma vez estamos diante de um milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus que age n’Ele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território.

Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros - uma pessoa sofrida (neste caso sofrendo de surdez e incapaz de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus que o leva a atender o pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o chamado “Segredo Messiânico) e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo.

            A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que Ele é muito mais do que um simples curador! As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante d’Ele (7, 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente.

Mais uma vez, o Segredo Messiânico em Marcos nos faz perguntar sobre o seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que a sua verdadeira identidade só se revelará na sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana - o oficial que exclamou ao pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Mc 15, 39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos, interesseiros e duvidosos. Para corrigir essa tendência na sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força humana (1Cor 1, 25).  Um alerta para muitos cristãos hoje!

A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir e os mudos falar” alude a Is 35, 5-6, que faz parte da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Is 34-35, relacionado com Is 40-66). O uso aqui deste texto vétero-testamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus.

Podemos ver um sentido mais simbólico para os nossos dias na cura relatada - o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois, o sistema hegemônico de hoje, e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e coniventes, procuram em geral tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos; pois, fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão. Também as forças dominantes deixam cada vez mais os excluídos sem voz - só pode ter voz ativa quem produz e consome, na nossa sociedade materialista e consumista. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura! O Evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. Dia 7 de setembro é o dia do Grito dos Excluídos - uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade assinalarem que a nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita a uma passeata neste dia somente, mas que é a tônica da nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento de Aparecida e em tantos outros documentos do Magistério e da CNBB, e sempre enfatizada nos pronunciamentos e escritos do Papa Francisco.

            “Jesus fez bem todas as coisas - fez os surdos ouvir e os mudos falar!” Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais - que ajudamos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante, e que ajudamos os sem-voz a recuperar a voz ativa, nas decisões das Igrejas e da sociedade em geral.

VIGÉSIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (30.08.15)

Mc 7, 1-8.14-15.21-23

“Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim”

Para que entendamos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário entender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos chaves na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os conceitos de “puro” e “impuro”. Na nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isso é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos Essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos.  Também os fariseus - cujo nome vem de uma palavra que significa “separados” - davam suma importância à pureza ritual, assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto ao Deus da vida.

            Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem recusar-se a participar nos ritos tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada que vem de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura! Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “as más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (v. 21-22).

Assim, Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías (Is 56-66), que diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam os seus irmãos e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu, e não se fechar à sua própria gente” (Is 58, 6-7).

É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos, rituais e devoções, o nosso texto exige de nós seguidores de Jesus um sério exame de consciência, para que verifiquemos se a nossa prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus - perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro - ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com a nossa fé no Deus da vida, onde os ritos têm o seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (v. 6).

 

VIGÉSIMO PRIMEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM (23.08.15)

Jo 6, 60-69

“Tu tens palavras de vida eterna”

 

Aqui temos a conclusão do grande discurso sobre o Pão da Vida. Mais uma vez, o Evangelho de João deixa claro que diante de Jesus e das palavras d’Ele, o ouvinte tem que tomar uma decisão radical. Os versículos do nosso texto não escondem o fato que nem todos conseguem optar por Jesus.

As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus de que Ele dá o seu corpo como pão da vida e o fato que o texto se dirige aos discípulos, indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém, a afirmação de Jesus de que Ele “dá a vida” - o que causou já uma divisão em 5, 19-47, e a identificação da sua palavra reveladora com “o pão vindo do céu” na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira, é importante notar que a divisão não se dá entre “os judeus”, no sentido das autoridades judaicas, mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus neste momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da Comunidade do Discípulo Amado na década de 90, quando estava sentindo na pele as dores de divisão, pois muitos dos seus membros estavam abandonando-a (essa divisão é o pano do fundo das três Cartas Joaninas).

            É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria dos seus discípulos. Ele não arreda o pé mas com toda calma até convida os Doze para saírem, se não podem aceitar a sua Palavra. Jesus não se preocupa com números - mas com a fidelidade ao Pai. Talvez, até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo importante para nós, pois muitas vezes caímos na tentação de julgar o êxito pelos números: igrejas cheias indicam sucesso! Mas, nem sempre é assim - é mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a sociedade, às vezes através de uma pregação tão insossa, que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências sociais.

Devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus em v. 63 quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João) para justificar uma religião dualista, onde tudo que é “espírito” é bom e tudo que é material é do mal! Aqui, João não distingue duas partes do ser humano; mas, duas maneiras de viver! A “carne” é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o “espírito” é a força que ilumina as pessoas e abre os seus olhos para que possam entender a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus.

Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem em Jesus algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Só Jesus tem as palavras de vida eterna! Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade - até entre muitos católicos praticantes - de correr atrás de tudo que é novidade: supostas aparições, videntes, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras.

O texto nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando - como a multidão no texto - que o seguimento de Jesus “é duro demais”! No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrarmos a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de vida eterna”.

 

FESTA DA ASSUNÇÃO DE NOSSA SENHORA (16.08.15)

Lucas 1, 39-45

“Você é bendita entre as mulheres

 

            Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo da sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste, mesmo que haja também continuidade, entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista, e tem os seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos ao redor do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada, deu o que era para dar - os seus símbolos são Isabel, estéril e idosa; Zacarias, sacerdote que duvida do anúncio do anjo; e, o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a jovem virgem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza este contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo, (Lc 2, 25-38), especialmente quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz. Porque meus olhos viram a tua salvação” (2, 29). Por isso, não devemos reduzir a história de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parenta idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse essa, não teria colocado o versículo 56, que mostra ela deixando Isabel antes do nascimento de João: “Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa”. É só depois que Lucas trata do nascimento de João.

            Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos quatorze anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galiléia à Judéia! A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes, para que ambas possam louvar a Deus pela sua ação nas suas vidas, e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso, Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente as suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro lado, Maria, José e Jesus.

            O fato que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” no ventre dela, na tradução da Septuaginta de Gn 25, 22. O contexto, especialmente versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é o seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João - é porque Maria está carregando o Senhor.

            As palavras referentes a Maria: “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (v. 42) fazem lembrar mais duas mulheres que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jd 13, 18). Aqui Isabel louva a Maria que traz no seu ventre o libertador definitivo do seu povo.

            Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (v. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou.” Maria é bendita em primeiro lugar, não pela sua maternidade, mas pela fé - em contraste com Zacarias, que duvidou. Aqui Maria é principalmente modelo de fé.

            Podemos também acrescentar que neste primeiro capítulo nós encontramos as frases da primeira parte da oração da “Ave Maria”: “Ave Maria” (1, 28); “Cheia de graça” (1, 28); “O Senhor é convosco” (1, 28); “Bendita sois vós entre as mulheres” (1, 42); “Bendito o fruto do vosso ventre” (1, 42). Juntos com Isabel, saibamos honrar Maria, a mãe do Senhor, modelo de fé para todos nós! Mas, a fé de Maria - como, aliás, sempre é na Bíblia - não foi uma adesão somente intelectual a Deus. Era o assumir do projeto de Deus - justiça, libertação, solidariedade e salvação integral. Por isso, Lucas põe na boca de Maria o grande Cântico do Magnificat, atualizando o Canto de Ana, (1Sm 2, 1-10), cantando a grandeza do nosso Deus, que se põe ao lado dos humilhados e sofridos, e derruba os poderosos e prepotentes!

O texto de hoje nos lembra que Maria era uma mulher lutadora, totalmente comprometida com o projeto de Deus para um mundo fraterno. Se Ela estivesse entre nós hoje, sem dúvida Ela - como também Jesus - estaria nos movimentos e pastorais sociais, lutando pela vida digna de todos e celebrando com os irmãos e irmãs a fé no Deus de Justiça, Libertação e Salvação. 

Hoje também é o Dia da Vida Consagrada, na diversidade das suas formas: ida Religiosa Apostólica, Vida Contemplativa e Monástica, Institutos Seculares, Leigos/as consagrados  etc.  A Vida Consagrada assim entendida se baseia numa experiência profunda de Deus, vivida em comunidade no seguimento de Jesus que era pobre, casto e obediente.  Essa experiência leva a um engajamento, dentro do carisma próprio do cada grupo, na continuidade da missão do Mestre, na paixão pelo Reino.  Rezemos pelos consagrados/as para que firmem cada vez mais os elementos essenciais da sua vocação específica.

 

DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (09.08.15)

Jo 6, 41-51

“Quem come deste pão viverá para sempre”

 

            Neste texto nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar o discurso é o pedido dos judeus em v. 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta Jesus começa o seu grande discurso. Divide-se em duas partes. Na primeira parte (vv. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vv. 51-58) será a eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia e assim formou a segunda parte do discurso como texto paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da Eucaristia nos textos da Ceia em João - pois o seu conteúdo básico foi colocado aqui.

Como os seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava - o maná - agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João - a ironia. Os judeus (aqui se entende as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam na sua família de origem; Jesus mostra que na verdade não a conhecem, pois eles não viram o Pai, a sua verdadeira origem. Aqui também aparece em v. 47 mais uma característica joanina - a “escatologia realizada”. Enquanto para os Sinóticos o juízo é algo que acontece no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, pela sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus.

Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da Eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (v. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado a sua carne como alimento da vida eterna.

            O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas, está ligado em cap. 6 à multiplicação dos pães - a participação eucarística no Corpo e Sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado na sua Primeira Carta.

 

DÉCIMO OITAVO DOMINGO COMUM (02.08.15)

Jo 6, 24-35

“Eu Sou o Pão da Vida”

            Continuamos uma série de leituras dominicais a partir do sexto Capítulo de João. Este capítulo é extraordinariamente denso em conteúdo e muito carregado com a simbologia judaica da época de Jesus. Hoje o tema central versa sobre Jesus como “O Pão da Vida”.

No Antigo Testamento, muitas vezes o termo “pão” é usado como símbolo da Palavra de Deus; por exemplo, Is 55, 10-11; Amós fala de fome, mas não fome de pão, nem sede de água, mas fome de escutar a Palavra de Deus em Am 8, 11-12; A Sabedoria convida os simples a comer do seu pão e beber do sua seu vinho em Pr 9, 5; Sirac (Eclesiástico) fala da sabedoria que alimenta as pessoas com o pão de compreensão e a água de sabedoria (Eclo 15, 4). Até o maná no deserto chegou a ser usado como símbolo da Torá, ou Lei (Dt 8, 2-3). Podemos ligar essas ideias com Cap. 6 de João.

Divisão do Capítulo:

- 1-15:             Multiplicação e Partilha dos pães

- 16, 21: Jesus anda sobre as águas

- 22-24: Situa o discurso

- 25-29: Introdução ao discurso

- 30-40: Discurso

- I parte: 30-34

- II parte: 35-40

- 41-51: Segunda Parte

- 52-58: Terceira Parte

- 50: Aparte

- 60-61: Reação e opção dos discípulos

            O início do relato deixa claro que a multidão reconheceu o poder de Jesus, mas era incapaz de entrar mais profundamente no sentido dos seus sinais. Lembremos que o Quarto Evangelho não usa o termo “milagre” para as sete ações principais de Jesus (água transformada em vinho em 2, 1-12; a cura do filho do funcionário real em 4, 46-54; a cura de um paralítico na piscina em 5, 1-18; a partilha dos pães em 6, 1-15; o caminhar sobre as águas em 6, 16-21; a cura do cego de nascença em 9, 1-41, e a ressurreição de Lázaro em 11, 1-44), mas “sinais”, embora haja ainda edições da Bíblia que traduzem de maneira errada. Com certeza foram “milagres”, mas João quer enfatizar o fato de serem sinais, ou seja, que deemos aprofundar o que eles querem nos ensinar sobre a identidade e missão de Jesus.  O povo busca as vantagens imediatas que pode receber de Jesus, corre atrás dos milagres mas não entende o sintido do sinal que cada milagre mostra. Jesus insiste que a fé nasce da capacidade de reconhecer as obras d’Ele como sinais que demonstram uma verdade mais profunda - que Jesus é o alimento que faz viver. Assim, o Filho do Homem vem do céu e os sinais que Ele opera garantem a sua origem e a sua missão. Jesus quer que creiam e recebam o que Deus lhes oferece n’Ele.

            A turba quer saber de um sinal para que pudesse “ver” e “crer” em Jesus. Mas, na visão do João, o “ver” real é conseguir descobrir a realidade completa de quem realiza os sinais, e não parar só nos sinais externos. No fundo a multidão quer que Jesus confirme as suas expectativas messiânicas, realizando milagres - e não entendem a profundidade da mensagem de Jesus, que ultrapassa tais expectativas.

            Os próprios judeus começam a falar da história do maná no deserto. No tempo de Jesus, muitos doutores da Lei ensinavam que o dom do maná era o maior prodígio do tempo do Êxodo. Jesus reformula as expectativas apocalípticas da época, que esperavam de novo maná do céu, insistindo que o verdadeiro pão da vida é dado pelo Pai e não por Moisés; que o Pai “dá”, não “deu”, e que o pão que o Pai dá é aquele que veio dar a vida ao mundo. Jesus é realmente o “pão da vida” porque crer n’Ele é participar da verdadeira vida.

            Nesse trecho encontramos Jesus usando a frase “Eu Sou” - o que soava aos ouvidos dos judeus da época como referência ao nome de Deus na história do Êxodo “Eu Sou aquele que sou” (Êx 3, 14). Tudo aponta para a verdadeira origem de Jesus, e o fato que a verdadeira vida só se acha n’Ele.

            Hoje, esses versículos nos desafiam para que ultrapassemos os limites de uma religião superficial, e para que nos mergulhemos no mistério de Jesus, criando relacionamento cada vez mais profundo com Ele e assumindo uma vida de verdadeiros discípulos-missionários, apaixonados por Ele e pelo seu projeto, o projeto d’Aquele que veio para que “todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10).

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (26.07.15)

Jo 6, 1-15

“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”

 

            A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do capítulo sexto de João - o que comumente chamamos o milagre da “Multiplicação dos Pães”. Logo, vale lembrar que este é o único milagre contado pelos quatro evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da Comunidade do Discípulo Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas tradições, a história hoje relatada possuía um grande valor e uma mensagem muito importante.

            Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é do João, mostrando mais uma vez uma das características da comunidade do Discípulo Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida.

            Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos usa-se o verbo “multiplicar”! Usam-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “benzer” “distribuir”, “partilhar”! Não é o caso de discutir aqui o que foi que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então a história não teria grandes conseqüências para nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres! Mas, colocando a ênfase sobre a o “partilhar” e o “distribuir”, então os evangelistas nos desafiam hoje! Pois, partilhar e distribuir estão ao nosso alcance!

            No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar nada! O Brasil não precisa multiplicar terras - somos um dos maiores países do mundo! Nem precisa multiplicar a renda - somos a oitava ou nona potência econômica do mundo! Não! O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir da nossa fé no Deus da Vida.

            Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos - o seu lanche. Mesmo sendo suficiente somente para ele, ele dispõe dos pães e peixes, através de André. Esse gesto de partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem! O relato ressalta que foram pães de cevada - a comida do pobre. Também aqui há uma releitura de um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada (2Rs 4, 42-44). Sem a colaboração deste rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim, o texto nos desafia para descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que cada um tem, e de colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm, sobrará! Quando cada um que tem algo segura para si, falta para muitos!

            Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, onde tem o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens materiais - mais do que suficientes - serão distribuídos e partilhados, criando assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da nossa participação na Eucaristia!

 

 

DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (19.07.15)

Mc 6, 30-34

“Jesus teve compaixão”

 

            Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito central - o da “compaixão” de Jesus. Os evangelhos todos - e especialmente Lucas - enfatizam este aspecto da pessoa e missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão para todos os que sofrem.

            Os versículos de hoje demonstram este traço de Jesus no seu relacionamento com os discípulos e com as multidões.

            Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios que não correspondem com o grande critério da nossa sociedade - o da eficácia! Para Ele, os apóstolos não eram máquinas, mas pessoas humanas que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho - mesmo o trabalho missionário - não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para muitos cristãos engajados hoje - embora devamos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos descuidar das nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros, especialmente no seio da família. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai.

            Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos de então, que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo ia atrás d’ Ele. O que atraía tanta gente? Com certeza não foi em primeiro lugar a doutrina, nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão, de demonstrar concretamente o amor compassivo de Deus. Jesus não teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”, literalmente, entrava no sofrimento deles e tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva.

Este traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e os seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do Pai. Não é sem motivo que o Papa Francisco nunca cansa de enfatizar a misericórdia e a compaixão – pois a fidelidade ao Mestre exige isso. Infelizmente, a frieza humana frequentemente marca as nossas atitudes, pregações e cuidado pastoral. Em um mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões, hoje, como dois mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”.

 

DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (12.07.12)

Mc 6, 7-13

“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”

 

            Esses versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos (6, 6b-8, 21) que podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. O nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa.

            O primeiro elemento é que a missão de Jesus, o de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e o seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está no nosso batismo. Todos somos Discípulos-Missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar mas a missão é fundamentalmente igual.

            Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária! Não existe um cristianismo individualista. A nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum no nosso mundo de competitividade e pós-modernidade.

            Jesus dava-lhes poder sobre os espíritos imundos! Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo que pudesse se opor ao Reino. Tudo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da letra, e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos - mas sempre no nível intimista e individual. Devemos nos perguntar - quais os espíritos imundos em nós, nas nossas comunidades, na nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão, que é característica da nossa sociedade neoliberal, nossa sociedade de morte! O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com as suas estruturas. As nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo e diferente, pela utopia de Jesus! Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham que se libertar do espírito de acúmulo - não levar coisas, como sinal da chegada do Reino. Em nosso caso, teríamos que examinar se, mesmo sem notar, não estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje.

            Jsus os adverte que nem todos iriam acolher a sua mensagem - pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para os nossos tempos - uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes desse mundo. Quando somos bem aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos a nossa voz profética! A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados! Que alegria celebrar há pouco a beatificação de Dom Oscar Romero e testemunhar o início dos processos de beatificiação de Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus almeja.

            O nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” da nossa vida. A minha vida, a da minha comunidade, se resumem na vivência interna das estruturas da Igreja, ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários/as, continuadores da missão de Jesus!

 

Décimo Quarto Domingo Comum (05.07.15)

Mc 6, 1-6

“Jesus não pode fazer milagres em Nazaré”

 

            O texto de hoje encerra o segundo bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos - que trata da cegueira dos familiares de Jesus. O primeiro bloco (1,14-3, 6) mostrou a cegueira das autoridades, e o próximo bloco mostrará a cegueira dos discípulos. Assim, Marcos gradativamente aumenta a tensão entre o que Jesus é e a incompreensão dos que o conhecem: autoridades, familiares e discípulos. Tudo para poder lançar como questão fundamental do seu Evangelho a pergunta: “E vocês, quem dizem que eu sou?” (Mc 8, 29).

            De uma maneira indireta, Marcos aqui toca em um dos problemas fundamentais dos cristãos - o escândalo da encarnação. Frequentemente não temos tanta dificuldade em assumir a realidade da divindade de Jesus, mas sim, a sua humanidade! Até hoje, quantas hipóteses esdrúxulas sobre onde Jesus teria passado os primeiros trinta anos da sua vida, quando a realidade é que Ele os passou como qualquer outro rapaz da sua geração – em uma família e comunidade do interior, trabalhando com as mãos e partilhando a dura sorte do seu povo, com uma fé profunda na presença de Javé no seu meio - uma fé alimentada pelas Escrituras. Frequentemente relutamos para não enxergar a opção real de Deus pelos marginalizados através da realidade da encarnação, pois essa verdade nos incomoda e exige mudanças em nossa maneira de ver o mundo e a Igreja e mudanças em nosso agir !

            Os seus próprios parentes também não queriam aceitar a pessoa e a missão de Jesus. Marcos não esconde a dureza das críticas: “Esse homem não é o carpinteiro, o filho de Maria?” (v. 3). Se fosse um fariseu, ou um “doutor”, ele teria sido aceito! Quanta coisa semelhante hoje - quando preferimos acreditar nas palavras e retórica dos “doutores” e desprezamos a sabedoria popular dos que lutam no meio do povo para um mundo mais justo!

            Marcos retoma aqui o tema da primeira parte do Evangelho - que o caminho para conhecer Jesus não é através de uma corrida atrás de milagres. Pois os Nazarenos conheciam bem os milagres de Jesus: “E esses milagres que são realizados pelas mãos d’Ele?” (v. 2). Aqui tocamos no cerne da questão: em Marcos, Jesus nunca faz um milagre para despertar a fé em alguém. Pelo contrário, é a fé das pessoas que causa os milagres da parte de Jesus. Por isso, é importante notar o verbo que Marcos usa: “E Jesus não pôde fazer milagres em Nazaré!” (v. 5). Não foi que não quisesse, nem que não fizesse milagres, mas que Ele não pôde fazer! Por quê? Por causa da falta da fé deles!

            O texto nos desafia para que nos questionemos sobre o Jesus em quem acreditamos! Conseguimos vê-Lo nos pequenos e humildes e nas pequenas ações em favor do Reino? Ou O buscamos em ditos “milagres” e coisas estrondosas, que muitas vezes podem mascarar uma relutância em assumir o caminho da Cruz? Marcos quer suscitar uma desconfiança na sua comunidade - se nem as autoridades e nem os parentes de Jesus o compreenderam, será que nós O compreendemos? Devagarzinho chegaremos ao Capítulo 8, o pivô de Marcos, onde seremos convidados a responder a pergunta fundamental da nossa fé: quem é Jesus para mim, para nós, hoje?

 

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO (28.06.15)

Mt 16, 13-19

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

 

Hoje a Igreja celebra a festa de dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo, este grande evangelizador dos pagãos ou gentios, e aquele do seu próprio povo. Como Evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesareia de Felipe. O relato mais antigo está no Evangelho de Marcos, Cap. 8 vv 27-38, o qual se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente mas o relato tem a mesma finalidade, ou seja, ajudar os ouvintes e leitores a clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo ou discípula d’Ele.

A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” Assim, vem muitas respostas, pois responder essa pergunta não compromete por ser o “diz que”. Mas, a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente Pedro acertou e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura pelo menos até v. 25. Pois, o assunto é mais complicado do que possa parecer.

Pois, após afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que significa ser o Messias (ou, em grego, o Cristo. O termo significa “Ungido”). Não era ser glorioso, triunfante e poderoso conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que Ele era o Messias, mas não da maneira que Pedro esperava e queria. Ele, conforme as expectativas do povo do seu tempo, queria um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar os seus seguidores também, até a Cruz! Por isso, Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. Como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afasta-se de mim, Satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensas as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência - e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro usava o título certo, mas tinha a compreensão errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis!

Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é em primeiro lugar um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática; o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.

Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta de Jesus ressoa forte - a segunda pergunta. Para nós, quem é Jesus? Não para o catecismo, não para o papa ou o bispo, mas para cada de nós, pessoalmente? No fundo, a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente! (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de usar termos corretos, mas com a compreensão errada!

Hoje também se torna um dia especial para que rezemos pelo Papa Francisco. Peçamos que Deus lhe dê saúde, paz e força para conduzir a Igreja no caminho certo, como vem fazendo desde a sua eleição, apesar de fortes ventos contrários, dentro e fora da Igreja. Que ele continue a “confirmar os seus irmãos/irmãs na fé!”

 

 

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (21.06.15)

 

Mc 4,35-41

 

“Quem é este homem?”

 

            Este texto está situado na primeira parte do Evangelho, onde Marcos procura demonstrar que as autoridades religiosas da época, os próprios parentes de Jesus e os discípulos d’Ele não o compreenderam, apesar de verem as suas obras e milagres (1, 19-8, 21). Toda esta primeira parte do Evangelho prepara o chão para a pergunta fundamental do Evangelho: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Por isso a história hoje relatada leva os discípulos a se perguntarem: “Quem é este homem?”

            A história do evento no mar de Galiléia retrata simbolicamente a situação da comunidade marcana, pelo ano 70, quando o Evangelho foi escrito. A comunidade está vacilando na sua fé, assolada por dúvidas e até perseguições. Diante do cansaço da caminhada, muitos se refugiaram na busca de uma religião de milagres, sem o esforço de seguir Jesus até a Cruz. Por isso, Marcos insiste que os milagres não são suficientes para conhecer Jesus, pois as autoridades, os familiares e os discípulos os presenciaram e não chegaram a entender nem a pessoa nem a proposta de Jesus.

O barco no lago, assolado pelos ventos e ondas, representa a comunidade dos discípulos, prestes a afundar-se por causa das dificuldades da caminhada. Jesus dorme no barco e parece não se preocupar com o perigo. Assim, para a comunidade marcana, parecia que Jesus não estava ligado aos seus sofrimentos e, como consequência, vacilavam na sua fé. Mas, Jesus acalmou o mar e ainda questionava a pouca fé dos Doze: “por que vocês são tão medrosos? Vocês ainda não têm fé?” (v. 3). Assim, Marcos quis mostrar aos leitores do seu tempo que Jesus estava com eles nas dificuldades e que a sua falta de fé estava causando grande parte das dificuldades que estavam enfrentando.

Hoje, em muitos lugares, a Igreja parece como a igreja marcana, ou ainda como o barco no mar. Diante das desistências, do secularismo, da diminuição da sua influência, para muitos a Igreja esta se afundando. Em lugar de assumir o doloroso seguimento de Cristo até a Cruz, muitos se refugiam em uma religiosidade de milagres, assim fugindo da penosa tarefa de construir o Reino de Deus entre nós. Até diante da pessoa e mensagem do Papa Francisco, muitos simpatizam com ele como pessoa, mas permanecem surdos aos seus apelos em favor de um seguimento autêntico do Salvador. Marcos vem corrigir esta ideologia triunfalista das suas comunidades e nos convida a aprofundar a nossa fé, a clarear para nós mesmos e para o mundo “quem é este homem?”, e a segui-Lo no dia a dia. Pois, Jesus não está alheio às nossas dificuldades! Pelo contrário, Ele está no meio de nós. Só que não nos livra da tarefa de nos engajarmos na luta pelo Reino, mesmo que as ondas e os ventos estejam contrários. Ter fé n’Ele não é somente acreditar que Ele exista e seja Filho de Deus, mas tomar a nossa cruz e segui-Lo, na certeza que Ele não nos abandonará! Ressoa para nós hoje a pergunta de dois mil anos atrás: “Por que são tão medrosos? Ainda não têm fé?”

 

Décimo Primeiro Domingo Comum (14.06.15)

Mc 4, 26-34

“Com que coisa podemos comparar o Reino de Deus?”

 

O texto de hoje traz à tona dois elementos muito importantes para o estudo dos Evangelhos - “o Reino de Deus” e “as parábolas”. Antes de olhar o texto mais de perto, convém comentar algo sobre esses dois termos ou conceitos.

Existe um consenso entre os estudiosos modernos, sejam católicos ou protestantes, que existem duas palavras nos textos evangélicos que provém do próprio Jesus e que não dependem da reflexão posterior das comunidades: “Reino” e “Pai” “Abbá” em aramaico. Estamos tão acostumados de ter Jesus como “objeto” da nossa pregação que esquecemos que Ele não pregou a si mesmo, mas o “Reino de Deus” (geralmente citado em Mateus como o Reino dos Céus, para evitar o uso do nome de Deus, em uma comunidade predominantemente judeu-cristã). A vida inteira de Jesus foi dedicada ao serviço desse Reino, que Ele nunca define, pois é uma realidade dinâmica, mas que Ele descreve por comparações, usando parábolas. “Parábola” é um tipo de comparação, usando símbolos e imagens conhecidos na vida dos ouvintes, e que os leva a tirar as suas próprias conclusões (de fato, várias vezes temos a explicação de uma parábola nos evangelhos mas essa nasceu da catequese da comunidade e não teria feito parte da parábola original). O Capítulo 13 de Mateus talvez seja o melhor exemplo do uso de parábolas para clarificar a natureza do Reino - ou Reinado - de Deus.

No tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, os diversos grupos religiosos judaicos (com a exceção dos ultraconservadores e elitistas Saduceus), esperavam a chegada do Reino de Deus e achavam que poderiam apressar a sua chegada - os Fariseus através da observância da Lei, os Essênios através da pureza ritual, os Zelotas através de uma revolta armada. O texto de hoje nos adverte que não é nem possível e nem necessário tentar apressar a chegada ou o crescimento do Reino de Deus, pois ele possui uma dinâmica interna própria de crescimento. Como a semente semeada cresce independente do semeador e sem que ele saiba como, assim o Reino cresce onde plantado, pois também tem a sua própria força interna que, passo por passo, vai levá-lo à maturidade. Assim, o texto nos ensina o que Paulo ensina de uma maneira diferente aos coríntios, quando, referindo-se ao trabalho de evangelização desenvolvido por ele, Apolo e outros/as missionários/as; ele afirma “Paulo planta, Apolo rega, mas é Deus que faz crescer” (1 Cor 3, 6).

Uma das imagens que Jesus usa para caracterizar o Reino é a do grão de mostarda. Embora a semente seja minúscula, ela cresce até se tornar um arbusto frondoso. Assim Jesus quer que relembremos que é importante começar com ações pequenas e singelas, pois, pela ação do Espírito Santo, elas poderão dar frutos grandes. Esta parábola é um lembrete para que não caiamos na tentação de olhar as coisas com os olhos da sociedade dominante, que valoriza muito a prepotência, o poder, a aparência externa. A nossa vocação é plantar e regar, nunca perdendo uma oportunidade de semear o Reinado de Deus - ou seja, criar situações onde realmente reine o projeto do Pai, projeto de solidariedade e amor, partilha e justiça, começando com sementes minúsculas, para que, não através do nosso esforço, mas da graça de Deus, eventualmente cresça uma árvore frondosa que abrigará muitos. O desafio do texto é de que valorizemos o gesto pequeno, as duas moedas da viúva, a semente de mostarda, não nos preocupando com os resultados, mas, confiantes no poder transformador da semente, plantar e regar, para que Deus possa ter a colheita!

 

Décimo Domingo Comum (07.06.15)

Mc 3, 20-35

“Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe”.

 

            Este texto de Marcos nos apresenta uma característica bastante usada neste Evangelho. O autor intercala uma discussão com os escribas (vv. 22-30) em uma cena em que Jesus se defronta com a incompreensão da sua família (vv. 20-21. 31-35). Ele usa o mesmo procedimento em 5, 21-43; 6, 7-33; 11, 11-21 e 14, 1-11. A finalidade é para que o leitor interprete um evento à luz do outro. Assim, no texto de hoje, devemos nos perguntar como é que os versículos que tratam dos familiares de Jesus e o trecho referente à discussão com os escribas lançam uma luz, um sobre o outro. Na verdade, em ambos os casos, Jesus é objeto de acusações falsas e é incompreendido, até rejeitado, pelos seus familiares, bem como pelas autoridades de Jerusalém.

            Não há dúvida que a atividade de Jesus causa espanto e choque. Trabalhando até a noite em prol dos excluídos e sofridos, misturando-se com gente considerada impura pela religião oficial, que conseguia implantar esta ideia na mentalidade do povo comum, e criticando fortemente as lideranças religiosas do seu tempo, Jesus parecia para muitos “louco” ou “possuído por um demônio”, ou algo semelhante. Em uma cultura onde “honra” e “vergonha” eram conceitos chaves para qualquer família, os familiares de Jesus resolveram conter o problema, indo ao lugar da sua pregação para “segurá-lo” e trazê-lo para a casa da família, em Nazaré.

            O confronto com a família continua nos vv. 31-35. É interessante como Marcos constrói a cena. Quando os parentes chegam ao local onde ele está ensinando, eles nem tentam entrar para escutá-lo ou para conversar com ele. Eles deliberadamente ficam do lado de fora e mandam chamá-lo. Isso contrasta muito com a cena de dentro - onde uma multidão está sentada ao redor de Jesus, com uma atitude de discípulo. Quando é informado da presença dos seus parentes fora, Jesus olha aos que estão ao redor dele e faz uma declaração espantosa e contundente: “Aqui está minha mãe e meus irmãos!” O texto logo explica o sentido dessa afirmação: “quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe!” Na verdade, Jesus não está denegrindo a sua família, mas insistindo nas novas relações que nascem do fato de se tornar discípulo d’Ele. Parentesco não traz privilégio nenhum - o importante é ser discípulo/a e cumprir a vontade de Deus. Assim Jesus afirma que na medida em que nós nos tornamos discípulos/as, teremos a mesma dignidade que a sua mãe e parentes. Tudo se relativiza diante das exigências do Reino e do seguimento!

            Embora não seja uma questão de grande importância, talvez valham umas palavras sobre o sentido da frase “irmãos e irmãs de Jesus”. É bom lembrar que na tradição do Oriente Médio não se define a família como o pequeno núcleo de pai, mãe e filhos mas inclui parentes próximos e distantes. A versão grega do Antigo Testamento usa a palavra: “adelfos” (irmão) nos dois sentidos, restrito e amplo (Gn 29, 12 e 24, 48). Podemos dizer que na tradição cristã, existem três tipos de interpretação para esta questão. Primeiro, entende-se o termo “irmão” no sentido do uso oriental. Segundo, usando uns documentos apócrifos (nunca foram aceitos pela Igreja como canônico, isso é, inspirado por Deus) do século IV chamado “O Proto-Evangelho de Tiago” e “A História de José o Carpinteiro”, se diz que a Maria casou com um viúvo idoso, José, que já tinha seis filhos/as: Judas, Tiago, Joset, Simão, Lídia, Lísia. Assim, os “irmãos” seriam só da parte de José e não da Maria. Parece muito pouco improvável e é mais uma tentativa de “explicar” o termo “irmãos” para salvaguardar a doutrina da virgindade perpétua de Maria d que algo com base fatual. Terceiro, seguindo São Jerônimo, se diz que são primos de Jesus em primeiro grau. O importante é saber que a concepção virginal de Jesus está claramente ensinada na Bíblia e faz parte do Credo Apostólico. Mas, a questão da virgindade perpétua de Maria não é tratada nos Evangelhos, e não adianta buscar argumentos neles em favor ou contra. Essa doutrina faz parte da fé católica desde os primórdios.

            A disputa com os escribas também intriga umas pessoas quando fala do “pecado contra o Espírito Santo” que não tem perdão. Em que consiste? Segunda a nota do rodapé da Bíblia TEB, “este pecado consiste em negar-se a reconhecer o poder que atua por meio de Jesus, atribuindo a Satanás as obras que ele realiza pelo Espírito Santo. Tal recusa à conversão contraria o perdão”. Mas, as palavras fortes referentes a este pecado não devem tirar a nossa atenção de algo muito mais importante - que todos os outros pecados, por tão “pesados” que possam ter, têm perdão. Esse fato é um grande “Evangelho”, ou “Boa Notícia” e deve nos animar que para que sejamos portadores dessa mensagem de perdão e reconciliação a todos.

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (31.05.15)

Mt 28, 16-20

“Vão e façam que todos os povos se tornem meus discípulos”

 

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja lutou com dificuldades para expressar em palavras o inexprimível - a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano onde celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial com o Pai’, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus!

Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que no fundo não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivemos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a Doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré - a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Na medida em que criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático - como se fosse possível explicar “três em um” - mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus.

DOMINGO DE PENTECOSTES (24.05.15)

At 2, 1-11

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

 

A liturgia de hoje nos apresenta a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos em duas tradições - a de Lucas (Atos 2) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois em João, a Ressurreição, a Ascensão e a Descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa), enquanto Lucas separa os três eventos, durante um período de cinquenta dias. Assim, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto, para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 4).

            Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso - mas, isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira encontramos nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda nos vv. 5-11, mais profética e missionária.

Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos: os Onze; as mulheres, entre as quais Maria a mãe de Jesus, e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração” (At 1, 14). Ou seja, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.

            O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas”- glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).

A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda, da casa para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6.8.11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.

            A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. O texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o Evangelho com a sua expressão cultural dele.

Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica para uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é uma experiência contínua - por isso relata novas descidas do Espírito Santo: em uma comunidade em oração em uma casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.

Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

 

Jo 20, 19-23

 

            No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir - embora de uma maneira inadequada - o termo hebraico “Shalom!”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. Na verdade é tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas. Como cantamos, “da justiça nascerá a paz.” Jesus não promete a paz do comodismo; pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, prometendo o Shalom, pois, Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.

            Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.

Normalmente imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, usando a imagem de Atos 2; mas, aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

Que a celebração nos anime para que busquemos a criação de um mundo onde realmente possa reinar o Shalom, não a paz falsa que muitas vezes esconde a opressão e injustiça, mas do Reino de Deus, fruto de justiça, solidariedade e fraternidade. Jesus nos deu o Espírito Santo - agora depende de nós usarmos essa força que temos, na construção do mundo que Deus quer.

 

FESTA DA ASCENSÃO DO SENHOR (17.05.15)

Mc 16, 15-20

“Vão pelo mundo inteiro e anunciem a Boa-Notícia para toda a humanidade”

 

O texto de Mc 9-20, que contém o fim do Evangelho de Marcos, interrompe o fio da narração precedente, é muito diferente em estilo e vocabulário do resto do Evangelho e está ausente dos melhores e mais antigos manuscritos. Por isso, normalmente está designado nas nossas bíblias como “Apêndice”, provavelmente escrito no segundo século, e baseado basicamente no Capítulo 24 de Lucas, com alguma adição de João 20 e com referências de fatos narrados em Atos. Embora não acrescente nada de novo para uma melhor compreensão de Jesus e dos acontecimentos pós-pascais, traz elementos muito importantes para a vida da Igreja hoje.

Destaca-se muito o mandamento missionário de Jesus - o de levar a Boa-Nova para toda a humanidade (cf Mt 28, 18-20). A Igreja é por sua natureza missionária, e uma Igreja que descuidasse desse mandato estaria traindo a sua identidade. Porém, faz-se necessário distinguir entre “missão” e “proselitismo”. Igrejas proselitistas têm como meta angariar fiéis de outras Igrejas para a delas. Giram ao redor de si mesmas, identificando a sua Igreja institucional com o Reino de Deus. Uma Igreja missionária tem como objetivo levar a Boa-Nova do Reino para todas as culturas e religiões, respeitando-as, sendo testemunha dos valores do Reino de Deus e ajudando a pessoas de boa vontade a descobrirem a presença do Reino - e do anti-Reino - nas suas próprias culturas e tradições religiosas. Um aprofundamento desse mandato nos fará lembrar que nós não somos donos da missão - a missão é do próprio Deus que envio o Verbo Divino como seu missionário. Por sua vez, Ele deixou uma comunidade de discípulos/as para continuar a sua missão da implantação do Reino de Deus, e nós somos herdeiros dessa missão. Por este motivo existem diversos carismas, ou dons do Espírito Santo, para o bem de todos. Ninguém está dispensado dessa tarefa missionária, fechando-se na sua própria comunidade, movimento, ou Igreja - pelo contrário, devemos nos sentir unidos aos irmãos e irmãs do mundo todo e comprometidos com a construção da sociedade justa e solidária que será uma concretização da Boa-Nova do Reino de Deus. O objetivo da missão ao longo prazo é de reunir a humanidade inteira no Reino de Deus (que ultrapassa as fronteiras da Igreja visível). Fazemo-lo através da proclamação explícita da Boa Nova, e no estabelecimento de um diálogo respeitoso com membros de outras tradições religiosas, e de nenhuma, convidando homens e mulheres a pertencer a uma comunidade de testemunho e serviço e levando a cada ser humano a missão divina de uma salvação integral.

O texto explicita alguns elementos importantes nessa atividade missionária: “expulsão de demônios”: expulsando da convivência humana os sinais do mal, do anti-Reino, que escraviza e oprime milhões de pessoas, através de estruturas econômicas, sociais e até religiosas, de exclusão; “falando línguas”: como em Pentecostes, criando uma nova língua do diálogo e respeito, a linguagem do amor, justiça e solidariedade; “vencendo veneno”- superando tanto veneno semeado durante milênios na convivência humana, expressado através do racismo, machismo, clericalismo, e todos os “ismos” que excluem e nos dividem; “curando doentes”: lutando na prática para que “todos tenham a vida e a tenham plenamente” (cf. Jo 10, 10), como fez Jesus, não somente fazendo curas individuais, mas, restaurando a saúde integral, das pessoas e da criação, através da vivência comunitária e individual do projeto de Jesus. Seria trágico se esses elementos ficassem reduzidos à busca de “milagres” duvidosos, à falação de supostas “línguas dos anjos”, e à satanização de tanta coisa, confundindo expressões de desequilíbrio emocional com a presença diabólica, o que parece ocofrrer com uma certa frequência em alguns movimentos e Igrejas.

Durante séculos muitas vezes os cristãos têm se acomodado com a vivência de uma religião individualista, acomodada e frequentemente alienada dos problemas do mundo. Vivíamos uma separação artificial entre o mundo e o espiritual, entre a prática religiosa e a transformação social. O mandato de semearmos a Boa Nova do Reino nos ajuda para que sejamos mais fiéis a Jesus - não somente à sua pessoa, mas também à sua prática e mensagem, levando a Boa Notícia do Reino a toda a humanidade, em palavra e ação, inspirados no seguimento de Jesus, o Missionário do Pai.

 

 

SEXTO DOMINGO DA PÁSCOA (10.05.15)

Jo 15, 9-17

“Amem-se uns aos outros”

 

            Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, por causa das diversas frases lapidares tecidas dentro dele. Sobressai o tema básico do “amor” - como a característica que deve distinguir os/as discípulos/as de Jesus.

O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os nossos cantos, poemas e novelas - mesmo que seja mais na fala do que na prática, e muitas vezes usado para camuflar um egoísmo crasso. Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos Evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e consumista lhe atribui. Na sociedade atual, o amor geralmente não passa de um sentimento agradável, uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel, sem consistência, descartável. Passado o sentimento, termina o amor! Uma das consequências dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios, de separações, de desistências de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça e não sustenta o peso do dia-a-dia.

            O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido - é o amor “como eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando a vida d’Ele por nós. O amor torna-se uma atitude de vida e não primeiramente um sentimento. A comunidade dos discípulos/as - a Igreja - deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida plenamente” (Jo 10, 10). A comunidade cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá fosse isso também, pois frequentemente, nem isso é!) - deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus, que é a Encarnação do Deus da vida, animada pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer.

A pedra-de-toque de uma comunidade cristã então não será o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos que devem permanecer (v. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar os limites da mera simpatia e atração, para assumir a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai.

É interessante que, embora o trecho situe-se no contexto da véspera da paixão, Jesus fala da alegria completa. É impressionante como, em um mundo que propõe a satisfação imediata pessoal e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Quantos jovens, mesmo - ou talvez especialmente - nas classes mais abastadas, são irrequietos e perdidos na vida. Pois, a alegria não vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente levar à frustração. Mas também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha - uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca de uma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para a felicidade - sempre ter mais, em uma busca individualista de felicidade, que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria - uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade, que não tem a alegria como meta, mas que a traz como consequência.

Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”, mas há o mandamento do amor! Para isso, precisamos de uma vida fortemente fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois sem isso será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos” e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem o seu projeto. Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o cumprimento de uma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de vida, continuador da sua missão, no mundo atual. Um projeto além das nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto “o Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome” (v. 16). É um projeto que nos coloca na contramão da sociedade atual, consumista e excludente, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando é isso - amem-se uns aos outros”. (v. 17)

 

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (03.05.15)

Jo 15, 1-8

“Sem mim, vocês não podem fazer nada”

 

Esse texto inicia a seção do quarto evangelho que tem os trechos que mais se aproximam aos discursos da vida pública de Jesus nos Evangelhos Sinóticos. Aqui temos um exemplo raro de uma parábola em João - a da vinha e dos ramos, uma metáfora que expressa o amor íntimo entre Jesus e os seus discípulos. Em contraste, o segmento seguinte (15, 18-16, 4) vai tratar do ódio do mundo (as forças do anti-Reino) para com os seus seguidores.

            No Antigo Testamento frequentemente se retrata Israel como a vinha (ou videira) escolhida de Deus, que Ele cuidava com muito amor, mas que deu frutas amargas. Na primeira parte de João, o autor demonstra como Jesus substitui as instituições e festas judaicas; agora, Ele se manifesta como a vinha do Novo Israel. Se ficarem unidos a Ele, os discípulos/as darão somente frutos que agradarão ao vinhateiro - o Pai. No Antigo Testamento, Deus muitas vezes ameaçava podar ou até desenraizar a vinha improdutiva. Embora a vinha do Novo Israel não falhe, sempre haverá ramos secos a serem tirados e queimados.

            A Bíblia sempre insiste que o fruto que Deus quer é a prática da justiça e solidariedade. Este tema perpassa a Bíblia toda, tanto no Antigo como no Novo Testamento. Os cristãos somente poderão dar este fruto agradável se ficarem unidos a Jesus, pois, como ele disse, “sem mim, nada poderão fazer”. Mais uma vez volta-se à ideia que é pelos frutos que se conhece a árvore.

Assim, nos leva a refletir sobre os frutos que mais de 500 anos de evangelização têm dado no Brasil e na América Latina, como foi feito pela Conferência de Aparecida e o documento publicado por ela. Com uma das piores distribuições de renda no mundo, com uma das maiores concentrações de terras nas mãos de poucos, com indígenas e pobres marginalizados, com tanta gente sofrida, talvez muita coisa tenha que ser podado pelo Pai, para que realmente sejamos a verdadeira videira na vinha do Senhor. Como dizia o mártir salvadorenho Dom Oscar Romero: “Uma religião de Missa Dominical, mas de semanas injustas, não agrada o Deus da vida. Uma religião de muita reza, mas de hipocrisias no coração, não é cristã. Uma Igreja que se instala só para estar bem, para ter muito dinheiro, muita comodidade, porém que não ouve o clamor dos injustiçados, não é a verdadeira Igreja do nosso Divino Redentor” (Discurso 04.12.1977).

Sem dúvida, há muita coisa realmente boa acontecendo nas comunidades cristãs do Brasil, bem como na sociedade civil em geral, mas o teste mesmo é a construção de uma sociedade baseada nos princípios de justiça, fraternidade e solidariedade e não no lucro, competitividade e na lei da selva.

Hoje, diante da recessão mundial, um dos sentimentos mais comuns em todas as camadas da sociedade é a da impotência. Parece que estamos sem forças diante do rolo opressor do sistema hegemônico, do neo-liberalismo, da globalização, das forças do mercado, da corrupção. Seria fácil cairmos na tentação de desistir da luta para melhorar a sociedade, pois os resultados parecem ínfimos. Por isso urge cada vez mais ficarmos unidos a Jesus, na oração e no compromisso, a Ele que parecia também um derrotado, mas que teve a vitória final na Ressurreição. Se sem Ele nada podemos fazer, o contrário é também verdade - com Ele tudo podemos! Talvez não da maneira que gostaríamos, mas sem dúvida como colaboradores d’Ele na construção do Reino de Deus.

As dificuldades enfrentadas pelos movimentos populares em favor dos excluídos e pelos setores mais comprometidos das Igrejas - às vezes dentro da própria Igreja - os sofrimentos dos mártires da caminhada e das suas famílias, são podas - mas podas que darão mais fruto ainda. A eleição do Papa Francisco, e a sua atuação desde eleito, nos trouxeram um novo alento e ma nova esperança Como as forças opressoras do Império Romano, aliadas às elites do judaísmo, não conseguiram matar o projeto de Jesus, nem as forças opressoras de hoje conseguirão matar o crescimento do Reino entre nós - uma vez que fiquemos unidos a Ele, e entre nós, pois Jesus mesmo nos disse, “sem mim, nada poderão fazer”!

 

 

DOMINGO DE PÁSCOA (05.04.15)

Jo 20, 1-9

“Ele viu e acreditou”

 

Os quatro Evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição - e a Igreja sofre até hoje as consequências.

Lendo os relatos, um fato salta aos olhos - ninguém esperava a Ressurreição! Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio - e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição - nem pensar!

No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!

Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada na fato de um túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!

Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado!

Nós todos somos discípulos/as amados/as, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8); mas, será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1Jo 4, 10-11).

Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, todos os dias da nossa vida, mas especialmente quando a Cruz pesar muito.

 

Páscoa: Tempo de renascer! Tempo de despertar para a vida nova!

Pe. Tomaz Hughes, SVD

Muitos de nós, de uma certa idade, lembram ainda quando a Quaresma era observada com muito rigor nas famílias e comunidades cristãs, com especial ênfase em privar-se de algum bem - doces, bebidas, cinema ou algo semelhante. Que alegria quando chegasse Sábado Santo, quando terminava a Quaresma ao meio dia, pois tudo isso terminou! Sem negar o valor das práticas daqueles tempos idos, antes da reforma litúrgica do Papa Pio XII, a celebração da Páscoa foi diminuída na sua importância e quase que desligada da caminhada quaresmal.

O ponto alto do Ano Litúrgico é o Tríduo Pascal. Aqui está resumido todo o mistério da nossa salvação, pela vida, morte e ressurreição de Jesus. Na quinta à noite, comemoramos a Ceia que resumiu toda a vida de Jesus. “Tendo amado os seus, amou-os até o extremo” (Jo 13, 1) - até o último ponto de doação, dando a sua vida. Jesus nos deu o mandamento que deve nortear toda a nossa vida - “façam isso em memória de mim!”. Não fazendo uma lembrança de algo que já passou, mas o memorial - tornando presente tudo que foi celebrado nessa ceia derradeira, e comprometendo-nos com o seguimento de Jesus hoje, alimentados por seu Corpo e Sangue, com uma vida de amor e solidariedade.

            Há uma ligação estreita entre todos os elementos do Tríduo, pois sexta-feira foi a consequência lógica da vida de Jesus. Ele não veio para morrer, mas para que “todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Por isso, o seu projeto do Reino bateu frontalamente com os projetos de dominação do seu tempo, e por isso, ele foi assassinado. Fiel até o fim, assumiu as consequências da fidelidade à vontade do Pai, e foi morto, e morto na Cruz. Desvinculado da Quinta-feira Santa e do Sábado Santo, Sexta-feira seria a celebração de uma derrota fragorosa. Por isso, depois de sentirmos a dor e a tristeza da sexta feira, aparente vitória do mal, celebramos numa explosão de alegria a vitória de Deus, do bem, na ressurreição de Jesus, garantia da nossa, através da Liturgia Pascal.

            Salta aos olhos, mesmo com uma leitura superficial dos relatos evangélicos, que a experiência da Páscoa fez uma reviravolta na vida dos discípulos e discípulas. De um grupo de decepcionados, desiludidos, fracassados, se tornaram um grupo dinâmico, evangelizador, animado, olhando a vida, com suas alegrias e tristezas, de uma outra maneira. Isso fica claro no relato dos Discípulos de Emaús, em Lucas 24, 13-35. Podemos sentir no desabafo do Cléofas sentimentos de tristeza, decepção, desilusão, até revolta contra Jesus, por, aparentemente, ter fracassado e destruído os sonhos e esperanças deles: “nós esperávamos (notemos o tempo do verbo!) que fosse ele o libertador de Israel, mas... já faz três dias que tudo isso aconteceu.” (Lc 24, 21). De repente, depois de ter feito a experiência da presença de Jesus Ressuscitado, tudo muda: “Então, um disse ao outro: Não estava o nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros” (Lc 24, 32-33).

            Páscoa era para eles, e tem que ser para nós, “tempo de renascer”. Mas, é bom notar - só “renasce” o que morreu! Temos que descobrir em nós o que precisa renascer, o que tem morrido, ou está agonizando! Pode ser a fé, a força, o ânimo, a esperança, o engajamento na comunidade, a energia para lutar por um mundo melhor. Todas essas coisas são capazes de renascer, se realmente fizermos a real experiência da Páscoa, da ressurreição de Jesus. Não de uma maneira sentimental e aérea, mas, realista. Para ressuscitar, Jesus teve que passar realmente pela morte. Mas venceu a morte e continua a viver - e no meio de nós. Lembremos como Paulo dava importância à Ressurreição. Escrevendo aos coríntios, uma comunidade onde alguns “iluminados” negaram ou menosprezaram o fato da Ressurreição, ele brada: “Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória e vocês ainda estão nos seus pecados... Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens (1Cor 15, 16-19).

            Não há dúvida que não é fácil manter sempre a esperança, a fé e a coragem diante de tantas dificuldades na vida. Sempre foi assim. O autor anônimo de Hebreus, escrevendo na segunda parte do primeiro século a uma comunidade judeu-cristã, sabia disso, e falou: “Corramos com perseverança na corrida, com os olhos fixos em Jesus... para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hb 12, 1c-3). A celebração da Semana Santa nos dá uma oportunidade de fazer isso - olhar de novo atentamente para Jesus, o Verbo de Deus, “que se fez homem e armou a sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 14). Assim podemos reanimar a nossa fé, a nossa missão, a nossa participação na comunidade, olhando, recordando e celebrando o Jesus real, de mão calejada, que se tornou igual a nós em tudo, menos o pecado. Se, apesar de ser abandonado por quase todos e sentindo-se abandonado até pelo Pai, gritando, “Meu Deus, Meu Deus porque me abandonaste” (Mc 15,34), mesmo assim foi fiel até o fim, foi ressuscitado pelo Pai. Tempo de renovação, tempo de reviver, tempo de ânimo novo, tempo santo - a celebração da Vida, Morte e Ressurreição de Jesus, “autor e consumidor da fé” (Hb 12,3)

 

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (12.04.15)

Jo 20, 19-31

“A paz esteja com vocês!”

 

No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena trouxe a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas, somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos - “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus..

No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o seu grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não a paz que o mundo dá (Jo 14, 27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz, “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (Jo 20, 21-22).Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende - muitas vezes simplesmente como a ausência de briga, ou até repressão policial. Frequentemente a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido - como tantos países experimentaram, e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras de direita e da esquerda. O “shalom” é tudo o que o Pai quer para o seu povo. Inclui tudo que é necessário para uma vida digna – saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e das suas consequências. O “shalom” dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é através da volta do Filho para o Pai que o Shalom vai se instalar.

O “shalom”, a verdadeira paz, é um dom de Deus - mas também um desafio para nós, os seus discípulos/as. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, este shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas, quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase de Jesus: “não fiquem perturbados, nem tenham medo” (Jo 14, 27), pois disse Ele, “eu venci o mundo” (Jo 16, 33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso” na visão positivista das elites dominantes. Mas, o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras em Mt 10, 34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”.

Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética d’Ele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois, a sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima com não-ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o Shalom tinha lugar premente; por isso, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por esta pregação do verdadeiro shalom - uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus” - da sua pessoa e do seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença - ou ausência - do “shalom” na nossa sociedade, e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer.

O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do anti-Reino. Assim também, o shalôm não nasce em um vácuo - cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso, será sempre conflituoso - pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a Ele exigirá uma mística profunda! Uma vida dedicada à construção do Shalôm tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última da nossa luta pelo shalom tem que ser enraizada na nossa fé - por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êx 3, 7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (Jo 1, 1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (Jo 10, 10). Por isso, devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus que conclama a todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Mc 1, 14).

 As raízes da violência, do anti-Reino, estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus tratos contra quem quer que seja, quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja e ao ciúme, ao ódio e raiva, ao racismo, machismo, classismo, ou a qualquer outro "ismo" que nos divide - estamos nos opondo ao shalôm de Deus. Quando colocamos a propriedade particular como um valor em cima da vida humana, quando defendemos a pena da morte, quando apoiamos politicamente estruturas que acumulam bens nas mãos de poucos, quando aceitamos a ideologia do neoliberalismo, com o seu Deus do lucro, o seu evangelho de competitividade que faz do irmão e irmã os meus rivais, estamos contribuindo para que o shalôm não aconteça. A batalha - e é batalha - contra a violência em favor da paz se travará em muitas frentes - dentro de cada um de nós, nas instâncias de poder político, religioso, eclesial, social e cultural. Os cristãos de todas as Igrejas terão uma responsabilidade muito grande de se tornarem arautos do shalôm, protagonistas de uma nova ordem social, seguindo as pegadas do Mestre que desmascarava a violência sofrida pelo seu povo - muitas vezes em nome de Deus - e trouxe a proposta de um mundo diferente, baseado nos valores do Reino.

Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão quando infundiu nele o espírito de vida; Jesus os recria com o Espírito Santo.

Normalmente, imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos em Pentecostes, como Lucas descreve em Atos, mas aquilo era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

Mais uma vez, no primeiro dia da semana, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase sobre o domingo - duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século, que estavam vacilando na sua fé na Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os que acreditaram sem ter visto!” Essa muitas vezes será a realidade da nossa fé - acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte, o Shalom do que a prepotência! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado vai nos dar essa firmeza.

Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo - Jesus é Senhor e Deus!

Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora, Ele repete essa afirmação e abençoa todos os que O aceitam baseados na fé! A meta do Evangelho foi alcançada - mostrar a divindade de Jesus, para que acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

 

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (19.04.2015)

Lc 24, 35-48

“E vocês são testemunhas disso.”

 

O evangelho de hoje é a segunda parte do capítulo 24 de Lucas, que relata primeiro a história das mulheres diante do túmulo de Jesus, e agora o incidente do encontro de Jesus Ressuscitado com os dois discípulos na estrada de Emaús. Devemos recordar que Lucas estava escrevendo a sua obra em vista dos problemas da sua comunidade pelo ano 85 d.C. Já não estamos mais com a primeira geração de discípulos - já se passou mais de meio século desde os eventos pascais. A comunidade já está vacilando na sua fé - as perseguições estão no horizonte, ou até acontecendo; o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece que é mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

Neste cenário, Lucas escreve esta narrativa. Traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época - e da nossa! Para as mulheres, os dois anjos perguntam “por que estão procurando entre os mortos aquele que está vivo?” Afirmam: “Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem atual para os nossos tempos - diante da péssima situação de tantas pessoas que enfrentam a dura luta pela sobrevivência, com desemprego, baixo salário, falta de terra e moradia, uma herança de décadas de descaso dos governantes com a saúde pública e a educação, é muito fácil perder a esperança e a coragem. Como a Campanha da Fraternidade deste ano quer animar os cristãos na luta para que todos tenham uma vida digna, através de uma sociedade voltada para o bem comum, vencendo a apatia e a passividade, o nosso texto quer nos lembrar que Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, e está no meio de nós!

Os dois discípulos no caminho de Emaús são imagem viva da comunidade lucana - e de muitas hoje! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças - pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Pois, a nossa fé não se baseia no túmulo vazio, mas pelo contrário, a nossa experiência do Ressuscitado explica porque ele ficou vazio. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho” (v. 32), mas não lhes abriu os olhos - para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e partilha: “contaram... como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão” (v. 35).

Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar - pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles se transformam e se tornam testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “E vocês são testemunhas disso” (v. 48). Um grupo de derrotados, desesperançados e desunidos (vv. 20-21) se transformam num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar “no seu nome a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações” (v. 47).

Nos dias de hoje, quando muitos cristãos se desanimam, ou restringem a sua fé à esfera particular, sem que tenha qualquer influência sobre a sua vivência social, a mensagem de Lucas nos convida a redescobrirmos a realidade da presença do Ressuscitado entre nós. Essa experiência não serve somente para o nosso consolo pessoal - somos enviados a imitar os dois de Emaús, que, feita a experiência do Ressuscitado, “levantaram na mesma hora e voltaram para Jerusalém” (v. 33). Pois, a nossa experiência religiosa não é algo intimista e individualista, mas algo que nos deve propulsionar para a missão, para a construção de um mundo conforme a vontade de Deus, um mundo de justiça, paz e integridade da criação, sem excluídos e marginalizados, sob qualquer pretexto que seja!

 

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (26.04.15)

Jo 10, 11-18

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”

 

            Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a Comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus.

A imagem escolhida é a do “pastor” - uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Sl 40, 11; Ez 34, 15; 37, 24; Eclo 18, 13; Zc 11, 17; etc.). Às vezes é aplicada ao próprio Deus (Sl 23, 1; Is 40, 11; Jr 31, 9), às vezes ao futuro rei messiânico (Sl 78, 70-72; Ez 37, 24), às vezes aos líderes político-religiosos de Israel (Jr 2, 8; 10, 21; 23, 1-8; Ez 34). Também os Evangelistas Sinóticos a usaram bastante (Mc 6, 34; 14, 27; Mt 9, 36; 18, 12-13; 25, 32; 26, 31; Lc 15, 3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre” e não somente eficiência na sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se da sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho.

            O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos seus próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (Ez 34, que vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus - os líderes religiosos e políticos do seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém em 587 aC) , que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o na horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e às vezes religiosos) dos nossos tempos!

O trecho destaca o verbo “conhecer” - Jesus conhece as suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem dos seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz - assumida livremente por Jesus - é a expressão suprema desse amor.

            O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus.” Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não-joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja - a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela; mas, muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso - “seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, onde se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus.

            Como seguidores do Bom Pastor também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas, a morte ao egoísmo, e a todos os “ismos” que nos dividem e separam, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (Jo 10, 10)

 

Tomaz Hughes SVD

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SEGUNDO DOMINGO DA QUARESMA (01.03.15)

 

Mc 9, 2-10

 

“Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-O!

 

            O texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesaréia de Filipe, sobre quem era Jesus e como deveria ser o seu seguimento:“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (8, 34).Iniciando a passagem com as palavras “Seis dias depois”, Marcos quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior sobre a cruz.

            O texto destaca um aspecto da pessoa de Jesus que é muito importante - o fato que ele era um homem de oração. Durante a oração aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas. Assim Marcos mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. A Lei e os Profetas era as divisões da Escritura judaica, e assim Marcos demonstra que em Jesus se cumpre as expectativas do povo da Primeira Aliança, expressadas nas Escrituras. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos no seu tempo - Marcos aqui vislumbra mais uma vez o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas finalmente de ser vindicado por Deus.

            Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias” (v. 5). Claro, teria sido bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia-a-dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta, do sofrimento. Mas é uma sugestão que Jesus não pode aceitar, pois seria uma fuga da sua missão de ser o Servo de Javé. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e em seguida “desceram da montanha” (v. 9). Por tão gostoso que possa ser ficar no Monte Tabor, é preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário! A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da cruz!! Talvez foi a força da experiência do Monte Tabor que deu a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorosa do Calvário!      

            Todos nós - seja qual for a nossa vocação - precisamos de momentos de oração profunda, de união especial consciente com Deus. Mas essas experiências não são “intimistas” - nos aprofundam a nossa fé e o nosso seguimento para que possamos seguir o exemplo d’Ele que lavou os pés dos discípulos:“Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (Jo 13, 14).Também, esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os momentos de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com a nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”! Somos fracos demais para aguentar esta experiência - por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação - mas sempre para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos! Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho bem-amado. Ouvi-o!” (v. 7). Frase semelhante àquela da Mãe do Senhor em Caná : “Façam tudo o que Ele lhes disser”(Jo 2, 5). Façamos isso, e venceremos os nossos Calvários, como venceu Jesus, e, mais tarde, os seus discípulos!!

 

 

TERCEIRO DOMINGO DA QUARESMA (08.03.152)

 

João 2, 13-25

 

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”

 

O nosso texto relata, na tradição do Quarto Evangelho, um dos eventos mais conhecidos na vida de Jesus – a expulsão dos vendedores do Templo. No Quarto Evangelho esse evento está situado no início da Vida Pública de Jesus, enquanto no Evangelho mais antigo, Marcos, está situado no início da nossa “Semana Santa”. Assim os dois autores relatam o acontecido segundo o esquema dos seus escritos, mas ambos trazem uma mensagem bem clara – o que vai finalmente levar Jesus à morte é o seu conflito com as autoridades do Templo. Estes se sentiram ameaçadas no seu poder político, religioso e econômico pela pregação e atuação libertadora de Jesus, que revelava o verdadeiro rosto de Deus o e seu projeto de vida plena, ofuscados pelo ritualismo de exploração da classe sacerdotal de Jerusalém, aliada ao poder opressor romano. Para João, esse conflito estoura desde o início da vida pública de Jesus. Para Marcos o evento é a gota de água que desencadeou o conluio que levaria Jesus à Cruz.

Na cena do texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João (nos Sinóticos - Mt, Mc, Lc - a vida pública de Jesus só durou um ano e eles só mencionam uma Páscoa). No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, Ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos ritos judaicos no sinal das bodas de Caná, aqui ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu o seu sentido. Pois a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante residirá em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem um templo que fosse nacionalista e explorador econômico do povo (Jr 7, 11-14; Zc 14, 20-21).

João entende que o verdadeiro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias – ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mt 26, 61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como também vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias.

Mais uma vez Jesus, através de uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, a sua religião era vazia, pois escondia o rosto amoroso e misericordioso de Deus. As Igrejas sempre correm este mesmo risco. Além da descarada exploração financeira dos seus fiéis por parte de algumas seitas e pregadores (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça na nossa Igreja!), aos poucos muitas comunidades cristãs perderam a sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu anos atrás o Frei Beto, a religião assim “brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (Estado de São Paulo 03.11.99).

 Assim, o texto de hoje nos traz um alerta – Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração; ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (Jo 10, 10). Uma religião que abandona a sua função profética é tão traidora quanto a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, as vozes dos Papas Francisco e Bento XVI, do Arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos que a religião não se confina à sacristia, mas tem que levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. A Campanha da Fraternidade 2015 trata da relação entre a Fé, a Igreja e a Sociedade e convoca todos os cristãos para que recuperem essa dimensão profética na luta em favor da vida dos nossos povos. Aproveitemos do “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo – de ser uma prática bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido.

 

 

QUARTO DOMINGO DA QUARESMA (18.03.12)

 

Jo 3, 14-21

 

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por Ele”

 

            Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (vv. 16-21) que podem ser entendidos como resumo de todo o Evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época.

Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Nm 21, 1-9. O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai.

            A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões vêem o mundo como algo negativo e pecaminoso – freqüentemente justificando-se com uma interpretação errônea de João e assim criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Essa visão equivocada está muito presente em certos movimentos neo-pentacostais, e diversos programas de televisão é rádio. Tal visão deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho.

            A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar (v. 17). Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história; mas, para João se dá quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente aceita ou recusa a sua mensagem. O termo que a teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos Essênios.

            O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas, é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir nas suas pegadas. É fazer as suas opções concretas sejam nossas, ou melhor, de agir como Ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam o nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária, ou da destruição do meio-ambiente? Diante da corrupção quase endêmica e da manipulação de grande parte dos meios da comunicação de massa? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual econômico-financeira mundial, criada por gananciosos que não sofrem as conseqüências da sua sede sem limites de lucro? O que Ele diria diante da crise que leva dezenas de milhares de migrantes a arriscarem as suas vidas tentando escapar da miséria? “Crer” n’Ele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos e sofridos, não por serem mais “santos”, mas simplesmente por serem mais sofridos.

            É bom notar que Jesus, enfatizando nesse texto a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos) nega a importância de nascer fisicamente como membro do Povo Eleito – mais uma vez, como em Caná e no Templo (2, 1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo da sua época!

            Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo onde todos tenham acesso à uma vida digna – lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (v. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusão, realmente “crê” em Jesus, seja qual for a sua confissão religiosa, e “não é condenado” (v. 18). Quem não faz essa opção, opta então pelas trevas, mesmo que professe de uma maneira ortodoxa as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (v. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos as nossas opções de uma maneira sincera, e também a nossa contribuição em favor da criação de uma sociedade justa, de vida e não da morte.

 

 

 

QUINTO DOMINGO DA QUARESMA (25.03.11)

 

Jo 12, 20-33

 

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”

 

            O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças dos seus textos sobre o seguimento de Jesus, p. ex. Lc 9, 22-25: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme a sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a Ele, ou seja, na luta em favor do seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar ao serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida – ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (v. 24). Não que Jesus quisesse a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do nosso) tempo – e apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos.

Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum - em geral as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança; mas, na verdade, nós muitas vezes criamos Deus em nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante, e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “S e alguém quer servir a mim, que me siga” (v. 26).

            O seguimento de Jesus leva à cruz; pois, a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é agüentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia na sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios da nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei”,(a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sócio-políticos, econômicos ou religiosos – normalmente tudo vem misturado! Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato Sinótico, quando rejeitava o seguimento de um Messias que daria a sua vida (Mc 8, 32).

            Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz conseqüências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Fiquei triste há pouco tempo ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da Teologia de Prosperidade, na verdade uma empresa multi-nacional, exclamar “agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza a sua vida neste mundo, vai conservá-la para a vida eterna” (v. 25). É claro que aqui se usa um semitismo – o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”- o que significa “amar menos”. Essa opção é difícil – embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “estou perturbado” (v. 27). Mas, o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade.

 

 

DOMINGO DE RAMOS (29 de março de 2015)

Mc 11, 1-11

“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”

 

            Uma das grandes festas religiosas na tradição popular brasileira é a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos. Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns, hoje fazem questão de não perder a celebração. Tudo isso tem o potencial de ser muito positivo, mas para não reduzirmos a comemoração a mero folclore ou teatro, acredito ser importante aprofundar a partir de textos bíblicos o que significava este evento para Jesus, e para o evangelista.

            Talvez o nosso entendimento da passagem - como de outros textos - é dificultado pela nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Para que entendamos bem o sentido do gesto profético de Jesus nesse evento, seria bom relembrar um trecho do profeta Zacarias: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta... Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9, 9-10). Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os “Anawim” na língua hebraica, ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Herdeiros dessa espiritualidade e esperança seguramente estavam Maria e José, e os discípulos/as de Jesus. Jesus foi educado dentro dessa espiritualidade. Zacarias traçava as características do verdadeiro messias - seria um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra, mas de paz! Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós) - onde poderosos e ricos oprimiam os pobres e pacíficos! Um rei jamais entraria em uma cidade montado em um jumento - o animal do pobre camponês, mas em um cavalo branco de raça! Então Jesus, fazendo a sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias, e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos!

            Por isso, muitas vezes perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um Presidente ou Governador dos nossos tempos, - de pompa, imponência e demonstração de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus! O contrário do que significava o que Jesus fez! Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém” - e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor, o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus! De fato, naquele dia, havia duas procissões entrando em Jerusalém. Primeiro, pela portão ocidental, a de Pôncio Pilatos, representante do Imperador, que veio de Cesaréia Marítima com ums cinco mil soldados legionários. Podemos imaginar a impressão causada – milhares de soldados com espadas,.elmos e escudos brilhando no sol, trombetas tocando e Pilatos montado num cavalo de raça branco para demonstrar o poderio de César, o opressor do povo. À tarde entrou pelo portão oriental uma pequena procissão, de um camponês pobre, Jesus de Nazaré, montado num jumentinho com o seu séquito de pobres e estropiados. O anti-Rei, diante do poder opressor de César. Nada mais longe do sentido original deste evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo - ou especialmente - quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus!

O texto de hoje convida a todos nós a revermos as nossas atitudes. Seguimos Jesus - mas, será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus - poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende estes termos? É valiosa a advertência contida em um canto muito usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram n’Ele e mataram o salvador!”

Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos, ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força do direito (Jesus e o seu projeto de vida) ou no direito da força (tantos poderosos do cenário mundial com o seu projeto de morte?)

 

 

PRIMEIRO DOMINGO DA QUARESMA (26.02.12)

Mc 1, 12-15

“Durante quarenta dias, no deserto, ele foi tentado por satanás”

                                  

            Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto - Marcos de uma forma resumida, Mateus e Lucas mais detalhadamente. Mas, devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra ou de uma maneira fundamentalista!

            Uma coisa logo chama a atenção – nos três Evangelhos as tentações vêm logo após o batismo de Jesus! O batismo significava o assumir público da sua identidade e missão, como Servo de Javé. Logo após esse compromisso, Ele tem que enfrentar as tentações. Aqui a experiência de Jesus é como a nossa própria - nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas, entre o nosso compromisso e a nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações!!

            Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. “Deserto” é essencialmente lugar ermo, árido, onde não há como escapar um confronto consigo mesmo – e com Deus. Ele não é em primeiro lugar um conceito geográfico, mas uma experiência de solidão – muitas vezes necessária e saudável – no mais íntimo do nosso ser.  O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora d’Ele durante as suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com este apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência da sua fé!  Isso vale para nós hoje, como indivíduos e como comunidades e Igrejas.

            O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4, 1-14) pode nos ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos na nossa caminhada da fé hoje! Primeiro Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer” - logo que enfrenta um sacrifício por causa da sua opção, Jesus é tentado a escapar dele! Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata dos nossos desejos, criando necessidades falsas através de sofisticadas campanhas de propaganda. Pois vivemos em uma sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores! É só olhar o número de casamentos que fracassam diante da primeira crise, ou a quantia de seminaristas, religiosos/as e padres que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar os seus votos ou de se ordenar, diante de uma sentida falta de “auto-realização imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver dignamente. Mas salienta muito bem que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais – ambos são necessários para que se tenha a vida plena! Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a sua felicidade na simples posse de bens, como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos!

            A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. De novo algo muito atual! Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro das nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais”, e que não importa “ser mais”! Como sempre, a tentação vem em forma atraente - até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Isso sem falar das pregações midiáticas que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua bênção! Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve que enfrentar esta tentação - Ele que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos sofredores, é tentado a confiar nas riquezas! Para o diabo - e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando a justiça social - Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8).

            A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz, para “evangelizar”. Quanta aliança entre a cruz e a espada - a América Latina que diga! Ainda hoje todos nós enfrentamos esta tentação - não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve que clarificar a sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor seu Deus” (v. 12).

            Realmente, podemos nos encontrar nas tentações de Jesus! São as tentações do mundo moderno - o ter, o poder e o prazer! Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas! Jesus teve que enfrentar o que nós enfrentamos - o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar da nossa vocação de discípulos. O relato de Lucas nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (Lc 4, 8).

 

SEXTO DOMINGO COMUM - 12.02.2012

Mc 1, 40-45

“E de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”

 

            O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa-Nova” (Mc 1, 38s). Marcos, diferentemente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus. Mas, ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino e da sua Boa Notícia.

            O texto de hoje conta a cura de um leproso. Os leprosos eram entre os mais marginalizados da época (mesmo que agora as pesquisas mostrem que a doença de Hansen como tal não existia na Palestina do tempo de Jesus, e que essas pessoas sofreram de diversas doenças da pele e não da Hanseníase, propriamente dita!). Eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia, longe do convívio social, por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13, 45-46). A única esperança deste leproso de ser reintegrado na comunidade estava através de uma cura por parte de Jesus. Ele diz algo significativo : “se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé - pelo contrário só faz milagre onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé que causa o milagre. Isso se torna importante recordar no nosso mundo tão entusiasto em correr atrás de supostos milagres e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento d’Ele até a cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos das Igrejas cristãs.

            A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio de ira” - certamente não com o leproso, mas com o sistema social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar as nossas leis e práticas para verificar se nós também não criamos classes de excluídos e cristãos da segunda categoria, em nome de Deus!

            Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do Evangelho de Marcos - o chamado “segredo messiânico”. Jesus proíbe que ele conte para os outros a história da cura! Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa-notícia da sua cura - naturalmente. Essa proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos - e no relato da confissão de Pedro na estrada de Cesaréia de Filipe vamos ver o motivo atrás dele. Pois Jesus não quer que o povo siga-O, buscando prodígios e milagres, mas quer que todos se tornem os seus discípulos como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, a concretização do Reino de Deus. Por isso, é de desconfiar de pregações e celebrações religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, frequentemente com uma certa manipulação das emoções e sentimentos dos participantes, sem um engajamento na transformação do mundo e das suas estruturas.

            Finalmente, o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que a sua cura seja autenticada, segundo as leis levíticas. Pois para Jesus, não basta a cura individual - Ele quer que todas as pessoas sejam integradas em uma vivência comunitária sem marginalização por causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde! A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é a nossa atual sociedade, neo-liberal e consumista! Diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira face de Deus a eles, o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema sacerdotal e farisaica da época - “e de toda parte as pessoas iam procurá-lo”.

 

QUINTO DOMINGO COMUM - 08.02.2015

Mc 1, 29-39

“Foi para isso que eu vim”

 

            Este texto de hoje pode ser dividido em três partes: vv 29-31 - a cura da sogra de Pedro; vv 32-34: curas em Cafarnaum; vv 35-39: Jesus reforça a sua vocação e missão pela oração. O conjunto forma uma unidade que pode nos ensinar coisas importantes para a nossa vida de cristãos.

            A cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no texto no trecho anterior (1, 23-28). Aquela cura se dava em um lugar considerado “sagrado” - a sinagoga - enquanto a de hoje se realiza em um lugar considerado “profano” - a casa; aquela era de um homem, a de hoje de uma mulher; a primeira em um lugar público, a da sogra em um lugar privado. Assim, Marcos enfatiza que a missão libertadora de Jesus abrange tudo e todos, sem distinção de gênero, condição social, ou local. Jesus mostra que na verdade não existem locais “sagrados” ou “profanos”, pois Deus está, e age, em todo lugar onde há os seus filhos e filhas. A sogra, quando curada, levanta-se e começa a servir os discípulos - ou seja, quem é libertado por Jesus não se satisfaz com isso, mas em resposta coloca-se a serviço da comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como querem tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade e à missão.

            A cura das multidões de doentes nos mostra a situação do povo do interior da Galiléia no tempo de Jesus - muitos doentes de todos os tipos, por falta de recursos. Muito semelhante ao mundo e ao Brasil de hoje – tanta gente doente, tanto fisicamente quanto psiquicamente, muitas vezes como consequência da pobreza, falta de alimentação adequada e tensões provenientes das situações intoleráveis em que tanta gente se encontra, no mundo de riqueza, esbanjamento, consumismo e materialismo.. Jesus expulsa os demônios - que significavam, na linguagem daquela época, tudo que oprimisse a pessoa humana, todas as manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também nos convida a descobrir quais as manifestações do mal que devem ser afugentadas da nossa sociedade de hoje - as que deixam tantas pessoas sem saúde, sem recursos, sem uma vida digna dos filhos/as de Deus. Convida-nos a lutar, não através de “exorcismos”, muitas vezes teatrais e chocantes, mas através de uma luta permanente e firme em favor dos Direitos Humanos do nosso povo sofrido, da solidariedade nas comunidades, de políticas que favorecem o bem estar do povo e não os interesses de poucos, e contra tudo que se opões a estes valores.

            A terceira parte do texto nos traz o segredo da força da missão de Jesus. Mesmo esgotado com o trabalho em favor do povo, ele se levanta de madrugada para ficar na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração, ele reza a partir da sua experiência da missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão do mato, Jesus achou a força para poder levar a sua missão até o fim, na fidelidade – mesmo quando fracassou, humanamente falando! A atitude de Pedro e dos companheiros é outra - “Todos estão te procurando!” Isso significa, “Você está fazendo sucesso em Cafarnaum - volte para lá, faça mais sucesso ainda!” A tentação permanente do poder e da fama - onde no fundo se busca a auto-realização e o prestígio mais do que a vontade de Deus. Tentação muito atual para nós, nos dias de hoje, com tanta manipulação da religião pelos meios de comunicação. Mas Jesus não cai - a resposta d’Ele é contundente: “Vamos para outros lugares, pois foi para isso que eu vim”. Jesus não deixa que a fama e o prestígio o tirem do caminho do Servo de Javé - ele anda pelas aldeias da Galiléia, lugares afastados e desprezados pelos “grandes” da sociedade, para levar a compaixão de Deus aos mais abandonados e sofridos, nas “periferias” da sociedade dominante de Israel.

            Esse trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser a da cada vida cristã. Quanto mais ele trabalha na missão, mais ele sente a necessidade de rezar. Mas, mais que reza, mais tem força para voltar à missão. Jesus não está a serviço d’Ele mesmo, nem de uma estrutura - mas do Pai e do povo, dois aspectos da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações tão comuns na Igreja de hoje - a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima com Deus e a de só “rezar” de uma maneira individualista e intimista, sem a dedicação à missão. Jesus mostra que a missão leva à oração e a oração leva à missão - e não a qualquer missão, mas à missão em favor da vida digna do povo sofrido e oprimido, sinal da presença do Reino de Deus entre nós..

 

QUARTO DOMINGO COMUM (01.02.15)

Mc 1, 21-28

“O que significa isso? Um novo ensinamento, dado com autoridade”

 

            O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos - e de todos os Evangelhos - o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e o do mal, expressado, na linguagem e mentalidade daquele tempo, na imagem de um homem doente “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com esta luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não através de milagres mas da Cruz, até à vitória definitiva na Ressurreição.

            Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava - mas, como é costume dele, não nos explicita que Ele ensinava. Ilustra o conteúdo do ensinamento do Mestre relatando uma ação d’Ele - a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época - que tratava toda doença como expressão de um espírito mau, pois o conhecimento da medicina, psicologia etc. era muito rudimentar – mas, concentrar-nos no que o evangelista quer nos mostrar, que na chegada do Evangelho do Reino acontece a libertação verdadeira, onde o mal e o pecado, com todas as suas expressões, estão derrotados pelo bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente - o bem contra o mal.

            Na história, o mal, falando através do homem, reclama contra a chegada do bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?” O mal nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder que aliena e domina nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje - enquanto as Igrejas se limitam a ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as Igrejas e seus agentes são perseguidos. Temos o exemplo hoje de bispos proféticos como Dom Erwin Krautler, no Xingú, dos líderes indígenas e indigenistas na região de Dourados-MS e muitos outros. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam “o senhor é um santo”, mas quando comecei a perguntar porque existiam tantos pobres, me falaram “o senhor é um comunista!” - e sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil.  O Papa Francisco nos alerta contra a possibilidade disso acontecer dentro das instâncias da Igreja, e, de fato, ele mesmo sofre muita pressão da parte daqueles que temem perder o seu poderio sobre as pessoas.

            Então o relato nos ensina que com a chegada de Jesus – portanto, também através da ação das comunidades dos seus discípulos/as - algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso, um ensinamento novo, dado com autoridade?” A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto no seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento, mas na sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas, mas falava a partir da sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis, rituais e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo a sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência nos escribas, e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores e demonstrou que é vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Não é difícil ver um paralelo com a atuação do atual Papa e como, dentro do  pouco tempo, ele cativou tanta gente, que via a Igreja como opressora, rígida, sem compaixão.  O Papa Francisco também, como fazia o seu antecessor João XXIII, irradia a presença do Reino de Deus – Reino de compaixão e misericórdia, de solidariedade e ternura.

Cabe a nós, os seus seguidores/as de Jesus de Nazaré, achar meios para praticar este projeto na nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos Messias, de uma Teologia de Retribuição ou de Prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma Igreja, uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade. Que essa ação comece no “micro” - na nossa família, comunidade, bairro, e Igreja, pois a opção entre os dois projetos de vida se dá cada dia, em cada opção e ação nossa.

 

 

Tomaz Hughes SVD

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Pe. Tomaz Hughes, SVD

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NB - Texto revisado: acentuação, pontuação, regência verbal, gramática, maiúsculas/minúsculas, digitação, aspas, parênteses, barra de espaço... játendo incorporado a nova ortografia. Não mexi nas ideias teológicas do Padre Hughes que, na minha visão, são ótimas; mas, mudei algumas palavras para melhor expressar o que ele queria dizer. Solicito que o texto seja multiplicado pela internet e pela mídia impressa e eletrônica.

Para acessar textos anteriores: www.maikol.com.br, clique < Outros >, Clique em < Hughes >, Clique no < ano > desejado (o site está sendo remodelado).

Ao publicar, não esqueça de deletar este NB em vermelho!

Máikol, revisor do texto

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