Ano 2014

Reflexões Homiléticas para 2014

Pe. Tomaz Hughes, SVD

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Vigésimo Segundo Domingo Comum (31.08.14)

Mt 16, 21-27

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me!”

Este texto é uma continuação do Evangelho proclamado na Festa Litúrgica de São Pedro e São Paulo e, para que entendamos o texto mateano (de Mateus) na sua integridade, torna-se necessário completar a leitura do Evangelho da festa com a passagem de hoje. Pois, ele mostra que, embora Pedro tivesse usado os termos certos para descrever quem era Jesus, ele os entendia de modo errado. Para Jesus, ser o Cristo (ou Messias) significava assumir a missão do Servo de Javé, descrita pelo profeta Segundo-Isaías, nos Cânticos do Servo de Javé (Is 42, 1-9; 49, 1-9ª; 50, 4-11; 52, 13-53). Jesus deixa claro que ser o Cristo não significava triunfo nos termos desse mundo, mas, o contrário: “O Filho do Homem deve sofrer muito ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto, e ressuscitar no terceiro dia”.

Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias, não era comum - em geral o povo esperava um messias triunfante e glorioso. Mateus nos mostra que Pedro partilhava essa visão errada, a ponto de tentar corrigir Jesus, e de ganhar de Jesus uma correção dura: “Fique longe de mim, Satanás! Você não pensa as coisas de Deus, mas as coisas dos homens” (Mc 8, 33).

Não basta usar os termos certos - temos que ter a compreensão certa do que eles significam. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher na sua imagem e semelhança, mas na verdade muitas vezes nós criamos Deus na nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de seguir um Messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem que andar nas pegadas do seu mestre: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga” (Lc 9, 23).

            O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções d’Ele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Carregar a cruz, não é aguentar qualquer sofrimento passivamente. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-Lo não é tanto fazer o que Jesus fazia, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje. Como Ele foi morto, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem definidos “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), os seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses. Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas.

A nossa resposta à pergunta “E você, quem diz que eu sou?” se dá, não tanto com os lábios, mas, com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós, pela nossa maneira de viver, pelas nossas opções concretas, pela nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história.

Tenhamos cuidado com qualquer Jesus não exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Pois, o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim, e deixou claro: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz, e me siga. Pois, quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la; mas, quem perder a sua vida por causa de mim, esse a salvará” (Lc 9, 24)

 

Vigésimo Primeiro Domingo Comum (24.08.14)

Mt 16, 13-20

“E vocês, quem dizem que eu sou?”

 

            Aqui temos a versão mateana da profissão de fé de Pedro, que Marcos (Mc 8, 27-35) coloca como pivô de todo o seu evangelho. Este trecho levanta as duas perguntas fundamentais de todos os Evangelhos: “Quem é Jesus?” “O que significa ser discípulo d’Ele?”

São duas perguntas interligadas, pois a segunda resposta depende muito da primeira. A minha visão de Jesus determinará a maneira do meu seguimento d’Ele.

O diálogo começa com uma pergunta um tanto inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” É inócua, pois não compromete quem responde - o “diz que” não compromete ninguém, pois expressa a opinião de outros. Por isso, chovem respostas da parte dos discípulos: “João Batista, Elias, Jeremias, ou um dos profetas!”. Mas, Jesus não quer parar aqui - esta pergunta foi só uma introdução. Depois vem a facada!: “E vocês, quem dizem que eu sou?”

Agora não há muitas respostas, pois quem responde vai se comprometer - não será a opinião de outros, mas a resposta pessoal! Esta opinião traz consequências práticas para a vida. Finalmente, Pedro se arrisca: “O Messias, o Filho de Deus vivo”.

Aqui, Mateus acrescenta vv. 17-19, pois quer destacar o papel de Pedro (e, por conseguinte, dos líderes da sua própria comunidade), na função de ligar e desligar da comunidade, que nos Evangelhos somente aqui e em Cap. 18 é chamada de “Igreja”. “As chaves do Reino” não se refere ao poder de perdoar pecados, mas de integrar e desligar pessoas da comunidade dos discípulos.

            O fundamento, o alicerce, dessa comunidade é o conteúdo da profissão de Pedro “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo”. Mas, continuam no ar as duas perguntas que são o cerne do Evangelho: “Quem é Jesus?”, e “o que significa segui-Lo?“ Pois, os termos que Pedro usa são ambíguos, porque cada um os interpreta conforme a sua cabeça. Por isso, Jesus toma uma atitude, aparentemente estranha: “Ele ordenou aos discípulos que não dissessem a ninguém que Ele era o Messias!” Que coisa esquisita! Jesus proíbe que se fale a verdade sobre Ele! Como é que Ele espera angariar discípulos deste jeito? O assunto merece mais atenção.

            Realmente, Pedro acertou em termos de teologia, de “ortodoxia”, conforme diríamos hoje. Ele usou o termo certo para descrever Jesus. Mas, Jesus quer esclarecer o que significa ser “O Messias de Deus”. Pois cada um pode entender este termo conforme os seus desejos. Jesus quer deixar bem claro que ser “messias” (um termo hebraico; em grego seria “cristo”, e significa “ungido”) para Ele é ser o “Servo de Javé”. É vivenciar o projeto do Pai, que necessariamente vai levá-Lo a um choque com as autoridades políticas, religiosas, e econômicas, enfim, com a classe dominante do seu tempo. Não significa ser o Messias nacionalista e triunfalista das expectativas de então.

No nosso tempo, quando é moda apresentar um Jesus “light”, sem exigências, sem paixão, sem Cruz, sem compromisso com a transformação social, o texto nos desafia para clarificar em que Jesus acreditamos? O Jesus sentimental, que existe para resolver os meus problemas, tão amado por setores da mídia, e também de grandes setores das Igrejas, ou o Jesus bíblico, o Servo de Javé, que veio para dar a vida em favor de todos? O Jesus da “teologia de prosperidade” ou o Jesus proclamado quase diariamente pelo Papa Francisco, o Jesus de Nazaré verdadeiro? Esse assunto virá à tona no Evangelho do próximo domingo.

 

Festa da Assunção de Maria (17.08.14)

Lc 1, 39-56

“Olhou para a humilhação da sua Serva”

 

            Pode-se dividir este texto em duas partes - a história da visitação da Maria à Isabel, e o “Canto de Maria”- ou “Magnificat”. Reduzir o sentido da Visitação a um simples gesto serviçal da parte da Maria para com a sua parente idosa, seria empobrecer muito o pensamento de Lucas. Esta cena é altamente simbólica - Lucas quer mostrar o acolhimento do “Novo” (representado por Maria e Jesus) por parte do “Antigo” (representado por Isabel e João). Isabel, símbolo de todos os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma frase usada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na libertação do seu povo, Jael (Jz 5, 24) e Judite (Jt 13, 18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa, que, animada pela fé em Javé libertador, colabora na luta pelo mundo que Deus quer. Esse mundo, a irrupção do Reino de Deus, já é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu ventre”. Neste trecho é importante destacar o motivo pelo qual Maria é bem-aventurada: “Feliz aquela que acreditou”. Para Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa do Senhor - não somente a promessa da gravidez, mas no projeto de Deus, desde Abraão, de dar ao seu povo a terra, a descendência e a bênção. Enfim, a promessa da realização do projeto do Reino.

            O Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição literária magistral, inspirada no Canto da Ana (1Sm 2, 1-10) e outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “Pobres de Javé”, os deserdados dessa terra, que, apesar de tudo, acreditavam no projeto libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus olhou para a sua pequenez e humilhação. Ela celebra a mudança radical que o Reino traz - os poderosos, soberbos e ricaços serão derrubados e os pobres, humilhados e famintos serão erguidos.

            Esse retrato da Maria contrasta muito com a personalidade passiva e pálida que muitas vezes inventamos para ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres das nossas comunidades hoje. Diante das forças opressoras do seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo, o racismo) ela canta a experiência do Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos. Essa Maria nos desafia para que nos unamos na luta pela construção do Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores. No nosso mundo, pelo menos tão opressor quanto naquela época, esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados na medida em que nós acreditarmos e nos empenharmos na construção de um mundo mais fraterno, justo e igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus, celebrado por Maria no Canto do Magnificat e demonstrado na pessoa e missão do seu Filho Jesus.

 

DÉCIMO NONO DOMINGO COMUM (10.08.14)

Mt 14, 22-33

“Coragem! Sou eu! Não tenham Medo!”

 

            É comum ler nos jornais e revistas os resultados de pesquisas que apontam o medo e a insegurança entre as principais preocupações do nosso povo - o medo da violência, do desemprego, da pobreza, da solidão, da velhice e muitos outros. O medo parece até tomar conta de uma boa parte das nossas instituições - o medo de tomar as medidas necessárias para uma justa reforma agrária, por parte das autoridades competentes; o medo por parte de muitos líderes religiosos diante dos desafios do mundo de pós-modernidade, levando até a paralisia e o fechamento; o medo de procurar novas soluções para novos desafios. O medo parece ser a força motora da atividade - ou da falta da mesma - de muitas pessoas, grupos e instituições.

            A comunidade eclesial, onde nasceu o Evangelho de Mateus, também sentia medo. Os seus membros (na sua maioria judeus-cristãos, bem diferente etnicamente das comunidades lucanas) enfrentavam oposição e perseguição por parte das autoridades das sinagogas. A comunidade estava em luta com o chamado “judaísmo formativo”, para definir o rumo que o judaísmo iria tomar depois do desastre de 70 d.C., quando foram destruídos Jerusalém e o Templo. Com a eliminação, pela repressão romana ou por guerra civil, dos Saduceus, dos Zelotas e dos Essênios, somente dois grupos organizados sobreviveram para disputar a liderança dentro do judaísmo - o da linha farisaica e o grupo judeu-cristão, representado pela comunidade de Mateus. Era uma luta de muito radicalismo, como costuma acontecer nas brigas fratricidas. O sofrimento da comunidade de Mateus é retratado em Mt 10, 22: “Sereis odiados por todos por causa do meu nome. Mas, quem perseverar até o fim será salvo”.

            É neste contexto que se entende o texto de hoje. Os discípulos, ao verem Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A comunidade de Mateus era semelhante - diante da perseguição e do sofrimento; Jesus parecia para eles um fantasma - uma ilusão, uma fugacidade, incapaz de dar sustento à sua vida comunitária de fé. Diante do medo dos discípulos, Jesus é taxativo: “Coragem! Não tenham medo! Sou eu!”. Mateus relata essa história - acrescentando esses elementos em comparação com o texto mais sóbrio de João 6, 16-21 - para ajudar a sua comunidade a entender que Jesus não é fantasma, mas uma presença real, vivificante, fortalecedora e libertadora no meio da comunidade, especialmente na hora das dificuldades e perseguições.

            Tipicamente, o Evangelho de Mateus destaca à figura de Pedro (como também em 16, 13-20; 17 ,24-27). Pedro era personagem muito importante em Antioquia, talvez o local da última redação de Mateus. Aqui Pedro é o protótipo do discípulo - cheio de amor, mas com uma fé enfraquecida pela dúvida. O estender da mão de Jesus é um convite a Pedro, à comunidade de Mateus, e a nós hoje para dar uns passos para o desconhecido, para não nos fechar nas nossas seguranças, frequentemente falsas, que nós mesmos construímos; mas, de termos a coragem de enfrentar os ventos da vida, mesmo quando contrários, pois Jesus está realmente conosco e como disse Paulo: “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8, 31).

            Ter fé e não ter medo por causa de Jesus não quer dizer: “Não tenham medo, confiem em Deus, e Ele garantirá que as coisas que os amedrontam não lhes acontecerão”, mas antes: “Não tenham medo, confiem em Deus. É bem possível que as coisas que os amedrontam vão lhes acontecer; mas, não devem ter medo disso, porque Deus estará ao seu lado”!

A fé em Deus não tira os nossos sofrimentos e dificuldades, como querem tantos hoje; mas, nos dá as forças necessárias para vencê-los. Deus não é um analgésico para as dores e dificuldades da vida; mas, uma presença amorosa que anima, fortalece e estimula, pois, como disse Paulo, “a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25)

 

Décimo Oitavo Domingo Comum (03.08.14)

Mt 14, 13-21

“Dai-lhes vós mesmos de comer”

 

No Evangelho de Mateus, o texto de hoje vem logo após a história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário do Tetrarca (que governa uma quarta parte de um país) Herodes Antipas. Mateus contrasta o “Banquete da Morte” promovido por Herodes, com “O Banquete da Vida”, protagonizado por Jesus!

O milagre normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado nos quatro Evangelhos. Isso aponta à importância dada nas primeiras comunidades a este relato, tanto que a sua memória persistiu não somente nas comunidades da tradição Sinótica (Mc, Mt, e Lc), mas também na Comunidade do Discípulo Amado.

Mesmo fazendo uma leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6, 30-44; Lc 9, 10-17; Mt 14, 13-21; Jo 6, 1-15), alguns elementos importantes soltam aos olhos: A reação dos discípulos diante do problema da fome da multidão. Nos Sinóticos, a solução sugerida por eles é a de despedir todos para que pudessem comprar pão. Assim, ignora-se a situação dos que não tinham possibilidade de comprar! É a solução de muita gente hoje diante do escândalo da pobreza no mundo – “que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições, que se lasque!” Jesus rejeita claramente essa “solução” - “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se revela uma solução inadequada. Jesus insiste: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair em um assistencialismo. Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada em uma nova proposta de vida - a da partilha!

Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”! O motivo é simples - se a ênfase caísse sobre o “multiplicar” milagroso, teria poucas consequências para os discípulos (nós, hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir” - porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que temos. O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens ou renda. Tem mais do que o suficiente! Mas, é urgente partilhar e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos!

Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26, 26). Também concentra a atenção nos pães, pois, nesse relato somente eles são distribuídos. Assim, o texto nos lembra que a participação eucarística exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida, e não na acumulação da parte de alguns junto com a falta do básico para muitos. O cristão não pode compactuar com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes; mas, deve lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas do Jesus de Nazaré. O Papa Francisco não cansa de bater nessa tecla, pois muitos cristãos não conseguem enxergar a relação essencial entre seguir Jesus, celebrar a Eucaristia, e a criação de uma sociedade baseada na solidariedade, partilha e justiça social.

O texto de hoje relê Êx 16 (o maná), Nm 11 (as codornas) e 2Rs 4,1-7.42-44 (onde Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto do Êx 16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos outros leva à podridão.

            É claro que diante do enorme sofrimento da maioria da população do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente quanto os discípulos no Evangelho de hoje. Mas, o texto nos ensina que não devemos cair na cilada de aceitar as saídas falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica - ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado pela Eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós façamos o que é possível para a construção de um mundo de justiça e fraternidade.

            Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão dela e agiu. Com certeza, Ele olha hoje a situação de tantos irmãos e irmãs e pede que os seus seguidores façam algo para mudar a situação. Os jornais nos trazem notícias do aumento assustador da fome no mundo por causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços de alimentos básicos. Paira sobre nós cristãos o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vós mesmo de comer!” O que significa isso na prática para mim, para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida?

 

DÉCIMO SÉTIMO DOMINGO COMUM (27.07.14)

Mt 13, 44-52

“Vocês compreenderam tudo isso?”

 

Hoje terminamos a leitura do capítulo treze de Mateus, com as últimas três parábolas do Reino - as do tesouro escondido, da pérola preciosa e da rede lançada ao mar. Nas primeiras duas podemos notar duas ênfases - uma sobre o grande valor do achado (simbolizando o Reino) e outra sobre a atitude de quem o acha. A parábola da rede no mar ecoa a mensagem da parábola do campo de trigo e joio, que fez parte do texto do domingo passado.

            O contexto histórico do tesouro achado é do Oriente Médio Antigo, palco de tantas invasões e guerras. Era prática comum enterrar os valores diante da ameaça de uma invasão ou guerra. Só que, muitas vezes, o dono morria na violência, e o tesouro ficava escondido por muito tempo, até ser achado por acaso.

Usando esse exemplo, Jesus nos ensina algo sobre o Reino e sobre a atitude do discípulo diante d’Ele. O Reino de Deus é um valor tão incalculável, que uma pessoa sensata daria tudo para possuí-lo. É importante notar que o texto enfatiza que “cheio de alegria” ele vende todos os seus bens, para poder possuir o valor maior, que é o Reino. A vivência dos valores do Reino, do seguimento de Jesus, deve ser uma alegria e não um peso. Sem dúvida, é exigente, pois meias-medidas não servem (ele vende tudo o que tem), mas, o resultado é uma alegria enorme. Não a alegria falsa de um programa de Faustão ou Sílvio Santos, mas uma alegria que brota da profundeza do nosso ser, pois, descobrimos a única coisa que não passa e que dá sentido a toda a nossa vida - o Reino de Deus. É pena que com tanta frequência conseguimos fazer do seguimento de Jesus um peso, uma chatice, um legalismo, que afasta de Deus em lugar de atrair para Ele. É impressionante como se consegue fazer a Palavra de Deus algo tão insosso e irrelevante!

Novamente, como na parábola do campo de trigo e joio, a última parábola ensina que o Reino, que subsiste na Igreja, congrega santos e pecadores (os bons e maus peixes). A separação final deve ser deixada para a justiça de Deus, enquanto, na vivência diária, devemos mostrar paciência e tolerância, mas, sem indiferença ou comodismo.

O último versículo talvez indique que o autor do Evangelho que denominamos Mateus era um escriba ou Doutor da Lei, convertido ao discipulado de Jesus (é bom lembrar que os títulos tradicionais dados aos Evangelhos são somente atribuições. Nenhum Evangelho identifica o nome do seu autor, é e consenso entre os exegetas que o Evangelho de Mateus não foi escrito pelo apóstolo daquele nome). Ele está bem enraizado nas “coisas antigas” - ou seja, no Antigo Testamento. Mas, está aberto às coisas novas, ou seja, a nova interpretação da Lei que Jesus trouxe. Assim, nos ensina algo valioso para o mundo de hoje, tão inconstante e sem raízes de um lado e com a tentação de fechamento no fundamentalismo e intolerância, do outro. Nem tudo que é antigo é ultrapassado e nem tudo que é novidade é coisa boa. Igualmente, nem tudo o que é antigo tem que ser preservado e nem toda a novidade deve ser rejeitada. É importante ter critérios, para que não percamos os valores, nem da sabedoria antiga, nem da busca de atualização para os dias de hoje. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!

 

DÉCIMO SEXTO DOMINGO COMUM (20.07.14)

Mt 13, 13, 24-43

“Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”

 

Este texto continua o capítulo treze de Mateus, onde se proclama as parábolas do Reino. Hoje lemos três parábolas que comparam o Reino de Deus a um campo de trigo, um grão de mostarda e o fermento na massa quando se faz pão. Termina como uma explicação alegórica do sentido da parábola do trigo de do joio. Podemos entender essas parábolas todas como uma mensagem de esperança para a comunidade pequena mateana - e para nós hoje. Uma leitura atenta delas deve nos reanimar para a nossa caminhada e luta em favor do Reino, sem desânimo nem desesperança.

            Isso fica claro nas curtas parábolas do grão de mostrada e do fermento na massa. A semente de mostarda é minúscula, mas, quando brota, forma um arbusto viçoso. Quando se faz pão, não se usa mais do que uma pequena porção de fermento, mas é o suficiente para levedar a massa toda. O efeito é desproporcional ao tamanho ou peso do grão e do fermento. Pois, eles têm um dinamismo interno que dá resultados inesperados.

            Jesus aplica essas observações ao Reino de Deus. O seu crescimento depende de pessoas e coisas que aparentemente são insignificantes. Porém, onde existe uma real comunidade de discípulos, há um dinamismo interno que causa efeitos muito maiores do que a sua força humana, pois é movida pela força do Espírito de Deus. Com certeza, no tempo do escrito, a comunidade mateana estava sentindo-se fraca demais para enfrentar a polêmica e a luta com o judaísmo rabínico formativo (a reestruturação do judaísmo depois da destruição de Jerusalém e do Templo). Diante das expulsões das sinagogas e das famílias, da rejeição dos discípulos por seus pares, e diante da ameaça de perseguição real, muitos devem ter desanimado, sentindo-se fracos demais para esta caminhada. Algo semelhante facilmente ocorre hoje - diante do rolo compressor da globalização do mercado, do projeto neoliberal, da propaganda do mundo materialista e consumista, da busca desenfreada do prazer, da banalização da sexualidade, muitos acham que nós não temos forças para resistir, pois somos fracos e insignificantes nos olhos dos donos do poder. Isso é julgar somente com critérios humanos. É fácil esquecer a ação do Espírito e da verdade que para Deus nada é impossível. Essas duas parábolas nos ensinam a valorizar o nosso grão de mostarda e a nossa medida de fermento - ou seja, as pequenas ações e gestos de solidariedade que trazem o dinamismo do Espírito e podem alcançar resultados surpreendentes. Olhando as estatísticas da diminuição da mortalidade infantil no Brasil, diante de quais os governantes se ufanam, quem não sente que é resultado, em grande parte, do trabalho humilde e perseverante dos membros da Pastoral da Criança, que, mesmo diante de décadas de descaso governamental diante da saúde pública, fazem verdadeiros milagres em favor da vida. Poder-se-ia multiplicar os exemplos. Olhemos com os olhos de fé e de Deus e não com os do mundo, que só valoriza a força do dinheiro, do poder e da dominação.

            Nesse contexto pode-se ler a parábola do campo onde foi semeado joio (erva daninha) junto com o trigo. Os servos querem arrancar o joio à força, mas o patrão não permite, pois talvez faça mais mal do que bem. Aqui o campo é o mundo, a comunidade, a Igreja. Somos uma comunidade santa e pecadora, como reza a oração eucarística. Cada comunidade, cada pessoa é ao mesmo tempo trigo e joio. A parábola alerta contra dois perigos, muitas vezes presentes nas Igrejas. Uma é a tendência do puritanismo - de criar uma comunidade de “santos” ou “eleitos”, intolerante com os pecadores e com as fraquezas humanas, criando uma religião rígida e fria, que esconde o rosto misericordioso de Deus. O outro perigo é o oposto - simplesmente ignorar o joio, e assim correr o perigo que a erva daninha (os males e erros) sufoquem o trigo na comunidade. A parábola aconselha paciência e cautela, e assim quer evitar os dois entremos de “elitismo” e de “deixa correr”, pois ambas as atitudes teriam como resultado a destruição da comunidade.

            O Reino é de Deus e Ele não falha. Somos convidados a caminhar juntos na construção lenta, mas segura, desse Reino, apesar der sermos joio e trigo, confiantes no dinamismo do Espírito que faz com que o nosso grão de mostarda e fermento na massa dão frutos, muito além das expectativas humanas.

 

DÉCIMO QUINTO DOMINGO COMUM (13.07.14)

Mt 13, 1-23

“Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça”

 

Com o texto de hoje, entramos no capítulo treze de Mateus, que, estruturalmente, é o centro do Evangelho. Tudo se concentra no ponto central da mensagem de Jesus, o Reino de Deus, que continua algo misterioso (v. 11). O capítulo consiste em sete parábolas - as parábolas do Reino - e alguma explicação delas. O trecho de hoje nos traz a parábola que é conhecida como a parábola do semeador (embora o texto enfatize mais a semente), junto com uma explicação do seu sentido.

            O que é uma parábola? Um exegeta, C.H. Dodd, deu a seguinte definição: “Uma metáfora tirada da vida diária ou da natureza, que chama a atenção do ouvinte pelas suas imagens vivas ou estranhas, e que deixa-o com dúvida suficiente sobre o seu sentido exata para que seja estimulado a refletir por si mesmo.” A parábola de hoje usa imagens conhecidas na Palestina rural do então - a semeadura - e na sua forma original não trazia a explicação. Terminava com o desafio de Jesus para que os ouvintes aprofundassem por si mesmos o seu sentido: “quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

Para entender as imagens, é bom lembrar que na Palestina antiga, se jogava a semente antes de arar a terra. Por isso alguma semente caía nas picadas que atravessavam os campos, “à beira do caminho”; outra parte seria logo queimada pelo sol terrível do país; outra parte seria comida pelas aves, outra parte seria perdida porque a terra era rala e cheia de ervas daninhas. Mas, uma parte iria cair em terra fértil que dava frutos, conforme a sua possibilidade.

            Provavelmente, a explicação dada em vv. 18-23 nasceu mais tarde, durante a catequese da Igreja primitiva. Assim, no início podemos supor que o semeador era Deus, Jesus, ou um emissário d’Eles; a semente, a Palavra de Deus e os tipos diferentes de solo, as respostas diferentes dos ouvintes. Alguns deixam o fascínio do mal, nas suas diversas formas, roubar a semente; outros acolhem a Palavra, mas de uma maneira superficial e não demora muito para que se torne infrutífera na sua vida. Outros, aceitam a revelação divina mas, a colocam em segundo plano, enquanto correm atrás das riquezas de um mundo consumista, relegando assim Deus e o seu projeto, fazem com que a religião se torne algo de fachada, que em nada ajuda o Reino a crescer. Mas, a finalidade da história é de dar esperança. Embora haja muitos fracassos, em última instância, o trabalho do semeador dá certo - sempre há pessoas que recebem com entusiasmo a Palavra, e a vida deles, baseada na fé viva, dá muitos frutos. Não é necessário que todos deem frutos iguais - mas, que todos deem conforme as suas possibilidades, cem, sessenta e trinta por um.

            Depois de dois mil anos de semeadura, cabe perguntar sobre os frutos da semeadura na nossa sociedade, dita cristã! Depois de mais de quinhentos anos da Igreja no Brasil, será que nós cristãos damos os frutos de uma sociedade justa, conforme o desejo de Deus? Estamos sendo - individualmente e comunitariamente - quê tipo de solo? Deixamos a semente penetrar nos solo do nosso coração ou deixamos a na superfície, como a semente que caiu à beira do caminho? Ou, a aceitamos através da catequese sacramental e da tradição familiar, sem aprofundá-la, ficando em uma prática estéril, para manter aparências e tradição, mas, que não afeta em nada a sociedade? Ou deixamos os espinhos modernos - as tentações de uma sociedade materialista, consumista, de competitividade - sufocar as reações de fraternidade e solidariedade que devem marcar os que acolhem a Palavra? Ou, com a graça de Deus, procuramos ser solo fértil, onde a fertilidade inerente na semente possa brotar em frutos de bondade e justiça, conforme as nossas possibilidades, deixando acontecer o que profetizou o Segundo-Isaías: “Assim acontece com a minha Palavra que sai da minha boca: ela não volta para mim sem efeito, sem ter realizado o que eu quero e sem ter cumprido com sucesso a missão para a qual eu a mandei” (Is 55, 11). O semeador é Deus, a semente é boa - mas, que tipo de solo sou eu, somos nós? “Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça!”

 

DÉCIMO QUARTO DOMINGO COMUM (06.07.14)

Mt 11, 25-30

“Eu te louvo, Pai, ... porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”

           

Os primeiros três versículos do texto não têm uma vinculação muito estreita com o contexto em que Mateus os coloca (Lucas situa o ditado num outro contexto - Lc 10, 21-22), e por isso “essas coisas” não se refere ao que veio antes no capítulo (a condenação de Corozaim e Betsaida), mas com os “mistérios do Reino”, que são revelados aos pequenos e humildes - neste contexto, os discípulos, e escondido aos que se acham autossuficientes na sua sabedoria e estudo, ou seja, os fariseus e doutores da Lei (Mt 13, 11). Essa oração de louvor de Jesus brotou da sua própria experiência na missão - enquanto a sua pessoa, ensinamento e projeto de vida foram rejeitados pela elite política, econômica e religiosa da época, os pobres e massacrados pelo sistema que o acolheu. A autossuficiência da elite impediu que ela pudesse reconhecer a verdade de Jesus. Os pobres, com a sua espiritualidade do Servo de Javé, conseguiram em grande parte acolhê-lo, mesmo sem compreender inteiramente a profundeza da sua identidade.

O texto tem ecos da literatura sapiencial e apocalíptica. Dos Sapienciais, podemos ver reflexos de Pr 8, onde a Sabedoria é personificada; Eclo 51, 1-12, 13-30 e Sab 6-8. Mas, também nos faz lembrar textos apocalípticos como Daniel, onde os sábios são incapazes de decifrar o sentido do sonho de Nabucodonosor (Dn 2, 3-13), enquanto o humilde Daniel, confiando na revelação divina, louva a Deus por lhe ter dado a sabedoria (Dn 2, 23) e revela que se trata do Reino fundado pelo próprio Deus (Dn 2, 44). No tempo de Jesus, os sábios também não conseguem decifrar os mistérios do Reino de Deus, um dom que é dado aos humildes. Em Mateus, os pequenos são os discípulos (Mt 10, 42) a quem é revelado o mistério do Reino dos Céus (Mt 13, 11).

Os versículos 26-28 são importantes, pois afirmam o relacionamento único entre Jesus e o seu “Abbá”, seu Querido Pai. Aqui, a comunidade mateana expressa a sua fé em Jesus como Filho Absoluto do Pai Absoluto. É uma de três passagens em Mateus nas quais Jesus expressa, de uma maneira indireta, uma relação única com Deus, seu Pai. As outras são Mt 21, 37 e 24, 36.

A imagem do “jugo” era bastante conhecida já no Antigo Testamento (Jr 2, 20; Jr 5, 5; Os 10, 11). No judaísmo do tempo de Jesus era usada como imagem da Lei de Deus escrita e oral (Eclo 6, 24-30; 51, 26s). O termo não tinha necessariamente uma conotação de peso ou opressão quando usado assim. O nosso texto usa a imagem corrente para contrastar a interpretação farisaica da Lei, que oprimia o povo com exigências casuísticas e conceitos que excluíam muitos, e a interpretação de Jesus, que não rejeita a Lei, mas, lhe devolve o seu sentido original - uma garantia de manter viva na comunidade o projeto libertador de Javé. O problema não estava na Lei, mas, na sua interpretação. Para os doutores, as práticas externas eram tão exigentes que ofuscavam o rosto misericordioso de Deus, tornando a vivência religiosa um pesadelo para muitos. A interpretação de Jesus não é “light” - é exigente, pois exige uma vivência de fraternidade, uma luta pela solidariedade e libertação e a rejeição de todo egoísmo e individualismo. No fundo, é mais exigente do que a dos fariseus, pois não se esgota em práticas externas, mas em um processo infinito de doação de si. Garante que este projeto de vida, exigente como é, traz a alegria do Reino de Deus, e Jesus sempre a ensina e aplica com compaixão e misericórdia.

Esses últimos versículos nos levam a rever a nossa pregação, a nossa interpretação da Lei de Deus, a nossa prática pastoral. Pois, ao longo da história, muitas vezes a pregação nas igrejas e na catequese tem sido uma série de legalismos moralizantes, reduzindo o cristianismo a uma prática externa de normas, frequentemente colocando fardos pesados sobre os menos fortes, sem que fosse oferecido para eles qualquer ajuda para carregá-los. Não poucas vezes o seguimento de Jesus se reduzia ao cumprimento de leis, ou à vivência de uma moral ou ética, sem a revelação do Deus misericordioso e compassivo, o Deus de vida. Jesus nos mostra que embora a religião exija leis e moral, fundamentalmente é uma mística, uma experiência do amor de Deus que nos convida a assumir o seu jugo como resposta, um jugo que não mata, mas, que liberta, que não esconde o rosto de Deus, mas, que traz a alegria do Reino! O Papa Francisco volta a esse tema seguidamente, pois não é fácil a nossa conversão para que “a nossa justiça seja maior do que a dos fariseus e doutores da Lei” (Mt 5, 20).

 

FESTA DE SÃO PEDRO E SÃO PAULO - (29.06.14)

Mt 16, 13-19

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

 

Hoje a Igreja celebra a festa dos dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesareia de Felipe. O relato mais antigo está em Marcos, Cap. 8, 27-38, que se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente; mas, o relato tem a mesma finalidade, ou seja, clarificar quem é Jesus e o que significa ser discípulo d’Ele.

A pedagogia do relato é interessante. Primeiro Jesus faz uma pergunta aparentemente inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?” Assim recebe diversas respostas, pois esta pergunta não compromete, é o “diz que”. Mas, a segunda pergunta traz a facada: “E vocês, quem dizem que eu sou?” Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, se compromete com as consequências! Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente, Pedro acertou e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou! Afirmou que foi através de uma revelação do Pai que Pedro fez a sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura pelo menos até o v. 25. Pois, o assunto é mais complicado do que possa parecer.

Após afirmar que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o quê significa ser o Messias. Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo; muito pelo contrário, era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado; era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que, de fato Ele era o Messias, mas não do jeito que Pedro quis. Este, conforme as expectativas do povo do seu tempo, quis um Messias forte e dominado; não, um que pudesse ir, e levar os seus seguidores com Ele, até à Cruz! Por isso, Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse, e como recompensa ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Fique longe de mim, satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensas as coisas de Deus, mas, dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de Satanás - o Tentador por excelência - e “pedra de tropeço” para Jesus! Pedro tinha os títulos certos para Jesus; mas, a prática errada!

Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor d’Ele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática; o seguimento d’Ele na construção do seu projeto, até às últimas consequências.

Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a segunda pergunta de Jesus ressoa forte: para nós, quem é Jesus? Não para o Catecismo, não para o Papa ou o Bispo ou Pastor, mas, para cada de nós pessoalmente? No fundo a resposta se dá, não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus - Ele que veio para que todos “tivessem a vida e a vida plenamente!” (Jo 10, 10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de termos a doutrina certa, mas a prática errada, de cairmos na tentação de substituir o caminho humilde e serviçal da cruz pela pompa e ritual, de esquecermos os valores do Reino de Deus para substituí-los com os valores da sociedade vigente. Pedro aprendeu ao longo da vida o que é ser discípulo, pois terminou crucificado também, mas não foi fácil a mudança de mentalidade. Paulo também teve que despojar-se da toda a sua formação farisaica, quando descobriu que a Lei não salva ninguém, mas somente a graça de Jesus.

Hoje, quando depois de muitos anos de ter desaparecido dos documentos da Igreja, o Espírito tem inspirado os participantes da V Assembleia de CELAM em Aparecida-SP a voltar a esta opção “com renovado vigor,” o Papa Bento XVI insiste nessa opção em Verbum Domini e o Papa Francisco não deixa esquecer que ela opção é pedra de toque para a nossa fidelidade como cristãos, torna-se mais importante do que nunca lembrar o ensinamento de Jesus sobre o discipulado: Ele “não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28).

 

DÉCIMO SEGUNDO DOMINGO COMUM (22.06.14)

Mt 10, 26 - 33.

“Não tenham medo!”

 

            “Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Este tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia! Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza a mesma coisa com tanta ênfase quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade.

            Então, parece que medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de que? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16-25 Jesus fala das perseguições que os seus discípulos terão que enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela autoridade religiosa judaica (“acoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das suas próprias famílias (“irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, este cenário já era conhecido no meio das suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros anos da Igreja os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, tolerados pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos depois de 85 dC tudo mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém, e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir na Lei, na sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que pudesse minar este projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava em ser rejeitados na sua identidade religiosa, familiar e cultural e vistos como traidores pela sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam e os judeu-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, ter medo?

            Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus! Por isso, não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse, ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado.

            Hoje, em geral não somos perseguidos por causa da nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada (Na verdade, há mais cristãos perseguidos no mundo hoje do que nos tempos do Império Romano - outra realidade do que a do Brasil). O mundo nosso até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha consequências sociais e econômicas. Mas, persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Temos presenciado nisso nas ameaças sofridas por líderes nossos, bispos, padres religiosos/as e leigos/as, especialmente no Norte do país. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim; mas, ai de quem procura concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos etc.

            Por isso, devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências de uma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com o seu “corpo” - templos, festas, honras, prédios etc, - mas matando a sua “alma” - a prática da opção evangélica pelos oprimidos.

            O Brasil também tem os seus mártires - e a lista é comprida - que deram a sua vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários e elites. É sinal de uma Igreja viva. Mas, não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim, soa atual a última advertência do trecho, “quem me renegar diante os homens, eu também o renegarei diante do meu Pai”. Mas, também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se faz com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas Missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”.

 

FESTA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (15.06.14)

Jo 3, 16-18

“Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único”

 

Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos da sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível - a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, onde se expressa o Pai “criador de todas as coisas”, o Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado”, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus.

O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no Último Discurso de Jesus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que no fundo é inexprimível, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã.

Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1, 28). Ora, se somos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita na diferença. Assim, só podemos ser pessoas realizadas na medida em que vivermos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário.

No mundo pós-moderno neoliberal, onde o individualismo social, econômico, e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos a nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança deste Deus que é amor e comunhão.

A festa de hoje não é de um mistério matemático - como pode ter três em um - mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança, até participarmos na eternidade da sua vida.

 

DOMINGO DE PENTECOSTES (08.06.14)

At 2, 1-11

“Todos ficaram repletos do Espírito Santo”

 

A liturgia de hoje nos descreve a descida do Espírito Santo sobre a comunidade dos discípulos, em duas tradições - a de Lucas (Atos dos Apóstolos) e da Comunidade do Discípulo Amado (João 20). Salta aos olhos que uma leitura fundamentalista da bíblia - infelizmente ainda muito comum entre nós - leva a gente a um beco sem saída, pois no Evangelho de João a Ressurreição, a Ascensão e a Descida do Espírito se deram no mesmo dia (Páscoa); enquanto Lucas separa os três eventos, em um período de cinquenta dias. Por isso, devemos ler os textos dentro dos interesses teológicos dos diversos autores - os 40 dias de Lucas, por exemplo, entre a Ressurreição e a Ascensão, correspondem aos 40 dias da preparação de Jesus no deserto para a sua missão. Pois, como Jesus ficou “repleto do Espírito Santo” (Lc 4, 1) e se lançou na sua missão “com a força do Espírito” (Lc 4, 14), a comunidade cristã se preparou durante o mesmo período, e na festa judaica de Pentecostes também experimentou que “todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2, 4).

            Uma leitura superficial do texto de Atos dá a impressão de um relato uniforme e coeso - mas isso se deve à habilidade literária do autor. Na verdade, ele costurou um relato só, tecendo elementos de duas tradições. Uma leitura cuidadosa nos mostra essas duas tradições: a primeira está nos vv. 1-4, uma tradição mais antiga e apocalíptica; a segunda está nos vv. 5-11, mais profética e missionária.

Nos primeiros versículos, estamos no ambiente de uma casa, onde os discípulos se reuniram. Atos nos faz lembrar que estavam reunidos três grupos distintos: os Onze; as mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus; e os irmãos do Senhor. Embora talvez representem três tradições cristológicas diferentes no tempo de Lucas, ele faz questão de enfatizar que todos estavam reunidos com “os mesmos sentimentos, e eram assíduos na oração” (At 1, 14). Quer dizer, a descida do Espírito não é algo mágico, mas consequência da unidade na fé e no seguimento do projeto de Jesus.

            O primeiro relato (vv. 1-4) usa imagens apocalípticas, símbolos da teofania, ou da manifestação da presença de Deus - o som de um vendaval e as línguas de fogo. A expressão externa da descida do Espírito é o “falar em outras línguas” (não o “falar em línguas” - glossolalia - tão valorizado por muitos grupos de cunho neo-pentecostal).

A segunda tradição muda o enfoque. O ambiente muda da casa para um lugar público - provavelmente o pátio do Templo. O sinal visível da presença do Espírito não é mais o falar em outras línguas, mas o fato que todos os presentes pudessem “ouvir, na sua própria língua, os discípulos falarem” (At 1, 6). O dom do Espírito restabelece aqui a unidade de linguagem que se tinha desfeito na Torre de Babel (Gn 11, 1-9) e prefigura assim a dimensão universal da missão dos apóstolos (cf. nota roda-pé TEB) O termo “ouvir” aqui implica também “compreender”. Três vezes o relato destaca o fato dos presentes poderem “ouvir” na sua própria língua (vv. 6, 8 e 11). Assim, Lucas quer enfatizar que o dom do Espírito Santo tem um objetivo missionário e profético - de fazer com que toda a humanidade possa ouvir e compreender a nova linguagem, que une todas as raças e culturas - ou seja, a do amor, da solidariedade, do projeto de Jesus, do Reino de Deus.

            A lista dos presentes tem um sentido especial - estão mencionadas raças, áreas geográficas, culturas e religiões. Todos ouvem as maravilhas do Senhor. Assim, Lucas ensina que a aceitação do Evangelho não exige deixar a identidade cultural. Contesta a dominação cultural, ou seja, a identificação do Evangelho com uma cultura específica. Durante séculos, este fato foi esquecido nas Igrejas, e identificava-se o Evangelho com a sua expressão cultural europeia. Nos últimos anos, a Igreja tem insistido muito na necessidade da “inculturação”, de anunciar e vivenciar a mensagem de Jesus dentro das expressões culturais das diversas raças e etnias. Como dissemos, o texto é uma releitura da Torre de Babel, onde a língua única era o instrumento de um projeto de dominação (uma torre até o céu!) que foi destruído por Deus pela diversidade de línguas. Nenhuma cultura ou etnia pode identificar o evangelho com a sua expressão cultural dele.

Hoje é uma grande festa missionária. Marca a transformação da Igreja de uma seita judaica a uma comunidade universal, missionária, mas não proselitista, comprometida com a construção do Reino de Deus “até os confins da terra”. Lucas insiste que a experiência de Pentecostes não se limita a um evento - é uma experiência contínua - por isso, relata novas descidas do Espírito Santo: em uma comunidade em oração em casa (At 4, 31), sobre os samaritanos (At 8, 17), e, para o espanto dos judeu-cristãos ortodoxos, sobre os pagãos na casa do Cornélio (At 10, 4). Pois, o Espírito Santo sopra onde quer, sobre quem quer, em favor do Reino de Deus.

Aprendamos do texto de Atos, e celebremos a nossa vocação missionária, não a de falar em línguas, mas de falar a língua única do amor e do compromisso com o Reino, para que a mensagem do Evangelho penetre todos os povos, culturas, raças e etnias.

 

DOMINGO DA ASCENSÃO DO SENHOR (01.06.14)

Mt 28, 16-20

“Eu estarei com vocês todos os dias até o fim do mundo”

 

            Chegamos ao último trecho do Evangelho de Mateus. Podemos dizer que o evangelho todo culmina na postura dos discípulos, descrita no versículo 17: “Ajoelharam-se diante d’Ele” - uma postura de adoração, de reconhecimento da sua natureza divina. Porém, o trecho nos adverte que muitas vezes a nossa fé em Jesus também pode ser vacilante, quando fala “ainda assim, alguns duvidaram”.

            As comunidades que podemos chamar de “mateanas” (Mateus) estavam em crise. Os líderes judaicos de então, diante da fraqueza da identidade judaica da época, insistiam numa interpretação rígida da Lei e não toleravam qualquer dissidência ou questionamento. Iniciaram um processo de expulsão dos judeu-cristãos da sinagoga, sob a acusação de estarem traindo a religião de Moisés para seguir os ensinamentos de Jesus. Com isso, os cristãos foram obrigados a buscar outros caminhos, fora do judaísmo oficial, numa insegurança que exigia coragem para fazer a nova caminhada diante de tanta oposição, até dentro da própria família. O Evangelho de Mateus nasceu, então, para fazer com que a sua comunidade ficasse firme na fé em Jesus e entendesse que o seguimento de Jesus, longe de ser o abandono das tradições religiosas dos seus antepassados, era na verdade fidelidade à toda a caminhada do povo da Aliança. Para isso, toda a história de Jesus foi recontada de uma forma tal que os seus discípulos sentissem que Ele era o Messias, o Novo Moisés, o Emanuel, Deus no meio do seu povo. Logo no início, quando o anjo do senhor anuncia o futuro nascimento a José, o texto enfatiza que o filho “será chamado pelo nome de Emanuel, que quer dizer: Deus está conosco” (Mt 1, 23). No meio do Evangelho, falando aos discípulos, o próprio Jesus afirma: “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estou aí no meio deles” (Mt 18, 20). Agora, na última frase do Evangelho, o Ressuscitado garante que “Eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 20). Jesus era a presença de Deus conosco desde o início, Ele está presente nas comunidades hoje e Ele estará sempre conosco em todas as circunstâncias da nossa vida, para sempre.

            Depois de um longo escrito de vinte e oito capítulos, o Evangelho termina de uma forma muito resumida, neste texto de hoje. É um texto tão denso em conteúdo que dificilmente a gente pode imaginar como dizer mais coisas em tão poucas palavras. Como gênero literário, reúne elementos das “entronizações” do Antigo Testamento com a comissão apostólica.

            Em primeiro lugar, vale notar a localização do acontecimento em Mateus - na Galileia. Seguindo o mandamento dado pelo anjo do Senhor na manhã da Ressurreição (Mt 28, 7), os discípulos voltam para a Galileia para encontrar-se com o Senhor Ressuscitado. Aqui “Galileia” significa mais do que um local geográfico! A Galileia era lugar da missão de Jesus, onde Ele serviu os pobres e marginalizados pela sociedade e pela religião oficial. Voltar para a Galileia significava voltar para a prática de Jesus, um afastamento de Jerusalém, símbolo da sede de poder e dominação. Mateus nos ensina que quem quiser encontrar-se na sua vida com o Jesus Ressuscitado deve assumir o seguimento de Jesus na prática das suas opções, aplicadas às condições e desafios da sociedade de hoje.

O que significa assumir as opções práticas de Jesus no nosso mundo de consumismo e exclusão, de materialismo e descrença? Cabe a cada Igreja local, a cada cristão indagar-se seriamente nesse sentido. O Papa Francisco não cansa de indicar possíveis caminhos práticos.

            Embora haja uma referência à visão que os apóstolos tiveram de Jesus, a ênfase cai sobre as suas palavras. Não há nenhum relato da Ascensão, como existe em Atos (At 1, 9-11) pois, para Mateus, já tinha acontecido junto com a Ressurreição. As últimas palavras de Jesus poderão ser divididas em três partes, referentes ao passado, ao presente e ao futuro. Jesus declara que toda a autoridade foi dada a Ele no céu e sobre a terra - o Verbo está no passado e ensina que Deus deu a Jesus a autoridade como Filho do Homem. Essa autoridade é a do Reino de Deus (Dn 7, 14; 2Cr 36, 23; Mt 6, 10). O mandamento missionário se refere ao presente dos discípulos - à sua missão universal e permanente de alastrar o Reino de Deus, para que todas as culturas, raças, etnias e religiões cheguem a ter o conhecimento da verdadeira face de Deus. Assim, Mateus mostra que a Igreja é missionária pela sua natureza, e uma Igreja que não a é, está traindo a sua natureza e identidade. Missão não é proselitismo, não é angariar novos adeptos para a Igreja - mas é continuar a missão de Jesus, cuja mensagem foi centrada na chegada do Reino de Deus. Assim, somos chamados a sairmos dos limites visíveis das nossas comunidades, para que, em diálogo profético com todas as pessoas da boa vontade, colaboremos para que o Reino de Deus - a vivência da vontade do Pai - se torne realidade no nosso mundo.

            Mateus não ignorava as dificuldades inerentes nessa missão. Cinquenta anos depois da Ascensão, a comunidade dele, perseguida e fraca, experimentava a tentação do desânimo. Por isso, Mateus insiste no elemento do futuro, que Jesus está e sempre estará com a comunidade dos discípulos. Por isso, não há porquê desanimar diante das inevitáveis incompreensões e dificuldades. Pois, como dizia Paulo, a partir da sua experiência prática de missionário, quando Deus está conosco, nada estará contra nós (Rm 8, 11).

A festa da Ascensão não celebra o afastamento de Jesus da sua comunidade; mas, ao contrário: celebra a sua presença de uma forma nova - na comunidade missionária dos discípulos. Domingo próximo, celebraremos um outro aspecto dessa nova presença, na Festa de Pentecostes.

 

SEXTO DOMINGO DE PÁSCOA (25.05.14)

Jo 14, 15-21

“Ele dará a vocês outro Advogado, para que permaneça com vocês para sempre”

 

            O texto dá início, dentro da primeira parte do Último Discurso de Jesus, à seção trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv.18-22) e ao Pai (vv. 23-24) - o tema de que, se guardarmos os mandamentos, cada personagem divina virá e habitará conosco.

O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade e ao Espírito Santo, especialmente no Último Discurso de Jesus. Neste trecho, se enfatiza a necessidade de guardar os mandamentos, para que possamos receber o dom do Espírito Santo. Aqui encontramos a primeira de duas promessas no capítulo da chegada do Paráclito, uma palavra grega que significava o que seria, em nossa linguagem, o advogado da defesa. Em diversos textos João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. Aqui o Espírito agirá como defensor dos discípulos diante dos ataques do mundo de incredulidade (lembremo-nos que na época do escrito, pelo fim do primeiro século da nossa era, a comunidade joanina estava sofrendo muitos ataques de diversas origens). Vale a pena notar aqui que o Espírito Santo será “outro Paráclito”, pois Jesus já tinha sido defensor dos discípulos durante a sua vida terrestre, e continuará a sê-lo no céu. O Espírito Santo será o Espírito da Verdade, ou seja, o Espírito que revelará ao mundo a verdade sobre Jesus, como Jesus já tinha feito, mostrando-nos a verdade sobre o Pai.

A partir do v. 18, como fez no início do capítulo 14, Jesus volta a consolar os seus discípulos, e a falar da sua volta. Só que aqui não se refere tanto à sua vinda na Parusia, ou a Segunda Vinda, mas uma volta espiritual, através de inhabitação divina em cada discípulo, uma presença real que fará com que os discípulos compreendam que Jesus e o Pai são um. Assim, os discípulos conhecerão a relação verdadeira entre Jesus e o Pai, e descobrirão que existe o mesmo relacionamento entre Jesus e eles próprios. De novo, põe-se a observância dos mandamentos como precondição para que aconteça essa presença, espiritual, mas, real. A observância dos mandamentos não é uma simples exigência legal, mas, a demonstração do amor dos discípulos para Jesus.

Atrás desse texto está o desejo do autor de fortalecer a fé da sua comunidade em tempos difíceis. Assim, tem muita relevância para a Igreja, a comunidade dos discípulos, hoje. Como então, às vezes, a nossa fé poderá vacilar diante de ataques, da perseguição ou até da indiferença do mundo. O texto procura renovar nos leitores a certeza da presença da Trindade no nosso meio - pois o Espírito nos dará força para que vençamos as dificuldades e sofrimentos que eventualmente poderão nos assolar, individual ou comunitariamente. Também, insiste na necessidade de criarmos uma comunidade de amor e solidariedade, para que a inhabitação divina em cada pessoa e na comunidade possa tornar-se uma força efetiva no fortalecimento da nossa fé, da nossa caminhada.

Lembremo-nos que no Quarto Evangelho o Grande Mandamento era de amarmo-nos uns aos outros, como Ele nos amou, ou seja, na doação de nós mesmos na luta de criar um mundo onde se vive o sonho de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e vida em abundância” (Jo 10, 10).

 

QUINTO DOMINGO DE PÁSCOA (18.05.14)

Jo 14, 1-12

“Credes em Deus; crede também em mim”

 

            O Evangelho de João inicia o tal chamado Último Discurso de Jesus, com o texto de hoje. Esses versículos - a primeira das três partes do discurso - contém a maioria das referências à partida iminente de Jesus; portanto é o trecho mais apropriado para o contexto da Última Ceia. A moldura do texto consiste em dois mandamentos fortes para acreditar em Deus e em Jesus (vv. 1.11). Novamente, cumpre lembrar que “crer” não é somente uma adesão mental, mas um compromisso de vida - uma atitude vivencial de seguimento de Jesus, no cumprimento da vontade do Pai.

            O primeiro tema do texto nasce da insegurança dos discípulos diante da partida iminente de Jesus e a perspectiva de serem entregues à sua própria sorte em um mundo hostil, o que ameaça a sua fidelidade e perseverança (14, 27 e 16, 6.20). Jesus demonstra que a sua partida não é um abandono, mas o início de uma união mais profunda com Ele e com o Pai, e que o Espírito Santo os defenderá contra as pressões do mundo incrédulo. Eles têm que alcançar uma fé concreta e firme em Jesus, o Filho encarnado, em que se manifesta a revelação suprema de Deus (5, 38; 8, 46-47). Jesus os reconforta com a promessa de Sua volta, quando Ele os reunirá a Ele. Aqui parece ter uma referência à parusia, a segunda vinda de Jesus, uma das poucas referências em João à chamada “escatologia final”. Mas, é importante que não se limite este retorno de Jesus aos últimos tempos - pois os verbos em v. 3 estão no futuro e no presente! Assim, o texto enfatiza a presença de Jesus na sua comunidade, a Igreja. De uma certa maneira, onde se vive a verdadeira comunidade do discipulado, aquilo que pertence ao futuro escatalógico já acontece.

            Tomé mostra que ele entende tão pouco de Jesus quanto as autoridades judaicas (sempre é bom lembrar que, em geral, quando o quarto Evangelho se refere aos “judeus”, está se referindo às autoridades do Templo e não o povo em geral). Jesus explica que Ele é o caminho ao Pai, pois Ele encarna a verdade sobre o Pai e dá a vida que vem do Pai aos seres humanos. Ele é a única fonte de conhecimento sobre o Pai. Para chegar ao Pai, é necessário um seguimento de Jesus mesmo. Ele não é somente um guia no caminho, mas, a fonte da vida e da verdade. As palavras de Jesus enfatizam a sua unidade total com o Pai - Ele o revela e nem as suas palavras nem as suas obras são d’Ele mesmo, mas nascem da Sua unidade com o Pai. Àqueles que creem será dado o dom de manifestar obras semelhantes e até maiores do que as do Filho. Não se trata de fenômenos assombrosos (tão queridos de muitos grupos fundamentalistas hoje), mas do testemunho dos discípulos, animados pela presença do Espírito, para que o mundo creia em Jesus. A maior obra será a criação de uma comunidade alternativa de amor e justiça - a Igreja - fiel ao seguimento radical de Jesus. Estes versículos nos convidam a um profundo exame de consciência sobre a nossa maneira de vivenciar a Igreja - tantas vezes simplesmente uma conglomeração de pessoas, sem partilha, sem solidariedade, sem testemunho profético diante do mundo de classes, de consumismo, de materialismo. Enfatiza a necessidade de recuperarmos a base mística da nossa fé, o seu fundamento. Sem esta intimidade com Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida, as Igrejas facilmente tornam-se grupos unidos por uma crença, uma lei, uma ética, mas não por uma experiência profunda do Deus da vida, manifestado em Jesus Cristo, e nem pela visão que impulsiona Jesus - O Reino de Deus. Para que isso aconteça, o texto enfatiza a necessidade da oração em nome de Jesus, que vai atender a nossa prece (somente em João é Jesus que nos atende - normalmente nos Evangelhos é o Pai que nos atende através da intercessão de Jesus).

            O texto vai continuar com uma reflexão trinitária, onde o mesmo tema é aplicado ao Espírito (vv. 15-17), a Jesus (vv. 18-22) e ao Pai (vv. 23-24) - o tema é de que a pessoa divina virá e habitará em nós, se obedecermos aos mandamentos.

            O texto nasceu na comunidade do Discípulo Amado, em uma época de incertezas e dúvidas. Hoje em dia a nossa Igreja passa por muitas incertezas, dúvidas e até às vezes parece balançar. Diante dos questionamentos (até benéficos, na verdade), dúvidas e para ser sincero, escândalos, que frequentemente nos abalam, vale a mensagem central do texto, a certeza da presença de Jesus Ressuscitado entre nós, Ele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

 

QUARTO DOMINGO DE PÁSCOA (11.05.14)

Jo 10, 1-10

“Eu vim para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”

 

            O texto de hoje manifesta claramente o ambiente pastoril da Palestina no tempo de Jesus. Os versículos estão carregados de imagens tiradas da vida dos pastores, imagens rurais que talvez sejam difíceis de serem bem compreendidas no ambiente urbano de hoje. Porém, a mensagem básica permanece clara, e é de valor perene.

            Podemos dividir o texto em duas grandes partes. Versículos 1-5 e vv. 6-10. Alguns exegetas acham duas parábolas separadas nos vv. 1-5: os primeiros três versículos fazem contraste entre duas maneiras de se aproximar às ovelhas. Quem não entra pela porta é maléfico. Os vv. 3b-5 têm como enfoque o relacionamento entre a ovelha e o pastor. Elas só respondem à voz do seu verdadeiro pastor. No contexto do Evangelho, fica claro que aqui se contém uma advertência contra o perigo de responder aos ensinamentos dos fariseus, que João apresenta como falsos mestres. Podemos atualizar essa advertência para os dias de hoje!

            É claro que também aqui temos ecos do Capítulo 34 de Ezequiel, que castigava os líderes do povo de Israel como maus pastores, que se engordavam às custas do povo. Assim, as ovelhas estavam dispersas como ovelhas sem pastor (Ez 34, 1-10). Nesse capítulo, o Senhor promete que vai reunir as suas ovelhas dispersas e conduzi-las às boas pastagens (34, 11-16). O nosso texto faz compreender que Jesus é o instrumento desta missão de Javé, retratada em Ezequiel, pois é ele o verdadeiro Bom Pastor.

            A segunda parte, 10, 7-10, usa as metáforas da porta e do bom pastor. Jesus é a porta do aprisco, e também o bom pastor. João quer insistir que Jesus é a única fonte de salvação. Os que vieram antes dele, provavelmente uma referência aos mestres judaicos e às suas tradições, são rejeitados. É Jesus que veio para que todos tivessem a vida plena.

            Aqui é necessário insistir que a missão de Jesus era trazer a vida para todos - não para alguns - e a vida plena, não uma suposta “vida espiritual”. Vida plena, em abundância, exige tanto os bens materiais necessários para uma vida digna, como os bens espirituais. O mundo de hoje, movido pelo consumismo e materialismo, limita a realização humana ao “ter”, enquanto uma religiosidade alienada - muito comum hoje em todas as Igrejas - faz com que os cristãos se omitam, restringindo a “vida em abundância” para depois da morte. O seguimento do Bom Pastor nos coloca em choque com a sociedade vigente excludente e com a religião alienante. O texto impede que nós nos refugiemos em uma interpretação espiritualista, oferecendo uma vida plena após a morte, pois o Reino de Deus que Jesus anuncia já está no meio de nós (Mc 1, 14-15), mesmo que a sua realização plena só acontece no além. O v. 11 nos manifesta o preço a ser pago por ser bom pastor! Jesus afirma que “o bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas” (v. 11). Enquanto o mercenário sacrifica as suas ovelhas ao seu interesse, o bom pastor entrega a sua vida até à morte para que os outros vivam.

            As imagens do texto são por demais conhecidas. Todos nós conhecemos estampas mostrando Jesus como o Bom Pastor. Cumpre assumir a continuidade da sua missão, entregando a nossa vida na luta diária para a criação de uma sociedade mais justa e humana - portanto divina - pois, só assim seremos fiéis àquele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância”.

 

TERCEIRO DOMINGO DE PÁSCOA (04.05.14)

Lc 24, 13-35

“Reconheceram Jesus quando ele repartiu o pão”

 

            Talvez, um dos relatos mais conhecidos de Lucas seja a história dos dois discípulos na estrada de Emaús. Nas figuras dos discípulos temos um retrato das comunidades lucanas pelo ano 85 - vacilando na fé, descrentes, desanimadas, sem sentir a presença do Ressuscitado. Lucas procura reanimar o seu pessoal, mostrando que eles não estão abandonados - muito pelo contrário, estão caminhando na vida contando com a presença do Senhor que venceu a morte.

            Esta história pode nos ajudar bastante hoje, pois retrata a situação de muitos cristãos e comunidades nos tempos atuais - acreditam em Jesus intelectualmente, mas não vibram com a presença d’Ele no meio de nós; reduzem a fé à uma adesão intelectual aos dogmas, sem que seja algo que dê sentido à vida e à caminhada; limitam o seguimento de Jesus à uma série de práticas e leis morais, mas sem qualquer vigor missionário. O nosso texto nos ajudará a ver como a Palavra de Deus na Bíblia pode nos ajudar a interpretar a nossa realidade para que, em lugar de perder o ânimo, nos tornemos vibrantes discípulos-missionários/as do Senhor. Jesus é o mestre da Bíblia e aqui Ele demonstra como aproveitar a Escritura para iluminar os problemas práticos da nossa caminhada, e reforçar a coragem na nossa missão de evangelizadores.

            O que temos aqui é realmente um pequeno drama em cinco atos - um drama que nos mostra a pedagogia de Jesus. Vejamos mais de perto:

 

            O Primeiro ato: vv. 13 -19a: “Introdução”

 

            O relato começa com as palavras “nesse mesmo dia”. Devemos já fazer uma parada e nos perguntar “que dia”? Para nós, seria o dia da Ressurreição, mas para os dois discípulos era simplesmente o terceiro dia da morte de Jesus! Dia de desânimo, de tristeza. “Os dois iam para um povoado chamado Emaús, distante onze quilômetros de Jerusalém”. Aqui é bom lembrar que o bom judeu não podia caminhar mais do que um quilômetro no dia de sábado. Portanto, era impossível que eles viajassem no dia anterior. Domingo é a sua primeira oportunidade para sair de Jerusalém, e aproveitaram bem - já estão voltando para a sua casa, desiludidos e decepcionados e sem perspectivas. A cena começa com a desintegração da comunidade cristã. Tudo acabou, a comunidade se dispersa, não há nem alegria nem esperança.

            Quem eram eles? Sabemos do relato que um se chamava Cléofas! E o outro? O Evangelho de João nos conta que a irmã de Maria, mãe do Senhor, chamada Maria de Cléofas, estava junto à cruz (Jo 19, 25). Não seria demais acreditar que os dois discípulos eram o casal, Cléofas e a sua esposa, voltando depois da peregrinação pascal à Jerusalém. Nunca saberemos com certeza, mas, é uma hipótese agradável e possível. Pois, sendo assim, a descoberta da presença do Ressuscitado dar-se-á no lar e não em uma hospedaria anônima. Seria bem de acordo com a valorização na obra de Lucas da Igreja Doméstica, a Igreja que se reuniu nas casas, como tantas Igrejas vivas de hoje.

            De repente, no caminho surge Jesus, sem que seja reconhecido. Com isso, Lucas quer dizer que o Ressuscitado não é um defunto que voltou a viver - tem uma nova maneira de ser, um corpo glorificado. É importante notar como Jesus se comporta, através dos verbos que Lucas usa. Ele “aproximou-se”, “caminhou com eles” e “perguntou”. Ele não veio “dando de dedo”, nem dando explicações bíblicas. Ele criou um ambiente de fraternidade onde fosse possível explicar tanto a vida como a Bíblia! Quantas vezes isso falta em nossos grupos, nossas comunidades - não nos aproximamos uns aos outros, mantemos distância! Não caminhamos juntos, queremos dar soluções sem conhecer a realidade dos nossos irmãos e irmãs! Por isso mesmo muitas vezes não têm efeito as nossas reuniões, os nossos encontros bíblicos.

            O “ato” termina com a pergunta d’Ele: “O que é que vocês andaram discutindo pelo caminho” (v. 17), ou seja, ele dá uma oportunidade para que eles exponham a sua realidade, sem julgamento, sem moralismo. Ele parte da realidade dos dois.

 

            Segundo Ato: vv 19b -24: “Os Discípulos falam”

 

            Diante da oportunidade de explicitar a sua realidade, Cléofas não titubeia. Ele expõe com clareza a sua situação. Diante da morte de Jesus ele frisa uma coisa importante: “Nós esperávamos que Ele fosse o libertador de Israel” (v. 21). Eles “esperavam”, portanto, não esperam mais nada. Aqui ressoam traços de decepção, desilusão, desânimo, até de uma certa revolta contra Jesus, pois todas as suas esperanças tinham sido desfeitas. Os sentimentos deles vão muito além de uma simples tristeza!

            É importante notar também que Lucas explicita bem quem foi quem matou Jesus - não foi o povo, mas, grupos de interesse bem definidos: “Nossos chefes dos sacerdotes e nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte, e o crucificaram” (v. 20). Para não reduzir a morte de Jesus a uma fatalidade qualquer ou a algo desejado pelo Pai, é necessário examinar mais profundamente esta afirmação do Cléofas. Jesus foi morto, assassinado judicialmente pelos “chefes dos sacerdotes” - um grupo de sacerdotes do partido aristocrático e conservador dos saduceus, que dominava o comércio do Templo, lucrando muito com a exploração do povo através da religião, e que viu a sua hegemonia ameaçada pela pregação e profetismo de Jesus. Também foi morto pelos “chefes” ou “magistrados”, ou seja, os membros do Sinédrio, o órgão do governo interno do povo judaico de Palestina, na maioria pertencentes ao partido elitista dos saduceus (não dos fariseus), colaboradores com o poder romano, lucrando bastante com isso. Então Jesus foi morto não por acaso, mas para defender os privilégios da elite dominante! A cruz era a consequência lógica da vida de Jesus, da sua mensagem e atuação, que ameaçavam os privilégios das elites!

            Outro elemento importante é o fato de que os dois sabiam do túmulo vazio - dois dos apóstolos já tinham verificado a história das mulheres. Mas, isso não dizia nada para eles! Aqui se destaca que a nossa fé não se baseia num túmulo vazio! É a nossa fé na Ressurreição que explica porque o túmulo estava vazio e não o túmulo que dá consistência à nossa fé!

 

            Terceiro Ato: vv. 25-27: A Bíblia

 

            Agora, e só agora, depois de ter criado o ambiente e escutado a realidade é que Jesus usa a Escritura. Ele frisa que eles “custam para entender e demoram para acreditar em tudo o que os profetas falaram” (v. 25). Notemos bem - não custaram para “saber”, mas para “entender e acreditar”. Pois eram judeus piedosos, que, mesmo sendo analfabetos, conheciam muito bem os salmos e as profecias. O seu problema era que, embora conhecessem o livro da Bíblia, e também o livro da vida, eles não conseguiam ligar as duas coisas. Então Jesus “explica” as Escrituras - isto é, Ele não dá uma aula de exegese, mas, faz a ligação entre a vida deles e a Bíblia, iluminando a realidade deles com a Palavra de Deus!

 

            Quarto Ato: vv. 28-32: A Partilha

 

            Chegando em Emaús, os discípulos convidam Jesus para entrar a e jantar com eles. Se realmente se trata de um casal, então seria entrar na casa deles, no aconchego do lar deles, e não em uma hospedaria, como normalmente a gente supõe. Aqui temos o ponto central da história - pois, até agora a explicação bíblica, por tão bonita que pudesse ter sido, não mudou a vida deles. Mas, agora sim. Jesus se põe à mesa e: “tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles” (v. 30). De propósito, Lucas usa as palavras que recordam a Última Ceia. É a experiência da partilha, da comunidade! Agora, o milagre acontece: “Nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus” (v. 31). Neste mesmo momento Jesus desaparece da frente deles! Por quê? Porquê, uma vez feita a experiência da presença do Ressuscitado no meio deles, eles não precisavam mais da “muleta” da sua presença física.

Agora eles caem dentro de si e reconhecem que: “Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?” (v. 32). A Bíblia é capaz de fazer “arder o coração”, mas, para “abrir os olhos” é necessário também a experiência de comunidade, de celebração, de partilha!

 

Quinto Ato: vv 33-36: A Missão

 

Se a história terminasse aqui, seria a história de uma experiência bonita feita por duas pessoas. Isso não basta. Tal experiência da presença do Senhor Ressuscitado exige a formação de uma comunidade fraterna de vida. Discipulado e missão. Os mesmos dois que de manhã fugiam de Jerusalém, pois era o lugar da morte, da perseguição e do fracasso, de tarde se põem no caminho de volta! O que mudou em Jerusalém durante o dia? Nada! Continua sendo o lugar de perigo, de morte, de perseguição. Mas, mudou a cabeça dos dois. Em lugar de uma fé pré-pascal, eles agora têm uma fé pós-pascal. Em lugar de desânimo, há entusiasmo e coragem, pois experimentaram a presença de Jesus Ressuscitado. A história que começou com a comunidade se desintegrando termina com a comunidade se reintegrando, se unindo, na paz e na alegria, pois, os discípulos puderam confirmar: “Realmente o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão” (v. 34). E os dois de Emaús puderam contar “o que tinha acontecido no caminho, e como tinham reconhecido Jesus quando Ele partiu o pão” (v. 36).

Esta história pode servir para nós como paradigma de um círculo bíblico, grupo de reflexão, ou seja qual for o nome que nós damos às nossas pequenas comunidades. Jesus liga quatro elementos essenciais - a realidade, a Bíblia, a celebração partilhada e a comunidade. É na união entre estes elementos que se revela a presença do Ressuscitado e a vontade de Deus. É na interação destes aspectos da vida cristã que a Bíblia se torna: “Lâmpada para os meus pés, e luz para o meu caminho” (Sl 119, 105). Procuremos unir estes elementos nas nossas reuniões e encontros, e descobriremos como se concretiza o desejo do Salmista: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz” (Sl 95,7)

SEGUNDO DOMINGO DA PÁSCOA (27.04.14)

Jo 20, 19-31

“A Paz Esteja Com Vocês”

 

            No texto anterior ao de hoje, a Maria Madalena traz a notícia da Ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa nas suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas, somente a alegria e a paz que Ele já tinha prometido no último discurso. Duas vezes Jesus proclama o seu desejo para a comunidade dos seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O nosso termo “paz” procura traduzir – embora de uma maneira inadequada – o termo hebraico “Shalom”, que é muito mais do que “paz” conforme o nosso mundo a compreende. O “Shalom” é a paz que vem da presença de Deus, da justiça do Reino. O SHALOM pode ser definido como “o bem-estar total para todos/as - é tudo o que Deus deseja para os seus filhos e filhas. Não pode existir sem fraternidade, solidariedade e justiça social em todos os níveis. Jesus não promete a paz do comodismo, mas, pelo contrário, envia os seus discípulos na missão árdua em favor do Reino, mas promete o Shalom, pois Ele nunca abandonará quem procura viver na fidelidade ao projeto de Deus.

            Jesus soprou sobre os discípulos, como Deus fez (é o mesmo termo) sobre Adão, quando infundiu nele o espírito de vida. Jesus recria os discípulos com o Espírito Santo. Normalmente, imaginamos o Espírito Santo descendo sobre os discípulos nos eventos de Pentecostes; mas aquilo, na Escritura, era a descida oficial e pública do Espírito para dirigir a missão da Igreja no mundo. Para João, o dom do Espírito, que da sua natureza é invisível, flui da glorificação de Jesus, da sua volta ao Pai. O dom do Espírito neste texto tem a ver com o perdão dos pecados.

Mais uma vez, num domingo, Jesus aparece aos discípulos (notem a ênfase sobre o Domingo – duas vezes). Esta vez, Tomé está presente. Ele representa os discípulos da comunidade joanina do fim do século primeiro, que estavam vacilando na sua fé no Ressuscitado, diante dos sofrimentos e tribulações da vida. Assim, nos representa, quando nós vacilamos e duvidamos. Jesus nos fortalece com as palavras “Felizes os que acreditaram sem ter visto!” Assim muitas vezes será a realidade da nossa fé – acreditar contra todas as aparências que o bem é mais forte do que o mal, a vida do que a morte! Somente uma fé profunda e uma experiência da presença do Ressuscitado poderão nos dar essa firmeza.

            Tomé confessa Jesus nas palavras que o Salmista usa para Javé (Sl 35, 23). No primeiro capítulo do Evangelho de João (Jo 1, 29.34.36.38.41.45.49.51), os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicaram um conhecimento crescente de quem Ele era; aqui Tomé lhe dá o título final e definitivo – Jesus é Senhor e Deus!

Nessa proclamação triunfante da divindade de Jesus, o Evangelho original terminava (o Capítulo 21 é um epílogo, adicionado mais tarde). No início, João nos informou que “o Verbo era Deus”. Agora, ele repete essa afirmação e abençoa todos os que a aceitam com base na fé! A meta do Evangelho foi alcançada – mostrar a divindade de Jesus, o Verbo que se fez carne e habitou entre nós, para que, acreditando, todos pudessem ter a vida n’Ele.

 

DOMINGO DE PÁSCOA (20.04.14)

Jo 20, 1-9

“Ele viu e acreditou”

 

            Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com as suas tradições. Mas, certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, que as primeiras testemunhas foram as mulheres (embora divirjam quanto ao seu número e identidade e o motivo da sua ida ao túmulo - para ungir o corpo, ou para vigiar e lamentar), e de que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus, e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela! Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição – e a Igreja sofre até hoje as consequências.

            Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a Ressurreição. Para os e as discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato que todos os Doze traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Nesse meio, chega a Maria e as mulheres com a notícia de que o túmulo estava vazio.

No nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente um dos doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois, o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no Capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde Capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, penetra além das aparências!

            Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada em um túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário - e a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio! Cuidemos de não procurar bases falsas para a nossa fé no Ressuscitado!

Hoje em dia, quando olhamos para o mundo ao nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça - guerra, violência, corrupção endêmica, saúde e educação sucateadas, destruição desenfreada do meio-ambiente, sem falar de desastres naturais com terremotos e tsunamis! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado!

Nós todos somos discípulos amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Rm 8); mas, será que somos discípulos que amam? Será que amamos a Jesus e ao próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto pelo evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros”(1Jo 4, 10-11).

Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força, especialmente quando a Cruz pesar muito em nossas vidas!

 

DOMINGO DE RAMOS (13.04.14)

Mt 21, 1-12; Mt 26,14 – 27, 66

Bendito aquele que vem em nome do Senhor!

 

Neste primeiro dia da Semana Santa, na tradição católica no Brasil com certeza não há comunidade que não celebra, com muito entusiasmo, a comemoração da entrada de Jesus em Jerusalém. Organizam-se procissões e encenações, e quase todos fazem questão de levar alguns ramos bentos para a casa.

            Porém, é muito importante resgatar o verdadeiro sentido da entrada de Jesus em Jerusalém, para que possamos celebrar a festa com mais profundidade. O próprio Evangelho de Mateus nos dá uma dica, quando em v. 5 cita o profeta Zacarias. Pois Jesus, escolhendo entrar na capital desta maneira, estava fazendo uma releitura de Zacarias 9, 9-10. O profeta (conhecido como Segundo Zacarias, pois capítulos 9-14 do livro são pós-exílicos) vivia em uma situação de grande opressão e pobreza, quando a Palestina e o seu povo eram dominados pelo Imperialismo Grego, ou helenista, depois de Alexandre Magno. O profeta procura animar o seu povo oprimido e manter viva a chama de resistência através da esperança na chegada de um Messias, que teria três grandes características: seria rei (9, 9-10), bom pastor (11, 4-17) e “transpassado” (12, 9-14). Portanto, quando Jesus e os seus discípulos fizeram a sua entrada em Jerusalém, era uma maneira forte de proclamar a chegada do Messias, do Rei esperado pelos pobres de Javé.

            Mas o rei proclamado por Zacarias e concretizado em Jesus era bem diferente dos reis dos países de então. Enquanto estes faziam questão de apresentar-se publicamente com toda a pompa, montados sobre cavalos imponentes, o rei previsto por Zacarias iria entrar em Jerusalém montando um jumento – o animal do pequeno agricultor. Pois, o seu reino seria, não de dominação, opulência e opressão, mas de paz, de justiça e de solidariedade: “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém; quebrará o arco de guerra. Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar” (Zc 9, 9).

            Devia ter acontecido mais cedo neste dia uma entrada triunfal e pomposa em Jerusalém pela Porta Ocidental – a chegada de Pilatos acompanhado por um coorte de legionários romanos, com bandas, armas brilhantes, lanças e espada e provavlemente com o Governador montado num cavalo de raça, para demonstrar o seu poderio – o poder do Império. A entrada em Jerusalém de Jesus, à tarde e pela porta Oriental, era verdadeiramente uma entrada triunfal – mas do triunfo de Deus, do Messias dos pobres e justos, e uma viravolta nos valores da sociedade. Era a rejeição dos valores opressores dos Reinos mundanos, a celebração de Javé, o libertador, que “ouve o clamor dos pobres e sofridos” (Êx 3, 7). Celebrar a memória deste evento no Domingo de Ramos deve nos levar a um cumpromisso maior com a construção de um mundo de paz verdadeira, fruto de justiça, partilha e solidariedade. Assim, nos empolgaremos na defesa da vida de todos os irmãos e irmãs e a do nosso Planeta. Quando falamos da entrada triunfal, lembremo-nos que é o triunfo da fraqueza de Deus, da Cruz, do projeto do Reino, pois como disse Paulo, “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25).

Cuidemos de não transformar a celebração litúrgica em um folclore, glorificando o poder e a dominação, fazendo o que fizeram em Jerusalém, conforme o hino “Queriam um grande Rei que fosse forte, dominador e por isso não creram n’Ele e mataram o Salvador”. A celebração de Domingo de Ramos é realmente uma celebração da vitória, mas da vitória que vem da fidelidade ao projeto de Deus, no seguimento de Jesus, até a Cruz e a Ressurreição. Evitemos criar uma caricatura de Jesus como Rei poderoso, conforme os padrões da nossa sociedade, e procuremos recuperar a finalidade da ação profética de Jesus – reacender a esperança dos excluídos, marginalizados, pobres e oprimidos, assumindo cada vez mais ações concretas na luta contra quaisquer formas de expoloração e tráfico humano, na busca da construção da sociedade que Deus sonha, vivendo os valores do Reino.

 

QUINTO DOMINGO DE QUARESMA (06.04.14)

Jo 11, 1-45

“Eu sou a Ressurreição e a Vida”

 

            Para entender melhor este texto, temos que situá-lo no seu contexto dentro do Quarto Evangelho, o do Discípulo Amado. Cumpre lembrar a divisão literária e teológica deste Evangelho. Nele os primeiros onze capítulos formam o que é normalmente intitulado “O Livros dos Sinais” ou seja, relatam sete sinais (tradução melhor do que “milagres”) operados por Jesus. Um sinal aponta para algo mais além, e os sinais relatados por João apontam para uma realidade mais profunda – eles revelam algo mais profundo sobre a pessoa e missão de Jesus. São: a mudança de água em vinho em Caná (2, 1-11), a cura do filho de um funcionário real (4, 46-54), a cura do paralítico em Betesda (5, 1-18), a partilha de pães (6, 1-15), caminhar sobre as águas (6, 16-21), a cura do cego de nascença (9, 1-41), e o sinal culminante, a Ressurreição de Lázaro (11, 1-45) - o texto de hoje. Como bloco, formam o Livro dos Sinais, preparação para Capítulos 13-20, O Livro da Glorificação.

Portanto, devemos sempre ter presente que o relato de um sinal sempre quer revelar algo sobre Jesus, algo que vai além daquilo que é imediatamente óbvio. Diferente dos milagres em Marcos, onde não se faz milagre a não ser que já se tem fé em Jesus, os sinais em João revelam uma verdade sobre Jesus e levam as pessoas a aprofundar a sua fé n’Ele. Assim, no texto de hoje não devemos centralizarmo-nos sobre a pessoa de Lázaro, ou sobre os pormenores da história, mas descobrir o que João quer dizer sobre a pessoa de Jesus e a sua missão, através do texto.

Talvez possamos dizer que o centro do relato se encontra nos versículos 21-27. Partindo da fé na ressurreição dos mortos, já corrente desde o tempo dos Macabeus entre as camadas populares do judaísmo, mas rejeitada pela classe dominante dos saduceus, João tece um diálogo entre Jesus e Marta, que culmina com a declaração que a Ressurreição e a vida acontecem através da fé n’Ele, o Enviado de Deus, que veio para que todos tivessem plena vida, dando a sua vida para que isso acontecesse (Jo 10, 10-11). Vale a pena notar que, no Evangelho de João, a primeira pessoa a professar fé no messianismo divino de Jesus é uma mulher, Marta. Nos Sinóticos, isso cabe a Pedro (Mc 8, 29). Como a cegueira do cego de nascença servia para que a glória de Deus fosse revelada através da sua cura, revelando Jesus como Luz do mundo (Jo 9, 3-5), a morte de Lázaro serve para revelar Jesus como Ressurreição e Vida (11, 25-27).

Mas, Jesus traz esta Vida para todos, através da entrega da sua própria vida. Pois, o relato de João enfatiza que Ele dará a sua vida para que todos tenham a vida eterna, colocando na boca do Sumo Sacerdote a frase famosa: “É melhor um homem morrer pelo povo do que a nação toda perecer” (11, 50). A libertação total que Jesus trouxe não acontece sem que Ele se esbarre contra os interesses dos poderosos da sociedade que procurarão conter esta libertação, matando-o. É a maneira joanina de dizer a verdade que Marcos sublinha quando ele faz Jesus dizer “se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga me” (Mc 8, 34). A verdadeira vida exige luta contra tudo que é de morte, de dominação, de exploração, de exclusão.

Vale notar que, no fim da história, Lázaro é desatado dos panos e sudário – pois ele vai precisá-los de novo, passando pela morte! A Ressurreição de Jesus, que logo celebraremos, é diferente. Cap. 20 de João faz questão de mencionar que, quando os discípulos entram no túmulo vazio, eles veem o sudário e os panos no chão – pois Jesus não foi simplesmente ressuscitado, voltando à vida anterior, mas passou pela ressurreição, para a vida definitiva! O que aconteceu com Lázaro simplesmente prefigura o que aconteceria com Jesus de uma maneira definitiva, e, por conseguinte, a todos nós.

Que a nossa fé n’Aquele que é “a Ressurreição e a Vida”, que veio “para que todos tenham vida e a vida plena” nos leve, não à religião intimista e individualista, mas a um engajamento na construção do mundo que Deus quer, o mundo da verdadeira “Shalom” – um conceito que vai muito além do sentido do termo Português “paz”, para indicar a plenitude do bem-estar, tudo que Deus deseja para todos os seus filhos e filhas, incluindo um profundo respeito para todos os seres humanos, como nos lembra a Campanha da Fraternidade deste ano sobre o Tráfico Humano.

Pe. Tomaz Hughes, SVD

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NB - Texto revisado: acentuação, pontuação, regência verbal, gramática, maiúsculas/minúsculas, digitação, aspas, parênteses, barra de espaço... já tendo incorporado a nova ortografia. Não mexi nas ideias teológicas do Padre Hughes que, na minha visão, são ótimas; mas, mudei algumas palavras para melhor expressar o que ele queria dizer. Solicito que o texto seja multiplicado pela internet e pela mídia impressa e eletrônica.

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Máikol, revisor do texto

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