QUARTO DOMINGO DE QUARESMA

Jo 9, 1-41: “Eu sou a luz do mundo”

Continuando a série de leituras evangélicas que procuram ensinar verdades sobre a pessoa e a missão de Jesus durante a Quaresma, o texto de hoje é mais uma vez um texto comprido, um capitulo inteiro, tirado do Evangelho de João. Como no Domingo passado (A Samaritana), mais uma vez encontramos traços característicos do Quarto Evangelho – o uso de dualismo, como luz/escuridão, cegueira/visão, de símbolos, de ironia e de mal-entendidos. Tudo para proclamar a fé da comunidade joanina que Jesus era “a luz do mundo”(v.5).
O texto nos traz o único relato no Novo Testamento da cura dum cego de nascença. Agostinho via na cegueira uma referência ao pecado original, e na passagem da cegueira à visão, o símbolo da passagem da incredulidade e da morte à fé e à vida. Assim, o cego curado simboliza todos os que chegam à plenitude da fé pelo batismo.
Usando a sua característica de jogo de palavras, o autor do Quarto Evangelho enfatiza o nome da piscina onde ocorre a cura – Silóe, que significa “enviado”. Em mais uma alusão à liturgia batismal, João insiste que a cura da cegueira mortal ocorre através de Jesus – O Enviado do Pai. Na arte das catacumbas, a cura do cego simboliza o batismo.
Analisando as etapas do texto, podemos encontrar um aprofundamento na fé do cego, através de três interrogatórios. Ele é interrogado pelos vizinhos (vv. 8-12), pelos fariseus (vv. 13-34) e pelo próprio Jesus (vv. 35-41). A cada passo ele aprofunda o seu conhecimento de Jesus. Aos vizinhos ele responde que Jesus é simplesmente um homem. Diante dos fariseus, ele reconhece que Jesus é um profeta. No diálogo com Jesus ele chega a proclamar que Jesus é o Filho do Homem, a grande figura messiânica do Livro de Daniel e do livro apócrifo de Enoc, ou seja, o Enviado de Deus.
A historia reflete algo da situação da comunidade joanina, pelo fim do primeiro século. Pois no tempo de Jesus ninguém era expulso da comunidade judaica por acreditar no seu messianismo. Isso acontecia após 85 a.C., com a reconstituição do judaísmo, na sua forma farisaica e rabínica, após a destruição de Jerusalém. Por isso, a confissão da sua fé em Jesus custa ao curado a perseguição, situação vivida pela comunidade joanina. Mas, se custou a expulsão da comunidade judaica, também lhe trouxe a verdadeira luz da vida, a vida plena em Jesus.
O último parágrafo usa a ironia, tipicamente joanina. Os fariseus perguntam cinicamente a Jesus, se ele os considera cegos. Ele retruca que a situação deles é muito pior – não é que não possam ver, é que não querem ver! A história iniciou-se com uma declaração, contrariando opiniões de muitos mestres da Lei daquela época, que a cegueira física não é causada pelo pecado (v.3). Termina afirmando que a cegueira pior, a espiritual, realmente é conseqüência do pecado. A missão de Jesus no mundo causa uma inversão de situações: os que estão cegos e que chegam à fé, são curados e recebem a revelação da Luz do mundo, enquanto aqueles que se ufanam de ser os esclarecidos, se fecham nos seus sistemas religiosos e ideológicos, mergulhando-se cada vez mais na trevas e na perdição.
Quanta cegueira em nosso mundo, diante de situações cada vez mais gritantes da exclusão e sofrimento! Basta ver a nossa indiferença, durante séculos e hoje ainda, diante da situação das massas excluídas e marginalizadas. Quantas vezes a fé em Jesus é proclamada como se fosse somente uma série de dogmas, em lugar do seguimento daquele que é “Luz do Mundo”. O nosso encontro com O Enviado tem que iluminar os olhos da nossa mente e espírito, para que vejamos o mundo com os olhos de Jesus, e tornemos a nossa fé uma vivência da mística do seguimento dele, continuando a missão de Jesus que disse “enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”.

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