Hélio 2017

 

Hélio Pinheiro da Cunha

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Bairro Grã-Duquesa
Governador Valadares-MG
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Estórias / Histórias (Livro)

Orelha da 1ª Capa
Natural de Capela Nova - Minas Gerais. Nasceu aos 12/06/40. Ingresso na Sociedade de São Vicente de Paulo - 26/02/1958, através da Conferência de São Sebastião em Barbacena - Minas Gerais. Funções Vicentinas - Diversas em Conselhos, Conferências e Obras Unidas. Conferências de que participa - Santo Antônio e São Lucas, ambas do Conselho Particular de Santo Antônio, área do Conselho Central de Governador Valadares e Metropolitano de Governador Valadares. Casado com a consócia Lêda Francisca Hespanhol Cunha - Quatro filhas - Eliane, Dayse, Denyse e Maria. Vovô coruja para os netos: Maria Eduarda, Valentina e Henrique e os agregados à Família: Romilda, Arnaldo, Alexsandro e Fábio. Muito feliz com os inúmeros outros agregados que participam da Família Cunha. Responsável por duas seções no Boletim Brasileiro da Sociedade de São Vicente de Paulo - Dicas Vicentinas e Por Via de Regra. Consultor do DENOR e integrante do Conselho de Ética no Conselho Nacional do Brasil. Secretário do DENOR do Conselho Metropolitano de Governador Valadares. Escreveu para a Revista Vicentina Adoremos e os artigos deste livro, foram por ela publicados. Formação - Técnico em Contabilidade e Bacharel em Direito. Lançou em 2013 o livro Dicas Vicentinas. Membro da Academia Valadarense de Letras - Patrono: Guilherme de Almeida.

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Prefácio
Acabo de me tornar a leitora de nº 54 dos artigos do confrade Helio Pinheiro da Cunha. Com um estilo moderno e cômico, o autor narra fatos ocorridos em sua vida pessoal, profissional e vicentina que nos leva a ensinamentos profundos dentro da Sociedade de São Vicente de Paulo. E como isto aconteceu?

Particularmente me sinto privilegiada por estar diariamente ao lado deste prezado escritor. E eis que repente entre uma conversa de amigos, no almoço de domingo com os familiares, em uma visita ao assistido, em plena Santa Missa do Senhor ou num passeio com os netos, o faceiro “HPC”, como alguns o chamam, retira do seu bolso a sua inseparável caneta e com um pedaço de papel realiza pequenas anotações, entre sorrisos nos lábios, para a curiosidade daqueles que estão à sua volta. Retorna aos seus afazeres, sabendo que no mais tardar estar à frente de seu computador (grande aliado e ao mesmo tempo o seu grande quebra cabeça da modernidade), se deleitando com suas anotações e produzindo preciosas reflexões, precauções e por que não dizer, o “ABC Vicentino!”.

Helio é o quarto filho de um grupo de seis homens, criado por pais rigorosos e amorosos que prezavam por uma educação de valores cristãos e humanitários. Ainda jovem, foi “convocado” pelo seu pai Octorgamis, a frequentar juntamente com os seus irmãos, a Conferência de São Sebastião na cidade de Barbacena. E lá se foi o pequeno cidadão, ladeado dos seus, (sendo que o pai trajando terno, gravata e chapéu, vestimenta da época), assistir uma reunião Vicentina destinada apenas para os homens. Acredito que a experiência daquele dia foi o marco da vida do referido autor; que se dispôs ao novo, ao inesperado e por que não dizer ao encontro com o menos favorecido. Fato é que apenas ele ficou nas fileiras Vicentinas; provavelmente por outra grande experiência que teve ainda bebê junto com São Vicente de Paulo e que deixo de suspense, talvez para os seus próximos livros.

Este livro chega até você, tocando-lhe o coração e o compromisso com a Sociedade de São Vicente de Paulo.

Boa leitura. Bom aprendizado.
Dayse Hespanhol da CunhaFelix
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Sumário
1. A árvore

2. A festa

3. A imagem

4. A leitura

5. A palavra

6. A ponte

7. Aborrecimentos

8. Acolhimento

9. Alternativas

10. Aparências

11. Cartas

12. As comunidades

13. Homenagens

14. As perdas

15. As tlocas

16. Avanços

17. Barrados

18. Cálculos

19. Cautelas

20. Sem Santos

21. Comendas

22. Competência

23. Contrastes

24. De morro abaixo

25. Delongas

26. Devoções

27. Discursos

28. Escalas

29. Esquecimentos

30. Exageros

31. Foguetes

32. Imagens

33. Imprudências

34. Comportamentos

35. Lutas

36. Modéstia

37. Música

38. Negativas

39. O disco

40. Olhares

41. Os desaparecidos

42. Os Geraldos

43. Participação

44. Sinceridade

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1. A árvore
Um velho amigo já gozando da bem aventurança eterna com os anjos e santos de Deus residia num sítio à beira da rodovia federal.

Vez por outra, os agentes da polícia iam até à residência dele, seja para utilizarem o banheiro ou tomarem uma água. Sempre acolhidos com muita gentileza, o conhecimento transformou-se em camaradagem.

Lá um belo dia de sol, o amigo teve necessidade de deslocar-se até a cidade numa emergência e foi parado numa blitz, exatamente pelos policiais que frequentavam sua propriedade.

O diálogo foi interessante e normal nessas ocasiões:

- “Boa tarde, senhor fulano. Os documentos e a carteira de motorista, por favor,”. A resposta:

- “Infelizmente saí com muita pressa e esqueci lá em casa.”

Disse o guarda:

- “Pois infelizmente não posso deixá-lo prosseguir. Quando nada, volte e traga seus documentos.”

Conclusão:

Ele foi à busca dos comprovantes para apresentação às autoridades e seguiu viagem.

Mas, ficou uma fera. Dia seguinte, bem cedo podou a árvore dentro de seus limites e que servia de sombra para a viatura dos agentes.

Entenderam o recado e nunca mais o procuraram para a água e outras comodidades.

Convenhamos que, os dois lados foram ranzinzas, mas os agentes agiram corretamente. Afinal, mais para frente o motorista poderia ter problemas pela ausência de documentos.

Casos idênticos, temos observado na nossa Sociedade Vicentina.

Os membros da hierarquia podem e devem ser amigos e quando nada, bons companheiros dos dirigentes de Obras, Conselhos e Conferências.

Mas, isto não significa que tenham de ser condescendentes com irregularidades.

Ditado antigo reza:

“Amigos, amigos; negócios, à parte”.

Um gestor de Conselho não pode deixar passar em brancas nuvens, falhas e omissões.

Cumpre-lhe fiscalizar e orientar para que a entidade cumpra rigorosamente suas obrigações regulamentares e legais, sem se deixar levar pela emoção ou laços de camaradagem.

E não adianta retaliações como o amigo que podou a árvore.

Importa, quando nada, cumprir os deveres até para evitar problemas futuros.

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2. A festa

O zeloso secretário do Conselho Particular preparava a reunião festiva, para a posse do novo presidente.

No local contou as cadeiras, caixa de som testada.

Imagens: Imaculada Conceição, São Vicente de Paulo e Bem-aventurado Frederico Ozanam, estampa do padroeiro do Conselho, São Benedito, colocados sobre a mesa.

Dois jarros de bom tamanho contendo flores, um em cada ponta do móvel.

Um crucifixo colocado também ao lado de uma das imagens.

Contou os convidados: Presidentes do Conselho Metropolitano, Central e Particular, mais os respectivos Coordenadores de Comissões de Jovens, um visitante representando os demais, o futuro empossado e sua esposa, Vice-Presidente, Secretário e Tesoureiro do Conselho. Treze cadeiras, uma a mais da conta, para um lugar estratégico.

Pensava em tudo confrade. Era um detalhista.

A última coisa - preparar a máquina fotográfica, filme de boa qualidade.

Após a missa, o pároco atendeu ao convite e participou do começo ao fim. Coisa difícil nos dias atuais.

Término - Abraços, cumprimentos, uma festa.

Uma surpresa: Somente três fotos em boas condições: As relativas às orações regulamentares no começo e no fim e o momento da posse com o pessoal de pé.

As demais, muito bem focalizadas mostravam as imagens, quadro, crucifixo e jarras com flores. Aqui e ali, algum tufo de cabelo ou careca. Nada mais.

Conclusão - Ao organizar, coloque todos estes complementos, fora da mesa. Os fotógrafos agradecem.

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3. A imagem

Tarde de domingo, o sol quase se escondendo.

A “rural” do Conselho, dirigida por um dos visitadores, o confrade Leão, quase que saltava sobre as enormes pedras usadas como calçamento da antiga e tradicional cidade.

Procuravam por uma informação, pista ou indício da unidade Vicentina existente na localidade.

Era a época das chamadas Conferências Isoladas, isto é, vinculadas diretamente ao Conselho Central da área. E esta, se ainda funcionasse estava, mesmo, isolada.

Os dois “missionários” insistem. Alguém deva saber informar nomes ou local das reuniões, antigas e presentes, caso ainda aconteçam.

Pedi ao companheiro de viagem para deter o veículo defronte uma velha casa. Na janela um senhor contempla o por do sol.

Descemos e levamos um susto.

Ao fundo, na parede, um pequeno oratório trabalhado em madeira, bem simples e dentro dele, uma pequena imagem de São Vicente de Paulo.

“Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”.

Nosso personagem era de fato um antigo membro da Conferência, afastado da lide Vicentina por motivo de idade.

Mas, soube transmitir as informações com alegria.

Despedimo-nos e saímos rindo de felicidade.

Olhamos para a imagem: ela também sorria.

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4. A leitura

Saímos cedo de Governador Valadares-MG para visitas itinerantes. Primeira parada: Conceição de Tronqueiras.

Inicialmente a Conferência rezava o Terço e logo após, a reunião.

Constatamos preocupados, a não realização da leitura espiritual. Nada sabiam a respeito e muito menos como fazer.

Do “Vicentino Prático”, obra do saudoso confrade Joaquim Furtado de Menezes, retiramos: “Confraternidade” lendo e explicando. Terminada a reunião seguimos em frente, pois, outras unidades aguardavam nossas presenças.

Um ano depois voltamos. Novamente o Terço, a leitura espiritual efetivada, comentada e explicada. Nossa orientação surtira efeito. Na ata - uma surpresa. O título constante e escolhido era novamente “Confraternidade” das Virtudes recomendadas aos confrades. Era muita coincidência.

Pelo sim, pelo não um olhar nas atas anteriores se impunha. Nova surpresa - Todas continham idêntico título.

O que acontecera: No dia da primeira visita, em nosso retorno de outras localidades, lá pelas dez horas da noite paramos na casa do confrade “Toninho”, o Secretário, ajudando-o na elaboração da ata. Ele aprendeu tão bem, que em todas as atas seguintes, repetia o título da leitura, embora outra fosse à escolhida.

Falha nossa que não explicamos corretamente. Nestas ocasiões, o único recurso é rir.

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5. A palavra

Basílica de São José Operário em Barbacena, durante o famoso Jubileu em honra ao padroeiro.

Os pregadores eram Frades Capuchinhos do Rio Grande do Sul, naquela época ainda com suas longas barbas.

O dia era dedicado aos estudantes sendo escalado como leitor da epístola, o Presidente do Grêmio Recreativo de um dos Colégios.

Ao terminá-la esqueceu-se ou não sabia o aluno, de pronunciar a frase final.

O celebrante olha para ele e sopra-lhe a fórmula:

- “Palavra do Senhor”

Pronto. Confusão aprontada.

O estudante, acostumado nas lides acadêmicas a debater com seus companheiros, iniciou um discurso entusiasmado e foi necessária a intervenção do Pároco, o saudoso Padre Hilário para encerrar sua arenga.

Confundiu a expressão usual ao fim da leitura, como uma autorização para discursar.

Em reuniões festivas de posses ou proclamações, na Sociedade de São Vicente de Paulo vez por outra acontecem fatos semelhantes.

O cidadão é convidado a ler breve mensagem ou a dirigir uma palavra alusiva ao ato e deita falação, tomando o tempo da reunião, constrangendo os demais participantes.

Na verdade, o falar em demasia nem sempre demonstra conhecimento.

E lembremo-nos sempre: quem fala muito erra mais.

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6. A ponte

Época de racionamento de gasolina. Telefonamos ao confrade Paulo Valbusa, de Galileia que providenciasse um galão, quando de nosso retorno de Alvarenga.

Quilômetros adiante, um empecilho. Incêndio criminoso na ponte de madeira impedia a passagem.

Voltamos, agradecemos e dispensamos o combustível e nos informamos com o amigo, sobre o melhor caminho para Divino das Laranjeiras.

Erramos a estrada e chegamos a um lugarejo para nós desconhecido. Preocupados, compramos numa venda os três últimos litros de gasolina.

Um letreiro numa velha casa abandonada despertou nossa atenção - “São Vicente de Paulo”

Fomos até à igreja. Todas as portas fechadas menos uma. Estava sendo realizada uma Plenária da comunidade.

Apontamos para um cidadão e pedimos informação sobre a casa.

A resposta do José Cirilo - Aqui já existiu a Sociedade de São Vicente de Paulo. Eu mesmo fazia parte.

Comentamos com ele as coincidências: fogo na ponte, retorno, erro de percurso, letreiro na casa e o fato de nos dirigirmos a ele, entre centenas de pessoas.

Deixamos materiais para o trabalho, rezamos e seguimos viagem.

Menos de dois anos depois, um Conselho Particular era instalado na hoje cidade de São Geraldo do Baixio.

São Vicente de Paulo tem seus recursos.

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7. Aborrecimentos

Um colega de serviço mantinha no terreiro de sua casa, no centro da cidade, aproximadamente uns quinze galos.

Hoje, com a repressão à prática das rinhas, quando os pobres animais lutavam em alguns casos até à morte, os colecionadores desta espécie estão desaparecendo.

Mas, imaginem os leitores a sinfonia inacabada que os galináceos aprontavam em plena madrugada, acordando inclusive quem gosta de dormir até mais tarde.

Um vizinho, muito educadamente comentou com o proprietário dos brigões:

- “Seus galos têm acordado cedo meu companheiro!”

Dias se passaram, as aves continuavam com suas algazarras e o proprietário quieto.

De repente, não mais que de repente, o telefone em sua residência começou a tocar, impreterivelmente, todos os dias, lá pelas quatro horas da madrugada, acordando o dono e os galos.

A consequência foi imediata - os cantadores foram deslocados para uma fazenda, onde poderiam desenvolver seus dotes musicais, incomodando apenas o caseiro, os cachorros, os patos e a boiada.

E os telefonemas por um passe de mágica cessaram.

É o tal ditado - não aprende de um jeito, aprende de outro.

O barulho e os incômodos estão em toda parte.

Em todos os níveis de reuniões Vicentinas existem os que sabem participar e os que não sabem.

São os cochichos, geralmente entre duas ou mais pessoas a perturbarem e incomodarem os demais integrantes.

Um mesário passa algumas informações ou lê alguma correspondência, e lá estão os cochichadores, resolvendo pendências particulares ou até mesmo Vicentinas.

Fica difícil para quem está com a palavra comunicar-se corretamente em tais situações.

O melhor é parar e pedir aos faladores que digam alto e em bom som, os seus respectivos assuntos.

E neste caso, infelizmente, o telefonema em alta madrugada não vai resolver nada e nem podemos pensar em mandar confrades e consócias para as fazendas gregas. Afinal, são nossos irmãos.

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8. Acolhimento

Toda criança gosta de ganhar brinquedos. Este criado dos leitores não era exceção. Carrinhos, caminhões, bolas, revólveres e espingardas de imitação eram sempre recebidos com alegria. Atualmente, por motivos diversos não se aconselha mais, presentear nossos pequenos com armas, ainda que de mentira.

Mas, na minha década de infância era muito normal.

E, sendo normal, com muita satisfação fui presenteado com uma espingarda de rolha. Você puxava a engrenagem, colocava a peça roliça, de forma cilíndrica, presa por uma corrente e atirava. Engraçado é que nunca consegui sequer acertar um mosquito.

Será por isso, talvez, que coleciono entre minhas manias, a arte de matar moscas com aquelas telas plásticas! Frustração de tempo de criança.

Vamos, então, ao principal. O ano de 2008 foi marcado pela campanha lançada pelo Conselho Nacional do Brasil, no sentido de aprendermos ou melhorarmos o acolhimento dentro de nossa Sociedade.

Na época essa iniciativa foi considerada como um tiro de canhão de cento e cinco milímetros. Era para arrebentar estruturas e mexer com muita gente em nosso meio. Gente que desconhecia o sentido da palavra acolhimento ou se conhecia, acomodara-se por preguiça, desinteresse ou outros motivos.

Artilheiros foram convocados para acionarem os diversos canhões da campanha. Ouvimos os estrondos das máquinas em operação, mas foi só.

As granadas lançadas funcionaram tais e quais as rolhas de cortiça das velhas espingardas de brinquedo. Bateram em muros resistentes e caíram sem provocarem alterações.

Conselhos de hierarquia de modo quase que geral não entenderam o espírito da iniciativa. Continuam ainda, sem saberem como efetuar um acolhimento. E se não sabem, não têm como ensinarem.

É preciso que o Conselho Nacional, neste prolongamento da campanha, peça emprestados os canhões do Forte de Copacabana, com calibres de trezentos e cinco milímetros, bem maiores, na esperança de conseguir o objetivo.

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9. Alternativas

Em nossa vida, nos deparamos continuamente com as substituições.

No comércio, então é muito comum você procurar um produto e por falta de opções, levar outro.

Nas farmácias e drogarias, se o medicamento solicitado mediante receita médica não é encontrado, logo, logo, o atendente com a maior gentileza diz:

- Pode levar este outro que tem o mesmo efeito. Inclusive o preço é mais em conta.

Se a pessoa não dispõe de tempo para pesquisar em outro local, e como doença não pode esperar, acaba cedendo ao apelo.

Se bem que, algumas vezes a substituição não é vantajosa, pois, ao usar o produto, o comprador percebe que comprou gato por lebre, ou seja, a qualidade é bem inferior.

Mas como disse - Não existe outro remédio. O mundo é assim e não adianta discutir muito.

Na cidade de Gaza, no Oriente Médio, o zoológico local encontrou uma solução criativa para a falta de Zebras: Pintaram os burros com listras, para ficarem parecidos com este animal.

Ou seja, quem não tem zebra, vai de burro, sim, senhor.

No Brasil uma frase por demais conhecida, sintetiza este sentimento: Quem não tem cão, caça com gato.

E acaba tendo sentido, pois, tanto um como o outro são bons farejadores.

Mas, o que me preocupa mesmo, e muito, é o costume cada vez mais acentuado em algumas Conferências de, simplesmente deixarem de assistir famílias, sob a alegação de inexistência de pessoas desprovidas de bens materiais.

Dependendo da área de atuação da unidade, pode acontecer tal fato.

Mas, aí, entra a lei universal da substituição, devendo a procura selecionar os idosos aposentados ou não e sem condições de locomoção, e outras tantas pessoas que numa simples conversa serão lembrados.

Há coisas de anos, numa visita à localidade de Córrego do Arroz, próxima a Governador Valadares, os confrades e consócias estavam desanimados, pois, o lugarejo não tinha “Pobre”. Com uma simples orientação, a Conferência de Nossa Senhora Aparecida, no momento da reunião, conseguiu localizar, para mais de trinta pessoas carentes de uma visita.

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10. Aparências

Dois casos parecidos e curiosos que aconteceram ainda no século vinte.

Meu irmão caçula trabalhava em Belo Horizonte como inspetor de riscos da antiga Companhia de Seguros do Banco Nacional.

Por questões particulares, mandara raspar a cabeça e no desempenho de sua tarefa, encontrava-se defronte a um prédio fazendo um desenho.

Ora, no edifício funcionava um estabelecimento bancário e os assaltos a estas atividades eram constantes. Não deu outra.

Para uma viatura policial de agentes do DOPS - Departamento de Ordem Política e Social - e com a tradicional gentileza que caracterizava o regime militar vigente naquela época efetuaram o rápido interrogatório:

- “Mãos para o alto e diga logo quem é você e porque está desenhando.”

Ele balbuciou algumas palavras justificativas que em nada adiantou. Seu único documento aparentava um cidadão cabeludo que pouco se parecia com o original.

Foi jogado no camburão, com desenho e tudo mais para se explicar com o delegado.

Como quem não deve não teme, lá perante a autoridade maior tudo se esclareceu.

Mas, ainda com respeito ao antigo Banco Nacional do saudoso Governador mineiro, José de Magalhães Pinto, uma propaganda bem original era vinculada na televisão.

Tratava-se de um cartão para saques, uma iniciativa pioneira na época e que apresentava a foto do portador.

Era assim a publicidade:

- “Um cidadão totalmente careca apresentava-se junto ao caixa do banco, para sacar uma determinada importância”.

Só que, o cartão era de uma pessoa bem cabeluda.

Uma cena que levava os telespectadores a rirem com a cara de espanto do malandro que tentava aplicar o golpe.

Do lado de cá, ou seja, na lide Vicentina, um velho confrade e amigo, apresentaram-se à porta de um assistido espiritual para efetuar a visita.

Começava a noite e alguém do interior da casa assustou-se com a aparência do visitador, observado pela câmera: totalmente careca e com um embrulho nas mãos.

Na dúvida julgou mais prudente não abrir a porta.

Para algumas famílias, o presidente da Conferência deva orientar aos seus liderados, como e em qual horário a visita pode ser efetuada.

Em alguns casos, a prudência recomenda um trabalho a dois, ou se possível, que o visitador escolha um horário mais adequado.

As aparências muitas vezes enganam.

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11. Cartas

Escrever cartas era um hábito comum entre pessoas amigas. De repente, as modernidades foram acabando com estes costumes e outros bem saudáveis, como o de fazer visitas.

Mas, a carta continua ainda exercendo um encanto natural como fazia no passado.

Imagine o prezado leitor, mas, de modo especial à estimada leitora, o que acontecia ou acontece no recebimento por uma moça de uma carta do namorado.

A primeira providência é trancar-se no quarto, abrir o envelope com muita ansiedade e ler a o conteúdo sem ao menos ter tempo para respirar.

Na segunda, terceira e demais leituras, aí, sim - ela verifica cada linha, cada ponto, procurando encontrar algo mais do que está escrito.

Após este ritual a carta é guardada num cofre com chave e de tempos em tempos, faz-se sua abertura para nova leitura desta e de outras cartas.

É o amor. E o amor é lindo já disse o poeta.

Na Sociedade Vicentina temos, também, nossas cartas e a principal delas é a de Agregação ou de Instituição.

O seu recebimento é uma festa. Os interessados querem conhecer o seu conteúdo, pois, afinal veio de muito longe.

Terminada aquela cerimônia tão marcante, ela é acondicionada num quadro e colocada na parede em local bem visível no local de reunião.

Infelizmente, na maioria das vezes a Carta não é mais lembrada ou pior, é sim, quando algum presidente de Conselho crismado e vacinado, ao visitar a unidade, reclama do estado de abandono em que se encontra.

Façamos como as namoradas e procuremos zelar pelo importante documento e, pelo menos nos aniversários retiremos o quadro e façamos a leitura do seu conteúdo. Os novatos vão agradecer.

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12. As comunidades

Confrade Auto Fonseca, Presidente da Conferência de Santo Antônio e de quebra na direção de um Grupo de Reflexão insiste com Padre Cornélio:

Veja meu caro padre, todo domingo tem um grupo que participa da Santa Missa aqui na Capela de São Vicente de Paulo. Estamos tristes com a desativação das celebrações.

O Pároco de Santo Antônio argumenta:

Mas, meu caro amigo não temos padres disponíveis. É melhor vocês frequentarem a Matriz.

Resposta rápida do saudoso confrade, conhecido como “Altino”:

- “Tudo bem. O senhor poderia então pedir ao nosso Bispo Dom Hermínio que fizesse este favor para nós”.

Se fosse um teatro, seria o que denominamos peça rápida.

Padre Cornélio sempre com um sorriso nos lábios, não teve como responder ao Vicentino.

E até hoje, no céu, com os Santos e Santas de Deus deve estar rindo daquela cena engraçada e junto ao confrade.

Na verdade, preferimos, por comodismo, um padre que celebre a Missa das Cinco Intenções ou relativa a outro acontecimento, numa capela particular, situada muitas vezes numa Obra Unida.

Quando utilizamos, por outro lado, o horário na paróquia, na Matriz ou em alguma Comunidade, com uma boa participação de fiéis, temos a oportunidade de divulgar a nossa Sociedade, para pessoas que, não conhecem nosso trabalho. Pensemos bem a respeito!

É juntar o útil a agradável.

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13. Homenagens

Aconteceu na Catedral de Santo Antônio em Governador Valadares. Só não me lembro mais a espécie de evento. Coisa lá pelo ano de 1995.

Mas, durante uma semana, líderes de movimentos e pastorais foram convidados a manifestarem suas opiniões sobre temas que estavam sendo estudados, em forma de palestras.

Absolutamente não tenho a pretensão de ser líder, mas, pelo fato de estar habituado a este tipo de trabalho, confrade Jean Morais e eu fomos indicados pela Sociedade de São Vicente de Paulo e no dia aprazado lá comparecemos.

O momento apropriado e mais lógico para o desenvolvimento da palestra a dois era antes da bênção final.

Começamos nossa fala. O assunto que nos competia versava sobre homenagens e o fundamento a Sagrada Escritura.

Soltamos o verbo como se diz em linguagem popular.

Sou funcionário aposentado e provoquei: Agora virou moda e moda exagerada, homenagear servidor público pelo estrito cumprimento de obrigações. O funcionário ao ser admitido pelo Estado assina com ele um contrato de prestação de serviços. O empregador paga-lhe os proventos e lista os trabalhos que lhe compete desenvolver.

Ora, se ele exerce suas funções nos limites da lei, se é assíduo ao serviço, tratando o público com urbanidade, não faz nada demais. É dever dele.

O companheiro, por seu lado, retrucou: - Se um delegado de polícia efetuou muitas prisões, se descobriu paradeiros de ladrões, não está a merecer nenhuma homenagem por isso. É obrigação dele. Ingressou no serviço público mediante concurso e agindo desta maneira, não faz nada demais.

Olhamos para a plateia de olhos arregalados e avançamos um pouco mais: - Seria o mesmo que entregar uma placa comemorativa ao nosso vigário, pelo fato de ele atender com presteza seus paroquianos, ou ao nosso estimado bispo, pelas visitas e orientações pastorais, além de outras incumbências pertinentes ao seu múnus de ensinar.

Outros exemplos foram elencados.

Pelo sim pelo não, não fomos mais convidados para palestras deste tipo.

No entanto, o que dissemos estava baseado no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e em outras passagens da Sagrada Escritura.

Na vida civil, podemos dar o nome de ética.

Vejo constrangido, hoje, a entrega de placas a dirigentes Vicentinos ao encerramento de seus mandatos na presidência desta ou daquela unidade vicentina.

Junto com os bens materiais presenteados, discursos laudatórios e pior, que se repetem cansativamente, enaltecendo o trabalho desenvolvido, algumas vezes até com envolvimento de bajulações mentiras.

Vaidade, tudo é vaidade alerta o Livro do Eclesiastes.

Evitemos este comportamento.

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14. As perdas

Em tempo de tamanha imoralidade, com cenas vergonhosas de políticos escondendo dinheiro nas meias, cuecas e outras mais, sempre é oportuno falar de alguém que passou pela vida púbica demonstrando competência e honradez.

Refiro-me ao saudoso Deputado Anuar Fares.

Nascido em Barbacena-MG, exercendo a função de advogado, o político em questão ao lado de suas qualidades de cidadão era, também, um católico exemplar e pôde representar a cidade e região na Assembleia Legislativa de Minas Gerais com brilho e competência.

Na qualidade de Inspetor da Secretaria de Estado de Educação visitou a escola onde este criado dos leitores estudava.

Pois, foi nessa ocasião, que com seu jeito fácil de comunicar contou um caso engraçado acontecido com ele, numa de suas viagens à região de seus pais, o Oriente Médio.

A história, se bem me lembro, ocorrera à porta de um hotel.

Desembarcara de um táxi e, enquanto o porteiro se encarregava de levar as bagagens para o interior do estabelecimento ele fez um sinal ao motorista, muito comum no Brasil e que qualquer um entende:

- Levantou a mão espalmada dando a entender ao profissional que o esperasse, pois iria, ainda, necessitar de seus serviços.

Este gesto para nós tem um significado. Lá, no entanto, segundo informou, o sentido é de dispensar a pessoa. E foi o que aconteceu. O motorista arrancou com o veículo deixando, como se diz, nosso ilustre Deputado a ver navios.

Foi uma perda de tempo até conseguir outro táxi.

Vez por outra, observamos em nossa Sociedade Vicentina perdas que poderiam ser evitadas.

Ali, uma Conferência perde sua Carta de Agregação destruída pelas traças e umidade.

Acolá, um Conselho deixa desaparecer um livro de atas com um pouco de sua história.

De outro lado, alguém não consegue mais localizar um resumo interessante e que fora preparado para uma comemoração.

Modernamente, os dados de uma unidade vicentina, principalmente em nível de Conselho Central para cima, são arquivados em computador.

O papel tão necessário em nossa vida está aos poucos desaparecendo, o que não deixa de ser preocupante.

E passamos a confiar nestas máquinas fantásticas que tudo resolvem, facilitam e tornam as coisas bem mais fáceis.

Mas, cuidado! Se ocorrer uma perda de dados, a unidade vicentina terá sérios aborrecimentos, como teve o nosso saudoso Deputado com a perda do táxi.

Nada melhor, então, de nos precavermos com cópias de segurança. E quanto aos livros e Cartas de Agregação redobremos os cuidados.

O seguro morreu de velho.

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15. “As tlocas”

Vez por outra, bate uma saudade do tempo de infância e acredito que, este sentimento é comum a muitos de nossos leitores.

Podia ser uma brincadeira, como jogo de esconder, “furtos de jabuticabas, laranjas ou outras frutas” em quintais alheios, ou seja, coisas de meninos que não voltam mais.

Outra diversão saudável e que muito tem me ajudado na vida adulta, eram as leituras de jornais e revistas em quadrinhos, estas com seus personagens lendários a povoarem as mentes de milhares de crianças de oito aos oitenta anos.

Quem não se lembra, por exemplo, do Tio Patinhas, do Pato Donald e sua namorada Margarida, do Pateta, do Mickey, do Professor Pardal com suas “invenções”, o Zé Carioca sempre no bem bom da vida, o Pernalonga, e um em especial, Hortelino Troca-letras, na sua incansável caça ao Patolino.

Muitas ou senão todas essas figuras são constantes, em publicações atuais, sempre no estilo do criador, Walt Disney e outros da Warner Bros.

O Hortelino como indica o segundo nome provocava risos, com a substituição de

Letras, principalmente o R pelo L.

Mas, o que desejo mesmo, com estes comentários saudosos é alertar muitos de nossos confrades e consócias, principalmente dirigentes para as substituições de nomes para determinados eventos, que felizmente, acontecem com frequência em nossa Sociedade.

Vejamos: Você recebe um convite direcionado a Retiro - Nos bons tempos, esta palavra significava no meio vicentino, internar-se num local para aprimoramento espiritual. Ao participar percebe, encontrar-se num evento para formação administrativa.

No seguimento, o convite menciona Encontro. O que o documento deixa de esclarecer que, na verdade, o acontecimento será um Retiro Espiritual.

Outros termos continuam sendo utilizados de modo incorreto. Vejam por exemplo este: Congresso Vicentino. Segundo o que foi definido num Encontro da Família Vicentina, essa expressão denominaria os Encontros dos Ramos Vicentinos. Se, algum Ramo, como por exemplo, a Sociedade de São Vicente de Paulo fosse promover um Evento desta natureza, a denominação correta seria Encontro.

Confuso para muitos, sou obrigado a concordar. Mas, é a verdade.

Precisamos ser menos Hortelino Troca Letras e mais práticos como outros personagens das histórias em quadrinhos, nos momentos de titularmos nossos eventos, que, felizmente repito, são muitos.

É preciso diferenciar: Congresso, Assembleia, Convenção, Encontro de Formação, Retiro Espiritual, Seminário, Capítulo, Curso, Palestra, Aula, Workshop, Oficina, Laboratório, Feira...

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16. Avanços

Ouvintes saudosistas certamente se lembram, de alguns bons programas transmitidos pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro na década de setenta.

Um deles, apresentado por um jornalista profundamente humano, médico de profissão e incompreensivelmente afastado da emissora durante o regime militar e que se denominava Paulo Roberto.

Num deles, às sete horas da manhã, ele relatava o acontecido no sepultamento de um cidadão falecido com a invejável idade de oitenta anos.

Acompanhava ao enterro, seu velho pai de cento e dois anos, devidamente apoiado por amigos.

Cada passo do respeitável cidadão era acompanhado de um queixume:

- “Eu falei, cansei de falar, que este menino não se criava. Por mais que eu fizesse, por mais que dele cuidasse não foi o bastante”.

O radialista conseguia atrair seus milhares de ouvintes com histórias simples, retratando o quotidiano. Este programa começava invariavelmente com um simpático “Bom dia compadre” e ele apresentava ainda, o não menos famoso “Lira do Xopotó”.

Mas, o mundo dá muitas voltas e fica no mesmo lugar.

Estamos aí, na Sociedade de São Vicente de Paulo com muitos avanços na Regra edição de 2007 e ainda desconhecida de boa parte de nosso pessoal.

Um deles é a ampliação do limite de idade para candidaturas aos cargos de presidentes de Conferências e Conselhos Particulares. Antes que o associado ou associada complete setenta e cinco anos poderá ser eleito, o que equivale dizer que, em alguns casos, a posse a ser concedida irá até os setenta e oito anos ou setenta e nove no caso de Conselhos.

Nos Conselhos Centrais, Metropolitanos, Nacional e Obras Unidas, ninguém poderá ser eleito ou nomeado Vice-presidente, uma vez atingidos os setenta anos, o que resultará também, em mandatos até os setenta e quatro anos.

Inegavelmente são avanços.

Mas, temos ainda aqueles que não se conformam.

Diz um: “Tenho oitenta e estou em forma”. Outro: - “Vou fazer 85 e posso muito bem dirigir um Conselho”

Nada contra. Mas, Regra é Regra.

Do contrário, teríamos em futuro, algum presidente com cento e quatro anos, acompanhando a despedida de algum confrade e se lamentando:

- “É por isso que eu não queria nomear secretário com noventa anos. É muito inexperiente e novo para a função”.

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17. Barrados

Barrados no Baile, nome dado ao seriado, foi uma popular série de televisão norte-americana, transmitida nos Estados Unidos da América do Norte entre outubro de 1990 e maio de 2000. Foi um verdadeiro sucesso e que atingiu com perfeição o seu principal público - os adolescentes.

A introdução serviu para lembrar que este criado dos leitores já foi barrado algumas vezes.

A primeira, numa matinê de carnaval. Pelo fato de ser “comprido”, os fiscais entenderam que eu era maior e pronto, impediram minha brincadeira. À noite, nem pensar: novamente barrado por ser menor. Melhor para mim - até hoje não gosto dos folguedos de Momo.

A segunda vez, num churrasco comemorativo da eleição do saudoso Bias Fortes como Governador do Estado de Minas Gerais.

O local, próximo à Igreja de Nossa Senhora da Assunção na cidade de Barbacena, devidamente fechado com enfeites, estava repleto de churrasqueiras enormes. O cheiro, tentador e mais uma banda de música animando o ambiente.

No entanto, sempre existe um entanto, criança não podia entrar. Fiquei do lado de fora do cercado juntamente com outros meninos e a solução foi retornar para casa.

Levemos agora estes acontecimentos para nossa querida Sociedade de São Vicente de Paulo.

Constantemente temos eleições para renovação de nossos dirigentes. É um processo saudável e democrático.

E, qualquer confrade ou consócia pode se candidatar, isto é, pode apresentar-se como candidato, não sendo necessária sua indicação por esta ou aquela unidade vicentina.

Basta que a pessoa esteja enquadrada nos dispositivos regulamentares, principalmente nos itens de idade e tempo de Vicentino.

O mínimo, sempre para a realização da eleição é de dois candidatos, podendo ser um no caso de Conferência.

Observamos senão algumas vezes, atitudes que não se encaixam bem, nas tradições vicentinas: É o fato dos perdedores considerarem-se como barrados e até se afastarem de nossas fileiras.

Que fique claro: ninguém foi barrado. Apenas e tão somente o Espírito Santo agiu e ajudou a escolher outro. Precisamos sempre levar em conta este fato.

Pior, bem pior é ser impedido de saborear um churrasco ou de entrar em uma festa!

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18. Cálculos

Tenho uma lista de nomes merecedores de orações diárias e entre eles, antigos professores que de um modo ou de outro marcaram minha caminhada.

Cada um tinha sua característica de ministrar suas aulas e relacionar-se com os alunos.

Professor A. era, sem dúvida alguma, um tipo para lá de interessante. Titular de uma cadeira específica na antiga Escola de Comércio de Barbacena, com frequência, no entanto, era convocado pelo Diretor para alguma substituição de um colega faltoso, desempenhando a contento sua tarefa.

Sua matéria específica era Mecanografia mesclada com Prática de Escritório.

Repito parte de uma aula do saudoso mestre:

- De posse da melhor máquina do mundo, resolver o seguinte problema matemático: (Ditava o enunciado deixando-nos à procura da solução).

E os alunos punham-se a trabalhar, exercitando a memória com as regras matemáticas.

Certa ocasião esgotaram-se os quarenta minutos da aula e como ninguém conseguia chegar a um resultado, a resolução transformou-se em dever de casa.

Noite seguinte, um único aluno, cobra criada nesta matéria, um verdadeiro gênio, levantou-se e respeitosamente informou que não conseguira solucionar o problema. Que o Mestre, por favor, resolvesse.

A resposta foi a mais inusitada possível:

- Deixem este exercício. Não vamos perder tempo com ele.

Claro que nosso saudoso professor também não conseguia chegar a uma conclusão.

Alguns de nossos dedicados e esforçados tesoureiros em algumas ocasiões complicam a apresentação do movimento do caixa de suas unidades, sem necessidade.

Abrem o livro e começam a ler cansando os ouvidos dos participantes, as receitas e despesas nos seus mínimos detalhes. Alguém por acaso vai se lembrar de que houve um gasto de sessenta centavos em uma correspondência?

Um modo fácil e prático, principalmente em se tratando de Obras Unidas e Conselhos é ler os totais de entradas e saídas e deixar o livro caixa à disposição dos presentes.

Ou então, efetuar um extrato da movimentação mensal entregando uma cópia para cada um, possibilitando um exame mais acurado em casa, como se fosse um dever.

Se a gente pode facilitar, muito melhor do que complicar.

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19. Cautelas

Alguns de nossos leitores certamente estão lembrados, de um documento fiscal arrumado pela Secretaria de Estado da Fazenda lá pelos anos 60 ou 70.

Era conhecido pela sigla AR - Adicional Reembolsável e funcionava assim:

O comerciante fazia uma provisão desses documentos na repartição fiscal e obrigava-se a entregar a cada comprador, o correspondente à compra efetuada. Era um comprovante pouco maior que um selo postal.

E o fato que narro a seguir aconteceu num banheiro público de rodoviária em época idêntica ao tal documento. Era tempo de salve-se quem puder na utilização daqueles sanitários.

O cidadão devidamente acomodado em sua cabina, fazendo o que todos sabem, termina sua função e para desespero observa a inexistência de papel higiênico.

Procura nos bolsos alguma forma de salvar a situação - algum papel ou lenço - nada.

Grita para o lado - “Hei companheiro, tens aí algum papel para emprestar?”.

Resposta - “Não”. “Pode ser de embrulho!”. Resposta “Também não”. “Uma nota de cinco mil cruzeiros serve”! “Outra resposta- Infelizmente só tenho de cem mil cruzeiros”. “Por favor, uma folha de talão de cheque em branco?” Nova resposta - “Não sou correntista bancário”.

Agora a cartada final - “Por misericórdia, serve um selo de AR, pelo menos um”.

Ao que sabemos nem isso ele conseguiu. Bem, a solução todos sabem!

Podemos tirar deste acontecimento verdadeiro, uma lição para nossas atividades vicentinas.

Em qualquer acontecimento, festividade ou outro evento, a preparação é necessária.

Vai acontecer uma reunião solene? Peça a ajuda de uma pessoa experiente ou prática, deixando-a se for o caso, como Mestre de Cerimônias.

A reunião vai transcorrer com mais segurança, tranquilidade e, sobretudo, bem mais agradável.

Pensemos bem a respeito.

Não façamos como nosso infortunado herói da história do banheiro.

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20. SEM SANTOS

Durante a celebração da Santa Missa, no primeiro domingo de novembro, um momento de muita piedade foi à invocação da ladainha dos santos e santas de Deus. Como bem disse o sacerdote, na missa de que participei, a Igreja aponta apenas alguns, escolhidos na multidão dos eleitos.

Na verdade, a cada dia, sobem aos céus novos santos. São aqueles que souberam pela conduta e exemplos, sacrifícios, caridade e humildade e outros atributos conquistarem aquele lugar que todos desejamos.

A Sociedade de São Vicente de Paulo, felizmente, fala e muito em santos. Todas as Conferências, quando de sua fundação têm de adotarem um padroeiro, um protetor para interceder, se for o caso, pelas atividades da unidade vicentina junto a Deus.

Digo se for o caso, pois muitas adotam como patronos à própria pessoa de Deus. Exemplos - Sagrado Coração de Jesus, Menino Jesus, Nosso Senhor dos Passos, Santíssimo Sacramento, Bom Jesus, Divino Espírito Santo, Pai Eterno.

Nesses exemplos, o que não tem sentido é fazer-se à invocação durante as orações, com respostas do tipo “Rogai, por nós”, o que demonstra inclusive falta de conhecimento do catecismo.

Mas, voltemos a discorrer sobre os santos e suas representações - uma imagem de gesso ou de madeira, uma estampa, são objetos de nossa veneração a lembrarem de que aquela pessoa viveu no meio de nós e hoje, por declaração oficial da Igreja, podem ser lembrados, assim como colocamos em nossas casas, os retratos de nossos avós, pais, irmãos, filhos e netos já falecidos.

Nunca estaremos adorando aquelas representações, como alegam alguns irmãos de outras igrejas. Felizmente, naquelas de boa formação, não existe esta tola alegação.

Falando em santos uma preocupação também atual, a compartilhar com os prezados leitores e leitoras.

Muitas unidades vicentinas são proprietárias de salas e salões próprios, alguns dotados de boa estrutura sendo procurados para aluguéis de festas ou outros acontecimentos.

Tudo bem. Nossas sedes, na medida do possível, podem mesmo ter outras utilizações nos momentos ociosos, numa parceria com a comunidade ou com alguma renda a ser revertida em nossos trabalhos assistenciais.

Mas, uma coisa deva ficar bem clara. Não se admite, que para esta ou aquela finalidade, principalmente se o interessado pertence a outra religião, que a unidade vicentina, com vistas a uma renda que irá auferir, venha a retirar as imagens e estampas de nossos santos e santas, que nos são tão caras, ou atendendo a um pedido ou exigência do responsável em alugar.

Emprestemos, aluguemos. Tudo bem. É um direito e um dever nossos.

Mas, sem Santos não. Afinal a casa é nossa.

Não podemos fazer como Judas - por conta de trinta moedas, trair nossa convicção religiosa.

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21. Comendas

Sempre fui avesso, ou seja, contrário, aos verdadeiros festivais, se assim podemos denominar, da distribuição de medalhas e condecorações a personalidades, algumas, nem tanto, que os Governos e Poderes Legislativos fazem até indiscriminadamente.

É um direito meu, de cidadão, cumpridor de obrigações, entre elas a de pagar pontualmente, pesados impostos, se considerarmos que os gastos com essas homenagens, saem não dos bolsos dos autores responsáveis, mas, dos cofres públicos.

De meu tempo de Exército, não pude escapar de receber uma medalha, por ter sido campeão dos atiradores de artilharia; mas, na vida civil, recusei, educadamente, a oferta de um título de cidadão honorário.

Continuo acreditando que o dinheiro público possa ser mais bem direcionado, na educação, saúde e segurança, entre outros.

Mas, voltando ao assunto de condecorações e homenagens, de nos preocuparmo-nos em nosso meio vicentino, do péssimo costume de algumas unidades, em concederem placas comemorativas e outras tolices a este, esta, aquele, aquela, confrade ou consócia, pelo fato de ter desempenhado sua missão de presidente de uma unidade vicentina.

Como deveria acontecer no Serviço Público, nós, na Sociedade de São Vicente de Paulo temos o dever de, em respeito aos nossos assistidos e benfeitores, evitarmos também, estes gastos desnecessários.

Invistamos, sim, em nosso pessoal, mas, de maneira inteligente como, por exemplo, facilitando-lhe o acesso à ECAFO - Escola de Capacitação Antônio Frederico Ozanam, reciclagens e cursos.

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22. Competência

 Recordar quase sempre é um prazer para a maioria das pessoas, ocasião do pensamento voltar ao tempo rememorando momentos que não voltam mais.

De minha parte vejo-me ainda menino tentando jogar futebol e as únicas vezes em que consegui manter-me no time até o final da partida, foram aquelas em que era o dono da bola. Na verdade era um verdadeiro pernas de pau, embora num outro jogo, o de bola de gude conseguisse realizar alguma façanha.

Em outras disputas envolvendo bolas devo reconhecer meu fraco desempenho.

Certa ocasião, em Governador Valadares onde resido, fui convidado a participar de uma partida de vôlei com alguns companheiros de repartição.

Lembrei-me da última vez que jogara quando estudante do Colégio Estadual em Barbacena, mas, para não decepcionar os companheiros aceitei o desafio.

Bola vai, bola vem, escorrega dali, torna a escorregar, avança até que chega um determinado momento de fazer um saque. Para quem não sabe, é o movimento de segurar a bola com uma das mãos e com a outra arremessá-la com um toque.

O lance foi efetuado com tanta força que a bola passou por cima das árvores e sumiu.

E não adiantou procurar muito, pois, logo em seguida viram a esfera navegando pelas águas A partida era realizada na Ilha do Ingá localizada no famoso Rio Doce que banha Governador Valadares.

Sem bola, o jogo acabou.

Na Sociedade Vicentina e até em outros grupos é muito comum chamar-se alguém para efetuar uma palestra, focalizando este ou aquele assunto.

Quem convida deve informar-se sobre o conhecimento do tema pelo palestrante e ainda, se ele sabe realmente falar em público.

Ele pode jogar a bola da palestra bem longe, ficar fazendo rodeios e deixar de falar realmente o que interessa.

Todos perdem.

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23. Contrastes

Desde que me entendo por gente, tenho observado entre muitos brasileiros, uma ojeriza, isto é, uma forte antipatia contra os norte-americanos.

Em conversas de bares, barbearias e oficinas diversas, locais onde diversos que nada fazem ficam importunando diversos trabalhadores, alguns assuntos obrigatoriamente são focalizados: Futebol, custo de vida, saúde, segurança, quase todos decorrentes da política.

Em neste último, o foco muda para a crítica aos nossos irmãos estadunidenses, taxando-os de opressores, exploradores e outros tantos adjetivos pejorativos.

No entanto, este criado dos leitores, já por diversas vezes pôde observar as contradições existentes entre muitos dos que assim procedem.

Numa festa de casamento ou aniversário, as incoerências surgem.

- A pessoa encarregada da seleção musical é denominada “disc jockei” e no popular abreviado “DJ” - Palavra inglesa, portanto norte-americana.

- A música que mais alvoroça os participantes, inclusive os críticos daquele povo, é o “rock-and-roll”, também abreviada de “Rock”.

E a gente que por necessidade e educação tem de participar daquelas festas barulhentas, sem mais nem menos, observa o fulano ou sicrano que na barbearia ataca os costumes norte-americanos, a sacolejar as cadeiras ao som do “Rock” e confraternizando com o autor do barulho, o “DJ”.

São os contrastes.

Em nossa Sociedade conheço muitos confrades e consócias, verdadeiros discípulos de Ozanam, trabalhadores virtuosos, a contestarem o Regulamento da Sociedade.

- Este ou aquele artigo, não poderia ser assim. “Tem de ser modificado”.

E prossegue com outras considerações, reclamando deste ou daquele procedimento Regulamentar.

No entanto, não deveria ser assim. Se eu procedo corretamente em minha atividade vicentina, o cumprimento dos dispositivos legais deva ser cumprido sem críticas.

Proceder de modo contrário é ser participante dos contrastes.

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24. De morro abaixo

A chegada em Itanhomi para a visita regulamentar foi sob forte temporal. Na ida, durante quase uma hora praticamente “patinamos” no barro e a custo conseguimos chegar.

A etapa seguinte era ainda mais preocupante. Morro, curvas sinuosas com a agravante de novas chuvas.

Optamos por alugar um jipe e lá vamos nós, serra acima.

A reunião era preparatória para a fundação de um Conselho Particular. Detalhes acertados, nomes escolhidos para apreciação na reunião do Conselho Central, um olho na ata e outro no céu, pés na estrada, ou melhor, dentro do jipe e iniciamos a descida.

Primeira curva, o veículo que não estava lá muito bem das pernas ou das rodas, resolve cair num pequeno buraco.

Desembarcamos e empurra daqui, puxa dali o carro desencrava, ma,s a bateria foi-se para o espaço.

Sem farol e sem motor, coisa nunca vista antes, a solução foi empurrar serra abaixo o velho jipão. Tombo vai, tombo vem, guarda-chuvas abertos, a trancos e barrancos, mais altos de tanto barro nos sapatos chegamos finalmente à estrada principal.

Pois, a máquina é inteligente. Sim, senhores. Bastou encontrar boa rodovia, com um leve empurrão o motor voltou a funcionar, a luzes se acenderam e chegamos em paz.

Noves fora, um dos confrades adentrar à casa do nosso hospedeiro, sem retirar os sapatos e deixar um rastro de barro sobre o carpete, no mais, tudo bem.

Muitas vezes desanimamos com algum empecilho em nossas visitas vicentinas, inclusive aos nossos assistidos. Não vou porque choveu, o córrego vai transbordar, o ônibus não está circulando.

E deixamos de praticar a caridade por conta de ninharias.

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25. Delongas

Delongar é um verbo transitivo e que significa retardar, atrasar, tornar mais demorado, alongar.

Pudemos presenciar este fato com o “falecimento” do famoso cantor Michael Jackson, chegando-se ao cúmulo de levantarem hipóteses de que em verdade ele não havia falecido coisa nenhuma.

Entre seu desaparecimento ou não, agora até este criado dos leitores está em dúvida, pois, várias foram as manifestações de parentes, autoridades, médicos, fãs, mídia e de pessoas ocupadas ou sem nada para fazer, entupindo nossos ouvidos e olhos com imagens as mais diversas.

Neste enterra não enterra, que afinal ninguém sabe dizer de fato se enterrou ou se morreu mesmo, uma consócia idosa que comigo reside, do alto de seus quase noventa e tantos anos, adentrou a sala onde estava o televisor e disse com a maior seriedade:

- “Afinal de contas onde será o sepultamento: Belo Horizonte ou São Paulo? Estou indignada pelo fato de não terem me convidado. Afinal gostaria, também, de participar.”

Sem dúvida alguma, as santas palavras desta pessoa foram provocadas nem tanto pelas notícias, mas, de modo especial pela demora.

Esse fato me faz lembrar o que acontece em algumas unidades vicentinas, principalmente Conferências, pela morosidade nas leituras espirituais e respectivos comentários.

Não deixa de ser preocupante, por exemplo, os membros participarem da Santa Missa e logo em seguida iniciarem suas respectivas reuniões, utilizando como leitura espiritual, o Santo Evangelho. E lá se vão comentários, testemunhos e mais comentários, o tempo passando e as demais atividades prejudicadas.

Surge, então, a dúvida: Ou não prestaram atenção ao que foi ensinado pelo celebrante ou querem fazer melhor do que ele?

E a demora constante, aborrece, incomoda e acaba por espantar as pessoas.

Reunião vicentina: é necessário dizer: Não é grupo de reflexão. Mas, é grupo que reza, medita, trabalha e age.

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26. Devoções

Confesso, aos meus dezessete leitores, ser devoto assumido de Santo Antônio. Este ícone da Igreja, muito invocado por donzelas esperançosas de conseguirem um casamento, é, também, solicitado para encontrar coisas perdidas.

Meu relacionamento com ele vem do ano de 1956. Perdi um cheque de mil cruzeiros da firma onde trabalhava em Barbacena e este valor era exatamente idêntico ao meu salário mensal. Imaginem minha angústia. Padre Cunha, meu irmão, tranquilizou-me:

“Vou rezar o Responsório de Santo Antônio. Ele vai recuperar o cheque”.

Dito e feito. Um mês depois, um advogado vai à empresa e efetua a entrega do perdido ao meu patrão, achado por ele na porta do antigo Banco da Lavoura.

Daí para cá, tenho o costume de invocar sempre este santo, mesmo sem estar necessitando até porque sou perdedor assumido de objetos e Ele na sua boa vontade sempre dá um jeito de ajudar-me.

Para completar, faço parte ainda da Conferência de Santo Antônio, além da Conferência de São Lucas.

Meus pedidos a ele têm quase sempre um compromisso - de agradecer com mais orações ou colocar na bolsa da coleta uma quantia proporcional ao que foi recuperado.

Santo Antônio gosta muito dos Pobres e a melhor maneira de retribuir os favores celestiais é ajudando-os.

Manuseando na Biblioteca do Conselho Nacional um Boletim Brasileiro de 1880 encontrei esta preciosidade de pensamento:

“Na escola de Santo Antônio que é a escola da Caridade, alcançarás tudo o que desejas se puseres em prática esta virtude: Muita oração com uma esmola para crianças Pobres. Uma bênção”.

Experimentem invocá-lo também em necessidades materiais, mas, por favor, não se esqueçam de seus prediletos, os Pobres. Sejam generosos na coleta.

De meu lado, como não gosto de desagradar ninguém e confiando que o relacionamento do meu protetor deva ser muito bom com outro, para não provocar, e por via das dúvidas, coloco igual quantia na coleta da Conferência de São Lucas.

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27. Discursos

Saudosos tempos de participação em comícios políticos, sem cantores e ilusionistas, aos quais não faltavam, no entanto as chamadas “Charangas”, formadas por grupos pagos ou então, pessoas muito apegadas a este ou aquele candidato.

A manifestação ao concorrente a determinado cargo era acompanhada pela “claque” charanguista com rufar de tambores e cuícas, mais gritos entusiasmados de “Falou bonito”. Antes que o político terminasse sequer uma frase e a charanga já se manifestava.

Chega à vez de um concorrente à vereança e perdoem-me os leitores, mas seu apelido era por demais engraçado “João Cocô”.

Falava e a charanga gritava - “Queremos cocô”. O coordenador do comício, preocupado com o fator tempo e quem sabe com outros imprevistos, escreveu num papel a frase “Pare” e entregou-lhe. Pois, o homem acreditem, parou.

Em algumas festividades vicentinas necessitamos de alguns corajosos, para elaborarem frases idênticas ou puxarem algum valente falador pelas calças.

Tem gente sem desconfiômetro a abusar da paciência alheia, com arengas repetitivas e que não levam a nada, em tudo idênticas aos fazedores de comícios.

Reuniões destinadas a posses de presidentes são antes de tudo, protocolares e nunca lugares de comícios.

Falar pouco em determinadas ocasiões é até prova de boa educação.

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28. Escalas

Amizade gera confiança e quando este sentimento é muito antigo, a confiança aumenta na mesma proporção.

Na minha caminhada vicentina de meio século e alguma coisa, pude, graças ao Bom Deus, amealhar bons amigos e entre nós, a confiança é recíproca.

Confiado, pois, nesta afirmativa coloco na roda, novamente, meu amigo e compadre Eduardo hoje residindo perto da praia em Natal, lá no distante Rio Grande do Norte.

Pois certa ocasião, ele em companhia de outro saudoso amigo o Sebastião Leão, foram a uma pequena cidade próxima a Governador Valadares - Sardoá, onde visitariam a Conferência local.

Ora, ora. O pároco local era nada menos que Monsenhor Francisco, bravo e decidido.

Estão, os dois na igreja, rezando enquanto aguardavam a hora da reunião e chega o vigário.

Relança um olhar para os fiéis que estavam na igreja e começa a sua escalação:

- Vocês duas para a fila do confessionário.

- A senhora de véu escuro, também para a fila.

- O senhor que está no fundo, passe rápido para cá.

Depois de efetuar a escala do dia, Monsenhor preparava-se para ir ocupar seu lugar, mas, de repente, bate os olhos no amedrontado Eduardo que se encolhia ao lado do Sebastião.

- Você aí, meu jovem, que está ao lado do barrigudo, feche a fila.

O confrade Leão que conhecia o sacerdote de longa data fez força para não rir.

Sei não. Mas, meu compadre deve ter contado até pecados que não cometera. De medo.

Desta história real, que se perde no tempo, podemos dar uma olhada de como andam em nossas Conferências as escalações para visitas aos assistidos e outras tarefas.

Em princípio, ensinam antigos vicentinos que o nosso presidente, chamado, também, de irmão mais velho deve ter a preocupação de não deixar ninguém sem tarefa.

Para tanto, ele, o secretário ou até mesmo o vice-presidente, devam ter uma escala elaborada de antemão e antes da reunião.

Se eles conhecem seu pessoal, já sabem quem pode ser indicado para esta ou aquela incumbência.

E que fique claro que o confrade ou consócia pode educadamente pedir para modificar esta ou aquela visita, devido a circunstâncias pessoais.

Mas, que ninguém deixe de receber sua parte. Afinal, encargos desta natureza são como as indulgências que recebemos, através do nosso presidente.

Se escalado, faça como o Eduardo. Entre na fila.

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29. Esquecimentos

Impressiona o número de objetos esquecidos.

A pessoa esquecer um chapéu, boné ou guarda-chuva tem suas justificativas; estava chovendo ou fazia sol e com a mudança de temperatura, o cidadão ou cidadã acaba se distraindo. Mas, esquecer, por exemplo, um par de muletas leva a pensar.

Na minha antiga Conferência de São Sebastião em Barbacena com reuniões às 8 horas de domingo, fato curioso acontecida pelo menos uma vez por ano. No Dia da Procissão de Ramos mudava-se para as 13 horas. Convenhamos que, depois de um bom almoço, regado a vinho ou outra bebida, pois, ninguém é de ferro, o sono pegava feio nos confrades e chapéus eram esquecidos.

Hoje, este fato não se repete, até porque a Conferência é mista e os confrades atuais deixaram de usar chapéus. É uma pena.

Mas, esquecidos sempre os há em todos os movimentos.

É o secretário passando batido na elaboração da ata, o tesoureiro deixando em casa a sacola para a coleta ou o encarregado da leitura espiritual esquecer-se de prepará-la...

No caso da meditação, o presidente prevenido pode e deve ter um texto previamente selecionado por ele, evitando assim uma lacuna em parte tão importante da reunião.

Quanto à ata, não existe remédio. E reunião sem ata é de amargar.

Para a coleta recomenda-se uma sacola de reserva, evitando-se situações esquisitas como já presenciado de efetuá-las até no bolso do tesoureiro. Simplesmente horrível.

Pior ainda, é o membro não se lembrar do dia da reunião. Sua falta pode representar prejuízo para o assistido e para ele próprio.

Neste caso procuremos saber o porquê de sua ausência.

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30. Exageros

É difícil encontrar uma pessoa que não tenha se defrontado com algum acontecimento exorbitante.

Se o prezado leitor quiser encontrar fatos exagerados, basta olhar em sua volta e verá as coisas mais absurdas acontecerem.

Ainda recentemente, por ocasião da Copa do Mundo, os torcedores inventam esquisitices, cada uma mais estrambótica, no intuito de chamarem a atenção sobre suas pessoas.

São chapéus, blusas, fitas e fantasias, imitando bichos, pessoas e organizações, tudo com bom humor provocativo de risos.

Tenho alguns casos colecionados sobre exageros.

Minha comadre Teresa lembra com humor, fatos pitorescos durante o tempo de trabalho em um laboratório de análises na cidade de Barbacena e que ocorreram, com certeza em muitas outras comunidades do país.

Para os exames de sangue, as coisas aconteciam regularmente, sem alterações dignas de nota, até porque a coleta sempre foi processada no local, ou seja, o paciente chega, aguarda sua chamada e oferece o braço para a picada.

A coisa ficava mesmo interessante, nas apresentações dos materiais para urina e de fezes, lembrando não existir, na época, os coletores padronizados a simplificarem e conferirem maior segurança do campo da higiene e consequente qualidade no resultado.

Lá vem o cidadão, com uma sacola em direção ao laboratório. Abre-a, retirando um litro vazio de conhaque de alcatrão, cheio até o gargalo com o líquido amarelado e bem tampado com sabugo de milho ou um toco de cana de açúcar.

Na sequência, outro portador chega desconfiado e de uma maleta retira um embrulho, bem acondicionado em papel América, amarrado com barbante ou embira, colocando a lata de um quilo de Marmelada Colombo, contendo a preciosa carga para o exame de fezes.

O recepcionista, por dever de ofício e educação, recebia com o maior cuidado a encomenda, rindo depois, do técnico em manipulação. Afinal, é ele que Bem o leitor sabe o resto.

Também na Sociedade de São Vicente de Paulo deparamo-nos até mais do que era de se esperar, com exageros.

São as longas atas, a descreverem minúcias e detalhes desnecessários, cansando os ouvintes que nem mesmo prestam atenção. Alguns secretários, até por falta de uma orientação adequada por quem de direito, repetem substantivos, adjetivos verbos e outras categorias gramaticais, aumentando a informação transmitida por este importante documento em unidade vicentina.

Pior ainda - alguns dirigentes, não satisfeitos, exigem ainda do pobre secretário a inscrição de mais detalhes, como transcrição de circulares, cartas e avisos, transformando-as em verdadeiros mostrengos para a leitura.

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31. Foguetes

Quando menos se espera, as coisas acontecem engraçadas ou não.

Uma de minhas aulas na Escola de Capacitação Frederico Ozanam versava sobre Técnicas de Reuniões.

A exposição da matéria transcorria normalmente, quando cheguei ao ponto em que se explica como deve ocorrer a proclamação de um candidato ou aspirante à condição de membro ativo, ou seja, confrade ou consócia.

Para fixar melhor o assunto pedi a colaboração de um jovem aluno e que por sinal, não havia ainda sido proclamado.

Coloquei-o de pé perante os demais, simulando com todos os detalhes de uma proclamação solene. Foi mais ou menos assim:

- Gabriel, em nome da Conferência de São Benedito, proclamo você como membro ativo da Sociedade de São Vicente de Paulo.

Aconteceu aí o imprevisto a merecer risos de todos nós: No exato momento em terminava a “proclamação” iniciou-se um foguetório nas proximidades da sede da Sociedade.

Lembro-me de ter dito ao aluno: - Puxa vida meu caro, você está bem prestigiado.

Mas, por favor, lembre-se de que estamos simulando.

Mas, o assunto proclamação necessita ser mais aprimorado por muitas de nossas Conferências. É um acontecimento único na vida do confrade ou consócia e precisa ser convenientemente marcado.

Para tanto, a preparação é fundamental tanto do candidato como nos pormenores por parte da Conferência.

Um entrosamento com os familiares e amigos do candidato é imprescindível.

O convite para as demais Conferências do Conselho e outras com as quais se mantenha vínculos, assim como aos Conselhos de hierarquia, são atitudes que só vêm enriquecer o ato de proclamação.

E nunca se esquecer de convidar um confrade ou consócia para efetuar uma saudação ao proclamado.

Finalmente, é bom lembrar o proclamado é o último a falar, afinal, ele é o homenageado do dia.

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32. Imagens

Meu compadre, confrade e amigo Eduardo Gonçalves, atualmente residindo ou usufruindo da beleza de Natal, no Rio Grande do Norte, morou durante muitos anos em Governador Valadares.

Nesta cidade, após trabalhar numa grande empresa atacadista, montou seu próprio negócio, optando pelo ramo de supermercado.

Empresa pequena, ainda assim conseguiu sobreviver às primeiras providências do Plano Cruzado, época em que vários comerciantes sucumbiram.

Ficou como se disse, arranhado e fragilizado, mas, atravessou a turbulência financeira.

O veículo utilizado para compras e entregas aos clientes, uma Kombi, com as cores da fachada comercial, ostentava o número 05 (Cinco).

Perguntei-lhe o porquê daquela numeração, pois na verdade, deveria ser 01 (um) se considerarmos que era o primeiro e único.

A resposta foi simples, mas, demonstradora de gênio comercial:

- “Compadre, mesmo sendo um galo Garnisé, a gente tem de aparentar ser um Galo de Briga. Quem olha o veículo imagina logo que a empresa tem mais quatro na retaguarda”.

O riso foi inevitável com esta presença de espírito.

Vejamos, agora, como estamos nós, na Sociedade de São Vicente de Paulo com a nossa imagem, relacionada não a automóveis e kombis, mas às nossas sedes utilizadas para reuniões.

Temos exceções honrosas, mas, em alguns casos, as salas ou outros estabelecimentos estão necessitados de retoques ou quando nada, de uma vassoura e espanador.

Mesa e cadeiras sujas, crucifixos e imagens com defeitos e molduras contendo Cartas de Agregação ou de Instituição deterioradas pelo tempo ou traças.

Nas paredes e janelas, teias de aranhas.

Em resumo, nota dez em matéria de apresentação.

Meu compadre estava certo. Veículos em bom estado de conservação, limpos e apresentáveis são chamarizes de fregueses, desejosos, também, de conhecerem o total da “frota”.

Locais para reuniões aconchegantes fazem bem aos visitantes, motivados para conhecerem mais nossa Sociedade.

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33. Imprudências

Fim de ano queiramos ou não, gostemos ou não façamos caso, poucas condições temos de afastarmo-nos de confraternizações que invariavelmente acontecem, com o tal de amigo oculto. Fazer o que? Paciência.

Aconteceu em Brasília, coisa de muitos anos atrás.

Um grupo ligado a órgão governamental da educação realizava, ou pelo menos pretendia fazer a tradicional comemoração de boas festas.

Sem mais nem menos, um dos integrantes retira da parede o extintor de incêndio contendo pó químico e por brincadeira ameaça um de seus companheiros.

Aconteceu o pior. A trava de segurança soltou-se e o conteúdo esparramou-se por sobre a mesa de enfeites natalinos, sobre os doces e salgados, flores, pratos e talheres e no retorno, sobre as roupas dos infelizes que lá se encontravam. Acabou na hora, a festa que nem sequer começara.

Aconteceu no, bem, numa cidade do Brasil. Era para ser uma Assembleia, ao que hoje denominamos Festa Vicentina.

O palestrante inicia sua arenga, perdão, sua oratória.

E fala. Fala e fala. Abre livro, fecha, abre a Bíblia. Fecha. E fala. E o tempo passando, os promotores da Festa preocupados. Insinuações com pequenos avisos para que encerre sua manifestação, solenemente ignorados.

De repente, não mais que de repente, chega o sacerdote que iria presidir a celebração.

Tiveram de conter o palestrante quase que no muque, cerimônia encerrada com muita pressa sem as delicadezas e cortesias de praxe.

Ao convidarem alguém, seja ou não Vicentino, para uma palestra em Festa ou Encontro, cuidado.

Conversem pacientemente com a pessoa explicando questões sobre o tempo limite e o tema a ser explorado.

Se notarem alguma anormalidade, melhor mesmo é desconversar, ficar o sim pelo não, agradecer a disponibilidade e procurar recurso em outra porta.

Melhor não ter que usar o extintor.

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34. Comportamentos

Por iniciativa do Jornal Washington Post, o maior violonista do mundo com seu violino Stradivarius, avaliado em três e meio milhão de dólares, tocou recentemente durante 45 minutos numa estação do Metrô, no centro de Washington entre as 7h15 e 8 h, vestindo roupas comuns.

Três dias antes, o músico Joshua Bell, este é o seu nome, havia se apresentado numa Casa de Espetáculos em Boston, onde os melhores lugares custam cerca de cem dólares, mas, na Estação de Metrô foi praticamente ignorado pela esmagadora maioria das 1.097 pessoas que passaram por ele durante esse período.

Poucos colocaram em sua caixa alguns trocados. Uma pessoa descobriu quem ele era.

No Rio de Janeiro um professor vestiu-se de gari e durante uma semana varreu ruas, sendo visto por amigos e alunos que não o reconheceram.

Se o músico e o professor estivessem vestidos como se apresentam normalmente, certamente despertariam a atenção.

Em reuniões vicentinas, seja de Conferências, Conselhos, Obras ou Comissões de Jovens, vez por outra aparecem pessoas usando trajes bem diferentes das que usamos.

Manda a boa educação que nos dirijamos a eles com todo respeito, cumprimentando-os e pedindo informações sobre o motivo de suas presenças, se possível antes do começo das reuniões.

Ele pode ser um mensageiro vicentino, pode ser um anjo, sim, por que não, portador de uma boa nova para os membros daquela unidade ou pode estar carente de alguma coisa.

O que não deve acontecer é ser ignorado como fizeram com o músico e o professor.

Se ele estiver necessitando de uma ajuda, alguém, caridosamente anotará seu endereço para um levantamento e pedir-lhe-á que aguarde em sua casa a visita dos vicentinos, não havendo necessidade de permanecer na reunião. Tudo com muita educação.

E a propósito, você tem o costume de cumprimentar os garis quando passa por eles nos seus afazeres de varrição de ruas? E os coveiros? E os carroceiros?

As aparências muitas vezes enganam.

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35. Lutas

É normal o ser humano responsável, principalmente o adulto, batalhar pela sua subsistência e da família.

E nesta luta qualquer atividade permitida é aceitável e merece nossa consideração.

Digo isto neste começo de conversa com os prezados e prezados leitores, ao rememorar minha infância de catador de esterco e vendedor de pó de madeira para conseguir alguns trocados para o cinema e outras pequenas diversões.

Se não tinha vergonha em trabalhar, por outro lado, ficava vermelho ao ser solicitado para algumas práticas.

Lembro-me, por exemplo, de um enterro.

Um cidadão virou-se para mim e disse:

- “Menino leve esta coroa de flores na frente do cortejo”.

Pronto. Bateu um acanhamento do tamanho do mundo. Descalço, calças curtas e carregando logo na primeira fila aquele adorno, foi um sacrifício sem medidas.

Queira ou não restou a má impressão para o resto da vida.

Na atualidade, não aceitaria mais esta incumbência, pois, continuaria envergonhado.

Mas, falando em coroa de flores, respeito e muito as pessoas que se dedicam a produzir e vender estes produtos. São trabalhadores e merecem nossos elogios, pois, batalham pela existência. Afinal, o sol nasce para todos.

No entanto, tenho cá meus posicionamentos. Nunca aceitei e continuo recusando, qualquer pedido para ajudar na compra de flores e assemelhados, nos casos de falecimentos. Em repartição pública, então, é um flagelo. Morre um parente distante de um colega e lá vem à lista de adesão para comprar estas lembranças.

Minha resposta sempre é não. Inclusive em nosso movimento vicentino.

Melhor direcionar os recursos para ajudar a família no pagamento de despesas, remédios ou imprevistos que surgem nestas ocasiões.

A família ficará mais consolada do que se receber da Conferência, por exemplo, uma coroa.

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36. Modéstia

Então chegou a época de eleições.

O número de concorrentes é tão elevado que a gente fica pensando com os botões da camisa:

- Parece que temos mais candidatos do que eleitores.

Em qualquer ambiente que você se encontre, sejam reuniões, aniversários, casamentos ou festas cívicas, o candidato, perdão, os candidatos estão lá, firmes.

De um modo ou de outro, eles conseguem emparelhar com cada um dos participantes, e com aquele jeitinho todo especial, santinho na mão esquerda e braço direito apoiado no ombro da “vítima”, repetem o discurso:

- Pois então. Estou aceitando a imposição de inúmeros amigos e resolvi concorrer a uma vaga de Deputado Federal. Nesta jornada cívica, não posso deixar de pedir e contar com seu valioso apoio, inclusive de seus familiares.

Um abraço comovido, com mais um apelo e segue em frente, pois, a seara é imensa e o tempo é curto.

Não pensem os caros leitores que estou aqui para criticar este ou aquela candidata.

Muito pelo contrário.

Ditado antigo reza: “Cobra que não anda não engole sapos”.

Eles e elas estão desempenhando os seus papeis. Afinal, gostemos ou não, a política é necessária e candidatos, precisam pedir votos que não caem do céu.

De minha parte desejo sinceramente, que todos se elejam, mesmo sabendo ser impossível.

Mas, falando em eleições, é de se lembrar que dentro da Sociedade Vicentina os cargos de presidentes são obtidos mediante votação. E se temos votação, logicamente existem os candidatos, que foram apontados ou que se apresentaram.

Aliás, sempre é bom repetir que, qualquer confrade ou consócia que preencha as condições regulamentares, pode apresentar-se e desejar ser candidato.

E não existe, também, a tal eleição prévia para indicar os três ou quatro mais votados.

Por exemplo, se oito foram indicados ou espontaneamente incluíram seus nomes, oito serão os candidatos. Este é um entendimento pacífico e regulamentar.

O que deve ser evitado, pelo fato de não condizer, principalmente com a humildade vicentina, é o cidadão, abordar os confrades e consócias, pedindo-lhes que votem em seu nome.

Neste caso, o melhor mesmo é que ele concorra a um cargo político e não a uma presidência vicentina.

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37. Música

Nas apresentações de corporações musicais em praça pública, um fato curioso sempre se repete - Alguns assistentes mais entusiasmados imitam o maestro, regendo, de seu lugar os componentes da orquestra ou banda.

E não é coisa de espantar, pois, temos embutido em nós, o espírito de maestria e quando menos esperamos, a mão acompanha os acordes da música e falsamente imaginamos como deve ser fácil reger um grupo de músicos.

Puro engano. Além do conhecimento desta tão importante arte, o maestro tem de possuir um ouvido apurado de modo a distinguir entre vários instrumentos, algum fora do tom. E como percebem.

Música e banda de música puxam conversa e notamos o costume cada vez mais acentuado, nas igrejas, reuniões de unidades vicentinas e outros grupos, dos cânticos e hinos serem acompanhados de palmas e gestos com os braços, gerando situações até engraçadas.

O ritmo é lento e os braços gesticulam lentamente. O ritmo é rápido e os participantes agitam os braços freneticamente.

Em algumas ocasiões, este comportamento prejudica até a compreensão da música, não permitindo que se possa apreciar convenientemente o conteúdo da letra.

Pude observar isto inclusive na minha Conferência que adota o saudável costume de cantar um verso e refrão do hino a São Vicente de Paulo após as orações regulamentares iniciais e do hino a Ozanam durante a realização da coleta.

As palmas conduziram os confrades e consócias a um cântico exageradamente lento no primeiro e rápido em demasia no segundo. Alguém acaba não conseguindo cantar adequadamente.

E não adianta reclamar ou ponderar. Os cânticos religiosos estão sob a regência de inúmeros maestros experientes que, com seus braços e mãos, improvisam a batuta, dando o tom que bem entendem.

Ou você entra na onda ou fica calado.

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38. Negativas

Este criado dos leitores, coisa de muitos anos atrás, lecionava no Colégio Comercial Plínio Alvarenga na cidade de Barbacena-MG.

Esta lembrança provoca saudade dos companheiros e amigos de magistério, dos alunos queridos e do respeito que existia, entre eles e o professor.

Hoje, infelizmente e com raras exceções, não existe mais esta aura de respeito do educando para com o educador.

Mas, por decisão do diretor, os professores de matérias técnicas foram encaminhados ao famoso Colégio Grambery em Juiz de Fora (RJ) onde tomariam conhecimento de um sistema de módulos para o ensino a que se dedicavam.

À noite os “professores”, todos entusiasmados com a carreira e o curso, vão a uma lanchonete. Tomam leite, café, apreciam as delícias lá fornecidas e pedem a conta.

Um deles, certamente para fazer justiça à função diz para o garçom:

- Por favor. Forneça o comprovante fiscal.

Era a época da promoção da Secretaria da Fazenda do Estado de Minas Gerais e que consistia em trocar a nota ou cupom, por Comprovante do Concurso “Seus Talões Valem Milhões”.

O dono do estabelecimento olhou-nos em desalento e a custo pôde emitir o solicitado. De longe dava para notar que ele estava atrasado com a obrigação e poderia cometer algum erro.

Dia seguinte, ou melhor, à noite voltam os quatro para novo lanche. O diálogo foi curto e bem entendido.

- Por favor. Leite e pão com manteiga.

- Não tem nem uma coisa e nem outra. Passem bem.

Reclamar não adiantava. O recurso foi voltar para o hotel e como não tinham dinheiro para um restaurante, foi dormir com fome.

Frequentemente, em nossas Conferências, somos procurados por verdadeiros “sabichões” com histórias por demais conhecidas de todos nós:

- Fui assaltado, estou em apuros e preciso voltar para a cidade de Manicoré, lá no Amazonas.

E neste caso ele nunca presta uma informação convincente e esclarecedora de como veio parar em nossa cidade, vindo de lugar tão distante.

O melhor a fazer é como o dono da lanchonete. Negar.

- Não temos dinheiro.

Pois sim!

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39. O disco

Já está bem longe o ano de 1956, em que muitos leitores sequer haviam nascido.

Este criado de vocês, nos momentos de folga gostava de viajar de carona de caminhão, ora com amigos, ora com meus irmãos. Divertia e trabalhava duro.

Numa delas, o roteiro seria de Barbacena a Nanuque, com passagem por Juiz de Fora e a maior parte estrada de chão. A parada para o almoço foi na cidade de Bicas.

Motorista, o amigo e eu pedimos pratos feitos, pelo fato de custarem menos. Enquanto aguardávamos, o proprietário liga seu aparelho de som, nele colocando o velho vinil com uma música de péssimo gosto.

O motorista não se conteve e comentou:

- Puxa vida. Mas que coisa horrível para os ouvidos.

Aconteceu, então, o imprevisto. O cidadão vai até o toca- discos retira o disco e quebra-o em vários pedaços. Continuamos fazendo nossa refeição, sem maiores comentários, para não ofender.

O leitor ou leitora, certamente já terá participado de alguma reunião vicentina, na qual aconteceram fatos semelhantes.

Ora é alguém a falar coisas sem nexo, com assuntos totalmente alheios à Sociedade. Ou então, um roteiro totalmente ultrapassado, com inversão de acontecimentos.

Em nossos encontros, um tempo para cada coisa deve ser a regra. Aliás, o Regulamento atual tem um roteiro ideal, para Conferências, Conselhos e Comissões de Jovens e que pode ser adaptado, também, por Obras Unidas e ou Especiais.

Quem o segue evita cometer falhas na condução dos trabalhos, que ao final ficam agradáveis aos olhos e ouvidos.

Evitemos cansar nossos confrades, consócias, aspirantes e visitantes.

Preferível ouvir elogios a reclamações como fizeram os três no restaurante.

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40. Olhares

Pelas ruas da cidade queiramos ou não, nossa visão é atraída para acontecimentos e situações as mais diferentes. Algumas, evidentemente tristes outras alegres ou pitorescas.

São figuras ou tipos que fazem o cotidiano e, embora para nós, algumas vezes possa parecer estranho, para outros é perfeitamente normal.

Nos encontros com essas pessoas, o pensamento da gente, sem querer, começa a deduzir coisas que nem sempre retratam a realidade.

Vejamos:

Na esquina, um cidadão com o braço direito apoiado numa tira de pano grosso e preso ao pescoço - Logo vem o mau pensamento - “Envolveu-se numa briga e levou a pior”.

Do outro lado da rua, outro se arrasta com a perna colocada numa peça de gesso - “Levou um tombo de motocicleta”. É o primeiro pensamento.

Mais alguns passos e encontramos outro com o nariz quebrado - “Brigou com a mulher e levou a pior”.

É incrível como temos a facilidade de fazer um mau juízo das pessoas, com um simples olhar.

Pois, a realidade muitas vezes é outra, bem diferente.

Se formos apurar os fatos, o do braço na tipoia está com uma enfermidade; o segundo, na verdade foi atropelado por uma moto; e o terceiro quebrou o nariz batendo numa porta de vidro, como aconteceu comigo há coisa de alguns anos.

Ou seja, antes de pensarmos errado ao dirigirmos nossos olhares para fatos e pessoas, melhor pensar mais positivo.

Em nossas visitas, aos caros assistidos, antigos vicentinos ensinam que devemos falar pouco, ouvir e observar mais.

Numa casa nosso olhar pode nos levar para uma mangueira de gás, que está vencida e necessitando de uma troca.

Numa outra, falta substituir a vela do filtro.

E ainda na terceira, nosso olhar constatará que aquela família está carente de roupas de frio e de cobertas ou que as crianças não têm sequer um chinelo para calçar.

Como se vê, muitas são as situações que podem ser corrigidas com uma atenta e minuciosa observação.

Em alguns casos, a necessidade é tão urgente que não dá para esperar a reunião da Conferência. Um medicamento por exemplo. Se o confrade ou consócia não puder resolver de imediato a situação, procure ou telefone para seu presidente.

Ele, como irmão mais velho terá a solução.

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41. Os desaparecidos

Gosto muito de recorrer a escritores famosos para ilustrar algum artigo.

Hoje recorro ao notável Jorge Amado, autor de vários livros nos quais retrata de modo peculiar acontecimentos fictícios ou reais do povo baiano.

Uma de suas obras e que não fica a dever nada a outras, é o Sumiço da Santa.

Nela ele conta a divertida história da visita de Santa Bárbara, à cidade de Salvador, onde se mistura ao povo e interfere nas vidas de duas personagens, Adalgisa e Manela.

É uma verdadeira história de “feitiçaria” recheada de passagens cômicas e que leva o leitor, a dar boas gargalhadas com as confusões que acontecem a cada página.

A Santa sumiu e custou a ser encontrada.

Desaparecimentos ocorrem com muita frequência.

A campeã em sumir, sem dúvida alguma, são as canetas esferográficas. Você pode comprar uma dúzia e recomendar cuidados a quem convive em seu meio que não adianta - elas tomam rumo ignorado.

Pastas, cadernos, agendas de anotações, celulares, relógios, dentaduras, óculos e mais uma variedade de objetos somem, desaparecem deixando seus proprietários em situações desconfortáveis, para dias depois darem o ar da graça.

Na Sociedade de São Vicente de Paulo não é diferente.

Lembro-me, por exemplo, do sumiço do Livro de Atas da Plenária Mineira, um acontecimento importante a envolver todos os Conselhos Metropolitanos e Centrais de nosso Estado. Hoje este evento sofreu modificações para adaptar-se aos tempos atuais.

Mas o livro - bem, o livro tomou como se diz, o tal analgésico para dor de cabeça e sumiu.

Agradeço qualquer informação sobre seu aparecimento, se tal aconteceu, e quem foi o salvador da Pátria nessa verdadeira façanha.

Somem livros, somem Cartas de Agregação e de Instituição e o Conselho Nacional do Brasil constantemente é solicitado a encaminhar pedidos de segunda via.

Não deixa de ser preocupante, este descuido, ou até mesmo desmazelo com o patrimônio móvel de nossa caríssima Sociedade, embora se reconheça a existência de pessoas cuidadosas com os objetos sob sua responsabilidade.

Por incrível que possa parecer, o Sumiço da Santa do Jorge Amado encontra em nossos meios vários exemplos.

Mas, podemos e devemos fazer nossa parte para modificar este quadro.

Está no querer.

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42. Os Geraldos

Barbacena, cidade situada no alto da Serra da Mantiqueira, no Estado de Minas Gerais, conhecida como de ótimo clima para tratamento de doenças mentais e famosa pela produção de rosas tem uma Sociedade Vicentina bem forte.

Lá pela década de 50 iniciou-se um movimento curioso formado por confrades todos com o nome de Geraldo.

Uma vez por ano, o grupo de encontrava na Conferência de São Geraldo para uma visita amiga. Era Geraldo Nascimento, Geraldo Toledo, Geraldo Dias de Castro, Geraldo “Carteiro”, Geraldo “Magaia”, Geraldo Mariano e outros tantos “Geraldos” que militavam assiduamente em suas respectivas Conferências.

Embora lá residisse, nunca tive o privilégio de participar de uma reunião dessas e compreendo, pois, afinal não me chamo Geraldo.

Coincidência ou não, o movimento perdeu força com a entrada do elemento feminino naquela cidade a partir de 1965. As “Geraldas” também não tiveram a chance de participar.

O que chamava a atenção nesta visita é o espírito de camaradagem tão comum em nossa Sociedade além da busca de unidade.

Houve época, também, em que não só confrades e consócias procuravam visitar em grupo a uma determinada Conferência de outra cidade.

Este costume, infelizmente em muitas regiões está caindo em desuso.

É pena. Embora algumas vezes dependam de algum investimento, são necessários para a manutenção do Espírito de União dentro da Sociedade.

Imitemos os “Geraldos”. Retomemos este costume.

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43. Participação

Busco no relógio do tempo, fatos presenciados por mim no passado e que, até hoje observamos em nossas reuniões.

Em minha antiga Conferência, na cidade de Barbacena, este fato acontecia com muita frequência:

Reunião já em andamento, ele, o confrade, por sinal meu compadre, chegava.

Precavidamente, não fazia a saudação, para não atrapalhar a leitura espiritual ou da ata.

Entrava, pé ante pé e se dirigia para perto da imagem do padroeiro, colocada perto da mesa de direção.

Colocava-se de joelhos, tirava o inseparável chapéu, erguia os braços em súplica e naquela posição permanecia por alguns minutos.

Acertou quem concordar que ele incomodava e muito com aquela encenação.

Afinal, ninguém prestava atenção na leitura e sim na apresentação dele.

Lá pelas tantas, no momento da palavra franca ou livre, invariavelmente pedia para se manifestar e sempre tinha um assunto atual.

- Senhor Presidente. Tenho observado que muitos de nossos confrades não estão cumprindo religiosamente com seus deveres. Faltam às visitas sem motivo e sequer apresentam justificativas.

É o tal negócio. Pelo menos era zeloso no desempenho de suas tarefas.

Mas, voltando aos que incomodam muitos de nossos confrades e consócias deveriam repensar como estão chegando, às reuniões após o seu início.

O ideal é procurar a pontualidade. Mas, alguns fatores podem prejudicar esta virtude.

Ora é o ônibus que não passou no momento certo, o pneu da bicicleta furou, o carro não quis dar a partida e assim por diante. São vários os exemplos.

Mas, se acontece com você procure proceder de tal modo a não incomodar aos que puderam chegar antes.

Entre na sala, sem fazer barulho. Acomode-se no seu banco ou cadeira em silêncio.

E assim permaneça até ser chamado.

Aí, meu caro ou minha cara, levante-se e diga alto e bom som a sua saudação.

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44. Sinceridade

Dois tipos de pessoas são muito sinceros no modo de se expressarem: Os idosos e as crianças.

E fazem perguntas a deixarem embaraçados quaisquer uns. Minha neta há poucos dias indagou de sua genitora:

- “Mamãe, já que as pessoas quando morrem vão para o céu, o que acontecerá quando ele ficar cheio?”

A resposta:

- Filhinha o céu é muito grande e não vai ficar lotado.

A réplica não tardou:

- A senhora já esteve lá?

Já! Minha mãe falecida com a invejável idade de noventa e dois anos veio visitar este criado dos leitores. Minha esposa pediu à Conferência dela, formada apenas por consócias para efetuarem uma coletiva àquela senhora idosa.

Vieram quatro vicentinas e a conversa foi muito cordial.

Ao final, após a saída das visitadoras, minha mulher perguntou:

- E aí, dona Odete, a senhora gostou da visita?

Resposta rápida, também:

- Nem um pouco. Somente elas conversaram. Eu não pude falar nada!

A visita ao nosso assistido deveria ser observada por este lado.

Confrades e consócias existem, e não são poucos, a ocuparem todo o tempo de permanência na casa daquela pessoa, com recomendações, perguntas, informações, sobre este ou aquele assunto, de tal modo a não permitirem a livre expressão do visitado.

Chegam e mal se acomodam, dão início ao falatório, sufocando nosso caro assistido.

Devemos, caros Vicentinos, adotar sim, um procedimento mais ameno.

Temos o direito sim de falar o que for necessário.

Mas, manda a boa norma do visitador que ele ouça mais levando com doçura e caridade, a pessoa a se abrir revelando suas verdadeiras necessidades.

Quando sairmos que ele ou ela pense lá com suas tristezas e amarguras diárias:

- Fiquei feliz com a presença. Que Deus o proteja sempre.

Afinal, a bênção do Pobre é a bênção de Deus.

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Capa 4
Histórias. Narradas de forma convincente, elas nos mostram a singeleza da dedicação e do compromisso assumido por alguém que, durante anos e anos dedica-se com todas as forças de sua sabedoria e do seu encanto ao serviço dos mais necessitados na Sociedade de São Vicente de Paulo. Sensibilidade a toda prova quando se trata em olhar os Pobres e fazer algo por eles. Compromisso Cristão e Vicentino que faz que sua vida seja dedicada aos únicos e exclusivos representantes de Jesus Cristo sobre a face da terra, os Pobres. Olhar atento, buscando nas coisas simples a manifestação da essência do Evangelho: o amor efetivo e a caridade para com os necessitados.
“Há coisas de anos, numa visita à localidade de Córrego do Arroz, próxima a Governador Valadares, os confrades e consócias estavam desanimados, pois o lugarejo não tinha “Pobre”. Com uma simples orientação, a Conferência de Nossa Senhora Aparecida, no momento da reunião, conseguiu localizar para mais de trinta pessoas carentes de uma visita”.

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Hélio Pinheiro da Cunha

Rua Trinta de Janeiro, 216

Bairro Grã-Duquesa

Governador Valadares-MG

35057-495

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(33) 3276-1159

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