Textos

Historicidade da Eucaristia

 

Tese de Conclusão do Curso de Teologia

 

Lourenço Mika

 

Sob a orientação do Prof. José Carlos Fonsatti, CM

 

Studium Theologicum – Pontifícia Universidade Católica

 

Curitiba, outubro de 1991

 

-        Índice..............................................................................................................

-        Dedicatória......................................................................................................

-        Apresentação..................................................................................................

 

1 – Antigo Testamento..........................................................................................

1.1 – Religião: Fênomeno desde a Pré-História................................................... 01

1.2 – Israel: O Povo da Aliança.......................................................................... 04

1.3 – Os sacrifícios Pré-Mosaicos...................................................................... 07

1.4 –A Páscoa de Moisés e o Êxodo.................................................................. 10

1.5 – O Maná do deserto................................................................................... 17

1.6 – As 5 espécies de sacríficio........................................................................ 19

1.7 – Os sacríficios na terra Prometida.............................................................. 21

1.8 – Os escritos sapienciais............................................................................. 26

1.9 – Os profetas de Israel................................................................................ 27

 

2 – Novo Testamento........................................................................................ 30

2.1 – “Novum Testamentum”?........................................................................... 30

2.2 – Israel: Familiaridade com pão e vinho........................................................ 32

2.3 – Os relatos da Ceia de Jesus..................................................................... 34

2.4 – Morte e Ressurreição de Jesus................................................................. 38

2.5 – As primeiras ceias cristãs.......................................................................... 45

 

3 – História da Igreja......................................................................................... 47

3.1 – Os tempos Apostólicos............................................................................. 47

3.2 – Os Padres Apostólicos e os Apologetas..................................................... 50

3.3 – A Teologia Alexandrina............................................................................. 53

3.4 – Os antioquenos pré-efesinos..................................................................... 55

3.5 – Os padres Latinos.................................................................................... 57

3.6 – A Escolástica............................................................................................ 60

3.7 – Os Reformadores..................................................................................... 63

3.8 – O Concílio de Trento: Transubstanciação................................................... 66

 

4 – Renovação no Século XX............................................................................. 69

4.1 – Pio X (1905)............................................................................................. 69

4.2 – Pio XII (1947)........................................................................................... 70

4.3 – Concílio Vaticano II(1962-1965)................................................................. 71

4.4 – Paulo VI (1965)........................................................................................ 73

4.5 – Missal Romano (1963).............................................................................. 74

4.6 – João Paulo II (1979-1981)......................................................................... 77

4.7 – S. C. para os sacramentos e o Culto Divino (1980)..................................... 82

4.8 – Prática Pastoral na América Latina (1968-1979)......................................... 85

 

5 – Aspectos Litúrgicos – Pastorais da Eucaristia................................................ 88

5.1 – Congressos Eucarísticos........................................................................... 88

5.2 – Símbolos Litúrgico-Eucarísticos................................................................. 92

5.3 – O Santo Sudário....................................................................................... 97

5.4 – A Páscoa Judaica de Hoje....................................................................... 103

5.5 – A Festa de “Corpus Christi”..................................................................... 106

5.6 – Sagrado Coração de Jesus..................................................................... 110

 

- Epílogo......................................................................................................... 116

-Bibliografia..................................................................................................... 119

 

Dedicatória:.

Dedico a presente pesquisa “A Eucaristia na História” ao meu pai Francisco Mika e à minha mãe Verônica Josepha Sicora Mika que me ensinaram a ter uma compreensão histórica do homem,do mundo e de Deus.

A eles a minha gratidão:

Aos mestres, colegas e irmãos, que cultivaram em mim esta semente do “Prisma Histórico”, o meu reconhecimento:

Meu propósito é: fazer desabrochar o que em mim foi semeado, para que redunde em frutos de amor e paz na sociedade humana:

 

 

Do autor - : Lourenço Mika

 

 

Apresentação

 

A presente tesina intitulada “A Eucaristia na História” é uma tentativa de sintetizar a evolução pela qual atravessou o Sacramento da Eucaristia-: desde os idos pré-históricos, o homem tentou relacionar-se com um ser superior; com as primeiras civilizações sobre a face da terra, apareceram os Sacríficios. Israel- o Povo Escolhido de Jahvé-, desenvolveu a prática da Ceia Pascal. Jesus Cristo, o Messias anunciando pelos profetas do Antigo Testamento, selou a Nova Aliança com o seu sacrifício na Cruz e ressurreição. Em memória destes eventos salvíficos, a Igreja Cristã elevou a Eucaristia à categoria de Sacramento.

Os 20 séculos de História da Igreja mostraram que a Eucaristia é o maior mistério da Fé Cristã. Ela sintetiza o Plano de Redenção da humanidade. Ela traz a exigência moral do amor e Deus e ao próximo. Ela sugere uma convivência humana de amor e paz. Ela promete a ressurreição do homem para a vida em plenitude. Ela, diviniza a criatura humana, dotando-a de imortalidade.

Face a Mistério tão grande e tão próximo de nós, tentarei, mostrar que Deus se revela na e pela História. A “teologização” de fatos tidos por naturais é o caminho seguro da Revelação de Deus Criador ao homem e ao mundo. As Sagradas Escrituras hebraicas herdadas pelo Cristianismo, constituem base inabalável para a Vida Eucarística, bem como para a especulação. A minha intenção é anunciar à humanidade por meus lábios e por minhas palavras o Evangelho da Eucaristia.

 

 

O autor -: Lourenço Mika

 

 

1.- Antigo Testamento

1.1.- Religião: Fenômeno Humano desde a Pré-história

A Ciência Histórica afirma que há muito e muito tempo atrás surgiu um enorme número de Galáxias no espaço sideral. Das explosões de gigantescas Nebulosas, por geração espontânea (Empédocles 432 A.C.) ou pela criação (Gn 1,1) formaram-se os astros. O Sol, a nossa estrela, recebeu também 9 planetas que circulam ao seu redor em órbitas elípticas, dos quais o 3º é o nosso planeta denominado: Terra.

A idade provável da Terra é de 4.600.000.000 de anos. No início, a Terra era uma massa incandescente girando no Espaço. Esfriando pouco a pouco, transformou-se num deserto de rochas enrugadas envolto por espessas nuvens que originaram grandes chuvas seculares. Formaram-se então geleiras que invadiram uma parte do globo, regredindo depois na direção dos pólos. A Geologia distingue 5 Eras na evolução da Terra:

a)      Era arqueozóica: há mais ou menos 4.600.000.000 anos-:

                                 Ainda nenhuma espécie de vida.

 

b)      Era Proterozóica: há 1.100.000.000 anos:

                                 Primeiros sinais de vida aquática.

 

c)      Era Paleozóica: entre 600.000.000 e 275.000.000 anos

                               Atrás: Surgiu a fauna marinha, os reptéis e

                               Alguma vegetação.

 

d)      Era Mezóica: há 225.000.000 a 140.000.000 anos atrás:

                          Formou-se a flora atual; figuraram

                          Gigantescos répteis e aves.

 

c) Era Cenozóica: épocas e principais eventos:

-        há 75.000.000 anos: Paleoceno: mamíferos placentários

-        há 55.000.000 anos: Eoceno: extinção dos primeiros

mamíferos.

-        há 35.000.000 anos: Oligoceno: mamíferos superiores ou

primatas.

-        há 23.000.000 anos: Mioceno: início das glacificações.

-        há 12.000.000 anos: Plioceno: primeiros hominídeos.

-        há 1.000.000 anos: Pleistoceno: homem primitivo.

-        até hoje: Holoceno: Homens e animais modernos.

 

A Paleontologia e o recente método do Carbono 14 forneceu estes dados sobre os fósseis humanos:

 

a)      Austrolopithecus Africanus: viveu no Plioceno, há cerca de 1.500.000 anos, na África do Sul.

b)      Pithecantropus Erectus: viveu no Pleistoceno, há mais ou menos 500.000 anos, em Java.

c)       Sinanthropus Pequinensis: viveu há 300.000 anos na China.

d)      Homo de Neanderthal: viveu entre 200.000 a 50.000 anos atrás. Habitou a Europa, Ásia Menor e Norte da África.

e)      Homo de Heidelberg: viveu no Norte da Europa.

f)        Homo de Cro-Magnon: viveu no Paleolítico Superior, há uns 30.000 anos, expandindo-se por todo o globo terrestre a partir da Europa. Era de estatura superior a 1,80m e de acuidada capacidade craniana. Trabalhou a pedra, o osso, o chifre, e as peles animais. Morava em cavernas e depois em tendas.

Deixou belíssimas pinturas nas cavernas. Foi o primeiro ser humano a ter preocupações religiosas, isto é, a magia.

Qual foi, então, a manifestação religiosa deste grupo humano pré-histórico de há 30.000? Vejamos + nas paredes das cavernas se desenvolveu um acontecimento extraordinário; foi o nascimento da arte. Sem dúvida, os desenhos de animais tinham um valor mágico, pois as feras assim fixadas seriam abundantes, como se acreditava. As estatuetas femininas chamadas “Vênus pré-históricas” eram ligadas aos ritos da fecundidade. O rito fúnebre assume um cerimonial definido: nas tumbas são depositados alimentos e utensílios, os corpos são tingidos com ocre, quase como a lhes dar as cores da vida, primeiros testemunhos de crenças em outro mundo.

As descobertas arqueológicas mais importantes estão nas cavernas da Espanha (Altamira, Alpera) da França (Lascane, Ruoffignac, Ariége) e do Saara (Tassili). Nas pinturas pré-históricas ali encontradas as cores mais usadas são o vermelho, o amarelo e o preto.

As pinturas, quase sempre, estão localizadas nas partes mais profundas das cavernas, o que leva a crer que se tratasse de cenas de magia. Ali teriam sido feitas orações e inovações dos espíritos para favorecerem aos caçadores, numa época de fome para os reduzidos grupos humanos que perambulavam nas florestas. Era o despertar do sentimento de beleza e religiosidade no seio da humanidade. O Sol foi uma das primeiras divindades a serem adoradas.

Do ano 5.000 a.C. para cá, o sentimento religioso assume um caráter decisivo. Temas religiosos foram os primeiros objetos da escultura; com o aparecimento da escrita, eles ganham vulto. As civilizações primitivas refletiram a já preocupação pelo futuro do homem. Basta ver no Egito as mumificações dos Faraós, cujo símbolo maior são as Pirâmides de Queops, Quefrém e Miquerinos (mais ou menos 3.000 a.C.) e a crença de que cada homem comparecerá perante o tribunal de Osiris.

Em todas as civilizações antigas está presente o fenômeno religioso, sob diversos aspectos: Os Mesopotâmicos, com suas trindades e teogonias; os Persas, adoradores do fogo; os Gregos, com as religiões mistéricas; os Romanos, com o culto ao imperador; os Germânicos, com suas lendas e magias; os Chineses, com o Budismo; os Hebreus, com sua História da Salvação.

E a pré-história da religião dos ameríndios? Sim, ela existiu, e com traços muito singulares. As três grandes tribos Maias, Incas e Astecas desenvolveram uma cultura e religião tão ou mais avançadas que as das civilizações da Europa e do Oriente Próximo. Os ameríndios usavam o “cachimbo” da paz, adoravam o Sol e ofereciam holocaustos animais. Tribos amazônicas praticavam o canibalismo ritual, pois acreditavam que assim adquiririam as qualidades dos bravos guerreiros capturados, decapitados e manducados.

Até aí pode-se ter notado que o homem é religioso por natureza. Já o filósofo grego Aristóteles dizia que o ser humano é um animal racional que tende a viver em sociedade por causa de um fim comum. E é o que se verifica na História: a humanidade sempre se organizou em comunidades, crendo-se subjugada a um Criador e Juiz.

Desde muito cedo lhe nasceu o sentimento de Sacro e Profano.

 

1.2. Israel: O Povo da Aliança

 

Por volta do ano 1850 a.c. começou a história do povo de Israel, com o Patriarca Abraão. De acordo com uma genealogia apresentada pela Sagrada Escritura (Gn. 11, 10-32), Abraão era um nômade natural de Ur da Caldéia que se estabeleceu em Canaan (Gn. 11,31). Abraão era descendente de Heber (Gn. 11, 14-17), daí seu cognome de “Hebreu”, passou a se chamar “Abraão” (Gn. 17, 5), isto é, “Pai de uma multidão”.

Abraão aceitou ser parceiro de uma Aliança que o próprio Deus lhe oferecerá: “Eu dou esta terra aos teus descendentes, desde a torrente do Egito até o grande rio Eufrates” (Gn. 15, 18). E Abraão teve um filho com sua mulher: “É Sara tua mulher que te dará à luz um filho, a qual chamarás Isaac. Farei Aliança com ele, uma aliança que será perpétua para os seus descendentes depois dele” (Gn. 17, 19). A descendência de Abraão seria mais numerosa que as estrelas do céu (Gn.15, 5).

Já antes, este Deus fizera, Aliança com Noé: “Eu vou fazer uma Aliança convosco e com vossa posteridade”(Gn. 9, 9). Este Deus revelar-se-ia a Moisés como Jahvé: “Eu sou Aquele que sou” (Ex. 3, 14).

Isaac, fruto da Aliança entre Deus e Abraão, gerou Jacó (Gn. 25, 25). “Os fillhos de Jacó foram em número de doze: Filhos de Lia: Rúbem, Simeão, Levi, Judá, Issaacar e Zabulon. Filhos de Raquel: José e Benjamim. Filhos de Bala, escrava de Raquel: Dan e Neftali. Filhos de Zelfa, escrava de Lia: Gad e Aser”. (Gn. 35, 23-26). Estes doze filhos tornar-se-iam aos doze Patriarcas de Israel, isto é, das doze tribos, uma vez que Jacó receberá o nome de ‘Israel’ (Gn. 32, 28), ou ‘aquele que lutou com Deus’.

Israel, o Povo escolhido pelo Senhor (Lv. 26, 12; Ex. 6, 7) passou por muitas provações. A primeira foi o cativeiro egípcio, quando os doze filhos de Jacó desceram para o Egito num tempo de carestia, como fora anunciado em (Gn. 15, 13): ‘Sabe que teus descendentes habitarão como peregrinos uma terra que não é sua, e que nessa terra eles serão escravizados e oprimidos durante 400 anos”. E foi o que realmente ocorreu (Ex. 12, 40), entre os séculos XVII e XIV ª c.. Então surgiu Moisés (Ex. 2, 10), o qual conduziu o povo pelo deserto durante 40 anos (Ex. 16, 35), onde o povo passou por uma purificação e houve a Aliança do Sinai: “Eis, disse Moisés, o sangue da Aliança que o Senhor fez convosco, conforme tudo o que foi dito” (Ex. 24, 8). No Monte Sinai, Moisés recebeu de Jahvé a Lei (Ex. 20, 1-17), a qual era uma expressão da Aliança: “Moisés ficou junto do Senhor 40 dias e 40 noites, sem comer pão nem beber água. E o Senhor escreveu sobre as tábuas o texto da Aliança, as 10 palavras” (Ex. 34, 28). As tábuas da Lei, foram guardadas dentro da Arca da Aliança (Ex. 25, 16).

A Israel foi confiada uma missão salvífica universal: “Se obedeceres à minha voz e se guardares minha Aliança, vós sereis o meu povo particular entre todos os povos. Toda a terra é minha, mas vós sereis um reino de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex. 19, 5-6). Israel levou a Arca da Aliança (Js. 3, 17) para a Terra Prometida de Canaan (Js. 5, 12), onde se estabeleceu. O Rei Salomão (mais ou menos 950 a.c.) construiu o majestoso templo de Jerusalém, no qual foi depositada a Arca da Aliança (IRs. 8, 6. 9, 21).

Os profetas anunciavam uma renovação da Aliança pelo século VII a. c.. Diz o livro de Jeremias: “Dias virão em que firmarei Nova Aliança com as casas de Israel e de Judá… incurtilhe-ei a minha Lei; gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo”. (Jr. 31, 31-33). Ezequiel completa: “Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne. Dentro de vós meterei meu Espírito, fazendo que obedeçais as minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos… sereis o meu povo e serei vosso Deus” (Ez. 36, 26-28).

Aí aconteceram os dois cativeiros: O Reino do Norte (Israel: 10 tribos) sediado em Samaria, caiu em poder da Assíria em 722 a. c.; o Reino do Sul (Judá= 2 tribos: Judá e Benjamim), sediado em Jerusalém, caiu em poder da Babilônia em 587 a. c.. Contudo, o profeta Isaías anunciava o Messias, mediador da nova e definitiva Aliança: “O Senhor vos dará um sinal: que a Virgem conceba e dê à luz um filho, e o chame Emanuel-Deus conosco” (Is. 7, 14). E Israel e Judá voltaram do cativeiro (Ez. 39, 27).

Chegada a Plenitude dos tempos, Deus enviou seu próprio Filho Jesus Cristo para recapitular todas as coisas (Ef. 1, 10). E Jesus instituiu a Nova e eterna Aliança pelo seu Sacrifício da Cruz e pela Eucaristia: “Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado em favor de vós” (Lc. 22, 20). “Eis porque ele é mediador de uma Nova Aliança. A sua morte aconteceu para o resgate das transgressões cometidas no regime da primeira Aliança” (Hb. 9, 15).

Jesus fundou a Igreja, expressão desta Aliança: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei minha Igreja” (Mt. 16, 18). Para fazer parte desta Nova Aliança, o homem deve seguir este preceito moral: “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens e dá aos pobres, e terás um tesouro nos céus. Depois, vem e segue-me”… (Mt. 19, 21).

 

1.3.- Os Sacrifícios Pré-Mosaicos

 

De acordo com os relatos Bíblicos, o ser humano é uma criatura privilegiada. O Deus criador (Gn. 1, 1-2, 7) é diferente do mundo e do homem. “Deus criou o homem à sua imagem: ele criou-o a imagem de Deus, e criou-os homem e mulher” (Gn. 1, 27): o ser humano é a única criatura dotada da palavra (Gn. 2, 20), hoje palavra falada, escrita, irradiada televisionada. O homem é o senhor de toda criação (Gn. 1, 28), ele deve dominá-la. O homem foi criado para a felicidade, isto é, para viver em comunhão com o Criador; contudo, pelo pecado o homem perdeu esta amizade com o Criador. E Deus não o abandonou. Para redimí-lo, Deus enviou ao mundo seu próprio Filho Jesus Cristo sob a forma humana: “Ele tinha a condição divina e não considerou o ser igual a Deus… assumiu a condição de servo, tomando a semelhança humana” (Fl. 2, 6-7). Jesus foi homem, e não um outro animal, vegetal, mineral… qualquer. Aí é que está a dignidade humana.

As maiores religiões da humanidade possuem características comuns: uma doutrina mística, um culto, uma moral. O estudioso Berthelemy assim define a religião: “É o reconhecimento de um de mais poderes que o excedem a respeito dos quais ele se sente dependente e com os quais se esforça para entrar em relação para lhes aplacar a cólera ou para lhes conquistar a benevolência, por todo um sistema de práticas individuais ou coletivas: oração, ritos, culto, sacramentos” (Visão Cristã do Homem e do Universo, pg. 35).

Todas as religiões da face da terra insinuam lugares e coisas sagradas. Na maioria delas há alguma espécie de sacrifício (Sacrum facere) como forma de culto.

O “Deus” das Sagradas Escrituras hebraicas apresenta-se como único e verdadeiro: “Eu sou o Senhor teu Deus que te fez sair do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem figura alguma… não te prostrarás diante delas e não lhes prestará culto. Eu sou o Senhor” (Ex. 20, 2-5). Mas e antes desta revelação do Sinai?

A própria Bíblia reconhece que o homem não entra em comunhão direta com o Deus Criador. Já antes de Moisés e mesmo de Abraão os “pagãos” da Ásia Menor se relacionavam de algum modo com as divindades. A forma mais conhecida era o sacrifício. Acreditavam eles que a fumaça que subia era de agradável odor aos deuses e que em troca eles mandariam bênçãos para os rebanhos e para as plantações.

Dois personagens lendários da Pré-História Bíblica… (Gn. 1, 1-11) ofereceram sacrifícios a seu modo:

a)      Abel: ele “ofereceu dos primogênitos do seu rebanho e das gorduras dele; e o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oblação” (Gn. 4, 4). Já o seu irmão Caim “ofereceu frutos da terra em oblação ao Senhor… mas o Senhor não olhou para Caim, nem para os seus dons” (Gn. 4, 3-5).

b)      Noé: este “levantou um altar ao Senhor: tomou de todos os animais puros e de todas as aves puras e ofereceu-os em holocautos ao Senhor sobre o altar. O Senhor respirou um agradável odor…” (Gn. 8, 20-21).

Já na História da Salvação encetada por Abraão, cedo aparece Melquisedec, personagem símbolo do Messias, Rei e Sacerdote (Hb. 7, 1-3) que oferecia pão e vinho: “Melquiesedec, Rei e Salém, trouxe pão e vinho, pois era sacerdote do Deus Altíssimo, e abençoou Abraão, dizendo: Bendito seja Abraão pelo Deus Altíssimo, Senhor do céu e da terra. Bendito seja o Deus Altíssimo que pôs os teus inimigos em tuas mãos” (Gn. 14, 18-20). Aí está a prefiguração mais remota das espécies do Cristo Eucarístico: Pão e Vinho.

Abraão presidiu dois sacrifícios de Alinça: No primeiro Abraão seguiu o ritual então corrente de um contrato familiar, pois o Senhor lhe ordenou : “Toma uma novilha de 3 anos uma cabra de 3 anos, 1 cordeiro de 3 anos, uma rola e um pombinho. Abraão, tomou todos esses animais e dividiu-os pelo meio, colocando suas metades uma defronte da outra; mas não cortou as aves… quando o sol se pôs, formou-se uma densa escuridão e eis que um braseiro fumegante e uma tocha ardente passou pelo meio das carnes dividas. Naquele dia o Senhor fez Aliança com Abraão” (Gn. 15, 9-10. 17-18). O rito acima descrito era usado nas alianças entre famílias quando os dois contraentes passavam pelo meio das carnes divididas pronunciando uma fórmula como esta: “que me aconteça o que aconteceu com estes animais se eu não for fiel à promessa”. O ‘braseiro fumegante’ é uma Teofania usada pelo autor do texto. Esta foi uma Aliança entre Deus e Abraão: Aliança unilateral, incondicional, irreversível e um testamento: “Eu dou, disse o Senhor, esta terra aos teus descendentes…”(Gn. 15, 18-21).

O outro sacrifício de Abraão foi a quase imolação de seu filho Isaac: “Disse Deus: toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac; e vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que eu te indicar… O anjo do Senhor, porém gritou-lhe do céu: Abraão, Abraão: não estendas a tua mão contra o menino, e não lhes faças nada. Agora eu sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu próprio filho, teu filho único. Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos; e tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho” (Gn. 22, 2. 11-13). O sacrifício do primogênito era um costume arraigado entre os pagãos da Cananéia. Abraão, contudo, recusou-se a tal, interpretando tal prática como não agradável a Deus. A figura do anjo também é um símbolo teofânico.

Jacó também “ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer” (Gn. 31, 54). O interessante é que os hebreus não sacrificavam nem cultuavam os mortos. Eles acreditavam que os mortos estavam no Scheiol ou Hades, que era meramente o lugar dos falecidos ou dos justos, conforme Gn. 37, 35: “É chorando, disse Jacó, que descerei para junto de meu filho na habitação dos mortos”, e Gn. 25, 7-8: “Eis a duração da vida de Abraão: ele viveu 175 anos, e entregou sua alma, morrendo numa ditosa velhice, em idade avançada e cheio de dias, e foi unir-se aos seus”.

Aí a indagação: qual a diferença dos sacrifícios de Melquisedec, de Abraão e de Jacó das outras correntes entre os cananeus? Objetivamente, nenhuma. Porém, Deus se revela na e pela História. É preciso descobrí-lo na natureza e nos fatos corriqueiros. Ele se manifesta a cada um dos seres humanos, numa experiência individual. Mas ele desaprova os que “sacrificaram a gênios, que não são Deus, a deuses que desconheciam, deuses recém-chegados que vossos pais não tinham temido” (Dt. 32, 17).

 

1.4. – A Páscoa de Moisés e o Êxodo

 

O pensamento israelita procura os sinais da presença divina num domínio que as mitologias não sacralizavam: o domínio da história. Deus se revela pelos seus atos salvíficos, dirigindo o curso dos acontecimentos de que é tecida a experiência humana. Israel cedo aprendeu a entrever a ação de Jahvé nos fatos sociais. Pela afirmação do monoteísmo, o “sacrum” perdeu ali essa ambigüidade que, noutros povos, conduzia à divinização das criaturas. Os profetas de Israel interpretavam-lhe a voz de Deus.

Para o antigo mundo semita (Sem=Gn. 9, 18), uma refeição qualquer, especialmente uma refeição em comum, tinha um significado que o homem moderno muitas vezes não consegue avaliar. A reunião à mesa, por exemplo, implicava um compromisso para com os comensais, pelo que comer e beber juntamente se tornavam num processo capaz de selar um contrato, como o que foi firmado entre Jacó e Labão: “Vamos: façamos juntos um pacto que nos sirva de testemunho a nós dois; Jacó tomou uma pedra e erigiu-a em monumento. E disse aos seus parentes: Trazei pedras. E tendo juntado muitas, comeram sobre elas… Ele ofereceu um sacrifício sobre a montanha e convidou seus parentes para comer. Eles comeram e passaram a noite na montanha. No dia seguinte, Labão beijou seus filhos e suas filhas; abençou-os e retomou o caminho de sua cas” (Gn. 31. 44-46. 54-55). A traição por parte de um comensal era um ato particularmente pérfido, como dirá o salmista: “Até o próprio amigo em quem eu confiava, que partilhava do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Sl. 41 (40), 10).

O “sacrum” já se encontrava presente no ato importante, misterioso e cheio de simbolismo, de tomar o alimento. Essa refeição era tomada num contexto sagrado. Era o "sacrifício da comunhão”, ou seja, a oferta da paz, em que se queimava parte de um animal sobre um altar de pedras, sendo a outra parte cozida e comida pelo oferente. Os fiéis sentiam certamente que esta refeição os punha de forma particularmente solene, em comunhão, não apenas entre si, mas também e especialmente com a divindade.

Todavia, a maneira exata como se efetuava esta comunhão com o seu Deus não é coisa clara. Sentir-se-iam partilhando de uma refeição com Ele? Alguns vizinhos (pagãos) entendiam o culto sacrifical como uma alimentação dos deuses. Mas em Israel, o que se colocava no altar, não era se quer considerado como porção comestível (Lv. 33; 7, 22-27). Os autores do Antigo Testamento insistiam sobre o fato de o Deus de Israel não precisar do que lhe traziam os seus adoradores: “se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis” (Sl. 51 (50), 18) (também Os. 6, 6; Is. 1, 11). O animal imolado, num certo sentido, partilhado com a divindade, por quanto parte dele era queimado e, o que talvez seja mais importante, a refeição era tomada num contexto sagrado. Seja qual for a razão esta, os israelitas olhavam este rito como um meio privilegiado de comunhão com o Deus da Aliança.

A refeição sagrada que merece mais atenção no Antigo Testamento é a Ceia Pascal. Seria errado, no entanto, considerá-la simplesmente como uma espécie particular de “sacrifício de comunhão”. Embora muito cedo se associasse a este rito (Ex. 12, 27; 23, 18; 34, 25), as duas coisas podem muito bem ter tido origens completamente independentes.

Voltando ao contexto histórico: pelo século VIII a.c.. Jacó e seus filhos emigraram para o Egito (Gn.46, 7). Ali seus filhos, netos e bisnetos se multiplicaram. E os israelitas tornaram-se escravos dos egípcios, durante 430 anos (Ex. 12, 40). Aí é que nasceu Moisés (Ex. 2, 2), da tribo de Levi; Moisés, porque “Mosché” significa em hebraico: nascido ou retirado das águas (Ex. 2, 10). Moisés creceu na corte egípcia (Ex. 2, 9); “um dia em que ele saiu para ir ter com seus irmãos, foi testemunha de seus duros trabalhos, e viu um egípcio ferindo um hebreu dentre seus irmãos”(Ex. 2, 11). E fugiu para Madian (Ex. 2, 15), onde se casou com a filha de Jetro, sacerdote de Madian (Ex. 3, 1). Foi ali no monte Horeb (Ex. 3, 1) que Jahvé se lhe revelou como o “Eu sou Aquele que sou” (Ex. 3, 14) e lhe confiou a missão: “vai junto de Faraó para tirar do Egito os israelitas, meu povo” (Ex. 3, 10). Isto deu-se nos meados do séc. XIV a. c. .

Como é que Moisés chegaria a comemorar o Êxodo com uma Ceia Pascal? O fato é que “religião” mosaica assimilou, naturalmente, um número considerável de práticas do culto pagão. As festas, da colheita da cevada, na primavera (ázimos) a ceifa do trigo (semanas ou pentecostes), e o fim do ano agrícola, no outono (tabernáculos ou colheita). Estas são observâncias campestres cananéias anteriores a Moisés, adotadas pelo culto javeístas. Elas toranaram-se ocasiões de celebração no santuário do Deus da Aliança e vieram a ser consideradas como sendo comemorativas dos seus grandes atos salvíficos respectivamente, da libertação do Egito, da entrega da Lei no Sinai e da orientação providencial durante a peregrinação pelo deserto durante 40 anos.

“Pesah” é o termo hebraico que designa a “Páscoa”; é um substantivo que significa o nome do rito pascal ou o animal nele sacrificado. O verbo que tem o mesmo radical de “Pesah” significa coxear, mancar. Daí o sentido de “omitir”, poupar, passar sobre, em inglês usa-se “Passoner” para designar a Páscoa.

Certamente a Páscoa era um rito pré-mosaico. Basta ver (Ex. 5, 3): “Deixa-nos ir ao deserto, a três dias do caminho para oferecer sacrifícios ao Senhor, para que não nos fira ele pela peste ou pela espada”. Também em (Ex. 10, 9): “… iremos com nossas ovelhas e nossos bois, porque temos de celebrar uma festa em honra do Senhor”.

Ex. 12 é uma descrição de um rito mais nômade do que sedentário: uso de cordeiros e não animais maiores; o cordeiro era previamente isolado do rebanho; pão ázimo cozido às pressa; ervas amargas do deserto; refeição tomada à noite; trajes próprios para caminhada. Estes detalhes refletem um rito do povo nômade. Era, os antepassados de Israel eram nômades da Cananéia, de aproximadamente 4-5 séculos antes de Moisés.

Ex. 12 é uma narrativa sacerdotal – P (Priestercodex). Esta tradição “P” é do século V a.c., interessada em preservar fielmente usos bem antigos. É mais uma prova de que o ritual da Páscoa era conhecido bem antes de Moisés. Era um ritual que passou por muita evolução: no início se queimava animais para entrar em contato com a divindade. Aos poucos, retirava-se o sangue da vítima para comer parte deste animal. Mais tarde, pães sem fermento e ervas do deserto foram anexadas a este tipo de sacrifício. Surgiu uma refeição no ritual.

Na noite em que os israelitas sairam do Egito aconteceria a 10ª praga: a morte de todos os primogenitos. O anjo do Senhor passaria com a espada em todas as casas e pouparia as casas cuja porta estivesse marcada com o sangue do cordeiro pascal. Nesta noite todas as famílias israelitas celebrariam a refeição pascal. O anjo do Senhor omitiria as casas marcadas com o sangue e não feriria assim nenhum primogênito de Israel:

 

Ex. 12, 12: “… passarei através do Egito e ferirei os primogênitos no Egito”.

Ex. 12, 13: “… vendo o sangue, passarei adiante e não sereis atingidos”.

Ex. 12, 23: “… quando o Senhor para ferir o Egito vendo o sangue sobre a verga e sobre as duas ombreiras da porta, ele passará adiante"

Ex. 12, 27: “É o sacrifício da Páscoa, em honra do Senhor que, ferindo os egípcios, passou por cima das casas dos israelitas e preservou nossas casas”.

Desde esta antiguidade, “Páscoa” significa passagem para vida nova, libertação… pois naquela noite Israel livrou-se da escravidão egípcia. Os contemporâneos de Moisés acreditavam que sangue residia a vida. O sangue possuía um aspecto misterioso e sagrado. Jamais poderia ser ingerido pelas pessoas. Era aspergido sobre o altar no sacrifício e para purificar e santificar qualquer lugar de importância. A aspersão tinha um significado de afastar as influências do maligno. Como a refeição pascal, era noturna, era necessário afastar estes espíritos maus. Entendia-se que era durante a noite (pó negro, como a neblina) que eles atuavam.

Este ritual de uma refeição comum com aspersão de sangue servia para estreitar os laços de amizade da família e para protegê-la contra as forças desagregadoras que poderiam ameaçá-la. O cordeiro aparece como o manancial da refeição pascal. O cordeiro ou cabrito devia ser “macho, sem defeito, de um ano” (Ex. 12, 5). Seu sangue devia ser escoado e recolhido. Nenhum osso poderia ser quebrado (Ex. 12, 46) no ato da matança. Sua carne devia ser assada ao fogo e não cozida em água (Ex. 12, 9). Devia ser comido por família (Ex. 12, 3). Se as famílias fossem pequenas, duas ou mais famílias podiam imolar um só cordeiro, pois nenhuma parte do cordeiro podia sobrar.

As ervas amargas, vegetação do deserto, eram comuns nas refeições. Mas, nesta noite pascal elas adquiriam um novo significado; a sensação do amargo na boca lembraria os anos de dura escravidão no Egito. Durante quase 4 séculos os israelitas eram obrigados a trabalhos forçados e eram duramente castigados pelos egípcios, de quem eram escravos. O ritual pascal previa a pronuncia de algumas bênçãos pelo pai de família. Isto foi feito na noite do Êxodo. E a festa da Páscoa deveria ser celebrada a cada ano, no dia 14 do mês de Nizan, o 1º mês do ano na primavera:

“Guardareis (a festa) dos Ázimos, porque foi naquele dia que tirei do Egito vossos exércitos. Guardareis aquele dia de geração em geração, é uma instituição perpétua” (Ex. 12, 17.  Também em, Ex. 12, 14. 24. 42; 13, 10).

Os nômades, antepassados de Israel, viviam na dependência dos rebanhos e dos pastos. Quando um terreno perdia a fertilidade, toda a tribo obrigava-se a emigrar para as novas terras; o sinal de partida era dado pelo chefe da tribo, sob a inspiração de seu “deus”, em quem ele confiava e a quem ele obedecia. Nestas ocasiões matava-se um animal, escolhido do rebanho, para comê-lo às pressas com ervas e pães sem fermento, num clima de comunhão com o “Deus” da tribo, observando um ritual especial.

A Festa da Páscoa provavelmente tem origem distinta da Festa dos Ázimos: Páscoa é a festa de pastores oferecendo novilhos de seu rebanho; Ázimos é a festa de agricultores oferecendo primícias da colheita de cevada. Como ambas fossem festa de primavera e da família, cedo foram reunidas numa só: a Festa da Páscoa.

É fácil perceber como Ex. 12 está ligado ao tema da Libertação de Israel. Já independente do Egito, Israel torna-se-ia a propriedade de Jahvé, através da Aliança do Sinai. A saída do Egito inicia uma série de fatos inéditos na história da humanidade. Israel passaria a ser um povo escolhido por Deus: “Serei o seu Deus e Israel será meu povo” (Lv. 26, 12). O fato é que as gerações seguintes foram fiéis na celebração desta Páscoa, o grande acontecimento salvífico de toda a humanidade.

“Explicarás então a teu filho: Isto é em memória do que o Senhor fez por mim, quando saí do Egito (Ex. 13, 8). Para o hebreu antigo, a palavra “memória” ou “lembrança” era de um significado profundo; lembrar significava tomar conhecimento de uma determinada situação para reagir diante dela. Então o ritual da Páscoa passou a ser a lembrança da libertação do cativeiro egípcio graças ao favor do Deus da Aliança. Esta recordação ou celebração implicava na retomada dos compromissos para com Jahvé. Realmente, a Ceia Pascal posterior era uma rememoração dos feitos de Jahvé por seu povo.

Este ato salvífico do Êxodo (saída do Egito) é uma Redenção, tema que reaparece constantemente tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. A saída de Israel das terras egípcias deve ter acontecido pelo Norte do “Jam Suf” ou Mar Vermelho ou Mar dos Papiros, na zona pantanosa que margeia o Mediterrâneo no Delta Norte-Ocidental. A travessia do Mar Vermelho é explicada atualmente do seguinte modo: quando os israelitas alcançaram as costas do mar, viram-se pressionados entre as águas e o exército egípcio (Ex. 14, 9) que os perseguia. Como ele não possuiam carros pesados, não tiveram dúvidas em avançar pântano-adentro. A maré era baixa e a margem oposta estava próxima. Tão logo transpuseram as águas, a maré começou a subir; o exército egípcio precipitou-se nas águas em perseguição ao povo fugitivo que já alcançava a outra margem. Os carros egípcios eram pesados e atolavam no pântano. Enquanto os egípcios tentavam desencalhá-los, a maré subiu e submergiu a todos. E, Israel já estava na península Sinaítica. A passagem do Mar Vermelho de acordo com a narrativa de Ex. 14 é uma “teologização” de um fenômeno natural: a maré. Só basta ver o “Cântico de Moisés” em (Ex. 15, 1-18).

 

1.5. – O Maná do Deserto

 

Tão logo que os Israelitas alcançaram o deserto do Sinai para a peregrinação de 40 anos, fatos teofânicos começaram a acontecer. Da geração que atravessou o Mar Vermelho ninguém entrou na Terra Prometida de Canaan, “porque o Senhor dissera deles: morrerão no deserto. Não ficou nenhum deles, exceto Caleb, filho de Jefoné, e Josué, filho de Nun” (Num. 27, 65). No deserto, Israel passou por uma purificação para poder ser a raça escolhida e o povo santo (Ex. 19, 5-6).

No deserto, a primeira intervenção de Jahavé em favor de Israel deu-se a três dias (Ex. 15, 22) de caminhada, quando o povo ficou sem água. Moisés consultou o Senhor e fêz surgir água doce ao jogar um bastão na água (Ex. 15, 25). Em seguida, Moisés faria brotar água do Rochedo de Horeb (Ex. 17, 6).

A outra grande intervenção é o aparecimento das codornizes e do maná, depois que Moisés intercedeu em favor de seu povo. Diz o texto: “À tarde, subiram codornizes do horizonte e cobriram o acampamento; e no dia seguinte pela manhã havia uma camada de orvalho em torno de todo o acampamento. E, tendo evaporado este orvalho, eis que sobre a superfície do deserto estava uma coisa miúda, granulosa, miúda como a geada sobre a terra. Vendo isto, disseram os filhos de Israel uns aos outros: Que é isto?, pois não sabiam o que era. Moisés lhes disse: este é o pão que o Senhor vos manda para comer” (Ex. 16, 13-15).

“Os israelitas deram a este alimento o nome de maná. Assemelhava-se à semente de coendro: era branco e tinha o sabor de uma torta de mel” (Ex. 16, 31). Maná é uma palavra derivada da expressão: “man-hou”= “que é isto?”, que os israelitas empregaram ao vê-lo pela primeira vez. E Num. 11, 7-9 diz: “O maná assemelhava-se ao grão de coentro e parecia-se com o bdélio. O povo dispersava-se com a chegada da hora da colheita; moía-se o maná com a mó ou esmagava-se num pilão, cozia-o numa panela, e fazia bolos com ele, os quais tinham o sabor de um bolo amassado com óleo. Enquanto de noite caía o orvalho no campo. Caía também com ele o maná”.

As interpretações modernas: o aparecimento das codornizes é muito natural numa região onde as aves fazem migrações. O maná explicado da seguinte forma: no deserto há certas vegetações do sub-solo que quase não aparecem ao solo; no entanto, as raízes às vezes atingem 20 metros de profundidade. Fazendo-se uma incisão numa raiz à vista, esta faz verter uma seiva. Durante o dia o sol causticante a faz desaparecer; já, durante à noite, o líquido se acumula e toma a forma de uma resina esbranquiçada. Num deserto há muito impraticável, é muito possível que os rodados das carruagens, os cascos dos rebanhos e os próprios pés humanos machuquem tais raízes e delas apareça o maná. 

Contudo, a Teofania do maná é muito rica: é o pão para os peregrinos do deserto (Ex. 16, 10); é o pão descido do céu, (Ex. 16, 4); é o pão dos anjos (Sab. 16, 20); é o pão dos fortes (Sl. 78, 23. 25). A sua finalidade foi: “humilhou-se com a dome; dente por sustento o maná, que não conhecias nem tinham conhecido os teus pais, para ensinar-te que o homem não vive só de pão, mas de tudo o que sai da boca do Senhor”(Dt. 8, 3). Era o símbolo mais remoto da Eucaristia (Jo 6, 32. 49-51).

“Os israelitas comeram o maná durante 40 anos, até a sua chegada em uma terra habitada. Comeram o maná até que chegaram aos confins da terra de Canaan”(Ex. 17, 35). Já em Canaan, “os israelitas acamparam em Gálgala e celebraram a Páscoa no 14º, dia do mês, pela tarde, na planície de Jericó. No dia seguinte à Páscoa comeram dos frutos da região, pães sem fermento e trigo tostado. E o maná cessou de cair no dia seguinte àquele em que comeram dos frutos da terra. Os israelitas não tiveram mais o manã. Naquele ano alimentaram-se da colheita da terra de Canaan (Jos. 5, 10-12).

 

1.6. – As 5 espécies de sacrifício

 

No deserto, o povo de Israel ouviu da boca de Jahvé os 10 mandamentos do Decálogo (Ex. 20, 1-17). Como o povo temesse a voz do Senhor (Ex. 20, 19) Moisés subiu ao Monte Sinai e ali recebeu as tábuas da Lei (Ex. 34, 29) e todas as leis do Senhor. Entre os mandamentos do Senhor, havia leis sobre as festas a celebrar, sobre o Tabernáculo ou Arca da Aliança a construir, sobre o altar dos holocaustos, sobre os deveres sacerdotais e sobre os preceitos morais.

Lv. 1-5 descreve 5 espécies de sacrifícios a serem oferecidos. Os Sacrifícios (sacrum facere) já eram conhecidos no mundo de então. Era o ato mais sagrado de religião, pois se oferecia ao “deus” vítimas animais ou vegetais. Nas tabuinhas recentemente descobertas em Rás Shamra, antiga Ugarit, na Fenícia Setentrinal, anteriores alguns séculos a Moisés, são mensionadas espécies idênticas de sacrifícios, até mesmo com nomes iguais aos do Pentateuco. Moisés com suas leis apenas regulamentou e consagrou ao culto do verdadeiro Deus um cerimonial já praticado, deixando ainda toda essa legislação dos sacrifícios separadas das condições essenciais do pacto celebrado entre Deus e seu povo (Ex. 19, 23). Nesse sentido deve-se entender o protesto do próprio Deus contra os judeus séculos mais tarde: “Em matéria de sacrifícios e holocaustos eu nada disse e nada ordenei aos vossos pais ao tirá-los do Egito; dei-lhes somente esta ordem: escutai a minha voz, eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo” (Jr. 7, 22-23).

A legislação cerimonial de Lv. 1-5 é de Moisés, pelo menos a maior parte. Estes sacrifícios da Lei de Moisés prefigurariam o sacrifício de Cristo na cruz, como sacerdote, altar e cordeiro. Por isso eles foram abrogados na Nova Lei. Estes sacrifícios levíticos possuiam um valor aplacativo, pois é impossível que sangue de touros e cabritos perdoe pecados humanos. Eis os 5 sacrifícios determinados por Moisés.

1.6.1. – Holocausto (Lv. 1): Era a oferta de um boi, uma ovelha ou uma ave. A vítima era imolada ao lado do altar; o sangue era derramado ao redor do altar. A carne era dissecada e queimada sobre a lenha. Era tido como um sacrifício consumado pelo fogo, de odor agradável ao Senhor.

1.6.2. – Oblação de vegetais (Lv. 2): Era a oferta de flor de farinha de alimentos cozidos ao fogo e de primícias de espigas. Estes víveres eram queimados com uma porção de azeite e incenso. Era um sacrifício feito pelo fogo ao Senhor.

1.6.3. – Sacrifício salutar (Lv. 3): Era um sacrifício pacífico em louvor ao Senhor. Cremava-se bois, ovelhas ou cabras. Acreditava-se que o odor era agradável ao Senhor.

1.6.4. – Sacrifício expiatório (Lv. 4): Certamente era o mais praticado. Oferecia-se um novilho, ou um bode, ou uma cabra, ou um cordeiro sem defeito com a intenção de reparar alguma transgressão da Lei. Eles acreditavam que o pecado era assim expiado.

1.6.5 – Sacrifício de reparação (Lv. 5, 14-26): Reparado um mal cometido, oferecia-se um carneiro sem defeito para ser perdoado de todo.

Lv. 6-7 descreve os direitos e deveres dos sacerdotes em cada espécie de sacrifício. No deserto o sacerdócio era exercido por Aarão (Lv. 8, 12) e seus filhos. Assim como Josné dois escolhidos para suceder Moisés (Num. 27, 18), Aarão também foi sucedido no seu sacerdócio pelos descendentes da tribo de Levi, uma vez que ele próprio era levita (Ex. 6, 14-19) e gerou Nadab, Abiú, Eleazar e Itamar (Ex. 6, 23).

 

1.7. – Os sacrifícios na Terra Prometida

 

Comandados por Josué os israelitas cruzaram o Rio Jordão do deserto, arábico na direção de Jericó (Js. 3, 16). As cronologias (de Vaux) situam este fato pelos séculos XIII-XII a.c., quando se desenvolvia a guerra de Tróia. Estabelecidos em Canaan, os israelitas passam a ser chefiados por Juízes:

Maiores: Otoniel, Aod, Barac, Gedeão, Jefté, Sansão;

Menores: Helic, Samuel.

Pelo século X a.c., Israel foi governado por reis: Saul, Daví, Salomão, Josias e outros. Em 933 ª c. ocorreu a divisão do Reino em 2: o do Norte e o do Sul. Aí ocorreram os cativeiros Assírio (722 ª c.) e Babilônico (587 ª c.). Os judeus foram libertados do cativeiro babilônico por Ciro, rei da Pérsia, que lhes permitiu regressar à Palestina. A seguir a Palestina foi invadida por Alexandre da Macedônia. Mais tarde passou a ser protetorado egípcio, colônia Síria e finalmente província romana, quando nasceu o Messias Jesus Cristo.

Nestes longos séculos, o culto israelita passou por altos e baixos, sem perder a característica primordial. A Lei era fielmente observada. A tribo levítica era encarregada dos sacrifícios. O culto de Jahvé acompanhou a evolução cultural e política.

Retomando: Chegados a Jericó, os israelitas erigiram um monumento de 12 pedras, de acordo com o número de tribos (Js. 4, 8). Vencidos os cananeus, cada tribo recebeu uma região para morar. Os levitas obtiveram 48 cidades (Js. 21, 41), entre as quais a futura capital real e cultual: Jerusalém= Ir Shalaim= cidade santa.

Cada levita exercia a função sacerdotal a seu modo. Micas teve a iniciativa de erigir um santuário (Jz. 17, 5) no final do período dos juízes.

Heli, um dos juízes menores parece ter sido também sacerdote (I Sm. 1, 9) em Siló, onde estava o templo com a Arca da Aliança (I Sm. 3, 3). Ele fazia a guarda da Arca a qual foi certa vez roubada pelos filisteus (I Sm. 5, 6). Samuel também foi juiz e sacerdote: “Samuel foi juiz em Israel durante toda a sua vida… habitava em Ramá. Ali também julgava Israel, e edificou naquele lugar um altar ao Senhor” (I Sm. 7, 15. 17). E foi o próprio Samuel quem ungiu Saul como o primeiro rei de Israel.

Pouco se sabe sobre o culto de Jahvé desta época (séc. X a. c.). Os fatos ficarão mais claros quando os dados serão gravados nas Escrituras, segundo as tradições:

 

-        Javista: século X - IX a.c.

-        Eloísta: século VIII - VII a.c.

-        Deuteronomista: séculos VII – VI a.c.

-        Priestercodex: século X a.c.

Estes autores inspirados tentam recompor o mosaico histórico. No que se refere à Páscoa eles fazem notar a evolução sofrida pelo ritual. Dizem eles que a mais antiga alteração depois do estabelecimento em Canaan foi a associação da Festa da Páscoa à celebração agrícola primaveril dos Ázimos que, por sua vez, se tinham transformado numa lembrança do Êxodo do Egito. A confusão da Páscoa com os Ázimos, que era uma festa de peregrinação, tendia a fazer dela uma celebração de santuário e desafiava a sua sobrevivência como um ritual que se devesse observar em todas as famílias israelitas. Foi precisamente o que o Deuteronômio (16, 1-8) fez dela, permitindo o uso de animais maiores imolados no centro do culto e estendo-a, ao que parece, para além de uma única noite.

Saul governou tiranicamente Israel. Em seu lugar foi ungido David (I Sm. 16, 13). David tomou a fortaleza de Sião dos Jebuseus e sediou ali a Cidade de David (II Sm. 5, 8), Jerusalém. E transportou a Arca da Aliança de Baalé de Judá para Jerusalém (II Sm. 6, 16-17) e pretendia construir um majestoso templo, o que não foi concedido a ele. Contudo David “ofereceu sobre o altar, holocaustos e sacrifícios pacíficos” (II Sm. 24, 26). Quando Davi já estava envelhecido, “o sacerdote Sadoc tomou o chifre de óleo no Tabernáculo e ungiu Salomão” (IRs. 1, 39). É ao Sábio Salomão que conhece a tarefa de edificar e consagrar o Templo de Jerusalém, no qual foi depositada a Arca da Aliança, e sediado o altar dos Sacrifícios (I Rs. 6-8).

Depois da divisão entre Reino do Norte e do Sul em 933 ª c., (I Rs. 12, 19) o Norte sediou seu Templo no Monte Ganizin na Samaria, enquanto Jerusalém era a capital do Sul. No Reino do Sul, os reis foram se sucedendo. Pelo séc. VI a.c., Josias subiu ao trono. E Josias encetou uma série de reformas do culto. Já era a época dos profetas maiores: Isaías, Jeremias…

A reforma deuteronômica de Josias limitava o culto sacrifical ao Templo de Jerusalém. Isto era uma ameaça ao Rito Pascal, sempre celebrado em família. Fora de Jerusalém e mesmo dentro da cidade a Ceia Pascal teria que ser tomada sem o animal. A Celebração familiar, no entanto, sobreviveu a todas as ameaças e manteve-se, embora sem a vítima pascal, provavelmente por ser uma prática profundamente enraizada entre o povo e de grande significado para ele. Josías chegou a celebrar uma Páscoa em Jerusalém no fim de sua reforma, renovando a aliança com Jahvé (II Rs. 23, 22). Pena que essa Páscoa veio tarde demais para salvar o povo do Exílio.

Os escritores das crônicas apresentam a Páscoa celebrada pelos homens de Israel e de Judá como algo de intimamente associado às três grandes renovações do culto do Templo pela linha de David. Ali é apresentada uma celebração pascal um tanto irregular como ponto culminante da reforma religiosa pascal sem paralelo desde o começo da monarquia como o apogeu da reforma de Josías (II Cron. 35) e uma Páscoa celebrada na dedicação do templo reconstruído por ordem do príncipe da casa de David, Zorobabel (Esd. 6), como primeiro grande passo na restauração depois do exílio, que então se completara com a refortificação de Jerusalém e a proclamação da Lei por Neemias e Esdras.

A Páscoa acha-se relacionada com a idéia de reforma e renovação: a Festa dos Tabernáculos é reservada como a ocasião para a consagração original do Templo (I Rs. 8, 2) e para a proclamação da Lei à comunidade pós-exílica (II Cr. 7, 8-10) (Ne. 8, 17-9. 1). Em crônicas ainda a Páscoa parece ser a celebração da grande renovação, quando a comunidade tenta retomar os seus esforços para realizar o ideal destes autores de um Israel unido e fiel, debaixo da Lei de David, e com a vida centrada à volta do Templo de Jerusalém.

A literatura intertestamentária e rabínica atesta a posição central que a obsrvância da Páscoa guardava no espírito judaico. Consideravam a noite da refeição pascal como o aniversário da criação do mundo, da circuncisão de Abraão, do sacrifício de Isaac, da entrada de Israel no Egito e da saída de José da prisão. Consideravam-na como a noite em que se realizarão os acontecimentos salvíficos por que ainda esperam : o novo êxodo do cativeiro, a vinda do Messias, o aparecimento de Moisés e de Elias, a ressurreição dos Patriarcas e o fim do mundo. A associação de tantas divinas intervenções salvíficas passadas e futuras com a noite pascal, indica que, para o judaísmo, ela era a celebração da salvação divina. Também dá a entender como a observância podia vir a ser encarada, não apenas como um memorial do seu passado para o povo, mas como uma lembrança feita a Deus das suas promessas. Uma vez que essa noite “foi uma noite de vigília para o Senhor, a fim de os tirar da terra do Egito, assim essa mesma noite é para os filhos de Israel uma vigília, esperando pelo Senhor, que deve ser celebrada de geração em geração” (Ex. 12, 42).

Nestes últimos séculos do Antigo Testamento não há fato novo no Ritual da Páscoa ou dos sacrifícios em Israel. Os cativeiros e as guerras contínuas ocupavam todo o tempo dos Israelitas. Os Macabeus tentaram reconstruir a nação judaica em mais ou menos 140 a.c. Tudo foi em vão, dados o novo cativeiro romano. Ainda resta conhecer o pensamento da Sabedoria hebraica e dos profetas.

 

1.8. – Os Escritos Sapienciais

 

A literatura sapiencial, hebraica compreende os livros de Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos; o códice grego anexa os livros da Sabedoria e do Eclesiástico. Estes livros são do apogeu cultural, político e religioso de Israel. Contudo, neles quase não há referências ao culto de Jahvé, a não ser algumas alusões aos sacrifícios.

Os Salmos trazem alguns versículos até curiosos, zombando dos sacrifícios mosaicos, ou recomendando-os:

-        “Não te repreendo pelos teus sacrifícios, pois teus holocaustos estão sempre diante de mim. Não preciso do novilho de tua casa, nem dos cabritos de teus apriscos. Pois minhas são todas as feras das matas; há milhares de animais nos meus montes… Porventura preciso comer carne de touros ou beber sangue de cabritos? Oferece, antes, a Deus um sacrifício de louvor e cumpre tuas promessas para com o Altíssimo… Honra-me quem oferece um sacrifício de louvor” (Sl. 50 (49). 8-10. 13-14. 23).

-        “Vós não vos aplacais com sacrifícios rituais; e se eu vos ofertasse um sacrifício, não o aceitaríeis. Meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito… Então aceitareis os sacrifícios prescritos, as oferendas e os holocaustos; então, sobre vosso altar, novilhos vos serão oferecidos” (Sl. 51 (50), 18-19. 21).

-        “Ofereçam sacrifícios de ação de graças e proclamem alegremente as suas obras” (Sl. 107 (106), 22).

-        “Oferecer-vos-ei um sacrifício de louvor invocando o nome do Senhor” (Sl. 115, 17).

Os Salmos dão a entender que os sacrifícios cruentos são próprios de pessoas simples, rudimentares e primitivas. Os sábios e verdadeiros adoradores de Jahvé da Aliança já partem para um culto espiritual.

Os livros sapienciais aludem pouco aos sacrifícios, a não ser (Salmos e ) Eclesiástico. O livro dos Provérbios diz: “A prática da justiça e da eqüidade vale aos olhos do Senhor mais que os sacrifícios”(Prov. 21, 3). O livro de Jesus Bem Sirac (Eclo) no elogio dos antepassados louva Aarão, o levita: “Os sacrifícios foram diariamente consumidos pelo fogo… Escolheu-o todos os viventes para oferecer a Deus o sacrifício, o incenso e o perfume da lembrança… Antes de tudo preparou-lhes alimento em abundância pois devem comer dos sacrifícios do Senhor” (Eclo. 45, 17. 20. 26). Também louva o Sumo-Sacerdote Simão: “Conservando-se de pé junto do altar recebia as partes da mão dos sacerdotes. A oblação do Senhor era paresentada pelas suas mãos diante do Povo de Israel; quando terminava o sacrifício no altar, a fim de enaltecer a oblação do rei Altíssimo, ele estendia a mão para a libação e aspergia o sangue da videira; derramava ao pé do altar um perfume divino para o príncipe Altíssimo” (Eclo. 50, 13. 15-17).

 

1.9. – Os Profetas de Israel

 

Já o profeta Elias (séc. VIII a.c.) fêz uma façanha miraculosa: ele edificou um altar com 12 pedras, dispôs a lenha, colocou as sementes de oblação, encharcou o altar de água, e orando ao Deus de Abraão, Isaac e Jacó, viu um fogo baixar do céu e consumir a oferenda (I Rs. 18, 30-38). Os profetas de Baal não puderam repetir esta façanha.

O profeta Isaías (760-690 a.c.) predisse a vinda do Messias: “Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado; a soberania repousa sobre seus ombros e ele se chama: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Is. 9, 5). Isaías insinuava que os holocaustos eram uma prática a ser superada: “De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas? diz o Senhor. Já estou farto de holocaustos de cordeiros e da gordura de novilhos cevados. Eu não quero sangue de bezerro e de bodes, quando vindes apresentar-vos diante de mim, quem reclamou isso de vós? Deixai de pisar em meus átrios. De nada serve trazer oferendas; eu tenho horror da fumaça dos sacrifícios” (Is. 1, 11-13).

O Profeta Oséias (séc. VII a.c.) também pensava assim: “Porque eu quero o amor e não os sacrifícios, e o conhecimento de Deus mais que os holocaustos” (Os. 6, 6). E ele censura o desleixo dos sacerdotes: “Eu censuro a ti, ó sacerdote!… Porque abandonaram o culto do Senhor… Sacrificam nos cimos das montanhas. Queimam ofertas sobre as colinas, debaixo dos carvalhos, dos álamos e dos terebintos, sentindo-se bem à sua sombra” (Os. 4, 4. 10. 13).

O Profeta Jeremias anunciou uma Nova Aliança, na qual o culto certamente também seria mais edificante: “Dias virão em que firmarei Nova Aliança com as casas de Israel e de Judá. Diversa, porém, será da que concluí com seus pais no dia em que pela mão os tomei para tirá-los do Egito, pacto que violaram embora eu fosse o esposo deles. Eis a Aliança que farei com a casa de Israel – oráculo do Senhor: - incutir-lhe-ei a minha Lei; gravá-la-ei em seu coração. Serei o seu Deus e Israel será o meu povo” (Jr. 31, 31).

Ezequiel profetiza um culto espiritual: “Extrairei do seu corpo o seu coração de pedra para substituí-lo por um coração de carne a fim de que observem as minhas leis, sejam o meu povo e eu o seu Deus” (Ez. 11, 19-20). “Dar-vos-ei um coração novo e em vós porei um espírito novo… dentro de vós meterei meu espírito, fazendo que obedeçam as minhas leis e sigais e observeis os meus preceitos. Habitareis o país de que fiz presente a vossos pais; sereis o meu povo e serei vosso Deus” (Ez. 36, 26-28). “Tais como os rebanhos dos animais consagrados, tais como as manadas, que se conduzem a Jerusalém por ocasião das festas solenes tais serão os rebanhos de homens que povoarão vossas cidades em ruínas. Então se saberá que eu sou o Senhor” (Ez. 36, 38).

O Profeta Joel confirmou a presença do Espírito Santo: “Depois disto acontecerá que derramarei o meu Espírito sobre todo o ser vivo: vossos filhos e vossas filhas profetizarão; vossos anciãos terão sonhos e vossos jovens terão visões; naqueles dias, derramarei também o meu espírito sobre os escravos e as escravas” (Joel 3, 1-3). Estava assim tudo preparado para o Advento do Novo Testamento: o novo culto fora largamente anunciado; o Messias seria o novo cordeiro sacrifical; o Espírito do Senhor inundaria os corações. E a grande profecia coube a um profeta do séc. IV a.c.

Malaquias: ele profetizou a Eucaristia ao falar de oblações puras: “Porque do nascente ao poente, meu nome é grande entre as nações. Em todo o lugar se oferecem ao meu nome o incenso, sacrifícios e oblações puras: sim, meu nome é grande entre as nações, diz o Senhor dos exércitos”(Mal. 1, 11).

 

2. – Novo Testamento

 

2.1. – “Novum Testamentum”?

 

Chegamos ao ano ZERO da História da humanidade. Por que ano ZERO? Por que a civilização Ocidental tem ali o seu ponto de referência nas cronologias? Por que atribuir tanta importância a um menino que nasceu nas áridas terras de Belém, se há tantos fatos históricos marcantes nos Impérios Romano, Grego, Macedônico? Por que toda a Europa, a América e suas colônias sofrem tanta influência cultural e religiosa deste Povo de Israel, que durante 20 séculos nem sequer Pátria teve? Por que um Papa em Roma, milhares de catedrais, milhões de obras bíblico-teológicas?

É, engraçado até: Mas, aquele menino de Nazaré crescera e um dia disse, ousou proferir palavras estranhas, documentadas pelo historiador São João: “Vós examinais as Escrituras por que julgais ter nelas a vida eterna; ora, são elas que dão testemunho de mim” (Jo 5, 39). E, justamente, uma indagação aos biólogos, psicólogos e historiadores hodiernos: teria sentido o homem nascer e desaparecer para sempre? Dizem eles que não: Todos tentam definir alguma finalidade última ao ser humano, finalidade mais ou menos fundamental. Recorramos ao parecer da Igreja, no Concílio Vaticano II (1. 962-65):

“Deus, pois, inspirador e autor dos livros de ambos os Testamentos, de tal modo dispos sabiamente, que o Novo estivesse latente no Antigo e o Antigo se tornasse claro no Novo. Com efeito, embora Cristo tenha fundado a Nova Aliança em seu sangue… (Lc. 22, 20; I Cor. 11, 25), contudo os livros todos do Antigo Testamento, recebidos íntegros na pregação evangélica, obtém e manifestam seu sentido completo no Novo Testamento (Mt. 5, 17; Lc. 24, 27; Rm. 16, 25-26; II Cor 3, 14-16), e por sua vez o iluminam e explicam. (D. V. nº 16).

“A Palavra de Deus, que é a força de Deus para a Salvação de todo crente, (Rm. 1, 16) é apresentada e manifesta seu vigor de modo eminente nos escritos do Novo Testamento. Com efeito quando veio a Plenitude do tempo (Gl. 4, 4), o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade (Jo. 1, 14). Cristo instaurou na terra o Reino de Deus, por fatos e por palavras, deu a conhecer seu Pai e a si próprio e completou Sua obra pela morte, ressurreição e gloriosa ascenção e pelo envio do Espírito Santo. Levantado da terra atrai todos a Si (Jo. 12, 32), Ele, o único que tem palavras de vida eterna (Jo. 6, 68). Este mistério, porém, não foi manifestado a outras gerações como foi revelado agora aos Seus santos Apóstolos e Profetas no Espírito Santo (Ef. 3, 4-6) para que pregassem o Evangelho, suscitassem a fé em Jesus Cristo e Senhor e congregassem a Igreja. Os escritos do Novo Testamento são testemunho perene e divino destas coisas” (DV. nº 17).

Mas, por que este Jesus de Nazaré alcançou tanta popularidade? Se ele pregou, no seu tempo havia muitos mestres e escolas… Se ele operou milagres, naquela época existiam muitos magos… Se ele morreu na cruz (entre 2 ladrões!), era o suplício mais comum daquele lugar… Se ele falou de um Pai dos Céus, (Mt. 6, 9) prometeu o Espírito Santo, (Jo. 14-26) falou de uma Nova Aliança (Lc. 22, 20) ou Novo Testamento e ressuscitou ao 3º dia (Mc. 16, 9)… aí o juízo humano começa a ficar obscuro.

Jesus declarou: “Não penseis que vim revogar a Lei e os Profetas. Não vim revogá-los, mas dar-lhes pleno cumprimento” (Mt. 5, 17). Dele São Paulo dirá: “Foi Ele quem nos tornou aptos a sermos ministros de uma Aliança Nova, não a da letra, e sim, do Espírito, pois a letra mata, mas o Espírito comunica a vida” (II Cor. 3, 6). Jesus será o novo cordeiro pascal (Hb. 10, 12), o Eterno Sumo-Sacerdote (Hb. 3,4). Ele é o mediador da Nova Aliança (Hb. 9, 15).

 

2.2. – Israel: Familiaridade com Pão e Vinho

 

No tempo de Cristo, os judeus eram familiarizados com o pão e o vinho em suas mesas de refeição. Jesus pregava com simplicidade e falava das coisas de cada dia do povo. Os Evangelhos aludem muitas vezes ao pão e ao vinho.

O pão de trigo ou de cevada era o principal alimento das famílias de Israel. Eles usavam semear o trigo, recolhê-lo, moer os grãos e cozer os pães. Foi o que já fizera a viúva de Sarepta para Elias (I Rs. 17, 7-24) no séc. VI a.c.. Daí que Jesus ensina através do pão.

Mateus e Lucas dizem que a primeira grande tentação de Jesus no deserto foi: “Se és Filho de Deus manda que estas pedras se transformem em pães. Mas Jesus respondeu: está escrito que não só de pão vive o homem mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt. 4, 4; Lc. 4, 4).

Mc. 4, 1-20 relata a paráboal do semeador: A Palavra do Senhor é como a semente; alguns grãos caem entre as pedras, outras entre os espinhos, outras no caminho e apenas algumas sementes caem na terra preparada e germinam. E Jesus comparou o Reino dos Céus ao “fermento que uma mulher tomou e pôs em três medidas de farinha, até que tudo ficasse fermentado”(Mt. 13, 33).

Para saciar as multidões, Jesus multiplicou pães por 2 vezes (Mt. 14, 13-21 e 15, 32-39); cá Ele prefigurou a abundância do Pão Eucarístico. E Ele recomendou o jejum em segredo (Mt. 6, 16-18). No discurso escatológico, ele enumerou a caridade como uma das 7 obras de misercórdia (Mt. 25, 35).

Sobre o pão, a maior importância é reservada aos relatos da Santa Ceia de Jesus com seus discípulos, pois Jesus “desejou ardentemente comer aquela Páscoa com eles antes de sofrer; pois ele lhes disse que já não mais comeria até que ela se tivesse cumprido no Reino de Deus”(Lc. 22, 15). Naquela Ceia Pascal se Jesus se deixou à humanidade sob a forma de pão e vinho. Ainda depois da ressurreição, na aparição à margem do lago de Tiberíades ele tomou o pão e distribuiu-o entre eles (Jo. 21, 13).

O discurso do Pão da Vida (Jo. 6) certamente são as mais importantes “verba Christi” de todos os seus ensinamentos quanto ao que Ele iria atualizar na Ceia Pascal. Jo. 6 descreve começa narrando a multiplicação dos pães, quando já estava próxima a Páscoa. No dia seguinte Ele pronunciou o tal discurso na Sinagoga de Cafarnaum, num contexto polêmico com os judeus. Jesus falou: “Trabalhai, não pelo alimento que se perde, mas pelo alimento que perdura até a vida eterna, alimento que o Filho do Homem vos dará, pois Deus, o Pai, o marcou com um selo… Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim, nunca mais terá fome e o que crê em mim, nunca mais terá sede… Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram… quem comer deste pão viverá eternamente… Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressucitarei no último dia…” (Jo. 6, 27. 34. 49. 54).

O Vinho: Já Gn. 9, 18 fala que Noé plantara uma vinha. Melquisedec sacrificou pão e vinho (Gn. 14, 18). Nabot, já em Canaan possuía uma vinha em Jesrael (I Rs. 21, 1). E Jesus falou de vinho muitas vezes. O seu primeiro milagre foi a transformação da água em vinho (Jo. 2, 1-12). Ele contou a parábola dos vinhateiros homicidas (Mc. 12, 1-12); falou sobre a novidade cristã: “Não se põe vinho novo em odres velhos; caso contrário, estouram os odres, o vinho se entorna e os odres ficam inutilizados. Antes, o vinho novo se põe em odres novos; assim ambos se conservam" (Mt. 9, 17). Ele disse: “eu sou a videira, vós sois os ramos” (Jo. 15, 5).

Sem água não há vida. Jesus disse: “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a Escritura, de seu seio jorrarão rios de águra viva. Ele falava do Espírito, que deviam receber os que nele cressem; pois não havia ainda Espírito, porque Jesus não fora ainda glorificado” (Jo. 7, 37-39). Na Liturgia cristã, cedo a água tornou-se símbolo do Espírito Santo. Os judeus comiam pão de trigo, bebiam vinho e água… no entanto, Jesus ousou dizer-lhes: “O meu alimento é fazer a vontade Daquele que me enviou e realizar a sua obra” (Jo. 4, 34).

 

2.3. – Os Relatos da Ceia de Jesus

 

Jesus instituiu a Eucaristia na Quinta-feira, véspera de sua paixão, na Ceia Pascal com seus 12 apóstolos. Em grego, “Eucharistein” significa: ação de graças. Num ex-voto datado do século II dedicado ao deus curador Esculápio, um soldado assim conta a sua história: “Ele recuperou a vista, está de volta, agradeceu (eucharistesen) publicamente ao deus”.

É neste sentido que a Bíblia grega utiliza o verbo “Eucharistein”. Judite falou deste modo aos seus concidadãos de Betúlia: “Demos graças (eucharistesomen) ao Senhor nosso Deus que nos pôs à prova exatamente como a nossos pais” (Jdt. 8, 25). O leproso samaritano “eucaristia” a Jesus que o curou (Lc. 17, 16). O fariseu, por seu lado, “eucaristia” a Deus por não ser como o resto dos homens (Lc. 18, 11). Diante do túmulo de Lázaro, Jesus “eucaristia” a seu Pai por ouví-lo sempre (Jo. 11, 42).

O Novo Testamento apresenta 4 relatos da Ceia de Jesus, instituindo a Eucaristia:

-        I Cor. 11, 17-34

-        Lc. 22, 7-23

-        Mc. 14, 12-26

-        Mt. 26, 17-30

O atual texto litúrgico católico é extraído destes 4 relatos: “Estando para ser entregue e abraçando livremente a paixão Ele tomou o pão, deu graças, e o partiu e deu a seus discípulos, dizendo: Tomai e comei, todos vós: Isto é o meu corpo, que é dado por vós. Do mesmo modo, ao fim da ceia, ele tomou o cálice em suas mãos, deu graças novamente, e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai e bebei todos vós: Este é o cálice do meu sangue, o sangue da nova e eterna aliança, que é derramado por vós e por todos os homens, para o perdão dos pecados. Fazei isto para celebrar a minha memória”(Missal Romano).

Eis um sinótico da Ceia de Jesus e da Ceia Judaica usual:

 

Ceia de Jesus:

 

“No dia dos ázimos (Lc. 22, 7), no 1º dia dos ázimos (Mt. 26, 17), isto é, a vigília do 14 de Nizan, naquele sábado; a sexta era a vigília e à tarde da quinta-feira, já começava, quando se comia a Páscoa, Jesus tinha desejado ardentemente comer essa Páscoa com os seus discípulos (Lc. 22, 15), lavou os pés a seus discípulos (Jo. 13, 14)  e abençoou o primeiro cálice (Lc. 22, 17) e declarou que não mais comeria com eles a Páscoa até o Reino de Deus: a Páscoa de Jesus era sua morte sacrifical, salvadora e que deveria perpetuar-se na terra com a celebração da Páscoa cristã, a Eucaristia. Depois das ervas amargas e explicação dada por Jesus, Ele tomou o pão e sobre ele pronunciou as palavras da consagração e deu-lho a comer; comeram ainda o cordeiro preparado e depois da Ceia Jesus tomou o cálice e consagrou o vinho, da Nova e Eterna Aliança. A Ceia Pascal se realiza dali em diante na realidade do verdadeiro Cordeiro Imaculado (IPd. 1, 19) que tira o pecado do mundo (Jo. 1, 19) novo Cordeiro Pascal (I Cr. 5, 7) que se imolará sobre o Calvário e liturgicamente se imolava pela primeira vez naquela Ceia. Foi dito o Hino Final (Mt. 26, 30).

Ceia Pascal Judaica:

 

Era celebrada todos os anos; cada família devia imolar um cordeiro e depois comê-lo assado com ervas amargas, vinagre, molho “harosset” denso e avermelhado com pão ázimo e vários copos de vinho. Durante o dia levava-se ao Templo o cordeiro para ser imolado: seu sangue era derramado sobre o altar e a carne devolvida aos oferentes, para a Ceia Pascal. Tomava-se o 1º cálice de vinho, abençoado pelo chefe com uma prece sobre o vinho. Depois todos lavavam as mãos e começavam a comer as ervas amargas. Punha-se sobre a mesa o Cordeiro e o pão ázimo. Enchia-se um 2º cálice de vinho e o chefe explicava o significado daqueles alimentos; bebia-se o vinho. O chefe tomava o pão, o partia e dava a cada um, coberto com ervas amargas e molho; era manducado o cordeiro. Novo lavar das mãos e o 3º cálice: cálice da bênção que o acompanhava. Finalmente, levantando-se, se tomava o 4º cálice e se cantava o Hallel (Sl. 112-117. 135).

Após minuciosas análises entre o 4 relatos da Ceia de Jesus, as discrepâncias entre os 4 textos e as características, peculiares de cada autor fizeram com que se viesse a distinguir entre 2 relatos primordiais: um Paulino e outro Petrino. Segundo esta concepção, o relato Petrino aparece nos Evangelhos de Mateus e Marcos, e o Paulino se encontra em Lucas e na I Corintios. O texto Paulino se encontra em Lucas e na I Coríntios, distinguindo-se do Petrino sobretudo pelo acréscimo do mandato institucional: “Fazei isto em minha memória”. Além disso, devemos observar que em Mateus e em Marcos faltam as palavras “por vós” ou “que é entregue por vós”, relativas ao pão. Elas, no entanto, se encontram em S.P. e Lucas. É especialmente importante o fato de que, segundo o relato Paulino, Jesus tomou o cálice depois da Ceia, enquanto segundo Mateus e Marcos, tomou-o durante a refeição imediatamente depois de distribuir o pão. A julgar por Paulo e Lucas, a Eucaristia ficou dividida em 2 partes, intercalada pela Ceia.

As palavras que Jesus pronunciou sobre o cálice, na redação de Mateus e de Marcos, apresentam uma caracterização diferente da de Paulo e Lucas. Segundo a redação paulina-lucana, Jesus ressalta que o cálice é a Nova Aliança, embora esta tenha uma relação estreita com seu sangue. Pois está fundamentada e sempre de novo a se atualizar pelo sangue no cálice. A identidade entre cálice e sangue não expressa imediatamente, mas implícita e indiretamente. Os participantes não são convidados a beber o sangue. Eles bebem sem serem solicitados previamente. Contudo, segundo Mateus e Marcos, fica explicitamente afirmada a identidade entre o cálice e o sangue. Os discípulos são convidados  (em Marcos indiretamente) a beber o sangue. E Marcos acentua além disso que eles beberam realmente do cálice.

Mas também dentro dos dois grupos existem diferenças consideráveis. Mateus diverge de Marcos numa série de pormenores. As formulações peculiares do Evangelho de Mateus sem dúvida tendem a uma clareza maior e uma fluência lingüística melhor. Portanto, constituem um estágio de reflexão mais avançada do que a do texto de Marcos. Devemos sobretudo levar em conta o seguinte: Mateus relata como Jesus mandou explicitamente aos discípulos que comesses o pão por Ele abençoado. Com isso esclarece o sentido do imperativo de Cristo: “Tomai”. E logo Mateus transmite a frase de Jesus: “Bebei todos dele”, que é paralela ao mandato de comer o pão. Marcos não diz nada dessa ordenação acerca do vinho. Ele refere primeiro o fato de que beberam o vinho e logo relata as palavras de Jesus sobre o cálice, sem mencionar a ordem de Jesus.

Mateus, mediante uma modificação de palavra na fórmula “por vós” (‘peri’ em vez de ‘hyper’), expressa mais intensamente do que Marcos como se produz o derramamento do sangue, não só para a Salvação dos discípulos, mas também em seu lugar. O acréscimo mais importante de Mateus é a expressão “para o perdão dos pecados”, que se encontra na frase sobre o cálice. Assim coloca em maior relevo o que Marcos diz.

As diferenças entre Paulo e Lucas são ainda maiores do que as existentes entre Mateus e Marcos. Assim, em Paulo falta a frase sobre o comer e o beber no futuro Reino de Deus. Em compensação, falta em Lucas o segundo mando institucional, que Paulo também relata ao falar do cálice. Sem dúvida foi omitido por razão de brevidade. Além disso, no que se refere ao pão, Lucas, acrescenta a palavra “entregue”, à expressão “por vós”.

 

2.4. – Morte e Ressurreição de Jesus

 

Conforme os historiógrafos, como Flávio Josepho, Jesus teria nascido pelo ano 5 antes de nossa era. Contudo, seja como for, sabe-se que Jesus nasceu (Lc. 2, 7) em Belém, refugiou-se no Egito (Mt. 2, 14), aos 12 anos morava em Nazaré (Lc. 2, 42) e aos 30 ou 33 anos começou a pregar “no ano 15º do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galiléia, Lisânias tetrarca de Abilene, sendo Sumo Sacerdote Anás e Caifás (Lc. 3, 1-2). Jesus pregou durante 2 ou 3 anos, por causa de 2 festas da Páscoa em que Ele subiu a Jerusalém (Jo. 6, 4 e 11, 55). Nessa última Páscoa, Jesus instituiu a Páscoa Eucarística, numa quinta-feira. Sua morte dar-se-ia na vigília do Shabat, bem como da Festa da Páscoa (Jo. 19, 14), pelo ano 30, quando Tibério era Imperador de Roma. A cronologia de “A Bíblia de Jerusalém” situa a morte de Jesus no dia, 7 de abril do ano 30 (E.P. pg. 708).

Mas, qual o grande significado da morte de Jesus, numa sexta-feira, na 9º vigília (Mc. 15, 34)? Para começar, esta era a hora da matança do cordeiro pascal, uma vez que era o dia da vigília (Lc. 23, 54). A morte de Jesus na cruz reveste-se de um aspecto sacrifical. É o sacrifício do Servo de Jahvé que dá sua vida em resgate pela multidão (Is. 53, 12), do Cordeiro Pascal da festa messiânica (Is. 42, 1-4), da Nova Aliança que cumpre a do Sinai (Jer. 31, 31-34). Paulo afirma audaciosamente: “Aquele que não conhecera o pecado, Deus o fez pecado” (hattat), quer dizer vítima pelo pecado (II Cr. 5, 21). E João diz: “Ele é a vítima, de expiação pelos nossos pecados” (I Jo. 2, 2; 4, 10).

Estas afirmações vão diretamente de encontro ao texto da Ceia: o sangue de Jesus “e derramado por muitos para remissão dos pecados” (Mt. 26, 28). Como compreender isso? Pois o holocausto de Jesus assemelha-se mais a uma carnificina sem nome do que a um sacrifício oferecido a Deus. Como descobrir no matadouro do Gólgota o sacrifício para o perdão dos pecados e o dom do amor do Pai? É necessário que passemos agora humildemente pelas veredas dos rituais do Antigo Testamento, que leiamos a morte de Jesus com os olhos da Escritura.

Contudo é certo que a morte de Jesus não entra diretamente em nenhuma das categorias sacrificais antigas, mas cada categoria (5 espécies de sacrifício) desvenda mais a plenitude, de seu mistério. Ela é holocausto se considerarmos o caráter irrevogável da imolação: mas aqui a vítima ressuscita. Ela é o Sacrifício de Comunhão se considerarmos a refeição da Aliança, inauguradora na Ceia; mas aqui a vítima é também o principal oferente. Ela é expiação pelo pecado; mas aqui a vítima é inundada pela glória do céu, senta-se à direita do Pai. O sacrifíco é, pois, singular, irredutível, transcede todas as categorias sacrificais antigas, realiza a plenitude espiritual do Holocausto, do Sacrifício de Comunhão, do Sacrifício de Expiação: “Assim como Cristo também nos amou e se entregou por nós a Deus, como oferta e sacrifício de odor suave” (Ef. 5, 2).

A ressurreição de Jesus é inseparável do contexto Sacrifical e Eucarístico. São Paulo incorporou um Hino Cristológico na Carta aos Filipenses, onde diz: “Cristo humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de Cruz! Por isso Deus o sobre exaltou grandemente"”(Fl. 2, 8-9). Eis as principais narrativas da ressureeição:

-        Mt. 28, 1-8

-        Mc. 16, 1-8

-        Lc. 24, 1-8

-        Jo. 20, 1-10

-        At. 2, 32; 10, 41; 17, 31

-        Rm. 6, 49; 7, 4

-        I Cr. 15, 1-53

-        II Cr. 5, 15

-        I Tess. 4, 14

-        Hb. 9, 1-14

-        I Pd. 3, 18

Pelas narrativas anteriores, sabe-se que Jesus de já morto sobre a cruz (Jo. 19, 30), ainda teve o seu peito aberto com uma lança (Jo. 19, 34), de onde jorrou sangue e água; curiosamente, na mesma hora no Templo os cordeiros pascais eram imolados com uma punhalada no coração. Jesus também não teve nenhum osso quebrado (Jo. 19, 36). Então, José de Arimatéia encarregou-se de sepultar o corpo de Jesus. “Eles tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho com aromas, como os judeus costumavam sepultar. Havia um jardim, no lugar onde Ele fora crucificado e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ninguém fora ainda colocado. Aí, então, por causa do dia da Preparação dos judeus e porque o sepulcro estava perto, eles depositaram Jesus” (Jo. 19, 40-42).

O Sábado, ainda que era o Shabat Pascal, era guardado em repouso completo. No dia primeiro da semana (depois: dies domini= domingo), Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro (Mt. 28, 1). Um Anjo lhes falou: “Não temais. Sei que estais procurando Jesus, o crucificado. Ele não está aqui pois ressurgiu, conforme havia dito. Vinde ver o lugar onde ele jazia. Ide já contar aos discípulos que ele ressurgiu dos mortos e que vos precede na Galiléia. Alí o vereis, vede bem, eu vo-lo disse” (Mt. 28, 5-8).

Ainda em vida, Jesus dissera que era necessário que o Filho do Homem sofresse muito, fosse rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, fosse morto e ressuscitasse ao terceiro dia” (Lc. 9, 22). Antes de subir ao céu (At. 1, 9), Jesus apareceu algumas vezes com seu corpo glorificado. Contudo, se os 4 Evangelhos concordam entre si em relatar a aparição inicial do anjo (ou dos anjos) às mulheres (Mt. 28, 5-7) (Mc. 16, 5-7; Lc. 24, 4-7; Jo. 20, 13), divergem no que diz respeito às aparições do próprio Jesus.

Não tomando em conta Marcos, cuja conclusão abrupta apresenta um problema especial (Mc. 16, 8), e cuja longa parte final recapitula os dados dos outros Evangelhos, observa-se uma distinção literária e doutrinalmente marcada entre:

1º - Aparições particulares destinadas a aprovar a Ressurreição: a Maria Madalena só (Jo. 20, 14-17) (Mc. 16, 9), ou acompanhada (Mt. 28, 9-10); aos discípulos de Emaús (Lc. 24, 13-32; Mc. 16, 12), a Simão (Lc. 24, 34), a Tomé, (Jo. 20, 26-29).

2º - Uma aparição coletiva e missão apostólica (Mt. 28, 16-20; Lc. 24, 36-49; Jo. 20, 10-23; Mc. 16, 14-18).

Por outra parte, nota-se a experiência de duas tradições quanto a localização: só na Galiléia (Mc. 16, 7; Mt. 28, 10. 16-20); só na Judéia (Lc. e Jo. 20); Jo. 21 apresenta, a modo de apêndice, uma aparição na Galiléia que, embora apresente caráter particular (concernente, sobre tudo a Pedro e a João), nem acompanhada de uma missão (a Pedro). O Querigma primitivo transcrito por Paulo em I Cr. 15, 3-7 enumera 5 aparições, (às quais se acrescenta a aparição ao próprio Paulo) que não se deixam harmonizar facilmente com as narrativas evangélicas; Paulo menciona especialmente uma aparição a Tiago, também narrada pelo Evangelho aos Hebreus. Sentem-se aí tradições diferentes, devidas a grupos diversos que é difícil distinguir com precisão. Mas essas divergências mesmas atestam, melhor do que uma uniformidade artificialmente construída, o caráter antigo e histórico dessas múltiplas manifestações do Cristo ressuscitado.

Se dá pregação de Jesus nasceu a Igreja, o seu Corpo Místico (Col. 1, 18), Igreja-Sacramento, esta é em virtude do Espírito Santo. O Cristo ressuscitado outorgou-o à Igreja 50 dias após a sua ressurreição (At. 2, 1). Porém, já no dia da ressurreição, ele soprou sobre seus discípulos e “lhes disse: Recebei o Espírito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; aqueles aos quais não perdoardes, ser-lhes-ão retidos” (Jo. 20, 22-23).

A morte e ressurreição de Jesus, foi um sacrifício inédito e irrepetível, “pois nele aprouve a Deus fazer habitar toda a Plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os do céus, realizando a paz pelo sangue, da cruz” (Cl. 1, 19-20). A Carta aos Hebreus exalta sobremaneira a expiação dos pecados do mundo pelo sacrifício de Cristo (Hb. 2, 17). Jesus Sumo-Sacerdote para a eternidade, segundo a ordem de Melquisedec (Hb. 6, 20). Ele, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados, sentou-se para sempre à direita de Deus (Hb. 10, 12). E Ele é o mediador da Nova e definitiva Aliança (Hb. 12, 24).

 

 

 

 

I. HISTÓRIA DO SACRIFÍCIO

 

Sacrifícios

A vítima oferecida

O sacerdote que a oferece

o altar em que se oferece

Como se realiza a oferta

Por quem se oferece

Com que fins se oferece

 

SACRIFÍCIOS DA ANTIGA ALIANÇA

Abel

Primícias do seu rebanho

Abel

altar de pedra

com efusão de sangue

por si mesmo

Sacrifício de adoração

Estes sacrifício só tinham valor enquanto prefiguravam e anunciavam o sacrifício de Cristo

Noé

animais puros

Noé

altar de pedra

com efusão de sangue

por sua família

Sacrifício de ação de graças

Melquisedec

pão e vinho

Melquisedec

altar de pedra

sem efusão de sangue

por Abraão e seu exército

Sacrifícios de ação de graças

Isaac

Isaac substituído por um carneiro

Abraão

fogueira

com efusão de sangue

por si mesmo e por Isaac

Sacrifício de adoração e de ação de graças

Cordeiro Pascal

cordeiro macho de um ano e sem defeitos

O pai de família

a mesa da família

com efusão de sangue

por sua família

Sacrifício de propiciação

Sacrifícios oferecidos

No templo de Jerusalém

animais puros e sem defeitos

Ÿ

artigos alimentícios

sacerdotes judeus ajudados pelos levitas

altar dos holocaustos situado diante do santuário

com efusão de sangue

(Holocaustos)

Ÿ

sem efusão de sangue

(Hóstias pacíficas)

por todo o povo

Sacrifício de:

Adoração

Ação de graças

Propiciação

Impetração

SACRIFÍCIO DA NOVA ALIANÇA

A Ceia

JESUS CRISTO

JESUS CRISTO

a mesa do cenáculo

sem efusão de sangue

por toda a humanidade

Os quatro fins do sacrifício:

ADORAÇÃO

(sacrifício latrêutico)

AÇÃO DE GRAÇAS

(Sacrifício Eucarístico)

EXPIAÇÃO

(Sacrifício prociatório)

PETIÇÃO

(Sacrifício impetratório)

 

O único sacrifício de valor infinito

O Calvário

JESUS CRISTO

JESUS CRISTO

a cruz

com efusão de sangue

A missa

JESUS CRISTO

JESUS CRISTO

por meio do sacerdote

o altar

sem efusão de sangue

“Viver com Cristo”

Andrés Dossim – Edições Paulinas, 1.968

II. PARALELISMO ENTRE O SACRIFÍCIO DO CALVÁRIO E O SACRIFÍCIO DA MISSA

 

 

NO CALVÁRIO

NA MISSA

 

A vítima é Jesus Cristo

JESUS CRISTO OFERECE SUA VIDA PELA SALVAÇÃO DO MUNDO

“Cristo com seu próprio sangue entrou uma só vez no Santo dos Santos”

(Hebreus 9, 12)

JESUS CRISTO RENOVA A OFERTA DE SUA VIDA PELA SALVAÇÃO DO MUNDO

“Este cálice é o Novo Testamento do meu sangue”

(I Coríntios 11, 25)

O sacerdote oferece a vítima divina

O sacerdote é Jesus Cristo

JESUS CRISTO OFERECE A SI MESMO AO PAI PELA SALVAÇÃO DO MUNDO

“Apareceu uma só vez… para destruir o pecado com o sacrifício de si mesmo.”

(Hebreus 9, 26)

JESUS CRISTO RENOVA SUA OFERENDA AO PAI POR INTERMÉDIO DO SACERDOTE

“Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este vinho, anunciareis a morte do Senhor”

(I Coríntios 11, 26)

O sacerdote se identifica com Jesus Cristo

A presença é física

JESUS CRISTO ESTAVA FÍSICA E VISIVELMENTE PRESENTE

“Na cruz se ocultava só a Divindade”

(Adoro Te…)

JESUS CRISTO ESTÁ REAL PORÉM INVISIVELMENTE PRESENTE SOB AS ESPÉCIES SACRAMENTAIS

“Mas, aqui, se oculta até a humanidade”

(Adoro Te…)

A presença é real e sacramental

A morte é real

JESUS CRISTO MORREU REALMENTE E DERRAMOU TODO O SEU SANGUE

“Porque, quanto a ele morrer pelo pecado, morreu uma só vez”

(Romanos 6, 10)

JESUS CRISTO MORRE MISTICAMENTE SEM DERRAMAR SEU SANGUE

“Sabendo que Cristo, ressuscitado, não morre mais, nem a morte terá sobre ele mais domínio”

(Romanos 6, 9)

A morte é mística e intencional

O sacrifício é único

JESUS CRISTO MORREU UMA SÓ VEZ PELA SALVAÇÃO DO MUNDO

“Cristo se ofereceu uma só vez para apagar os pecados de muitos”

(Hebreus 9, 28)

JESUS CRISTO RENOVA SEM CESSAR SEU SACRIFÍCIO PELA SALVAÇÃO DO MUNDO

“Vivendo sempre para interceder por nós”

(Hebreus 7, 25)

O sacrifício é perpétuo

Os pecados são reparados

JESUS CRISTO SATISFEZ POR TODOS OS PECADOS DO MUNDO

“Com uma só oblação, tornou perfeitos para sempre os que foram santificados”

(Hebreus 10, 14)

JESUS CRISTO NOS APLICA MÉRITOS INFINITOS ACUMULADOS PARA NÓS SOBRE A CRUZ

“Somo santificados mediante a oblação do corpo de Jesus Cristo”

(Hebreus 10, 10)

Os méritos são aplicados

“Viver com Cristo”

Andrés Dossim – Edições Paulinas – 1.968

 

2.5. – As Primeiras Ceias Cristãs

 

Desde a Ceia de Jesus com seus Apóstolos, a Ceia Pascal começou a tomar a forma de Banquete Eucarístico. As primeiras Eucaristias ainda foram presididas por Jesus ressuscitado, antes de sua Ascenção:

- Lc. 24, 30-35= Emaús

- Jo. 21, 13     = Lago de Tiberíades

Os apóstolos já estavam revestidos de sua missão: “Ide por todo o mundo, proclamai o Evangelho a toda criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo” (Mc. 16, 15-16). Após o dia de Pentecostes (At. 2), eles saíram a pregar, cada um na sua língua. A Ásia Menor abrigou as primeiras comunidades cristãs, as quais se sentiam coesas pela fração do pão, na fé do Cristo ressuscitado. Pedro, no primeiro discurso, converteu mais ou menos 3 mil pessoas (At. 2, 42); no segundo discurso, mais ou menos 5 mil pessoas (At. 4, 4). Na comunidade de Jerusalém, “eles se mostravam assíduos ao ensinamento dos apóstolos à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações… Todos os fiéis, unidos, tinham tudo em comum… Dia após dia, unânimes freqüentavam assiduamente o Templo e partiam o pão pelas casas, tomando o alimento com alegria e simplicidade de coração (At. 2, 42-47).

A Ceia era celebrada no escurecer, sempre precedida da pregação: “no 1º dia da semana, estávamos reunidos para partir o pão; Paulo devia partir no dia seguinte e entretinha-se com eles. Prolongou o seu discurso até o meio da noite… partiu o pão e comeu; discorreu por muito tempo ainda, até a aurora. Então partiu” (At. 20. 7. 12). O 1º dia da semana judaica que se tornou o dia de reunião dos cristãos (I Cr. 16, 2), passou a ser considerado o “Dia do Senhor” (Ap. 1, 10= domingo). A reunião dominical realizava-se no começo deste dia, mas contado à maneira judaica, isto é, no sábado à tarde. O ritual primitivo era este:

-        Koinonia: Amor-Comunhão= fração do pão e vida em comum.

-        Diakonia: Amor-Serviço= ajuda aos necessitados.

-        Kerigma: anúncio da Boa Nova que leva à conversão e ao compromisso com a comunidade.

-        Leitourgia: celebração do amor de Deus.

A fonte da alegria era a expectativa da vonda eminente do Reino e a consciência da presença do Kyrios. A expectativa da vinda final do Kyrios provocava o grito espontâneo: Maranathá, ou vinde Senhor Jesus; esta interjeição entrou numa composição da Oração Eucarística. A prática dos primeiros cristãos vem a ser uma confissão de fé, mesmo que talvez de modo inconsciente, no significado da Eucaristia: assim como Jesus, o novo Moisés, alimentou com pães a multidão faminta no lugar deserto, também agora, na refeição da Igreja, o Senhor ressuscitado está presente, alimentando os que o seguem, com o pão “que dura até a vida eterna” (Jo. 6, 27).

Pelos anos 53-58, Paulo e Apolo fundaram a Comunidade de Corinto. Por volta da Páscoa de 57, Paulo escreveu a I Carta aos Coríntios na qual ele reflete a Ceia Eucarística, já mais ou menos 30 anos depois da morte de Jesus: Em I Cor. 10, ele faz uma alusão ao maná do deserto à água do rochedo. Então ele censura as práticas idolátricas: “O cálice de bênção, que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos, não é comunhão com o Corpo de Cristo… Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios”. (I Cor. 10, 16. 21). Aí já há uma consciência da presença real de Cristo nas espécies Eucarísticas. Por isso o conselho: “Portanto, quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus (I Cor. 10, 31).

Paulo cuidou da boa ordem nas assembléias, censurando os Coríntios: “Quando vos reunís, o que fazeis não é comer a Ceia do Senhor; cada um se apressa por comer a sua própria Ceia; e, enquanto um passa fome, o outro fica embriagado… Que cada um examine a si mesmo antes de comer desse pão e beber desse cálice, pois aquele que come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação” (I Cor. 11, 20-21. 28-29). Aí já era sabido que a caridade é uma exigência da Eucaristia pois o amor ao Senhor implica no amor ao próximo: “O escriba, disse a Jesus: muito bem, Mestre, tens razão de dizer que ele é o único e não existe outro além dele; e amá-lo de todo o coração, de toda a inteligência  e com toda a força, e amar o próximo como a si mesmo é mais do que todos os holocaustos e todos os sacrifícios” (Mc. 12, 32-33).

 

3. – História da Igreja

 

3.1. – Os Tempos Apostólicos

 

Jesus veio para instaurar o Reino dos Céus (Mt. 13, 11) entre os homens, vencendo o poder da morte ou pecado. Ele instruiu discípulos, dos quais escolheu 12 para serem colunas do Novo Povo de Deus. Ao apóstolo Simão foi confiado o Primado: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi carne ou sangue, que te revelaram isto, e sim o meu Pai que está nos céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno nunca prevalecerão contra ela. Eu, te darei as chaves do Reino dos Céus e o que ligares na terra será ligado nos céus, e o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt. 16, 17-19).

A Palavra grega “Petros”, nem a aramaica “Kepha” = rocha, eram usadas como noem de pessoa antes que Jesus chamado assim o chefe dos apóstolos para simbolizar o seu papel na fundação da Igreja. O termo semítico traduzido por “oklesía” significa “assembléia” e ocorria freqüentemente no Antigo Testamento para designar a comunidade do povo eleito, sobretudo no deserto (Dt. 4, 10; At. 7, 38). No tempo de Cristo, certos círculos judaicos que se consideravam o Resto de Israel (Is. 4, 3) dos últimos tempos, como por exemplo, os essênios de Qumrã, o aplicaram ao seu grupo. Tomando esse termo, Jesus o aplica à comunidade messiânica, cuja Nova Aliança, ele estabeleceria pelo derramamento do seu sangue (Mt. 26, 28; Ef. 5, 25); empregando-o ao lado da expressão “Reino dos Céus” (Mt. 4, 17), indica que essa comunidade escatológica deve começar já na terra por uma sociedade organizada, cujo chefe ele acabava de instituir.

Esta comunidade eclesial, ainda latente, dois testemunha ocular dos ensinamentos e milagres de Jesus, bem como de sua paixão e de suas aparições. De seu ardor missionário nasceram as comunidades cristãs. Nestas, aos poucos se formaram, os ritos litúrgicos (Leitos= povo; erga= obra), os hinos (Ef. 1, 3-14; Fl. 2, 6-11; Cl. 1, 15-20), as orações, os ritos sacramentais.

Ao que parece, nos tempos apostólicos e até bastante mais tarde, a Ação Eucarística com o pão e o cálice estava vulgarmente unida com uma refeição normal. Normalmente a Eucaristia tinha lugar depois da refeição (I Cor. 11, 17-26). Segundo os costumes antigos, depois da refeição de festa seguia-se uma “orgia” que, sob a designação de “symposion” ou… “mischtita”, veio a dar o nome a toda a refeição. As comunidades primitivas devem ter dado caráter festivo às suas ceias comunitárias, que, possivelmente, ao princípio, só se celebravam ao domingo, pelo fato de, em vez da antiga orgia, terem feito seguir à refeição a celebração da Eucaristia. Já nos festins judaicos se começava o simpósio com a oração de ação de graças, recitada pelo chefe da casa sobre a terceira taça; sem dúvida nenhuma Oração Eucarística primitiva radica historicamente, quanto à sua forma, nesta oração judaica de ação de graças.

Na Ceia dos primitivos cristãos, havia uma dupla ação: uma Oração Eucarística, pronunciada sobre o pão e sobre o cálice com vinho e, outra a repartição do pão e a passagem do cálice por todos os convivas. No mundo helenístico, não se encontram facilmente analogias deste modo de proceder. É um fato admitido por quase todos os investigadores da Ceia que aqui se juntaram 2 gestos originariamente judaicos: um gesto de abertura e um rito de conclusão. Isto formalizava uma refeição solene, celebrada em ocasiões especiais, com pessoas bastante íntimas.

Os primeiros cristãos, certamente sem o saberem, deram um passo do natural ao sobrenatural. Sem dúvida, ninguém deles imaginou o futuro da “Eucaristia”, seu alcance, sua eficácia, sua influência. De uma refeição solene e familiar, eles passaram a uma refeição cultual e divina. Era a humanidade do Deus Criador e Redentor, Único e Verdadeiro, feito alimento e bebida. Pela refeição eucarística, o ser humano entrava em comunhão com a divindade de uma maneira singular na história; maneira simples e natural, mas demasiado misteriosa ao entendimento humano. A Ceia Eucarística já era “memorial” da paixão e ressurreição e de sua obra Redentora. Era a festa dos filhos de volta à casa do Pai, libertos do pecado e da morte. O termo “missa” é conhecido desde os tempos apostólicos. Em latim “mitto-misi-missum-mittere” significa “enviar”. Nas primeiras ceias cristãs, ao final desta, os fiéis eram despidos com uma bênção, isto é, “enviados” ao mundo para testemunharem em vida e palavras o que acreditavam e celebravam. A Ceia era tida como um compromisso com a comunidade, uma “missão”.

 

3.2. – Os Padres Apostólicos e os Apologetas

 

A Ceia do Senhor constituía desde o princípio o centro cardeal da vida cristã, não tanto como objeto de especulação, mas como prática litúrgica e vivência de fé. Sob o véu dos símbolos buscava a fé o encontro vivificante com Cristo; nada mais consentâneo do que separar a Ceia do Senhor da refeição e ligá-la à celebração da Palavra de Deus inspirada pela Sinagoga, e em que Cristo vinha ao encontro dos fiéis da Palavra. O termo “Eucharistia” passou a designar não só a oração sobre as oferendas, mas também a ação toda e finalmente os elementos sagrados. Em grego “cháris” significava: dom de Deus. Daí que Teodoro de Mopsuéstia definiu a Eucharistia como a exposição dos dons de Deus.

Os padres apostólicos do século II associaram à Eucaristia a idéia de Sacrifício; sacrifício de ação de graças, não como obra autárquica do homem feito a Deus mas como sacrifício espiritual de louvor e de reconhecimento a Deus que enfim não exclui mas inclui a oferenda visível. Aí já vai sendo canonizada uma fórmula consecratória, sem a qual as dádivas de pão e vinho não se tornam Corpo e Sangue do Senhor. O ritual primitivo levava em conta uma visão de conjunto.

Santo Inácio de Antioquia (110) afirma que a Ceia do Senhor é comunhão com Jesus Cristo em pessoa (Ef. 20, 2; Mq. 1, 2 7-2) e a vida por excelência (Tr. pr.). Fazendo apologia contra os Gnósticos, diz ele que Deus apareceu na carne em Cristo (Ef. 7, 2) e nos remiu no seu sangue (Ef. 1, 1; Am. 2). Para ele o Sacramento da Ceia é a “Carne de nosso Redentor Jesus Cristo, que sofreu por causa de nossos pecados, que o Pai em sua bondade ressuscitou dos mortos” (Sm. 7, 1), é “a uma carne de nosso Senhor Jesus Cristo e o uno cálice para a união com o seu sangue” (Phld 4); assim estabelecia-se a ligação entre o Jesus histórico e o Cristo glorificado. Ele interpretava a Eucaristia como “remédio para a imortalidade e antídoto para não morrermos e vivermos sempre em Jesus Cristo” (Cf. 20, 2). O Bispo era o celebrante por excelência da Eucaristia; o Bispo, por sua vez, era-lhe o sinal de unidade da Igreja.

Data desta época a prática de mergulhar um fragmento, de pão no vinho consagrado, nascida da seguinte maneira: o Bispo, sinal da unidade dos cristãos, era o oficiante da Eucaristia. Dela iam participar os presbíteros das comunidades vizinhas, no final da qual recebiam uma fração do pão ali fracionado para levarem-no à sua comunidade. Era o sinal do mesmo Cristo presente em todas as comunidades. Chegando ali, durante a Ceia o presbítero mergulhava o fragmento trazido dentro do vinho apresentado sobre o altar. Este símbolo perpetua-se até os nossos dias, na hora do “Agnus Dei”.

Justino Mártir (165) alargou o conceito da Eucaristia ligando-o à Encarnação: “Não a tomamos como pão comum nem como bebida comum. Mas antes: Do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne pelo Logos de Deus, tinha (se tornado) carne e sangue, é também o alimento que por uma oração impetrando o Logos que dele (de Deus) procede (ou por uma palavra de oração que dele provém) se tornou em Eucaristia, exatamente a carne e o sangue daquele Jesus feito carne, como (enfim) a carne e o sangue se formam de alimento em virtude da trasnformação do alimento” (Apol. 1, 66). Justino explicou que o Logos se apodera das oferendas, incorpora-as e transubistância-as em si. O valor e a dignidade do sacramento está exatamente na interferência do Logos.

Ireneu de Lião (séc. II) pensava de modo semelhante; ele diz que os elementos são enriquecidos pelo Logos de Deus e se tornam, na Eucaristia, no Corpo e no Sangue de Cristo, essa consiste por isso de duas realidades, uma celestial e outra terrena. Pois ela propicia afinal o Logos, que se deve tomar como remédio da vida, comer e beber como pão da imortalidade. Por ele alcançam então os corpos alimentados com a Eucaristia a Ressurreição (Adv. haer. III; 19, 1; IV. 18, 5. 38, 1; V. 2, 3).

Hipólito (200) foi um Bispo que teve a inspiração de compor uma “Oração Eucarística”, a qual perdura até hoje, a assim denominada II Oração Eucarística. Esta oração elucida a doutrina dogmática e a teologia eucarística da época. Ela consta de anamnese, epiclese, prosphora, elementos não figuraram em todas as Orações Eucarísticas posteriores.

Até o século III a Igreja de Cristo enfrentou muitas perseguições por parte dos Imperadores Romanos. Inúmeros cristãos estraçalhados pelas feras eram espetáculo para a corte imperial; o Coliseus ainda é testemunha destes eventos. Em Roma, os cristãos se refugiavam nas catacumbas, como a de São Calixto e outras, onde sepultavam seus mártires. Era uma fase delicada, uma vez que a doutrina era quase somente oral. Contudo, felizmente aos poucos surgiria a literatura doutrinal e apologética. Num ambiente de filosofia greco-romana as heresias eram eminentes. Embora seja cômodo e pouco racional, deve-se dizer que o “divino Soprador” inspirava a Igreja no seu proceder, ora perpetuando os ensinamentos de Jesus, ora fundamentando a doutrina Eucarística.

 

3.3. – A Teologia Alexandrina

 

No final do século II havia alguns centros culturais no Mediterrâneo; um deles era Alexandria, no delta egípcio. A escola teológica de Alexandria brilhou com Orígenes, Clemente, Atanásio, Cirilo, Eusébio de Cesaréia, Sarapião de Thmuis e Dídimo. Esta escola interpreta a natureza e a dignidade do cristianismo na participação do Logos divino (Jo. 1, 1) que se tornou acessível à humanidade em Jesus Cristo. A Eucaristia, então, era tida como um meio preponderante, se bem que não o único, da comunhão com o Lógos, o Corpo e o Sangue de Cristo são o “Totus Christus”.

Clemente (100) via o pão e o vinho eucarístico como o Kyrios Jesus, o Lógos de Deus, Pneuma encarnado, carne celeste santificado. Essas espécies manducáveis constituem uma maneira menos elevada de Comungar com o Lógos, como o fazem os cristãos mais simples (os písticos). O cristão perfeito, o gnóstico comunga dum modo mais espiritual, pois o Lógos é antes de tudo revelador e mestre de idéias (Stronata V. 10, 66). Clemente, de educação Platónica, everedou por caminhos dualistas, interpretando a Eucaristia, mas como presença análiga do que real do Lógos.

Orígenes (185-250) foi mais radical ainda na depreciação da oferenda eucarística visível; ele recorreu à palavra de Jesus: “não o que entra na boca torna impuro o homem, mas, o que sai da boca” (Mt. 15, 11) (Rm. 14, 23 e I Cor. 8, 8). Diz ele que o pão e vinho que Jesus professava como sendo seu corpo e seu sangue não teriam sido as realidades que tinha em mãos mas a Palavra que alimenta as almas e inebria os corações, em cuja sacramentalidade aquele pão se destina a ser partido e aquela bebida a ser derramada. Orígenes insiste que receber pura e simplesmente o pão e vinho sem a devida consciência ou fé, isso não produz nenhum efeito espiritual; daí a valorização da disposição subjetiva do receptor, como condição de dignidade. Orígenes inovou a comunhão, dando-lhe um aspecto espiritualista pela acentuação da Palavra, em detrimento dos elementos visíveis. Ele teve uma compreensão muito avançada, contudo exagerou ao menosprezar a comunhão oral.

Atanásio (295-373) acrescentou o aspecto soteriológico a esta concepção de Eucaristia-Lógos. Para ele, o Lógos não é mediador de idéias, mas da Salvação ou Redenção. Esta consiste na divinização do homem, a qual não acontece senão pela encarnação do Lógos. A Eucaristia é o corpo do Lógos; ela propicia o Pneuma. Nós somos divinizados não por participação no corpo dum homem, mas em recebendo o corpo do Lógos (Epístula ad Maximun phil.).

Cirilo (444) chamou a Eucaristia de “Eulogia Mística” atribuiu-lhe a prerrogativa divina de geradora de vida, por ser o corpo do Lógos. Cirilo foi arauto da idéia da Consagração, explicando que os elementos comestíveis são pervadidos pelo Lógos e se tornam assim seu corpo e sangue.

A espiritualidade alexandrina ensinuou a transubstanciação, embora ainda não falasse assim. O mérito desta escola foi buscar o Lógos na Eucaristia. Ela trilhou caminhos novos e perigososl, como naquele caso de quase menosprezar o Jesus histórico e a comunhão oral.

 

3.4. – Os Antioquenos Pré-efesios

 

No século IV a Igreja já conhecera triunfos sob alguns aspectos. Apesar da divisão do Império Romano em Oriental e Ocidental no final do séc. II, o Papado Romano assegurava a unidade da Igreja. Com Edito de Milão em 313 a Igreja pode emergir das catacumbas para construir a sua história. Santo Agostinho (354-430) consolidou a Teologia. São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, a Vulgata. Para tratar de questões doutrinárias e disciplinares, Bispos e Presbíteros haviam se reunido em Concílios: Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431), Calcedônia (451), Constantinopla (553).

Ainda antes do Concílio de Éfeso, a doutrina eucarística conheceu mais um capítulo. Se os téologos de Alexandria, associara o Lógos à Eucaristia, de Antioquia exploraram o tema da Anamnesis.

João Crisóstomo (344-407), “Doctor Eucharistiae”, foi o expoente máximo. Ele afirma a identidade não só da una oferenda Cristo em todas as missas, mas também a identidade de nosso oferecimento sacrifical com o oferecimento do sacrifício Jesus fez na Cruz. Em cada Eucaristia não é oferecido um novo sacrifício, pois o de Cristo é irrepetível e derradeiro, mas uma memória ou Anamnesis do mesmo. A obra salvífica de Cristo, consumada na cruz e na ressureição, adquire uma “agora” na Liturgia. Há identidade entre o corpo histórico e o eucarístico de Jesus. Em cada sacrifício veterotestamentário sacrificava-se um cordeiro diferente, mas agora sacrificamos sempre o mesmo Cristo, em diferentes tempos e lugares. O sacrifício atual acontece em memória do que aconteceu outrora ou seja, fazemos uma Memória do Sacrifício. Na Ceia Cristo ordenou fazer isto em memória dele (In Hebr. 8, 4-5).

Teodoro de Mopsuéstia (396) afirmou que Jesus é sacrificado mediante os símbolos: morre, surge dos mortos, sob os céus, envia o Espírito Santo. Teodoro destacou a Epíclese do Espírito Santo, paralelizando-o com a ressurreição. O Espírito Santo vivificou o corpo de Jesus e uniu-o definitivamente com a divindade, conferindo-lhe a imortalidade e o poder de tornar imortais também a outros. Com essa explicação, Teodoro temporalizou o mistério da Redenção, induziu à explicação alegórica da missa e à conceituação da Epiclese como o ato consecratório propriamente dito. Teodoro preocupou-se com uma sã liturgia. Ele mostrou reservas à simbologia da Eucaristia: cedo ele rejeitou a designação dos elementos sagrados como símbolos; eles são realmente o corpo e o sangue de Cristo, primeiro segundo o relato da instituição o corpo morto deitado no sepulcro, e após a Epiclese o corpo ressuscitado, repleto do Espírito, imortal e imortalizante.

Os três capadócios: Basílio, Gregório Nazianzeno e Gregório de Nissa, mediam entre a compreensão da Eucaristia como Lógos (Alexandria) e como Anamnese (Antioquia). As Atas de Tomé (158), as Constitutio Apostolicae, Efrém  de Antioquia (545) e Teodoreto de Ciro professam a identidade do corpo sacramental com o histórico.

Gregório de Nissa (335-395) sublinha a identidade do corpo eucarístico com o encarnado. Ele revela a ação do Espírito no momento da Consagração. O Espírito Santo muda onticamente as oferendas eucarísticas. A consagração e a natureza da Eucaristia não são acessíveis aos sentidos, mas unicamente congnoscíveis ao pensamento crente.

Ainda antes do Concílio de Éfeso (431) a Igreja Grega ou Oriental debatia-se com as heresias de Ário Nestório e Eutiques. Digno de menção é João Damasceno (675-749) com o “De Fide Orthoxa”. Ali ele determinou de início o valor de posição do sacramento no quadro da realidade cristã, que leva o homem caído a Deus, corresponde à sua natureza corpóreo-espiritual, sustenta como alimento pneumático a alma, não estando pois sujeito às vicissitudes da digestão. Ele não reflete expressamente a idéia de Anamnesis, mas aplica a na forma de princípio encarnacional. Mas reasume por sua vez a consagração, que segundo ele acontece pela descida do Espírito Santo sobre os elementos. Deus une a eles sua divindade e torna-as em seu corpo e sangue. O pão da comunhão não é pão comum, mas unido a divindade, é o corpo nascido da Virgem, o corpo do Crucificado. O corpo eucarístico é o corpo real de Cristo. A Eucaristia é nosso Senhor Jesus Cristo que desceu do céu (P. G. 94, 1137-1152).

 

3.5. – Os Padres Latinos

 

Na Igreja do Império Ocidental, desde o Edito de Milão (313) o Cristianismo cresceu e em 380 passou a ser a religião oficial do Império Romano. A paz e a prosperidade favoreceriam a expansão e a consolidação desta religião da Eucaristia. Mesmo a queda de Roma em 476 não seria maléfica, antes corroboraria com a missiologia primitiva. No campo doutrinário, Santo Agostinho teria que combater as heresias: maniqueísta, donatista, pelagiana e ariana. Contudo vuluus de renome bem-intencionados foram mais numerosos.

Os padres latinos especularam menos que os gregos sobre a Eucaristia. Ativeram-se apenas à idéia básica da memória da obra salvífica. O seu interesse maior recaiu sobre as oferendas. Por exemplo:

Tertuliano (155-240) identificou com admirável clareza o pão e o vinho oferecidos com o corpo e o sangue de Jesus. Dizia ele que pelo pão, Cristo torna-se presente (representat) o seu corpo; nada dele pode cair no chão; e mãos sacrílegas o profanam. Se Tertuliano chama a Ceia do Senhor em Adv. Marc. 4, 40 de “figura corporis”, não pretende de modo algum essa designação volatilizar simbolísticamente a realidade do corpo, mas ao contrário sublinhá-la e garantí-la, pois que se destina a refutar a tese gnóstica da irrealidade e aparência fictícia do corpo histórico de Jesus. “Figura” não é fatasma (Vacua res), mas supunha como coisa concreta parecendo um “corpus”, significando “corpus” a realidade como tal. A Eucaristia se condiciona pois tanto ao corpo histórico de Jesus, a ponto de comprovar-le a realidade. Tertuliano atestou ainda, o outro lado da natureza da Eucaristia, o seu caráter de sacrifício: Chamou-o “sacrificium” e “oblatio” e referiu-lhe o conexo intrínseco com o sacrifício de Jesus: “rursus mactabistur Christus” (De Pud. 9, 11).

Cirpiano (258) foi talvez o primeiro a se opor as celebrações eucarísticas que certa gente praticava só com água, sem vinho. A água adicionada ao vinho a ser consagrado simboliza a humanidade unida à divindade pela Redenção operada pelo sangue de Cristo. O sacrifício que oferecemos é a paixão do Senhor, o sangue de Jesus é que é sacrificado. O sacrifício de Cristo presencializa-se no sacrifício dos cristãos. Os elementos da oferenda simbolizam não só a paixão de Cristo, mas também o povo cristão. O uno pão feito de muitos grãos, o vinho espremido de muitas uvas representam o povo tornado um Cristo, a mistura de vinho e água a união dele com Cristo. A unidade do povo da Igreja não é só fruto, mas a premissa da ceia do Senhor e que nela se expressa.

Santo Ambrósio (333-397) empenhou-se em suas catequeses “De Mysteriis” e “De Sacramentis” principalmente pela realidade do corpo e sangue de Jesus. No Sacramento está presente o corpo que nasceu da Virgem e foi crucificado, o corpo de Deus, o corpo do próprio Cristo. A coisa é assim contra todas as aparências, em virtude da Palavra de Jesus, que ainda hoje se anuncia em sua pessoa, em que todos os elementos recebem uma nova designação (significar, nuncupari), mas que expressa a realidade. A Palavra (sermo) de Cristo muda os dons. Se a Palavra de Cristo é capaz de criar coisas que não existem, poderá mudar coisas que já estão aí, originar e mudar naturezas. A Eucaristia é sacrifício. O oferecimento deste Sacrifício é a manifestação (significari) da morte, da ressurreição e da ascensão de Jesus.

São Jerônimo (347-419) reconheceu uma comunhão espiritualista ao lado da realista, comunhão que acontece não só no Sacramento, mas também na leitura da Escritura. Na Santa Ceia Cristo é sempre sacrificado. Jerônimo era seguidor das idéias de Orígenes.

Hilário de Poitiers, influenciado pela teologia grega, explicou a Ceia do Senhor a partir da Encarnação e como meio objetivo (naturalis), não só volitivo, da união com Deus. Considerou-a Cristo permanecendo na carne, o Verbum claro que une no Sacramento sua natureza carnal e eterna.

Santo Agostinho (354-430) apresentou sobre a Eucaristia uma doutrina discutível, que se move entre Realismo, Simbolismo e espiritualismo. Sua influência estender-se-ía por um milênio. Sua doutrina é: nas oferendas de pão e vinho estão realmente presentes o corpo e o sangue de Cristo; mas este Corpo e este Sangue não tem sentido em si mesmos. Eles apontam para uma realidade mais alta, isto é, para Cristo, que por sua ressurreição se transformou no Espírito Santo e se identifica com o Jesus crucificado, para aquele que é a cabeça da Igreja. A comunidade eclesial como Corpo Místico de Cristo é um conteúdo da Eucaristia. A Igreja não só constitui o pressuposto e a consequência da Eucaristia, mas também, como Corpo de Cristo, é ao mesmo tempo a realidade eucarística, pois naquela se torna presente a totalidade de Cristo. A Eucaristia se converte no caminho “no Espírito Santo para Deus Pai. A Igreja celebrará a Eucaristia par que os fiéis cheguem a Deus. A Eucaristia contém a esperança do futuro consumado. Ela constitui um encontro pessoal com Jesus Cristo. Agostinho era um platônico; embora a idéia platônica do supra-sensível, como a realidade autêntica e do material, sensível e perceptível, como imagem do invisível, tenha influído na interpretação eucarística de Agostinho, contudo, assim como na doutrina dos teólogos gregos, certamente desempenhou um papel mais importante a concepção veterotestamentária daquilo que precede como tipo daquilo que viria, do antitipo. Agostinho entendia, a Eucaristia como celebração memorial de um acontecimento e, desse caráter memorial da Eucaristia, tirou a consequência de que tanto se pode dizer: Cristo foi sacrificado, como: Cristo é sacrificado agora na celebração eucarística. Esta compenetração de passado e presente é característica para o pensamento tipológico do Novo Testamento. E nem por isso o tempo fica desvalorizado. Agostino ressaltou a historicidade de Jesu e o evento-Cristo. Contra os Donatistas, ele disse que em suas mesas há pão e vinho, mas por causa da sua heresia não há o espírito que dá eficácia aos dons.

 

3.6. – A Escolástica

 

A Escolástica estendeu-se por dez séculos, do V ao XV, isto é, até a reforma. Os fatos eclesiais mais importantes desta época foram o desenvolvimento do monaquismo, a conversão dos Bárbaros, as Ordens mendicantes e as Universidades. Os quatro Concílios de Latrão (1.123-1.139-1.179-1.215), e os dois de Lião (1.245-1.274) foram importantes marcos doutrinais. As oito cruzadas (séc. XI e XII) não foram muito bem sucedidas. Na metade do século XII o Papa Urbano IV instituiu a festa de “Corpus Christi” para a Igreja Universal. A doutrina eucarística, prosseguiu com:

Pascásio Radberto foi um monge beneditino do mosteiro de Corbie que em 853 publicou “De Sanguine Domini” nesta obra ele defendia a doutrina da tradição eclesiástica, segundo a qual a Eucaristia contém aquela carne e aquele sangue de Cristo que nasceu de Maria, foi cravado na cruz e ressuscitou dentre os mortos.

A doutrina de Pascásio foi atacada logo por Rabano Mauro (856), por Ratramno (868), por João Escoto Erígena (877) e pelo Abade Heriger (1007). Segundo Rabano, a Eucaristia é a celebração da ação redentora de Jesus Cristo. A participação no sacramento, no qual saborearemos o corpo e o sangue de Cristo, é, portanto, uma participação na paixão do Senhor. Ficou assim acentuada a presença dinâmica. De modo semelhante pensava Ratramno; segundo ele, a Eucaristia era a recapitulação da Redenção. Ela era uma imagem sensível do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, mas uma imagem plena da mesma realidade do significado. Para ele, o decisivo estava na união pessoal com Jesus Cristo, produzida e simbolizada por seu corpo, e sangue. Esta foi certamente a primeira polêmica eucarística.

Com Berengário, diretor da escola catedralícia de São Martinho de Toms, ocorreria nova polêmica em 1088. Ele se opôs às concepções naturalistas da Eucaristia. De fato, estas não correspodiam a uma concepção válida da realidade sacramental. Mas, Berengário, por sua vez, exagerou a diversidade na forma de existência até convertê-la numa diferença dentro da própria realidade. A esse respeito, guiava-se ele por uma determinada tese filosófica. Efetivamente, via a essência ou a substância de uma coisa na soma de suas propriedades ou em sua existência concreta. Por isso teve de negar a transformação do pão e do vinho no corpo e no sangue. E, apesar de seu motivo justificado, em virtude de um princípio filosófico errado, chegou a um esvaziamento da Eucaristia. Pois afirmou, uma presença meramente simbólica de Cristo e negou a presença objetivo-real.

A tese de Berengário foi rejeitada por diversos Concílios locais. Em 1059, sob o Papa Nicolau II, Berengário teve que assinar a fórmula composta pelo Cardeal Humberto: “O verdadeiro corpo de Cristo é sensível, verdadeiramente e não só sacramentalmente tocado e partido pelas mãos do Sacerdote, e triturado pelos dentes dos fiéis” (D. S. 690).

Pelo fim do século XI, como resultado teológico das disputas eucarísticas, explicava-se a presença na Eucaristia, por Conversão Substancial. Desde então, a expressão “Conversão Substancial” foi adquirindo sempre maior cidadania na esfera teológica. A Transsubstânciação foi explicada cada vez mais unilateralmente com o auxílio da Filosofia Aristotélica.

Alberto Magno (1193-1280) voltou ao tema: “missio”. Ele especulou sobre os textos da instituição da Ceia. Por isso ele acentuou o caráter sacrifical da missa. Para ele, o oferecimento sacramental das oferendas constituia uma representação da oblação cruenta de Jesus na Cruz. O que o sacerdote faz é também “Immolatio”; esta é a “oblatio” occisi ad cultum Dei”. Esse oferecimento cúltico dum ente imolado não enuncia somente a representação, mas a colocação, apreensão e auto-aplicação do ato sacrifical de Cristo. Ritualmente, a “oblatio” encontra sua expressão em toda a ação eucarística desde o ofertório até, adensa-se e se manifesta no ofertório, porém não termina com ele, estendendo-se por todo o canon, como demonstra o “memores offerimus” depois da Consagração.

Santo Tomás de Aquino (1225-1274) falou muito de Eucaristia na “Summa Theológica”. Ele rejeitou a consubstanciação taxando-a de doutrina herética. Ele introduziu o termo “concomitantia”para explicar a Transsubstanciação assegurando a presença objetiva do “Totus Christus”; isto daria margem à Comunhão sob uma só espécie Tomás tomou por inquestionável o princípio de que a Eucaristia é um sacrifício. Explicou a missa como representação e participação da “Passio Christi”, mas também sacrifício por si, enquanto oferecida. Apontam para a Paixão não só muitos detalhes rituais, especialmente os sinais da cruz, mas sobre tudo a consagração e toda a estrutura básica ôntica do Sacramento. Em se presencializando de vem em vez” “Sacramenti, cada substância singular do corpo e sangue separada da outra, presencializa-se, perpetua-se e segunda na entidade das oferendas a separação das duas realidades na morte de Jesus. Eis porque Santo Tomás situou o decisivo ato de oblação na consagração. Ele já deixou a presença real de Cristo na Eucaristia como questão pacífica. A sua influência é notória até os nossos dias, nem sequer abalada pelos reformadores.

 

3.7. – Os Reformadores

 

Ao final do século XIV parecia que o Reino dos Céus estava suficientemente consolidado na face da terra.  Contudo, a humanidade despertou, após a “hibernação Medieval”. As novas descobertas, os novos inventos, as novas filosofias dariam novos rumos à história da humanidade. A doutrina Eucarística enfrentou minucioso questionamento. A praxe da missa, estava muito desordenada. Lutero, Zwinglio e Calvino encetaram a assim chamada “Reforma”, com base nas idéias dos precursores Wiclef (1366) e João Huss (1401).

Martinho Lutero (1483-1546) discordou do caráter sacrifical da Celebração Eucarística; ele ensinava a presença real do corpo e do sangue de Jesus Cristo, mas também rejeitava a Transubstanciação. Ele postulou como limite da presença de Cristo o momento da comunhão. Segundo ele, a conservação e a adoração das hóstias consagradas não tem sentido. Lutero acentuou com razão o caráter dinâmico da Eucaristia, mas o fêz de forma unilateral. A para poder explicar a presença real de Cristo, afirmou que a natureza humana de Jesus, em virtude de sua união com Lógos, goza da onipresença divina, a ubiquidade. A seu ver, o corpo de Cristo Onipresente, por causa das palavras de fé pronunciadas na Eucaristia, se une com o pão e o vinho para constituir uma unidade. O corpo de Cristo está consubstancialmente presente em, com e sob o pão e o vinho. Para receber a totalidade de Cristo, é necessário tomar a comunhão sob as duas espécies. Daí a rejeição da continuação da presença de Cristo além da comunhão.

Ubrico Zwínglio (1484-1531) desenvolveu sua teologia em função do relacionamento imediato do homen com Deus. Cristo está presente na palavra e o Espírito Santo é o autor imediato da fé. Nesse sistema os sacramentos não comunicam a graça, mas são sinais obrigatórios da fé da comunidade. A “Ceia Noturna” é “rememoração” positiva e pública ação de graças referentes ao sacrifício de Jesus oferecido uma única vez, não admitindo repetição e excluindo o caráter sacrifical da Eucaristia. Como o corpo de Jesus está pela ascensão localizado no céu, não pode estar realmente no pão cá na terra. Segundo Jo. 6, 63, ele nem se prestaria para alimento da alma. O pão não é o corpo de Cristo, mas apenas o seu símbolo. O “est” das palavras, institucionais tem caráter de tropo de linguagem. O “Christus Totus” torna-se imediatamente presente na alma pela fé: “edere corpus” significa para Zwínglio “credere corpus caesun”.

João Calvino (1.509-1.564) empenhou-se por lançar uma pote entre Lutero e Zwínglio. Trilhando as sendas de Santo Agostinho, Calvino não adotou uma identidade substancial, e sim uma correspondência  ou analogia entre sinal e verdade, mas firmou uma verdadeira participação ao corpo e sangue de Cristo mediante o sacramento. O “est” das palavras institucionais não se deve entender senão em sentido figurado. Desde e mediante a ascensão permanece antes o corpo de Cristo em seu âmbito celestial; qualquer mutilocação o destruiria. Cristo “não se deixa rebaixar a ponto de encerrar –se sob elementos passageiros” (Petir Traicté de la Saincté Cene). É o Espírito Santo quem estabelece a participação no corpo de Cristo celestial.

Calvino pregou a realidade eucarística. Mas no seu entender, o que está presente não é o próprio  corpo e sangue, mas sua força salvífica. Quem saboreia com fé o pão e  o vinho neles participam das forças vitais que brotam da natureza glorificada de Jesus homem a qual está no céu. E, pela ação do Espírito Santo, os que participam da Eucaristia ficam unidos a Cristo. Calvino ensinou uma “presença real pneumática de Cristo na Santa Ceia. Aí que nasceu a diferença de conceituação católica e luterana de presença: os luteranos entendem a presença de Cristo na Eucaristia como simbólica; os católicos entendem como presença concreta da substância do corpo e sangue de Cristo nos elementos e sob os elementos.

 

3.8. – O Concílio de Trento      Transubstanciação

 

O Concílio de Trento (1545-1563) foi convocado pelo Papa Paulo III para firmar a posição católica face aos reformadores (protestantes, huguenotes, anglicanos). Foi a denominada “Contra-Reforma”. Através das declarações do Concílio de Trento a Igreja consolidou de vez a doutrina dogmática e dos sete sacramentos, além de tomar muitas decisões práticas acertadas.

Deve-se reconhecer que até aí a Igreja nunca oferecera uma exposição universal e ampla da fé católica sobre a Eucaristia. Os pronunciamentos anteriores marcam sempre uma atitude defensiva e se revertem de uma formulação polêmica e expressam somente elementos particulares. O Sínodo Romano de 1079 havia ensinado a presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, usando para este fim a expressão: “Conversão substancial”. O IV Concílio de Latrão (1215) afirmou contra os albigenses e cátaros que o corpo e o sangue de Cristo estão verdadeiramente presentes no sacramento do altar sob as formas de manifestação do pão e do vinho; só um sacramento validamente ordenado pode realizar o sacrifício eucarístico (D. S. 802), mas a conversão substancial é atribuída ao poder de Deus. O Concílio de Constança (1415) e a Bula “Inter Cunctas” (1418), de Martinho V afirmaram a totalidade da presença de Jesus contra a declaração de Wicleff e Huss (D. S. 1198-1257).

O Concílio de Trento definiu a realidade, a totalidade e a permanência da presença de Cristo na Eucaristia bem como a possibilidade de o homem adorá-lo nela (D. S. 1635-1661). Definiu ainda que se justifica a comunhão sob uma só espécie (D. S. 1726-1734) e o caráter sacrifical da Eucaristia (D. S. 1738-1760). Na Eucaristia, depois da consagração do pão e do vinho, está verdadeira, real e substancialmente presente nosso Senhor Jesus Cristo, com sua humanidade e divindade com seu corpo e alma, sob a forma das coisas sensíveis (D. S. 1636-1642; 1651).

O texto de Trento declara: “Pela consagração do pão e do vinho, toda a substância do pão e do vinho, toda substância do pão se converte na substância do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, e toda substância do vinho se converte na substância do seu sangue. E essa conversão foi e propriamente chamada transubstanciação pela Santa Igreja Católica” (D. S.1642). “Se alguém negar que no Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão verdadeira, real e substancialmente contidos o corpo e o sangue junto com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, e portanto, o Cristo inteiro; ou se disser que estão contidos nela como um sinal ou figura em sua eficácia, seja anátema” (D. S. 1691). “Se alguém disser que no sacrassanto sacramento da Eucaristia permanece a substância do pão e do vinho junto com o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e negar a admirável e singular conversão de toda a substância do pão e do vinho no corpo e no sangue, permanecendo somente as espécies de pão e de vinho - conversão a que a Igreja Católica deu com muita aptidão o nome de Transubstanciação – seja anátema (D. S. 1652).

Os séculos que seguiram Trento foram de tal passividade doutrinal, até o século XX. À atitude dogmática fundamental correspondeu também a práxis eucarística, na qual se destacou dominante e isolada a “Presença Real”. A piedade se orientou para a adoração do Senhor presente no sacramento foi e é essencialmente culto de adoração; o Tabernáculo adquiriu uma posição predominante na arquitetura e no culto. A comunhão era recebida muito raramente e fora da missa, sobretudo no Jansenismo. Em função da polêmica anti-reformista ou anti-reformatória era ela considerada unicamente como obra do sacerdote oficiante que a consagrava. Eugia à consciência de que em virtude do sacerdócio comum, também co-sacrificavam os fiéis.

                                           

 

 

 

 

                    Cópia do calendário Sagrado Coração

 

 

 

 

 

 

4. – Renovação do Século XX

 

O que fora definido pelos cânones tridentinos permaneceu intácto, bem como não teve nada a ser acrescentado. O século XVII foi o século das grandes missões nas terras recentemente descobertas – O feudalismo já era extinto. Os enciclopedistas e iluministas forjavam uma nova filosofia de vida na Europa. As seitas reformistas multiplicavam-se. As religiões Orientais chegaram à Europa e às Américas. As revoluções industrial e comercial originaram uma sociedade humana diferente no século XX a Igreja estava muito distante dos fiéis. Diante dos credos marxistas, a Igreja compreendeu a sua missão social. E o magistério da Igreja interveio com preciosos documentos.

 

4.1. – Pio X (1905)

 

Pio X em 1905 promulgou um “decreto sobre a Sagrada Comunhão”: Este decreto é fruto não dá especulação, mas do movimento litúrgico desabrochado de dentro do âmbito da Igreja e que redundou numa reflexão nova sobre a idéia básica do culto divino, do sacramento e de toda a realidade cristã.

Pio X proclamou a meta principal da Eucaristia não a sua adoração, mas a santificação dos fiéis, iniciando os cristãos à comunhão diária. Foi redivulgada a verdade soterrada de que o Sacramento não é só meio objetivo da graça, mas a atuação salvífica pessoal de Cristo em nós, encontro com o Redentor e sua obra salvífica, cooperação na Redenção. A liturgia deve ser entendida como a presença da obra salvífica divina sob o véu dos símbolos. Os fiéis co-sacrificavam ativamente e essa ação encontra sua adequada consumação na comunhão.

 

4.2. – Pio XII (1947)

 

Aos 20 de novembro de 1947, o Papa Pio XII, publicou, a encíclica “Mediator Dei” sobre a Sagrada Liturgia, abordando quatro pontos:

I – Natureza, origem, Progresso da Liturgia.

II – O culto Eucarístico.

III – O Ofício Divino e o Ano Litúrgico.

IV – Diretivas Pastorais.

Aí Pio XII diz: “O dever primordial do homem é, sem dúvida, orientar para Deus e sua pessoa e a sua vida” (nº 13). A partir deste axioma, Pio XII externa seu zelo pelo sacrifício Eucarístico, dizendo: “O mistério da Santissima Eucaristia, instituída pelo Sumo Sacerdote Jesus Cristo e por Sua vontade perpetuamente renovada pelos Seus Ministros, é a cúpula e como que o centro da religião cristã (nº 62) assim, a comemoração da sua morte, que foi real no Calvário, repete-se em cada sacrifício do altar, porque, por meio de símbolos distintos, Jeus Cristo é significado e se nos mostra em estado, de vítima (66). São idênticos, finalmente, os fins em vista, o primeiro dos quais é a glorificação Pai celeste (67), o segundo a ação de graças (68), o terceiro a expiação (69), o quarto a impetração (70). O augusto Sacrifício do altar é um instrumento maravilhoso para a distribuição, pelos crentes, dos méritos da Cruz do Redentor (75). É preciso que todos os fiéis considerem o seu principal dever e suma honra o participar no Sacrifício Eucarístico; não com uma assistência passiva, negligente e distraída, mas tão fervorosa e ativamente que a união com o Sumo Sacerdote não possa ser mais íntima (76). Oxalá que os fiéis, até diariamente, se lhes é possível, participem no Divino Sacrifício, não só espiritualmente, mas também pela Comunhão do Augusto Sacramento, recebendo o Corpo de Jesus Cristo, oferecido por todos ao Eterno Pai (115). O alimento Eucarístico contém verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, juntamente com a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo; por isso, não é de admirar que a Igreja desde o seus primórdios, tenha adorado o Corpo de Cristo sob as espécies eucarísticas, como se colige dos próprios, ritos do Santo Sacrifício, em que se prescreve aos ministros sagrados que, de joelhos ou com inclinação profunda, adorem o Santíssimo Sacramento (124). Que em toda parte do mundo as Igrejas se encham e os altares se vejam cercados de fiéis que celebrem o augusto Sacrifício juntamente com Ele  e por Ele, rendam ao Eterno Pai os devidos louvores (198Z).

 

4.3. – O Concílio Vaticano II

 

O Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII aos dez de outubro de 1962 e concluído aos oito de dezembro de 1965 no Pontificado de Paulo VI representou a grande inovação litúrgica. Passadas as guerras mundiais de 1914-18 e de 1938-45, a Igreja gozou de paz e de prosperidade. O ardor missionário, bem como as migrações causaram uma ocupação racional de todo o orbe terrestre pelas sementes do Cristianismo. A pluralidade de línguas e costumes reclamava uma unidade da doutrina e práxis da Igreja.

A Constituição “Sacrossantum Concilium” foi o 1º documento conciliar a ser aprovado e promulgado aos 4 de dezembro de 1963. Ele trata sobre a Reforma da Sagrada Liturgia. O Capítulo II é reservado ao Sacrossanto Mistério da Eucaristia (números 47-58), onde se lê:

“O Sacrifício Eucarístico perpetua pelos séculos o Sacrifício da Cruz, o memorial de sua morte e ressurreição: Sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal … (47). Que os fiéis participem da ação sagrada (48), que ordinário da missa seja simplificado, conservando-se a substância (50), que se leia a Sagradas Escrituras (51) e que o sacerdote exponha os mistérios da fé e as normas da vida cristã através da homilia (52). Nas missas celebradas com o povo pode-se dar conveniente lugar à língua vernácula (54); o povo deve comungar o Corpo do Senhor, sendo que a comunhão sob duas espécies fica reservada para momentos especiais (55). A missa consta de duas partes: A Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística (56). Pode haver celebração por vários sacerdotes em certos casos (57).

Certamente a maior conquista da Liturgia Eucarística, neste Concílio foi a da língua Vernácula. Isto instaurou a consciência do sacerdócio comum face ao sacerdócio ministerial. Agora todos os fiéis participam ativamente, com orações e cânticos da Mesa da Palavra e da Mesa Eucarística.

O decreto Conciliar “Presbyterorum Ordinis”, promulgado em 7 de dezembro de 1965 faz coro a Santo Tomás, que dizia “A Eucaristia é de fato como que a consumação espiritual da vida e o fim de todos os Sacramentos” (Summa Theol. III q. 73 a.3c). O texto conciliar diz:

“Os demais Sacramentos, como aliás todos os ministérios eclesiásticos e tarefas apostólicas, se ligam à sagrada, Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a Santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão vivo, dando vida aos homens, através de Sua Carne vivificada e vivificante pelo Espírito Santo” (P. O. 5).

A literatura Conciliar é vastíssima quanto à “Eucaristia e Missa”; basta ver estes dois verbetes num índice analítico. O mérito do Concílio Vaticano II é realizar aquele sonho do Pio X que queria ver a Eucaristia mais próxima dos fiéis.

 

4.4. – Paulo VI (1965)

 

O Concílio Vaticano II ainda não tinha findado quando o Papa Paulo VI trouxe a público a sua carta encíclica sobre o culto da Sagrada Eucaristia, intitulada “Mysterium Fidei”, aos 3 de setembro de 1965. Ali ele diz:

“Se a Sagrada Liturgia ocupa o primeiro lugar na vida da Igreja, o Mistério Eucarístico é, podemos dizer, o coração e o centro da Sagrada Liturgia, constituindo a fonte da vida, que nos purifica e robustece, de modo que já não vivamos para nós mas para Deus, e nos unamos uns com os outros pelo vínculo mas íntimo da caridade (nº 3). A Eucaristia é mistério altíssimo e, propriamente, o Mistério da fé (nº 15). No Mistério Eucarístico é representado de modo admirável o Sacrifício da Cruz consumada uma vez para sempre no Calvário (nº 27z). Nosso Senhor Jesus Cristo, ao instituir o Mistério Eucarístico, sancionou com o seu sangue o Novo Testamento, de que é Mediador, do mesmo modo que Moisés sancionava o Velho com sangue dos vitelos (nº 28z). Qualquer missa celebrada oferece-se não apenas pela salvação de alguns, mas pela salvação do mundo inteiro (nº 32). Vários são os modos da presença de Cristo na sua Igreja; de modo ainda mais sublime, está Cristo presente à sua Igreja em quanto esta, em seu nome, celebra o sacrifício da Missa e administra os Sacramentos (nº 38). Esta presença chama-se “real” não por exclusão como se as outras não fossem reais, mas por antomásia porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem (nº 41). Depois da Transubstanciação as espécies do pão e do vinho tomam nova significação e nova finalidade, deixando de pertencer a um pão usual e a uma bebida usual, para se tornarem sinal duma coisa sagrada e sinal dum alimento espiritual; mas só adquirem nova significação e nova finalidade por conterem nova Realidade, a que chamamos com razão ontológica (nº 48). O culto latrêutico devido ao Sacramento Eucarístico, professou-o e professa-o a Igreja Católica, não só durante a missa mas também fora dela, conservando com o maior cuidado as Hóstias, consagradas, expondo-as à solene veneração dos fiéis, e levando-as em procissão vitoriadas por grandes multidões (nº 58). Participem os fiéis ativamente, cada dia e em grande número, no Sacrifício da Missa, vindo alimentar-se da sagrada Comunhão com intenção pura e santa (nº 68). Durante o dia, não deixem de visitar o Santíssimo Sacramento (nº 68). A Santíssima Virgem Maria e todos os Santos e Santas de Deus intercedam, junto ao Pai das misericórdias para que a fé comum e o culto eucarístico produzem e façam prosperar a unidade perfeita de comunhão entre todos os cristãos (nº 77).

 

4.5. – Missal Romano (1973)

 

No 1º domingo do advento de 1973 entrou em vigor o novo “Missal Romano”; esta inovação fora proposta pelo Concílio Vaticano II. Este volume (910 páginas) trazem a sua introdução: Constituição Apostólica de Paulo VI aprovando o novo Missal Romano; introdução geral ao Missal Romano; Carta Apostólica de Paulo VI aprovando as normas universais sobre o ano litúrgico e o novo Calendário Romano geral; Normas universais para o ano litúrgico e o calendário; Calendário Romano Geral.

O Missal Romano contém as orações litúrgicas, isto é; Antífona da entrada, Coleta, sobre as oferendas, antífona da Comunhão e oração depois da Comunhão. Eis o seu esquema:

-        Próprio do Tempo (Advento, Natal, Quaresma…)

-        Ritual da Missa

-        Próprio dos Santos

-        Formulários comuns

-        Missas Rituais

-        Missas e orações para diversas circunstâncias:

 

1 – Pela Santa Igreja

2 – Pelo bem público

3 – Em diversas circunstâncias da vida pública

4 – Por algumas necessidades particulares

-        Missas votivas

-        Missas dos mortos

 

O Missal Romano é concluído pelo apêndice e pelo “Missale Parvum”, este em latim.

 

Na Introdução Geral sobre o Missal Romano há importantes afirmações, como: “… no novo Missal a regra da oração da Igreja corresponde à regra perene da fé, que nos ensina a identidade, exceto quanto ao modo de oferecer, entre o Sacrifício da Cruz e sua renovação sacramental da Missa, que o Cristo Senhor instituiu na última Ceia e mandou os apostólos fazerem em sua memória. Por conseguinte a Missa simultaneamente sacrifício de louvor, de ação de graças, de propiciação e de santificação” (Proêmio nº 2). “O Concílio Vaticano II, reunido para adaptar a Igreja às necessidades de seu múnus apostólico nos nossos dias, examinou em profundidade, como o Concílio de Trento, o aspecto catequético e pastoral da sagrada Liturgia (Proêmio, nº 12).

Esta Introdução Geral sobre o Missal Romano consta de oito capítulos:

1 – Importância e dignidade da Celebração Eucarística

2 – a) Estrutura da missa: Ceia do Senhor.

      b) Elementos da missa: Leitura da Palavra de Deus, orações próprias do sacerdote e da Assembléia, cânticos, gestos e posições do corpo, silêncio.

       c) Partes da Missa: Ritos Iniciais, Liturgia da Palavra, Liturgia Eucarística, Rito de encerramento.

3 – Funções e ministérios na Igreja.

4 – As diversas formas de celebração da missa: Missa com o povo, missa concelebrada, missa sem povo, algumas normas mais gerais para todas as formas de missa.

5 – Disposições e ornamentos das Igrejas para a celebração da Eucaristia: princípios gerais, disposição da Igreja para a Assembléia Sagrada, o presbítero, o altar, a ornamentação do altar, a cadeira para o celebrante e os ministros, o lugar de onde se anuncia a Palavra de Deus, o lugar dos fiéis, o lugar dos cantores e dos instrumentos musicais, o Tabernáculo, as imagens propostas à veneração dos fiéis, a disposição geral do lugar sagrado.

6 – Requisitos para a celebração da missa: pão e vinho, alfaias e vasos sagrados, vestes litúrgicas, e suas cores.

7 – Como escolher a missa e suas partes.

8 – Missas e orações para diversas circunstâncias, missas e orações votivas e missas pelos mortos.

“Normas Universais sobre o Ano Litúrgico e Calendário” estabelece o ciclo anual do Calendário Litúrgico, assim:

-        Advento

-        Natal

-        Epifania

-        Tempo Comum

-        Quaresma

-        Páscoa

-        Pentecostes

-        Tempo Comum

 

Estabelece também as férias, as festas dos santos, as memórias, as solenidades de Jesus e de Maria. O Calendário Romano prevê festas fixas e móveis, como a missa especial para cada comemoração. E são estas “missas” que o Missal Romano contém, isto é, as orações próprias de cada uma destas missas.

 

4.6. – João Paulo II (1979-81)

 

a)          Ao quatro de março de 1979 o Papa João Paulo II promulgou a sua carta encíclica “Redemptor Hominis” dirigida aos veneráveis irmãos no episcopado, ao sacerdotes, às famílias religiosas, aos filhos e filhas da Igreja e a todos os homens de boa vontade, no início de seu ministério Pontifical. O nº 20 fala de “Eucaristia e Penitência”. “No mistério da Redenção, a Igreja participa no Evangelho do seu Mestre mediante a fidelidade à Palavra e a submissão à sua ação redentora que ele expressou e encerrou, de forma sacramental, sobretudo na Eucaristia. Esta é o centro e o vértis de toda a vida sacramental, por meio da qual todos os cristãos recebem a força salvífica da redenção do mistério do Batismo, no qual imergidos na morte de Cristo, para nos tornarmos participantes da sua ressurreição, como ensina o Apostólo. A Igreja vive da Eucaristia, vive da plenitude deste sacramento, cujo maravilhoso conteúdo e significado tiveram a sua expressão no Magistério da Igreja, desde os tempos mais remotos até os nossos dias. Contudo, podemos dizer com certeza que este ensino permanece como que no limiar, sendo incapaz de capatar e de traduzir em palavras aquilo que é a Eucaristia em toda a sua plenitude, aquilo que ela exprime e aquilo que nela se realiza. Ela é, de fato, o sacramento inefável; o empenho essencial e, sobretudo, a graça visível e fonte de força sobrenatural da Igreja como Povo de Deus é o perseverar e o progredir constantemente na vida eucarística e na piedade eucarística, é o desenvolvimento espiritual no clima da Eucaristia, Ela é ao mesmo tempo sacramento-sacrifício, sacramento-comunhão e sacramento presença e deve ser ainda agora a mais profunda revelação e celebração da fraternidade humana dos discípulos e confessores de Cristo, ela não pode ser considerada simplesmente como uma “ocasião” para se manifestar uma tal fraternidade. No celebrar o Sacramento do corpo e do sangue do Senhor, é necessário respeitar a plena dimensão do mistério divino, o pleno sentido deste sinal sacramental, em que Cristo, realmente presente, é recebido, a alma é repleta de graça e é dado o penhor da glória futura. Há uma estreita relação entre a Eucaristia e a Penitência” (R. H.,nº20).

b)          Aos 24 de fevereiro de 1980 o Papa João Paulo II endereçou uma carta a todos os Bispos da Igreja sobre “O Mistério e o Culto da Santíssima Eucaristia”. Eis as principais idéias:

 

I – O Mistério Eucarístico na vida da Igreja e do sacerdote:

“O Sacerdócio ministerial ou hierárquico, o Sacerdócio dos Bispos e dos Presbíteros, e ao lado deles, o Ministério dos Diáconos estão em relação muito íntima com a Eucaristia. Esta é a principal e central razão de ser do sacramento do Sacerdócio, que nasceu efetivamente no momento da instituição da Eucaristia e juntamente com ela. Está-nos confiado, portanto, a nós Bispos e Sacerdócios, o grande Mistério da Fé (nº 2). A adoração de Cristo neste Sacramento de amor deve encontrar, depois a sua expressão em diversas formas de devoção eucarística: orações pessoais diante dos Santíssimo, horas de adoração, exposições breves, prolongadas, anuais, bênção eucarísticas, procissões eucarísticas e  congressos eucarísticos (nº 3). Assim como a Igreja “faz a Eucaristia”, assim “a Eucaristia constrói” a Igreja (nº 4). A vida cristã se exprime no cumprimento do maior mandamento, ou seja, no amor de Deus e do próximo, este amor tem a sua fonte no Santíssimo sacramento, que comumente é chamado: Sacramento do amor. A Eucaristia significa esta caridade, e por isso a recorda, a torna presente e ao mesmo tempo a realiza (nº 5). Sendo fonte de caridade, a Eucaristia esteve sempre no centro da vida dos discípulos de Cristo. Ela tem o aspecto de pão de vinho, ou seja, de comida e de bebida, e por isso é tão familiar para o homem, conexa de modo tão íntimo com a sua vida, como o são precisamente a comida e a bebida. O culto eucarístico é centro e fim de todo a vida sacramental. Não é somente a Penitência que conduz à Eucaristia que leva à Penitência. Neste Sacramento do pão e do vinho, da comida e da bebida, tudo o que é humano sofre uma singular transformação e elevação” (nº 7).

II – Sacralidade da Eucaristia e Sacrifício:

“A celebração da Eucaristia, a começar do Cenáculo e da Quinta-feira Santa, tem uma longa história, tão longa quanto, a história da Igreja. No decorrer desta história os elementos secundários sofreram certas mudanças; todavia, permaneceu imutável a essência do Miysterium, instituído pelo Redentor do mundo, durante a última Ceia. A Igreja tem o particular dever de assegurar e corroborar a “sacrum” da Eucaristia. A Eucaristia é, acima de tudo, um Sacrifício: Sacrifício da Redenção e, ao mesmo tempo, sacrifício da Nova Aliança. Com o tornar presente este único Sacrifício da nossa Salvação, o homem e o mundo são restituídos a Deus por meio da novidade pascal, da Redenção (nº 89).

III – As Duas Mesas do Senhor e o Bem Comum da Igreja:

“A celebração da Eucaristia, desde os tempos mais antigos, esteve unida, não somente à oração, mas também à leitura da Sagrada Escritura e ao canto de toda a assembléia. Aí é que se fala da Mesa da Palavra de Deus e Mesa do Pão do Senhor (nº 10-11). A Eucaristia é um bem peculiar de toda a Igreja. Ela é o dom maior que, na ordem da graça e dos sacramentos, o divino Esposo ofereceu e oferece incessantemente à sua Esposa. A Eucaristia é um bem comum de toda a Igreja, como Sacramento da sua unidade. E por isso a Igreja tem o rigoroso dever de determinar bem tudo aquilo que diz respeito à celebração da mesma Eucaristia (nº 12). Envidemos todos os esforços para que a Eucaristia se torna cada vez mais fonte de vida e luz das consciências de todos os nossos irmãos e irmãs de todas as comunidades, na unidade universal da Igreja de Cristo sobre a terra” (nº 13).

c)          Aos 9 de julho de 1980 o Papa João Paulo II dava inauguração ao X Congresso Eucarístico Nacional, em Fortaleza-CE., em sua viagem pelo Brasil. Neste dia ele pronunciou três homilias:

c.1) – Saudação no Estádio Castelão: “O Congresso Eucarístico é, antes de tudo, um grande e comunitário ato de Fé na presença e na ação de Jesus-Eucaristia, que permanece sacramentalmente conosco, para conosco percorrer os nossos caminhos a fim de que possamos enfrentar, com a sua força, os nossos problemas, canseiras e sofrimentos. Nutridos com o Corpo do Senhor, temos em nós a Vida e podemos com confiança trabalhar, no seu Espírito e com o seu Espírito, para tornar mais humana, mais digna e mais cristã a nossa convivência neste mundo. Os nossos caminhos devem ser os seus caminhos, os nossos métodos, os seus métodos, os nossos pensamentos, os seus pensamentos. Unamo-nos desde agora em torno da Hóstia Consagrada, do Divino Peregrino entre os Peregrinos, desejos de receber d’Ele a inspiração e a força para fazer nossas as necessidades as aspirações dos nossos irmãos migrantes…” (parágrafo 3).

c.2) – Inauguração do X Congresso Eucarístico Nacional: “Banquete sagrado, no qual o pão é Cristo, no qual sua paixão é por nós revivida, nossa alma repleta de graça e um penhor da eternidade a nós oferecidos. Uma mesa: não foi por acaso que, desejando dar-se todo a nós, o Senhor escolheu a forma da comida em família. O encontro redentor de uma mesa diz relacionamento interpessoal e possibilidade de conhecimento recíproco, de trocas mútuas, de diálogo enriquecedor. O convite Eucarístico se torna assim sinal expressivo de comunhão de perdão e de amor. A comunhão eucarística constitue o sinal da reunião de todos os fiéis. A Eucaristia torna-se assim o grande instrumento da aproximação dos homens entre si. Tudo isso será certamente possível se uma nova era de vida eucarística, tornar a animar a vida da Igreja no Brasil. O amor e adoração a Jesus sacramentado sejam, pois, o sinal mais luminoso de vossa fé, da fé do povo brasileiro!”

c.3) – A Eucaristia: “A Eucaristia é a fonte e o cume. Venho até aqui, até o maior mistério de Cristo – o Emanuel: Deus conosco, de Cristo – Eucaristia, através do Santuário, da Mãe do Verbo Encarnado. O caminho da Eucaristia, que é para todos nós o Corpo sacramental do Senhor… Não faltem nunca a ninguém as palavras do Evangelho e o alimento da Eucaristia”.

d)          Aos 30 de novembro de 1980, o Papa João Paulo II enviou sua carta encíclica “Dives in Misericórdia” aos Bispos, aos Sacerdotes e aos fiéis de toda a Igreja Católica. Nesta carta encíclica ele diz: “A Igreja vive uma vida autêntica quando professa e proclama a misericórdia, o mais admirável atributo do Criador e do Redentor, e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador, das quais ela, é depositária e dispensadora. Neste contexto, tem um grande significado a meditação constante da Palavra de Deus e sobretudo, a participação consciente e responsável na Eucaristia e no Sacramento da Penitência ou Reconciliação.  A Eucaristia aproxima-nos sempre daquele amor que é mais forte do que a morte. Com efeito, “todas as vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice”, não só anunciamos a morte do Redentor, mas proclamamos também a sua ressurreição, “enquanto esperamos a sua vinda” na glória. A própria ação Eucarística, celebrada em memória daquele que na sua missão messiânica nos revelou o Pai por meio da Palavra e da Cruz, atesta aquele inexaurível amor, em virtude do qual ele deseja sempre unir-se e como que tornar-se uma só coisa conosco, vindo ao encontro de todos os corações humanos” (capítulo VII, nº 13).

 

4.7. – S. C. para os Sacramentos e o Culto Divino (1980)

 

Aos 17 de abril de 1980 a Sagrada Congregação para os Sacramentos e o Culto Divino publicou a Instrução “Inaestimabile Donum”, sobre algumas normas relativas ao culto da Santíssima Eucaristia. É uma chamada de atenção dos Bispos para algumas normas referentes ao culto de tão grande Mistério. A Instrução diz textualmente:

“Estas indicações não são a síntese de quanto a Santa Sé já disse nos documentos relativos à Santíssima Eucaristia, promulgados depois do Concílio Vaticano II e que estão em vigor; isso pode ver-se especialmente no “Missale Romanum” e no Ritual “De Sacra Comunione et de Cultu Mysterii Eucharistici extra Missam”; e nas Instruções “Eucharisticum Mysterium”, “Memoriale Domini”, “Imensae Caristatis” e “Liturgicae Instaurationes” (Proêmio).

 

A)       A Santa Missa

1 – “As duas partes que constituem, de algum modo, a missa, isto é, a Liturgia da Palavra e a Liturgia Eucarística, estão tão intimamente ligadas entre si que formam um só ato de culto. Ninguém deve aproximar-se da mesa do Pão do Senhor senão depois de ter estado presente à mesa da sua Palavra…”

2 – “A leitura da perícope evangélica é reservada ao ministro ordenado, ou seja, ao Diácono ou ao Sacerdote…”

4 – “A proclamação da Oração Eucarística que, por sua natureza, é como que o ponto culminante de toda a celebração, é reservada ao Sacerdote, em virtude de sua Ordenação… “Per ipsum” também é reservada ao Sacerdote”.

5 – “Usem-se somente as Orações Eucarísticas incluídas no Missal Romano ou legitimamente admitidas pela Sé Apostólica…”

7 – “A concelebração, resposta em prática na liturgia do Ocidente, manifesta de modo privilegiado a unidade do Sacerdócio…”

8 – “… O pão para a celebração da Eucaristia devem ser segundo a tradição de toda a Igreja, unicamente de trigo e, segundo a tradição própria da Igreja latina, ázimos… O vinho para a celebração eucarística deve ser extraído “do fruto da videira” (Lc. 22, 18), natural e genuíno…”

13 – “O Senhor permanece sob as Espécies mesmo depois da Comunhão. Portanto, distribuída a Comunhão, as partículas consagradas que sobrarem sejam consumidas, ou então levadas pelo ministro competente para o lugar da Reserva Eucarística”.

14 – “O vinho consagrado, por sua vez, deve ser consumido imediatamente a seguir à Comunhão, e não pode ser conservado…”

19 – “… Nas Celebrações que se fazem casas privadas observem-se as normas da Instrução “Actio Pastoralis”, de 15 de maio de 1969”.

B)       Culto Eucarístico fora da Missa

20 – “É muito recomendada a devoção, tanto pública quanto privada, para com a Santíssima Eucaristia, também fora da Missa…”

23 – “Não se deve esquecer que “antes da bênção com o Santíssimo Sacramento é preciso dedicar um espaço de tempo conveniente à leitura da Palavra de Deus, a cânticos e a preces e a um pouco de oração em silêncio…”

25 – “O sacrário deve ser sólido, inviolável e não transparente…”

27 – “… Os Sacerdotes devem aprofundar mais o autêntico conceito da Igreja, da qual a celebração litúrgica, sobretudo a Santa Missa, é expressão viva… Os Sacerdotes poderão aplicar-se a uma ação pastoral mais eficaz, mediante a catequese litúrgica dos fiéis, a organização de grupos de leitores, a formação tanto espiritual como prática daqueles que servem ao altar, a formação de animadores da assembléia, o progressivo enriquecimento de um repertório de cânticos, em suma, mediante aquelas iniciativas que possam favorecer um conhecimento cada vez mais profundo da liturgia… Parece oportuno reevocar aqui algumas palavras que aquele Sumo Pontífice (Paulo VI) pronunciou quando à fidelidade às normas da celebração, da liturgia: “é um fato muito grave, quando se introduz a divisão naquilo precisamente em que o amor de Cristo nos congregou na unidade, isto é, na Liturgia e no Sacrifício eucarístico, recusando o respeito devido às normas estabelecidas em matéria litúrgica. É em nome da tradição que queremos pedir a todos nossos filhos e a todas as comunidades católicas para celebrarem, com dignidade e com fervor, a Liturgia renovada…”

 

4.8. – Prática Pastoral na América Latina (1968-1979)

 

A doutrina do Sacramento da Eucaristia já está suficientemente consolidada na história da humanidade. Todos os cristãos se esforçam para serem fiéis ao “Pão da Vida”. As Conferências Episcopais tem o encargo de zelar pela legítima celebração da Eucaristia nas comunidades. A catequese não abrange somente a preparação para a primeira Eucaristia, mas é uma formação permanente na fé. Ainda recentemente, João Paulo II publicou a Exortação Apostólica “Catechesi Tradendae” (16 de outubro de 1979) sobre a Catequese.

Os Bispos da CELAM – Conferência Episcopal Latino Americanca atualizam e adequam a Eucaristia para a América Latina. Eles já estiveram reunidos por 3 vezes em importantes Conferências Gerais, assim:

1 – Rio de Janeiro – Brasil: 1958

2 – Medellin – Colômbia: 1968

3 – Puebla – México: 1979

No Rio de Janeiro deu-se o início de uma caminhada na história da América Latina, estendendo a Eucaristia a todas as suas consequências sócio-culturais. Medellin e Puebla insistiram no aspecto da justiça social.

Medellin: O documento em Medellin aponta algumas sugestões particulares sobre a Eucaristia no cap. 9, cujo tema é a Liturgia:

-        “A celebração da Eucaristia em pequenos grupos e comunidades de base pode ter verdadeira eficácia pastoral; aos bispos cabe permití-la, tendo em conta as circustâncias de cada lugar” (Pg. 96).

-        “A fim de que os sacramentos alimentem e fortaleçam a fé na situação atual da América Latina, aconselha-se o estabelecimento, planificação e intensificação de uma pastoral sacramental comunitária mediante preparações sérias, graduais e adequadas para o batismo, confirmação, primeira Eucaristia e Matrimônio”. (pg. 96)

-        “Incremente-se as sagradas celebrações da Palavra, conservando sua relação com os sacramentos nos quais ela alcança sua máxima eficácia e particularmente com a Eucaristia…” (pg.96)

Puebla: A III Conferência Geral do CELAM reunida em Puebla de Losangeles no México, de 27 de janeiro a 13 de fevereiro de 1979 originou o Documento “Evangelização no Presente e no Futuro da América Latina”. Este documento avalia a pastoral da realidade latino-americana e traça metas para o futuro. Quanto à Eucaristia diz:

-        “A Eucaristia orienta-nos de modo imediato para a hierarquia sem a qual ela é impossível; porque foi aos apostólos, que o Senhor deu o mandato de celebrá-la ‘em minha memória’” (Lc. 22, 19) (nº 247).

-        “O ser e agir do sacerdote referem-se, na identidade do seu serviço, à Eucaristia, raiz e eixo de toda comunidade, centro da vida sacramental, à qual a Palavra conduz. Por isso, pode-se afirmar que onde há Eucaristia há Igreja. Como esta é administrada pelo bispo, em união com o presbítero , igualmente certo é dizer que “onde estiver o bispo, aí está a Igreja”(nº 662).

-        “Não basta receber os sacramentos de forma passiva, mas sim inserindo-nos vitalmente na comunhão eclesial. Pelos sacramentos Cristo continua, mediante a ação da Igreja, a encontrar-se com os homens e salvá-los. A celebração eucarística, centro da sacramentalidade da Igreja e presença mais plena de Cristo no meio da humanidade, é o centro e ponto culminante de toda a vida sacramental” (nº 923).

 

5. – Aspectos Litúrgico – Pastorais da Eucaristia

 

5.1. – Congressos Eucarísticos

 

A Igreja de todos os tempos sempre reverenciou a Eucaristia, sua maior herança. Sempre houve uma atualização quanto à doutrina e prática pastoral da Eucaristia. Nos dois últimos séculos isto se evidenciou através dos Congressos Eucarísticos, tanto internacionais como nacionais.

Os Congressos Eucarísticos Internacionais tiveram início na França. A sua origem deveu-se à Emília Tamisier (1843-1910), sendo que o primeiro Congresso realizou-se na cidade de Lille em 1881. Ali estiveram presentes 800 pessoas da Inglaterra, Bélgica, Espanha, Holanda, Suíça e França; na procissão de encerramento tomaram parte cerca de 4200 pessoas. Naquele mesmo dia foi constituída uma Comissão Permanente dos Congressos Eucarísticos Internacionais.

Congresso Eucarístico: não se trata de manifestações triunfalistas, mas sim, de uma reunião maior do povo de Deus, povo de todas as raças, línguas e nações em torno de Cristo Eucarístico. Pois, há quase 2000 anos, sem interrupção nem envelhecimento, os cristãos a cada domingo se reúnem para celebrar a Eucaristia. A concentração dos fiéis em um Congresso não teria sentido sem as assembléias dominicais de toda e qualquer comunidade do mundo.

Já houve 42 Congressos Eucarísticos Internacionais, assim:

01 – Lille – 1881

02 – Avinhão – 1882

03 – Liége – 1883

04 – Friburgo – 1885

05 – Tolosa – 1886

06 – Paris – 1888

07 – Antuérpia – 1890

08 – Jerusalém – 1893

09 – Reims – 1894

10 – Paray-le-Monial – 1897

11 – Bruxelas – 1898

12 – Lourdes – 1899

13 – Angers – 1901

14 – Namur – 1901

15 – Angoulême – 1905

16 – Roma – 1905

17 – Tournai – 1906

18 – Metz – 1907

19 – Londres – 1908

20 – Colônia – 1909

21 – Montreal - 1910

22 – Madrid – 1911

23 – Viena – 1912

24 – Malta – 1913

25 – Lourdes – 1914

26 – Roma – 1922

27 – Amsterdam – 1924

28 – Chicago – 1926

29 – Sydney – 1928

30 – Cartago – 1930

31 – Dublin – 1932

32 – Buenos Aires – 1934

33 – Manila – 1937

34 – Budapeste – 1938

35 – Barcelona – 1952

36 – Rio de Janeiro – 1955

37 – Munique – 1960

38 – Bombain – 1965

39 – Bogotá – 1968

40 – Melburne – 1973

41 – Filadélfia – 1976

42 – Lourdes - 1981

Em 1981, o Papa João Paulo II endereçou uma carta ao Cardeal Robert Knox, presidente dos Congressos Eucarísticos Internacionais, com o tema: “Jesus Cristo, pão partido um mundo novo”. Na carta, o Sumo Pontífice definiu orientações doutrinais e pastorais, motivando o 42º Congresso Internacional, em Lourdes:

“O Congresso Eucarístico constitui-se para a Igreja um tempo forte de oração e renovação espiritual. Seu anúncio, é uma fonte de alegria e um convite para prepará-lo desde já com esmero, não somente a nível do Comitê Central, mas também para os numerosos pastores de almas e fiéis que nele tomarão parte ativa. Para compreender bem a novidade específica e total que Jesus Cristo produz em cada um que participa da Eucaristia na Igreja e, portanto na sociedade. O Congresso procurará destacar, antes de tudo, as bases da doutrina eucarística tal qual foi recebida, meditada e vivida sem interrupção pelos Apostólos, pelos Mártires, pelos Padres da Igreja, pelos Concílios e por toda a cristandade no decorrer dos séculos. O tempo primordial é aquele da contemplação de Maria. É uma grande graça tomar consciência que este Sacrifício nos torna presente em cada Eucaristia que os fiéis podem assimilar o fruto com um “alimento” cotidiano e prolongá-lo em suas próprias vidas. O primeiro tempo, o tempo principal de um tal Congresso é, pois, o da contemplação do “Mistério da Fé”, de uma adoração, em união com a Virgem Maria que conservava todas essas coisas no seu coração (Lc. 2, 41). É a força dessa mensagem inaudita, dessa “loucura e sabedoria de Deus” (I Cor. 1, 21) que deve tocar o mundo. Feliz a concentração de Lourdes se ela souber promover essa compreensão autêntica da Eucaristia, suscitar uma Ação de Graças e levar a uma aproximação mais respeitosa, a uma celebração mais digna, a um desejo mais ardente de comungar com fruto tendo uma melhor preparação para esse momento tão sagrado da Comunhão”.

O objetivo fundamental de um Congresso Eucarístico é prestar homenagem de gratidão a Jesus Cristo, presente na hóstia consagrada. Diariamente, em tantos altares do mundo, o pão é transformado no Corpo de Jesus e o vinho no seu sangue, fazendo-se aquilo que Ele mesmo mandou na Última Ceia que se fizesse, depois que Ele dera o exemplo. Este pão transformado no Corpo de Jesus é conservado nos sacrários de nossas Igrejas para ser o conforto dos doentes e de todos os que, tristes e sobrecarregados, necessitam da força do bom Jesus. Não é justo que manifestemos o nosso agradecimento sincero a quem diariamente se entrega a todos nós? Acreditamos ou não na presença real de Jesus Cristo no pão e no vinho consagrados? Se acreditamos, por que não manifestar esta nossa fé como testemunho público? Ora, cada Congresso Eucarístico é um testemunho público de nossa fé em Jesus Cristo Sacramentado.

No Continente Brasileiro, a Igreja não ficou atrás: No Brasil já foram realizados 10 Congressos Eucarísticos Nacionais:

1 – Salvador – BA. – 1933

2 – Belo Horizonte – MG. – 1936

3 – Recife – PE. – 1939

4 – São Paulo – SP. – 1942

5 – Porto Alegre – RS. – 1948

6 – Belém – PA.  – 1953

7 – Curitiba – PR. – 1960

8 – Brasília – DF. – 1970

9 – Manaus – AM. – 1975

10 – Fortaleza – CE. – 1980

O tema específico do Congresso Eucarístico de Fortaleza – CE. foi “As Migrações”. Na inauguração do mesmo, aos 9 de julho de 1980, o Papa João Paulo II, falou: “A comunhão eucarística constitui, pois, o sinal da reunião de todos os fiéis. Sinal verdadeiramente sugestivo, porque à sagrada mesa desaparece toda diferença de raça ou classe social, permanecendo somente a participação de todos do mesmo alimento sagrado. Esta participação, idêntica em todos, significa e realiza a supressão de tudo o que divide os homens e efetua o encontro de todos a um nível superior, onde toda oposição fica eliminada. A Eucaristia torna-se assim o grande instrumento de aproximação dos homens entre si… A Igreja do Brasil quis unir a celebração deste Congresso Eucarístico com o problema das migrações. “Para onde vais?” É uma pergunta à qual cada um deve dar sua resposta, que respeite as legítimas aspirações dos outros. A Igreja não se cansou nem se cansará jamais de proclamar os direitos fundamentais do homem: “O direito de permanecer livremente no próprio País, de ter uma Pátria, de emigrar dentro e para fora do País, por motivos legítimos, de poder ter uma vida de família plena, de contar com os bens necessários para a vida, de conservar e desenvolver o próprio patrimônio étnico, cultural, linguístico, de professar publicamente a própria religião, de ser reconhecido e tratado de acordo com a dignidade de sua pessoa em qualquer circustância. Por este motivo, a Igreja não pode dispensar-se da denúncia das situações que constringem muitos à emigração, como o fêz em Puebla”.

 

5.2 – Símbolos Litúrgico – Eucarísticos

 

A Liturgia cristã é rica em símbolos. O símbolo representa o encontro de duas realidades numa só; é a presença da mesma realidade em outra forma. Símbolo é um objeto, um gesto, um elemento, um movimento, uma expressão corporal, onde o que vale não é mais aquilo que é em si mesmo, mas o que exprime, o que significa. Na Liturgia, os símbolos exupam um lugar especial, porque as realidades que Deus nos quer revelar, e comunicar são tão grandes, tão profundas e inefáveis que o homem não consegue exprimí-las por palavras. Eis os principais símbolos litúrgicos referentes à Eucaristia:

 

5.2.1. – Assembléia Litúrgica:

 

É o povo convocado por Deus para responder à sua palavra em atitude de fé. Ex. 19, 3-8 descreve a assembléia de Israel ao pe do Monte Sinai reunida para ouvir a proposta da Aliança; e Ex. 24 descreve que o povo respondeu à Palavra de Deus através de um sacrifício. Esta assembléia litúrgica é como que o protótipo de toda assembléia litúrgica reunida por Cristo no Novo Testamento. Na última Ceia Jesus convocou os seus discípulos, transmitiu-lhes o novo mandamento, celebrou com eles o memorial de sua morte e ressurreição redentoras e pediu que eles se reunissem para render graças em sua memória. A assembléia eucarística expressa a atitude de um povo em festa, celebrando o mistério da Redenção. Se por um lado a assembléia litúrgica torna todos iguais em Cristo, ela exige funções diversas:

-        Presidente: Bispo ou Sacerdote

-        Diácono: serviço de proclamação da Palavra de Deus

-        Leitor: serviço da catequese

-        Acólito: serviço do altar

-        Cantor: serviço dos cantos litúrgicos.

 

5.2.2. – Sinal da Cruz:

Jesus Cristo, em cuja memória se celebra a Eucaristia, morreu suspenso a um madeiro em forma de Cruz. A Eucaristia é inseparável deste sacrifício da Cruz. Onde quer que se celebre o sacrifício eucarístico, deve haver um crucifixo, bem visível. Todos os sacramentos e todas as bênçãos são acompanhadas pelo sinal da Cruz. A Cruz lembra que toda a Liturgia não é outra coisa do que a evocação de mistério pascal de Cristo, que por sua morte e ressurreição nos traz nova vida. É pela cruz que o povo de Deus, a exemplo de Cristo, chega à ressurreição.

 

5.2.3. – Banquete

 

Todo acontecimento importante na sociedade humana é comemorado com um comer e beber juntos. O banquete ultrapassa a necessidade puramente biológica devido ao seu significado. O banquete tem por objetivo exprimir uma atitude de festa, comemoração, homenagem, agradecimentos, oferta... Ali são revitalizados sentimentos de união, intimidade, amizade, amor, fraternidade, alegria, apreço, paz. Tudo o que se pode dizer de todo e qualquer banquete pode-se dize-lo também do banquete Eucarístico. O comer e beber juntos na Eucaristia constitui expressão de festa comemorativa da criação do mundo e do homem; é a alegre admiração do homem diante dos benefícios de Deus; é a expressão da aliança do homem com Deus.

 

5.2.4. – Pão e Vinho:

 

Pão e vinho, no plano da graça, querem expressar o mesmo que significam no plano natural. O homem tem fome e sede de Deus. Pão significa união, alimento, vida; como o alimento se torna um com o homem, Deus quer unir-se ao homem. Vinho é bebida que alegra, inebria, faz transbordar de felicidade; assim Deus constitui a felicidade do homem. O Pão e o vinho passam por um longo processo na sua confecção; como Pão e Vinho Eucarísticos, adquirem um tríplice significado: representam a vida humana, o trabalho humano e a comunhão com o divino. Pão e vinho consagrados são o Corpo e Sangue de Jesus Cristo, realmente presente.

 

5.2.5. – Gotas de água no vinho:

 

Sem água, a vida é impossível. Na Liturgia, a água, é símbolo da graça e do Espírito Santo; daí o seu uso no “asperges”, no “lavabo”, nas bênçãos, no Batismo. A água purifica. Na preparação das ofertas do banquete eucarístico o sacerdote acrescenta algumas gotas de água ao vinho; já os hebreus usavam vinho misturado com água na celebração da Páscoa, e certamente Jesus fizera o mesmo na Ceia derradeira. A Sagrada Escristura faz notar que o vinho lembra a Redenção pelo sangue e de modo particular a Paixão de Cristo, ao passo que a água traz à mente o povo de Deus salvo das águas, e o povo de Deus nascido das águas do Batismo. Assim como as gotas de água diluem-se totalmente no vinho, no Sacrfício da Missa nos devemos entrar em Cristo, identificar-nos com Ele e fazer-nos um com Ele. Estas gotas exprimem a humanidade unindo-se à divindade.

 

5.2.6. – Partícula de Hóstia no cálice:

 

Nos primeiros séculos o partir o pão era uma ação normal exigida pela necessidade de reduzir os pedaços pão consagrado para a comunhão dos fiéis. A Igreja é o único Corpo Místico de Cristo.  Cedo isto foi manifesto pelo uso do “Fermento”; fermento era chamada a partícula que o Papa destacava das prósias espécies consagradas em dias festivos e enviava aos bispos das cidades vizinhas de Roma e aos presbíteros das outras Igrejas da cidade, que, por sua vez, a colocavam no cálice do Sacrifício, em sinal de união com o Papa e a presidência hierárquica dele. Em Roma este uso foi praticado até o século IX. Quando o rito do “fermento” caiu em desuso continuou o costume de o próprio Celebrante colocar no cálice um pedaço da própria hóstia. Este rito simboliza a união e a paz.

 

5.2.7. – Cordeiro:

 

O Cordeiro possui precioso significado na Páscoa dos judeus. Entre os povos nômades, um cordeiro era oferecido aos deuses como primícias nos rebanhos, sinal de vida. O Cordeiro tornou-se, já no Antigo Testamento, um símbolo de libertação e de vida de um povo. Jesus é o Messias libertador, o Cordeiro de Deus (Jo. 1, 36). Ele foi imolado na Cruz na mesma hora em que eram sacrificados os cordeiros para a Páscoa judaica. Ele é o cordeiro sem mancha, oferenda perfeita. Ele sofreu calado como um cordeiro  e deu a sua carne como alimento transformada no pão eucarístico.

 

5.2.8. – Altar:

 

O altar sempre foi o ponto de encontro do homem com Deus. Altar de 12 pedras representa a totalidade da oferenda humana. O altar é a mesa sagrada da Ceia do Senhor, intimamente ligada ao Sacrifício da Cruz. Cada altar cristão torna-se o centro do mundo, pois Cristo é a pedra rejeitada pelos construtores que se tornou a pedra angular. O altar traz à memória o próprio Sacrifício da Cruz. E Cristo é o Sacerdote, Altar e Cordeiro.

 

5.2.9. – Ovo:

 

O ovo é um ótimo símbolo da Ressurreição: aparentemente inanimado e petrificado, contém dentro de si uma vida nova que surge pujante para a luz do sol. Semelhante, o sepulcro de Cristo ocultava a Vida Nova que irrompeu na noite pascal, Jesus Cristo Ressuscitado, que redivivo e glorioso é o Sol do mundo. Isto remete o pensamento ao mistério da morte e ressurreição de cada pessoa humana. E será comungado o Corpo e o Sangue de Cristo ressuscitado e vivendo em profunda união com Ele que os homens terão a força da Ressurreição, pois “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo. 6, 54), diz Jesus Cristo.

 

5.2.10. – Peixe:

 

O peixe é um dos mais antigos símbolos de Jesus Cristo. Na dificuldade de viverem e proclamarem a sua fé, os cristãos primitivos conseguiram com o peixe um dos símbolos mais evidentes do Senhor. A palavra peixe em grego passou a ser lida convecionalmente como “Jesus Cristo Filho de Deus Salvador” (ICTUS: Jesus Christus Teós Unós Salvator). Os cristãos identificavam-se desenhando no chão com o pé a silhueta do peixe. Jo 21, 9 relaciona a figura do Cristo ressuscitado com o peixe: “Ao saltarem em terra, viram umas brasas preparadas e um peixe em cima delas, e pão”. Cristo é o peixe-mestre que vive dentro da mesma água batismal na qual Ele e nós fomos batizados.

 

5.3 – O Santo Sudário

 

A ressurreição de Jesus é o mistério central da Fé Cristã; este acontecimento é celebrado pela Eucaristia. Se Cristo não tivesse ressuscitado, vã seria a fé cristã (I Cor. 15, 17) e a celebração da Eucaristia. As espécies eucarísticas atualizam o corpo e o sangue do Cristo ressuscitado e glorioso. Vários são os relatos bíblicos da ressurreição de Jesus e os testemunhos deste fato:

-        Mt. 28, 1-8

-        Mc. 16, 1-8

-        Lc. 24,1-8

-        Jo. 20, 1-10

-        I Cor. 15, 1-58

-        At. 2, 32

-        II Cor. 5, 15

-        Rm. 10,9

-        I Tes. 4, 13

Mas, será que os relatos bíblicos são suficientes para fundamentar toda a fé e a Tradição da Igreja? Como ter certeza de que de fato o corpo de Jesus ressurgiu glorioso daquele sepulcro do jardim (Jo. 19, 41) próximo ao monte Calvário?

O fato de o corpo de Jesus (histórico) de Nazaré nunca mais ter sido encontrado levanta duas hipóteses totalmente opostas: os céticos dizem que este corpo poderia ter sido roubado pelos discípulos de Jesus e extraviado para sempre; os credentes dizem que o corpo de Jesus teria sido ressuscitado e adquirido a forma gloriosa. Mas, então? Por que a inexistência do cadáver de Jesus se torna fonte de fé na sua ressurreição para uns e uma bela força para outros?

Nos últimos anos, ganhou corpo a pesquisa e a devoção à Sagrada Síndone de Jesus, ou Santo Sudário. Pelos relatos Evangélicos sabe-se que José da Arimatéia e Nicodemos tomaram o corpo de Jesus e o envolveram em panos de linho com aromas, como os judeus costumavam sepultar (Jo. 19, 40). Na manhã da ressurreição, João “inclinando-se, viu os panos de linho por terra, mas não entrou. Chegou, então, também Simão Pedro, que o seguia e entrou no sepulcro; viu os panos de linho por terra e o sudário, que cobrira a cabeça de Jesus. O sudário não estava com os panos de linho no chão, mas dobrado em um lugar à parte”. (Jo. 20, 5-7).

O que vem a ser o Sudário? O Sudário (sudarium em latim= lençol; sindón em grego= tela de linho) é uma peça de linho que servia para envolver os cadáveres ao remetê-los à sepultura. Estes costumes era observado pelos povos do Oriente Médio, especialmente pelos judeus.

Como se trata de um lençol bastante comprido, procedia-se da seguinte forma: o corpo da pessoa falecida era colocado (de costas para o linho) numa das metades do lençol, com os pés voltados para a extremidade do mesmo; aí se pegava o lençol pela extremidade oposta se se cobria o corpo (pela frente), de maneiras que este ficava como que encerrado num casulo. Eis o modelo:

 

                                   G r a v u r a

 

Em Turim, na Itália, existe um Sudário antiquíssimo medindo 4, 36m de comprimento por 1, 10m de largura, o qual, segundo se crê, envolveu o próprio cadáver de Jesus Cristo. Neste Sudário há a impressão tridimensional de uma figura humana de 1, 80m. A impressão frontal e dorsal, é misteriosa pelo fato de ser impressa como que em negativo de fotografia. As pesquisas científicas vem demonstrando que tal impressão, não teria acontecido pelo contato com o cadáver, mas por um processo de desprendimento de eletricidade. Aí a hipótese de uma luz projetada pelo “Corpo Glorioso” de Cristo no momento de sua ressurreição.

Este miraculoso Sudário de Turim tem uma longa história: ele figura nos catálogos das relíquias da Paixão, recolhidas em Jerusalém por ordem de Santa Helena e depois transportadas a Constantinopla. Em 1147 este Sudário teria sido venerado por Luís VII, rei da França, em visita oficial a Constantinopla. Em 1204 teria estado em Jerusalém e desaparecido durante a 4ª Cruzada. Somente 150 anos depois reapareceria na França, onde o Conde Godofredo de Carney confiá-lo-ia aos canonistas de Lirey, em 1353. Daquela data em diante a documentação histórica é certa: o sudário de Lirey é o mesmo que atualmente está em Turim. No ano de 1452 ele tornou-se propriedade perpétua da Casa de Savóia, que mandou construir em Chambery na França uma capela para guardá-lo. Em 1532 um incêndio nesta capela danificou seriamente este sudário. Em 1578, Emanuel Filisberto transportou a preciosa relíquia para Turim, onde permanece até hoje, sendo em 1694 colocada numa capela construída para isso. No século XX fizeram-se 3 exposições públicas: 1931, 1933 e 1978. Na última exposição, o sudário foi visitado por 3 milhões de pessoas em 43 dias.

Atualmente, este Santo Sudário é de uma cor bastante amarelada. O vulto humano que ele comporta corresponde ao dos textos bíblicos da Paixão de Cristo: os golpes da flagelação, a coroação de espinhos, as quedas durante o caminho ao Calvário, o sinal da lança no peito e a crucificação nos pulsos e nos pés. As manchas foram causadas pelo incêndio de 1532 e pelo contato com água.

O Grande interesse da ciência pelo Sudário de Turim começou com a surpreendente fotografia realizada pelo advogado Secondo Pia em 1898. Naquele ano, a Casa de Savóia autorizou-o a fotografar pela primeira vez o Sudário. Pia, ao revelar a chapa fotográfica, viu com grande surpresa formar-se, não um negativo, como seria normal, mas uma imagem positiva. Em 1931 o Sudário foi especialmente fotografado para fins de pesquisa pelo especialista Gruiseppe Enrie cujas fotos confirmaram o caráter extraordinário da primeira foto.

Em 1969 o cardeal Pellegrino, então Arcebispo de Turim, nomeou uma Comissão de Estudos, formada por especialistas das Universidades de Roma, Turim, Milão e Moderna. Naquela ocasião o Sudário foi novamente fotografado por Giovanni Judica Cordiglia, cujas fotos foram submetidas a análises especiais. A comissão de especialistas declarou que se deve descartar a hipótese de que a figura tenha sido produzida por contato… É necessário tomar em consideração a hipótese de que este retrato tenha sido produzido por um acontecimento que atuou quase como um processo fotográfico.

Estudiosos de todo o mundo continuaram a analisar todas as provas, em seus mínimos detalhes; principalmente nos últimos anos se usaram as técnicas modernas para examinar os diversos aspectos. Em 1976, técnicos da NASA já haviam moldado, através de computadores, uma espécie de baixo-relevo da figura vista no linho da mortalha. Ultimamente as descobertas mais importantes foram de Max Frei, um criminologista suiço de fama internacional, que já foi especialista na ONU. Analisando um pouco de pó encontrado no Sudário, ele pode constatar nele a presença de pólen de flores com a idade de dois mil anos e que provém de plantas da Palestina e de outros lugares, por onde o Santo Sudário passou.

 

5.6 - SAGRADO CORAÇÃO DE JESUS

 

A partir do século XVII, uma nova devoção eucarísti­ca passou a tomar vulto no seio da Igreja. Trata-se da “Teo­logia do Sagrado Coração de Jesus”. As origens deste movi­mento eucarístico aconteceram da França, com Santa Margarida Maria Alacoque.

Margarida Alacoque nasceu aos 22 de julho de 1647. Aos 9 anos, ela foi curada miraculosamente de uma moléstia ao fazer a primeira comunhão. Aos 24 anos tornou-se religiosa da Ordem da Visitação. Sua vida era uma ininterrupta contemplação do coração de Jesus.

No dia 27 de dezembro de 1673, dia de São João Evangelista, quando ela estava diante do Santíssimo Sacramento, Jesus apareceu a ela e disse: “Meu divino Coração está tão apaixonado de amor pelos homens, por ti em particular, que não podendo mais conter em si mesmo as chamas de sua caridade, é mister que as propague por teu intermédio”. Mostrou-lhe então o seu Sagrado Coração, encimado por uma cruz e coroado de espinhos. Ordenou à Irmã Margarida Maria que esta imagem fosse exposta e venerada para atrair bênçãos aos homens.

A 16 de junho de 1675, Jesus apareceu-lhe de novo, durante a 8ª do Santíssimo Sacramento; com o coração exposto. Disse-lhe: “Eis aqui este Coração que tanto ama os homens, que nada poupou, até se esgotar e consumir, para testemunhar-lhes o seu amor, e em troca, não recebo da maior parte senão ingratidões, irreverências e sacrilégios, frie­zas e desprezos que têm para comigo neste Sacramento de amor. Mas, o que me é sensível, e que são corações que são  consagrados que assim procedem. Desejo, por isso, que a primeira sexta-feira após a 8ª da Festa do Corpo de Deus seja festejada, de um modo particular, para honrar meu coração: peço-te que comungues neste dia e faças reparação honrosa pelas irreverências que Ele sofre, quando está exposto sobre os altares. Prometo-te que meu Coração se dilatará para derramar com abundância os eflúvios do divino amor sobre aqueles que lhe prestarem esta honra e propaguem esta devoção”.

Irmã Margarida Maria faleceu aos 17 de outubro de 1690; ela foi canonizada aos 17 de março de 1918 pelo Papa Bento XV.

A devoção ao Sagrado Coração tomou corpo em toda a Igreja. Aos 15 de maio de 1956, o Papa Pio XII promulgou a En­cíclica Haurietis Acquas sobre o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus.

A Encíclica comporta 87 parágrafos, dos quais os mais importantes são:

01 - “Haurireis águas com gáudio das fontes do Salvador” (Is 12, 3). Isaías predisse os múltiplos e abundantes bens que os tempos messiânicos haveriam de trazer.

06 - “Se conhecesses o dom de Deus que te diz dá-me de beber, tu é que pedirias e Ele te daria água viva” (Jo 4, 10). A Igreja admoesta aqueles que dizem que a devoção ao sacratíssimo Coração é pouco fundamentada e que está superada.

09 - O Papa Pio XI na Encíclica Miserentissimus Redemptor de 8 de maio de 1928 diz que nesta devoção está o com­pêndio de toda a religião cristã e a norma de vida mais perfeita.

12 - O coração de Jesus, parte nobilíssima da natureza huma­na, está unido hipostaticamente à Pessoa do Verbo de Deus; logo, merece igual veneração a Pessoa do próprio Filho de Deus Encarnado. É uma verdade da fé católica já definida no Concílio de Éfeso e no II Concílio de Constanti­nopla. Por outro lado, o coração é o símbolo da imensa caridade divina para com o gênero humano.

19 - “A Lei foi dada por meio de Moisés; a graça e a verdade nos vieram por meio de Jesus Cristo” (Jo 1, 17). Pelo Evangelho chegamos a conhecer com perfeita clareza a Nova Aliança estipulada entre Deus e a humanidade, que o Verbo Encarnado estabeleceu e levou a prática, merecendo-nos a graça divina. Esta Aliança sancionada com o sangue de Cristo é mais perfeita que a Lei de Moisés.

25 - “Convinha que em tudo Jesus se tornasse semelhante aos irmãos para ser, em relação a Deus, um Sumo sacerdote misericordioso e fiel para expiar assim os pecados do povo” (Hb 2,17). Cristo assumiu a natureza humana passível e mortal com vistas ao sacrifício cruento da Cruz que Ele desejava oferecer com o fim de realizar a obra de Redenção do homem. Seu coração era vulnerável para a redenção humana.

34 - O Coração de Jesus é símbolo do amor constante entre Ele e o Pai e a humanidade, bem como da ardente caridade.

42 - Já na Cruz, o coração de Jesus ardia dos mais vários a­fetos de amor, consternação, misericórdia, desejo inflamado, paz serena. Basta analisar as últimas palavras de Jesus na Cruz.

47 - “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos amigos" (Jo 15, 13). Ao sacrifício incruento do pão e do vinho Jesus uniu o sacrifício cruento da cruz, quando seu Coração foi transpassado.

48 - Do Coração ferido de Jesus nasceu a Igreja, administra­dora do Sangue da Redenção, bem como dele fluiu a gra­ça dos Sacramentos, na qual os filhos da Igreja bebem a vida sobrenatural. Santo Tomás confirma: do lado de Cristo brotou água para lavar e sangue para redimir. O sangue é próprio da Eucaristia, a água é própria do Batismo.

59 - “Contemplarão aquele que transpassaram" (Zc 12, 10). João retomou estas palavras (Jo 19, 37), como que profetizando por sua vez, o culto ao Sagrado Coração de Jesus que desenvolver-se-á na Igreja.

63 - A aprovação do culto ao Divino coração pela Igreja, deu-se muito antes da aprovação do testemunho de Santa Mar­garida Alacoque. Em 25 de janeiro de 1765, o Papa Clemente XIII aprovou a prática desta devoção. Aos 6 de fevereiro do mesmo ano, a Sacra Congregação dos Ritos concedeu aos Bispos da Polônia e à Arquiconfraria do SCJ a faculdade de celebrar a Festa Litúrgica do SCJ.

64 - Aos 23 de agosto de 1856, o Papa Clemente IX estendeu a Festa do SCJ para toda a Igreja, prescrevendo a sua Celebração Litúrgica. Desde então, o culto, semelhante a um rio que transborda, superou todos os obstáculos e difundiu-se pelo mundo.

67 - Não é ao “coração físico” de Jesus que se presta culto; o culto às imagens e relíquias é uma maneira de adorar toda a divindade. Assim, o SCJ representa toda a pessoa do Verbo Encarnado.

73 - “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento, e com todas as tuas forças" (Mc 12, 30). O culto ao SCJ implica a vivência deste sumo mandamento.

84 - A fim de que a devoção ao SCJ produza frutos mais co­piosos para a humanidade, é indispensável uni-la à devoção ao Imaculado Coração de Maria.

87 - “Como penhor destes dons celestiais, concedemo-vos de todo o coração a bênção apostólica, tanto a vós pessoalmente, veneráveis irmãos, como ao clero e a todos os fiéis confiados à vossa solicitude pastoral, e em especial àqueles que de propósito fomentam a promovem a devoção ao SCJ.” Roma, junto de São Pedro, a 15 de maio de 1956, ano 18º do nosso Pontificado. Pius PP. XII.

Na prática pastoral, existe o “Apostolado da Oração", cuja espiritualidade decorre do culto ao SCJ, levan­do à Eucaristia. A cada mês, os membros deste Apostolado o­ferecem orações e sacrifícios para uma intenção geral e uma específica. Além da Festa anual do SCJ, toda primeira sexta-feira de cada mês e dedicada ao Coração do Redentor. É nesta ocasião que se procedem as Bênçãos Eucarísticas, ocasião em que se reza por toda a Igreja, e pelo seu bem-estar.

 

Free business joomla templates