Radionovela

RADIONOVELA, SEMPRE PRESENTE

DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

* O texto da dissertação pode ser copiado, sempre acompanhado com a devida citação bibliográfica. O texto impresso em papel e encadernado está na biblioteca da Universidade Tuiuti do Paraná, em Curitiba-PR.

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IDENTIFICAÇÃO do MESTRANDO

 

Lourenço Mika

 

www.maikol.com.br

 

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( 41 ) 3359-9653

 

( 41 ) 99189- 9595

 

Curitiba-PR, ano 2005

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INTRODUÇÃO

 

A presente investigação acadêmica estuda a radionovela, no passado e no presente. Procura identificá-la nas linguagens auditivas criadas com o avanço tecnológico. Aqui, a opção é analisar o estilo radionovela disseminado na programação do rádio atual (ano 2005).

 

Ainda que se faça necessário discutir o gênero e/ou formato radionovela nesta dissertação, é importante destacar que não será dada ênfase à sua origem e história no Brasil e no mundo, pois, já existem muitos estudos nessa área. O gênero radionovela, num sentido estrito, praticamente não existe mais; mas o estilo radionovela permanece materializado pela iconização sonora no rádio, inclusive, com a migração para a internet.

 

Como sinônimos de radionovela, usam-se também os termos radioteatro, radiodramatização e peça radiofônica. Entretanto, no momento de classificar a radionovela há controvérsias entre os autores. A radionovela que era veiculada na forma de um capítulo por dia, na década de 1940, é considerada gênero radiofônico, como a definem Carlos Alberto Rabaça e Gustavo Guimarães Barbosa: “Novela radiofônica. Radioteatro, gravado ou ao vivo, que transmite esse gênero de literatura de massa geralmente em capítulos diários, em horários determinados” (RABAÇA e BARBOSA, 2002, p. 619). Mas, quando radionovela se refere à produção de episódios, únicos ou seriados, no estilo ou linguagem de radionovela, aí pode ser considerada como formato radiofônico (KAPLUN, 1978, p. 147-149).

 

Essa discussão pode estar associada a vários elementos: ao tempo, porque a radionovela passou por várias fases evolutivas; ao espaço, pelo fato de ter assumido características diferentes; e às convicções pessoais, posto que cada pesquisador assume uma posição pessoal.

 

André Barbosa Filho (2003), autor de Gêneros Radiofônicos: os Formatos e os Programas de Áudio, classifica a radionovela como um programa, ou seja, um formato ficcional dentro do gênero radiofônico chamado entretenimento. Arlindo Machado (2003) esclarece que o termo gênero, do latim genus / generis, significa família, espécie, mas não se vincula etimologicamente, malgrado a aparente homofonia, com as palavras gene e genética, do grego gênesis, geração, criação.

 

Nesse sentido, termos como gênero radiofônico, formato radiofônico, programa de rádio, programação radiofônica e produtos radiofônicos são confundidos e utilizados muitas vezes como sinônimos, sem que haja concordância quanto aos seus significados particulares.

 

É possível classificar a produção radiofônica? Mais ainda, é necessário fazer isso? Nesse terreno, como em tantos outros, cada professor tem sua cartilha. E todas podem ser válidas, na medida em que sejam úteis para dinamizar essa produção. Porque não se trata de fazer um exercício taxeonômico ou de colecionar definições, mas de mostrar um menu amplo e apetitoso, a gama mais variada de formas, para estimular a criatividade dos radialistas. [...] O que sugerem as palavras gênero e formato? A primeira tem uma raiz grega que significa geração, origem. Digamos que são as primeiras distribuições do material radiofônico, as características gerais de um programa. A segunda vem do vocábulo latino forma. São as figuras, os contornos, as estruturas nas quais são vertidos os conteúdos imprecisos. Ainda se fala da forma do sapato ou do chapéu, na qual se amolda o couro e o feltro. Os gêneros, então são modelos abstratos. Os formatos, os moldes concretos de realização. Na realidade, quase todos os formatos poderiam servir para quase todos os gêneros (VIGIL, 2003, p. 117-118).

 

Renato Ortiz, Silvia Helena Simões Borelli e José Mário Ortiz Ramos afirmam que o gênero radionovela derivou do gênero folhetinesco. “Tudo indica que a aceitação do novo gênero literário, como tudo o que vinha da França, se fez sem maiores problemas” (ORTIZ e outros, 1991, p. 15). Silvia Helena Simões Borelli e Maria Celeste Mira escrevem que “o declínio das radionovelas nos anos 60, seu desaparecimento em 73 e a tentativa de retomada nos 80, definem os limites de reconstituição da história dos gêneros ficcionais radiofônicos” (BORELLI, Jan-Jun 1996, p. 53). Neste sentido, a radionovela das décadas de 40 a 60 pode ser considerada gênero radiofônico.

 

A ausência de um padrão constituído possibilitou, muitas vezes, a existência de uma imprecisão quanto às qualificações para cada tipo de programação ficcional serializada. Falar, portanto, de radionovela, no Brasil, pressupõe desfazer, num primeiro momento, uma pequena teia de significados. O conceito nem sempre é usado de forma homogênea: as denominações radionovela, radioteatro, radiopeça, histórias seriadas e peças radiofônicas aparecem, por vezes, indistintamente, ainda que respondam, cada uma, por algum tipo de especificidade. Uma certa confusão de denominação pode ser detectada tanto na literatura mais especializada sobre o tema, quanto na fala de alguns produtores culturais, ou ainda, na terminologia usada pela imprensa. No Suplemento Cultural do jornal Folha de São Paulo, na edição de 31.07.1977, Eloá Di Pierro Heise escreveu: [...] rádio-peça, ou melhor, rádio-novela, dramalhão transmitido em infinitos capítulos, que apresenta como característica principal uma estrutura folhetinhesca. A trama deve ser interrompida no exato momento em que a tensão atinge pontos culminantes, para que o ouvinte, levado pela pergunta ‘o que será que vai acontecer?’, seja forçado a assistir ao próximo capítulo... Radionovelas (histórias seriadas) e peças radiofônicas ou radioteatro (textos curtos, apresentados em poucos capítulos). Eu prefiro chamar de rádio-teatro. Eu falo rádio-teatro por um motivo: porque rádio-teatro incorporou as novelas também. E radionovela é uma limitação. A peça radiofônica se situa entre a composição musical propriamente dita e a obra puramente literária. Mas para a maioria dos dramaturgos brasileiros, a concepção do que seja uma peça radiofônica ainda é confundida com a de radionovela” (BORELLI, Jan-Jun 1996, p. 49).

 

Rádio e novela fizeram um casamento perfeito. Com o advento da telenovela, a televisão se apropriou da linguagem, dos autores, atores, técnicos e diretores do gênero radionovela. E o rádio ficou com a linguagem ou estilo da radionovela. Nivaldo Ferraz destaca que “a dramatização sonora está presente em comerciais de rádio. Também se ouve amiúde em programas de variedade, de humor e até mesmo nas programações esportivas de algumas emissoras. Mas poderia estar mais presente no rádio brasileiro, para manter o meio ligado às suas raízes históricas” (Apud BARBOSA FILHO, 2004, p. 130).

 

A radionovela pressupõe uma meticulosa pré-produção, os ensaios, a gravação coletiva e a pós-produção. É um estilo de comunicação no rádio, onde está em evidência o uso do sentido da audição por parte do radiouvinte. Na radionovela era explorado apenas o sentido da audição; na telenovela, a audição está aliada ao sentido da visão. A antiga radionovela, no Brasil, deu origem à novela de televisão, isto é, com o advento do videotape, aconteceu a evolução do gênero radionovela para o gênero videonovela ou telenovela.

 

Os elementos do estilo radionovela estão presentes no bojo da hibridização da produção radiofônica. A presente investigação acadêmica investiga questões, como: em que consiste a linguagem ou estilo radionovela? Em que medida a linguagem radionovela pode ser explorada como veiculadora de mensagens? De onde provém o encanto gerado pela radionovela?

 

Portanto, o objetivo geral desta pesquisa é estudar a radionovela como um estilo de comunicação no rádio atual. Depois de um breve relato sobre a origem da radionovela e seus anos dourados no Brasil, será analisado o estilo radionovela. Atualmente, não há mais radiouvintes acompanhando um capítulo a cada dia, mas o estilo radionovela está disseminado na produção radiofônica. Ao explorar a emoção, ainda hoje o estilo radionovela é usado com freqüência para veicular mensagens educativas, persuasivas, divertidas etc, com bastante eficiência.

 

Neste sentido, pretende-se demonstrar como o estilo radionovela ou radioteatro é utilizado em anúncios comerciais e nos episódios humorísticos veiculados nas emissoras, além de verificar produções de CDs de campanhas humanitárias e mensagens religiosas que se revestem desse estilo. Quando estudantes da graduação marcam um trabalho-de-aula de gravação em rádio, eles logo pensam em vinhetas no estilo radionovela para ilustrar a gravação.

 

          Nos anúncios comerciais e episódios humorísticos, a narração de uma história passa basicamente por quatro fases: contextualização de uma situação, introdução de um conflito, desenvolvimento de uma ação e resolução do conflito (MCLEISH, 1999, p. 180). A Rádio CBN de Curitiba-PR, por exemplo, utiliza o estilo radioteatro na produção de anúncios comerciais. Já a Rádio Transamérica o emprega nos episódios humorísticos.

 

Nas campanhas humanitárias e mensagens religiosas, o produtor de rádio, algumas vezes, querendo ser criativo, utiliza o estilo radionovela. Por exemplo, o Projeto Radialistas Contra a AIDS, de Fortaleza-CE, em 1998, motivou a produção de dois CDs com orientações sobre como evitar o vírus HIV. Nessa campanha, além de músicas, spots e esquetes, também foi produzida a Radionovela da Camisinha, contendo seis capítulos.

 

Servindo-se do estilo radionovela, a Associação Palavra Viva, de São Paulo-SP, de 1993 a 1997, produziu e veiculou em dezenas de radioemissoras o Programa Palavra Viva. Cada um dos 640 programas contém a narração de uma história, à qual é aplicado um pensamento bíblico.

 

Esses exemplos citados fazem parte do corpus dessa dissertação, que analisa o estilo radionovela em anúncio comercial, episódio humorístico, campanha humanitária e mensagem religiosa.

 

Para fundamentar o presente trabalho, foi necessário fazer uma revisão de referências diversas: livros, artigos publicados em anais de congressos, revistas especializadas em áudio, sites e consulta às fontes sonoras (programas gravados, CDs etc.). Ressalta-se que a bibliografia sobre radionovela é escassa em língua portuguesa. Os poucos capítulos dedicados ao assunto estão encartados em obras de crítica literária que abordam a telenovela ou a produção radiofônica.

 

Há, ainda, alguns artigos e dissertações sobre radionovela publicados em revistas e jornais que estão reproduzidos em sites da internet. Há, também, algumas dissertações de mestrado e doutorado sobre radionovela, como, por exemplo, A Radionovela no Brasil: de “Em Busca da Felicidade” à “Verdes Vidas”,de Maurício Nogueira Tavares, defendida em 1992 na Universidade Metodista, em São Bernardo do Campo (SP). Outra fonte que merece destaque é a tese de doutorado Radionovela e Publicidade: Memória da Recepção em Florianópolis durante os anos 1960, de Ricardo Medeiros, defendida em 2003 na Université du Maine, em Le Mans (França) e transformada em livro no Brasil.

 

Os principais autores consultados nesta pesquisa foram: Robert MCLEISH (londrino), José Ignacio López VIGIL (cubano), Mario KAPLUN (argentino), e os brasileiros Silvia Helena Simões BORELLI, André BARBOSA FILHO, Paulo PERDIGÃO, Luiz Artur FERRARETO, Ângelo PIOVESAN e Júlia Lúcia de Oliveira ALBANO DA SILVA.

 

A partir da literatura, é notório que em cada país a radionovela foi tomando rumos próprios, especialmente no aspecto da comercialização, o que não constitui objeto desta pesquisa. Os registros encontrados falam da história da radionovela, descrevem o seu itinerário de produção e revelam as suas implicações sociais, culturais e mercadológicas. A radionovela é citada por estudiosos das ciências humanas e sociais, e até mesmo, por políticos e economistas.

 

Como parte metodológica desse estudo, foram várias as fases na elaboração desta pesquisa. Inicialmente, o levantamento bibliográfico e demais referências constantes em sites da internet. Na seqüência, procedeu-se à leitura da bibliografia coletada e ao mesmo tempo à busca e à audição de exemplares (CDs) do estilo de radionovela. Realizaram-se entrevistas com profissionais especializados no tema, tais como: professores de comunicação, produtores de radionovela, técnicos de produção de radionovela e ouvintes de radionovela.

 

Enfatiza-se que a radionovela, de uma forma ou outra, está sempre presente. No tempo áureo do rádio brasileiro, na forma de um capítulo por dia, é considerada gênero radionovela. Na atualidade, nos episódios esporádicos, considerada estilo radionovela. Nesta pesquisa, inicialmente serão apresentados uma breve história do rádio e o surgimento dos vários gêneros radiofônicos. Na seqüência, a análise da linguagem radionovela, quanto às suas características, técnicas de produção e o seu poder de alcance. Além disso, não se pode deixar de abordar a linguagem da radionovela que migra para a internet e continua a atrair a atenção de muitas pessoas.

 

O rádio continua com uma força de comunicação muito forte, ao que denominamos de magnitude do rádio. Em 98% dos lares brasileiros há um aparelho de rádio (www.sunrise.com.br/amoradio/index.php?id=32. Acesso em: 10 Fev. 2005). Oitenta e oito por cento da população têm aparelho de rádio em casa e 90% possuem aparelho de televisão (Revista VEJA, n. 1894, fev. 2005).

 

A programação radiofônica vem melhorando a sua qualidade ao veicular uma notícia, tocar uma música, fazer um anúncio de utilidade pública, apresentar variedades e, também, ao transmitir episódios no estilo radionovela - tema central dessa dissertação.

 

Um dos fatos que impedem o ressurgimento da radionovela está atrelado ao alto custo de sua produção, mas isso não impossibilita que em um momento ou outro o estilo radionovela seja utilizado, como comprovado nessa pesquisa. Para preencher o horário em uma emissora, normalmente, recorre-se a entrevistas com especialistas nos temas em pauta. É mais fácil entrevistar alguém por telefone para informar o ouvinte, ainda que esse gênero seja pouco explorado em toda a sua potencialidade e torne, conseqüentemente, o programa enfadonho.

 

Atualmente, é quase impossível reunir atores vocais em um estúdio para ensaios e gravações de diversos capítulos de uma radionovela. Na década de 1950, os produtores passaram a encontrar dificuldades financeiras para produzir radionovelas. Nesse período, os patrocínios começavam a migrar para a televisão. No entanto, o seu registro histórico é tema de diversas pesquisas científicas que servem de inspiração para criar outras formas de inovar no rádio ao resgatar o seu estilo.

 

Com o advento da TV, pensou-se que o rádio iria desaparecer; no entanto, não desapareceu e, pelo contrário, foi evoluindo. No passado, a radionovela favoreceu a sedimentação do rádio como um veículo de grande potencialidade de comunicação. E, no presente, o rádio continua sendo ouvido devido à sua plasticidade sonora herdada da radionovela. Do disco de  vinil ao CD e agora na internet, Radionovela, sempre presente.

 

  

 

1. RÁDIO: HISTÓRIA, MAGNITUDE, GÊNEROS, CARACTERÍSTICAS

 

 

 

Entre os precursores do rádio moderno, inventores, aventureiros, financiadores, entusiastas e a formação de grupos de radiouvintes, há uma longa história. Nesta dissertação, não há intenção de resgatar toda a história do rádio, mas apenas ater-se àqueles dados que são indispensáveis para compreender a história da radionovela.

 

O físico Heinrich Rudolf Hertz (1857-1894), em 1887, na Alemanha, realizou uma série de experiências sobre a teoria eletromagnética do escocês James Maxwell. Maxwell tinha demonstrado que a ação eletromagnética viaja pelo espaço em ondas transversais semelhantes às da luz e com a mesma velocidade. Hertz provou que as ondas eletromagnéticas e as ondas luminosas se propagam à velocidade de 300 mil quilômetros por segundo. Estas observações foram fundamentais para o desenvolvimento do telégrafo e, mais tarde, do rádio e da televisão (COSTELLA, 1984, p. 149).

 

Guglielmo Marconi (1874-1937), na Itália, ainda na juventude, teve acesso às descobertas de Hertz. Em setembro de 1895, Marconi fez as primeiras experiências de telegrafia sem fio, por um processo de emissão e recepção de ondas eletromagnéticas. Na virada do século, os países foram sendo ligados pela telegrafia sem fio de Marconi: França e Inglaterra (1899), Itália (1900), Canadá (1901), Argentina (1910), Brasil (1919), Austrália (1924) (COSTELLA, 1984, p. 150-154).

 

            No entanto, já antes, no Brasil, o padre Landell de Moura fez demonstrações de transmissão e recepção de voz humana. Robert Landell de Moura (1861-1928), nascido em Porto Alegre (RS), estudou Teologia, Física e Química em Roma. Tornou-se sacerdote católico em 1886. De volta ao Brasil, como sacerdote e físico, ele fazia demonstrações de transmissões da voz à distância; na capital paulista, transmitiu sinais sonoros da hoje denominada Avenida Paulista até o bairro Santana, numa distância de oito quilômetros. No ano de 1900, registrou a patente n.º 3.279 sobre seu aparelho apropriado à transmissão da palavra à distância, com ou sem fios, através do espaço, da terra e da água (FORNARI, 1960, p. 38).

 

Em 1904, o padre Landell registrou nos Estados Unidos o transmissor de ondas e o telégrafo sem fios. Além disso, inventou a válvula de três eletrodos, uma peça fundamental para o desenvolvimento da radiodifusão. De volta ao Brasil no ano seguinte, no Rio de Janeiro, ele solicitou ao Presidente Rodrigues Alves dois barcos para poder demonstrar o seu invento, ocasião em que foi tachado de “maluco e espírita” e teve seu equipamento destruído. Nos escritos teóricos e nas experiências concretas do padre Landell há descobertas científicas que eram bem mais avançadas do que as de Marconi. Por falta de compreensão e recursos financeiros, até as patentes sobre os inventos dele ficaram no esquecimento. Como memória e homenagem ao pesquisador, o centro de pesquisas da Telebrás instalado em Campinas-SP em 1976 denomina-se Centro de Pesquisa e Desenvolvimento Pe. Robert Landell de Moura (COSTELLA, 1984, p. 155-162) e tenta recuperar e divulgar os seus inventos.

 

            O rádio foi evoluindo com o passar dos anos. As duas primeiras décadas do século XX marcaram o reinado soberano da telegrafia sem fio, isto é, da utilização da onda eletromagnética para transmissões de telegramas de pessoa para pessoa, com o emprego dos sinais de ponto e traço do código Morse. A radiodifusão - aproveitamento das mesmas ondas para irradiação de programas à massa popular - somente eclodiu a partir dos anos vinte.

 

            A transmissão hertziana de sons complexos, tais como a música e a voz humana, já era tecnicamente possível desde o início do século XX. Com a invenção da válvula de triodo (Lee de Forest, Nova York, 1904), ficou possível amplificar os sinais elétricos, condição necessária à audição de sons complexos transmitidos por onda hertziana. Porém, quando o rádio já tinha condições de transmitir boletins informativos sonoros, óperas e cantigas de natal, sobreveio a I Guerra Mundial. As forças armadas dos países em guerra se apoderaram imediatamente de todos os aparelhos do rádio nascente para usá-los com fins militares.

 

Terminada a guerra, começaram a surgir tentativas de transmissões privadas, não mais voltadas para a guerra: em 1919 (Holanda, Estados Unidos), em 1920 (Inglaterra), em 1921 (França), em 1922 (Brasil), em 1923 (Bélgica), em 1924 (Itália), em 1926 (Alemanha) (FEDERICO, 1992, p. 15). Porém, nessa época ainda se insistia em praticar no rádio um modelo de comunicação de pessoa para pessoa, havendo um emissor e um único receptor, como no radioamadorismo, tal qual no telefone de hoje. Só então, aos poucos, surgiu um modelo coletivo, onde havia um emissor para muitos receptores. No Brasil, começaram a surgir os ‘clubes’ de radioamadores, isto é, quem possuía um gramofone cedia o aparelho para que várias pessoas pudessem ouvir uma mesma gravação em locais diferentes.

 

  

 

1.1 O RÁDIO NO BRASIL

 

No Brasil, um primeiro experimento do rádio data de 6 de abril de 1919, em Recife-PE, por Oscar Moreira Pinto, com a Rádio Clube de Pernambuco. Porém, a data mais significativa é o 7 de setembro de 1922, quando, no Rio de Janeiro, a Westinghouse, empresa norte-americana, fez uma demonstração de transmissão e captação das ondas do rádio, ocasião em que foi veiculado o discurso do Presidente Epitácio Pessoa, no centenário da Independência do Brasil (COSTELLA, 1984, p. 176). Aos 20 de abril de 1923, Roquette-Pinto colocava no ar o primeiro sinal sonoro da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, a primeira rádio no Brasil (FEDERICO, 1992, p. 35). Nessa década, os radioreceptores eram importados e custavam caro; a programação era destinada à elite cultural. Aos poucos, nas cidades onde já havia radiotransmissores, formavam-se os “clubes” ou “sociedades” dos possuidores de gramofone que emprestavam seu aparelho e seus discos de óperas para serem utilizados pelas radioemissoras; os radiouvintes pagavam uma mensalidade.

 

            No dia 28 de agosto de 1941 entrou no ar, com Heron Domingues, o Repórter Esso da Rádio Nacional do Rio de Janeiro (TAVARES, 1999, p. 152). Aos 13 de maio de 1942 era fundado o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística - Ibope, para averiguar a audiência das radioemissoras (FEDERICO, 1992, p. 67). Na década de 1940, surgiram o radioteatro, este voltado principalmente para o humorismo, e, logo mais, a radionovela.

 

            Com a inauguração da televisão aos 19 de setembro 1950, quando Assis Chateaubriand inaugurou a TV TUPI, em São Paulo-SP (COSTELLA, 1984, p. 195), o rádio passou por uma crise financeira. Os profissionais do rádio foram migrando para a televisão, levando consigo os reclames publicitários. Por outro lado, desde que, aos 23 de dezembro de 1947, nos Estados Unidos, John Bardeen apresentara ao mundo o transistor, o invento passou a dar um grande impulso ao rádio, pois concedia ao aparelho de radiorecepção a característica da portabilidade. O rádio foi se tornando ágil e barato, cada vez mais acessível à população. O rádio passou a veicular notícias, informes de meteorologia, ofertas de emprego, ou, simplesmente música.

 

            Na década de 1960, as emissoras em Freqüência Modulada-FM começaram a ter um público-alvo segmentado. A partir de 1982, as radioemissoras foram adotando o CD e dispensando o disco de vinil. Na década de 1990, toda a produção de áudio passou a ser digital; o computador foi sepultando as fitas eletromagnéticas, as cartucheiras, os audiocassetes e mesmo o CD e o MD.

 

            Em 1978, no Brasil já existiam 989 concessões públicas para rádio AM, FM e TV. De 1979 a 1985 (Governo do Presidente Figueiredo), houve a concessão de 634 estações de AM, FM e TV. De 1986 a 1989 (Governo do Presidente José Sarney), houve a concessão de 1.087 estações, somando 2.710 concessões públicas (Gazeta do Povo, 10 Set. 1992, p. 12). Com a reforma da Constituição Federal de 1988, a concessão pública deixou de ser outorgada pelo Presidente da República, porque foi criado o Conselho Nacional de Comunicação com a tarefa de outorgar as concessões. Em 2004, no Brasil havia 1.424 rádios FM, 227 rádios FM educativas e 1.645 rádios OM (www.radiobras.gov.br/integras/02/integra_0404_2.htm. Acesso em 20 Jul. 2004). Por uma pesquisa feita no referido ano, constatou-se que 88% dos brasileiros ouviam rádio todos os dias (EPCOM: www.acessocom.com.br. Acesso em 12 Ago. 2004). A Agência Nacional de Telecomunicações, Anatel (http://anatel.gov.br) mantém um cadastro atualizado de todas as radioemissoras do Brasil, dados que mudam quase que diariamente.

 

            Um assunto, no Brasil, um tanto quanto polêmico que não pode ser omitido, é a questão das rádios comunitárias. As denominadas rádios comunitárias são permitidas pela Lei 1.521/96 da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. São emissoras de baixa potência, com uma programação voltada para a comunidade. A programação das rádios comunitárias deve estar voltada para os interesses sociais da comunidade. Uma rádio comunitária não pode retransmitir programas de outras rádios. Ela é sem fins lucrativos, mas pode ter patrocínio de empresas na forma de apoio cultural. Deve estar no nome de uma fundação, com personalidade jurídica (www.signet.com.br. Acesso em: 15 Ago. 2004). A polêmica está na aplicação política da lei das rádios-comunitárias; quando a lei favorece ou desfavorece pessoas influentes, aí a Polícia Federal autua ou não autua os proprietários da rádio-comunitária.

 

Nos últimos anos, formaram-se as redes de rádio. Entende-se por rede de rádio aquelas emissoras que transmitem o mesmo conteúdo em tempo integral ou apenas em alguns horários; quando um mesmo proprietário é detentor de várias concessões, e cada emissora veicula outra programação, isso não caracteriza rede. Como exemplo de rede, pode ser citada a Rádio CBN, a Central Brasileira de Notícias, ex-Rádio Excelsior, presente em quase todos os Estados da Federação.

 

            As radioemissoras católicas possuem uma organização própria para operar em rede. O Programa Palavra Viva, analisado nesta dissertação, era veiculado nas rádios católicas. Por isso, a seguir, um breve relato das redes católicas de rádio:

 

            - Unda-Brasil - Unda não é uma sigla; é a própria palavra latina, cujo significado é “onda” (hertziana), utilizada pelo rádio e pela televisão. A Unda internacional foi fundada em 1928, em Colônia, na Alemanha. A Unda-Brasil foi fundada no dia 28 de abril de 1976, no Rio de Janeiro (RJ). Atualmente, a sede está em São Paulo, na Rua Vergueiro, 3086 - conj. 91 - Vila Mariana. Ela conta com 184 radioemissoras associadas (www.rcrunda.com.br, Acesso em: 12 ago. 2004).

 

            - Rede Católica de Rádio - É a união de emissoras católicas para operação via satélite digital, fundada em 1992; a sede nacional fica no mesmo prédio da Unda-Brasil. Com 185 emissoras ligadas por receptores de sistema digital, tendo seis bases transmissoras, em 2002 a RCR era a maior Rede de Rádio do Brasil, com transmissão de programas diários em rede (www.rcrunda.com.br. Acesso em 12 ago. 2004).

 

            - Rede Milícia Sat - A Rede Milícia Sat é mantida pela Associação Milícia da Imaculada, fundamentada no carisma de São Maximiliano Kolbe (1894-1941), que foi um entusiasta da imprensa católica. Desde 1995, da meia-noite até às 05:00 horas da manhã forma-se em nível de Brasil a Rede Milícia Sat, pela qual 113 radioemissoras transmitem o programa A Igreja no Rádio gerado pela Rádio Imaculada Conceição, sediada no bairro Riacho Grande, em São Bernardo do Campo (SP), com alcance nacional (www.milicia.org.br. Acesso em 15 ago. 2004).

 

            - Rede Paulus Sat - A Rede Paulus Sat é uma rede de 67 emissoras comerciais, tendo como geradora da programação a Rádio América, AM 1410 KHZ, de São Paulo-SP; as emissoras se coligaram com a finalidade de transmitir uma programação direcionada para a família católica. A Rádio América, com sede na Rua Dr. Pinto Ferraz, 183 - Vila Mariana, São Paulo, pertence à Congregação dos Padres Paulinos, que tem por objetivo anunciar o evangelho de Jesus Cristo através dos Meios de Comunicação (www.radioamericasp.com.br. Acesso em 16 dez. 2004). Em 2002, a Rádio América, de São Paulo (SP), também passou a produzir episódios de radionovela, testemunhando graças e bênçãos, e veiculá-los na Rede Paulus Sat.

 

             - Rede Canção Nova - A Rede Canção Nova de Rádio existe desde 1995, quando começou a operar via satélite para todo o Brasil. A Rádio Canção Nova, de Cachoeira Paulista (SP) faz a geração principal da programação. Recentemente a rede adquiriu a Rádio Independência, de Curitiba-PR (www.cancaonova.com. Acesso em 16 dez. 2004).

 

 

 

1.2 A MAGNITUDE DO RÁDIO

 

            Magnus, em latim, significa grande. O avanço tecnológico da eletrônica vem propiciando extensões aos cinco sentidos do corpo humano, fazendo ultrapassar as categorias de tempo e espaço. Onde um olho individual não pode estar, pode haver uma câmera filmadora (objetiva); onde um ouvido individual não pode estar, pode haver um microfone. No final de 1870, o inventor Edison, com seu fonógrafo, tinha conseguido gravar e conservar gravada a voz humana; desde então, aquela voz, mesmo não estando a ser falada, podia alcançar nossas casas e tornar-se mídia alternativa ao jornal (GIOVANNINI, 1984, p. 183).

 

            A audição está diretamente ligada às emoções. Exemplificando: um fanático torcedor explode em euforia quando ouve o grito do ‘gol’ do seu time favorito; uma mãe tem um choque psíquico ao ouvir a notícia de que o filho dela acaba de perder a vida num acidente. Ouvindo rádio, a pessoa se informa, se instrui, se diverte, sonha, se perverte, se entretém, se tranqüiliza, se emociona, ora, ganha dinheiro, se transforma (MCLEISH, 1999, p. 23). O rádio gera um relacionamento interpessoal entre o radialista e o ouvinte. Muito mais do que na televisão, o apresentador estabelece uma espécie de ligação com o ouvinte. Uma emissora bem-sucedida é mais do que a soma de seus programas; ela entende a natureza dessa amizade e seu papel de líder e prestador de serviços (MCLEISH, 1999, p. 24).

 

            Mohazir Salomão (2005), professor de radiojornalismo na PUC-MG, propõe que o rádio tem de ser arte. Ele comenta o livro El Arte Radiofônico (Buenos Aires, 2004), do argentino Ricardo Haye: “O rádio deve estar propenso a configurações espaciais e multisensoriais. As mensagens têm que seduzir o olhar, o tato, o gosto e o olfato dos ouvintes” (SALOMÃO, 2005, p. 356). O rádio nasceu e se firmou enfrentando imensas dificuldades financeiras. Porém, hoje, o rádio tem condições financeiras de veicular poesia em sua sonoridade, ou seja, as produções radiofônicas podem estar revestidas do estético, convertendo-se em radioarte.

 

Uma emissora de rádio é capaz de funcionar a um simples toque de botão, mandando para o ar, durante 24 horas do dia, em som estereofônico Hi-Fi, quadrifônico, música clássica ou popular, mensagens comerciais, noticiosos, prestação de serviços, hora certa... comandada por sofisticados computadores (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 165). O rádio continua forte e imbatível, já que, com a ajuda do transistor, o veículo ampliou seu poder de penetração a públicos inatingíveis pela televisão ou pelos jornais; ao público de lugares onde não existe energia elétrica e onde o percentual de analfabetos é muito grande; o analfabeto não lê, mas pode ouvir (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 45). Eis os sinais da magnitude do rádio:

 

            - O rádio forma imagens: o radiouvinte cria uma imagem visual a partir da imagem auditiva. Se na televisão há uma imagem visual já pronta e acoplada ao som, no rádio o receptor da mensagem tem a liberdade de criar, com base no que está sendo dito, a imagem do assunto, ou da pessoa ou do fato. Por meio de um diálogo mental, o ouvinte participa da mensagem (BARBOSA FILHO, 2003, p. 45).

 

            - O rádio é simples: a televisão pressupõe uma grande equipe para colocar no ar um programa; são técnicos, operadores de câmaras e microfones, iluminadores, locutores etc. O rádio pode ser operado por um único disk jokey, que fala notícias, hora-certa, dedica músicas, vende etc. O custo operacional também é simples. O radioreceptor mais antigo era um aparelho simples, sem o complicado controle remoto de alguns televisores. Já o rádio digital é um pouco mais sofisticado, incorporando muitos recursos eletrônicos.

 

            - O rádio é portátil: algumas mídias, como jornal e televisão, exigem dedicação quase que exclusiva. Já o rádio pode ser ouvido enquanto a pessoa executa outras tarefas. O rádio portátil, por ser alimentado com pilhas, pode ser levado a todo e qualquer lugar; e as ondas eletromagnéticas estão presentes em toda parte do planeta. É comum ver pessoas ouvindo rádio no ônibus ou na rua, munidas de fones-de-ouvido. Quase todos os automóveis possuem um radioreceptor. O termo radiodifusão indica a dispersão da informação produzida, que abrange cada lar, vila, cidade e país que esteja ao alcance do transmissor (MCLEISH, 1999, p. 16). O rádio está na cabeceira do Presidente da República, em forma de rádio relógio, como está pendurado no ramo adejante do pé de café do lavrador humilde e analfabeto, em forma de rádio de pilha; está no leito do enfermo e no carro que leva o cirurgião para a primeira operação do dia (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. X). O rádio foi migrando da sala-de-estar para o quarto, para o banheiro, para a cozinha e para os automóveis (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 45). A radionovela, ficção, explora por si só o transportar-se no tempo e no espaço.

 

            - O rádio fala para milhões: o rádio fala para milhões, mas será que os milhões o ouvem? Os pesquisadores de audiência no rádio falam de parcela e alcance. Parcela de audiência é o tempo gasto pelo radiouvinte ouvindo uma determinada emissora, expresso em porcentagem da audiência total de rádio nessa área. Alcance de audiência é o número de pessoas que de fato ouve alguma coisa da emissora num período de um dia ou uma semana, expresso como porcentagem da população total que poderia estar ouvindo (MCLEISH, 1999, p. 16). Uma radioemissora pode ter uma parcela bem pequena da audiência total, mas se conseguir obter um substancial acompanhamento de pelo menos um de seus programas, gozará de um amplo alcance. A disputa pela audiência, que significa faturamento comercial, é bem acirrada entre as emissoras. A radionovela, indo ao ar, em dia e hora predeterminados, tinha a vantagem do público cativo.

 

            - O rádio fala para cada indivíduo: ao mesmo tempo que atinge milhares de pessoas, o rádio é voltado para o indivíduo em particular. As palavras, a forma de falar, são pensadas para o ouvinte com suas particularidades e expectativas. O tom íntimo das transmissões, representado pelas expressões “amigo ouvinte”, “caro ouvinte”, “querido ouvinte”, proporciona uma aproximação e uma intimidade únicas, fazendo do rádio um veículo companheiro.

 

            - O rádio é instantâneo: as radioemissoras especializadas em transmitir notícias exploram a instantaneidade do rádio, falando ao vivo. Ao mesmo tempo em que a notícia é veiculada em tempo real, ela se caracteriza pela efemeridade (MCLEISH, 1999, p. 16-18). Por exemplo, na transmissão de futebol, interessa o momento do gol; o que vem depois já é o comentário. Um jornal impresso pode ser deixado de lado para ser lido mais tarde; já, a magia do rádio está no ser ouvido no instante exato do acontecimento. Isso faz do rádio um agente disseminador da informação e do conhecimento; portanto, o rádio é um agente formador de cultura. A radionovela, por ser ficção, abandona o instantâneo real para trabalhar no instantâneo imaginário.

 

            - O rádio é local: o rádio tem alcance local pela natureza das ondas eletromagnéticas do rádio AM, transmitidas em quilohertz, e do FM, transmitidas em megahertz. As ondas curtas podem ser captadas a milhares de quilômetros, como um hobby de dexistas (D = Distance; X = Incógnita; dexistas são aqueles que pesquisam a sintonia das radioemissoras em ondas curtas). Mas, é mais comum que o rádio seja ouvido por ouvintes da localidade próxima (http://intermega.globo.com/poleiro/art_o_que_e_dexismo.htm, Acesso em: 17 dez. 2004). Em muitos casos, o ouvinte conhece pessoalmente o radialista; em outros casos, mesmo que o ouvinte não conheça a fisionomia do locutor, ele se familiariza com a voz e o estilo dele. É até folclórico o fato de que muitos colonos ao irem para a cidade passam na radioemissora para mandar um recado para a família que ficou em casa! Quando o assunto é a notícia, a notícia local desperta mais interesse do que a notícia proveniente de regiões distantes (MCLEISH, 1999, p. 20).

 

            - O rádio é acessível: a maioria da população tem possibilidade de adquirir um aparelho de rádio. Segundo pesquisa do IBGE, praticamente toda residência tem pelo menos um ou vários aparelhos; a proporção é de um rádio por pessoa. Tal fato ocorre porque seu preço é quase sempre acessível e sua abrangência alcança basicamente qualquer lugar, mesmo onde não existe energia elétrica ou as transmissões televisivas ainda não chegaram. Sendo assim, o rádio está sempre por perto, ao alcance da mão ou do ouvido, atingindo todos, da criança ao idoso.

 

            - O rádio é barato: comparado com outros veículos de comunicação, o rádio é barato para o ‘proprietário’ e barato para o radiouvinte. Um aparelho de rádio portátil custa menos do que um livro (MCLEISH, 1999, p. 17). Uma vez obtida a concessão pública (no Brasil) para colocar uma radioemissora no ar, o custo dos equipamentos e da manutenção é relativamente pequeno. Aí o rádio incorre, infelizmente, num entrave: a mão-de-obra de não-profissionais e a conseqüente falta de qualidade na programação. A radionovela é uma produção que requer a contratação de profissionais para que haja qualidade. A falta de espaço para profissionais certamente é um dos motivos da atual pouca produção de radionovela.

 

            - O rádio vende: pelo Decreto-Lei nº 21.111, de 1º de março de 1932, o Presidente Getúlio Vargas autorizou a veiculação de publicidade e propaganda no rádio brasileiro (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 55). O rádio passava a ser um entreposto de vendas. Na medida em que o rádio vendia os produtos dos outros, ele recolhia a verba publicitária. As emissoras foram se transformando em empresas. No final do século XX, o rádio passou a sobreviver dos anúncios de marketing, produzidos e veiculados de uma forma profissional. A radionovela sempre esteve entrelaçada com a produção de reclames publicitários, porque o estilo de produção da publicidade é muito parecido com a produção de radionovela, pois é um estilo para se ouvir e imaginar, e não para ver (MCLEISH, 1999, p. 99). Um anúncio comercial, normalmente segue o esquema: a) contextualizar uma situação; b) identificar um problema; c) apontar uma solução, através da venda de um produto ou serviço. Em rádio e televisão, é muito fácil reproduzir esse esquema através de pequenas ficções.

 

            - O rádio tem função social: atua como agente de informação e formação do coletivo. É um serviço de utilidade pública. Fornece informações sobre empregos, produtos e serviços. Atua como vigilante sobre os que detêm o poder, propiciando o contato entre eles e o público. Ajuda a desenvolver objetivos comuns e opções políticas. Possibilita o debate social e político e expõe temas e soluções práticas. Contribui para a cultura artística e intelectual. Dá oportunidades para artistas novos e consagrados de todos os gêneros. Divulga idéias que podem ser radicais e que levem a novas crenças e valores, promovendo assim diversidade e mudanças. Facilita o diálogo entre indivíduos e grupos. Promove a noção de comunidade. Mobiliza recursos públicos e privados para fins pessoais e comunitários, especialmente numa emergência. Funciona como um agente multiplicador e reforçador da cultura. Controla a opinião pública. Capacita os indivíduos a exercitar o ato da escolha, tomar decisões e agir como cidadãos, em especial numa democracia, graças à disseminação de notícias e informações imparciais (MCLEISH, 1999, p. 20).

 

            - Outros atributos: José Ignacio Lopes Vigil, cubano de nascimento e radialista em vários países da América Central, entre os quais na República Dominicana, em Manual Urgente para Radialistas Apaixonados elenca ainda outros atributos sobre a magnitude do rádio: O rádio é o melhor dos pianos, pois se o piano de Mozart tinha 85 teclas, o ouvido humano - o órgão de Corti - tem 25 mil ‘teclas’. O rádio privilegia o riso e a emoção que todos gostam. O rádio é a maior tela do mundo. O rádio dialoga com todos (VIGIL, 2003, p. 30-41; 434-462).

 

 

 

1.3 GÊNEROS EM RÁDIO

 

            Para tipificar a programação no rádio, foram utilizados os conceitos de gênero e formato. Genesis, em grego, significa gênero, origem, espécie; aplicado ao rádio, gênero expressa as características gerais de um programa. Forma, do latim, são as figuras, os contornos, as estruturas nas quais são vertidos os conteúdos imprecisos; no rádio, os formatos são os moldes concretos de realização de um programa (VIGIL, 2003, p. 118). Os gêneros são modelos abstratos, como destaca André Barbosa Filho:

 

 [... termos como gênero radiofônico, formato radiofônico, programa de rádio, programação radiofônica e produtos radiofônicos são confundidos e utilizados muitas vezes como sinônimos, sem que haja concordância quanto aos seus significados particulares... Formato radiofônico: é o conjunto de ações integradas e reproduzíveis, enquadrado em um ou mais gêneros radiofônicos, manifestado por meio de uma intencionalidade e configurado mediante um contorno plástico, representado pelo programa de rádio ou produto radiofônico; Programa de rádio ou produto radiofônico: é o módulo básico de informação radiofônica, a reprodução concreta das propostas do “formato radiofônico”, obedecendo a uma planificação e a regras de utilização dos elementos sonoros; Programação radiofônica: é o conjunto de programas ou produtos radiofônicos apresentado de forma seqüencial e cronológica...] (BARBOSA FILHO, 2003, p. 71-72)

 

            Não há uma forma única de categorizar os gêneros de programas no rádio. Mario Kaplun (1978) apontou 12 gêneros radiofônicos baseados na palavra falada: 1) locução, que pode ser expositiva, crítica ou testemunhal; 2) noticiário; 3) nota ou crônica; 4) comentário; 5) diálogo, que pode ser diálogo-didático ou radioconselho; 6) entrevista informativa; 7) entrevista; 8) radiojornal; 9) radionovela, miscelânea ou variedades; 10) mesa-redonda, que pode ser mesa-redonda propriamente dita ou debate; 11) radioreportagem, que pode ser ou com base em documentos vivos ou com base na reconstrução de fatos; 12) dramatização, que pode ser unitária, seriada ou novela (KAPLUN, 1978, p. 131).

 

            José Ignácio López Vigil (2003), tomando por base o esquema emissor-mensagem-receptor, classificou os gêneros radiofônicos a partir de três perspectivas: 1) de acordo com o modo de produção da mensagem, há três gêneros - dramático, jornalístico e musical; 2) de acordo com a intenção do emissor, há oito gêneros - informativo, educativo, de entretenimento, participativo, cultural, religioso, de mobilização social e publicitário; 3) e de acordo com a segmentação dos destinatários, há sete gêneros - infantil, juvenil, feminino, de terceira idade, sertanejo, urbano e sindical (VIGIL, 2003, p. 118-119).

 

            Os formatos em rádio foram se desenvolvendo à medida em que foram surgindo os gêneros do rádio; cada gênero foi criando os seus formatos em vista do seu público-alvo. Na história do rádio, às vezes o gênero criou o público-alvo e em outras vezes o público-alvo determinou o aparecimento de um gênero de programação. O radiouvinte escolhe o que ele quer ouvir. Para se comunicar com cada tipo de público, cada gênero em rádio foi criando o seu próprio formato e a sua própria linguagem. A radionovela conviveu com os muitos gêneros radiofônicos e, por vezes, se misturou com eles.

 

            A seguir, a classificação dos Gêneros Radiofônicos, tomando como referência a obra de André Barbosa Filho sob o título Gêneros Radiofônicos. O referido pesquisador tomou como suporte a definição funcional de Lasswell e Wright, utilizada por José Marques de Melo na classificação de gêneros jornalísticos. Ele relaciona os gêneros radiofônicos em razão da função específica que eles possuem em face das expectativas de audiência. A classificação de André Barbosa Filho tem como base o que rádio produz ou produziu, evidenciando não apenas suas características jornalísticas ou artísticas, mas também a educativa, a de comercialização, a de propagação de visões de mundo (BARBOSA FILHO, 2003, p. 87).

 

 

 

1.3.1 Gênero Jornalístico

 

É o instrumento de que dispõe o rádio para atualizar seu público por meio da divulgação, do acompanhamento e da análise dos fatos. O rádio nasceu para ser uma extensão da voz humana. Por isso, a fala é o ponto de partida no rádio. A mensagem radiofônica enquanto informação tem como objetivo manter o radiouvinte a par do que se passa no mundo que seja do interesse dele. Informar pelo rádio é veicular notícias. A notícia se constitui em novidade para o ouvinte. A mensagem informativa se caracteriza por alguns aspectos: importante, controverso, dramático, geograficamente próximo, culturalmente pertinente, imediato e inusitado.

 

O script da notícia é produzido no modelo do “lead” (cabeçalho) clássico, com seus cinco dáblios e um agá: 1) What? (O quê?); 2) Who? (Quem?); 3) Where? (Onde?); 4) When? (Quando?); 5) Why? (Por que?); 6) How? (Como?) (MCLEISH, 1999, p. 78; 255). O radiouvinte quer atualidade, originalidade, veracidade, clareza e brevidade nas notícias. A linguagem da notícia é ser direta, objetiva, impessoal, modesta e sem palavras difíceis. Os formatos do Gênero Jornalístico são:

 

            A Nota é um informe sintético de um fato atual, nem sempre concluso, isto é, de um fato que ainda está acontecendo. Caracteriza-se pelo tempo de irradiação sempre curto, com no máximo quarenta segundos de duração; as mensagens são transmitidas mediante frases diretas, quase telegráficas.

 

            A Notícia é o relato integral de um fato que já eclodiu no organismo social. O tempo de apresentação da notícia é curto, com aproximadamente noventa segundos. O radiojornalismo supõe entradas ao vivo de qualquer ponto da cidade, e não apenas a leitura dos jornais que estão nas bancas.

 

            O Boletim Noticioso é de poucos minutos, produzido e apresentado por um só jornalista; aqui conta muito a instantaneidade da notícia. A informação no rádio pode ser veiculada no gênero radiojornal ou na forma de boletim noticioso. O boletim noticioso normalmente é veiculado nas “cabeças de horário”, por exemplo, 16:55 horas, 17:55 horas, 18:55 horas.

 

            A Reportagem é o relato ampliado de um acontecimento que já repercutiu no organismo social e produziu alterações que são percebidas pela instituição jornalística. Engloba a pesquisa, a entrevista e a seleção de dados relacionados à mensagem a ser veiculada. É uma noção mais aprofundada a respeito do fato narrado.

 

            A Entrevista se caracteriza pelo diálogo entre o repórter e a fonte, sob a forma de perguntas e respostas, para obter informações. Entrevista noticiosa é aquela que tem como eixo a informação; entrevista de caráter é aquela que tem como eixo a personalidade do entrevistado. Pode acontecer ao vivo ou pode ser gravada para ser reproduzida mais tarde. A vantagem da entrevista é uma maior credibilidade dos fatos e a uma maior aproximação do radiouvinte com o fato.

 

            O Comentário indica uma análise e uma opinião sobre determinado acontecimento, que procura informar e orientar o ouvinte, influir sobre ele e incliná-lo em favor de uma determinada interpretação do fato, considerada justa e correta. José Marques de Melo diz que o comentário pressupõe autoria definida e explicitada. A função do comentário reside no seu conteúdo opinativo e sugere um conhecimento especializado. Aproxima-se do editorial, com a diferença de que no editorial é expressa a opinião do veículo de mídia e no comentário é expressa a opinião do autor. O tempo de um comentário não deve ultrapassar os três minutos e o radiouvinte tem que ser informado de que se trata de um comentário.

 

            O Editorial é um texto opinativo, escrito de maneira impessoal, sem identificação do autor, sobre um assunto de interesse nacional ou internacional, ou local, que retrata o ponto de vista da radioemissora. Nos primórdios do rádio europeu, o editorial representava um anseio da comunidade perante o Estado.

 

            A Crônica é um formato que transita nas fronteiras do jornalismo e da literatura; o jornalismo condensa a redação e é conciso, a literatura é minimalista e é prolixa. A crônica faz uma ligação direta de fatos da atualidade com uma circunstância favorável. Ela estrutura-se de modo temporalmente mais defasado; vincula-se diretamente aos fatos que estão acontecendo, mas não coincide com seu momento eclosivo. A crônica radiofônica, ainda cultivada nas pequenas emissoras das cidades do interior, permanece cingida à estrutura da crônica para o jornal: trata-se de um texto escrito (código criptografado) para ser lido (código oral), cuja emissão combina a entonação do locutor e os recursos de sonoplastia, criando ambientação especial para sensibilizar o ouvinte.

 

            O Radiojornal é constituído por diversas seções ou blocos, com notícias locais, nacionais, internacionais; notícias de economia, política, cultura, artes, serviço, esportes, variedades; e ainda, opinião e comentário. Caracteriza-se pela periodicidade diária, mantendo a regularidade nos horários de início e término das transmissões, garantindo, assim, a credibilidade necessária do público no que diz respeito aos conteúdos transmitidos. Variando de quinze minutos a uma hora, ou até duas horas e meia, esse jornal-falado tem por função cobrir o último período informativo entre uma emissão da espécie e outra. Deve ter: a cabeça do programa, as manchetes, os destaques, os resumos, a classificação dos blocos noticiosos, cortinas sonoras para a divisão dos blocos, recursos para atrair a atenção do ouvinte e a utilização de fundo musical. Em cada bloco, apresenta-se a notícia mais importante por primeiro. Há no mínimo dois apresentadores, com a participação de repórteres incluindo, se for o caso, entrevistas sonoras. O radiojornal supõe uma equipe de produção.

 

            O Documentário Jornalístico tem a duração de quinze a trinta minutos. É a verdadeira análise de um fato específico que merece tratamento especial. Pode ser uma data histórica, um conjunto de fatos reais, oportunos e de interesse atual, de conotação não-artística. É realizado por meio de montagem de áudios previamente gravados. Tem como função aprofundar determinado assunto construído com a participação de um repórter condutor. É uma espécie de monografia radiofônica sobre um dado tema. Mescla pesquisa documental, medição dos fatos in loco, comentários de especialistas e de envolvidos no acontecimento e desenvolve uma investigação sobre um fato.

 

            A Mesa-Redonda e o Debate são mediados por um apresentador que impõe as regras previamente aceitas pelos participantes, tendo em vista delimitar o tempo de fala de cada um, organizar as perguntas e a seqüência das respostas. O mediador deve ser uma pessoa bem informada, sensível, de raciocínio rápido, imparcial e educada. A apresentação é ao vivo para gerar credibilidade. O assunto a ser abordado na transmissão de um debate é de interesse público. O objetivo é fazer o ouvinte ficar a par de argumentos e contra-argumentos expressos em forma discursiva por pessoas que de fato sustentam suas opiniões com convicção. Os participantes da mesa-redonda, normalmente, têm idéias diferenciadas entre si. É costume mesclar vozes femininas e masculinas no estúdio, onde todos devem ser informados do nome e do cargo de cada debatedor. É importante abrir espaço para a participação do ouvinte por telefone ou e-mail, o que precisa ser informado ao ouvinte repetidas vezes. Na mesa-redonda, o assunto é abordado pacificamente; no debate, há discussão.

 

            O Programa Policial tem como objetivo cobrir os acontecimentos e fatos policiais, por meio de reportagens, entrevistas, comentários e notícias, e é apresentado de modo independente ou vinculado aos radiojornais. Roland Barthes, em Crítica e Verdade (Perspectiva, 1999, p. 58-59) fala de faits divers como uma informação monstruosa sobre desastres, assassinatos, raptos, acidentes, roubos, assaltos, esquisitices..., remetendo ao homem a sua história, a sua alienação, a seus fantasmas, a seus sonhos, a seus medos. Normalmente o noticiário policial é recheado de suspense, o que caracteriza o sensacionalismo.

 

            O Programa Esportivo, aceito somente nos últimos anos como gênero radiofônico, vem cativando públicos cada vez maiores. Os locutores esportivos têm se aperfeiçoado no sentido de criar novos estilos de locução, utilizando-se sempre da criatividade e cativando uma legião cada vez maior de ouvintes. Avalia-se, inclusive, que o gênero esportivo é o que mais se desenvolveu nas últimas décadas, com uma rica produção de vinhetas e efeitos especiais durante suas transmissões ao vivo, aliadas a constantes entrevistas e coberturas ao vivo. Em termos de programação, o gênero esportivo oferece quatro formatos: 1) noticiários esportivos - que ocorrem em datas e horários pré-determinados; 2) programas esportivos - apresentados no estúdio; 3) transmissão de eventos - especialmente o futebol; 4) placar esportivo - resultados, classificação. Segundo Luis Carlos Saroldi, em O Rádio no Brasil (SAROLDI, 1988, p. 45), a transmissão de futebol no Brasil é um gênero à parte, uma espécie de ópera sonora. Para desenvolver um trabalho eficiente na área de esportes, é necessário que a emissora mantenha uma equipe de esportes que pode ser dividida por tipo de esporte (futebol, hipismo, fórmula-1...), sendo fundamental a cobertura permanente dos esportes mais difundidos na região da emissora.

 

            A Divulgação Tecnocientífica tem a função de divulgar, e conseqüentemente, informar a sociedade sobre o mundo da ciência, com roteiros apropriados e linguagem que seja acessível à maioria da população. O uso de ferramentas de linguagem radiofônica, a exemplo da sonoplastia, a participação da radioatores e as trilhas musicais são fundamentais para tornar o discurso científico acessível e palatável.

 

 

 

1.3.2 Gênero Educativo-Cultural

 

No início da história do rádio, pensava-se fazer desse veículo um difusor de cultura. Alguns governos financiavam e ainda financiam a rádio educativa. Como um meio de promover a educação, o rádio pode trabalhar com conceitos e com fatos. Seja ilustrando dramaticamente um evento histórico, seja acompanhando o pensamento político atual, ele serve para veicular qualquer assunto que possa ser discutido, conduzindo o ouvinte, num ritmo predeterminado, por um conjunto de informações. Nos países desenvolvidos, o gênero educativo-cultural é uma das colunas de sustentação da programação radiofônica. Roquette-Pinto, o fundador da radiodifusão brasileira, assim concebeu o meio. Por longos anos, 1970-89, foi veiculado no Brasil o Projeto Minerva; era uma tentativa de levar educação escolar aos recantos mais remotos do Brasil (FERRARETO, 2001, p. 162). Desde 1997, em São Paulo-SP, idealizado por Ismar de Oliveira Soares, da ECA/USP, está sendo desenvolvido o projeto Educomunicação, levando crianças do Ensino Fundamental a terem contato com o rádio educativo. Porém, a comercialização e a conseqüente banalização dos conteúdos dos programas radiofônicos da atualidade não propiciam a criação de projetos que visem instruir e educar por meio do veículo de massa mais popular e de maior penetração da sociedade brasileira.

 

            O Programa Instrucional é usado em cursos de alfabetização e ensino de idiomas, e mesmo em disciplinas básicas como geografia, história etc; o áudio é um complemento ao material impresso. A Audiobiografia é o formato radiofônico em que o tema central é a vida de uma personalidade de qualquer área de conhecimento e que visa divulgar seus trabalhos, comportamentos e idéias. O Documentário educativo-cultural, com duração variável de trinta a sessenta minutos, tem a abordagem direcionada a um tema de cunho humanístico, como uma escola, um movimento literário ou musical, uma programação televisiva ou radiofônica. E o programa temático, variando de cinco a sessenta minutos, tem como finalidade a abordagem e a discussão de temas sobre a produção do conhecimento.

 

 

 

1.3.3 Gênero de Entretenimento

 

Pode ser chamado também de “variedades” ou “radiorevista”. Tem como característica a mistura em um único programa dos vários gêneros existentes, baseando-se no tripé música-informação-entretenimento. A grande vantagem do entretenimento é a imbricação entre ficção e realidade. Com duração de até três horas, esse tipo de programa é dividido em núcleos, de acordo com os assuntos/quadros. Há necessidade de uma equipe de produção. O foco central é a mistura de assuntos e não a presença de um determinado apresentador. O papel do locutor é o de garantir a descontração do programa, sem que sua participação tenha interferência direta no material que está sendo difundido. Nas décadas de 1940 e 1950, nesse tipo de programa eram apresentadas as radionovelas. Em Entretenimento pode haver informação, anúncio, prestação de serviços de utilidade pública, educação etc.

 

            Um programa é Musical quando a maior parte do tempo é ocupada por músicas, ainda que haja breves locuções, como nome do cantor e da música, hora certa, reclames publicitários e boletins noticiosos. No início da história do rádio, havia transmissão de longas óperas e concertos; hoje, as músicas duram de dois a cinco minutos. Os programas musicais são os mais fáceis de serem produzidos, uma vez que as músicas já estão prontas; o trabalho do produtor e/ou apresentador resume-se em anunciar a música, desanunciar a música no seu final e inserir uma ou outra informação. Nas emissoras FM surgiu a figura do disc-jóquei, onde o mesmo profissional faz as tarefas do programador, do operador de áudio e do noticiarista, lendo as notícias on line de algum site da internet. No rádio brasileiro predomina o gênero musical. No tangente ao repertório musical, há segmentação quanto ao estilo clássico, rock, popular, sertanejo, romântico, religioso... O musical ainda pode ser dirigido para um público infantil, juvenil, adulto ou senil.

 

            O formato ficcional no rádio brasileiro teve seu esplendor a partir da década de 1940, com a Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Englobando interpretação, sonoplastia e efeitos sonoros, os programas ficcionais pertencem a dois grandes grupos: o drama e o humor. O drama é definido como uma composição dialogada de um fato trágico. Mario Kaplun dividiu o drama no rádio em: 1) unitário - os personagens não tem continuidade posterior; 2) seriado - personagens se repetem em peças independentes com tramas diferenciadas com começo, meio e fim; 3) radionovela - obra dramática de longa duração, dividida em capítulos de modo seqüenciado, com a necessidade de acompanhá-la diariamente para não perder a compreensão do desenrolar da trama (KAPLUN, 1978, p. 147-149).  Muito difundido nas décadas de 1940 e 1950, o gênero humorístico praticamente desapareceu do rádio brasileiro na década de 1960. Naquela época, tal tipo de programa era caracterizado por uma seqüência permanente de piadas e brincadeiras, tendo a família como público-alvo. Mario Kaplun classificou o humor no rádio em: 1) programete de humor - duração de poucos minutos ou até apenas alguns segundos, veiculados ao longo da programação; 2) programa de humor - seriado, com personagens permanentes que se apresentam a cada episódio; 3) peça radiofônica - comédia de até trinta minutos (KAPLUN, 1978, p. 147-149). A migração de muitos humoristas para a televisão e a transformação de perfil do público de rádio a partir da década de 1980 fizeram com que esses programas fossem rareando. Em 2005, percebe-se uma reintrodução de programas humorísticos no rádio, de forma completamente diferente do que era antes: agora os programas são veiculados em rádios FM, voltados prioritariamente para o público jovem e, ao contrário de entreter, buscam sempre o escracho, o humor apelativo.

 

            O programete artístico é um clips de áudio, com no máximo três minutos, com conteúdo de conotação artística. Utilizando entrevistas, comentários, radioesquetes e informações úteis, sua estrutura é ágil e dinâmica e pressupõe o poder de síntese, fluência e objetividade de quem o escreve. Um evento artísticotransmite ao vivo um espetáculo público, tal como show musical, concurso de beleza, quermesse, congresso etc. É necessário um esforço muito grande de técnicos, produtores, locutores, animadores que produzem o ritmo do espetáculo. Faz-se a inclusão de textos explicativos, bem como vinhetas de abertura, passagem e encerramento. Embora no rádio se estabeleça mais um feedback do radiouvinte do que uma interatividade que é própria da internet, o programa interativo é aquele no qual o ouvinte participa de jogos, gincanas, sorteios e brincadeiras, normalmente ganhando brindes. A interação pode acontecer através do telefone, fax ou e-mail.

 

 

 

1.3.4 Gênero Publicitário

 

O objetivo de um anúncio comercial é vender um produto ou um serviço. A propaganda eficiente irá interessar, informar, envolver, motivar e direcionar. Normalmente, o anúncio é produzido numa agência de publicidade, a qual sabe conjugar público-alvo, produto/serviço, redação apropriada, entonação da voz e efeitos sonoros. O código de ética para a publicidade diz que o anúncio tem de ser legal, decente, honesto e verídico; deve ser ousado e convincente. Os anunciantes são tratados com muito apreço, afinal são eles que garantem a subsistência financeira da radioemissora e dos que dela dependem.

 

            Spot advertising significa ponto de propaganda, ou, anúncio radiofônico. Surgiu em 1930 nos Estados Unidos. Um espote, normalmente não ultrapassa os trinta segundos de duração. É uma fala de entonação forte, protagonizada por atores, apoiada por trilha musical e efeitos sonoros. Existe também o texto-foguete, que é uma locução simples, com menos de dez segundos de duração.

 

            Jingle é uma pequena peça musical cuja função é facilitar e estimular a retenção da mensagem pelo ouvinte. Com trinta segundos ou menos de duração, a melodia é ao mesmo tempo simples e de fácil compreensão. O hábito humano de repetir determinadas frases melódicas, cantando ou assobiando, garante ao produtor do jingle a multiplicação da informação veiculada.

 

            Ainda há o Anúncio Testemunhal, peça radiofônica que se utiliza da credibilidade do comunicador quando da leitura de um texto comercial, tendo em vista o convencimento do público. É uma espécie de conselho de amigo. O ato de persuadir o consumidor está na credibilidade do locutor e não na qualidade do produto.

 

            E Peça de Promoção é uma promoção de vendas veiculada no rádio que se caracteriza pela instantaneidade e pelo alcance local. Vendem-se serviços e produtos numa espécie de oferta-relâmpago. O anunciante participa por telefone ao vivo, com a cumplicidade do locutor do estúdio. São oferecidos brindes para as primeiras pessoas que telefonarem adquirindo o produto anunciado. A Rádio Clube FM, de Curitiba-PR, é experta nesse tipo de anúncio publicitário.

 

 

 

1.3.5 Gênero Propagandístico

 

Fazer propaganda é propagar idéias, crenças, princípios e doutrinas; é o conjunto de técnicas e atividades de informação e persuasão destinadas a influenciar, num determinado sentido, as opiniões, os sentimentos e as atitudes do público receptor. Um exemplo histórico de propaganda no rádio está em Joseph Goebbels, ministro do Reich de Adolf Hitler, na Alemanha. E no Brasil, celebrizou-se o jovem César Ladeira, o locutor da revolução, que conclamava o povo contra a ditadura de Getúlio Vargas (BARBOSA FILHO, 2003, p. 129). Eis a classificação do Gênero Propagandístico:

 

            A Peça Radiofônica de Ação Pública reforça e sustenta o poder. Visa divulgar e esclarecer a opinião pública das ações, idéias e projetos das instâncias de poder, seja no nível federal, estadual ou municipal - propaganda governamental - , trabalhando suas respectivas imagens com o objetivo de conquistar o apoio e a aceitação populares. Porém, no Brasil, esse recurso sempre foi abusivo, com o agravante de que o governo paga bem pela veiculação de seus espotes.

 

            A Lei nº 9.504 de 30 de setembro de 1997, nos artigos 44 a 58, fala da Propaganda Eleitoral no Rádio e na Televisão (www.tse.gov.br/servicos/legislacao/lei_9504.htm. Acesso em: 14 Nov. 2003). As emissoras de rádio e de televisão devem reservar, nos quarenta e cinco dias anteriores à antevéspera das eleições em 1º Turno, horário destinado à divulgação, em rede, da propaganda eleitoral gratuita. São estabelecidos 50 minutos diários, repartidos em dois blocos de 25 minutos. O desempenho do candidato no horário político no rádio e na televisão se tornou decisivo para a sua eleição ou não-eleição. Por isso, o esmero em conquistar preciosos minutos para o candidato ou coligação, com base no número de cadeiras conquistadas no pleito anterior. A produção do conteúdo veiculado pelo candidato, numa linguagem direcionada para o eleitor, passou a ser confiada a profissionais de marketing.

 

            Embora não seja propriamente um gênero propagandístico, a Voz do Brasil merece uma menção especial. A primeira edição da Voz do Brasil foi apresentada em 25 de julho de 1936, com locução do carioca Luiz Jatobá, como noticiário oficial do governo federal, por ordem do Presidente Getúlio Vargas. Naquela época, chamava-se Programa Nacional. A transmissão obrigatória do programa por todas as emissoras de rádio do país, em rede nacional, iniciou-se em 1938. Essa retransmissão ainda é obrigatória, embora algumas emissoras, munidas de Mandado de Segurança, não a retransmitam. Em 1962 ocorreu a mudança de nome, com o programa passando a chamar-se A Voz do Brasil; e ficou sob responsabilidade da Empresa Brasileira de Notícias (EBN), que foi substituída em 1988 pela Radiobrás. A Voz do Brasil vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 19 horas, com a duração de 60 minutos. Em 1995, a Voz do Brasil entrou para o Guiness Book como o programa de rádio mais antigo do Brasil. É também o mais antigo programa de rádio do mundo que está no ar ininterruptamente (http://www.radiobras.gov.br. Acesso em: 21 set. 2003).

 

            Em todas as religiões existe o aspecto da missionariedade e mesmo o do proselitismo. Por isso, a existência de programas de ordem confessional. Muitas radioemissoras nasceram para servir determinados credos; em emissoras comerciais, muitas vezes há a cessão gratuita ou venda de espaços para grupos religiosos.

 

 

 

1.3.6 Gênero de Serviço

 

São notas que se caracterizam pela transitividade e provocam no radiouvinte uma reação imediata. São informações sobre o fluxo do trânsito, aeroportos, condições meteorológicas, anúncio de concursos, espetáculos, vacinação de crianças ou idosos, prazo da entrega do imposto de renda, falta de água ou luz, notas de falecimento, serviços públicos, coleta de sangue, aconselhamentos sobre saúde, investimentos, preços, turismo, emprego, questões jurídicas. Ainda, temas específicos de apoio aos interesses da população, venda de automóveis ou imóveis, hora certa, feiras-livres etc.

 

 

 

1.3.7 Gêneros Especiais

 

São formatos que escapam às tentativas de classificá-los nos gêneros clássicos, mas que apresentam várias funções concomitantes:

 

            O Programa Infantil tem a função de divertir, educar, informar. Porém, parece que essa intenção nunca prevaleceu. André Barbosa Filho (2003), escreve que o último programa infantil de que se tem notícia foi o Quintal Encantado, exibido entre 1985 e 1986 (BARBOSA FILHO, 2003, p. 139). Porém, uma pesquisa realizada por e-mail, em agosto de 2004, constatou que existem muitas radioemissoras com programas infantis. O programa infantil é propício a apresentar histórias e episódios com pinceladas do estilo radionovela, como ocorre em várias emissoras: na Rádio Imaculada Conceição, AM 1490 KHZ, de São Bernardo do Campo (SP), aos sábados, há o programa A Hora e Vez da Criança, das 10:00 às 11:00 horas, apresentado pelo locutor Denis Santos; e há um Rosário recitado por crianças às 15:00 horas. Na Rádio Nazaré FM de Belém-PA, há o programa Criança Evangelizando Criança, apresentado pela Infância Missionária aos sábados às 14:00 horas, detentor do prêmio Microfone de Prata-2004 oferecido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A Rádio Canção Nova de Cachoeira Paulista (SP) possui aos sábados o programa Cantinho da Criança, veiculado às 15:30 horas. Na rádio Paiquerê de Londrina-PR e em mais de 200 outras radioemissoras do Brasil é veiculado o programa Carretel de Invenções, gerado pela Fundação Fé e Alegria do Brasil, dos Padres Jesuítas de Belo Horizonte (MG). Em Nova Olinda (CE), na FM Casa Grande, o Catavento. A Rádio Comunitária A Voz da Comunidade de Manaus-AM transmite de segunda a sexta-feira, das 14:00 às 16:00 horas, A Hora da Alegria, apresentado por duas crianças, Jéssica e Alfredo, de 10 e 9 anos respectivamente. Em Santarém-PA existe um programa de rádio infantil apresentado na Rádio Rural de Santarém chamado Para Ouvir e Aprender. Na Rádio Goitacáz, em Glória do Goitá (PE), aos domingos, às 08:30 horas, o Mundo Infantil, apresentado por Lenilson José dos Santos. Na Rádio Comunitária FM Timbaúba-PE, aos domingos às 08:30 horas, o Criança Feliz, apresentado por Edivaldo Melo, o Palhaço Tico. Na Rádio FM Feira Nova em Feira Nova (PE), Coisas de Criança, às 11:00 horas de cada domingo, apresentado pelas crianças Ivã, Malena, Tiago e Simária. Na Rádio Nova Aliança de Brasília-DF, o programa Gente Pequena, apresentado por Sandra, às 10:00 horas. Na Rádio Atalaia de Curitiba-PR, às 08:00 horas, o programa religioso Sábado Criança, apresentado por Cláudia Menezes de Brito.

 

            Tendo um ou dois apresentadores, o Programa de Variedades possui várias seções: atualidades, política, esportes, música, humor... O programa de variedades, também chamado de popular, é responsável pela maior parte da audiência nas emissoras. Esse tipo de programa está centrado na figura do apresentador, também chamado de comunicador popular. Esse profissional tem um perfil bastante específico: uma pessoa descontraída, com muito carisma, perspicácia e emotividade. Em termos de produção, tal tipo de programa é dividido entre música, muita prestação de serviço de caráter básico, gincanas e notícias sobre artistas e personalidades, tudo com a participação direta e permanente do apresentador. Assemelha-se, em grande medida, ao gênero “Variedades”. Por conta das necessidades comerciais de boa parte das emissoras, esse gênero de programa acabou sendo um pouco desvirtuado, tendo como principal característica a exploração da boa fé do público ouvinte, normalmente constituído por pessoas do sexo feminino, de classe baixa e pouca escolaridade. O Programa Popular, às vezes, é a única forma de a população carente canalizar suas esperanças (MCLEISH, 1999, p. 113). No Brasil, de 1930 a 1951, destacou-se o Programa Casé, dirigido por Ademar Casé; na década de 1980, o programa Balancê, dirigido por Osmar Santos.

 

            Em muitos casos, o radiouvinte se afeiçoa ao radialista, criando nele uma figura de confidente ou conselheiro, como pode ser constatado em cartas de ouvintes. Antigamente carta, hoje fax ou e-mail. Às vezes, o radiouvinte é estimulado a escrevê-la, outras vezes ele a escreve espontaneamente. Algumas cartas são dirigidas ao radialista, outras à radioemissora. Algumas devem ser respondidas “no ar”, outras vezes, pelo correio. Contudo, todas têm que ser respondidas, pois o ouvinte merece respeito e não pode ser decepcionado. Leitura no ar - são cartas com pedidos musicais, dedicatórias, reclamações, respostas a concursos, divulgação de eventos ou solicitação de ajuda. Correspondência fora do ar - certas cartas dos ouvintes merecem o tratamento sigiloso de uma carta pessoal, em que o radialista ou a radioemissora devem responder ao radiouvinte, sob pena de perderem a confiança do remetente. No período áureo do rádio brasileiro, em São Paulo, a empresa de correios obrigou-se a deslocar diariamente uma viatura especial para transportar as cartas endereçadas a locutores, cantores e atores de algumas radioemissoras, tamanho era o volume da correspondência.

 

            Um telefonema do ouvinte colocado no ar pode variar desde um simples pedido musical, a uma dedicatória e mesmo a uma denúncia pública. E é ótimo que o ouvinte participe colocando a sua voz no ar, manifestando sua opinião e dando o seu testemunho. O telefonema concede a característica de imediatismo ao programa. Em certos tipos de debate, em que há uma autoridade no assunto no estúdio, o radiouvinte é estimulado a telefonar, contribuindo com opiniões ou questionamentos. É aconselhável que haja um pré-atendimento do telefonema, identificando o ouvinte para o apresentador do programa. Um telefonema colocado no ar não pode ser interrompido, ainda que pareça inconveniente; se for o caso, a equipe de produção poderá providenciar o comentário cabível na seqüência do programa (MCLEISH, 1999, p. 113-120).

 

            Em 30 de setembro de 1991, deu-se o golpe de Estado contra o presidente haitiano Jean-Bertrand Aristide. A Rádio Enquirillo, emissora da República Dominicana, situada na fronteira sul, fazia chegar facilmente o seu sinal até Port-au-Prince, capital do Haiti. Diante da terrível situação que o país irmão estava vivendo, a emissora, que tem o nome de um cacique rebelde, começou a enviar mensagens em crioulo para animar a resistência popular. Cúmplice do golpe, o governo dominicano proibiu terminantemente a Rádio Enquirillo de divulgar quaisquer notícias, qualquer aviso lido em língua haitiana. “E a música?”, perguntou, malicioso, Pedro Ruquoy, diretor da emissora. “Coloquem a música que quiserem”, respondeu impaciente o funcionário das telecomunicações. Como as músicas não haviam sido proibidas, o departamento de imprensa converteu-se em orquestra. Pedro decidiu colocar bateria e violão na cabine principal e começar a divulgar os boletins de última hora em ritmo de merengue e salsa. Quando havia muitas informações para transmitir, mudavam para o Rap. Estava inaugurado um novo formato radiofônico: a notícia cantada, ou Rap (MCLEISH, 1999, p. 117).

 

 

 

1.4 CARACTERÍSTICAS ATUAIS DO RÁDIO

 

            Eduardo Meditsch define o rádio a partir de três características indissociáveis: é um veículo de comunicação sonoro, invisível e que emite em tempo real (MEDITSCH, Revista Intercom, 2001, p. 228-229). Décio Pignatari[1] faz um re-olhar de agora sobre os fundamentos do fenômeno da comunicação (PIGNATARI, 2002, p. 48). O rádio atual, como toda a mídia eletrônica moderna, caracteriza-se por:

 

            Iconização: o ícone é um signo, ou um sinal ou um símbolo. Em semiologia, ícone é todo objeto, forma ou fenômeno que representa algo distinto de si mesmo, que apresenta relação de semelhança ou analogia com o referente, como fotografia, diagrama, mapa etc. Exemplos: a cruz significando o cristianismo; uma pegada indicando a passagem de alguém; uma seta para a direita indicando o Play num equipamento de áudio/vídeo. Na interface gráfica, o ícone é a figura apresentada na tela, geralmente clicável porque associada a um link, usada para acionar um software ou um recurso de programa executável. Por analogia, pode-se dizer que a informática é toda iconizada por sons; basta considerar os ícones sonoros do ambiente Windows (chimes, chord, ctmelody, ding, logoff, notify, recycle, start, tada, microsoft sound). Há muitos ícones sonoros e metáforas sonoras consagrados pelo uso que indicam: hora certa (tic-tac), noite (pio de coruja), praia (pio de gaivota), amanhecer (canto do galo), cavalgada (tropel), residência (porta abrindo), festa (rojões), ovação (palmas), dinheiro (caixa registradora), telefone (triiimmm, ou pipipopapepipapo), sons espaciais, fax, conexão de internet por linha telefônica (MCLEISH, 1999, p. 188). A música do Plantão de Notícias da Rede Globo imita o Código Morse, com uníssonos breves e mais longos, atiçando a atenção. Quem é que não conhece o Plim-Plim da Globo, certamente o mais expressivo ícone sonoro da TV? O rádio moderno usa o playlist, software que executa no ar um projeto de transmissão; projeto é ter colocado numa lista, por exemplo, a vinheta da rádio, a vinheta da hora-certa, o spot, a vinheta do programa, a música... (www.playlist.com.br. Acesso em 12 Jul. 2004). O playlist permite ao operador de áudio sobrepor ao telefonema uma vinheta com um aplauso, ou um grito de vivas, ou uma buzina, ou intervenções como “Oh, Coitado” (Filomena), “Mais ééé” (Nerso da Capitinga), copiadas da televisão (www.playlist.com.br; acesso 22.08.2005). Em transmissões de futebol, a Rede Globo usa um ícone sonoro que imita um chute na bola toda vez que acontece um gol em alguma partida simultânea do mesmo campeonato; esse som é um código emitido instantaneamente ao acontecimento, antes que o locutor seja informado aonde e de quem foi o gol e antes que o gerador de caracteres possa colocar a legenda na tela, o que leva alguns segundos. Na radionovela, na qual se ouve e não se vê, a iconização sonora é atalho para inúmeras mensagens de ambientação e contextualização (www.wstationradio.com. Acesso aos 13 Set. 2005).

 

            Paratatização: em gramática, parataxe significa a coordenação assindética na construção do período, onde as orações são interligadas sem o recurso às conjunções; exemplo: cheguei, vi, venci. É uma justaposição. Na linguagem cinematográfica, para mostrar que uma pessoa saiu de casa, entrou num automóvel e se deslocou para a fábrica, antigamente era necessário mostrar passo a passo o que acontecia com o personagem; hoje, basta mostrar que ele está em casa, se levanta e já está na fábrica. Na cena seguinte, o personagem já pode estar num estádio; o espectador saberá deduzir o trajeto que ele percorreu. Na história contada pelo rádio ou no radiojornal, os assuntos são justapostos e o radiouvinte os entende. Em vez de se usar uma exposição linear, usa-se uma narração rizomática, em forma de mosaico. Na radionovela esse recurso é muito útil sobretudo na hora de se passar de uma cena para outra, ocasião em que precisa contextualizar o novo ambiente. Tal qual no cinema, o radiouvinte de hoje tem a capacidade de assimilar o novo ambiente com muita facilidade.

 

            Hibridização: é a mistura das mídias. Supõe-se que o leitor de jornal é também radiouvinte e telespectador. As mídias eletrônicas (rádio, televisão, cinema, internet) e impressas (jornal, boletim, revista, livro) interagem entre si. Assim como na televisão surgiu o clip, no rádio se usam vinhetas, que geram uma programação com a aparência de um mosaico. Por exemplo, se no rádio for dito que aconteceu uma ‘videocassetada’ com alguém, o radiouvinte já vai associar o personagem aos episódios humorísticos exibidos no Programa do Faustão na Rede Globo; o rádio não precisa ficar explicando o que vem a ser uma ‘videocassetada’. O músico Eduardo Souto Neto compôs para a Rede Globo a música que ficou conhecida como “a música do Ayrton Senna” para a transmissão das corridas da Fórmula-1; hoje essa música é tocada no rádio para simbolizar a vitória. Theodoro e Sampaio, dupla atual de música rurbana, (rural + urbana) canta que se procura uma “mulher boa como a mulher do 21”; quem escuta a música já sabe que se trata de Ana Paula Arósio, que gravou o anúncio comercial da Embratel. Um som ou uma palavra criados e estereotipados pela televisão ou pelo cinema passam a ser usados pelo rádio. E também acontece o caminho inverso: o rádio inventa sons e palavras que passam a ser usados nas outras mídias.

 

            Espetacularização: na televisão, já não basta mostrar uma notícia ou uma missa. É necessário mostrar o espetáculo. O espetáculo de notícias policiais está no Linha Direta e no Carandiru Outras Histórias da Rede Globo. A missa deixou de ser missa de estúdio para ser a missa estrelada pelo padre Marcelo Rossi e folclorizada, ocasionalmente, pelos Arautos do Evangelho. O rádio também tende a apresentar notícias, músicas e reclames publicitários de uma forma espetacular para prender a atenção do ouvinte. O anúncio comercial no rádio explora o lado do espetacular quando faz ofertas-relâmpago. Espetacularização no rádio é quando há entradas ao vivo de repórteres ou quando se coloca o radiouvinte no ar. Aliás, o rádio foi perdendo um dos seus formatos tradicionais que era o radioteatro, no qual as peças radiofônicas eram apresentadas num palco e o radiouvinte podia acompanhar o espetáculo na sua casa. O rádio brasileiro produz verdadeiros espetáculos ao transmitir partidas de futebol.

 

            Estereotipatização (ou estereotipização): tipo significa um exemplar igual ao outro. Em comunicação, tipo é o personagem paradigmático da ficção ou da tradição oral, que é sempre o mesmo, que não varia. O estereótipo fala sempre as mesmas palavras e tem sempre o mesmo comportamento. No rádio e na televisão, há pessoas que incorporam um personagem típico e jamais se separam dele. Exemplos: o apresentador Chacrinha (Abelardo Barbosa), o cantor Tiririca (Francisco Everardo Oliveira Silva), o repórter Gil Gomes. Outros assumem um estereótipo ao longo de uma novela ou peça humorística seriada, como o Zeca Diabo (Ariclenes Venâncio Martins, o Lima Duarte), o Seu Creysson (Claudio Manoel) do Casseta & Planeta, o Nerso da Capitinga (Pedro Bismark). Os tipos criados pelo rádio foram se mudando para a televisão, como o Grande Otelo (Sebastião Bernarde de Souza Prata).

 

            Rizomatização: em botânica, rizoma é uma espécie de raiz aérea auto-reprodutiva. Na construção de sentidos, o pensamento pode ser linear ou rizomático. É linear quando é lógico,  cartesiano, conseqüente; portanto, com raiz, caule e ramos. É rizomático quando é holístico ou mosaical. Na filosofia, rizoma se refere a sistemas a-centrados e não hierárquicos que realizam conexões, ligamentos e junções sempre horizontalmente num mesmo plano ou não. Em comunicação, rizoma expressa desterritorializações e nomadismos. Diante de um público heterogêneo, veladamente, são respeitadas as preferências de moda, futebol, política, crença, arte, cultura; mas, intencionalmente, é veiculado este assunto e não aquele, ou aquele e não este. A mídia impressa e eletrônica é comparável a uma feira-livre, onde, em barracas vizinhas, se vendem produtos totalmente diferentes um do outro. Para causar estranhamento no radiouvinte, surgem sons e falas os mais esquisitos. O tempo dos programas é cada vez mais curto; em certos boletins noticiosos, a cada ato de respirar o locutor fala de outro assunto. A opinião pública é condicionada por modismos políticos, financeiros e culturais. A massa consumidora das informações se caracteriza pela volatilidade e vai fluindo como as ondas do mar, sobrando pouco espaço para a dedução e opinião pessoal. Felix Guattari, em Revolução Molecular: Pulsações Políticas do Desejo, descreve que a partir de Bologna, na Itália, desde 1977, com a Rádio Alice, veio a experiência das rádios livres, onde se rompeu o modelo da rádio estatal, para falar de “corpo, desejo, prazer e preguiça”, através de uma linguagem rizomática  (CUNHA, 2005, p. 209-222).

 

Remixagem: André Lemos, Professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, em agosto de 2005, redigiu o ensaio Cibercultura-Remix, que foi apresentado no  seminário Sentidos e Processos, dentro da mostra Cinético Digital, no Itaú Cultural, em São Paulo-SP. A mesa tinha como tema: Redes: criação e reconfiguração. Diz ele: “O princípio que rege a cibercultura é a remixagem, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir de tecnologias digitais. Esse processo de remixagem começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídias.” A cibercultura caracteriza-se por três leis fundamentais: a liberação do pólo da emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração de formatos midiáticos e práticas sociais. No século XVIII, com o desenvolvimento da imprensa, surgiu a noção de direitos autorais e de propriedade intelectual. Agora, com a re-mixagem, tudo volta a ser de todos: a arte, a cultura, a música..., a radionovela. Texto, som, ou imagem visual postados na internet tornam-se propriedade de todosA cibercultura caracteriza-se por três “leis” fundadoras: a liberação do pólo da emissão, o princípio de conexão em rede e a reconfiguração de formatos midiáticos e práticas sociais. O princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídias O princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídiasO princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídiasO princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídiasO princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídias O princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas mídias O princípio que rege a cibercultura é a “re-mixagem”, conjunto de práticas sociais e comunicacionais de combinações, colagens, cut-up de informação a partir das tecnologias digitais. Esse processo de “re-mixagem” começa com o pós-modernismo, ganha contornos planetários com a globalização e atinge seu apogeu com as novas míd (www.facom.ufba.br. Acesso aos 10 Nov. 2005).

 

            Tribalização: Os estudos culturais revelam que o mundo está entrando numa fase tribal, uma volta a valores que a modernidade julgava enterrados: razão e progresso, motores da organização das sociedades desde o século XVIII, vão dando lugar ao prazer e à emoção entre as novas gerações. É o que o sociólogo Michel Maffesoli chama de "tribalismo pós-moderno". As teses de Maffesoli, diretor do Centro de Estudos sobre o Quotidiano da Universidade de Sorbonne, em Paris, estão reunidas em seu último livro, Du Nomadisme (O Nomadismo), lançado pela editora Record, e se baseiam em estudos de padrões de comportamento no Rio, em Tóquio e em Paris. Numa cidade como Curitiba, com 36 radioemissoras em AM e FM, cada radiovinte vai se identificando com determinado estilo de programa e vão se formando as tribos de ouvintes. Aqui entra a noção de paradigma e sintagma: ligar o rádio ou ligar a televisão, e ouvir ou assistir ao quê? Todo radiouvinte ou telespectador escolhe um programa ou uma emissora, de acordo com suas preferências e interesses. E entra a noção de repertório, que significa o conjunto de conhecimentos por parte de cada indivíduo. O dial do rádio contém um conjunto de emissoras sintonizáveis, quer dizer, uma série de possibilidades de escolha, o que pode ser chamado de paradigma. A partir do momento em que o radiouvinte ou o telespectador liga o seu aparelho e sintoniza o programa predileto, ele faz o sintagma, direcionando a sua atenção para aquilo que vai ao encontro de seus interesses. E invisivelmente vão se formando as tribos dentro da sociedade. Cada formato vai encontrando o seu espaço, nos mais variados estilos: música, futebol, jornalismo, radionovela... Para exemplificar: um programa musical pode servir à tribo do rock, ou da música gauchesca, romântica, clássica etc. Essa característica se refere mais ao receptor da mensagem do que ao emissor.

 

 

 

Considerações

 

            Para cada um dos sentidos do corpo humano - visão, audição, olfato, paladar e tato - foram criadas extensões, possibilitando as sensações à distância. “Todos os meios são prolongamentos de alguma faculdade humana, psíquica ou física”, afirma Marshall McLuhan (MCLUHAN, 1969, p. 54). O rádio foi inventado como uma extensão do falar (captação da voz e transmissão pela onda eletromagnética) e do ouvir (captação da onda eletromagnética e reprodução da voz). A invenção do rádio desencadeou todo um novo processo de comunicação, veiculando uma mesma mensagem de um só do emissor para muitos receptores. Pierre Lévy (1999) em Meios Massivos fala do Sistema Estrela, pelo qual um emissor se dirige a muitos receptores. Já na internet, todos os emissores se dirigem a todos os receptores. Mas, todos os emissores podem se dirigir para um único receptor, um emissor pode se dirigir a um receptor e um emissor pode se dirigir a todos os receptores.

 

            O rádio é barato, instantâneo, portátil, popular, plasmador de cultura etc. No rádio, aos poucos, foram surgindo os gêneros radiofônicos que se materializaram nos formatos. Cada gênero radiofônico surgiu em vista de um determinado público-alvo ou em vista de um determinado assunto a ser veiculado. E cada formato se serve de uma linguagem.

 

            E vêm vindo aí mais novidades tecnológicas. Em 2005, o rádio digital, no sistema In Band On Channel (Iboc) já existe nos Estados Unidos, Canadá e México; e está começando a ser implantado no Brasil (ALBANO, 2005, p. 197). Outros padrões de rádio digital já usados no mundo são o europeu Digital Audio Broadcasting (DAB) para FM e Digital Radio Mondiale (DRM) para AM e o japonês Integrated Services Digital Broadcasting (ISDB). Por comparação, o atual rádio AM ganhará a qualidade do FM e o FM será totalmente digital. Há dois tipos de rádio na internet: a rádio online, que simplesmente repete o sinal de uma emissora AM ou FM; exemplo: www.milicia.org.br; e a netradio, que só transmite pela internet, sem ter correspondente no mundo não virtual; exemplo: www.iradio.com.br.

 

            No passado, a radionovela já esteve bem mais presente no rádio do que hoje. Talvez, porque no passado o radiouvinte tinha tempo de habitualmente sentar-se ao lado do rádio para ouvir os capítulos de um seriado. O tempo em que vivemos, caracterizado pela pressa, não permite a pessoa sentar-se para ouvir algo com toda a calma; cada um vive de fragmentos cerebrais, onde importa apenas a emoção instantânea. O mesmo fenômeno se passa com o produtor de programas radiofônicos: ele não tem tempo para produzir longas peças radiofônicas. Até o operador de áudio lhe foi subtraído. O DJ tem que fazer a locução, programar músicas, apertar botões, ler notícias da internet, vender, atender ao telefone...

 

            Radionovela é um estilo que permeia os gêneros e formatos radiofônicos - entretenimento, popular, humorístico, educativo, religioso, publicitário etc. Uma das características que diferencia a radionovela de outros formatos é a ficção e o uso de estereótipos já bem alojados no inconsciente coletivo. Há gêneros e formatos radiofônicos que são muito espontâneos e acontecem sem muito planejamento ou previsão. Já a radionovela é algo pensado, planejado e produzido após muita pesquisa.

 

            Essa descrição dos gêneros e formatos radiofônicos dá uma visão de conjunto do modo como são veiculadas as mensagens no rádio. A radionovela seriada possuía data e hora definidas, ao passo que o estilo radionovela moderno está disseminado em toda a programação, no decorrer das vinte e quatro horas.

 

2. RADIONOVELA: HISTÓRIA E CARACTERÍSTICAS

 

 

 

2.1 ORIGENS DA RADIONOVELA

 

            Na França, no século XIX, começou a surgir uma cultura popular de massa (ORTIZ, 1991, p. 12). Ao longo do século, as invenções se aprimoravam: prensa rotativa, ilustração fotográfica (1851), fundidora de caracteres (1860), linotipo (1866). Os jornais diários passaram a reservar o feuilleton (rodapé-da-página) para os faits divers (crimes, crônicas mundanas...) como forma de vender algumas assinaturas a mais. O romance-folhetim passou a ser publicado no rodapé-da-página, em pedaços (capítulos) diários. Em 1863, foi fundado o Le Petit Journal, o maior dos jornais populares, momento em que o gênero folhetinhesco tornou-se popular, consolidando o seu êxito entre as classes populares urbanas e, no final do século, até mesmo junto aos camponeses (ORTIZ, 1991, p. 15). Os mais cultos e ricos liam os jornais diários. Na Inglaterra, com a expansão das ferrovias, floresceu a Railway Literature, que eram romances populares de fácil leitura para servirem de passa-tempo nas viagens de trem. Do folhetim nasceria a radionovela.

 

A novela é uma derivação do romance-folhetim (ORTIZ, 1991, p. 11). O romance pode ser definido como uma descrição longa das ações e sentimentos de personagens fictícios, numa transposição da vida para um plano artístico. O folhetim é o fragmento de um romance publicado em um jornal dia após dia, suscitando o interesse do leitor; ou, um teatro móvel que vai buscar os espectadores em vez de esperá-los. Assim, novela vem a ser uma peça teatral ou romance, geralmente dividida em capítulos, escrita ou adaptada para apresentação seriada pelo rádio ou pela televisão.

 

            É nos Estados Unidos que pela primeira vez o rádio foi explorado como veículo de irradiação de histórias seriadas. No início, dramas de 15 minutos, apresentados diariamente em horário diurno. A partir de 1930, eram apresentadas as Soap-Operas (óperas de sabão; radionovelas) intituladas Painted Dreams e Today’s Children (ORTIZ, 1991, p. 18). Em 1934, 90% das famílias urbanas já possuíam um aparelho de rádio. Algumas empresas produziam e patrocinavam as radionovelas: Procter and Gamble, Colgate-Palmolive, Lever Brothers (ORTIZ, 1991, p. 19). As radionovelas passaram a ser mais longas; por exemplo The Guiding Light teve início em 1937, depois migrou para a televisão e só terminou em 1982 (ORTIZ, 1991, p. 19). A produção e a veiculação da radionovela estavam vinculadam ao comércio dos produtos de limpeza, higiene e alimentação, tendo por público-alvo as donas-de-casa, consumidoras em potencial.

 

            A soap-opera dos Estados Unidos influenciou Cuba e esta influenciou a América Latina. Desde 1930, em Cuba figuravam os folhetins e o radioteatro. O autor Felix Caignet produzia e irradiava em Santiago de Cuba, desde 1934, As Aventuras de Chan-li-Po, com um suspense folhetinesco impecável. A partir de 1935, surge a radionovela em Havana. O sucesso é tanto que Caignet, condicionado pelo patrocínio, pára de escrever aventuras e se dedica ao melodrama, produzindo Angeles de la Calle e El Derecho de Nacer, no estilo e técnica norte-americanos (ORTIZ, 1991, p. 22). A população de Cuba tinha acesso ao radioreceptor e às transmissões locais em castelhano. Colgate-Palmolive comprou a fábrica de sabão Cruzellas; Procter and Gamble comprou a Savatés; ambas patrocinaram novelas. Havana emerge assim como um pólo de produção que durante muitos anos exporta artistas, diretores de rádio, e sobretudo livretos de radionovela para toda a América Latina (ORTIZ, 1991, p. 23). Porém, o público-alvo feminino de Cuba é diferente do dos Estados Unidos; enquanto lá a mulher era uma dona-de-casa rica e tinha uma vida estável, em Cuba os títulos mais adequados foram: Divorciadas, Mujeres que Trabajam, Yo no quiero ser Mala, El Dolor de ser Madre. A partir de Cuba, os temas preferidos para a radionovela latino-americana passaram a ser: amor, casamento, divórcio, adultério, aborto e prostituição. O rádio comercial, condicionado pelas necessidades econômicas, foi gerando uma nova tradição literária. A fórmula latina, consagrada na ilha de Cuba, foi levada a toda a América Latina, com o patrocínio de Colgate-Palmolive e Gessy-Lever: Argentina, México, Venezuela, Bolívia... (ORTIZ, 1991, p. 25).

 

            Os mestres do radioteatro na América do Sul foram os argentinos. Isso se deu graças ao pioneirismo do rádio naquele país, com sua precoce organização comercial, criação de redes e rapidíssima popularização; em 1936, a Argentina contava com um milhão e meio de aparelhos de rádio, que veiculavam música, partidas de futebol e declamações epopéicas. O radioteatro argentino começou em 1931. Ali, a radionovela derivou do circo criollo, modalidade que reunia sob a mesma lona circense a acrobacia e a representação dramática. A figura do gaúcho surgiu da mistura de espanhóis, portugueses e indígenas; ficou famosa a corrente gauchesca, com os contadores de causos. Houve uma fusão entre a cultura campesina e a urbana. Aí, o melodrama encontrou ambiente favorável no rádio (MARTIN-BARBERO, 2003, p. 246-250).

 

            No Brasil, em outubro de 1838, o Jornal do Comércio do Rio de Janeiro passou a publicar o folhetim Capitão Paulo, traduzido do francês Alexandre Dumas. Nos anos seguintes, novas traduções de folhetins: Mistérios de Paris, Conde de Monte Cristo, Judeu Errante (ORTIZ, 1991, p. 15). Na falta de gráficas para imprimir livros, José de Alencar, por exemplo, publicou O Guarani na forma seriada. Porém, o folhetim se destinava à elite, pois a classe popular era analfabeta.

 

            Com traços latino-americanos cubanos, a radionovela chegou ao Brasil somente em 1941, ano em que foram lançadas A Predestinada pela Rádio São Paulo e Em Busca da Felicidade pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro. O dia 5 de junho de 1941 ficou na história do rádio brasileiro como a data da estréia da radionovela. Exatamente às dez e meia da manhã, Aurélio Andrade anunciou ao microfone da Rádio Nacional do Rio de Janeiro PRE-8: “Senhoras e Senhoritas, o famoso Creme Dental Colgate apresenta... o primeiro capítulo da empolgante novela de Leandro Blanco, em adaptação de Gilberto Martins... Em Busca da Felicidade” (FEDERICO, 1982, p. 74). Era a primeira autêntica história seriada radiofônica, que haveria de durar dois anos e que marcaria uma época, assinalando novos rumos, abrindo novos horizontes, expandindo negócios e oportunidades artísticas brasileiras e que perduram até hoje nas novelas televisionadas. Leandro Blanco era Cubano. Essa radionovela foi adaptada por Gilberto Martins e produzida pela Standard Propaganda, agência de publicidade que administrava a conta da Colgate-Palmolive no Brasil.

 

Eis os principais atores e responsáveis pelo sucesso de Em Busca da Felicidade: Rodolfo Mayer é Alfredo Medina, proeminente engenheiro que divide seu coração entre Anita, sua esposa, e Carlota, sua amante; Zezé Fonseca é Anita de Mantemar, esposa de Alfredo Medina, sofre o drama de ter de dividir com Carlota o amor de seu marido; Isis de Oliveira é Alice Medina, filha de Carlota com Alfredo Medina e que foi criada por Anita como filha adotiva; Floriano Faissal é o Dr. Mendonça, médico de grande fama e amigo do casal Alfredo-Anita, e que tudo faz para manter a harmonia entre os dois; Yara Sales é Carlota Morais, vítima de um destino cruel e caprichoso, mãe verdadeira de Alice e caso amoroso de Alfredo Medina; Lourdes Meyer é Constança, esposa de Fonseca e mãe de Carlos. Procura impedir o casamento do filho com Alice; Saint Clair Lopes é Benjamim Prates de Oliveira, o português que se apaixona por Carlota e com ela se casa, mas sofre as angústias de saber que a mulher ainda ama Alfredo; Brandão Filho é Mão Leve, o ladrão que rouba uma jóia de Carlota e na prisão acaba se tornando amigo de Benjamim Prates e é por ele protegido; Victor Costa foi o responsável pela execução do Rádio Teatro Colgate. Maria Helena era a locutora e narradora que relembrava os acontecimentos dos capítulos anteriores da novela e remarcava os argumentos que justificavam o prestígio dos produtos Colgate. Alguns artistas dessa radionovela, mais tarde, fizeram carreira na TV e no cinema, como Rodolfo Mayer e Brandão Filho (www.radioclaret.com.br/port/busca.htm. Acesso em: 11 fev. 2004).

 

Em 1945, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro transmitia diariamente quatorze novelas. Um dos grandes nomes da época era o escritor Raimundo Lopez, autor de O Homem Sem Passado, Nas Sombras da Noite, O Homem que Vendeu a Alma, Terra de Ninguém, Sublime Redenção, O Preço da Ambição e Um Vulto no Espelho (www.autoriaecia.com.br. Acesso: aos 11 Fev. 2004).

 

A radionovela, no Brasil, passou a conviver com o radioteatro. “Radioteatro é representação teatral transmitida pelo rádio” (RABAÇA e BARBOSA, 2002, p. 620). A margem que separa o radioteatro da radionovela é muito tênue. O radioteatro teve início na Rádio Clube de Pernambuco, em 1937, com a primeira história seriada Sinhazinha Moça, adaptação de Luiz Maranhão (o pai do radioteatro) do romance Senhora de Engenho, do historiador pernambucano Mário Sette. A peça teve duração de uma semana com capítulos diários. Essa obra é, geralmente, confundida com o romance de Bernardo Guimarães Sinhá Moça, adaptado há alguns anos pela Rede Globo de Televisão e emitido no horário das dezoito horas. Pouco tempo depois, o radialista Luiz Maranhão adaptou Mártir do Calvário, peça clássica do teatro português sobre a vida de Cristo, também difundida pela Rádio Clube de Pernambuco (www.jornalismo.ufsc.br/.../ historia. Acesso em 7 Mai 2005). Histórica e fisicamente, a radionovela nasceu nos estúdios das radioemissoras, em transmissões ao vivo, em forma de radioteatro. Depois migrou para a gravação de fitas magnéticas, discos de vinil e hoje CDs digitais.

 

Nos estúdios de rádio das décadas de 40-60 havia a figura do contra-regra, cuja função era produzir efeitos sonoros complementares, utilizando-se de objetos e ferramentas. No Brasil, na Rádio Nacional do Rio de Janeiro, Edmo do Valle notabilizou-se como um contra-regra muito talentoso, criando efeitos sonoros incríveis (www.mundodasnovelas.hpg.ig.com.br. Acesso em: 27 Jul. 2004).

 

O departamento de efeitos sonoros da Rádio Nacional começou a funcionar em 1941. Ele foi criado por Victor Costa, diretor artístico da emissora. O acervo do departamento contava com cerca de 4.720 discos contendo músicas e ruídos. Eles eram usados para simular os estados emocionais dos personagens das novelas. A sonoplastia da Rádio Nacional possuía uma qualidade técnica invejável. Ela conseguia reproduzir todos os detalhes do ambiente das novelas. Na casa de um personagem, por exemplo, era possível ouvir o barulho do portão, do cascalho do jardim e do tanque de lavar roupa. Os recursos sonoros serviam também para aumentar a concentração dos atores e imprimir maior realismo às cenas gravadas.

 

A simplicidade dos efeitos sonoros era a regra na sonoplastia da Rádio Nacional. O barulho da caixa de fósforo virava uma máquina de costura. A descarga da privada dava a impressão de um submarino com vazamento em pleno fundo do mar. Um comprimido se dissolvendo num copo d’água era uma pessoa sendo atacada por formigas. No comando da sonoplastia estava o operador de som. Ele tinha que recriar os cenários das tramas usando os recursos sonoros. Os equipamentos técnicos da Rádio Nacional eram os melhores do país, o que influenciava na qualidade dos programas veiculados. A emissora carioca possuía em seu departamento de sonoplastia campainhas de vários sons, torneiras com água corrente, aparelhos que simulavam tiros de revólver, entre outros.

 

O auge da utilização de efeitos sonoros nas novelas foi na década de 40. O som era o elemento responsável por manter o ouvinte atento durante a transmissão dos programas. Desse modo, os barulhos de portas abrindo e fechando, tiros de armas de fogo e gritos estridentes criavam o clima necessário para a concentração do público durante a irradiação de um capítulo. Celso Guimarães, ator de novelas da Rádio Nacional, trouxe de sua viagem aos Estados Unidos um filtro e uma câmara de eco. O filtro e a câmara de eco deram um novo passo na sonorização das novelas.

 

Na Rádio Clube Paranaense PRB-2 de Curitiba-PR foi surgindo um grupo de atores pertencentes à emissora. Eram todos amadores, porém cheios de boa vontade e de idealismo. Em geral intelectuais que gostavam de artes cênicas. Em 1935, esse grupo de atores estreou o radioteatro na PRB-2 com a peça A Ceia dos Cardeais (MENDONÇA, 1996, p. 21). Nessa emissora, o radioteatro teve tempos áureos. As outras radioemissoras da cidade também investiram no auditório de radioteatro; as radionovelas demoraram a chegar.

 

A radionovela deparou-se também com os seriados de aventura, episódios produzidos em estilo radionovela e transmitidos em datas e horários pré-estabelecidos, tal qual se dá com os seriados na televisão. Exemplos de Seriados de Aventura: “O Anjo”, um playboy justiceiro, produzido e apresentado por Álvaro Aguiar, com episódios de 10 minutos, veiculados de 1948 a 1967; “Jerônimo”, um herói do sertão, criado por Moysés Weltman; “Instantâneos Sonoros do Brasil”, de Henrique Fôreis Domingues, cognominado de “Almirante, a Maior Patente do Rádio” (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 152).

 

A Rádio Nacional de São Paulo PRG-9 deu abrigo a Oduvaldo Vianna (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 203), brasileiro, teatrólogo e jornalista, que, retornando de uma temporada como correspondente do jornal A Noite em Buenos Aires, trazia como grande novidade o enorme sucesso das novelas transmitidas pela Radio El Mundo. Entusiasmado, Oduvaldo escreveu algumas novelas e, inutilmente, procurou patrocinadores. Convidado a dirigir a Rádio São Paulo, aceitou o cargo e aproveitou para levar ao ar, em 1941, a sua radionovela: A Predestinada. A radionovela resgatava, de alguma forma, o imaginário popular reproduzindo, através dos contos e casos do cotidiano simples o sofrido dia-a-dia da brasileira típica da época: a dona-de-casa. Em se tratando do universo feminino, numa época em que predominava o comportamento submisso, fruto de uma cultura historicamente machista e autoritária, a radionovela, bem como sua irmã mais próxima, a fotonovela, priorizava temáticas próximas ao papel possível em uma sociedade em transição do rural para o urbano, do arcaico para o moderno. A Rádio São Paulo chegou a irradiar nove novelas diariamente. Oduvaldo Viana produziu cerca de 100 novelas; faleceu em 1972.

 

As novelas da Rádio Nacional e da Rádio São Paulo eram gravadas e distribuídas por todo o Brasil. Com o tempo, e principalmente, com o advento da televisão, a novela radiofônica foi minguando, até praticamente desaparecer em 1973 (http://br.geocities.com/memorialdatv/radio.htm. Acesso em: 13 Fev. 2002). Algumas pequenas rádios de interior tentaram produzir suas radionovelas, sem muito sucesso. A radionovela passou a trabalhar com as emoções e sentimentos do ouvinte. A soap-opera partiu dos Estados Unidos, fez um estágio em Cuba e chegou à América Latina e Europa. Algumas radionovelas se transformaram em clássicos, traduzidas para vários idiomas. Pelas suas características, a aceitação da radionovela foi extraordinária no Brasil, por ser um país onde se lê pouco em comparação com países europeus. Na cultura brasileira, na qual se criaram palavras peculiares como saudade, a radionovela encontrou um campo fértil para proliferar, devido à exploração das emoções. E o Brasil se tornou o berço mundial da telenovela, fazendo migrar a novela do rádio para a televisão.

 

 

 

2.2 AS CARACTERÍSTICAS DA RADIONOVELA

 

            O que ajudou a fixar a radionovela é a sua característica de seriado, isto é, a exibição em partes. O ouvinte do episódio de hoje criava a expectativa para ouvir o episódio de amanhã. A radionovela consiste em elaborar uma história fictícia, transformá-la em peça radiofônica, produzi-la com tecnologia acústica num tom dramático e apresentá-la numa radioemissora em capítulos seriados, para um determinado público-alvo. A partir de 1930 nos Estados Unidos e 1941 no Brasil, a radionovela trouxe encanto para multidões. Ao longo das décadas, o formato da radionovela evoluiu. No Paraguai, onde uma grande porcentagem da população é analfabeta, até hoje são produzidas radionovelas. Nas radioemissoras brasileiras da atualidade há muitos vestígios da radionovela tradicional. Analisando a programação de toda e qualquer rádio, é possível notar a influência da radionovela em outros gêneros radiofônicos.

 

            Na radionovela, a fantasia pertence mais ao radiouvinte do que ao produtor da mesma. Crianças, jovens, adultos ou anciãos, todos gostam de ouvir histórias. Ouvir uma história é transportar-se no tempo e no espaço para uma outra realidade, a realidade imaginária. A dramatização ativa algumas faculdades mentais: emoção, sentimento, expectativa, curiosidade... Um bom filme, um bom teatro, um bom episódio de novela ou radionovela, se bem dramatizados, geram emoções inesquecíveis (MCLEISH, 1999, p. 179-189).

 

            A magia do som pode ser entendida como acústica, a qualidade de um espaço arquitetônico sob o aspecto das condições de propagação do som; ou, a parte da física que estuda as oscilações e ondas ocorrentes em meios elásticos e cujas freqüências estão compreendidas entre 20 e 20.000 Hertz. Estas oscilações e ondas são percebidas pelo ouvido como ondas sonoras. Comandado pelo cérebro, ou seja, pela atenção, o ouvido humano ouve um som de cada vez, condicionadamente o som mais forte. A magia do som está em recriar um ambiente longínquo e dele extrair uma emoção agradável. Há diferença entre: a) ouvir: simplesmente perceber o som; b) escutar: atitude ativa; c) prestar atenção: intencionalidade; d) compreender: combinação entre escutar e prestar atenção para assimilar (FERRARETTO, 2001, p. 29).

 

            Ver, ouvir, tatear, cheirar e degustar são fenômenos sensíveis inerentes à pessoa humana. Toda comunicação, enquanto comum ação entre dois cérebros pensantes, parte dos cinco sentidos e a eles se refere. A partir das sensações, isto é, das experiências captadas pelos sentidos, o cérebro passa a trabalhar as imagens, produzindo as idéias. A ficção utilizada pelo radioteatro e pela radionovela desperta a imaginação do radiouvinte. Imaginar, aqui, significa somar novas imagens às imagens já memorizadas, ou seja, fantasiar, de acordo com o repertório pessoal. A grande vantagem do imaginar, precedido pelo ouvir, é a de que cada pessoa pode fantasiar à vontade; e cada pessoa terá as suas próprias fantasias, irrepetíveis de uma pessoa para outra.

 

            O sentido da audição ocupa um lugar importante nesse processo, até porque a pessoa, estando em vigília, ouve o tempo todo, ainda que involuntariamente; o olho pode ser fechado para não ver, mas não há como “fechar” o ouvido, pois mesmo de ouvidos tapados com as mãos a pessoa continua a escutar e assimilar (FERRARETTO, 2001, p. 25-29).

 

            Enquanto nos meios audiovisuais o telespectador confronta som e imagem, no rádio a única arma é o som e a fala. Isso, fatalmente, desperta a imaginação do ouvinte que logo cria na sua mente a visualização do dono da voz ou do que está sendo dito. Se na televisão a imagem já vem acompanhada com a voz ou mesmo sozinha, no rádio o ouvinte tem a liberdade de criar a imagem do assunto/pessoa/fato com base no que está sendo dito. De acordo com Robert MCLEISH, quem faz textos e comentários para o rádio escolhe as palavras de modo a criar as devidas imagens na mente do ouvinte e, assim fazendo, torna o assunto inteligível (MCLEISH, 1999, p. 16). Ao utilizar o estilo dramático, a radionovela faz a mente humana transportar-se no tempo e no espaço, remetendo de imagens auditivas para imagens visuais. De acordo com o provérbio chinês, “uma imagem (visual) vale por mil palavras”. Já, a imagem auditiva não é expressada nem com mil palavras, pois são necessárias muito mais palavras. É impossível descrever com o código verbal, oral ou escrito, os sons que o ouvido registra.

 

            A ficção pode ser definida como o ato ou efeito de fingir ou simular. A tragédia da Grécia antiga foi a primeira manifestação de um ato de ficção, onde o que era visto e ouvido não era um acontecimento de verdade, mas era simulado. Aqui no caso, é a criação ou invenção de coisas imaginárias. Na radionovela, a ficção tem que ser tão próxima da realidade que o radiouvinte não tenha dúvidas de sua verossimilhança. Grande parte da ficção tem base em fatos reais. Por isso, em filmes e outras obras fictícias, se usa esta expressão: “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”.

 

            A fantasia é aquilo que não corresponde à realidade, mas que é fruto da imaginação; é devaneio ou sonho. Por exemplo, a fantasia de carnaval é uma vestimenta que imita a veste de palhaços, de tipos populares exóticos e de figuras mitológicas; é uma máscara. A pessoa que se fantasia para o desfile de carnaval assume um personagem, abstraindo-se de sua personalidade real. Na radionovela, a fantasia pertence mais ao radiouvinte (MCLEISH, 1999, p. 19) do que ao produtor da mesma.

 

            Na radionovela, a “descrição de cenário” é feita pelos diálogos, dispensando tanto quanto possível o narrador; o narrador só entra quando absolutamente indispensável na narrativa. Os diálogos simulam ser fidedignos ao quê as pessoas falam no ônibus, no supermercado, ou na sala-de-estar de sua casa. Os personagens no rádio não só dizem o que estão fazendo, mas também revelam seus pensamentos íntimos pensando em voz alta, proferindo frases como quem escreve uma carta (MCLEISH, 1999, p. 182). Além da informação visual, do personagem e do enredo, o diálogo deve lembrar de vez em quando quem está falando com quem; a toda hora, precisa citar o nome dos interlocutores. O movimento e a distância têm de ser indicados pelos diálogos e pela técnica de produção da acústica. Sempre tem que se criar uma perspectiva na mente do ouvinte. A passagem de uma cena para outra é feita pelas falas, pelos sons da natureza e mesmo pelo silêncio. Os personagens têm de falar com naturalidade, mas meio alto e devagar.

 

            A novela vai descrevendo um enredo que tem continuidade no tempo e no espaço (MCLEISH, 1999, p. 181). De um capítulo para outro, o importante é criar uma expectativa no ouvinte, mas com todo o cuidado para que haja continuidade no desenrolar da história, sem repetir o final do capítulo anterior e sem antecipar desnecessariamente uma trama futura. Pode-se, no entanto, intencionalmente, recordar alguns episódios do capítulo anterior, através do flash back, ou antecipar algumas ‘cenas’ do capítulo seguinte, através do flash forward. No cinema e na novela de televisão, existe a figura da Continuity Girl ou continuísta, que vai anotando todos os detalhes que se passam com os personagens: tipo de roupa, penteado; se usa relógio, brinco; se é de manhã ou à tarde, se há sol... Normalmente, a mulher tem mais facilidade para observar e anotar esses detalhes, para que tudo pareça real e natural (XAVIER, 1981, p. 43). Na radionovela, a continuidade dos capítulos depende do eixo narrativo entre os vários núcleos narrativos. É necessário manter a emoção e a expectativa, saciar a curiosidade do ouvinte e deixar espaço para a dedução própria dele.

 

            Tal qual uma fotografia de um ente querido que a pessoa gosta de ver, rever e se emocionar de novo, o mesmo acontece com um bom episódio de radionovela. Ainda que o ouvinte conheça o final da história, ele gosta de ouvir de novo, tanto para entender e memorizar melhor, bem como para reviver a emoção. Vida e Paixão de Cristo, gravada por sugestão de Dom Hélder Câmara em 1959 pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro, foi reprisada centenas de vezes (TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 205). A Rede Globo de Televisão consagrou ao longo dos anos o Vale a Pena Ver de Novo, reprisando telenovelas.

 

Segundo Cristina Brandão (2005), autora de O Grande Teatro Tupi do Rio de Janeiro - O Teleteatro e suas Múltiplas Faces (Editora UFJF), podemos anotar a favor da dramatização radiofônica (seriados, radionovelas, paródias, adaptações de contos, crônicas policiais, humor etc.) as seguintes vantagens: 1) atrai vivamente o ouvinte, assegura maior variedade evitando a monotonia e a distração de quem ouve; 2) movimenta a imaginação do receptor, alcança bons níveis quando oferece “imagens auditivas”, sugere situações e cenas com efeitos de sonoplastia e música; 3) estimula situações concretas, quase palpáveis; a mensagem se humaniza e o público se sente mais tocado pelos problemas que afetam a maioria das pessoas e que são temas do radiodrama; 4) quanto mais humano for o texto, tanto maiores as possibilidades de atingir maior público; 5) o ouvinte identifica-se com as situações e os personagens, estabelecendo uma situação de empatia; 6) o público sente que, de certa forma, participa do tema abordado; 7) mobiliza a inteligência do ouvinte que vai vivenciando todo o processo e julgando as situações apresentadas (www.oclick.com.br/colunas/brandao72.html. Acesso aos 14 Jul. 2005).

 

 

 

2.3 A PALAVRA DECLAMADA NA RADIONOVELA

 

            Considera-se que começou existir diferença entre grupos humanóides e símios mais ou menos um milhão de anos atrás. Nessa fase, a comunicação entre os indivíduos acontecia através da mímica. A laringe - orifício entre a fossa nasal e a cavidade bucal - nos humanóides, só foi se desenvolvendo mais ou menos 400 mil anos atrás; os símios e os outros mamíferos não desenvolveram a laringe. Com o surgimento da laringe, foram se desenvolvendo as cordas vocais e já eram possíveis os grunhidos humanos (GIOVANNINI, 1984, p. 25). As primeiras palavras faladas estão situadas mais ou menos em 100 mil anos atrás. As primeiras linguagens faladas por grupos nômades, 50 mil anos atrás. As línguas primitivas já eram faladas desde o Paleolítico Superior, 10 mil anos atrás, no Egito, na Babilônia, na China; pelo ano 3000 AC, na Fenícia, depois na Grécia, e em Roma.

 

            As mais antigas inscrições rupestres datam de mais ou menos 30 mil anos atrás. Os primeiros registros da escrita estão situados na Suméria, pelo ano 5000 AC; era uma escrita cuneiforme, feita sobre tábuas de argila úmida que depois era secada. Pelo ano 3400 AC, já existia a escrita pictográfica em papiros (planta), no Egito (GIOVANNINI, 1984, p. 30). Pelo ano 1500 AC, os Fenícios inventaram o primeiro alfabeto, base do alfabeto hebraico, grego e latino (GIOVANNINI, 1984, p. 40). No ano 150 AC, na cidade Tróia, o rei Êumenes usava pergaminhos (pele de animais). No ano 105 AC, na China já havia uma escrita feita em uma espécie de papel; contudo, o papel chegou à Europa só pelo ano 1200. Com a invenção da escrita, a humanidade emergiu da pré-história para a história. No início, cada povo com a sua escrita; hoje com uma escrita ‘globalizada’.

 

            Dos grunhidos humanos, surgiram os fonemas e as palavras. Das palavras, as linguagens faladas e depois, escritas. Pelo ano 9000 AC, com a domesticação de animais e o início da agricultura, quando alguns grupos humanos deixaram de ser nômades, as linguagens faladas foram evoluindo (GIOVANNINI, 1984, p. 26). Aos poucos, as palavras foram sendo aglutinadas, formando expressões, frases e silogismos. Com as primeiras civilizações, o início da cultura.

 

            Uma palavra - significante - assume diferentes significados de acordo com a entonação da voz com a qual é pronunciada, ou de acordo com o contexto. Por exemplo, a palavra ‘livro’, pode carregar em si um encanto, uma decepção, um ímpeto, uma expectativa... O tom de voz refere-se à altura de um som, isto é, à qualidade sonora da voz humana. Um cântico nada mais é do que a modulação do tom de voz ao pronunciar palavras. O tom de voz está diretamente ligado às vivências emocionais e sentimentais de uma pessoa (SILVA, 1996, p. 89). Na radionovela, a entonação da voz é um recurso causador de emoções.

 

No jogral ou na poesia está a arte da palavra declamada. Declamar é recitar em voz alta, com os gestos e entonações apropriados. Na Idade Média, era chamado de jogral o trovador ou intérprete de poemas e canções de caráter épico, romântico ou dramático (GIOVANNINI, 1984, p. 66). No teatro, o poema dramático refere-se às peças e espetáculos nos quais os elementos psicológicos, dramáticos, visuais, musicais e coreográficos convergem para o simbólico, o fantástico, o lírico. Na radionovela, tanto o narrador como os atores vocais trabalham com a palavra declamada.

 

            Na liturgia cristã, do cantarolar dos salmos por parte dos monges, surgiu o canto gregoriano, uníssono. Do gregoriano, surgiu a polifonia (GIOVANNINI, 1984, p. 67). A música sacra ajuda a compor o clima de oração por estar ligada a sentimentos mais nobres. Óperas ou simples composições musicais estão ligadas à palavra cantada, expressando alegria, romantismo, drama, vigor..., enfim, sentimentos os mais variados. A música é a arte e ciência de combinar os sons de modo agradável ao ouvido. Música de cena é o conjunto das peças musicais destinadas a acompanhar determinados momentos de uma peça teatral. Na radionovela, a palavra ora pronunciada, ora declamada, é entremeada pela palavra cantada, mantendo o ritmo sentimental.

 

            Na edição informatizada da radionovela, há vários recursos eletrônicos para processar alterações na voz humana. Pode-se modular o grave e o agudo, o sibilar e o gutural, o aveludado e o estridente; pode-se criar efeitos na voz humana, tais como eco e reverberação, muito convenientes na produção radiofônica. Alterando a velocidade para maior ou menor do que a natural, também se obtém certos efeitos vocais interessantes. Outros efeitos sonoros, independentes da voz humana, também podem ser criados e consagrados com o uso, como o sibilo do “fiu-fiuuu-Brasil-zil-zil...” utilizado em transmissões de futebol. Tal qual o condicionado cão de Pavlov, o radiouvinte interage com os efeitos sonoros que lhe chegam aos tímpanos.

 

            Há várias maneiras de produzir arte com a palavra oral, que no rádio se transforma em som (significante) e conceito (significado). Na radionovela, a palavra declamada tem que ser precisa, bem escolhida e pronunciada na entonação adequada, pois ela é portadora de um significado que não pode ser traído. É a palavra, dentro do contexto requerido, que desencadeia as interações eletroquímicas complexas, que perpassam ouvido, nervo auditivo, cérebro, neurônios e o corpo todo.

 

 

 

2.4 RECURSOS SONOROS NA RADIONOVELA

 

            O rádio é basicamente emoção e o único recurso com o qual ele conta é o som. A grande vantagem do rádio sobre os meios impressos está no som da voz humana, portadora de entusiasmo, compaixão, raiva, dor ou riso. A voz é capaz de transmitir muito mais do que o discurso escrito (MCLEISH, 1999, p. 19). Ela tem inflexão e modulação, hesitação e pausa, uma variedade de ênfases e velocidade. A vitalidade do rádio depende da diversidade de vozes utilizadas e do grau de liberdade no uso de estilos de frases e expressões locais pitorescas. Despojado das imagens que na televisão acompanham a locução, o rádio é capaz de gerar grande sensibilidade e um alto grau de confiança. Na radionovela, o principal recurso sonoro é a voz humana; os outros sons, naturais ou mecânicos lhe são complementares.

 

            A onda hertziana está presente em toda parte, basta ser sintonizada por um rádio receptor (MCLEISH, 1999, p. 16). O som possui a magia de transformar um ambiente, isto é, o som recria um ambiente longínquo. Exemplos: um torcedor vibra ao ouvir a narração do gol, uma adolescente flutua mentalmente ao ouvir uma melodia romântica, o cidadão fica consternado ao ouvir a notícia do assassinato do prefeito. Alguns ambientes consagraram uma sonorização típica e se diz: música de igreja, música de quermesse, música de restaurante, música de carnaval, ou simplesmente, música ambiente. A atmosfera de um estúdio de rádio se transfere no espaço e no tempo para qualquer outro local, instantaneamente ou em qualquer outro tempo. A radionovela tem por princípio a recriação de um ambiente longínquo. Mas, esse longínquo é tanto mais real quanto mais próximo da realidade do ouvinte.

 

            A linguagem radionovela permite a quase fusão entre a ficção e a realidade. Aquela permite fingir; simular, fantasiar e criar coisas imaginárias; esta, existe efetivamente. A realidade existe-em-si, independentemente de outrem; o conteúdo da ficção não existe-em-si, mas necessita de um cérebro pensante. É clássica a citação de Orson Welles, que em 1938, colocou em pânico a cidade de Nova York ao transmitir um capítulo de radionovela que descrevia a invasão dos marcianos:

 

Os marcianos estão invadindo a Terra! Acabam de aterrissar nas ruas principais de Nova York e estão destruindo tudo o que encontram. A população está em pânico, não sabe onde se refugiar. Todos procuram desesperadamente um local para se abrigar, antes que sejam destruídos pelos invasores... (Apud TAVARES, Reynaldo, 1999, p. 209)

 

O episódio A Guerra dos Mundos entrou para a história do rádio. Essa notícia se espalhou como um furacão e enlouqueceu o país. Muita gente acreditou que a invasão era verdadeira, tão envolvente foi a narrativa de Welles ao apresentar o programa como um radiojornal; muitos saíram para as ruas, apavorados, sem saber para onde ir. Os próprios policiais tinham dúvidas a respeito da notícia. No final do capítulo, o suspiro: “Ainda não foi dessa vez! Era uma ficção!” Com estréia em 29 de junho de 2005, veio o filme War of the Worlds. Dirigido por Steven Spielberg, o filme traz uma adaptação contemporânea do clássico da ficção científica do romancista Herbert George Wells.

 

            O autor de texto para rádio preocupa-se com imagens criadas apenas pelo som. Se ele quiser realismo e emoção, deve criá-los com as palavras que usar e escolher locações que tenham um clima evocativo. Por exemplo, na narrativa da paixão de Jesus Cristo:

 

... a violência e a raiva da multidão que exigia a execução aumentava progressivamente, os gritos cada vez mais veementes. Então ouvimos os soldados romanos, o martelar dos pregos e a agonia da crucificação. O clamor humano dá lugar a uma sensação mais profunda e melancólica de tragédia e condenação. Cristo pronuncia suas últimas palavras, depois vem um estrondo de trovão até atingir um clímax de música dissonante que vai aos poucos diminuindo de intensidade, se acalmando, para no final chegar ao silêncio. Pausa. Em seguida, lentamente, ouve-se um pássaro cantando. Como teria sido errado estragar esse contraste utilizando um narrador. (MCLEISH, 1999, p. 181).

 

            Metáfora Sonora: do grego, metaphorá: tropo que consiste na transferência de uma palavra para um âmbito semântico que não é o do objeto que ela designa, e que se fundamenta numa relação de semelhança subentendida entre o sentido próprio e o figurado. Por metáfora, chama-se raposa a uma pessoa astuta, ou se designa a juventude por primavera da vida. A radionovela se serve de metáforas sonoras. Em paralelo, no cinema, a fumaça do charuto significa que o personagem está pensando, o bigode significa a autoridade, o polegar retrátil significa a evolução. Na radionovela, é utilizada a metáfora sonora, ou seja, a iconização sonora, muito útil principalmente para a mudança de cenário.

 

            Falhas (ruídos) podem ocorrer nas produções, e até todo um evento pode fracassar. O melhor profissional pode errar. A arte na produção da radionovela está na busca da perfeição auditiva. Recriar um ambiente longínquo, equilibrar-se no limiar entre a ficção e a realidade através de um imaginativo sonoro, é um feito glorioso para não muitos produtores. É como um mestre da escultura mirar um bloco de granito e dele extrair com o cinzel uma estátua ímpar. São muitos os detalhes que compõem o mosaico da radionovela e nenhum deles pode transformar-se em ruído. Cada recurso sonoro - natural, mecânico ou digital - tem que estar a serviço do argumento, aguçando a expectativa. A maior punição para um radionovelista seria a constatação de que o radiouvinte desligou o aparelho de rádio ou mudou de estação durante a exibição do episódio. Talento do artista e esmero profissional são inseparáveis.

 

            Toda mensagem na mídia está ligada à credibilidade por parte do público-alvo. O radiouvinte se indaga: será que é verdade ou será que é ficção? Na radionovela dos anos 1940, o radiouvinte ficava a se questionar se aquilo que ele ouvia era de verdade ou se era de mentira, tal qual foi o episódio da Invasão dos Marcianos de Orson Welles. A credibilidade na mensagem do episódio moderno de radionovela é tanto mais verossímil e crível quanto mais bem produzido.

 

            Os comunicadores têm que aprender uma lição com os cozinheiros: para agradar o cliente, o segredo está em saber para quem se está a cozinhar. Igualmente, o segredo está em saber para quem se está a comunicar, isto é, saber qual é o público-alvo. O melhor cozinheiro é aquele que conhece as preferências gastronômicas do seu cliente. O produtor de radionovela precisa diferenciar seu público-alvo, tanto pela idade, como pela condição social e pelo nível de reflexão. Se ele se colocar no lugar social do radiouvinte, ele será compreendido e o linguajar dele poderá ser elogiado. E aqui entra outro fator: a criatividade pessoal. O kitsch tem que ser superado com um toque talentoso. O artista, normalmente, faz o mesmo que os outros fazem, mas ele faz com um estilo que é notado.

 

 

 

2.5 EMOÇÕES E SENTIMENTOS NA RADIONOVELA

 

            Para Ricardo Medeiros (2003), autor de Radionovela e Publicidade: Memória da Recepção em Florianópolis durante os Anos 1960, “durante a escuta das radionovelas a maior parte das pessoas se emocionavam. Dito de outra forma, 70% das pessoas declararam ter chorado, enquanto acompanhavam algum drama radiofônico. As pessoas diziam ir às lágrimas porque as histórias eram: emocionantes (48%), tristes (17%), mexiam com os sentimentos do público (14%), porque havia sofrimento nas histórias seriadas (8,5%), por causa do poder de interpretação dos radioatores (3%), por causa da dramatização (3%), porque os ouvintes eram muito ‘chorões’ (3%), e por causa do herói e da heroína que choravam também.” (www.carosouvintes.com.br/index.php. Acesso em 11 nov. 2004).

 

            Na radionovela, como em toda a mídia, ocorre o processo de comunicação, no qual há um canal de comunicação (veículo rádio) entre uma pessoa (emissor) que produz um código sonoro (mensagem) e uma outra que ouve (receptor) e que decodifica o sinal; avalia-se o impacto (reação) do código sensorial (radionovela), considerando a interação (feedback) entre o emissor e o receptor, ainda que haja falhas de comunicação (ruídos) entre as duas mentes pensantes (WIENER, 1968. p. 87; FERRARETTO, 2001, p. 202-4).

 

            A mente humana se serve dos cinco sentidos: o que o olho vê, o nervo ótico comunica ao cérebro e fica armazenado na memória; o que o ouvido escuta, o nervo auditivo comunica ao cérebro e fica na memória; o que a língua degusta, o sentido do paladar comunica para o cérebro; o que o nariz cheira, as papilas sensitivas, comunicam para o cérebro; o que o sentido do tato capta pelo corpo todo, o sistema nervoso comunica ao cérebro. São milhões de sensações que diariamente os sentidos enviam ao cérebro. E é o cérebro que faz a decodificação e o armazenamento das sensações, traduzindo-as em emoções, sentimentos e raciocínios. A grande maioria das sensações ficará alojada no inconsciente ou ‘Id’; algumas sensações ficarão no subconsciente e apenas uma pequena percentagem ficará no consciente, que poderão ser recordadas voluntariamente.[2] Na radionovela se faz recordar as emoções já sentidas pelo ouvinte, causando lhe novas emoções.

 

            Os cinco sentidos estão ligados à pele humana. Um pedacinho de pele, sensível à luz, o cristalino, permite ver. Outro pedacinho de pele, sensível às vibrações físicas, o tímpano, permite ouvir. Outro pedacinho de pele, sensível aos gases, permite cheirar. Outro pedacinho, sensível aos líquidos, permite degustar. E quase toda a pele, mas especialmente as extremidades digitais, permite sentir as coisas. O ouvido é a pele-ferramenta do corpo humano para se ouvir a radionovela. Antes de pensar em contextos socioculturais, o indivíduo vê, ouve, cheira, tateia e degusta. Posto que na epistemologia filosófica e nas teorias da comunicação o conhecimento empírico às vezes fica relegado a segundo plano, a presente reflexão também considera a importância dos cinco sentidos, a saber: visão, audição, olfato, paladar e tato. Na radionovela, prevalece o ouvir (conhecimento sensorial) e o emocionar-se (conhecimento imaginativo).

 

O homem, “por meio dos sentidos, suspeita o mundo” (QUEIRÓS, 1992, pg. 57), simboliza, se expressa, diz para si mesmo e para o outro. Nossos sentidos não apenas percebem e enviam sinais nervosos para o cérebro, mas dão significado ao que nos cerca, criam, transformam, estabelecem relações, revelam, mostram e se comunicam. Com os olhos, olhamos a vida, imaginamos, acordamos sentimentos, criamos imagens; o olfato e o sabor despertam a memória, fazem o pensamento ir longe entre cheiros e sabores da história individual e coletiva; com os ouvidos, escutamos os sons e os silêncios dos nossos interlocutores e do mundo, nos encantamos e inventamos novos ritmos e melodias; a pele, envolvendo o corpo inteiro, estremece, se arrepia, toca e é tocada, dança, chora, ri, registra e se deixa registrar. Por meio dos sentidos suspeitamos o mundo, o recriamos e o damos à compreensão do outro. Por meio dos sentidos produzimos linguagem, indo além da sensação imediata.

 

            Em Curitiba-PR, existe o Instituto de Aconselhamento e Terapia do Sentido de Ser (Iates)[3], que se dedica ao estudo das emoções e sentimentos, em cursos de pós-graduação. O texto sobre as emoções e os sentimentos, a seguir, foi baseado em apostila de palestras proferidas pelo psicólogo Vicente Gomes de Melo Filho, CRP-08/07841-8, membro do Iates, em um curso ministrado para estudantes. Diz o psicólogo:

 

Uma vida sem alegria nem amor, sem tristeza nem raiva, parece inacreditavelmente insípida! Essencialmente, as emoções não são de fato sentimentos, mas um conjunto de mecanismos de sobrevivência enraizados no corpo, que evoluíram no sentido de nos afastar do perigo e nos impulsionar na direção de coisas que podem trazer benefícios. As emoções humanas são parecidas com as cores: parece haver um punhado de cores primárias e uma maior gama de preparações mais complexas criadas pela mistura das cores primárias. Vários pesquisadores afirmam ter identificado as emoções primárias, geralmente como aversão, medo, raiva e amor parental. As emoções nos guiam quando enfrentamos provações e tarefas demasiado importantes para serem deixadas apenas ao intelecto - o perigo, a dor de uma perda, a persistência numa meta apesar das frustrações, a ligação com um companheiro, a formação de uma família. Todas as emoções são, em essência, impulsos para agir, planos instantâneos para lidar com a vida que a evolução nos infundiu. A própria raiz da palavra Emoção é movere, “mover” em latim, mais o prefixo “e-”, para denotar “afastar-se”, indicando que a tendência a agir está implícita em toda emoção.

 

            Embora as emoções se processem no cérebro, o organismo somatiza as emoções na garganta. Uma pessoa angustiada cria o nó na garganta, refletindo a sensação de constrição causada por um abalo emocional; inclusive, uma angústia prolongada causa enfermidades na própria garganta e em todo o aparelho digestivo. Já uma pessoa alegre solta a voz, gargalha, canta e grita. Basta comparar um aluno reprovado no exame com um torcedor fanático que vê seu time sagrar-se campeão. Na radionovela, autor e ator exploram o campo emocional, alterando o humor do ouvinte. Uma tosse ou um pigarro pode ser a reação do ouvinte à narração radiofônica.

 

            É fácil flagrar pessoas que começam a bater pés ou mãos ou balançar o corpo ao ritmo de uma música. Num show ao vivo, a multidão dança, pula e grita estimulada pelo som. As emoções são também, por vezes, vistas como primitivas e infantis e não como civilizadas e adultas, todavia, contradizendo a tudo isto, e no fim ainda mais eficazmente, as emoções são consideradas como a própria garantia da autenticidade, o nosso melhor guia. Pensar e sentir são ações indissociáveis. As emoções são contagiantes; se num recinto, uma pessoa ri, certamente as outras rirão também; se chora, as outras chorarão também. A Radionovela tem todas as ferramentas para transferir bons sentimentos de um cérebro para outro.

 

            O binômio ficção/emoção deu suporte à radionovela, porque havia um elemento novo: sentir aquilo que não era vivido por ninguém, mas que poderia se aplicar a qualquer pessoa. Acompanhar diariamente os capítulos da radionovela era enclausurar-se imaginariamente numa cela, onde a expectativa ficava por conta do suspense para o dia seguinte. A fantasia se misturava à realidade. Diz-se que a arte imita a vida, mas às vezes, a vida imita a arte. Através da arte se pode expressar muitas verdades que não podem ser expressas diretamente, sob pena de represálias. Assim já vinha acontecendo com o teatro, com a música, com o cinema, com as caricaturas... Com muito tino, a radionovela podia falar dos costumes, da política, da sociedade, da religião, da família, da educação e do assunto que fosse, sem represálias. A trama da vida passou a ser copiada da caixinha sonora para a realidade.

 

A radionovela utiliza vozes humanas e sons naturais e mecânicos para reproduzir um ambiente sonoro distante. A ficção toma por base fatos reais para ser envolvente. E quem é que poderia ficar sem reagir ao ouvir um telefone que toca ou ao ouvir o alerta de uma sirene? Aliando o sentido da audição ao sentido da visão, foi a radionovela que originou a Telenovela, isto é, a novela da televisão.

 

 

 

3. RADIONOVELA E O OUVINTE: DA REDAÇÃO DO ROTEIRO À GRAVAÇÃO NO ESTÚDIO

 

            A redação de um roteiro de radionovela passa por várias fases, executadas não necessariamente pela mesma pessoa. Roteiro é o texto estruturado em seqüências e com indicações técnicas destinadas a orientar a direção e a produção da obra (MCLEISH, 1999, p. 185).

 

            Na Grécia antiga, se dizia que as musas do Olimpo inspiravam os artistas. O talento de um artista é inerente à sua personalidade, mas a forma de expressar a arte pode ser desenvolvida e aperfeiçoada. Na pré-produção de uma radionovela, o autor esboça uma história que contém uma mensagem, isto é, um conteúdo. Aos poucos, esse conteúdo vai recebendo a forma, através de um canal, uma linguagem, um veículo. Na fase da pré-produção, o autor apenas redige ou desenha uma idéia, um drama, um episódio... (MCLEISH, 1999, p. 179-180), sem pensar em comercialização de um CD, público-alvo, viabilidade técnica, gravação, script, elenco. Um autor não precisa ser necessariamente um produtor de radionovela. A radionovela trata de conflitos e soluções, relacionamentos e sentimentos, extraídos da realidade. O objetivo do texto dramático é ter as idéias originais recriadas na mente do ouvinte. O enredo tem de ser verossímil; os personagens, também. O final deve apresentar alguma lógica, por mais incomum e original que seja, para que o ouvinte não se sinta enganado e nem fique decepcionado (MCLEISH, 1999, p. 179). Na arte milenar de contar histórias, se diz o suficiente para que o ouvinte siga um enredo e que ele sempre se indague o que acontecerá depois. A radionovela trabalha com vários núcleos da trama, criando expectativas, reações e estimulando o ouvinte a participar da história.

 

            Argumento é raciocínio, indício ou prova pelo qual se tira uma conseqüência ou dedução. Leitmotiv é a repetição de um determinado tema no decurso de uma obra literária, a qual envolve uma significação especial; é tema ou idéia sobre a qual se insiste com freqüência (MCLEISH, 1999, p. 189). Às vezes, se usa apenas o vocábulo francês Le Mot, a palavra, o resumo. Um filme vale pelo seu argumento. A radionovela prima pela simplicidade da produção, pois uma produção sofisticada pode perder de vista o argumento. O personagem não pode ser emocionalmente muito complexo para ser entendido. O radiouvinte entra em contato com a idéia do autor, se identifica com o personagem e interage em sua criatividade mental. Com um bom argumento na mente, o autor de radionovela parte para as fases seguintes: a história, o cenário e os personagens.

 

            Em cinema, rádio e televisão, roteiro significa estruturar em seqüências e com indicações técnicas destinadas a orientar a direção e a produção da obra. A maneira mais simples de contar uma história é: 1) Explicar uma situação; 2) Introduzir um “conflito”; 3) Desenvolver a ação; 4) Resolver o conflito (MCLEISH, 1999, p. 180). A essência de uma boa história é querer descobrir o que acontece no final. Para favorecer a criatividade mental do ouvinte, não precisa dar o desfecho de todos os aspectos da trama. No rádio, as cenas podem ser curtas e a passagem de uma situação para outra é uma simples questão de manter o ouvinte informado sobre onde ele está a cada momento.

 

            Existem inúmeras técnicas para manter a atenção do ouvinte; entre elas: 1) Mudança de ritmo: ação rápida/lenta, locações barulhentas/silenciosas, cenas longas/curtas; 2) Mudança de humor: clima tenso/tranqüilo, colérico/feliz, trágico/moderado; 3) mudança de lugar: local fechado/ao ar livre, cheio de gente/ermo, luxuoso/pobre. Robert MCLEISH (p. 181) ilustra a evolução de um enredo através deste desenho:

 

 

 

Figura 1

 

            A evolução de uma trama pode passar pelas seguintes fases, conforme a figura acima: 1-2: Introdução, cenário, contexto, caracterização; 3-5: Conflito, eventos resultantes de personagens da situação, falso clímax; 6-8: ação emergente, complicação, suspense; 9: Tensão máxima, crise, clímax; 10-11: declínio da ação, resolução dos subenredos; 12-13: Desfecho, reviravolta (MCLEISH, 1999, p. 181).

 

            Exemplo de trecho de um roteiro de uma campanha de doação de sangue:

 

 

 

Diálogos

Técn.

Sonoplastia

Técn.

Sirene de Bombeiros

3”

Vinheta

 

- Apenas 2% da população costuma doar sangue regularmente, Nena. Os bancos de sangue vivem fazendo campanhas para arranjar doadores.

Doutor Fernando

Voz masc. jovial

mic.1

- É, doutor, me falaram que doar sangue é perigoso porque enfraquece... e até pode pegar Aids.

Nena

Voz de menina

mic. 2

- Não, minha filha, você está enganada! Nem homem e nem mulher enfraquecem ao doar sangue. E ninguém pega Aids doando sangue porque a agulha é esterilizada.

Doutor

Voz firme

Mic. 1

- Eu tenho apenas 19 anos, eu posso fazer doação?

Nena

Angustiada

Mic. 2

- Claro que pode, Nena. Até vai ser muito bom para a sua saúde!

Doutor

bem afável

Mic. 1

- Tá bem, vou falar com minha mãe... (música vai subindo)

Nena

Música suave; CD Mystica, faixa 09

3” e BG

 

 

 

            A produção de uma novela começa com a redação do Roteiro ou script. Script é o texto dos diálogos e das indicações cênicas de um filme ou de peça teatral, novela de rádio ou televisão; consiste numa seqüência de instruções escritas, numa linguagem própria, para o emprego em encenações ou gravações. O script de radionovela traz os diálogos a serem pronunciados pelos personagens e as indicações técnicas de toda a produção de áudio. Quando já há um argumento e um roteiro definidos, é o momento de fazer o script, redigindo o máximo de detalhes para a produção da peça radiofônica. O script faz a ponte entre a mente pensante de um autor e o elenco (http://noticias.uol.com.br/time/ult640u314.jhtm. Acesso em 12 jul. 2004). Quanto à técnica de redigir o script, basta repartir a lauda em duas ou quatro colunas paralelas. Normalmente, na coluna esquerda se redigem os diálogos; e nas outras colunas se escrevem as indicações técnicas para os personagens e os respectivos diálogos, tipo de microfone, qual música, efeitos sonoros... As laudas devem ser numeradas e impressas apenas num lado a fim de não gerar ruídos no manuseio, num tamanho de letra bem legível.

 

            Na radionovela, para se obter os resultados desejados, é necessário observar o manual de redação da linguagem radiofônica. O objetivo da mensagem radiofônica é fazer com que o radiouvinte participe emocionalmente da mensagem. O redator de script de radionovela precisa saber que ele escreve um texto para ser ouvido, não para ser lido; ele tem que se colocar no lugar de um ouvinte, não de um leitor. As orientações de redação, a seguir, se referem à estrutura gramatical, lingüística e estilística, tendo em vista o “texto para os ouvidos”:

 

- decida o que você vai dizer;

 

- faça uma lista das suas idéias numa ordem lógica;

 

- torne a abertura interessante e informativa;

 

- escreva para o ouvinte individualmente - visualize-o enquanto escreve;

 

- fale em voz alta o que você quer dizer, depois tome nota;

 

- use “sinalizadores” para explicar a estrutura da sua fala;

 

- crie imagens, conte histórias e apele para todos os sentidos;

 

- use a linguagem coloquial comum;

 

- escreva sentenças ou frases curtas;

 

- utilize a pontuação de modo a tornar a locução clara para o ouvinte;

 

- digite o roteiro em espaço duplo e com margens amplas e parágrafos nítidos;

 

- quando estiver em dúvida, mantenha a simplicidade;

 

- forme frases em ordem direta - sujeito, verbo, complemento;

 

- use frases curtas e sintéticas, vá direto ao assunto;

 

- evite palavras difíceis e compridas buscando sinônimos;

 

- evite os adjetivos;

 

- use o verbo no presente do indicativo, causando atualidade;

 

- não use pronomes possessivos e demonstrativos;

 

- só use figuras de linguagem que estejam incorporadas ao uso comum;

 

- evite termos técnicos e científicos e palavras estrangeiras;

 

- evite rimas, sibilância e repetição de sons parecidos ou iguais;

 

- evite cacófatos e repetição de palavras;

 

- não inicie a frase com números;

 

- no script, use parênteses apenas para sinalizar a pronúncia correta;

 

- leia em voz alta o que você escreveu para identificar a boa sonoridade.

 

(MCLEISH, 1999, p. 65).

 

 

 

            A cena pode se passar tanto numa cachoeira como num castelo ou num prédio moderno, cena que, aliás, sempre será realizada nos estúdios. O ator principal pode ser muito elogiado por ter ido ao grande baile com uma casaca elegantíssima, sem estar vestindo essa roupa, pois ninguém está vendo nada, só ouvindo os elogios que lhe são dirigidos. Por outro lado, a radionovela tem suas limitações; não existe cenário para localizar os personagens; toda e qualquer movimentação tem que ser descrita. Isso justifica o fato dos personagens não se deslocarem muito, evitando confusão para os ouvintes. Uma comédia de costumes em geral começa com um cenário que depois se torna animado com os personagens. A descrição da trama vem mais tarde, conduzida pelas circunstâncias, usualmente uma série de apuros em que os personagens estão envolvidos. É importante fazer uma boa pesquisa de época e lugar para manter a credibilidade perante aqueles ouvintes que conhecem a situação específica da história. Na radionovela, o cenário poderá variar consideravelmente. Mudanças de lugar são bastante eficientes quando acompanhadas de alterações de estado emocional (MCLEISH, 1999, p. 182).

 

            Em cinema, teatro e televisão, a caracterização é a arte e técnica que, por meio de recursos materiais (maquilagem, máscaras, indumentária etc.), conferem ao ator características físicas que completarão o personagem que ele vai representar. Bart GAVIGAN, consultor britânico na área de caracterização, resume a questão a três perguntas: 1) Quem é o herói? 2) O que ele quer? 3) Por que eu deveria me importar com ele? (Apud MCLEISH, 1999, p. 182). Os personagens principais têm que estabelecer uma ligação com o ouvinte; precisam ser verossímeis, com os quais o ouvinte possa se identificar e cuja causa possa abraçar. Cada personagem poderá transparecer características como: imperfeito, corajoso, argumentador, ambicioso, medroso, solidário, preguiçoso e outros. A caracterização é um ingrediente fundamental; por isso, de cada personagem é necessário conhecer: 1) Idade, sexo, onde vive, como fala; 2) estatura, peso, cor e aparência geral; 3) valores sociais, senso de status, crenças; 4) o carro que dirige, as roupas que usa, quanto dinheiro tem; 5) as ligações de família, amigos e inimigos; 6) as piadas que conta, se é confiável ou perspicaz; 6) humor, preferências e aversões (MCLEISH, 1999, p. 182). Os autores e produtores devem fornecer o máximo de informações para o ator para que ele tenha condições de desempenhar bem seu papel, constituindo um personagem convincente. A telenovela apresenta muitos estereótipos, onde os personagens repetem gestos amaneirados, posições estranhas, falas originais (exemplo: “É brinquedo, não!” - Dona Jura, em O Clone, 2001). A radionovela também criou seus estereótipos.

 

            “Cuidado, ele está armado!” Falas como essa, desnecessárias em filmes ou no teatro, são essenciais no rádio como um meio de transmitir uma informação. Como ninguém vê as expressões dos atores, todas as emoções de um personagem precisam ser transmitidas através de sua fala, isto é, com palavras certas e fortes, que consigam transmitir o que a história pretende (MCLEISH, 1999, p. 182-184). A radionovela é tanto mais bem produzida quanto mais dispensa a presença do narrador. O uso dos nomes dos personagens é indispensável nas falas, especialmente no começo da cena. Por vezes, um breve silêncio também é importante:

 

O uso do silêncio, quando contextualizado dentro de uma estrutura sintática, tem a possibilidade de adquirir significados que, por sua vez, podem realçar a importância da continuidade sonora, ou podem atuar como um signo, ou seja, representar um mistério, uma dúvida, a morte, a expectativa. Mas, deve estar contextualizado para que não seja interpretado como uma falha, um ruído, e, neste caso específico, dentro do processo de comunicação compreendido por Emissor - Canal/Código - Receptor, um ruído é tomado como uma interferência indesejável no canal (DA SILVA, 1999, p. 73-74).

 

            O ator é aquele que representa em peças teatrais, filmes e outros espetáculos; o comediante, o intérprete, o artista, o astro. Ele deixa de ser uma pessoa real para se transformar num personagem. Formar um elenco para uma peça radiofônica quase sempre acaba sendo um meio-termo entre quem serve para o papel e quem está disponível. Sempre foi explorada a figura do ator voluntário, não-profissional, servindo de quebra-galho. No Zorra Total da Rede Globo há um quadro que satiriza essa situação com o Porteiro Severino (Paulo Silvino); o porteiro é chamado pelo diretor da filmagem para se colocar temporariamente no lugar de um objeto do cenário que ainda não está pronto. O produtor sempre deseja ter os melhores atores, mas isso nem sempre é possível dentro dos limites orçamentários. Pode ocorrer também, que dois excelentes atores tenham a voz muito parecida e um dos dois tenha que ser substituído, de acordo com o que a peça exige. No passado, alguns atores talentosos abandonaram a profissão porque a remuneração era muito pequena, uma vez que o dono da radioemissora embolsava a quase totalidade do patrocínio (MCLEISH, 1999, p. 65).

 

            O narrador é aquele que narra ou conta uma história. Em cinema e televisão, é o locutor que lê a narração. No teatro, é o personagem que exerce a função de intermediário ou mediador entre a ação da peça e o público, informando este das peripécias e intrigas. Na radionovela, a voz do narrador aparece quando é absolutamente indispensável para passar uma informação ao ouvinte, especialmente nas mudanças de cena. O narrador é particularmente útil para explicar uma grande quantidade de informações básicas que poderiam ser tediosas na forma de diálogo, ou quando se fazem grandes reduções, por exemplo, na adaptação de um livro para o formato de novela radiofônica. Nessas circunstâncias, o narrador pode ser usado para ajudar a preservar o estilo e o sabor do original, especialmente nas partes em que há muita explicação e descrição, mas pouca ação (MCLEISH, 1999, p. 184).

 

            Na radionovela, se usam as metáforas sonoras (vide 1.2 - iconização). No palco de um teatro, a platéia vê o cenário; na radionovela, o cenário imaginário é construído pelos efeitos sonoros. Há sons que servem como som-de-fundo (back ground) e há sons que têm que aparecer realçados. Os sons têm que ser muito bem situados para evitar anacronismos e incongruências; por exemplo, é inadmissível colocar o som de maria-fumaça num trem elétrico. Como formar um arquivo de sons? Sons da natureza, basta coletá-los com um aparelho gravador. Sons mecânicos, também é fácil gravá-los no seu próprio ambiente físico. Sons digitais podem ser produzidos pelos aparelhos eletrônicos: teclados, guitarras, sintetizadores como o midi, softwares específicos do computador. Nas ferramentas de busca da internet, já é possível localizar arquivos contendo centenas de sons, digitando <efeitos sonoros>. Sons imitadores podem ser produzidos em estúdio, utilizando objetos, por exemplo: tropel de cavalos - casca de coco; fogo - papel celofane; abrindo champanhe - fazer um ‘pop’ com o dedo na boca. Alguns sons devem ser produzidos ao vivo pelos próprios atores vocais para facilitar a sincronia com os demais sons (MCLEISH, 1999, p. 188). Observando sons de pássaros, é de notar que os canoros campesinos de décadas atrás possuíam trinados diferentes dos pássaros urbanos de hoje; um sabiá laranjeira - do meu quintal - imita perfeitamente um alarme de automóvel que disparou, com sons onomatopéicos mais ou menos assim: vidja-vidja-vidja; qüi-qüi-qüi...

 

            O fundo musical pode enriquecer bastante uma peça radiofônica. Porém, se a escolha não for adequada, torna-se apenas uma distração irritante. A música, de acordo com o seu ritmo, vai criando o clima, isto é, o cenário dos acontecimentos. De preferência, a música deve ser composta especialmente para a peça. Ela deve ser usada na abertura, em algumas passagens de cena e no encerramento da radionovela, funcionando como um ‘leitmotiv’ (MCLEISH, 1999, p. 189). Além dessa função, pode haver outras músicas no episódio para criar ou realçar o clima da cena. A música pode ser orquestrada, funcionando como fundo musical, o back ground; nesse caso, se a música não for especialmente composta, procurar a música mais desconhecida possível. A música também pode ser cantada, quando as palavras, tal qual numa ópera, vão narrando a cena. Um personagem pode cantarolar algum refrão para reforçar seu estereótipo. O editor musical também precisa estar atento aos direitos autorais da música; às vezes, é necessário ter licença por escrito, mediante paga, para utilizar uma música.

 

            Quando toda a pré-produção foi executada - script, estúdio, elenco - vem a hora do ensaio. O ensaio compreende o treinamento das falas e marcações dos atores para adestrá-los e aprimorá-los no desenvolvimento dos seus papéis, objetivando a unidade, o aprimoramento e a perfeita execução da montagem. No ensaio, o produtor passa aos atores vocais os detalhes da entonação da voz e da dicção e o ritmo da narrativa (MCLEISH, 1999, p. 189). A qualidade final da gravação depende dos ensaios; alguns erros podem ser corrigidos depois da gravação, mas no geral, os erros têm que ser corrigidos e prevenidos antes da gravação. Antes da gravação oficial, pode-se fazer uma gravação preliminar, que, ouvida, dá oportunidade para os próprios atores se auto-corrigirem; e essa gravação pode ser ouvida e criticada por um grupo de futuros radiouvintes.        

 

            Plano de Gravação: é função do produtor determinar a data e o local da gravação, tendo reservado o estúdio e avisado a todo o elenco. O operador de áudio prepara e testa os equipamentos. Se forem necessários alguns objetos para a produção de efeitos sonoros, tudo deve ser levado ao estúdio. Antes do início da gravação, é muito importante um exercício de descontração, aquecimento da voz e ambientação. Os atores vocais cuidam de sua voz evitando bebidas geladas na véspera; na hora da gravação, um chá quente e pastilhas ajudam a aquecer a cordas vocais. E quando se acende o led vermelho, a gravação começa para valer.

 

            De acordo com a legislação brasileira, toda vez que um ator vocal é contratado para prestar serviços, é necessário firmar um “Contrato de Cessão Temporária de Direitos para Utilização de Imagem e Voz para Fins de Veiculação na Mídia Eletrônica” entre o ator e o veículo de comunicação, mediante remuneração. O contrato vale por seis anos; após esse prazo, não se pode veicular mais a gravação.

 

            Para veicular a gravação, é necessário recolher o referente aos Direitos Autorais. O Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (ECAD) é uma sociedade civil privada, instituída pela Lei Federal nº 5.988/73 e mantida pelas associações de titulares de obras musicais que o integram, nos moldes do art. 99, da atual Lei nº 9.610/98. É um escritório organizado pelas associações de autores para arrecadar e distribuir direitos autorais decorrentes da utilização pública de obras musicais e/ou lítero-musicais e de fonogramas (http://www.ecad.com.br. Acesso em: 27 Nov. 2003). Direito autoral é o conjunto de normas jurídicas que visa regular as relações oriundas da criação e da utilização de obras artísticas, literárias ou científicas, tais como textos, livros, pinturas, esculturas, músicas, ilustrações, projetos de arquitetura, gravuras, fotografias etc. De todo o montante arrecadado pelo ECAD, 18,75% são retidos para a cobertura de suas despesas operacionais, sendo o restante repassado às associações que o integram e às quais são filiados os titulares. Para registrar uma radionovela, é necessário se dirigir ao EDA - Escritório de Direito Autoral (http://www.bn.br/eda, Acesso em: 27 nov. 2003), órgão da Fundação Biblioteca Nacional, responsável pelo registro de obras intelectuais. Porém, com o advento da internet, os direitos autorais passaram a ser um assunto controverso, porque a obra está dissociada do autor.

 

            Produto finalizado, é hora de colocá-lo no mercado. Normalmente, a radionovela é produzida para um destinatário pré-definido, portanto com um patrocinador pré-existente. Na prática, mensagens educacionais e religiosas buscam patrocinadores. A Lei nº, 8.313/91, conhecida como Lei Roaunet permite o financiamento de produção cultural. É a Lei que permite que os projetos aprovados pela Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) recebam patrocínios e doações de empresas e pessoas, que poderão abater, ainda que parcialmente, os benefícios concedidos do Imposto de Renda devido. Podem candidatar-se aos benefícios da Lei pessoas físicas, empresas e instituições com ou sem fins lucrativos, de natureza cultural, e entidades públicas da Administração indireta, tais como Fundações, Autarquias e Institutos, desde que dotados de personalidade jurídica própria e, também, de natureza cultural. Os projetos devem destinar-se a desenvolver as formas de expressão, os modos de criar e fazer, os processos de preservação e proteção do patrimônio cultural brasileiro, e os estudos e métodos de interpretação da realidade cultural, bem como contribuir para propiciar meios que permitam o conhecimento dos bens e valores artísticos e culturais, compreendendo, os seguintes segmentos: 1) teatro, dança, circo, ópera, mímica e congêneres; 2) produção cinematográfica, videográfica, fotográfica, discográfica e congêneres; 3) literatura, inclusive obras de referência; 4) música; 5) artes plásticas, artes gráficas, gravuras, cartazes, filatelia e outras congêneres; 6) folclore e artesanato; 7) patrimônio cultural, inclusive histórico, arquitetônico, arqueológico, bibliotecas, museus, arquivos e demais acervos; 8) humanidades; e, 9) rádio e televisão, educativas e culturais, de caráter não-comercial.

 

            O processo de uma comunicação eficaz gera um feed back, ou seja, a reação com a realimentação (PORCHAT, 1986, p. 176). No binômio audiência/faturamento, a radioemissora tende a veicular produções de boa qualidade. Na radionovela, é necessário somar o talento de vários profissionais: autor, roteirista, ator vocal, sonoplasta, produtor, contra-regra, técnico eletrônico, programador, marketeiro e outros mais. Depois da minuciosa produção e da veiculação da radionovela, o autor aguarda a repercussão da sua obra. Script, cenário, atores e mercado de consumo têm que proporcionar o feed back para massagear o ego do autor e estimulá-lo a criar novos episódios, com experiência cada vez maior. O talento é decisivo. Robert MCLEISH apresenta oito critérios para avaliar um programa radiofônico: pertinência, criatividade, precisão, eminência, holística, avanço técnico, enriquecimento pessoal e ligação pessoal (MCLEISH, 1999, p. 217-223).

 

 

 

3.1 ESTÚDIO DE GRAVAÇÃO

 

            A gravação mais antiga de sons foi feita por Valdemar Poulsen (1869-1942, Dinamarca) numa espécie de arame ou fita de cobre. Depois, com Thomas Edison (1847-1931), surgiu o fonógrafo. Vieram outros inventos: a vitrola, com discos de pedra calcária, a 78 RPM; o magnetofone, gravador com fita de papel revestida com aço em pó; gravador (AEG Telefunken) com Fita de Rolo (BASF), feita de poliéster revestido de óxido de ferro, na Alemanha; toca-discos, com discos de vinil, a 33 RPM; gravador de rolo doméstico; cassete de áudio (Philips, Holanda); DAT (Digital Audio Tape, Japão); HD (Hard Disc); CD (Compact Disc); MD (Mini Disc)... A tendência da atualidade é a de disponibilizar todas as gravações no formato MP3 em sites da internet. Exemplo: www.pr2online.com.br.

 

            A radionovela, necessariamente, se apóia na eletrônica, pois o áudio dela tem que ser gravado e reproduzido. Eis a descrição de um estúdio de rádio, com seus equipamentos eletrônicos indispensáveis, que precisam ser manejados por operadores expertos no assunto.

 

            O estúdio para transmissão ou gravação de áudio consiste numa sala que possua isolamento e tratamento acústico, onde estarão os microfones; os aparelhos de mixagem do áudio que o operador técnico vai manipular podem ficar na mesma sala ou em outra, separada por vidro transparente. Para evitar microfonia, os locutores podem usar fones de ouvido (MCLEISH, 1999, p. 25).

 

            Num estúdio, todo o controle do áudio passa pela mesa de mixagem, o mixer, na qual há vários canais, com entradas (input) e saídas (output) de áudio. Em cada canal é acoplado um microfone ou um aparelho gerador de som; cada canal possui controle individual de volume, tonalidade e equalização. Um estúdio contém três tipos de circuitos: circuitos de programa, circuitos de monitoração e circuitos de controle (MCLEISH, 1999, p. 26). O operador de áudio é quem controla todas as fontes de áudio - CD Player, computador, MD, telefone, linha externa, microfones - e faz a mixagem final, com diversos tipos de efeitos.

 

            O estúdio de gravação tem que ter o isolamento acústico para evitar sons indesejáveis e precisa ter o tratamento acústico para evitar o eco; isso se consegue com paredes duplas e revestimento de espuma apropriada (MCLEISH, 1999, p. 186). Aqui se entende o estúdio como o local próprio para a realização de filmagens cinematográficas, gravações para rádio e televisão, e gravações sonoras em geral. O estúdio moderno possui pouco equipamento: um mixador de áudio, ao qual se acoplam os microfones, o CD Player, o MD Player, o telefone. O mixador, por sua vez, fica plugado ao computador que grava o sinal no HD. Podem ser acoplados serialmente vários HDs de 80 ou mais gigabites. O estúdio precisa ter a devida climatização do ambiente. Normalmente, o estúdio se divide em duas salas, separadas por uma parede de dois vidros, sendo que o operador de áudio fica numa sala e os locutores na outra sala. De nada adiantaria ter um ótimo enredo e um ótimo script, se a peça radiofônica for gravada sem qualidade técnica; a qualidade depende da edição, do fading e do controle dos volumes (MCLEISH, 1999, p. 25). Ainda que um produtor não domine toda a técnica de operar os comandos do áudio, ele precisa ter as noções fundamentais.

 

            Em 2005, toda a produção de áudio para o rádio tende a ser feita diretamente no computador. O hardware requerido, ou equivalente, é: Processador Pentium com velocidade mínima de 1 Gigahertz; Hard Disc de no mínimo 80 Gigabites; memória RAM mínima de 512 Megabites; Placa de áudio - Sound Blaster da Creative, Delta, Digi-001, Interface do Pro-Tools Digidesign.  

 

            Fazer a edição de um áudio já gravado significa: rearranjar o material numa seqüência lógica, retirar aquilo que é indesejável, compactar o material e produzir novos arranjos de locução, música, som e silêncio. Na edição digital, os comandos mais utilizados são: selecionar o áudio e deletar; ou, recortar e colar em outro ponto. Uma vantagem da edição por computador é deixar a gravação original intacta; pode-se fazer várias tentativas da mesma edição até se obter o resultado desejado, sem destruir a gravação original (MCLEISH, 1999, p. 36).

 

            O microfone converte a energia acústica em energia elétrica. Um produtor de áudio precisa conhecer as vantagens e desvantagens dos vários tipos de microfone: direcional, multidirecional, cardióide, hipercadióide, mono, estéreo, estéreo binaural... fixo, sem fio, de lapela, de orelha... Da qualidade do microfone, dependerá em grande parte, a qualidade da gravação. O produtor precisa saber escolher o microfone adequado e sua viabilidade técnica (MCLEISH, 1999, p. 38-41).

 

            Feitas as gravações de um episódio de radionovela, parte-se para a edição final (MCLEISH, 1999, p. 35-37). De posse do script, é necessário eliminar as gravações não aproveitáveis e colocar a seqüência na ordem correta, sabendo que a gravação nem sempre obedeceu a ordem seqüencial. Aí se faz o ajuste da mixagem do som, dos volumes e dos timbres (MCLEISH, 1999, p. 189-190). Na edição final, se produz a seqüencialidade dos diálogos, dos efeitos sonoros e do fundo musical; sons, que ora são intercalados, ora são sobrepostos. Na edição digital, tudo se faz ao clique do mouse.

 

            As tecnologias de gravação de sons estão se aprimorando cada vez mais. A evolução passou por gravação-em-arame, fita-de-rolo, cassete, dat, cartucheira, disco de vinil... e chegou-se ao MD e CD. A tendência de hoje é gravar tudo no Hard Disc(HD) do computador no formato MP3 ou Wav; para o transporte e a reprodução, aí se grava o Compact Disc (CD). O CD possui várias vantagens: reprodução high fidelity em stereo, fácil localização das faixas, precisão para localizar um determinado ponto da gravação com o fast forward e fast backward, leitura visual do tempo decorrido e tempo restante, tempo longo de gravação de até 90 minutos, fácil manuseio e armazenagem, tecnologia barata.

 

            Uma nova ferramenta para produzir músicas, trilhas sonoras e efeitos sonoros é o Musical Instrument Digital Interface (Midi). O midi permite interligar um teclado musical (com a função midi) ao computador. Um software específico permite compor sons com o clique do mouse, que serão executados no teclado - midi in; e também se pode executar uma música manualmente no teclado, sendo que o computador a capta - midi out. O midi tornou-se uma grande ferramenta para os produtores musicais, pois ele dispensa toda uma orquestra e sintetiza com perfeição os mais variados sons (CASANOVA, 2004, p. 27).

 

            Na utilização dos aparelhos eletrônicos, nada acontece sem a mão-de-obra humana. Há aquele que inventa o aparelho, aquele que o utiliza e aquele que faz a manutenção. Para o operador de aparelhos eletrônicos, o importante é conhecer todos os comandos e as potencialidades do aparelho. O operador de áudio de um estúdio é chamado de ‘Técnico’ (MCLEISH, 1999, p. 38). Assim, as produções podem receber a qualidade requerida pelo International Standardization Organization (ISO) 9000.

 

            Num estúdio de gravação de radionovela a sincronia entre homens e a parafernália eletrônica tem que ter precisão milimétrica. Aos profissionais da eletrônica cabe construir o estúdio: microfones, mesa-de-som, computadores, gravadores, isolamento acústico... Cabe ao técnico de áudio operar as máquinas maravilhosas, colhendo o melhor áudio e incluindo-o na edição final. Os recursos sonoros são ilimitados, mas todos eles têm que estar alinhados em vista dos objetivos do produto final. A glória de um produtor é receber inesperadamente um prêmio oferecido por uma entidade que tem autoridade para avaliar uma produção artística; só o elogio da genitora não basta.

 

 

 

3.2 PÚBLICO-ALVO DA RADIONOVELA

 

            No processo da comunicação, é fundamental saber: quem fala, o quê fala, para quem fala, como fala (FERRARETO, 2001, p. 203). Quando o emissor conhece o receptor, ele poderá escolher a linguagem mais adequada em vista do público-alvo. A radionovela, pelo seu conteúdo e linguagem, normalmente tem um público-alvo bem definido, tanto pela faixa etária, como pela condição social, geográfica, cultural ou ideológica.

 

            Cantigas de ninar e histórias infantis sempre foram utilizadas para entreter crianças. Por isso, surgiram livros infantis, músicas infantis, filmes infantis... e radionovelas infantis. Para a criança, a fantasia é um campo muito fértil; até os cinco anos de idade, ela nunca mente, apenas fantasia. Ela gosta de ouvir a mesma história narrada repetidas vezes (RAPPAPORT, 1981, p. 81).

 

            O adolescente e o jovem vivem a fase do herói, isto é, eles se identificam com o herói virtual. Tal qual o público infantil, o público juvenil sempre foi o público-alvo de muita produção midiática e artística. O jovem vive o sonho, o encanto, o romantismo, o plano do futuro; por isso, a ficção lhe satisfaz o ego (RAPPAPORT, 1981, p. 100).

 

            A maior parte das radionovelas foi produzida tendo como público-alvo a dona-de-casa, isto é, uma mulher adulta que se ocupava com os afazeres domésticos. Para ocupar a mente durante as tarefas rotineiras, a radionovela lhe era uma fiel companheira. Aos poucos, a família toda passou a sentar-se na sala, ao redor do rádio. A radionovela passou a ser produzida para a família.

 

            À medida que o tempo foi passando, as pessoas envelheciam. Quando se fala de radionovela, a cena que vem à mente é uma vovó fazendo tricô e ouvindo o episódio predileto no rádio. Os idosos têm mais tempo para ouvir rádio. Alguns idosos, com dificuldade na leitura, encontravam na radionovela um passatempo ideal. Enquanto isso, os jovens estavam assistindo aos programas da televisão nascente.

 

            Os deficientes visuais são exemplo de um segmento social para os quais se produz mídias específicas. Para o cego, a televisão funciona como o rádio, já que ele não enxerga. Por exemplo, a Milícia da Imaculada, mantenedora da Rede Milícia Sat de Rádio, de São Bernado do Campo (SP), grava e distribuiu mensalmente para os cegos cassetes contendo as principais reportagens e matérias da revista O Mílite. Há sites especializados em disponibilizar obras literárias em áudio; por exemplo, www.bibvirt.futuro.usp.br/index.php.

 

            Com a finalidade de expandir fronteiras, as religiões sempre se preocuparam em angariar fiéis com as mais diversas mídias. Por exemplo, a Associação Palavra Viva, sediada em São Paulo (SP), já produziu mais de 600 episódios com mensagens cristãs no formato radionovela; também, gravou em estilo de dramatização os Evangelhos e o livro Atos dos Apóstolos da Bíblia Sagrada. A voz de locutores renomados, como de Cid Moreira e Agnaldo Rayol, já foi utilizada para gravar os textos da Bíblia. O Rosário Meditado, isto é, aquele em que a cada Ave-Maria se recita um versículo bíblico ou um pensamento religioso, o que tem um sabor de radioteatro, é muito ouvido na Rede Milícia Sat, em cuja programação o Terço é recitado quatro vezes ao dia.

 

            A produção da radionovela normalmente está inculturada na sua região geográfica, incorporando o inconsciente coletivo local. Um mesmo tema tem de ser abordado de forma diferente, por exemplo, entre os gaúchos urbanos do Rio Grande do Sul e os sertanejos do agreste da Paraíba. A produção incorpora a cultura local, bem como o sotaque característico da região, ainda que se possa trabalhar com estereótipos universais.

 

            A linguagem radionovela não precisa necessariamente ter capítulos longos e nem edição diária; um episódio fictício pode ser narrado em poucos segundos. A publicidade sempre se serviu de curtas ficções para divulgar produtos, serviços, causas e idéias.

 

 

 

4. RADIONOVELA: O PRESENTE E O FUTURO

 

            Com o avanço da tecnologia eletrônica, tendo surgido a edição digital do áudio (por meio do computador) e a gravação de CDs, ficou mais fácil produzir áudio no estilo radionovela. São histórias de poucos minutos, contendo começo, meio e fim. São campanhas de saúde, mensagens religiosas, histórias infantis, episódios humorísticos, reclames publicitários, ou simplesmente, histórias. A radionovela está presente, em 2005,  em diversos países, entre eles:

 

            - Inglaterra: A radionovela há mais tempo no ar chama-se Vida Rural. Produzida pela BBC de Londres, começou a ser transmitida em 2 de janeiro de 1951 para informar fazendeiros sobre novas técnicas de agricultura. Atualmente são abordados temas ligados à vida no campo, como o cultivo de alimentos geneticamente modificados e a doença da vaca louca. “Estou feliz em poder desejar feliz meio século à novela; não é só por causa do cargo, porque sou um ouvinte assíduo”, diz Nick Brown, ministro britânico da Agricultura www1.uol.com.br/folha/pensata/magaly_20010106.htm. Acesso em 15 Nov. 2004).

 

            - Afeganistão: Três manhãs por semana o Afeganistão pára por 15 minutos. É a hora em que sete em cada dez afegãos pegam seu rádio movido a gerador eletroquímico, conhecido como pilha, e ficam atentos para acompanhar mais um episódio de Naway Kor, Naway Jwand (Casa Nova, Vida Nova), a novela radiofônica da estatal britânica BBC, o maior sucesso de audiência de todos os tempos no país. A cada episódio são 37 milhões de ouvintes, incluindo algumas cidades no Paquistão, que tentam esquecer a fome e a guerra e mergulham na vida de Bar Killi, um vilarejo rural fictício onde se passa a trama. O programa tem tanta força que conseguiu escapar da censura que o Regime Talibã impôs ao país desde 1996, quando baniu a televisão, música, teatro e dança. Não foi, no entanto, uma concessão amistosa. É que não havia outra solução para o regime linha-dura, já que até seus rudes soldados levam rádios de válvula eletrônica junto às velhas e empoeiradas kalishnikovs para acompanhar a novela na solidão das montanhas desérticas. “Conhecer Casa Nova, Vida Nova é entender melhor a alma afegã”, disse Shirazuddin Siddiqi, um ex-professor de drama da Universidade de Cabul que dirige o programa nos estúdios digitais da BBC em Peshawar, no Paquistão (www.estado.estadao.com.br/editorias/2001/11/13/int033.html. Acesso em 14 nov. 2003).

 

            - Brasil: A Rádio América, AM 1410 KHZ, de São Paulo possui um departamento de produção de radionovelas. De segunda a sexta-feira, às 21:30 h, dentro do programa Boa Noite Família, apresentado por Hernando Gutiérrez, Luis Miguel Duarte e Pereira Junior, vai ao ar um episódio denominado Milagres da Fé. O ouvinte envia a sua história para a emissora; a roteirista Alcina de Toledo faz a adaptação da história e produz o script. Com direção de Rita de Souza, a história é interpretada por apresentadores profissionais, como Arlete Montenegro, Daniel Carlos, Pereira Júnior, Eduardo Cury, Gessy Fonseca, Lilian Loy, Basílio Magno, Raul Gonzalez. A sonoplastia é de Luiz Veronezi (www.ritadesouza.hpg.ig.com.br. Acesso em 13 jun. 2005). Cada episódio é de 20 minutos, sendo que é veiculado nas 67 emissoras da Rede Paulus Sat (www.radioamericasp.com.br. Acesso em 23 dez 2004). Milagres da Fé está no ar desde fevereiro de 2002.

 

            Nas radioemissoras de propriedade das igrejas evangélicas, especialmente nos programas que simulam depoimentos sobre milagres e graças recebidas, há adaptações de depoimentos no estilo radionovela. É o caso das emissoras radiofônicas da Igreja Universal do Reino de Deus, espalhadas pelo Brasil e no exterior. Em São Paulo (SP), o bispo Gregório de Morais, da Rádio Musical FM, tem utilizado o estilo radionovela em suas pregações eletrônicas.

 

Em Curitiba-PR, é interessante analisar o áudio do Auto-de-Natal que é apresentado pela Fundação Cultural de Curitiba, através do Grupo Lantéri, na escadaria da Universidade Federal do Paraná no mês de dezembro; ou, o áudio da Vida, Paixão e Morte de Jesus Cristo apresentada na Pedreira Paulo Leminski na sexta-feira da Semana Santa (www.grupolanteri.com.br). Igualmente a Associação Cultural Êxodus apresenta anualmente a Vida, Morte e Ressurreição do Senhor no Bairro da Barreirinha (www.associacaoexodus.hpg.ig.com.br). Nesses espetáculos apresentados para o público, todo o áudio é pré-gravado. Na hora da apresentação, os atores dublam as falas. O áudio desses espetáculos fala por si; não é necessário ver os atores para entender a história.

 

Na produção do desenho animado para a televisão, normalmente, se produz primeiramente o áudio; as imagens, hoje produzidas por animação gráfica, vão sendo encaixadas depois. É mais fácil sincronizar as imagens com o som do que sincronizar o som com as imagens. Alguns áudios de desenho animado são tão bem produzidos que dispensam a imagem para se acompanhar o enredo do episódio.

 

Eduardo Meditsch (2001) afirma que quando o rádio vai para a internet não é mais rádio; é radion, ou seja, radio online:

 

[a internet] ... permite a transmissão de som, ao vivo, ou gravado, a baixíssimo custo, de qualquer parte para qualquer parte do mundo, sendo um instrumento de grande utilidade para a produção de radiojornalismo. E, sobretudo, permite que qualquer um, com pouco investimento e independente de autorização estatal, monte sua própria emissora na web, por enquanto ainda restrita a ela e necessitando um computador na outra ponta para ouvi-la, mas que promete muito em breve se liberar dessas restrições: a internet sem fio está em pleno desenvolvimento e dentro de mais algum tempo as web stations poderão ser ouvidas nos automóveis ou em receptores portáteis de bolso, como os celulares. (MEDITSCH, Eduardo; Revista INTERCOM n. 12, São Paulo-SP, 2001, p. 227)

 

Alguns DJs (disk jokeys ou dji-djeis) que utilizavam os discos de vinil para produzir sons metálicos aderiram à edição digital; eles utilizam os sons consagrados pela radionovela. Certamente será criado um novo estilo de episódios de radionovela, agora gravados em CD ou disponibilizados na internet. Certamente surgirão novos profissionais aficcionados nesta arte. Anuncia-se a vinda de radios in door veiculados pela internet e que poderão utilizar a radionovela. E os cyber-ouvintes novamente ficarão encantados como os ouvintes de radionovela de antigamente.

 

O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do Governo Federal, ocasionalmente, produz campanhas em radionovela. Em 2004, o programa A Gente Sabe, A Gente Faz, dividido em 64 capítulos, com duração de 7 minutos cada, foi veiculado em emissoras de 64 municípios de Minas Gerais; veicularam o programa de segunda a sexta-feira, duas vezes ao dia: no início da manhã, com reprise à tarde. No site do Sebrae há links para os programas de rádio (www.biblioteca.sebrae.com.br; Acesso em 4 Jun. 2005).

 

Atualmente, é comum receber um e-mail que contém um anexo de áudio no estilo radionovela. São histórias, como O Porteiro Zé, em que o porteiro passa recados truncados para os condôminos. Em alguns sites há histórias e trechos de radionovela para serem ouvidos na hora em que o internauta quiser, como, por exemplo:

 

- http://www.porteiroze.com/filme1.htm: histórias do Porteiro Zé;

 

- http://www.redevivafavela.com.br/toca: campanha do desarmamento Viva Rio;

 

- http://www.radioclaret.com.br/port/busca.htm: arquivo de radionovelas da década de 1940;

 

- http://tharbad.kaotik.org/fun/mov/iosII.swf: episódios humorísticos;

 

- http://www.radioriodejaneiro.am.br/anx/nossoLar/cap01.wma (21 episódios);

 

- http://www.radiobras.gov.br/nacionalrj/radionovelas/vidacristo/PAIXAO%20DE%20CRISTO-01.mp3;

 

- www.maikol.com.br: Rádio, Rádio12, Radionovela1 (14:33 minutos).

 

No 14º Festival de Teatro de Curitiba, em março de 2005, no Teatro Cultura, o grupo de teatro Z. Y. Veríssimo 199.9 MHZ apresentou a peça Uma Nova Rádio está no Ar, retratando o estúdio de rádio da década de 1950, com ênfase para o radioteatro, com texto baseado em Luís Fernando Veríssimo.

 

De 11 a 29 de maio de 2005, no Teatro da Caixa Econômica Federal, em Curitiba, foi apresentada a peça teatral O Último Capítulo, escrita por Flávio de Souza, autor do programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum e roteirista do programa Sai de Baixo. A ação se passa na sala-estúdio da “Rádio Taperebá - a que é porque sempre foi”, no início da década de 1960. De uma forma bem humorada, os seis personagens trazem problemas e sentimentos amorosos bem como a decadência das radionovelas com o aparecimento da televisão. Tudo isso em meio a muitos problemas técnicos na transmissão de notícias e das radionovelas. Um pouco da história do país também é contada e os fatos históricos ocorridos no Brasil daquela época, como a renúncia do Presidente Jânio Quadros. A comédia tece uma crítica sutil à propagação da televisão e à alienação provocada por ela, ao mesmo tempo em que mostra a difícil vida dos personagens, como seres humanos e como artistas. A montagem é assinada por George Sada. No elenco estavam os atores Edson Bueno, Eberson Galiotto, Laura Hadad, Lea Albuquerque, Liv Izar e Sidy Correa. De 1 a 3 de julho de 2005, a peça foi reprisada no Teatro José Maria Santos (Rua Treze de maio, 655 - Curitiba) (www.tudoparana.globo.com/cultura. Acesso em 12 Mai. 2005).

 

Em São Paulo, em 21 estabelecimentos do Centro Unificado Educacional (CEU), mantidos pela Prefeitura Municipal, existe o projeto de adaptações radiofônicas. CEU é uma construção onde funcionam creche, educação infantil, ensino fundamental, atividades esportivas e culturais com teatro, salas de atelier e dança, quadra poliesportiva e biblioteca. O projeto Adaptações Radiofônicas está sendo ampliado para escolas do CEU Vila Curuçá e para as unidades educacionais da região. Na sua primeira fase, o projeto tem como base a gravação de mini-novelas em áudio, criadas a partir de adaptação de contos ou com textos criados por equipes do CEU. Até o momento, o projeto já realizou a gravação de três mini-novelas: as adaptações dos contos O Tesouro, de Eça de Queirós, e O Cavalo Imaginário, baseado em texto do escritor gaúcho Moacyr Scliar, além de uma produção inédita intitulada Quase Perdidos, feita em parceria com educadores do Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), do Itaim Paulista (www.ceuvilacuruca.jex.com.br. www.prefeitura.sp.gov.br. Acesso aos 23 Mai. 2005).

 

Ocasionalmente, há oficinas de radionovela; e sempre aparecem estudantes e estudiosos do assunto. Por exemplo, em junho de 2003, em Curitiba, na Escola Superior de Estudos Empresariais e Informática (ESEEI), houve uma Oficina Prática que ensinava a produzir radionovela; das vinte vagas ofertadas para a oficina, todas foram preenchidas.

 

Radiodramaturgia foi tema de um evento na ECA/USP: o Grupo de Estudos e Desenvolvimento em Áudio (Gáudio) promoveu de 22 a 24 de outubro de 2003 o seminário “Encantos e Encontros da Radiodramaturgia”. O objetivo do evento foi discutir a dramaturgia radiofônica, focando o Radioteatro, a Radionovela e o Radioconto, promovendo o resgate de momentos importantes e apontando tendências para o futuro da Radiodramaturgia. O seminário contou com a participação de radioatores e radioatrizes que trabalharam em produções do gênero no rádio brasileiro (www2.usp.br. Acesso em: 24 nov. 2004).

 

A Rádio Vaticano já anunciou que vai realizar uma novela radiofônica sobre a vida do Papa Bento XVI. Segundo a revista alemã Funkkorrespondenz, a iniciativa, que será apresentada inicialmente em italiano, busca familiarizar os fiéis com a rica biografia do Papa alemão. Para a série, a produtora Laura De Luza recrutou 15 locutores que representarão outros tantos personagens. No papel principal estará o jornalista alemão Bernhard Mueller-Huelsebusch, que vive na Itália há 33 anos e procede da região alemã da Baviera, a mesma do pontífice. Segundo De Luza, Mueller-Huelsebusch “fala italiano com voz clara e com um ligeiro acento do sul da Alemanha”. Os primeiros 13 capítulos abrangem a vida do atual Papa até 1977, quando ainda vivia na Alemanha. Entre os personagens da série se encontram os pais do Papa, um de seus professores e o cardeal Joseph Frings de Colônia, que fez do hoje Pontífice seu teólogo de cabeceira durante o Concílio Vaticano II (www.rededecaridade.com.br. Acesso em: 25 Ago. 2005).

 

No Brasil, o referendo de 23 de Outubro de 2005, instituído pela Lei n.º 10.826, art. 35, § 1º e autorizado pelo Decreto Legislativo n.º 780, de 07 de julho de 2005, para a manifestação do eleitorado sobre a manutenção ou rejeição da proibição da comercialização de armas de fogo e munição em todo o território nacional, serviu-se da propaganda eleitoral no rádio e na televisão, de 1º a 20 de outubro. No rádio, havia apelos pelo SIM e pelo NÃO do eleitor, com nítidas conotações radionovelescas. Os correligionários do NÃO à proibição do comércio das armas, no início veicularam o brado do NÃO gritado por poucas pessoas; depois, o brado era de várias pessoas; depois, de muitas pessoas; e finalmente, o brado era de uma multidão. E eram veiculados os códigos sonoros dos algarismos da urna eletrônica, bem como o código do CONFIRMA o Voto, do CORRIGE, do ANULA e o código do FINAL DA VOTAÇÃO.

 

Entre os estudantes e estudiosos que estão a pesquisar a radionovela em 2005, estão:

 

- Ney Santos, de Santo Antônio da Platina (PR) - <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>

 

- Bruno Daniel, Faculdade de São Caetano do Sul, São Paulo - <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>

 

- René Vilela Costa, de Salvador-BA - <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>

 

- Raffael Bruno, de Olinda-PE - <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>, O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

- Eduardo Cantarelli, de Belo Horizonte (MG) - <O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.>

 

 

 

4.1 PROGRAMA PALAVRA VIVA

 

            A Associação Palavra Viva, em São Paulo, é uma entidade sem fins lucrativos, ligada a congregações religiosas da Igreja Católica (www.apv.org.br). Foi idealizada e fundada pela irmã Ana Elídia Caffer Neves, das Missionárias Servas do Espírito Santo, aos 14 de janeiro de 1993, com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB). Até 2003, aAssociação estava sediada à Rua Dr. Isaías Salomão, 101, Bairro Mirandópolis, em São Paulo-SP; mudou-se, então, para a Rua Santa Luzia, 23, Bairro Liberdade, São Paulo. A Associação tem por objetivo evangelizar através dos meios de comunicação. A idéia inicial era produzir e veicular na televisão um programa diário, em formato de novela. O programa Palavra Viva entrou no ar no dia 11 de abril de 1993, através do SBT. Em estilo de ficção, com apenas dois minutos de duração, o programa tinha no elenco atores como: Rosi Campos, Renato Consorte e Tadeu di Pietro. O programa visava resgatar valores como solidariedade, fraternidade, justiça, amor, perdão, respeito, amizade e esperança. Mais tarde, com o elenco renovado, o programa foi exibido via satélite pelas principais redes de televisão. Surgiu também a produção em fitas VHS, por exemplo, a Coleção Palavra Viva (12 fitas), que reuniu em vídeo uma coletânea dos melhores programas Palavra Viva já exibidos na televisão. O objetivo era incentivar a utilização do vídeo como instrumento de uso pedagógico em entidades, paróquias, grupos, comunidades e escolas, fornecendo subsídios para um melhor encaminhamento das aulas do ensino religioso. Cada fita continha 16 programas de dois minutos. Na televisão, o Programa Palavra Viva parou de ser veiculado no ano 2003.

 

            A irmã Ana Elidia, coordenadora de produção da Associação Palavra Viva na época, tinha pela frente um desafio de ordem ideológica, pois a Igreja Católica nunca tinha apoiado a produção de novelas. Quando o cinema nasceu nos cabarés de Paris em 1895, a Igreja condenou o cinema; até que houve tentativas de se produzir cinema católico e fazer dos salões paroquiais sala-de-cinema, mas essa iniciativa não prosperou. A Igreja também não via com bons olhos o rádio devido à utilização do rádio pelos nazistas. Embora a Rádio Vaticano existisse desde 1931, o rádio católico não era popularizado. A Igreja demorou para perceber que poderia utilizar a televisão para a evangelização. Foi no Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) que a Igreja abriu as janelas para o mundo, através do decreto Inter Mirifica, aprovado pelo papa Paulo VI aos 4 de dezembro de 1963, onde se diz que “entre as admiráveis invenções da técnica... destacam-se aqueles meios que são capazes de atingir e movimentar os indivíduos, as multidões e a sociedade humana inteira, como a imprensa, o cinema, o rádio, a televisão e outros deste gênero... retamente empregados representam subsídios valiosos para propagar o Reino de Deus” (IM, Vaticano, § 1-2. Documento Pontifício, 4 dez. 1963). O Brasil, em comparação a outros países, adiantou-se em investir na mídia moderna, formando redes católicas de rádio e de televisão; as dioceses e paróquias possuem seus próprios sites. Em 1994, a Associação do Senhor Jesus de Campinas-SP produziu uma novela assumidamente católica, a Irmã Catarina, estrelada por Myriam Rios.

 

            Dado o sucesso do Programa Palavra Viva na televisão, surgiu a idéia de se fazer um programa de rádio, diário, com a duração de cinco minutos, no estilo radionovela. O lançamento aconteceu em setembro de 1994. Logo na estréia, o programa foi veiculado por 70 emissoras e depois por 128 radioemissoras, espalhadas por 20 Estados do Brasil. A Associação gravou 640 episódios do Programa Palavra Viva até o ano de 1997, utilizando o cassete magnético para enviar o programa para as radioemissoras. Como, na oportunidade, a Associação não adotou a gravação em CD, aos poucos as emissoras foram deixando de veicular o programa. Mais tarde, os programas foram remasterizados e gravados em CD. As novelinhas da televisão e do rádio da Associação Palavra Viva tiveram ótima aceitação por parte dos fiéis e o apoio da hierarquia da Igreja.

 

            Em vista da presente dissertação, foram ouvidos 30 episódios do Programa Palavra Viva, detectando as suas características; um programa foi escolhido para ser analisado mais detalhadamente. Cada programa contém uma história autônoma, no estilo radionovela. Utilizando-se da ficção, cada história tem um começo, um desenvolvimento e final. Embora alguns personagens se repitam nos episódios seguintes, não é necessário conhecer o episódio anterior para entender o episódio seguinte. Os personagens que se repetem ao longo de uma série de episódios assumem um estereótipo, pronunciando algumas expressões típicas. A mensagem final sempre é retirada da Sagrada Escritura, mas colocada de uma forma muito sucinta.

 

             A título de ilustração, será transcrito aqui o Programa número 23, intitulado O Filho de Sueli (CD Palavra Viva Número 3, Faixa 03): “Seu Teófilo, o narrador da história, está no balcão da mercearia da Dona Iolanda, comprando queijo e presunto para o lanche, depois do expediente. Iolanda se queixa dos filhos dela que a infernizam durante o dia todo. Ela conta que a Sueli, uma amiga do tempo de escola, mudou-se para o bairro há poucos dias; e diz que à noite, ela e o marido, o Fausto, irão à residência da Sueli para conhecer o marido e o filho da Sueli. Sueli deixou dito que tem um filho maravilhoso. Já em casa, Iolanda se queixa, de novo, perante o marido, da bagunça que os filhos aprontam durante o dia. Aí, Iolanda e Fausto se despedem dos filhos, com ameaças de castigos pela bagunça e partem para a casa da Sueli e do Luís, o marido da Sueli. Na casa da Sueli, conversam sobre vários assuntos. Quando chega o assunto dos filhos, Iolanda se queixa de novo dos próprios filhos. Em dado momento, o Luís traz o filho do casal para Iolanda e Fausto o conhecerem. Ali está um menino de uns 10 anos, deitado, imóvel, fixando o olhar num ponto imaginário no infinito, enfim, um deficiente mental. Iolanda emudece. Luís e Sueli afagam o filho e dizem que o amam. Terminada a visita, Iolanda e Fausto vão voltando para casa. Fausto indaga a esposa sobre o silêncio dela. Ela desabafa, culpando-se: “será que os meus filhos me escolheriam para ser a mãe deles?” A história termina com a frase da Sagrada Escritura recitada pelo Seu Teófilo: “Assim está escrito: quem seria eu para me opor à ação de Deus? - Atos dos Apóstolos, capítulo 11, versículo 17”. Eis o roteiro do Programa:

 

Título: Programa Palavra Viva - O Filho de Sueli

CD 03, Faixa 03 - 5 minutos

Sons e diálogos

Técnica dos Sons e Diálogos

Sonoplastia

Detalhes Técnicos

Música

Vinheta de abertura

CD

1” e BG

Ide pelo mundo e proclamai a Boa-Nova a todas as pessoas. No ar, Programa Palavra Viva. Hoje com a história “O Filho de Sueli”.

Locutor

 

BG e fim

Hoje eu resolvi que não vou jantar. Por isso estou vindo comprar alguns frios para fazer um lanche. E não existem frios mais gostosos, do que os da Mercearia aqui da Dona Iolanda e do seu Fausto. Por falar nisso, é a Dona Iolanda quem está no balcão. Dona Iolanda!

Teófilo, Narrador; calmo

Som de mercearia

 

Que é?

Iolanda, irritada!

 

 

Nooossa, hã! Eu vim apenas comprar um pouco de queijo e presunto!

Teófilo

 

 

Ai, desculpe seu Teófilo. Ai, mas é que hoje eu estou uma fera! Quanto o senhor quer?

Iolanda, irritada

 

 

Eu quero uns cem gramas de cada um.

Teófilo

 

 

Ah, eu vou cortar. Os meus filhos me deixam louca, seu Teófilo.

Iolanda

Som de fatiadeira na 2ª frase

BG

É?

Teófilo

 

BG

Eles transformam a minha vida num inferno. Toda hora os dois brigam. Tudo com eles é uma guerra. É guerra na hora de fazer a lição, guerra na hora de tomar banho, guerra na hora de dormir... Ah, eu não agüento mais aqueles dois.

Iolanda, reclamando

 

BG

Heheheh... Crianças! Quando estão a todo vapor, os pais querem que eles parem. Mas se ficam doentes, os pais não vêem a hora de eles voltarem a todo vapor. Hehehh.

Teófilo, rindo

 

 

Ah, passou um pouquinho no peso, seu Teófilo. Tem problema?

Iolanda

 

 

Não, não.

Teófilo

 

 

Hoje veio aqui uma amiga que eu não via há muito tempo: a Sueli. Ela se mudou pra cá há alguns dias. Nós estudamos juntas, sabe?

Iolanda, entusiasmada

Papel de embrulho

 

Ahã!

Teófilo

 

 

Ai, e agora à noite, eu vou com o Fausto visitar e conhecer o seu marido e o filho.

Iolanda

 

 

Ah, e logicamente colocar as fofocas desses anos todos em dia, não é?

Teófilo

 

 

Hahahahhh... isso nem precisa dizer, né!

Iolanda, rindo

 

 

Eu espero que seja um feliz encontro!

Teófilo

 

 

Ah, vai ser. Com certeza! Principalmente porque os meus filhos vão ficar em casa!

Iolanda

 

 

Háh, háh... Até mais, dona Iolanda!

Teófilo

 

 

Até!

Iolanda

 

 

Chord

Vinheta

Som

 

Fausto, como é, vamos?

Iolanda, enérgica

Grilo, cachorro

 

Vamos, vamos, Iol! Eu só fui até o quarto dos meninos dar boa noite.

Fausto

 

BG

E eles guardaram os brinquedos?

Iolanda

 

BG

Eles disseram que iam guardar.

Fausto

 

BG

Ah, separaram o material da escola para amanhã?

Iolanda

 

BG

Eles disseram que sim.

Fausto

 

BG

Eu nem vou olhar, porque eu não quero me irritar. Eu tenho uma inveja da Sueli! Ela me falou com tanto carinho do filho.

Iolanda

 

BG

Uá, porque você não falou dos nossos?

Fausto

 

BG

Olha, eu vou fazer de conta que não ouvi a sua pergunta.

Iolanda

 

BG

Eh, tá, tá! Vamos!

Fausto

 

BG

Vamos!

Iolanda

 

BG

Nós já estamos indo, crianças!

Fausto

Cachorro

BG

E se quando a gente voltar, vocês ainda não estiverem dormindo, hô-ô-ô vocês vão ver só!

Iolanda, nervosa

Fim do grilo

Fim BG

Chord

Som

 

 

A Dona Iolanda e o seu Fausto foram então à casa da Sueli e do Luís, seu marido. Conversaram sobre várias coisas. Até o momento em que chegaram ao assunto: filhos.

Teófilo

 

 

Chord

Som

 

 

Eu estou louca para conhecer o seu filho, Sueli.

Iolanda, ansiosa

 

 

Ah, ele já deve ter acordado. O Luís já está com ele.

Sueli, calma

 

 

E aqui está o nosso garotão!

Luís

 

 

Ah, veja, Iolanda, esse é o nosso filho!

Sueli

Notas musicais

 

Foi um choque para Iolanda e Fausto. O menino era deficiente mental. Seus olhos fixavam-se num ponto distante, como se nada percebesse. Mas, para Sueli e Luís ali estava um grande amor da vida de ambos. O filho.

Teófilo

 

 

Música

 

 

 

Filhinho, a mamãe te ama, sabia!

Sueli, amorosa

Notas musicais

 

Filho, deixa o papai te dar um beijo.

Luís

 

BG

Todo amor que temos é para você!

Sueli

 

BG

E a gente sabe que você sente isso.

Luís

 

BG

Na volta para casa, o seu Fausto veio comentando sobre tudo aquilo que presenciou. Mas, dona Iolanda estava calada, durante todo o tempo.

Teófilo

 

 

É incrível o amor que a Sueli e o Luís demonstram por aquele menino, mesmo naquelas condições. Eu, levei um choque no primeiro instante. Mas sabe que depois eu fiquei comovido pela felicidade dos dois. Iolanda?

Fausto, meditativo

Grilo e cachorro

BG

Hu...?

Iolanda, nasal

 

BG

Que foi? Você não disse uma palavra depois que a gente saiu de lá?

Fausto

 

BG

Fausto, eu sempre vivo dizendo, eu queria ter podido escolher os meus filhos. Depois de hoje começo a pensar: será que, se eles pudessem escolher, eles escolheriam a mim como mãe?

Iolanda, sussurando

 

BG

Música

Música espacial

CD

2” e BG

Assim está escrito: “Quem seria eu para me opor à ação de Deus?” Atos dos Apóstolos, capítulo 11, versículo 17.

Teófilo

 

BG

Vinheta

Som

 

 

Acabamos de apresentar, Programa palavra Viva. Uma produção Associação Palavra Viva. Apoio: Irmãs da Caridade de Otawa. Elas procuram revelar a compaixão do Pai através da missão educativa, evangelizando e servindo aos pobres. Se você sente que é chamada, entre em contato com as Irmãs da Caridade de Otawa. Ou ligue para: Zero, operadora 11, meia quatro quatro zero, treze trinta e um.

Vinheta final

 

BG

Música Final

 

CD

3” e fim

 

 

 

            No episódio acima, há um narrador e os diálogos entre os dois casais. Sons de fundo: máquina de fatiar (mercearia), grilo e cachorro (noite) e músicas várias, característicos de uma produção radiofônica. O tempo de cinco minutos é razoável para narrar um episódio dessa natureza. Os diálogos observam a devida entonação. O narrador vai aparecendo como um observador onisciente. A história prende a atenção do ouvinte através dos diversos ganchos, leva o ouvinte a sentir emoção e termina com uma mensagem direta e eloqüente. Há quatro núcleos na narrativa: o primeiro se passa na mercearia; o segundo se passa na casa de Iolanda e Fausto; o terceiro, na casa de Sueli e Luís; e o último, no caminho de volta. Os personagens estão bem caracterizados. Quanto ao tempo e ao local em que o episódio é situado estão indefinidos; é necessário imaginá-los. Se o público-alvo originário da radionovela é a mulher, mãe e dona-de-casa, o enredo pode ser considerado bem adaptado. Talvez, o único deslize na narrativa está em dizer que o menino já está acordado, pois se a cena acontece ao anoitecer, dever-se-ia falar que o menino já está adormecido.

 

            Integrando várias mídias modernas, a Associação Palavra Viva destacou-se em produzir novelinhas (porque sempre curtas: dois minutos na TV e 5 minutos no rádio) para a televisão e para o rádio, portando mensagens com o cunho de “Palavra de Deus”. A Associação foi pioneira em gravar na íntegra o Novo Testamento da Bíblia Sagrada com a voz do apresentador Cid Moreira, da Rede Globo. E gravou o CD intitulado Atos dos Apóstolos, que contou com o apoio institucional da União Cristã Brasileira de Comunicação Social (UCBC), com o texto bíblico original, mas narrado por atores, em estilo radionovela. De julho de 1995 a dezembro de 2002, também circulou o Jornal Palavra Viva, que era mensal, no formato tablóide, com 8 páginas, tiragem de 37.000 exemplares, distribuído gratuitamente para líderes comunitários, formadores de opinião, religiosos, catequistas, agentes de pastoral, colaboradores. Com o advento da internet, a Associação Palavra Viva disponibilizou muitas mensagens no site www.apv.org.br; cada sexta-feira, era enviado um boletim eletrônico para uma longa lista de internautas. Em 2005, tal qual nos anos anteriores, a Associação produziu os spots de rádio, com o estilo de radionovela, para a Campanha da Fraternidade sobre Solidariedade e Paz, que teve como lema “Felizes os que Promovem a Paz” (cf. o script desses spots nos anexos).

 

 

 

4.2 PROJETO RADIALISTAS CONTRA A AIDS

 

            Em 1998, o Instituto de Saúde e Desenvolvimento Social (www.chla.ufal.br/multireferencial/ong-isds, Acesso: 22 dez. 2003), com sede em Fortaleza- CE, desenvolveu o Projeto Radialistas contra a Aids, tendo produzido dois CDs, com o financiamento do Ministério da Saúde, da Secretaria da Saúde do Estado do Ceará e de algumas fundações e empresas. Com a intenção de serem produções bem populares, foram produzidos dois CDs com vários estilos musicais - pop, rap, cantoria e paródia. No CD volume 1, foram inseridas seis faixas, com o tempo variando de seis a nove minutos, contendo a Radionovela da Camisinha. O CD é acompanhado por dois livretes: Arte X Aids, o Ceará no Desafio pela Vida; e, Teatro de Rua contra a Aids, Seis Textos para Serem Encenados.

 

            Essa radionovela foi inspirada na peça O Auto da Camisinha, escrita pelo dramaturgo e cordelista José Mapuranga, em 1996. A peça se compõe de sete cenas. Há dois planos na trama, o terreno e o espiritual. No plano terreno, estão: o rapaz ingênuo Benedito, a mocinha esperta Lionor, a balzaquiana fogosa Sinhá Costureira e o velho desbocado Padrinho. No plano espiritual, o Diabo e o Anjo da Guarda, entidades internas do próprio Benedito, que acabam guiando a história. A intenção é popularizar a camisinha na luta contra a Aids. Assinada pelo radialista e também dramaturgo Artur Guedes, a radionovela tornou-se o carro-chefe da campanha. O projeto “Teatro de Rua contra a Aids” tem encenado a peça em muitas cidades brasileiras, com o apoio da Fundação MacArthur; em Curitiba-PR, a peça foi reprisada no auditório Salvador de Ferrante aos 27 de junho de 2005.

 

            Radionovela da Camisinha - Capítulo 1, Parte 1 (Faixa 6, Vol. 1): Afonso, dono de uma mercearia, que vende de tudo e até camisinha, assume a figura de narrador da história e está conversando com o casal Antenor e Alzira. Antenor e Alzira discutem porque Antenor toma suas cachacinhas, anda se relacionando com quengas e não usa camisinha. Afonso começa a narrar a história do Benedito e da Lionor: “Pedimos vossa atenção para uma história que vou contar, de um caso que se deu no sertão do Ceará. Não vou dizer o lugar que é para não criar encrenca com o povo que mora lá. Adianto que é uma terra de gente boa e sabida, que sabe que preconceito só faz é azedar a vida e que é melhor ter boa ceia que andar mexericando, falando da vida alheia”. Afonso contextualiza a história e deixa Antenor e Alzira curiosos, em suspense.

 

            - Capítulo 1, Parte 2 (Faixa 7): Benedito conversa romanticamente com Lionor. O diálogo é interrompido para que Afonso, Antenor e Alzira recontem rapidamente o capítulo anterior. Benedito retoma o diálogo e diz que precisa comprar uma camisinha porque a Alzira quer se relacionar só com camisinha. Intromete-se na conversa a costureira Dona Sinhá que personifica o diabo e vai tentando o Benedito para a transa rápida.

 

            - Capítulo 2, Parte 1 (Faixa 8): Reprise do final do capítulo anterior. O diabo se apresenta como o ‘Santo’ Pergentino para enganar o Benedito, dizendo que ninguém precisa usar a camisinha. Mas, Lionor insiste de que Benedito deve usar a camisinha ao transar com ela.

 

            - Capítulo 2, Parte 2 (Faixa 9): “Viu só, Antenor, viu no que dá ir pela cabeça dos outros? O Benedito se deu mal seguindo os conselhos do diabo. Segue tu também, peste! Tu vai ver”, diz a Alzira. Benedito se confronta com o Anjo da Guarda que explica o que é a Aids e que se previne a Aids transando com camisinha. O Anjo diz a Benedito que ele caiu na conversa do diabo. Benedito declara: “Cada coisa que acontece, impossível de se crer! Lionor me deu uma hora, tenho que me resolver! Não sei usar camisinha, tenho logo que aprender. Ah! Já sei o que eu vou fazer”. Alzira e Antenor falam que Benedito foi se encontrar com a Lionor, sob os comentários do Afonso da mercearia. Alzira e Antenor levam da mercearia uma caixa de camisinha só pra treinar.

 

            - Capítulo 3, Parte 1: (Faixa 10): Num flash-back, Afonso, Antenor e Alzira conversam sobre a maneira certa de usar a camisinha. Benedito vai na casa do seu padrinho e diz: “Marquei uma transa com Lionor, a bonitinha, mas ela só quer transar se eu usar a camisinha.” E o padrinho responde: “Está certo, afilhado. Esse é o comportamento de quem é ajuizado... na falta do pai, o padrinho é quem deve ajudar.” O padrinho traz um pênis artificial e ensina o Benedito a vestir a camisinha.

 

            - Capítulo 3, Parte 2: (Faixa 11): O padrinho faz uma demonstração para o Benedito de como se abre o envelope da camisinha, como se veste, como se desveste e como se amarra para jogar na lixeira - flash-back. Benedito e Lionor vão para a moita... O menestrel arremata: “Benedito e Lionor é uma história de hoje, um grande caso de amor. Uma história de pessoas que sabem se proteger. Uma história que é possível de um dia acontecer com qualquer um que está aqui. Tenham sempre na cabeça que a Aids está no mundo e não dá pra esquecer. Portanto, naquela hora de pintar a trepadinha, nunca deixem de usar a bendita camisinha”.

 

            A Radionovela da Camisinha foi apresentada em centenas de radioemissoras, com um resultado satisfatório quanto aos seus objetivos. E é claro, gerou polêmica com a Igreja Católica, que proíbe os meios mecânicos como método anticoncepcional. Considerando o público-alvo, certamente os produtores foram felizes na escolha do formato e da linguagem. Com muita criatividade, veicularam uma mensagem de cunho humanitário, comprovando que a radionovela tem o seu espaço no rádio de hoje.

 

            Essa radionovela contou com os profissionais bem conhecidos no Ceará: Atores: Ana Marlene, Pedro Domingues, Lúcio Leon e Sidney Souto. Direção: Artur Guedes. Sonoplastia: Selma Santiago e Kines Saldanha. Técnica de som: Alencar Júnior e Artur Cordeiro. Produção: Inês Amarante e Kines Saldanha. Realização: Instituto de Saúde e Desenvolvimento Social e Secretaria da Saúde do Estado do Ceará. Apoio: Pathfinder do Brasil.

 

 

 

4.3 ANÚNCIOS COMERCIAIS DA RÁDIO CBN

 

            A Central Brasileira de Notícias (CBN), em 2004, contava com 25 emissoras afiliadas. É voltada para o jornalismo, 24 horas. Os ouvintes potenciais têm acima de 30 anos e são economicamente ativos (BARBOSA FILHO, 2004, p. 247).

 

            A Rádio CBN de Curitiba veicula uma série de anúncios comerciais que se iniciam com uma encenação. Aliás, a Rede CBN está padronizando os anúncios comerciais no formato spot, no qual os 15 primeiros segundos são um radiodrama e os outros 15 segundos vendem um bem ou um serviço. Júlia Lúcia de Oliveira Albano da Silva, em Rádio: Oralidade Mediatizada, o Spot e os Elementos da Linguagem Radiofônica, estuda o spot e o define como peça publicitária elaborada e produzida para o rádio. Diz a autora:

 

... texto que é traduzido pela performance do locutor, passa pela escritura, ou seja, a voz torna presente aquilo que fora anteriormente pensado em termos de escrita. Este texto, por sua vez, adquire uma organização e estrutura sintática diferentes daquele que é elaborado para ser apreciado pela visão, uma vez que tem como alvo um receptor em constante movimento e um canal de comunicação que não conta com o aparato da imagem... O spot publicitário tem como seu precursor na radiofonia as historietas que se criavam para divulgar as mercadorias. Sendo a assimilação e a memorização as principais preocupações ao se elaborar uma mensagem publicitária, cada vez mais o texto verbal-escrito para o rádio deve ser estruturado a partir de frases concisas, de forma atraente, clara e persuasiva (DA SILVA, 1999, p. 18, 30, 46).

 

            A autora diz que “a radiofonia conta com os elementos sonoros que perfazem sua sonoplastia, ou seja, a trilha, efeitos, silêncio e ruídos” (DA SILVA, 1999, p. 67). Na análise dos spots, a seguir, também tenta-se identificar quem produziu o spot, por que é que teve a idéia de utilizar o estilo radionovela e qual foi o retorno após a veiculação.

 

 

 

Título: 1 - Tim, Dia dos Namorados

Sons e diálogos

Técnica dos Sons e Diálogos

Sonoplastia

Detalhes Técnicos

Alô!

Janete

 

 

Alôôô, sou eu! Você pode falar? A sua mãe não tá ouvindo, né? Você não vai acreditar no quê aconteceu! Meus pais viajaram! A minha casa tá liberada! É hoje! Você quer que eu passe a que horas, hein (silêncio). Alô? Fê?

Namorado

Passarinho

 

Só um momentinho, eu já vou chamar a Fernanda...

Janete

 

 

Dona Janete, é a senhora?

Namorado

 

 

Não tá na hora de dar um Tim para quem você gosta! Dia dos Namorados Tim. Siemens A-65 por um mais nove de 29 e 90 no pós-pago Meu Sonho. Tim, viver sem fronteiras!

Locutor

Música

 

 

 

 

Esse spot foi veiculado em dezenas de emissoras antes e depois do Dia dos Namorados de 2005. Foi produzido por uma agência de São Paulo para a Tim Celular. Era de fácil memorização por parte do radiouvinte, embora que o ouvinte tinha dificuldade de identificar a empresa telefônica, tão empolgado que ele ficava com a dramatização.

 

 

 

Título: 2 - Guincho SOS Mercês

Era uma tarde de sol e a socialite seguia para encontrar suas amigas no clube, quando, de repente...

Locutor

Música

Ritmada

Ai, não acredito que esse carro vai me deixar na mão justo agora (pi-pi-pi...). Carlos Alberto, o carro quebrou de novo.

Madame

Celular

 

Não se preocupe, querida, eu já vou mandar o socorro.

Marido

 

 

Não me venha com guincho, ui, aqueles caras com as mãos cheias de graxa.

Madame

 

 

Querida, guincho que é coisa do passado. O SOS Mercês agora tem até mulher para atender os seus clientes.

Marido

 

 

É mesmo? Nossa, que luxo!

Madame

 

 

SOS Mercês: 3335-8787. O resto é guincho!

Locutor

 

 

 

 

 

Esse é o 6º spot da Agência D/Audio para o SOS Mercês, veiculado em abril de 2005. Diz de si própria a D/Áudio: “Pense num som. Qualquer som. Pensou? Este ainda não é o prazo que a D/Audio precisa para produzi-lo, mas um dia a gente chega lá. Aqui, em primeiro lugar, vem a originalidade do trabalho, o talento de quem compõe um jingle, spot ou trilha. Se imaginarmos uma missão para a produtora, seria algo como enriquecer a idéia de publicitários e clientes com sons e música, colaborando para destacar uma grande idéia ou criando essa grande idéia. É isso que a D/Audio faz. Tem idéias sonoras que auxiliam e dão brilho a conceitos e produtos. Com tecnologia e arte, velocidade e sensibilidade, humor e amor, arranjos por vezes complicados, por vezes simples, nunca dissonantes (www.daudio.com.br. Acesso aos 13 Set. 2005). Segundo Cláudio Andreatta, produtor do anúncio acima, o anúncio foi dirigido para o público feminino das classes A e B, que possui carrões. Com direção de Fábio Lavalle, a voz empregada no anúncio foi do humorista Diogo Portugal que faz o papel da Socialite; Diogo também pertence ao time da Rádio Transamérica de Curitiba. Esse anúncio foi idealizado no formato de radionovela para a Rádio CBN, que só apresenta notícias, para descontrair o radiouvinte. Nenhuma empresa de guincho faz anúncio publicitário em rádio, pois guincho está associado a tragédia; em pesquisa top of mind da própria D/Audio, verificou-se que o único anúncio que o curitibano lembrava era do Guincho Mercês.

 

 

 

Título:3 - Performance Cartuchos Remanufaturados

 

 

Relincho, assobio

 

Ok, Bob, a caravana está chegando; prepare os cartuchos.

John

 

BG Far West

Impossível, John, acabo de vendê-los para a Performance Remanufaturados.

Bob

 

BG

Você, o quê?

John

 

BG

Isso mesmo! A Performance veio até aqui, pagou à vista em dinheiro e eu (páh!) vendi os cartuchos no ato.

Bob

Tiro após o EU

BG

Seu cartucho de impressora usado vale dinheiro na Performance Remanufaturados.

Ligue 218-1200.

Locutora

 

BG

Tenho que admitir, Bob. Esta foi uma excelente performance.

John

 

Bg

 

 

 

Performance Remanufaturados está sediada no bairro Hugo Lange (R. Fernandes de Barros, 1752), em Curitiba; é uma micro empresa que reabastece cartuchos de impressora de computador. O spot acima foi produzido pela agência G/PAC Comunicação Integrada Ltda, bairro Cabral (Rua Munhoz da Rocha, 316). Foi inspirado no seriado americano faroeste. Nos meses em que o spot foi veiculado, aumentou o número de clientes da Performance.

 

 

 

Título: 4 - Rede Belgo-Aços

(PIC) Pregos, (PIC) Telas, (PIC) Perfis, (PIC) Vergalhões Belgo Cinqüenta, (PIC)

Pic e Locução

Som de Caixa Registradora

 

Roberto Bonfim, você por aqui?

Vendedor

Música

BG

Hahahah, eu mesmo!

Roberto Bonfim

 

BG

Você sabe, né, os vergalhões vão cortados e dobrados, no sistema Belgo-Pronto.

Vendedor

 

BG

Na Rede Belgo é assim! Você tem atendimento de Celebridade. Garantia Belgo. E encontra tudo em aços para a construção civil, indústria e agropecuária.

Roberto

 

BG

Ligue já para a Rede Belgo, 271-4040

Locutor

 

BG

Na Rede Belgo, o supermercado do aço, não tem novela; tem soluções.

Roberto

 

BG

 

 

 

Rede Belgo é uma empresa sediada em São Paulo (SP) que vende aços em vários estados do Brasil, 0-800-151221. Antigamente só atendia grandes usinas; agora passou a oferecer produtos para pequenos comerciantes. Segundo Gal Cremonezzi, gerente de marketing da Belgo, Roberto Bonfim (ator da Rede Globo) foi escolhido para ser o protagonista desse spot, para que o cliente mude a idéia de que a Belgo só vende para grandes usinas; a Belgo pode atender todo e qualquer consumidor que, por sua vez, vira celebridade de novela. O spot foi produzido pela Agência Partner, de São Paulo (SP). Em Curitiba, a Belgo possui um ponto de revenda na Rua Wenceslau Braz, 358, no bairro Parolim.

 

 

 

Título: 5 - Ministério da Saúde

Bom dia! Por favor, quantos pães eu compro com dois Reais?

Homem

Som de caixa

BG

Dez pães.

Mulher

 

BG

E quantos litros de leite?

Homem

 

BG

Dois litros. Então, vai levar?

Mulher

 

BG

Não. O dinheiro não dá. (Estalo com a língua). Acho que vou levar só um maço de cigarro mesmo.

Homem

 

BG

A nicotina causa tanta dependência que tira dinheiro da alimentação, da educação, e da saúde de quem mais precisa. Então, fique esperto. O cigarro causa prejuízo para o Brasil. Ministério da Saúde. Governo Federal.

Locutor e música

Música de Piano

BG

 

 

 

            Sob encomenda do Ministério da Saúde, esse spot foi produzido por uma empresa de publicidade de São Paulo. Serve para ilustrar que a comunicação ‘oficial’ do Governo Federal também utiliza a radionovela.

 

 

 

Título: 6 - Crédito HSBC

Trimmm

Telefone

 

 

Gazeta da Manhã, Bom Dia!

Atendente

 

 

Da sessão de classificados?

Homem, chorando

 

 

É, sim. O senhor quer fazer uma nota funerária?

Atendente

 

 

Não, não, o meu carro... (chora), eu preciso pôr pra vender... (chora)

Homem, chorando

 

 

Você não precisa vender seu carro quando precisar de dinheiro. Com o crédito alto do HSBC, você financia até 70% do valor do seu veículo. E o melhor: fica com o carro. HSBC, mais de duzentas agências abertas, das 9 às 18 horas.

Música e Locução

Trilha

BG

 

 

 

Segundo Henrique Dalprá, chefe do Departamento de Marketing da Rádio CBN de São Paulo, (11) 3824-3284, esse anúncio do HSBC serve para popularizar o banco. Como é um anúncio veiculado em todo o Brasil, foi utilizado um nome muito sugestivo, Gazeta da Manhã, que na verdade é um jornal fictício. O spot foi produzido pelo departamento de marketing do HSBC.

 

 

 

Título: 7 - DDI 25

Trimmm

Telefone

 

 

Alô!

Ele

 

 

Jorge, eu preciso pôr para fora. Eu não agüento mais você no Japão e eu aqui no Brasil.

Ela

 

 

É, o Jorge... ele saiu.

Ele

 

 

Ah, é? Bom, já que é só 17 centavos o minuto, eu vou discutir a relação com você mesmo. Porque eu acho que estou me sentindo de uma certa forma oprimida por essa distância...

Ela

 

 

DDI imbatível é com o 25. São 25 países por apenas 17 centavos o minuto, mais impostos, sem restrições ou asteriscos. Acesse a respeito o vinteecinco.com.br e confira. É imbatível. O 25 respeita você.

Locutor

Trilha

BG

 

 

 

            Primeiramente, há que se considerar que profissionais também cometem deslizes. O som do telefone do spot é anacrônico, pois o som do DDI digital não é “trimmm”, pois é outro. A Global Village Telecom Ltda, ou GVT-25, tem sede em Maringá-PR. Para conquistar o mercado, usa sempre o refrão “DDI imbatível” (www.gvt.com.br. Acesso aos 12 Jul. 2005)

 

 

 

4.4 PROGRAMETES DE HUMOR DA RÁDIO TRANSAMÉRICA

 

            A Rede Transamérica de Comunicação teve início em 1975, em Recife-PE. A partir de 1991, a rede opera ao vivo com satélite. Em 2004, havia 41 emissoras afiliadas, divididas de acordo com o público-alvo em: 1) Pop, idealizada para o público de 15 a 29 anos, com alto poder de consumo; 2) Hits, direcionada para ouvintes de 15 a 39 anos, veiculando música popular brasileira e internacional; 3) Light, para o público de acima de 30 anos, das classes AB, com música e informes econômicos (BARBOSA FILHO, 2004, p. 244).

 

            A Rádio Transamérica de Curitiba-PR possui três emissoras: Light (95.1 MHZ), Pop (100.3 MHZ) e Hits (91.3 MHZ). A programação é basicamente musical, com os programas: Toca Uma, Nitroglicerina, Naftalina, Na Moral, Adrenalina, 2 em 1, Transnotícias, Transamérica Esportes. Rogério Afonso é o diretor geral da rádio. Mauro Mueller, diretor artístico (setembro de 2005), comanda a equipe de locutores da Pop (Betina Muller, Flávia Consoli e Wilson Felipe), da Light (Gilmar Yared e Betina Müller) e da Hits (Pedro Deluck, Iverson Vaz e Jefferson Nunes). A equipe de esportes é composta por narradores (Moura Júnior, Marcelo Jr e Edilson de Souza), comentaristas (Airton Cordeiro e Fernando Gomes), repórteres (Irapitan Costa, Cristian Toledo, Cristiano Santos, Marcelo Júnior e Kako Mazanek), humoristas (Diogo Portugal, como Boy; e Douglas Bay, como E.T.); o comando de jornada é de Marcelo Fachinello (www.transamericacuritiba.com.br. Acesso aos 10 Ago. 2005).

 

A narração de futebol da Transamérica é toda iconizada, Só aqui, é diferente, como a equipe se auto-define. À medida em que o jogo vai se desenrolando, as palavras dos narradores têm como som-de-fundo o chute, o aplauso ou a vaia da torcida, a freada, o cronômetro, a eguinha Pocotó, os xingamentos do juiz, tiros, assobios, tropel, latidos, corneta militar, sons típicos de desenho animado do Walt Disney, comentários como Oh! Coitado, Ô Lôco... Os membros da equipe brincam entre si, fazem pegadinhas, contam piadas. A narração dos lances é bem entusiasmada, com palavras como patinada, atropelamento, botinada, cortada... Os anúncios comerciais aparecem em forma de historinha. Não há aquele berro escandaloso narrando o gol, mas uma narração inteligente. O momento da partida de futebol também segue a linha de entretenimento com informação e humor. Quando a bola pára ou quando tem uma troca de passes para valorizar a posse da bola, ou o jogo é interrompido, o humor tem total liberdade de brincar com todos os temas, de forma livre e descontraída; e quando a bola rola, o narrador tem o pique dos grandes narradores. São narradores: Moura Jr, Edilson de Souza e Marcelo Jr, sempre com a sonoplastia ilustrando as narrações, fundos musicais instrumentais dando mais dinamismo e agilidade, para que a transmissão ganhe um valor diferenciado. A primeira partida feita pelo Transamérica Esportes foi na abertura do Campeonato Brasileiro de Futebol, no dia 1º de agosto de 2001, na partida entre Paraná Clube X Cruzeiro, no Estádio Durival de Britto; o Paraná Clube venceu a partida por 1 X 0. Neste mesmo ano o Atlético Paranaense foi o Campeão Brasileiro pela primeira vez em sua história, coroando o ano da estréia do projeto.

 

Além da transmissão do futebol, de segunda a sexta-feira, às 18 horas, a equipe apresenta Transamérica Esportes. O programa surgiu em 23 de julho de 2001, com a intenção de mudar o modo como eram feitos os programas de rádio direcionados ao esporte. A fórmula baseada na informação acrescida de humor, com a irreverência característica da Rádio Transamérica, era o que a equipe queria fazer, entendendo que a evolução do mercado do entretenimento no rádio era um formato que deveria ser implementado. O projeto foi um sucesso. Hoje, o Transamérica Esportes tem audiência e receita auto-sustentáveis e é referência nacional de crônica esportiva. É um misto de informação com credibilidade, comunicação descontraída, humor e sonoplastia. Todos os assuntos são abordados de forma detalhada, porém objetiva, sobrando tempo para que o humor entre no ar sem prejudicar a informação esportiva.

 

A Rádio Transamérica usa e, de certa forma, abusa das vinhetas estereotipadas em toda a sua programação: nos hits musicais, nos noticiosos, no atendimento de telefonemas do ouvinte, nos comerciais... Só há DJ, que faz operação e locução de forma simultânea. Os anúncios das próximas partidas de futebol são feitos na forma de uma encenação sonora estereotipada, sempre terminando com o slogan “Só aqui”. Por exemplo: 1) Grêmio e Coritiba: quem anuncia o jogo é um gaúcho, mas com uma voz efeminada, que diz que o gaúcho é sempre macho; 2) Atlético e Inter: o anúncio é feito na forma de um debate político; o deputado Rafael Grecca  debate com o Antonio, com réplica e tréplica; 3) Vasco e Paraná: o atacante Zóinho, autor de três gols contra, dá a entrevista e diz que vai ouvir o jogo na Transamérica; 4) Coritiba e Cruzeiro: Maria, da novela Terra Nostra, anuncia o jogo com sotaque italiano; 5) Paraná Clube e Juventude: Lula fala da transição da presidência ao back ground do Globo Repórter; 6) Inter e Coritiba: anúncio feito por uma voz de travesti; 7) Atlético Mineiro e Atlético Paranaense: sotaque mineiro, imitando o Smurphy; 8) Atlético e Paysandu: Albuquete imita o apresentador Alborguetti, o Cadeia, proferindo palavras como honestos, honrados; 9) Cruzeiro e Atlético: Luísa, criança, lendo e gaguejando, anuncia o jogo; 10) Paraná e Coritiba: é um disk-sexo, onde a garota diz que está com um micro-system entre as pernas para ouvir o jogo.

 

Eis o anúncio dos jogos da 25ª Rodada do Campeonato Brasileiro, de 11 de setembro de 2005, envolvendo os três times de Curitiba-PR:

 

Rádio Transamérica Pop - 11 setembro 2005

Sons e diálogos

Técnica dos Sons e Diálogos

Sonoplastia

Detalhes Técnicos

Música “O Guarani”

Música

Acordes

BG

E atenção, descobrimos que o Presidente Mula comprou um radinho com dinheiro do Mensalão.

Voz de Travesti

 

 

Olha, meus queridos companheiros! Eu quero dizer que eu não táva nem sabendo desse negócio de Mensalão. Eu comprei o rádio parcelado em 10 vezes, com os juros que eu tiro todo mês do meu salário. Tudo isso porque eu quero ouvir a transmissão da Transamérica. Neste domingo tem Paraná Clube e Palmeiras na Transamérica Pop a partir das 3 da tarde. Corinthians e Atlético Paranaense a partir das 3 da tarde na Transamérica Hits. E Coritiba e São Paulo na Transamérica Pop.

Voz rouca, imitando Presidente Lula

Oh!

Depois de cada frase

Confessa que ouve todos os jogos pela Transamérica?

Voz de travesti

Música de Futebol

BG

É porque eu gosto de ouvir a melhor transmissão do rádio parananaese que é claro na Rádio Transamérica.

Lula

 

BG

Agora, cá pra nós, Mula, tem um dinherim aqui pra mim?

Travesti

 

BG

Tem, tem sim, tá aqui ó, dentro da minha cueca. Pega aqui, ó!

Lula

 

BG

Que mensalão pequeno!

Travesti

 

Fim BG

Transamérica Pop

Vinheta

 

 

 

 

 

Para os paranaenses, nesse dia, os três jogos foram de chorar e não de rir, por causa dos resultados: Paraná 1 X 3 Palmeiras, Coritiba 1 X 4 São Paulo, Corinthians 2 X 0 Atlético. Embora tenham sido três derrotas, mas sem muita tristeza, por causa da transmissão da Rádio Transamérica!

 

A Transamérica inovou com o radioteatro. Desde o ano 2002, está no ar o Boa Noite, Cinderela, que vai ao ar toda segunda-feira das 20 às 22 horas, com partes ao vivo e partes pré-gravadas. O programa tem como base o humor escrachado. No elenco estão: Mauro Mueller (diretor e âncora), Maurício Guérios (redator do programa e que faz o papel de um homem sofisticado), Gilson Cordeiro (interpretando uma pessoa simplória e sem cultura), Flávia Consoli, Douglas Bay e Bahiano (o pentelho-mór que conta piadas sem graça). E os personagens João Paixão, locutor brega de rádio; a Voz da Vizinha, que é uma voz sensual; a Samantha, que é um travesti pobre. Diogo Portugal, o “Boy”, o responsável pela maior parte das imitações. O programa revela a face de quem está por trás do microfone; pessoa que o ouvinte pensa ser séria, cai na brincadeira facilmente. O grupo produz paródias musicais, colocando uma letra engraçada numa melodia bem conhecida. É um programa de duas horas de duração que tem humor e música nacional.

 

A Transamérica veicula também a radionovela  Xi...Cometa, que conta a história de Hector Comecuecas, um vilão que está direcionando o Cometa Naba para destruir a Terra. O Chico representa o incrível caso de um filho de travesti que foi adotado por Frida, uma mulher má e temida por todos da sua vizinhança. Essa radionovela vai ao ar toda segunda-feira dentro do Boa Noite Cinderela. A partir de setembro de 2005, a equipe do Boa Noite, Cinderela se prepara para uma novidade, que na verdade é inspirada nas radionovelas do passado, quando tudo era ao vivo e não havia os audio-tapes, com a implantação de sonoplastia manual utilizando objetos, os mesmos usados pelo contra-regra nas antigas radionovelas.

 

- - -

 

Programa Palavra Viva, Projeto Radialistas contra a Aids, anúncios comerciais da Rádio CBN e programetes de humor da Rádio Transamérica: o que eles têm em comum? Em primeiro lugar, a tecnologia digital, isto é, edição por computador. Depois, a utilização do estilo radionovelesco, ou seja, ficção, dramatização, emprego de efeitos sonoros etc.

 

 

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

 

No início da presente pesquisa, encontrar dados sobre a linguagem radionovela era como encontrar agulhas no meio do palheiro. Aos poucos, fui descobrindo o quanto essa linguagem radiofônica é fabulosa e por quantos autores já foi estudada. Embora, no Brasil, haja pouca bibliografia, há muitos autores na Espanha e nos Estados Unidos que sistematizaram os conhecimentos sobre a radionovela. Radionovela e rádio moderno se atraem.

 

O radiouvinte habitual certamente não percebe que em grande parte de anúncios comerciais há uma roupagem de radionovela. Nos anúncios, pode-se identificar a contextualização de um problema, a deflagração de uma ação e o clímax. Essa roupagem é feita com vozes humanas e com ícones sonoros, naturais ou mecânicos, consagrados pelo uso.

 

Produzir radionovela é raciocinar, dedicar-se muito, trabalhar em equipe. Do ponto de vista cultural, a radionovela pode ser comparada à História em Quadrinhos, onde se trabalha com conceitos universais, estereótipos, emoções, sentimentos e muito humor. A radionovela clássica prendia a atenção do ouvinte no sentido de condicioná-lo a não perder o capítulo do dia seguinte. A linguagem radionovela da atualidade, evidenciada em episódios que não têm continuidade no dia seguinte, se caracteriza pelo imediatismo. Por exemplo, se uma radioemissora veicula uma sátira novelística entre uma música e outra, o radiouvinte não quer perder a sátira seguinte.

 

Radionovela é arte, mãe da telenovela criada no Brasil. A telenovela ajudou a construir o imaginário nacional. A cultura nacional se curvou diante da telenovela. Importante saber que a raiz dessa cultura está na radionovela da década de 1940. Gênero e linguagem radionovela migraram do rádio para a televisão. E da televisão para a internet. Aos poucos, com as novas tecnologias eletrônicas, está a se plasmar um novo modo de emitir imagens sonoras, captá-las com o ouvido e processá-las no cérebro.

 

A radionovela clássica sucumbiu por falta de patrocínio; sem dinheiro, muitas idéias e projetos acabaram no ostracismo. A radionovela é uma arte coletiva, isto é, produzida com a contribuição de vários talentosos profissionais. O processo de produção sonora no tempo da fita magnética era expensivo; hoje, com clique do mouse, ficou barato. Já há sites especializados em oferecer imensos bancos de dados de ícones sonoros. O playlist da radioemissora ficou incrementado.

 

Já o esforço é recompensado. Radionovelas e histórias dramatizadas para o rádio continuam a encantar as pessoas. As poucas produções - religiosas, humorísticas, educativas... - em estilo radionovela que surgem são muito bem-vindas para as radioemissoras, pois, veiculadas, infalivelmente agradam aos ouvintes. Na caixa de e-mails estão ficando freqüentes as mensagens sonorizadas com o tempero de radionovela.

 

No planeta globalizado, com uma sociedade marcada pela depressão psíquica, a radionovela pode ser sugestão para veicular boas mensagens. Com os recursos da edição digital, espera-se que surjam novos heróis inspirados a produzir radionovelas, criando, quem sabe, até um novo estilo de radionovela. Voltar atrás, com radionovelas seriadas, capítulos longos, é inviável. Porém, episódios curtos e instantâneos se encaixam perfeitamente no ouvido pós-moderno, acostumado à mudança de assunto instantânea.

 

O modo de produzir conhecimentos e pensamentos, na era da internet, não é mais um modo linear (aristotélico, cartesiano); mas, é um modo rizomático (mosaical, clipping). Considerando isso, a radionovela sediada num site da internet não precisará ser ouvida numa única ordem. O internauta poderá escolher o núcleo cênico que lhe interessa, ou escolher algum personagem, ou escolher um determinado assunto. O desenlace do enredo poderá ter dois ou mais finais diferentes. A radionovela passará a se assemelhar a um game, onde o internauta poderá interagir com o mouse. E aqui se abre um novo campo para os interessados para produzir radionovelas para a internet.

 

O ouvir, o emocionar-se e o criar sentimentos continuam presentes em cada pessoa. O conhecimento sensorial, através dos cinco sentidos, no homem primitivo, tinha a função da sobrevivência; no homem moderno, a função é a da arte e do prazer. Transferir sentimentos nobres de um cérebro para outro, através da linguagem radionovela, é um fenômeno que entusiasma a quem dele desfruta. Entre tanto lixo sonoro veiculado pelas ondas eletromagnéticas, certamente ainda há espaço para uma produção artística e cultural de boa qualidade.

 

O que, há algumas décadas, era uma aventura de uns poucos abnegados e insistentes autores apaixonados pelo meio, na universidade e fora dela, hoje é um empreendimento científico bastante consolidado, sob a liderança de uma massa crítica que chega, em 2005, à marca dos 40 doutores e a pelo menos um igual número de outros pesquisadores, já experientes, a caminho desta titulação. O problema crônico da falta de bibliografia sobre o tema começa a ser substituído pelo outro problema, felizmente mais fácil de resolver, de fazer a sua seleção. Os obstáculos ainda são muitos, num país com mais de seiscentos cursos universitários de Comunicação Social que, em sua maioria, raramente compram livros para as suas bibliotecas ou dão condições de trabalho a seus professores. E com mais de três mil emissoras de rádio que, também em sua imensa maioria, se dão ao luxo de não pensar o que fazem, mas, apesar de tudo, o rádio e seu estudo, quando tocados com seriedade, são promissores e gratificantes (MEDITSCH, 2005, p. 15).

 

No passado, o gênero radionovela. No presente, o formato radionovela. No futuro, os ícones sonoros. As radioemissoras estão aperfeiçoando a utilização do som. No ambiente do computador e da internet, o ambiente da radionovela será eternizado.

 

Antes do ponto-final, devo manifestar a intenção de continuar a pesquisar a linguagem da radionovela aliada ao clique do mouse. Os conhecimentos já reunidos até aqui serão disponibilizados aos interessados através da mídia impressa e da mídia eletrônica.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

 

 

- ALBANO DA SILVA, Júlia Lúcia de Oliveira. Rádio, Oralidade Mediatizada: o Spot e os Elementos da Linguagem Radiofônica. Annablume, São Paulo-SP, 1999.

 

- __________________ . A Peça Radiofônica e a Contribuição de Werner Klippert. In Meditsch, Eduardo. Teorias do Rádio. Insular, Florianópolis-SC, 2005.

 

- BARBEIRO, Jesús Martín. Dos Meios às Mediações: Comunicação, Cultura e Hegemonia. Editora UFRJ, Rio de Janeiro, 2003.

 

- BARBOSA FILHO, André. Gêneros Radiofônicos, Os formatos e os Programas em Áudio. Paulinas, São Paulo-SP, 2003.

 

- BARBOSA FILHO, André; PIOVESAN, Ângelo; BENETON, Rosana (Organizadores). Rádio, Sintonia do Futuro. Paulinas, São Paulo-SP, 2004.

 

- BORELLI, Silvia Helena Simões e MIRA, M. C. Sons, Imagens, Sensações: Radionovelas e Telenovelas no Brasil. São Paulo. Intercom. Vol XIX, N. 1. 1996.

 

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- FEDERICO, Maria Elvira Bonavita. História da Comunicação, Rádio e TV no Brasil. Petrópolis-RJ, Editora Vozes, 1982.

 

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- MEDITSCH, Eduardo. O Rádio na Era da Informação, Teoria e Técnica do novo Radiojornalismo. Editora Insular. Florianópolis (SC). 2001.

 

- MEDITSCH, Eduardo (Org). Teorias do Rádio, Textos e Contextos. Vol. I. Editora Insular. Florianópolis (SC). 2005.

 

- MELO, José Marques de. Gêneros Jornalísticos na Folha de S. Paulo. São Paulo, FTD, 1992.

 

- MENDONÇA, Maí Nascimento. Nas Ondas do Rádio, Boletim Informativo da Casa Romário Martins. Volume 23, Número, 115, Dezembro/1966. Fundação Cultural de Curitiba.

 

- NAS ONDAS DO RÁDIO, Revista, nº 115, Dez. 1996. Casa Romário Martins. Curitiba-PR.

 

- NUNES, M. R. F. O mito no rádio; a voz e os signos de renovação periódica. São Paulo-SP: Anna Blume, 1993.

 

- ORTIZ, Renato; Borelli, Silvia Helena Simões; e, Ramos, José Mário Ortiz. Telenovela, História e Produção. São Paulo-SP, Editora Brasiliense, 1986.

 

- PERDIGÃO, Paulo. No Ar PRK-30, o mais Famoso Programa de Humor da Era do Rádio. Casa da Palavra, Rio de Janeiro-RJ, 2003.

 

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- PESSINATTI, Nivaldo Luiz. Políticas de Comunicação da Igreja Católica no Brasil. Petrópolis-RJ, Editora Vozes, 1998.

 

- PIGNATARI, Décio. Informação, Linguagem, Comunicação. Cotia-SP, Ateliê Editorial, 2002.

 

- PORCHAT, Maria Elisa. Manual de Radiojornalismo. Jovem Pan. São Paulo-SP, Editora Brasiliense SA, 1986.

 

- QUEIRÓS, Bartolomeu C. de. Os Cinco Sentidos. São Paulo-SP. FTD. 1992.

 

- RABAÇA, Carlos Alberto, BARBOSA, Gustavo Guimarães. Dicionário de Comunicação. Campus, Rio de Janeiro, 2002.

 

- RIBEIRO, Clébio. Teatro de Rua Contra a Aids, Seis Textos para Serem Encenados. Fortaleza-CE. Impresso do Instituto de Saúde e Desenvolvimento Social. 2001.

 

- ROMO GIL, Maria Cristina. Introducción al Conocimento y Practica de la Radio. México. Diana. 1994.

 

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- SANTOS, Rudi. Manual de Vídeo. Rio de Janeiro-RJ. Editora UFRJ. 1995.

 

- SILVA, Maria Paes da. Comunicação Tem Remédio. São Paulo, Ed. Gente 6ª edição 1996.

 

- SOARES, Edileuza. A Bola no Ar. São Paulo-SP. Summus Editorial. 1994

 

- TAVARES, Maurício Nogueira. A Radionovela no Brasil: de “Em Busca da Felicidade” à “Verdes Vidas”. São Bernardo do Campo (SP). Dissertação de Mestrado. IMESP. 1992.

 

- TAVARES, Reynaldo C. Histórias que o Rádio não contou. Do Galena ao Digital, desvendando a Radiodifusão no Brasil e no Mundo. São Paulo-SP, Editora Harbra, 2ª Edição, 1999.

 

- VIGIL, José Ignacio López. Manual Urgente para Radialistas Apaixonados. Paulinas, São Paulo-SP, 2003.

 

- WIENER, Norbert. Cibernética e sociedade: o uso humano de seres humanos. São Paulo: Cultrix, 1968.

 

- XAVIER, Ismail. O Discurso Cinematográfico.Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1981.

 

 

 

Revistas

 

- Áudio: Música & Tecnologia. Números 165 a 170. Editora Música & Tecnologia. Rio de Janeiro (RJ). 2004 e 2005.

 

- Estúdio de Gravação em Casa. Edição 02. Editora Escala. São Paulo-SP. 2004.

 

- INTERCOM, Revista nº 1. Novelas, Populismo e Cultura. Intercom. São Paulo-SP. 1996.

 

- INTERCOM, Revista nº 12. MOREIRA, Sonia Virginia; BIANCO, Nélia R. Del (Organizadoras). Intercom e UERJ. 2001.

 

 

 

Sites da Internet

 

- http://diarioweb.terra.com.br/fmdiario/barra/radionovela.asp

 

- http://intervoxnce.ufrj.br/~valterjr/infantis.zip

 

- http://jovempan.uol.com.br/jpamnew/destaques/memoria/index.php?pagina=111

 

- http://koti.welho.com/alaari/lodger

 

- http://servicioskoinonia.org/untaljesus

 

- http://www.autoriaecia.com.br/txt/000708hh.htm

 

- http://www.bn.com.br/radios-antigos

 

- http://www.intercom.org.br (Revista da Silvia Borelli)

 

- http://www.jornalismo.ufsc.br/redealcar

 

- http://www.porteiroze.com/mapa.htm

 

- http://www.radioamericasp.com.br

 

- http://www.riopreto.com.br/araujo/novela/entrev.htm

 

- http://www.ritadesouza.hpg.ig.com.br/index.htm

 

- http://www.teknobeat.com.br

 

- www.acessocom.com.br

 

 

 

Glossário

 

 

 

- Ao vivo                    - Transmissão feita no momento exato em que o acontecimento se dá

 

- Aquário                    - Estúdio de locução envidraçado

 

- Cadeia                      - Conjunto de emissoras que transmitem a mesma programação; rede

 

- Cartucho                  - Fita magnética pronta para reproduzir um som

 

- Cozinha                    - Trabalho de reescrever, adaptar, atualizar e condensar textos

 

- Crédito                     - Identificação de profissionais

 

- Deixa                       - Palavras finais de uma gravação sonora

 

- Desanunciar             - Em rádio, dizer o nome da música e do cantor no término da música

 

- Dexismo                  - Hobby de detectar rádios em Ondas Curtas

 

- Dial                          - Gama de sintonia de freqüências do rádio

 

- Espelho                    - Programa piloto em rádio

 

- Foca                         - Jornalista novato

 

- Furo                         - Notícia em primeira mão

 

- Galena                      - Rádio de fabricação caseira

 

- Game                       - Jogo interativo em computador ou aparelho específico

 

- Gancho                     - Elemento que chama a matéria seguinte

 

- Hit                            - Sucesso de vendagem de discos

 

- Jabá                          - Veiculação de mensagem a partir de propina

 

- Jingle                       - Reclame publicitário cantado

 

- Lauda                       - Página que será lida pelo Locutor

 

- Mixer                       - Aparelho que recebe diversas fontes sonoras e emite apenas uma

 

- Netradio                   - Emissora de rádio que só transmite pela internet

 

- Passagem                 - Breve trecho musical que separa duas notícias

 

- Picotar                     - Som que apresenta falhas

 

- Playlist                     - Software que executa o Play de uma lista de tarefas sonoras

 

- Remixagem             - Digitalização da mídia

 

- Roteiro                     - Script de rádio

 

- Rurbana                   - Refere-se à música rural ou sertaneja transposta para a urbe (cidade)

 

- Speaker                    - O mesmo que locutor

 

- Spot                          - Anúncio comercial de 15 a 30 segundos

 

- Vinheta                    - Palavras ou música que identificam a rádio ou o programa

 

 

 

 

 

ANEXOS

 

Anexos Ilustrativos:

 

- Amostra de gravações de radionovela (CD);

 

  

 

- Texto dos Spots da Campanha da Fraternidade de 2005, produzidos em formato radionovela pela Associação Palavra Viva:

 

 

 

Spots de Rádio CF-2005: Spot 1 - Conversa na Feira

CD Spots de Rádio CF-2005, Faixa 1 - 30 segundos

Sons e diálogos

Técnica dos Sons e Diálogos

Sonoplastia

Detalhes Técnicos

 

 

Som de feira em BG. Burburinho de briga.

 

Ai, tira seu carrinho de cima do meu pé!

Dona de casa 1, gritando

 

 

Por que você não olha por onde anda? 

Dona de casa 2, respondendo impaciente

 

 

Calma, senhoras, vamos nos ouvir. Não precisa gritar. 

Feirante, com voz mansa

 

 

Ué? E o feirante não grita? 

Dona de casa 2, surpresa

 

 

É... A vida às vezes parece uma feira, gritamos, esperneamos... Mas, na paz a gente se entende! 

Feirante, filosofando

 

 

“Felizes os que promovem a paz”. Participe da Campanha da Fraternidade Ecumênica. CONIC: construindo a paz e a Solidariedade.

Locutor

Música de assinatura 

 

 

 

 

Spots de Rádio CF-2005: Spot 2 - Deus é um só

CD Spots de Rádio CF-2005, Faixa 2 - 30 segundos

Jô, que tal um cineminha hoje à noite? 

Carlos

Som ambiente de escritório 

 

Ih, Carlos, hoje é o dia em que vou ajudar no albergue... por que você não vem comigo... pra conhecer? 

Joana

 

 

Até que teria vontade, mas... 

Carlos

 

 

Mas o quê? 

Joana

 

 

É que eu não sou da mesma igreja que você... 

Carlos

 

 

E daí? Lá no albergue vai gente de tudo quanto é igreja. E o mais bonito é que trabalhamos juntos! 

Joana

 

 

Mesmo? 

Carlos

 

 

Deus é um só, Carlos... E nos ama a todos! 

Joana

 

 

Participe você também da campanha da fraternidade ecumênica. CONIC. “Felizes os que promovem a paz”

 

Música de assinatura 

 

 

 

 

Spots de Rádio CF-2005: Spot 3 - Imagine

CD Spots de Rádio CF-2005, Faixa 3 - 30 segundos

 

Uma base instrumental forte (com emoção) e as pessoas falando as estrofes com peso e sentimento, com um ‘delay’ nas vozes fazendo uma viagem sobre a base. Essa letra é parte de uma tradução livre da música “Imagine”, de John Lennon e poderia ser usado o instrumental da própria música.

Imagine todas as pessoas vivendo apenas o hoje, e sobre nós apenas o céu.

Locutor

 

 

Imagine que não há nenhum país, por quem matar ou morrer. E todas as pessoas vivendo a vida em paz...

Locutora

 

 

Você, pode dizer que eu sou um sonhador. Mas eu não sou o único! E espero que um dia você se junte a nós. E o mundo poderá viver unido.

Locutor

 

 

Imagine nenhuma propriedade, num mundo sem ganância e sem fome... Imagine todas as pessoas compartilhando o mundo todo.

Locutora

 

 

Imagine!

Locutor

 

 

Imagine!

Locutora

 

 

Imagine!

Criança

 

 

Felizes os que promovem a paz. Participe você também da campanha da fraternidade ecumênica. CONIC. Por um mundo sem fronteiras onde a solidariedade e a paz possam reinar.

Locutor padrão

Música de assinatura 

 

 

 

 

Spots de Rádio CF-2005: Spot 4 - Um Minuto

CD Spots de Rádio CF-2005, Faixa 4 - 30 segundos

 

Barulho do mar, gaivotas etc.

Imagine que você está num grande barco (tom de suspense). De repente você percebe que há um buraco no casco, (som de água entrando) não onde você está sentado, mas lá bem do outro lado...

Homem 1

 

 

E daí, cara, que diferença faz de que lado está o furo? Se a água está entrando no barco, o perigo é geral. Ou se tampa o buraco, ou o barco afunda...

Homem 2, nervoso

 

 

 

Som forte de uma onda que bate. Fusão para fundo musical mais tranqüilo.

A vida é desse jeito, sabia? Quando fica perigosa para uns, fica perigosa pra todo mundo. E aí, meu caro, só há uma solução inteligente...

Homem 1

 

 

Certo! O jeito é todos cuidarem de todos. Aí acaba o perigo.

Homem 2

 

 

Se você também já descobriu que só a solidariedade constrói a segurança e a paz, venha participar da Campanha da Fraternidade Ecumênica. Felizes os que promovem a paz porque cuidando de outros estarão garantindo um mundo melhor e mais seguro para todos. CONIC.

 

Música de assinatura

 

 

 

 

Spots de Rádio CF-2005: Spot 5 - Um Minuto

CD Spots de Rádio CF-2005, Faixa 5 - 30 segundos

 

Som de cuíca (samba) retratando a esperança e o brio brasileiro. Para cada pessoa entrevistada muda o som ambiente.

Paz e solidariedade, marcas de um povo que dia-a-dia busca transformar o sonho de muitos em realidade:

Homem idoso

 

 

 

Segue cuíca. Som ambiente de rua.

Meu nome é Maria e é claro que eu espero por dias melhores para o nosso país. Eu quero solidariedade!

Maria

 

 

 

Segue cuíca. Som ambiente de restaurante.

Tenho 22 anos, me chamo Lucas e acredito no nosso povo. É possível sim sermos solidários uns com os outros e construir um mundo seguro e feliz...

Lucas

 

 

 

Toque da cuíca. Som ambiente de parque.

Eu sou Mateus e tenho 7 anos. Meu futuro?!?! ... Meu futuro depende de vocês agora... Eu quero paz!

Mateus

 

 

Solidariedade

Maria

 

 

Paz e justiça!

Lucas

 

 

Paz! Paz!

Mateus

 

 

Esta é a força de um povo acreditando na solidariedade e fazendo acontecer a paz. Campanha da fraternidade ecumênica. CONIC. Pela solidariedade e paz!

Homem idoso

 

 

 

  

 

CRONOGRAMA

 

 

 

Cronograma da elaboração da Dissertação:

 

- Fevereiro de 2003: entrega do Projeto da Universidade Tuiuti

 

- Maio de 2003: reelaboração do Projeto (Profª Lucrecia D’Alessio Ferrara)

 

- Agosto de 2003: discussão do Projeto e Orientação; continuação da pesquisa (Orientação da Prof.ª Dra. Tieko Yamaguchi Miyazaki)

 

- Outubro de 2003: apresentação de parte da dissertação.

 

- 1º de abril de 2004: apresentação do Resumo no Seminário de Pesquisa

 

- 10 de abril de 2004: Mudança da Orientadora: Profª. Dra. Claudia Irene de Quadros

 

- 2004, julho: apresentação de mais alguns capítulos da dissertação.

 

- 2005, janeiro: finalização da redação.

 

- 1º de março de 2005: Banca de Qualificação.

 

- Abril: nova estrutura da Dissertação, em menos capítulos.

 

- Agosto de 2005: descrição das mídias práticas que veiculam o estilo radionovela.

 

- Setembro de 2005: apresentação da versão final para a Orientadora.

 

- Outubro de 2005: incorporação das correções sugeridas.

 

- 9 de Novembro de 2005: Defesa da dissertação perante a Banca-Examinadora

 

- Fevereiro de 2006: entrega da dissertação na biblioteca da Tuiuti, encadernada em capa-dura

 

 

 

BANCA-EXAMINADORA - UTP, 9 de novembro de 2005

 

- Profª. Dra. Cláudia Irene de Quadros - UTP (Presidente)

 

- Profª. Dra. Kati Eliana Caetano - UTP (Titular)

 

- Profª. Dra. Maria Lucia Becker - UFPR (Titular)

 

 

 

 

 

IDENTIFICAÇÃO do MESTRANDO

 

Lourenço Mika

 

www.maikol.com.br

 

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( 41 ) 3359-9653

( 41 ) 99189- 9595

 

Curitiba-PR

 

 

 

UNIVERSIDADE TUIUTI DO PARANÁ

 

 

 

Lourenço Mika

 

  

 

RADIONOVELA, SEMPRE PRESENTE

 

 

 

Curitiba-PR

 

2005

 

 

 



[1] PIGNATARI, Décio. Apontamentos de aula do Mestrado em Comunicação e Linguagens na Tuiuti na disciplina Tendências Teóricas da Comunicação, 2003.

[2] BIERNASKI, Ladislau. Apontamentos de aula na disciplina Psicologia Evolutiva no curso de Filosofia. Araucária-PR, 1976.

[3] Iates - Rua Augusto Severo, 50 - Alto da Glória - Curitiba-PR; palestras: outubro de 2004

 

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